0062/2026 - Desafios da maternidade em tempos de Covid-19: trabalho, condições emocionais e filhos Challenges of motherhood during COVID-19: work, emotional conditions and children
A pandemia de Covid-19 ampliou a desigualdade de gênero no Brasil. Os efeitos na vida laboral e doméstica das mulheres foram dramáticos, levando a desafios ainda não esclarecidos, sobretudo para as mães de filhos menores de 18 anos. Este artigo teve como objetivo verificar a associação entre a percepção dessas mulheres em lidar com a maternidade e fatores sociodemográficos, situações do mundo do trabalho, condições emocionais e mudanças no comportamento e desenvolvimento dos filhos, durante a pandemia de Covid-19. Foi realizado um estudo quantitativo transversal, através de questionário online, com 28.625 mulheres mães de todo Brasil. Houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade entre mulheres brancas, com maior renda e maior escolaridade. Os fatores que tiveram maior impacto no aumento dessa prevalência foram o aumento da carga de trabalho doméstico, a mudança no comportamento dos filhos, a diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças e ter filhos menores de 6 anos. Por outro lado, a melhora ou a manutenção na condição emocional das mulheres, bem como o avanço no desenvolvimento dos filhos, diminuíram a prevalência de dificuldade.
Palavras-chave:
Covid-19. Relações Mãe-Filho. Gênero. Trabalho.
Abstract:
The COVID-19 pandemic has exacerbated gender inequality in Brazil. The effects on women's work and domestic lives have been dramatic, leading to challenges not yet clarified, especially for mothers of children under the age of 18. This article aimed to verify the association between these women's perception of dealing with motherhood and sociodemographic factors, work situation, emotional conditions, and changes in the behavior and development of their children during the pandemic. A cross-sectional quantitative study was carried out, and an online questionnaire was applied to 28,625 mothers from all over Brazil. There was a higher prevalence of difficulty in dealing with motherhood among white women, with greater income and higher education. The factors that had the greatest impact on the increased prevalence of difficulty were the rise in the domestic workload, changes in children's behavior, reduced social interaction between children and other kids, and having children under the age of 6. On the other hand, the improvement or maintenance of women's emotional condition, as well as the advancement in their children's development, decreased the perception of difficulty in dealing with maternity.
Keywords:
COVID-19. Mother-Child Relations. Gender. Work.
Conteúdo:
Introdução
O mês de abril de 2021 foi o mais letal da pandemia de Covid-19 no Brasil, batendo o recorde de 4.249 mortes no dia 8, e atingindo a marca de 400 mil óbitos pela doença1. O coronavírus ainda avançava rápida e intensamente pelo país, a vacinação contra a Covid-19 seguia restrita à população de risco e, consequentemente, grande parte das escolas, universidades e empresas não haviam retornado às atividades presenciais. Naquele momento, a política de distanciamento social, a sobrecarga dos sistemas de saúde e a intensificação da crise econômica já anunciavam efeitos adversos em múltiplos aspectos da vida social e na saúde mental das pessoas2,3.
Contudo, esses efeitos não se distribuíram de modo homogêneo. No Brasil e no mundo, grupos sociais distintos foram afetados diferentemente, ampliando desigualdades sociais, regionais, raciais e de gênero pré-existentes4-6. Na esteira dessas desigualdades, por serem maioria no mercado de trabalho informal3,7,8 e na área da saúde8,9, as mulheres brasileiras foram mais afetadas pelo desemprego, exerceram trabalhos em condições precarizadas, ficaram mais vulneráveis economicamente e mais expostas à contaminação pela Covid-193,7-9.
Os impactos da pandemia na vida laboral e doméstica das mulheres foram dramáticos7-10, sobretudo para as que eram mães11. O cenário de distanciamento social levou à suspensão de atividades laborais externas não essenciais e ao fechamento de escolas, restringindo a possibilidade de compartilhamento do cuidado dos filhos com outros agentes, como escola, avós, babás e trabalhadoras domésticas11-13. Aliado ao confinamento da família em casa, resultou em grande sobrecarga de trabalho doméstico para as mulheres, aumentando sua vulnerabilidade não só nas questões de saúde física e mental, mas também de violência doméstica11,14,15.
Em inquérito online realizado por Zanello et al.11, no primeiro semestre de 2020, mulheres mães cujos filhos moravam em casa e dependiam de seus cuidados relataram estafa e sobrecarrega com as demandas incrementadas da família, sentindo-se sozinhas, tristes e ansiosas, e, de maneiras diversas, afetadas em suas próprias vidas. Porém, longe de ter sido passageiro ou pontual, esse estado se prolongou pelos anos seguintes da crise sociossanitária, sem relação linear com a evolução das estatísticas da pandemia – casos, internações, óbitos, vacinação8,16-18.
As reverberações sobre as estruturas de desigualdade de gênero se estendem em várias camadas de tempo até o presente, com efeitos diversos sobre a vida das mulheres, que ainda carecem de evidências empíricas. O caráter inédito desta pesquisa consiste em integrar dimensões psicossociais, familiares e laborais em uma mesma análise quantitativa, no contexto histórico singular que foi a pandemia, a fim de contribuir para o conhecimento dos desafios da maternidade sob o ponto de vista das mulheres.
Assim, o objetivo deste artigo foi verificar a associação entre a percepção das mulheres em lidar com a maternidade e fatores sociodemográficos, situações do mundo do trabalho, condições emocionais e mudanças no comportamento e desenvolvimento dos filhos, durante a pandemia de Covid-19.
Aspectos Metodológicos
Foi realizado um estudo quantitativo transversal, que utilizou dados fornecidos pelo grupo “Pró-cura da subjetividade: o sujeito na cultura”, cuja pesquisa “Impactos psíquicos da pandemia de Covid-19 em mulheres mães de crianças e adolescentes e em seus filhos” trabalhou com uma abordagem mista, combinando métodos de pesquisa quantitativos e qualitativos, para investigar e analisar as experiências vividas e os processos psíquicos de mulheres mães e de seus filhos, durante a pandemia de Covid-19 no Brasil.
