0056/2026 - TRAJETÓRIA DAS ATRIBUIÇÕES DO NUTRICIONISTA NO PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR TRAJECTORY OF NUTRICIONIST’S RESPONSIBILITIES IN THE NATIONAL SCHOOL FEEDING PROGRAM
O nutricionista atua como principal articulador do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e, desde sua inserção como responsável técnico, teve ampliadas as demandas de atuação. Este estudo analisou as atribuições desse profissional no PNAE, descritas em documentos oficiais, considerando as dimensões de gestão, técnica e de articulação da prática profissional entre 2006 e 2020. Trata-se de uma análise documental baseada em referenciais de políticas públicas e nos parâmetros legais que orientam sua atuação. Constatou-se que, ao longo do período, as normativas consolidaram sua posição como agente central e ampliaram o escopo e a especificidade das responsabilidades. Funções técnicas passaram a exigir competências de gestão e articulação, como compras da agricultura familiar, capacitação de merendeiras, visitas técnicas, implantação de manuais de boas práticas e elaboração do Plano Anual de Trabalho. Embora não previstas formalmente nas normativas do PNAE, essas ações são orientadas pelo Conselho Federal de Nutricionistas, gerando desafios operacionais. Conclui-se que persistem lacunas normativas e desafios, sobretudo na articulação intersetorial e na execução das diretrizes do Programa. Palavras-chave: Política Pública, Alimentação Escolar, Nutricionistas, Prática Profissional.
The nutritionist acts as the main coordinator of the National School Feeding Program (PNAE) and, since their inclusion as the technical supervisor, the demands of their work have expanded. This study analyzed the assignments of this professional in the PNAE, described in official documents, considering the managerial, technical, and articulation dimensions of professional practice between 2006 and 2020. It is a documentary analysis based on public policy frameworks and on the legal parameters that guide their work. It was found that, over the period, the regulations consolidated their position as a central agent and expanded the scope and specificity of responsibilities. Technical functions began to require management and articulation skills, such as procurement from family farming, training of school cooks, technical visits, implementation of good practices manuals, and preparation of the Annual Work Plan. Although not formally established in PNAE regulations, these actions are guided by the Federal Council of Nutritionists, generating operational challenges. It is concluded that normative gaps and challenges persist, especially in intersectoral articulation and in the implementation of the Program’s guidelines.
Keywords:
Public Policy, School Feeding, Nutritionists, Professional Practice
Conteúdo:
INTRODUÇÃO
O nutricionista desempenha um papel central na execução do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que assegura o atendimento universal às necessidades alimentares dos alunos da rede pública de educação básica, por meio da oferta regular de alimentação adequada, saudável e sustentável, conforme o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA)¹. Sua atuação foi estabelecida em 20062 , com a atribuição de responsabilidade técnica pelo planejamento dos cardápios escolares. Desde então, sua função foi ampliada significativamente, incluindo atividades como a avaliação nutricional, a educação alimentar e nutricional (EAN) e a articulação com diferentes instituições para fortalecer a compra da Agricultura Familiar (AF)2-6 . A promulgação da Lei nº11.947/2009 3 e suas atualizações4-6 ampliou o escopo de atuação, incorporando a articulação entre produção e consumo de alimentos, por meio da aquisição de alimentos da AF. Em 2020, as diretrizes alimentares5 do programa foram alinhadas aos Guias Alimentares para a População Brasileira7,8, que são instrumentos públicos que orientam a população na adoção de práticas alimentares adequadas e saudáveis. Esses guias estabelecem princípios que devem pautar todas as políticas públicas nacionais, incluindo o PNAE, como: o DHAA, o consumo preferencial de alimentos in natura, culturalmente adequados e produzidos de forma sustentável.
Desde 20059 , a atuação dos nutricionistas no PNAE é regulada por resoluções específicas, revisadas em 201010 e 202411, que reconhecem a complexidade crescente das atribuições desse profissional que transcende o planejamento de cardápios. Porém, estudos apontam que muitas dessas atribuições, sejam obrigatórias ou complementares, não são completamente executadas devido a diversos fatores, como a natureza territorial, a articulação entre múltiplos atores sociais e falta de formação especializada. Questões estruturais, como carga horária reduzida, baixa remuneração e número insuficiente de profissionais, agrava esse cenário12-14 .
A implementação do programa exige uma abordagem intersetorial e colaboração entre profissionais de diferentes setores, essenciais ao êxito de políticas públicas complexas15. Este modelo demanda dos agentes locais alto grau de discricionariedade e capacidade de adaptar normas federais às realidades locais, impactando diretamente a execução do programa16 .
Os estudos sobre o PNAE analisam a trajetória do nutricionista17-21, o cumprimento das diretrizes21-23, e suas práticas em contextos diversos 12,13,23. Porém, há uma lacuna quanto à compreensão das atribuições do nutricionista no programa, especialmente no que se refere às diferentes dimensões da prática profissional e às principais inflexões ao longo da trajetória histórica. Portanto, o objetivo do estudo foi analisar as atribuições do nutricionista no PNAE, nas dimensões de gestão, técnica e articulação, segundo as normativas do FNDE, os regramentos estabelecidos pelo governo federal e pelo Conselho Federal de Nutricionistas (CFN)10, de 2006 a 20202-6 .
MATERIAIS E MÉTODOS
O estudo baseou-se em referenciais de análise de política, focando na implementação e nas atribuições profissionais no PNAE. A literatura sobre burocracia de médio escalão, embora não trate diretamente desses profissionais, oferece conceitos que contribuem para a análise da capacidade de traduzir diretrizes normativas em práticas, articular atores e exercer discricionariedade no processo decisório25-27. O estudo pautou-se no método de análise documental das normativas do FNDE, diretrizes federais e regramentos do CFN10, com ênfase na configuração das atribuições do nutricionista na política de alimentação escolar. Foram consultadas fontes oficiais, como os portais do FNDE, CFN e o Diário Oficial da União. Compuseram o corpus documental analisado: a Lei Federal nº 11.947/2009 e as Resoluções CD/FNDE nº 32/2006, nº 38/2009, nº 26/2013 e nº 6/2020, a Resolução do CFN nº 465/2010, além de documentos complementares do FNDE, como notas técnicas, pareceres e manuais2-6 . O recorte temporal justifica-se pela obrigatoriedade da presença do nutricionista como Responsável Técnico (RT) a partir de 20062 . Embora existam estudos sobre o histórico do PNAE17,18 e seu alinhamento com diretrizes federais15,19, há lacunas quanto à forma como as normativas moldaram as atribuições do nutricionista. As normativas foram analisadas para identificar as atribuições e responsabilidades prescritas à atuação profissional. Desenvolveu-se uma análise temática de conteúdo, com as etapas a seguir: 1) leitura exploratória das normativas e documentos para familiarização com o conteúdo regulatório, 2) leitura seletiva e sistemática, orientada pelas atribuições na Resolução CFN nº465/201010 identificando as atribuições do nutricionista, 3) classificação das atribuições, conforme sua presença e atribuição ao nutricionista, organizadas em três categorias: (1) não descritas; (2) descritas, mas não atribuídas ao nutricionista; e (3) descritas e atribuídas, sendo nesta categoria explicitado na tabela o conteúdo da legislação. A análise das dimensões da prática profissional foi representada graficamente, com categorização segundo três dimensões: gestão, técnica e articulação, e 4) análise descritiva e reflexiva, sistematizada em quadro teórico e gráfico28.