A pesquisa teve início com a construção de questionário online, com a ferramenta Google Forms, direcionado a mulheres mães de filhos menores de 18 anos e difundido nas redes sociais das pesquisadoras, moradoras da cidade do Rio de Janeiro. O período para preenchimento foi de seis de abril a seis de maio de 2021, contemplando dados sociodemográficos e várias dimensões do cotidiano das mulheres na situação de pandemia, como trabalho doméstico e cuidado com os filhos, convivência familiar e social, trabalho profissional, percepções sobre sua condição emocional e a de seus filhos. Após a exclusão das respostas duplicadas, das mulheres que em algum momento indicaram não ter filhos (o que aparecia no campo “outros”), das que não preencheram todos os campos do formulário, e das que não confirmaram o aceite do TCLE, consolidou-se uma amostra de conveniência com 28.625 mulheres.
Para este artigo, o desfecho estudado foi a dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia de Covid-19, a partir da pergunta “Como está sendo lidar com a maternidade durante a pandemia?”. As respostas foram recategorizadas para criar a variável dicotômica “Mais dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia de Covid”, que reuniu as respostas “Está um pouco mais difícil que antes” e “Está muito mais difícil que antes” como “sim”; e as respostas “Está mais fácil do que antes”, “Está igual ao que sempre foi” e “Não está mais difícil que antes” como “não”.
Além dos fatores sociodemográficos e do mundo do trabalho, as variáveis de exposição testadas visaram captar a percepção das mulheres mães sobre si mesmas e os filhos. Logo, na pergunta sobre a presença de sintomas que expressam condições psicoemocionais, buscou-se a autopercepção de ansiedade, tristeza frequente, angústia, insônia e estresse, antes e durante a pandemia. Quanto à mudança no comportamento dos filhos e à necessidade de ajuda profissional de saúde mental para si ou para os filhos, as respostas foram dicotômicas, sim ou não, sem uso de escalas ou laudos. Nas questões sobre a mudança no desenvolvimento e a presença de relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos, foram utilizadas escalas intuitivas: ausência de mudança (não), atraso, avanço ou outra, para a primeira; não houve relacionamento, houve relacionamento como antes, houve mais ou menos relacionamento, para a segunda.
Foi construído um banco de dados no programa Excel 365, que gerou estimativas das frequências absolutas e relativas das variáveis de interesse. As análises estatísticas foram realizadas a partir do software SPSS 22.0 e R, versão 4.3.1, através de análises bivariadas e múltiplas entre as variáveis de exposição e o desfecho, apresentadas como razões de prevalência e respectivos intervalos de confiança de 95%. O modelo de Poisson com variância robusta foi escolhido para avaliar a relação entre as variáveis associadas e o desfecho.
Na busca por compreender que variáveis tiveram maior impacto no aumento da prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia foi utilizado o algoritmo de seleção stepwise (backward), tendo o AIC (Akaike Information Criterion) como critério de ajuste. Para detectar uma possível existência de multicolinearidade e minimizar o risco de sobreajuste, utilizou-se o fator de inflação da variância (VIF, do inglês Variance Inflation Factor). O nível de significância adotado foi 5%.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o CAAE 40912820.6.0000.5269, e foram cumpridos os princípios éticos em conformidade com a Declaração de Helsinque da Associação Médica Mundial19.
Resultados
Mulheres de todos os estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, responderam à pesquisa. Os estados do Sudeste foram os mais representados (65,9%), sendo que São Paulo (29,9%) e Rio de Janeiro (22,1%) formaram juntos mais de metade da amostra (52%). Os estados do Sul representaram 13,2% das mulheres, os do Norte e Nordeste 13,4%, e os do Centro-Oeste 7,5% (dados não tabelados).
A população do estudo foi composta majoritariamente por mulheres brancas (59,1%), com escolaridade igual ou maior que ensino superior completo (73,2%), com pelo menos um filho maior de 6 anos (63,8%) e com renda familiar entre três e dez salários-mínimos (37%), seguidas por aquelas com renda acima de dez salários (26,5%) (Tabela 1).
Das mulheres com rendas mais altas, 80,6% eram brancas, e daquelas com renda mais baixa, 71,6% eram não brancas. A porcentagem de brancas entre as mulheres com ensino superior completo foi de 66,4%, ao passo que entre as com escolaridade mais baixa, 72,1% eram não brancas (dados não tabelados).
Houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade, durante a pandemia, entre mulheres brancas, com renda maior do que dez salários, ensino superior completo e filhos menores de 6 anos. Em contrapartida, mulheres pardas, com renda até três salários-mínimos, menor escolaridade e pelo menos um filho maior de 6 anos relataram menor dificuldade (Tabela 1).
As mulheres mães que reportaram aumento na carga de trabalho doméstico representaram 91,6% da amostra e tiveram maior prevalência de dificuldade quando comparadas às que não reportaram mudança (Tabela 2). Mulheres que exerciam algum tipo de trabalho profissional foram maioria (90,2%), sendo que as que sentiram aumento dessa carga de trabalho e as que foram demitidas na pandemia apresentaram maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade, comparadas às que não exerciam nenhum tipo de trabalho profissional. Aquelas que relataram ter saído do trabalho para cuidar dos filhos também apresentaram maior prevalência do desfecho (Tabela 2).
Mulheres que reportaram presença de sintomas que expressam condições psicoemocionais ou tratamento de saúde mental antes da pandemia relataram mais dificuldade em lidar com a maternidade, especialmente aquelas que sentiram agravo dessas condições ou que alegaram necessidade de ajuda profissional de saúde mental após o início do período pandêmico (Tabela 3).
Houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade entre as mulheres que notaram alguma mudança no comportamento dos filhos durante a pandemia (88,0%), que perceberam atraso em seu desenvolvimento (39,2%), e que sentiram necessidade de iniciar algum tratamento de saúde mental para eles (37,9%), em comparação com as que não reportaram mudança no comportamento ou no desenvolvimento e que não sentiram necessidade de tratamento de saúde mental para os filhos. Foi mais difícil lidar com a maternidade para aquelas que responderam que o relacionamento social dos filhos com outras crianças foi menor ou não ocorreu (Tabela 4).