Dessa forma, a organização dos resultados considerou a evolução cronológica das normativas e a distribuição das atribuições segundo essas categorias analíticas e dimensões da prática profissional, que foram apresentadas no Quadro 1 e na Figura 1. Essa estratégia buscou superar a fragmentação das informações nas legislações e tornar mais compreensível a configuração atual do trabalho do nutricionista no PNAE.
RESULTADOS
O estudo identificou que a participação do nutricionista na elaboração do Plano Anual de Trabalho (PAT) não é mencionada nas normativas do PNAE2-5, apesar de prevista na Resolução do CFN10. A interação com agricultores familiares para fins de planejamento da oferta de gêneros alimentícios também não é descrita como atribuição do nutricionista, embora a diretriz da aquisição da AF esteja presente desde 20093. A supervisão das Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares (UANEs) não aparece como atividade atribuída ao nutricionista nas resoluções do FNDE no período analisado. Com relação às atribuições descritas nas resoluções do FNDE sem vinculação explícita ao nutricionista, destaca-se o treinamento de merendeiras, citado na Resolução nº6/20206 como medida de qualificação da equipe responsável pela manipulação dos alimentos, sem definição do profissional encarregado dessa atividade; implantação de Manuais de Boas Práticas (MBPs) e Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs) como responsabilidade das Entidades Executoras e a avaliação do estado nutricional dos escolares mencionada na Resolução nº 38/20094 e retomada na Resolução nº 26/20135 como ação necessária ao planejamento do cardápio, sendo designada ao nutricionista nessa última. A Resolução nº 6/20206, entretanto, suprimiu essa última atribuição. As ações de EAN estão presentes desde a Resolução nº 32/20062, mas somente a partir da Resolução nº 38/20094 passaram a ser descritas como atribuição do nutricionista, sendo posteriormente reafirmadas em 20135 e 20206, com ênfase na articulação com o setor da educação e na inclusão dessas ações no projeto político-pedagógico das escolas.
As atribuições descritas e formalmente atribuídas ao nutricionista incluem a elaboração, planejamento, acompanhamento e avaliação dos cardápios, que consta desde a Resolução nº 32/20062, sendo reiterada nas resoluções subsequentes. A Resolução nº38/20094 associou o planejamento do cardápio à obrigatoriedade de inclusão de alimentos da AF, à cultura alimentar local e ao perfil epidemiológico dos escolares, com previsão de apresentação prévia ao Conselho de Alimentação Escolar (CAE). A Resolução nº26/20135 incorporou parâmetros nutricionais conforme número de refeições e turnos escolares, além da obrigatoriedade de exposição dos cardápios e inclusão de Fichas Técnicas de Preparação (FTPs) com ingredientes, consistência, valor nutricional e assinatura do nutricionista responsável. A Resolução nº 6/20206 manteve essas exigências e acrescentou critérios relacionados ao grau de processamento dos alimentos, com exigência de proporcionalidade entre alimentos in natura, minimamente processados e processados, além de restrições e proibições específicas aos ultraprocessados.
A coordenação da aplicação do Teste de Aceitabilidade foi mencionada inicialmente de forma genérica, sendo formalmente atribuída ao nutricionista na Resolução nº 38/20094 e posteriormente detalhada nas resoluções de 20135 e 20206 , com definição de critérios metodológicos para a realização. A elaboração das FTPs passou a ser obrigatória a partir da Resolução nº26/20135, sendo reforçada na Resolução nº6/20206 com exigência de informações como rendimento por porção, custo por aluno e padronização. A Resolução nº6/20206 formalizou a atribuição do nutricionista como responsável pela coordenação técnica das ações de alimentação e nutrição, com funções relativas ao planejamento, execução e avaliação do programa.
Essa sequência normativa revela o processo de inclusão e detalhamento das atribuições do nutricionista nas resoluções do FNDE, com distinções quanto à presença dos enunciados, à atribuição explícita e ao nível de especificação técnica dos dispositivos legais analisados. A sistematização dessas atribuições segundo as três dimensões analíticas é apresentada no Quadro 1.
Quadro 1
Análise das Atribuições dos Nutricionistas descritas nas normativas do PNAE no período de 2006 a 2020, segundo as dimensões de gestão, técnica e de articulação.
Com base na categorização normativa apresentada, as atribuições também foram analisadas segundo exigências funcionais implicadas na execução. Essa etapa considerou as dimensões técnica, de gestão e de articulação intersetorial, conforme definidas pela Resolução CFN nº465/201010. A Figura 1 apresenta a distribuição dessas dimensões nas atribuições identificadas. Ao longo do período analisado, as normativas consolidaram o cargo de RT como uma função estratégica que integra as dimensões de técnica, de gestão e de articulação da prática profissional, especialmente após a promulgação da Lei nº 11.947/20093 em 2009. As mudanças nas legislações passaram a demandar maior capacidade de coordenação e articulação do nutricionista com outros atores e setores para o cumprimento de suas atribuições, especialmente nas atividades relacionadas ao planejamento, elaboração, acompanhamento e avaliação do cardápio, as ações de EAN e o planejamento, coordenação, supervisão e a aplicação do Teste de Aceitabilidade.
Contudo, as atribuições referentes à identificação de indivíduos com NAE e a elaboração e implementação de MBPs não contemplaram a dimensão da gestão. As atribuições da elaboração das FTPs e à supervisão das UANEs são descritas como atividades com características de gestão e técnicas. Destaca-se que três atribuições previstas pelo CFN não estão claramente descritas nas legislações do PNAE, quais sejam: a interação com os agricultores familiares, a participação no processo de compra e a elaboração do PAT. O diagnóstico e acompanhamento do estado nutricional, apesar de ser uma atribuição do nutricionista, incorporam todas as dimensões em uma das legislações, uma vez que inclui coordenação e monitoramento, contudo, na última legislação essa atribuição foi suprimida.