A prevalência de mudança no comportamento dos filhos, necessidade de ajuda de profissional de saúde mental para si, e aumento da carga de trabalho doméstico e profissional foi maior entre mulheres brancas, com renda familiar entre três e dez salários-mínimos, e ensino superior completo (dados não tabelados).
Segundo o modelo de regressão (Tabela 5), as variáveis que tiveram maior impacto no aumento da prevalência do desfecho - dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia - foram o aumento da carga de trabalho doméstico, a mudança no comportamento dos filhos, a diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos e a presença de filhos menores de 6 anos. Por outro lado, a melhora ou a manutenção na condição emocional das mulheres, bem como o avanço no desenvolvimento dos filhos, diminuíram a prevalência de dificuldade.
Discussão
O perfil demográfico das respondentes ao questionário corresponde ao encontrado por outras pesquisas brasileiras que realizaram coletas de dados de maneira remota11,12,15,20, devido às restrições impostas pela pandemia. A maioria da amostra foi formada por mulheres brancas, mais escolarizadas e com renda familiar elevada, características que, no Brasil, estão associadas ao perfil socialmente mais favorecido21. Entretanto, ainda que tenha se tratado de uma amostra de conveniência, mulheres de todas as regiões do país estiveram representadas no estudo.
O impacto do crescimento da carga de trabalho doméstico no aumento da prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia encontra farto apoio nos registros das repercussões da crise na vida familiar. Diversas pesquisas evidenciaram que a pandemia de Covid-19 revelou e exacerbou as desigualdades de gênero na distribuição do trabalho doméstico e de cuidado com os filhos, acarretando aumento da sobrecarga existente para as mulheres mães, no Brasil e no mundo3,6,11-14,16-18,20,22–28. Adicionalmente, esse tipo de trabalho foi redobrado pelas recomendações de higienização, limpeza de objetos, alimentos e superfícies, e pela necessidade de cuidado de familiares que antes podiam ter mais autonomia, como idosos, pessoas com deficiência e, eventualmente, pessoas com diagnóstico de Covid-194,11,29.
O cenário de intensificação da sobrecarga de trabalhos domésticos e de cuidado com os filhos teve consequências particulares nas mulheres que conjuntamente exerceram atividades profissionais remuneradas11,17,18,30, tal como 90,2% da nossa amostra (Tabela 2). Embora, no modelo proposto, o crescimento da carga de trabalho profissional não tenha constado entre as variáveis que tiveram maior impacto no desfecho (Tabela 5), os estudos mostraram que a impossibilidade de estabelecimento de uma rotina e o compartilhamento de um único espaço para as várias esferas da vida foram fatores estressores adicionais para as mulheres que exerceram o trabalho profissional de forma remota, no ambiente doméstico17,20,30,31.
Chama atenção que os relatos de maior dificuldade em lidar com a maternidade e de aumento da carga de trabalho doméstico foram mais prevalentes entre mulheres brancas e com maior escolaridade. De imediato, esses dados podem causar estranhamento, uma vez que as pessoas mais vulnerabilizadas, representadas no Brasil pela população não branca e de menor escolaridade, vivenciaram de forma mais expressiva os efeitos da crise sanitária, política e humanitária decorrente da pandemia32,33. Além disso, há estreita associação entre condições de vida – vulnerabilidade estrutural de uma sociedade - e sofrimento social34, que dificulta as relações afetivas de uma forma geral, especialmente o exercício da maternidade, tão demandante para a mulher.
No entanto, pode nos ajudar a interpretar esses resultados considerar que as pessoas das classes sociais mais favorecidas vivenciaram uma situação de perda radical das redes formais de apoio – trabalho doméstico remunerado, escolas, creches privadas, historicamente bem consolidadas, exclusivamente, para estas classes35. O esfacelamento das redes de apoio maternas foi uma realidade durante a pandemia11,17,23, mas certamente ocorreu de formas distintas para as diferentes classes. As mulheres mães de classe média sofreram um sentimento de desamparo raramente experimentado, ao passo que mulheres menos abastadas vivem dificuldades expressivas em seus cotidianos que, no limite, chegam ao risco de morte devido às violências a que estão submetidas36.
Ao mesmo tempo, em nossa pesquisa, entre as mulheres que fizeram o trabalho profissional em casa, 63,5% eram brancas, 39,4% tinham renda familiar entre três e dez salários mínimos, 34.5% acima de dez, e 82,2% tinham ensino superior completo (dados não tabelados). Na medida em que o trabalho remoto se tornou realidade apenas para a parcela mais privilegiada da população37, às mulheres das classes mais favorecidas foram permitidos acesso e manutenção de renda, o que reforçou as iniquidades brasileiras. Por outro lado, adicionou para elas a sobrecarga do trabalho profissional realizado em casa e, por isso, muitas vezes indivisível do trabalho doméstico.
Evidentemente, não queremos dizer que as classes desfavorecidas foram menos impactadas pela pandemia, tampouco que são mais resistentes ao sofrimento, falácia discriminatória produtora de mais opressões. Ao contrário, não há dúvida de que a crise ampliou desigualdades, atingindo particularmente as mulheres pobres5-8. Todavia, a experiência de precariedade não é uma novidade para estas pessoas, fazendo talvez com que a vivência da maternidade nesse período não tenha representado um estado de exceção como representou para a classe média.
Ademais, foi reduzida a participação de mulheres negras e de classes populares, tanto nesta quanto em outras pesquisas realizadas em ambientes virtuais. Cumpre reconhecer que a possibilidade de enunciar algo sobre si pressupõe a existência de uma comunidade de escuta capaz de conferir legitimidade à experiência de quem fala. Assim, afora as desigualdades materiais — cor, renda e acesso digital — tal dado provavelmente reflete as barreiras enfrentadas por essas mulheres para romper com a matriz de dominação que articula, hierarquicamente, raça, classe e gênero, restringindo a consideração atribuída aos seus discursos e opiniões38,39.