Fig.1
DISCUSSÃO
A análise dos marcos legais do PNAE indica progressiva ampliação das atribuições do nutricionista, que se tornaram mais abrangentes e articuladas com diversos setores e atores ao longo do período estudado. Nesse contexto, destaca-se inclusão da coordenação técnica das ações de alimentação e nutrição na Resolução nº6/20206 , bem como o estímulo à identificação de indivíduos com necessidades nutricionais específicas (NAE), consolidada pela Lei nº11.947/20093 com a inclusão da Lei nº12.982/201429. O processo de trabalho do nutricionista passou a integrar atividades técnicas, de gestão e de articulação intersetorial, envolvendo o acompanhamento da implementação das diretrizes do programa e das normativas dos órgãos reguladores.4-6. Logo, a atuação profissional vai além da execução técnica, demandando capacidade de planejamento, mediação e coordenação com atores institucionais, governamentais e não governamentais. Sobre o papel do nutricionista no processo de implementação do PNAE22-24, discutiu-se sua atuação como burocrata de nível de rua, dada a proximidade com os beneficiários30,31. Contudo, merendeiros e professores, por não lidarem com recursos públicos, são mais comumente associados a essa categoria26,32. O nutricionista, ao interpretar normas, mediar tecnicamente e articular instâncias decisórias e operacionais, reúne atributos da burocracia de médio escalão33,34. A evolução normativa do PNAE ampliou funções de gestão e articulação, como a elaboração de cardápios, ações de EAN e realização de Testes de Aceitabilidade14,35, o que reforça a complexidade crescente de suas atribuições.
Em comparação com programas de alimentação escolar de outros países, a formalização das atribuições do nutricionista no PNAE é mais detalhada. Nos Estados Unidos, após a adoção dos padrões profissionais do Departamento de Agricultura, a maioria dos distritos mantém diretores de alimentação escolar sem exigência de formação específica em nutrição36. Na França e no Japão, nutricionistas atuam no planejamento alimentar e em ações educativas, inseridos em estruturas descentralizadas e sem legislação nacional detalhada sobre suas atribuições37. Países da América Latina e do Caribe, como Guatemala, Honduras e El Salvador, vêm adotando marcos inspirados no PNAE, reconhecendo funções técnicas e de articulação, mas com menor densidade normativa38. O protagonismo do Brasil em espaços como a Rede de Alimentação Escolar Sustentável (RAES) e a Coalizão Global para Alimentação Escolar reforça esse modelo, projetando o PNAE como referência normativa e política na consolidação de diretrizes intersetoriais em alimentação escolar39.
As legislações do PNAE buscam aprimorar as atribuições dos profissionais, promovendo ajustes para o alcance dos objetivos do programa,40. No entanto, os resultados evidenciam lacunas. Atividades como a participação nos processos de compra de alimentos da agricultura familiar (AF), o treinamento de merendeiras e a elaboração do PAT, embora previstas na anterior Resolução CFN nº465/201010 e na atual nº788/202411, não estão formalmente atribuídas ao nutricionista na Resolução nº 6/2020 do FNDE, atualmente em vigor6. A omissão normativa e as ambiguidades observadas revelam a necessidade de maior precisão nos textos legais, uma vez que a falta de clareza compromete a execução das ações e a efetividade das políticas públicas, refletindo o descompasso entre as reformas legais e a implementação prática. Para os gestores locais, as normas do FNDE prevalecem sobre as do CFN, por influenciarem diretamente o repasse de recursos e a gestão do programa.
No campo das políticas de saúde, a evolução das normativas reflete uma tendência de fortalecimento da dimensão administrativa e do planejamento?42. Assim, a atuação profissional requer uma abordagem que transcenda a aplicação técnica, incorporando a dimensão política, aspectos éticos e mediações entre diferentes atores, demandando uma ação coordenada adaptada às realidades locais43 .
A qualificação legal do PNAE, após o marco de 20094 e a Resolução de 20206 , intensificou exigências sobre os cardápios, posicionando o nutricionista no centro de atribuições técnicas e gerenciais. Estudos apontam inadequações nas refeições escolares, como déficits de energia, macro e micronutrientes18,44, enquanto os processos de implementação enfrentam obstáculos como restrições orçamentárias41, infraestrutura inadequada nas UANEs, desafios na inclusão de alimentos da AF e na ampliação da oferta de alimentos in natura46. Embora o planejamento de cardápios seja técnico, sua execução exige gestão e articulação intersetorial, sendo essencial a avaliação por meio do Teste de Aceitabilidade, coordenado pelo nutricionista desde 20094 e detalhado em manual47. A ausência desse teste, bem como do cálculo do índice de adesão, impacta o planejamento das ações do programa48.
As ações de EAN tornaram-se mais complexas, embora ainda pontuais e pouco integradas ao currículo escolar apesar do crescente reconhecimento nas políticas públicas49. As lacunas da Resolução de 20135 foram consideradas em notas técnicas, que detalham mecanismos de articulação intersetorial na EAN e estratégias de inclusão pedagógica do tema50,51. A responsabilidade do nutricionista nesta área amplia seu escopo além do técnico, exigindo mobilização, gestão e coordenação entre diferentes setores, ainda que haja limitações, como o envolvimento restrito de educadores e a descontinuidade das ações52. Iniciativas como o Programa Nacional do Livro Didático e as Jornadas de EAN têm ampliado o impacto das políticas53,54.
A dimensão de gestão da atuação do nutricionista ainda é pouco evidente, sobretudo em processos de atendimento a indivíduos com NAE e na elaboração e implementação do MBP, que requerem articulação com as escolas e definição de fluxos claros e arranjos institucionais com serviços de saúde, no caso do diagnóstico e emissão de laudos para alunos com NAE. Conforme observado, essas ações foram descritas, mas sem atribuição formal ao nutricionista, ou aparecem de forma indireta, o que pode dificultar a interpretação dos processos necessários ao cumprimento da lei. No entanto, o direito à alimentação adequada e saudável de alunos com NAE é garantido por lei específica29 e desde 2017, orientado pelo FNDE pelo Caderno de Referência sobre as Necessidades Alimentares Especiais55, que subsidia a gestão de ações relacionadas à elaboração de cardápios especiais, contudo, esse instrumento de planejamento não é mencionado nas resoluções do FNDE.
A implementação do MBP exige documentos técnicos, articulação intersetorial e capacitação, com desafios na insuficiência de recursos humanos e elevado número de escolas. A ausência de nutricionistas nas UANEs prejudica a supervisão do MBP e a elaboração de POPs, intensificando e sobrecarregando os profissionais12,56. Um estudo, no município de Minas Gerais, revelou que 60% dos MBP e POPs estavam inadequados, expondo risco sanitário57.