A mudança de comportamento dos filhos também teve impacto no aumento da prevalência de dificuldade de lidar com a maternidade durante a pandemia. De modo igual, a piora de sintomas que expressam condições psicoemocionais e a necessidade ou procura por ajuda profissional de saúde mental, tanto das mães quanto dos filhos, aumentaram a prevalência do desfecho. No sentido oposto, porém, a melhora ou a manutenção de sintomas que expressam condições psicoemocionais das mães diminuíram sua prevalência.
No curso da pandemia, as mudanças no comportamento de crianças e adolescentes mais citadas na literatura foram medo, ansiedade, estresse, desânimo, tristeza, preocupação, raiva, inquietude, insônia, sentimentos de desamparo e sofrimento, dependência excessiva dos pais, comportamentos agressivos e desrespeitosos40–43. Os fatores estressantes incluíram perda ou diminuição do contato social com outras crianças, familiares, professores e ambiente escolar; dificuldades financeiras enfrentadas pelos familiares; medo da doença, presença de enfermidades, hospitalização e morte de pessoas próximas; tédio; uso prolongado de telas; falta de espaço pessoal; restrição de atividades físicas e de lazer ao ar livre; e deterioração da saúde mental dos pais e cuidadores41–46.
Estudos realizados antes e durante a pandemia já haviam associado a presença de mudanças negativas no afeto e no comportamento dos filhos ao sofrimento mental das mães47,48 e ao estresse parental49,50, mostrando que o comportamento dos filhos afeta as mães, tal como o comportamento das mães afeta os filhos. Contudo, ainda que seja uma via de mão dupla, no real da vida, esta relação está longe de ser uma linha reta bidirecional. Cada mãe exerce a maternidade de uma maneira, e esse exercício se modifica no tempo-espaço da cultura e da história singular da mãe e do filho51.
Sendo um fenômeno complexo em que interagem elementos psíquicos e sociais e que reflete as relações afetivas e vinculares que atravessam não só o binômio mãe e filho, mas toda a família em dado contexto51, a maternidade exercida na pandemia tornou ainda mais difícil qualquer interpretação de causa e efeito. Aliás, quando o tema é relacionamento, essa já é uma busca infindável, sobretudo na relação mãe-filho. No período pandêmico, a exacerbação do convívio familiar e as inúmeras demandas direcionadas às mulheres mães na árdua tarefa de conciliar maternidade, trabalho doméstico e profissional, seguramente produziram subjetividades e efeitos psíquicos igualmente únicos.
Logo, ainda que este estudo tenha verificado a associação entre a mudança no comportamento dos filhos, a piora de sintomas que expressam condições psicoemocionais das mães e o aumento da prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia, provavelmente são complexos os caminhos pelos quais os efeitos da pandemia sobre as mães interagiram com os efeitos da pandemia sobre o comportamento dos filhos, gerando ou exacerbando a dificuldade em lidar com a maternidade.
A diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos foi outra variável que aumentou significativamente a prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade. Estudos realizados antes e durante a pandemia apontaram que a redução das interações sociais com colegas e amigos pode causar problemas duradouros na saúde mental de crianças e adolescentes40,43,45. A socialização com pares, sejam primos, vizinhos, colegas da escola ou outras crianças do círculo social, é fundamental para favorecer aprendizados importantes para o desenvolvimento humano, como cooperação, compartilhamento de decisões, convivência com as diferenças e controle dos impulsos52,53. Inclusive, como mencionado anteriormente, a perda ou diminuição da interação social com outras crianças foi um fator estressor também associado à mudança no comportamento dos filhos e, portanto, envolvido nas relações afetivas e vinculares que aumentaram a percepção de dificuldade em lidar com a maternidade.
De fato, era previsto que a presença de filhos menores de 6 anos de idade tivesse maior impacto sobre o desfecho. Habitualmente, crianças dessa faixa etária demandam maior gasto energético e psíquico de seus cuidadores, pela fase do desenvolvimento cognitivo e motor em que se encontram53. Somado a isso, as medidas de distanciamento social e restrição de circulação levaram à perda de muitos mecanismos tradicionais de suporte social das mães desse grupo, não só no compartilhamento do cuidado com creches, escolas, familiares ou pessoas contratadas11–13,54, como na possibilidade de receber a visita de familiares e amigos, ou de socializar com outros pais e cuidadores, nos espaços públicos17.
As pesquisas ressaltaram que, durante a pandemia, níveis mais elevados de esgotamento parental estiveram associados a ter filhos menores e ser mãe (e não pai)55, e que houve aumento das taxas de prevalência de sintomas de depressão e ansiedade em mães de crianças pequenas (menores de 5 anos), em relação às estimativas pré-pandêmicas17,56. Concomitantemente, essas mães sofreram mais com a diminuição do tempo para cuidado de si13,54, as dificuldades em atender às demandas do trabalho profissional17,20,56, o medo do desemprego e a diminuição dos rendimentos financeiros17,54.
Conclusão
A pandemia de Covid-19 teve um impacto desproporcional sobre as mulheres, escancarando a desigualdade de gênero como uma crise social, econômica, política e de saúde em curso nas Américas8. A revisão da literatura mostrou que de múltiplas formas a sobrecarga com o trabalho doméstico e de cuidado dos filhos, o esfacelamento da rede de suporte social, os obstáculos extras para lidar com o conflito trabalho-família, o medo do desemprego, a perda de renda, e os demais efeitos das medidas de contenção da pandemia sobre a saúde física e mental de mães e filhos, repercutiram sobre a vivência da maternidade naquela conjuntura.
Artigos nacionais e internacionais exploraram essa temática sob a ótica do estresse parental, do sofrimento mental, e das condições de trabalho e cuidado de mulheres mães. O escopo deste artigo foi ao encontro desses estudos, ao partir do ponto de vista das mulheres, trazendo como inovações o tamanho expressivo da amostra e o uso de metodologia quantitativa para verificar a associação entre fatores sociodemográficos, situações do mundo do trabalho, condições emocionais e mudanças no comportamento e desenvolvimento dos filhos e a percepção de dificuldade em lidar com a maternidade durante a maior crise sociossanitária da atualidade.