A supervisão das UANEs, embora não formalmente atribuída nas normativas do PNAE, envolve tarefas como planejamento, orientação, supervisão da seleção, compra, armazenamento, produção e distribuição dos alimentos, além da elaboração e implementação do MBP. Goulart e Fabbro (2019)58 identificaram falhas na cadeia produtiva, destacando a necessidade de maior acompanhamento técnico dos nutricionistas para garantir a produção segura de refeições escolares. Soares e colaboradores (2018)56 destacam a importância da presença de nutricionistas para supervisão das atividades e para a utilização de instrumentos de avaliação de Boas Práticas adaptados à realidade local, com foco na otimização da supervisão. Essas atividades exigem articulação constante com as Unidades Escolares e merendeiras.
A avaliação nutricional, essencial à vigilância e ao planejamento alimentar, não foi prevista na Resolução do PNAE de 20206 , embora estivesse presente em normativas anteriores5 , sendo reafirmada como obrigatória na atual Resolução CFN nº788/202411. Esta última detalha a responsabilidade do nutricionista na coordenação de levantamentos antropométricos, com parâmetros numéricos mais condizentes com as exigências do programa. Persistem barreiras como a escassez de profissionais, o uso de amostras reduzidas ou de dados secundários59. A ausência de articulação com o Programa Saúde na Escola (PSE) e com sistemas como Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) compromete a integração entre saúde e educação, reduzindo o alcance do PNAE como política intersetorial35,60-62. O fortalecimento do papel do nutricionista como gestor, por meio da articulação com atores locais, da saúde, das unidades escolares e universidades, pode promover orientações conjuntas, estratégias formativas e diretrizes que viabilizem a implementação dessa ação em rede.
A interação com agricultores familiares e a participação no processo de compras não são claramente descritas nas legislações do PNAE e são mais bem definidas em notas técnicas63,64 e Caderno de Compras65. A complexidade crescente das atribuições, somada à inadequação dos parâmetros numéricos, limita a capacidade de execução. Estudos identificaram quantitativo insuficiente de nutricionistas em diferentes municípios brasileiros e a incapacidade de executar suas atribuições pela sobrecarga de trabalho22,24,35,66,67. A nova legislação estabelece atribuições e parâmetros numéricos do nutricionista alinhados com demandas e especificidades do Programa nos diferentes contextos do país, conforme estabelecido pelas Resoluções do CFN nº 78810 e nº789 de 202441.
Em estados como Minas Gerais, Espírito Santo13 e regiões do Sul12 e Centro-Oeste49, predomina a atuação isolada dos profissionais, sem suporte de quadro técnico, termo que passou a integrar a legislação a partir de 20094, sendo reafirmado em 20135 e 20206 como apoio à atuação do RT. Além disso, reforça-se a importância de fortalecer a utilização dos parâmetros numéricos do CFN pelos gestores do programa.
Ainda que o FNDE disponibilize estratégias de apoio, como manuais, vídeos, ferramentas tecnológicas e formações, persistem desafios no desenvolvimento das atribuições dos nutricionistas, especialmente na gestão e articulação intersetorial. Tais dificuldades estão associadas a lacunas formativas, como menor interesse na área de saúde coletiva68 e à desarticulação entre teoria e prática35,67,68. Estudo aponta limitações técnicas, como a elaboração de cardápios, MBPs e habilidades de gestão e EAN, essenciais para atividades exigidas no PNAE67.
Como resposta, o FNDE, em parceria com os Centros Colaboradores em Alimentação e Nutrição Escolar (CECANE), ao longo de quase 20 anos, promove formações continuadas e estratégias de apoio, tais como a produção de materiais técnicos, inovações tecnológicas, assessoria e comunicação direta com gestores e atores sociais20. Em muitos municípios, nutricionistas atuam isoladamente, sem pares para o compartilhamento de experiências, tornando as ações dos CECANEs fundamentais para a troca de saberes, atualizações, estímulo ao trabalho colaborativo e operacionalização das diretrizes do PNAE20,69. Políticas públicas envolvem estratégias dos atores sociais e processos de aprendizado, combinando regulação política e legitimação social70. Nesse enfoque, surge o desafio de desenvolver competências políticas e estratégicas que permitam aos nutricionistas expressarem demandas e aprimorar sua atuação no PNAE.
A resistência de atores às mudanças, a falta de valorização pelos gestores e as dificuldades na comunicação com as merendeiras, representam desafios no processo de trabalho do nutricionista. Tais desafios exigem habilidades que vão além do conhecimento técnico, como negociação, gestão de conflitos e promoção da intersetorialidade, competências essenciais para a eficácia das políticas de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN)35,66. Acrescentam-se os desafios na formação de nutricionistas, que ainda valorizam pouco a Alimentação Escolar como uma área de atuação que integra alimentação e saúde coletiva71.
CONCLUSÕES
O estudo identificou avanços e lacunas nas normativas do PNAE relacionadas às atribuições dos nutricionistas, contribuindo para o entendimento das mudanças regulatórias e dos desafios para a operacionalização do programa. A evolução desses dispositivos evidencia o nutricionista como burocrata de médio escalão, mediando processos entre o alto escalão político administrativo e atores de nível de execução, como merendeiros e educadores. Essa posição exige capacidade de interpretar e aplicar normativas jurídicas, articular a gestão de políticas públicas, promover a intersetorialidade e adaptar práticas às especificidades regionais, garantindo conformidade legal, eficiência administrativa e a implementação da política de SAN. As normativas do PNAE, ao longo do período analisado, ampliaram exigências relacionadas à gestão, execução e monitoramento do programa, redefinindo as atribuições dos nutricionistas. A prática profissional como RT passou a incluir, além da execução técnica, funções estratégicas de planejamento, gestão de políticas públicas e articulação intersetorial. As mudanças nas atribuições técnicas afetaram as atribuições de gestão e de articulação, bem como transformações no desenho operacional do PNAE, que intensificaram a perspectiva intersetorial do programa.
A legislação vigente consolidou o nutricionista como ator-chave no processo normativo e na articulação de instrumentos regulatórios e operacionais. Referências transversais às políticas públicas, como os Guias Alimentares e o Marco de EAN, também influenciaram a redefinição dessas atribuições. Os resultados indicam a necessidade de atualização contínua e de sua legislação do PNAE e sua adequação às normativas da profissão, como as do CFN.
Com respaldo legal, o nutricionista interpreta e aplica leis, resoluções, notas técnicas e regulamentos do FNDE, do CFN, Agência Nacional de Vigilância Sanitária e do Ministério da Agricultura e Pecuária. Soma-se a isso a importância de ferramentas de gestão adaptadas às realidades locais. Essa atuação requer competências técnico-administrativas e sociais, reforçando sua posição central na execução do programa. Conclui-se que o fortalecimento normativo e a formação continuada são fundamentais para a consolidação de sua função estratégica no âmbito da SAN no Brasil.