Os resultados indicaram que houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia entre mulheres brancas, com renda maior do que dez salários, ensino superior completo e filhos menores de 6 anos. Os fatores que tiveram maior impacto no aumento da prevalência dessa dificuldade foram o aumento da carga de trabalho doméstico, a mudança no comportamento dos filhos, a diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos e a presença de filhos menores de 6 anos. Por outro lado, a melhora ou manutenção na condição emocional das mulheres, bem como o avanço no desenvolvimento dos filhos, diminuíram a prevalência de dificuldade.
O heterocentramento do “dispositivo materno”, presente não apenas na relação entre mãe e filho, mas em todas as relações sociais das quais as mulheres participam11, e a pesada e desigual responsabilidade pelo trabalho de cuidado na nossa sociedade, contribuem para o aprofundamento da desigualdade de gênero e certamente tiveram influência nos resultados apresentados. Embora não seja possível generalizá-los para a população geral, os dados desta pesquisa avançam na construção do conhecimento sobre os desafios enfrentados pelas mulheres mães durante a pandemia de Covid-19, ainda não totalmente compreendidos. Há muito a ser detalhado sobre as repercussões desse período em relação às desigualdades de gênero, assim como de raça, escolaridade e classe social, para a superação de futuras crises políticas, ambientais, sanitárias e sociais que espreitam no horizonte.
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Outros idiomas:
Challenges of motherhood during COVID-19: work, emotional conditions and children
Resumo (abstract):
The COVID-19 pandemic has exacerbated gender inequality in Brazil. The effects on women's work and domestic lives have been dramatic, leading to challenges not yet clarified, especially for mothers of children under the age of 18. This article aimed to verify the association between these women's perception of dealing with motherhood and sociodemographic factors, work situation, emotional conditions, and changes in the behavior and development of their children during the pandemic. A cross-sectional quantitative study was carried out, and an online questionnaire was applied to 28,625 mothers from all over Brazil. There was a higher prevalence of difficulty in dealing with motherhood among white women, with greater income and higher education. The factors that had the greatest impact on the increased prevalence of difficulty were the rise in the domestic workload, changes in children's behavior, reduced social interaction between children and other kids, and having children under the age of 6. On the other hand, the improvement or maintenance of women's emotional condition, as well as the advancement in their children's development, decreased the perception of difficulty in dealing with maternity.
Desafios da maternidade em tempos de Covid-19: trabalho, condições emocionais e filhos
Motherhood challenges during the Covid-19 pandemic: work, emotional well-being and children
Desafíos de la maternidad en tiempos de Covid-19: trabajo, condiciones emocionales e hijos
Autoras:
Thaís Sayuri Yamamoto – tsyamamoto@gmail.com – ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1816-2898
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Departamento de Medicina Integral, Familiar e Comunitária (DMIFC) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Vania de Matos Fonseca – Fonseca, V.M. – vaniamf36@hotmail.com - ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5452-7081
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Claudia Bonan – Bonan, C. – bonanclaudia@gmail.com – ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8695-6828
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Andreza Pereira Rodrigues – Rodrigues, A.P. – andrezaenfermeira@gmail.com - ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1873-5828
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Ana Carolina Carioca da Costa – Costa, A.C.C. – carolcarioca@gmail.com – ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9456-3319
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Paula Gaudenzi – Gaudenzi, P. – paula.gaudenzi@gmail.com – ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4039-1088
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF) – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
RESUMO
A pandemia de Covid-19 ampliou a desigualdade de gênero no Brasil. Os efeitos na vida laboral e doméstica das mulheres foram dramáticos, levando a desafios ainda não esclarecidos, sobretudo para as mães de filhos menores de 18 anos. Este artigo teve como objetivo verificar a associação entre a percepção dessas mulheres em lidar com a maternidade e fatores sociodemográficos, situações do mundo do trabalho, condições emocionais e mudanças no comportamento e desenvolvimento dos filhos, durante a pandemia de Covid-19. Foi realizado um estudo quantitativo transversal, através de questionário online, com 28.625 mulheres mães de todo Brasil. Houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade entre mulheres brancas, com maior renda e maior escolaridade. Os fatores que tiveram maior impacto no aumento dessa prevalência foram o aumento da carga de trabalho doméstico, a mudança no comportamento dos filhos, a diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças e ter filhos menores de 6 anos. Por outro lado, a melhora ou a manutenção na condição emocional das mulheres, bem como o avanço no desenvolvimento dos filhos, diminuíram a prevalência de dificuldade.
Palavras-chave: Covid-19. Relações Mãe-Filho. Gênero. Trabalho.
ABSTRACT
The COVID-19 pandemic exacerbated gender inequality in Brazil, with dramatic effects on women\'s work and domestic lives, leading to challenges that have yet to be fully understood, especially among mothers of children aged under 18. The aim of this study was to examine the association between these women\'s perceptions of coping with motherhood and sociodemographic and work-related factors, emotional well-being and changes in the behavior and development of their children during the pandemic. We conducted a cross-sectional quantitative study using an online questionnaire responded by 28,625 mothers from all over Brazil. Prevalence of difficulty coping with motherhood was higher among white women with higher income and a higher level of education. The factors that had the greatest impact on increased prevalence of difficulty were increased housework, changes in child behavior, low level of social interaction between children and peers and having children aged under six. In contrast, improvement in or maintenance of maternal emotional well-being and advanced child development had an influence on decreased prevalence of difficulty in coping with motherhood.
Keywords: Covid-19. Mother-child relations. Gender. Work.
RESUMEN
La pandemia de Covid-19 ha intensificado la desigualdad de género en Brasil. Sus efectos en la vida laboral y doméstica de las mujeres fueron dramáticos, generando desafíos aún no comprendidos, especialmente en las madres de niños menores de 18 años. Este artículo tiene como objetivo verificar la asociación entre la percepción de estas mujeres sobre el desempeño de la maternidad y condiciones sociodemográficas, situaciones en el mundo laboral, estado emocional y cambios en el comportamiento y desarrollo de sus hijos durante la pandemia. Para ello, se realizó un estudio cuantitativo transversal, mediante un cuestionario en línea, en el que participaron 28.625 madres de todo Brasil. Los resultados mostraron una mayor prevalencia de dificultad para ejercer la maternidad entre las mujeres blancas, con mayores ingresos y educación superior. Los factores que más incidieron en el aumento de esta prevalencia fueron el incremiento de la carga de trabajo doméstico, los cambios en el comportamiento de los niños, la reducción de las interacciones sociales de los niños con otros niños y la presencia de hijos menores de 6 años. En contraste, la mejora o estabilidad en la condición emocional de las mujeres, así como el progreso en el desarrollo de sus hijos, ayudaron a reducir la percepción de dificultad en la maternidad.