Referências
Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
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TRAJECTORY OF NUTRICIONIST’S RESPONSIBILITIES IN THE NATIONAL SCHOOL FEEDING PROGRAM
Resumo (abstract):
The nutritionist acts as the main coordinator of the National School Feeding Program (PNAE) and, since their inclusion as the technical supervisor, the demands of their work have expanded. This study analyzed the assignments of this professional in the PNAE, described in official documents, considering the managerial, technical, and articulation dimensions of professional practice between 2006 and 2020. It is a documentary analysis based on public policy frameworks and on the legal parameters that guide their work. It was found that, over the period, the regulations consolidated their position as a central agent and expanded the scope and specificity of responsibilities. Technical functions began to require management and articulation skills, such as procurement from family farming, training of school cooks, technical visits, implementation of good practices manuals, and preparation of the Annual Work Plan. Although not formally established in PNAE regulations, these actions are guided by the Federal Council of Nutritionists, generating operational challenges. It is concluded that normative gaps and challenges persist, especially in intersectoral articulation and in the implementation of the Program’s guidelines.
Palavras-chave (keywords):
Public Policy, School Feeding, Nutritionists, Professional Practice
TRAJETÓRIA DAS ATRIBUIÇÕES DO NUTRICIONISTA NO PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR
TRAJECTORY OF NUTRITIONIST’S RESPONSIBILITIES IN THE NATIONAL SCHOOL FEEDING PROGRAM
TRAYECTORIA DE LAS ATRIBUCIONES DEL NUTRICIONISTA EN EL PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTACIÓN ESCOLAR
Daniele da Silva Bastos Soares - Soares, D.S.B
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5196-9055
Kamilla Bertu - BERTU, K. -
ORCID:https://orcid.org/0000-0001-7296-5598
• Marcelly Christina Cabral dos Santos - CABRAL, M. C. S. -
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7869-9112
•Roseane Moreira Barbosa - BARBOSA, R. M. S.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0850-7143
Resumo:
O nutricionista atua como principal articulador do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e, desde sua inserção como responsável técnico, teve ampliadas as demandas de atuação. Este estudo analisou as atribuições desse profissional no PNAE, descritas em documentos oficiais, considerando as dimensões de gestão, técnica e de articulação da prática profissional entre 2006 e 2020. Trata-se de uma análise documental baseada em referenciais de políticas públicas e nos parâmetros legais que orientam sua atuação. Constatou-se que, ao longo do período, as normativas consolidaram sua posição como agente central e ampliaram o escopo e a especificidade das responsabilidades. Funções técnicas passaram a exigir competências de gestão e articulação, como compras da agricultura familiar, capacitação de merendeiras, visitas técnicas, implantação de manuais de boas práticas e elaboração do Plano Anual de Trabalho. Embora não previstas formalmente nas normativas do PNAE, essas ações são orientadas pelo Conselho Federal de Nutricionistas, gerando desafios operacionais. Conclui-se que persistem lacunas normativas e desafios, sobretudo na articulação intersetorial e na execução das diretrizes do Programa. Palavras-chave: Política Pública, Alimentação Escolar, Nutricionistas, Prática Profissional.
Keywords: Public Policy, School Feeding, Nutritionists, Professional Practice
Abstract:
The nutritionist acts as the main coordinator of the National School Feeding Program (PNAE) and, since their inclusion as technical supervisor, the demands of their work have expanded. This study analyzed the assignments of this professional in the PNAE, described in official documents, considering the managerial, technical and articulation dimensions of professional practice between 2006 and 2020. It is a documentary analysis based on public policy frameworks and on the legal parameters that guide their work. It was found that, over the period, the regulations consolidated their position as a central agent and expanded the scope and specificity of responsibilities. Technical functions began to require management and articulation skills, such as procurement from family farming, training of school cooks, technical visits, implementation of good practices manuals and preparation of the Annual Work Plan. Although not formally established in PNAE regulations, these actions are guided by the Federal Council of Nutritionists, generating operational challenges. It is concluded that normative gaps and challenges persist, especially in intersectoral articulation and in the implementation of the Program’s guidelines.
Keywords: Public Policy, School Feeding, Nutritionists, Professional Practice
Trayectoria de las Atribuciones del Nutricionista en el Programa Nacional de Alimentación Escolar
Resumen:
El nutricionista actúa como principal articulador del Programa Nacional de Alimentación Escolar (PNAE) y, desde su incorporación como responsable técnico, se ampliaron las demandas de su actuación. Este estudio analizó las atribuciones de este profesional en el PNAE, descritas en documentos oficiales, considerando las dimensiones de gestión, técnica y de articulación de la práctica profesional entre 2006 y 2020. Se trata de un análisis documental basado en marcos de políticas públicas y en los parámetros legales que orientan su actuación. Se constató que, a lo largo del período, las normativas consolidaron su posición como agente central y ampliaron el alcance y la especificidad de las responsabilidades. Funciones técnicas pasaron a requerir competencias de gestión y articulación, como compras de la agricultura familiar, capacitación de merenderas, visitas técnicas, implementación de manuales de buenas prácticas y elaboración del Plan Anual de Trabajo. Aunque no estén formalmente previstas en las normativas del PNAE, estas acciones son orientadas por el Consejo Federal de Nutricionistas, generando desafíos operativos. Se concluye que persisten vacíos normativos y desafíos, sobre todo en la articulación intersectorial y en la ejecución de las directrices del Programa
Palabras clave: Política Pública, Alimentación Escolar, Nutricionistas, Práctica Profesional
INTRODUCTION
Nutritionists play a central role in the implementation of the National School Feeding Program (PNAE), which ensures universal access to adequate nutrition for students in the public basic education system through the regular provision of adequate, healthy and sustainable meals, in accordance with the Human Right to Adequate Food (DHAA)¹. Their role was established in 2006², with the assignment of technical responsibility for planning school menus. Since then, their scope of work has expanded significantly to include activities such as nutritional assessment, food and nutrition education (EAN), and coordination with various institutions to strengthen procurement from family farms (AF)²⁻⁶. The enactment of Law no. 11.947/2009³ and its subsequent updates⁴⁻⁶ broadened the scope of the program’s activities, incorporating coordination between food production and consumption through the procurement of food from Family Farming. In 2020, the program’s dietary guidelines⁵ were aligned with the Dietary Guidelines for the Brazilian Population7,8, which are public instruments that guide the population in adopting appropriate and healthy dietary practices. These guides establish principles that should guide all national public policies, including the PNAE, such as: the DHAA, and the preferential consumption of fresh, culturally appropriate and sustainably produced foods.