Palabras-clave: COVID-19. Relaciones Madre-Hijo. Género. Trabajo.
Introduction
April 2021 was the deadliest month of the Covid-19 pandemic in Brazil, with a record 4,249 deaths, reaching the milestone of 400,000 deaths from the disease on the 8th¹. While the coronavirus continued to spread rapidly across the country, vaccination remained restricted to at-risk populations. Consequently, most schools, universities and businesses had yet to resume in-person activities. At that time, social distancing measures, the strain on healthcare systems and the deepening economic crisis were already having adverse effects on multiple aspects of social life and people’s mental health2,3.
However, these effects were not distributed evenly. In Brazil and around the world, distinct social groups were affected differently, exacerbating pre-existing social, regional, racial and gender inequalities4–6. In the wake of these inequalities, Brazilian women, who form the majority in the informal labor market³,⁷,⁸ and healthcare sector⁸,⁹, were more affected by unemployment and poor working terms and conditions, becoming more economically vulnerable and exposed to Covid-19 infection³,⁷⁻⁹.
The impact of the pandemic on women’s work and domestic lives was dramatic⁷⁻¹⁰, particularly among mothers¹¹. Social distancing measures led to the suspension of non-essential work activities and school closures, limiting mothers’ ability to share childcare with other people and organizations, such as schools, grandparents, nannies and domestic workers¹¹⁻¹³. This, combined with family lockdown, resulted in the overburdening of women at home, heightening their vulnerability not only to physical and mental health problems but also to domestic violence11,14,15.
An online survey conducted by Zanello et al.11 in the first half of 2020 showed that mothers caring for children at home reported feeling exhausted and overwhelmed by increased family demands, lonely, sad and anxious, and experiencing various negative impacts on their own lives. However, far from being temporary or isolated phenomenon, this state persisted throughout the subsequent years of the social and health crisis, with no linear correlation to trends in statistics related to the pandemic, such as cases, hospitalizations, deaths and vaccination rates8,16–18.
The impacts on structures of gender inequality reverberate across various time periods up to the present, with diverse effects on women’s lives that still lack empirical evidence. The novelty of the present study lies in the integration of psychosocial, family and work-related dimensions into a single quantitative analysis considering a unique historical event (the pandemic), contributing to our understanding of the challenges of motherhood from the perspective of women.
The aim of this study was therefore to examine the association between women’s perceptions of coping with motherhood and sociodemographic and work-related factors, emotional well-being and changes in their children’s behavior and development during the Covid-19 pandemic.
Methodology
We conducted a quantitative cross-sectional study using data from the study “Impactos psíquicos da pandemia de Covid-19 em mulheres mães de crianças e adolescentes e em seus filhos” (Psychological impacts of the Covid-19 pandemic on mothers of children and adolescents and their children) conducted by the group “Pró-cura da subjetividade: o sujeito na cultura” (In Search of Subjectivity: the Subject in Culture). This mixed-methods study combining quantitative and qualitative methods investigated lived experiences and psychological impacts among mothers and their children during the Covid-19 pandemic in Brazil.
The study began with the creation of an online questionnaire using Google Forms, targeting mothers with children under the age of 18. The questionnaire was disseminated via the social media used by the researchers, who live in the city of Rio de Janeiro, for completion during the period April 6 to May 6, 2021. The questionnaire was devised to collect information about sociodemographic characteristics and various aspects of the women’s daily lives during the pandemic, such as housework and childcare, family and social interactions, work and perceptions of their emotional state and that of their children. Duplicate responses, women who indicated that they did not have children (in the “other” field), those who did not complete all the fields of the form and those who did not sign the informed consent form were excluded, resulting in a convenience sample of 28,625 women.
The study outcome was difficulty coping with motherhood during the Covid-19 pandemic, based on the responses to the following question: “How has coping with motherhood been during the pandemic?” The responses were recategorized into the variable “Greater difficulty coping with motherhood during the Covid-19 pandemic”, dichotomized as follows: “yes”, for the responses “It is a little harder than before” and “It is much harder than before”; and “no” for the responses “It’s easier than before”, “It’s the same as always” and “It’s no more difficult than before”.
In addition to sociodemographic and work-related factors, the exposure variables tested by this study aimed to capture the mothers’ perceptions of themselves and their children. The question regarding the presence of symptoms of psychological and emotional disorders sought to assess self-reported anxiety, frequent sadness, distress, insomnia and stress before and during the pandemic. Regarding changes in children’s behavior and the need for help from a mental health professional for themselves or their children, responses were dichotomous (yes or no), without the use of scales or ratings. For questions regarding changes in child development and child social interaction with peers other than siblings, the following intuitive scales were used: no change (no), delayed, advanced, or other for the former; and no interaction, same as before, or greater or lesser level of interaction for the latter.
The data were entered into an Excel 365 database, which estimated absolute and relative frequencies for the variables of interest. Statistical analyses were performed using SPSS 22.0 and R version 4.3.1. Bivariate and multivariate analyses were conducted to test the association between the exposure variables and the outcome using prevalence ratios and their respective 95% confidence intervals. Poisson regression with robust variance was used to assess the relationship between the associated variables and the outcome.
To determine which variables had the greatest impact on the increase in the prevalence of difficulty coping with motherhood during the pandemic we used backward stepwise regression with Akaike Information Criterion (AIC) to evaluate fit. The variance inflation factor (VIF) was used to detect multicollinearity and minimize the risk of overfitting. A significance level of 5% was adopted.
The study was approved by the research ethics committee (reference code CAAE 40912820.6.0000.5269) and conducted in accordance with ethical norms and standards set out in the World Medical Association Declaration of Helsinki19.