Since 20059, the role of nutritionists in the PNAE has been regulated by specific resolutions, revised in 201010 and 202411, which recognize the growing complexity of these professionals’ responsibilities, which transcend menu planning. However, studies indicate that many of these responsibilities - whether mandatory or supplementary - are not fully carried out due to various factors, such as regional variations, coordination among multiple social actors and a lack of specialized training. Structural issues, such as reduced working hours, low pay and an insufficient number of professionals, exacerbate this situation12-14.
Implementing the program requires a cross-sectoral approach and collaboration among professionals from different sectors, which are essential to the success of complex public policies15. This model requires local officials to exercise a high degree of flexibility and the ability to adapt federal regulations to local realities, which directly impacts the program’s implementation16.
Studies on the PNAE examine the career trajectory of nutritionists17-21, compliance with guidelines21-23 and their practices in various contexts12,13,23. However, there is a gap in the understanding of the role of nutritionists within the program, particularly with regard to the different dimensions of professional practice and the major shifts throughout its history. Therefore, the objective of this study was to analyze the role of nutritionists in the PNAE in the areas of management, technical work and coordination, in accordance with FNDE regulations and the rules established by the federal government and the Federal Council of Nutritionists (CFN)10 from 2006 to 20202-6.
MATERIALS AND METHODS
The study was based on policy analysis frameworks, focusing on implementation and professional responsibilities within the PNAE. The literature on mid-level bureaucracy, although it does not directly address these professionals, offers concepts that contribute to the analysis of the capacity to translate normative guidelines into practice, coordinate among stakeholders and exercise discretion in the decision-making process25-27. The study employed a documentary analysis of FNDE regulations, federal guidelines and CFN10 regulations, with emphasis on the definition of nutritionists’ responsibilities within the school food policy. Official sources were consulted, such as the FNDE and CFN websites and the Federal Official Gazette. The documentary corpus analyzed consisted of: Federal Law no. 11.947/2009 and FNDE Resolutions CD/FNDE no. 32/2006, no. 38/2009, no. 26/2013, and no. 6/2020, CFN Resolution no. 465/2010, as well as supplementary FNDE documents, such as technical notes, opinions and manuals 2-6. This time frame is justified by the requirement for a nutritionist to serve as the Technical Manager (RT) beginning in 20062. Although there are studies on the history of the PNAE17,18 and its alignment with federal guidelines15,19, there are gaps regarding how the regulations have shaped the nutritionist’s duties. The regulations were analyzed to identify the duties and responsibilities prescribed for professional practice. A thematic content analysis was conducted, involving the following steps: 1) an exploratory reading of the regulations and documents to become familiar with the regulatory content; 2) a selective and systematic reading, guided by the duties outlined in CFN Resolution no. 465/201010, to identify the duties of nutritionists; 3) classification of the duties according to their presence and attribution to nutritionists, organized into three categories: (1) not described; (2) described but not assigned to the nutritionist; and (3) described and assigned, with the content of the legislation explicitly outlined in the table for this category. The analysis of the dimensions of professional practice was represented graphically, categorized according to three dimensions: management, technical and articulation; and 4) a descriptive and reflective analysis, systematized in a theoretical and graphical framework28.
Accordingly, the results were organized to reflect the chronological evolution of the regulations and the distribution of responsibilities according to these analytical categories and dimensions of professional practice, which are illustrated in Table 1 and Figure 1. This strategy aimed to overcome the fragmentation of information in the legislation and make the current structure of nutritionists’ work within the PNAE more comprehensible.
RESULTS
The study found that the nutritionist’s participation in the development of the Annual Work Plan (PAT) is not mentioned in the PNAE guidelines2-5, although it is provided for in the CFN Resolution10. Interaction with family farmers for the purpose of planning the food supply is also not described as a responsibility of the nutritionist, even though the guideline on purchasing from family farmers has been in place since 20093. Supervision of the School Food and Nutrition Units (UANEs) does not appear as an activity assigned to the nutritionist in the FNDE resolutions during the period analyzed. With regard to the responsibilities described in the FNDE resolutions that are not explicitly linked to a nutritionist, it is worth noting the training of school cooks, mentioned in Resolution no. 6/20206 as a measure to improve the qualifications of the staff responsible for food handling, without specifying the professional in charge of this activity; the implementation of Good Practice Manuals (GPMs) and Standard Operating Procedures (SOPs) as the responsibility of the Implementing Entities; and the assessment of schoolchildren’s nutritional status, mentioned in Resolution no. 38/20094 and reiterated in Resolution no. 26/20135 as a necessary step in menu planning, with this task assigned to the nutritionist in the latter Resolution. Resolution no. 6/20206, however, eliminated this last responsibility. EAN activities have been in place since Resolution no. 32/20062, but it was only with Resolution no. 38/20094 that they began to be described as a responsibility of nutritionists, a designation subsequently reaffirmed in 20135 and 20206, with an emphasis on coordination with the education sector and the inclusion of these initiatives in schools’ educational policies.
The duties described and formally assigned to the nutritionist include the development, planning, monitoring and evaluation of menus, as stipulated in Resolution no. 32/20062 and reiterated in subsequent resolutions. Resolution no. 38/20094 linked menu planning to the mandatory inclusion of foods from family farming (AF) , local food culture and the epidemiological profile of the pupils, with a requirement for prior submission to the School Food Council (CAE). Resolution no. 26/20135 incorporated nutritional parameters based on the number of meals and school shifts, in addition to the requirement to display menus and include Technical Preparation Sheets (FTPs) listing ingredients, consistency, nutritional value and the signature of the nutritionist responsible. Resolution no. 6/20206 maintained these requirements and added criteria related to the degree of food processing, requiring a proportional balance between fresh, minimally processed and processed foods, as well as specific restrictions and prohibitions on ultra-processed foods.
Coordination of the application of the Acceptability Test was initially mentioned in general terms, was formally assigned to the nutritionist in Resolution no. 38/20094, and was subsequently detailed in the resolutions of 20135 and 20206, which defined the methodological criteria for its implementation. The development of Technical Preparation Sheets (FTPs) became mandatory as of Resolution no. 26/20135 and was reinforced in Resolution no. 6/20206 with requirements for information such as size of portions, cost per student and standardization. Resolution no. 6/20206 formalized the designation of the nutritionist as the person responsible for the technical coordination of food and nutrition initiatives, with duties related to the planning, implementation and evaluation of the program.
This sequence of regulations reveals the process by which the responsibilities of nutritionists were included and detailed in FNDE resolutions, with distinctions regarding the presence of specific provisions, explicit assignment of responsibilities and the level of technical specificity in the legal provisions analyzed. The systematization of these responsibilities according to the three analytical dimensions is shown in Table 1.
Table 1
Analysis of the Responsibilities of Nutritionists described in the PNAE regulations during the period from 2006 to 2020, according to the dimensions of management, technical work and coordination.