Results
Women from all Brazil’s states, including the Federal District, completed the survey. The most represented states were in the Southeast (65.9%), with São Paulo (29.9%) and Rio de Janeiro (22.1%) together accounting for more than half of the sample (52%). States in the South accounted for 13.2% of the women, while those in the North and Northeast accounted for 13.4% and those in the Midwest for 7.5% (data not shown).
Most of the women were white (59.1%), had a degree or higher level of education (73.2%) and at least one child aged over 6 (63.8%). Approximately 37% had a household income of between three and ten minimum wages, and 26.5% had an income of more than ten minimum wages (Table 1).
Most of the women in the highest income group (80.6%) were white, while 71.6% of the women with lower incomes were non-white; 66.4% of the women with a degree were white, while 72.1% of those with a lower level of education were non-white (data not shown).
Prevalence of difficulty coping with motherhood during the pandemic was higher among white women, women with an income of more than ten minimum wages, those with a degree and those with children aged under 6. In contrast, prevalence was lower among brown women, those with an income of up to three minimum wages, those with a lower level of education and those at least one child aged over 6 (Table 1).
An overwhelming majority of the mothers (91.6%) reported an increase in housework, and prevalence of difficulty was higher among this group than in women who reported no change (Table 2). Most of the women (90.2%) worked in paid jobs. Among this group, prevalence of difficulty coping with motherhood was higher in those who experienced an increase in workload and those who lost their job during the pandemic than in those who did not have a paid job. Prevalence of difficulty was also higher in women who reported leaving their jobs to care for their children (Table 2).
Difficulty coping with motherhood was more prevalent in women who reported symptoms of psychological and emotional disorders or undergoing mental health treatment prior to the pandemic. This was more pronounced in women who experienced a worsening of these conditions or who reported needing help from a mental health professional after the onset of the pandemic (Table 3).
Prevalence of difficulty coping with motherhood was higher among women who reported a change in their children’s behavior during the pandemic (88.0%) and a delay in their development (39.2%), and in those who felt the need to seek mental health treatment for their children (37.9%), when compared to women who did not report changes in behavior or development and did not feel the need for mental health treatment. Prevalence of difficulty coping with motherhood was higher in women who reported that their children had a lower level of social interaction with other children or no interaction (Table 4).
The prevalence of changes in children’s behavior, women’s need for mental health care, increased housework and increased paid work load was higher among white women with a household income of between three and ten minimum wages and a degree (data not shown).
The results of the regression analysis (Table 5) show that the variables that had the greatest impact on increased prevalence of the outcome (difficulty coping with motherhood during the pandemic) were increased housework, changes in children’s behavior, lower levels of child social interaction with peers other than siblings, and having children aged under 6. In contrast, improvement or maintenance of emotional well-being and advancement in child development reduced the prevalence of difficulty.
Discussion
The demographic profile of the survey respondents is consistent with that found by other studies in Brazil using data collected online¹¹,¹²,¹⁵,²⁰ due to the restrictions imposed by the pandemic. Most of the sample were white women with higher levels of education and household income, which in Brazil are characteristics associated with social advantage²¹. However, despite using a convenience sample, women from all regions of the country were represented in the study.
The influence of increased housework on the increase in prevalence of difficulty coping with motherhood during the pandemic is well supported by reports of the impact of this crisis on family life. Various studies have shown that the Covid-19 pandemic laid bare and exacerbated gender inequalities in the distribution of housework and child care, leading to an increased burden on mothers in Brazil and around the world3,6,11-14,16-18,20,22–28. In addition, the burden of this type of work was compounded by hygiene guidelines, regular cleaning and disinfection of objects, food and surfaces, and the need to care for family members who previously had more independence, such as the elderly, people with disabilities and people diagnosed with Covid-194,11,29.
The consequences of the increasing burden of housework and childcare were more pronounced for women who in paid work¹¹,¹⁷,¹⁸,³⁰, who account for 90.2% of our sample (Table 2). While in the present study increased job workload was not one of the variables with the greatest impact on the outcome (Table 5), previous studies have shown that the inability to establish a routine and sharing a single space for various spheres of life were additional stressors for women working remotely from home17,20,30,31.
It is interesting to note that the prevalence of greater difficulty in coping with motherhood and an increased housework was higher among white women and those with higher levels of education. At first glance, these findings may seem surprising, given that the most vulnerable groups—the non-white population and people with lower levels of education—were most effected by the health, political and humanitarian crisis resulting from the pandemic32,33. Furthermore, there is a close association between living conditions—the structural vulnerability of a society—and social suffering³⁴, which hinders affective relationships in general, especially motherhood, which is demanding for women.
However, it may help us interpret these results to consider that people from more privileged social classes experienced a radical loss of formal support networks—domestic workers, schools and private childcare centers—which have been used historically exclusively by these classes³⁵. The collapse of maternal support networks was a reality during the pandemic11,17,23, but occurred in different ways for distinct classes. Middle-class mothers experienced a rarely felt sense of helplessness, while less affluent women face significant difficulties in their daily lives that, in extreme cases, pose a risk of death due to the violence to which they are subjected36.
Our findings also show that 63.5% of the women working remotely from home were white, 39.4% had a household income of between three and ten minimum wages, 34.5% had an income of more than ten minimum wages and 82.2% had a degree (data not shown). With remote work being a reality only for the most privileged segment of the population37, more advantaged women were able to access and maintain income, reinforcing inequalities in the country. However, the added burden of remote working at home is often inseparable from housework.
This does not mean to suggest that disadvantaged groups were less affected by the pandemic, nor that they are more resilient to suffering, which is a discriminatory fallacy that leads to further oppression. On the contrary, there is no doubt that the crisis exacerbated inequalities, disproportionately affecting poor women5-8. However, hardship is nothing new for these individuals, meaning that the experience of motherhood during this period was perhaps not as exceptional as it was for middle class women.
The proportion of Black women and women with lower socioeconomic status was low in this study and in other online surveys. It is important to highlight that the ability to say something about oneself requires the existence of a listening community that is capable of lending legitimacy to the speaker’s experience. Thus, in addition to material inequalities—race, income and digital access—this finding likely highlights the barriers these women face in breaking free from the matrix of domination in which race, class and gender are hierarchically intertwined, limiting the consideration given to their discourses and opinions38,39.
Changes in children’s behavior also contributed to increased prevalence of difficulty coping with motherhood during the pandemic. Similarly, worsening of symptoms of psychological and emotional disorders and needing or seeking help from a mental health professional—for both mothers and children—contributed to increased prevalence of the outcome. Conversely, improved or stable symptoms of psychological and emotional disorders in mothers contributed to a reduction in prevalence.
The most common behavioral changes in children and adolescents during the pandemic cited in the literature were fear, anxiety, stress, low spirits, sadness, worry, anger, restlessness, insomnia, feelings of helplessness and distress, excessive dependence on parents and aggressive and disrespectful behaviors40–43. Stressors included loss or reduction of social interaction with other children, family members, teachers and the school environment; financial difficulties faced by family members; fear of the disease, illness and hospitalization and death of loved ones; boredom; prolonged screen time; lack of personal space; restrictions on physical and outdoor leisure activities; and deterioration in parents’ and caregivers’ mental health41–46.
Studies conducted before and during the pandemic linked negative changes in children’s affective functioning and behavior to maternal mental distress47,48 and parental stress49,50, showing that children’s behavior affects mothers and vice versa. However, while two-way, in real life this relationship is far from being a straight bidirectional line. Each mother approaches motherhood in her own way, and this approach changes within the time and space of the unique culture and history of a mother and child51.
As a complex phenomenon in which psychological and social factors interact and which reflects the emotional bonding relationships that are played out not only in the mother-child dyad but across the entire family within a given context51, motherhood during the pandemic has made any interpretation of cause and effect even more difficult. Indeed, the investigation into relationships is already an endless quest, especially when it comes to mother-child relationships. During the pandemic, the intensification of family life and the countless demands placed on mothers in relation to the arduous task of balancing motherhood, housework and work undoubtedly produced equally unique subjective experiences and psychological effects.
Thus, although this study found an association between changes in children’s behavior, worsening symptoms of psychological and emotional disorders in mothers and increased prevalence of difficulty coping with motherhood during the pandemic, the pathways through which the pandemic’s effects on mothers interacted with its effects on children’s behavior—giving rise to or exacerbating difficulties—are complex.
The decrease in the level of children’s social interaction with peers other than their siblings was another factor that significantly increased prevalence of difficulty in coping with motherhood. Studies conducted before and during the pandemic have shown that reduced levels of social interaction with peers and friends can cause long-lasting mental health problems in children and adolescents40,43,45. Interaction with peers—whether cousins, neighbors, schoolmates or other children in their social circle—is essential for fostering important human development skills, such as cooperation, shared decision-making, accepting differences and impulse control52,53. As mentioned above, the loss or reduction of social interaction with other children was also associated with changes in children’s behavior and is therefore involved in emotional bonding relationships that heightened the perception of difficulty in coping with motherhood.
Indeed, it might be expected that having children aged under 6 would have a greater impact on the outcome. Children in this age group generally demand greater physical and mental effort from their caregivers because of the stage of cognitive and motor development they are in53. In addition, social distancing measures and lockdown led to the loss of many traditional sources of social support for mothers in this group. These include not only sharing childcare with daycare centers, schools, family members or hired caregivers¹¹⁻¹³,⁵⁴, but also being able to receive visits from family and friends or to socialize with other parents and caregivers in public spaces17.
Studies have shown that higher levels of parental burnout during the pandemic were associated with having younger children and being a mother (rather than a father)55. They also reveal that there was an increase in the prevalence symptoms of depression and anxiety among mothers of young children (aged under 5) in comparison with pre-pandemic estimates17,56. At the same time, these mothers suffered more from having less time for self-care13,54, difficulties in meeting work demands17,20,56, fear of unemployment and reduced financial income17,56.
Conclusion
The Covid-19 pandemic had a disproportionate impact on women, underscoring that gender inequality is an ongoing social, economic, political and health crisis in the Americas8. The literature review showed that the burden of housework and childcare, the collapse of social support networks, additional obstacles to balancing work and family, the fear of unemployment, loss of income and other effects of containment measures on the physical and mental health of mothers and children impacted in multiple ways on the experience of motherhood during the pandemic.
National and international studies have explored this topic, focusing on parental stress, mental distress and maternal working and caregiving conditions. The scope of this article is in line with these studies, focusing on the female perspective and introducing innovations such as the large sample size and the use of quantitative methodology to examine the association between sociodemographic and work-related factors, emotional well-being, changes in children’s behavior and development and perceptions of difficulty in coping with motherhood during the largest social and health crisis in recent time.
The results show that prevalence of difficulty coping with motherhood during the pandemic was higher among white women with an income exceeding ten minimum wages, a degree and children aged under 6. The factors that had the greatest impact on the increased prevalence of this difficulty were increased housework, changes in children’s behavior, lower level of child social interaction with peers other than siblings and having children aged under 6. In contrast, improvement in or maintenance of maternal emotional well-being and advancement in child development reduced prevalence.
The heterocentrism of the “maternity apparatus”—present not only in the mother-child relationship but in all social relationships in which women participate11—and the heavy and unequal burden of caregiving in our society contribute to the deepening of gender inequality and have certainly influenced the results presented. While these findings should not be generalized to the overall population, the data from this study contribute to building knowledge about the challenges faced by mothers during the Covid-19 pandemic, which have yet to be fully understood. Much remains to be explored regarding the repercussions of this period in relation to inequalities of gender, race, education and social class in order to effectively respond to future political, environmental, health and social crises looming on the horizon.
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Como
Citar
Yamamoto, TS, Fonseca, VM, Bonan, C, Rodrigues, AP, Costa, ACC, Gaudenzi, P. Desafios da maternidade em tempos de Covid-19: trabalho, condições emocionais e filhos. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/mar). [Citado em 22/05/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/desafios-da-maternidade-em-tempos-de-covid19-trabalho-condicoes-emocionais-e-filhos/19960