Based on the regulatory categorization outlined above, the responsibilities were also analyzed according to the functional requirements involved in their execution. This stage took into account the technical, managerial and intersectoral coordination dimensions, as defined by CFN Resolution no. 465/201010. Figure 1 shows the distribution of these dimensions across the identified responsibilities. Throughout the period analyzed, regulatory provisions consolidated the role of the RT as a strategic function that integrates the technical, managerial and inter-sectoral coordination dimensions of professional practice, especially following the enactment of Law no. 11.947/20093 in 2009. Changes in legislation began to require greater capacity for coordination and collaboration on the part of nutritionists with other stakeholders and sectors to fulfill their responsibilities, particularly in activities related to the planning, development, monitoring and evaluation of menus, EAN initiatives and the planning, coordination, supervision and implementation of the Acceptability Test.
However, the responsibilities related to identifying individuals with NAE and developing and implementing MBPs did not address the management aspect. The responsibilities for developing the FTPs and supervising the UANEs are described as activities with both management and technical characteristics. It is worth noting that three responsibilities established by the CFN are not clearly described in the PNAE legislation, namely: interaction with family farmers, participation in the procurement process and development of the PAT. The assessment and monitoring of nutritional status, although a responsibility of the nutritionist, incorporates all dimensions in one of the pieces of legislation, as it includes coordination and monitoring; however, in the most recent legislation, this responsibility was removed.
DISCUSSION
An analysis of the legal frameworks governing the PNAE indicates a progressive expansion of the nutritionist\'s responsibilities, which became increasingly comprehensive and integrated with various sectors and stakeholders over the period studied. Notable in this context is the inclusion of technical coordination for food and nutrition initiatives in Resolution no. 6/20206, as well as the encouragement to identify individuals with specific nutritional needs (NAE) - a practice consolidated by Law no. 11.947/20093 and the subsequent inclusion of Law no. 12.982/201429. The nutritionist\'s work process came to encompass technical, managerial and intersectoral coordination activities, involving the monitoring of the implementation of program guidelines and regulatory agency standards4-6. Consequently, professional practice extends beyond technical execution, requiring skills in planning, mediation and coordination with institutional, governmental and non-governmental stakeholders. Regarding the nutritionist\'s role in the PNAE implementation process22-24, their work has been discussed in terms of the "street-level bureaucrat" concept, given their close proximity to the program\'s beneficiaries30,31. However, because they do not handle public funds, school food service workers and teachers are more commonly associated with this category26,32. By interpreting regulations, providing technical mediation and coordinating between decision-making and operational levels, the nutritionist embodies the attributes of mid-level bureaucracy33,34. The evolution of PNAE regulations has expanded management and coordination functions - such as menu planning, food and nutrition education (FNE) activities, and the conduct of acceptability tests14,35 - thereby reinforcing the growing complexity of their responsibilities.
Compared to school meal programs in other countries, the formalization of the nutritionist\'s responsibilities within the PNAE is more detailed. In the United States, following the adoption of the Department of Agriculture\'s professional standards, most districts employ school food service directors without requiring specific training in nutrition36. In France and Japan, nutritionists work on meal planning and educational activities within decentralized structures, without detailed national legislation governing their responsibilities37. Latin American and Caribbean countries - such as Guatemala, Honduras, and El Salvador - have been adopting frameworks inspired by the PNAE, recognizing technical and coordination functions, albeit with less regulatory depth38. Brazil’s leading role in forums such as the Sustainable School Feeding Network (RAES) and the Global School Meals Coalition reinforces this model, positioning the PNAE as a normative and policy benchmark for the consolidation of intersectoral school feeding guidelines39.
PNAE regulations aim to refine the roles of professionals, introducing adjustments to achieve the program\'s objectives40. However, results reveal gaps. Activities such as participating in the procurement of food from family farming (AF), training school food service staff and developing the Annual Work Plan (PAT) while included in the previous CFN Resolution no. 465/201010 and the current no. 788/202411 - are not formally assigned to nutritionists in the FNDE Resolution no. 6/2020, which is currently in effect6. The observed regulatory omissions and ambiguities highlight the need for greater precision in legal texts, as a lack of clarity compromises the execution of actions and the effectiveness of public policies, reflecting a disconnect between legal reforms and practical implementation. For local administrators, FNDE regulations take precedence over those of the CFN, as they directly influence the transfer of funds and program management.
In the field of health policies, the evolution of regulations reflects a tendency to strengthen the administrative and planning dimension42. Thus, professional action requires an approach that transcends technical application, incorporating the political dimension, ethical aspects and mediations between different players, demanding coordinated action adapted to local realities43.
The legal framework governing the PNAE - following the 2009 milestone4 and the 2020 resolution6 - has intensified requirements regarding menus, placing the nutritionist at the center of technical and managerial responsibilities. Studies indicate inadequacies in school meals, such as deficits in energy, macronutrients and micronutrients18,44, while implementation processes face obstacles including budgetary constraints41, inadequate infrastructure in school food service units, and challenges in incorporating family farming products and expanding the supply of fresh, unprocessed foods46. Although menu planning is a technical task, its execution requires management and intersectoral coordination; assessment via the Acceptability Test - coordinated by the nutritionist since 20094 and detailed in a specific manual47 - is essential. The absence of this test, as well as the failure to calculate the acceptance rate, impacts the planning of the program\'s activities48.
Food and nutrition education (FNE) initiatives have become more complex, although they remain sporadic and poorly integrated into the school curriculum, despite growing recognition in public policies49. Gaps in the 2013 Resolution5 have been addressed in technical notes detailing mechanisms for intersectoral coordination in FNE and strategies for pedagogically incorporating the subject50,51. The nutritionist\'s role in this area extends beyond technical duties, requiring mobilization, management and coordination across different sectors, even amidst restrictions such as limited educator involvement and the lack of continuity in initiatives52. Initiatives such as the National Textbook Program and FNE "Journeys" (dedicated events/campaigns) have expanded the impact of these policies53,54.
The management aspect of the nutritionist\'s role remains not fully apparent, particularly regarding the care of students with special dietary needs (NAE) and the development and implementation of the Good Manufacturing Practices (MBP). These tasks require coordination with schools and the establishment of clear workflows and institutional arrangements with health services - especially for diagnosis and the issuance of medical reports for students with NAE. While these actions have been described, they are not formally assigned to the nutritionist or appear only indirectly, which can complicate the interpretation of the processes required to comply with the law. However, the right of students with NAE to adequate and healthy food is guaranteed by specific legislation29 and, since 2017, has been guided by the FNDE’s Reference Handbook on Special Dietary Needs55, which supports the management of actions related to creating specialized menus; notably, however, this planning tool is not mentioned in FNDE resolutions.
Implementing the MBP requires technical documentation, intersectoral coordination, and training, while facing challenges related to a shortage of human resources and the large number of schools. The absence of nutritionists in school food and nutrition units (UANEs) hinders MBP supervision and the development of Standard Operating Procedures (SOPs), thereby intensifying the workload and placing a strain on professionals12,56. A study conducted in a municipality in Minas Gerais revealed that 60% of MBP and SOP protocols were inadequate, posing sanitary risks57.
Although not formally assigned within PNAE regulations, the supervision of School Food and Nutrition Units (UANEs) entails tasks such as planning, providing guidance and overseeing the selection, procurement, storage, production and distribution of food, as well as developing and implementing Good Practices Manuals (MBP). Goulart and Fabbro (2019)58 identified flaws in the production chain, highlighting the need for greater technical oversight by nutritionists to ensure the safe production of school meals. Soares et al. (2018)56 emphasize the importance of having nutritionists present to supervise activities and utilize Good Practices assessment tools adapted to local conditions, with a focus on optimizing supervision. These activities require constant coordination with school units and food service staff.
Nutritional assessment - essential for surveillance and food planning - was not included in the 2020 PNAE Resolution6, despite having been part of earlier regulations5, though it has been reaffirmed as mandatory in the current CFN Resolution no. 788/202411. The latter details the nutritionist\'s responsibility for coordinating anthropometric surveys, using numerical parameters that better align with the program\'s requirements. Barriers persist, such as a shortage of professionals and the use of small sample sizes or secondary data59. A lack of coordination with the School Health Program (PSE) and systems like the Food and Nutrition Surveillance System (SISVAN) compromises the integration of health and education, thereby limiting the PNAE’s reach as an intersectoral policy35,60-62. Strengthening the nutritionist\'s role as a manager - through collaboration with local stakeholders, the health sector, schools and universities - can foster joint guidance, training strategies and guidelines that enable the implementation of this initiative as a networked effort.
Interaction with family farmers and participation in the procurement process are not clearly described in PNAE legislation; rather, they are better defined in technical notes63,64 and the Procurement Handbook65. The increasing complexity of responsibilities, combined with inadequate numerical parameters, limits implementation capacity. Studies have identified an insufficient number of nutritionists in various Brazilian municipalities and an inability to carry out their duties due to excessive workloads22,24,35,66,67. The new legislation establishes nutritionist responsibilities and numerical parameters aligned with the Program\'s demands and specificities across the country\'s diverse contexts, as set forth in CFN Resolutions no. 78811 and no. 789 of 202441.
In states such as Minas Gerais and Espírito Santo13, as well as in the South12 and Center-West49 regions, professionals work predominantly in isolation, without the support of a technical team - a concept introduced into legislation in 20094 and reaffirmed in 20135 and 20206 as a means of supporting the Technical Manager (RT). Furthermore, it is essential to emphasize the importance of program managers making greater use of the CFN’s numerical parameters.
Although the FNDE provides support strategies - such as manuals, videos, technological tools and training - challenges persist in the performance of nutritionists\' duties, particularly regarding management and intersectoral coordination. These difficulties are linked to gaps in professional training, such as a lack of interest in public health68 and a disconnect between theory and practice35,67,68. Studies indicate technical limitations - including menu planning, the development of Basic Reference Menus (MBPs) and skills in management and Food and Nutrition Education (EAN) - that are essential for the activities required by the PNAE67.
In response, the FNDE, in partnership with the Collaborative Centers for School Food and Nutrition (CECANE), has spent nearly 20 years promoting continuous training and support strategies - such as the production of technical materials, technological innovations, advisory services and direct communication with administrators and social actors20. In many municipalities, nutritionists work in isolation, lacking peers with whom to share experiences; this makes the actions of the CECANEs fundamental for the exchange of knowledge, professional updating, the encouragement of collaborative work and the operationalization of PNAE guidelines20,69. Public policies involve strategies adopted by social actors and learning processes, combining policy regulation with social legitimation70. In this context, a challenge arises: developing the political and strategic competencies that enable nutritionists to articulate their demands and enhance their performance within the PNAE.
Resistance to change among stakeholders, a lack of appreciation from managers and communication difficulties with school food service staff pose challenges to the nutritionist\'s work process. These challenges require skills that go beyond technical knowledge - such as negotiation, conflict management and the promotion of intersectoral collaboration - which are essential competencies for the effectiveness of Food and Nutritional Security (FNS) policies35,66. Added to this are challenges regarding the training of nutritionists, as academic programs still place little value on school feeding as a field of practice that integrates nutrition and public health71.
CONCLUSIONS
The study identified advances and gaps in PNAE regulations regarding the responsibilities of nutritionists, contributing to an understanding of regulatory changes and the challenges involved in operationalizing the program. The evolution of these provisions evidences the nutritionist\'s role as a mid-level bureaucrat, mediating processes between high-level political-administrative authorities and operational-level actors, such as school food service staff and educators. This position requires the ability to interpret and apply legal regulations, coordinate public policy management, foster intersectoral collaboration and adapt practices to regional specifications, thereby ensuring legal compliance, administrative efficiency and the implementation of Food and Nutritional Security (SAN) policy.
Throughout the period analyzed, PNAE regulations expanded requirements regarding the management, implementation and monitoring of the program, thereby redefining the responsibilities of nutritionists. Professional practice as Technical Manager (RT) came to encompass not only technical execution but also strategic functions involving planning, public policy management and intersectoral coordination. Changes in technical responsibilities impacted management and coordination duties, alongside shifts in the PNAE\'s operational design that intensified the program\'s intersectoral perspective.
Current legislation has established the nutritionist as a key player in the normative process and in the coordination of regulatory and operational instruments. Cross-cutting references to public policies - such as Dietary Guidelines and the Food and Nutrition Education (EAN) Framework - have also influenced the redefinition of these responsibilities. The findings indicate a need for the continuous updating of PNAE legislation and its alignment with professional standards, such as those set by the Federal Council of Nutritionists (CFN).
With legal support, the nutritionist interprets and applies laws, resolutions, technical notes and regulations of the FNDE, the CFN, the National Health Surveillance Agency and the Ministry of Agriculture and Livestock. Added to this is the importance of management tools adapted to local realities. This action requires technical-administrative and social skills, reinforcing its central position in the execution of the program. The conclusion is that regulatory strengthening and continued training are fundamental to consolidating its strategic role within the SAN in Brazil.
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Como
Citar
Souza, BG, Dias, PC, Burlandy , L, Soares, DSB, Bertu, K, Santos, MCC, Barbosa, RM. TRAJETÓRIA DAS ATRIBUIÇÕES DO NUTRICIONISTA NO PROGRAMA NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/mar). [Citado em 06/11/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/trajetoria-das-atribuicoes-do-nutricionista-no-programa-nacional-de-alimentacao-escolar/19954