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0289/2026 - ASSOCIAÇÃO ENTRE AÇÕES RELACIONADAS A ATRIBUTOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA E REGIÕES DO BRASIL NO CUIDADO ÀS PESSOAS IDOSAS
ASSOCIATION BETWEEN ACTIVITIES RELATED TO PRIMARY CARE ATTRIBUTES AND BRAZILIAN REGIONS IN CARE OF OLDER ADULTS

Autor:

• Wagner Elias de Melo Moreira - Moreira, WEM - <wagner.fisioterapia@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8287-7476

Coautor(es):

• Silvia Lanziotti Azevedo da Silva - Silva, SLA - <silviafisiojf@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2323-2029

• Luciane Teixeira Passos Giarola - Giarola, LTP - <luciane@ufsj.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8805-7583

• Isabel Cristina Gonçalves Leite - Leite, ICG - <isabel.leite@ufjf.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4459-7606



Resumo:

Objetivo: avaliar a associação entre ações em saúde relacionados aos atributos essenciais da Atenção Primária à Saúde (APS) e as regiões do Brasil no cuidado a pessoas idosas Método: A Pesquisa Nacional de Saúde (2019) entrevistou 28.637 pessoas idosas, o que representa 10,25% do total, cadastrado na Saúde da Família. Foram investigados componentes relacionados aos atributos da APS em seu cuidado, pela versão reduzida do PCATool. A análise de correspondência múltipla foi utilizada para identificar a associação entre essas componentes e as regiões do país. Resultados: 80,5% buscam o mesmo médico como primeira opção, 77,7% relataram a continuidade do atendimento com esse profissional, 78,8% afirmaram receber encaminhamentos para especialistas. A análise explicou 65,5% da variabilidade total dos dados por meio de duas dimensões e revelou associação entre a região Sudeste e a ausência de ações de cuidado em APS relacionados ao acesso de primeiro contato, longitudinalidade e coordenação do cuidado. As regiões Norte, Nordeste e Sul apresentaram maior adesão às mesmas ações. Conclusão: O estudo revelou disparidades regionais na efetivação das ações relacionadas aos atributos, com maior fragilidade na região Sudeste, e maior potencialidade nas regiões Norte, Nordeste e Sul.

Palavras-chave:

Atenção Primária à Saúde. Idoso. Inquéritos epidemiológicos. Análise multivariada.

Abstract:

Objective: To examine the association between activities of Primary Health Care (PHC) essential attributes and Brazilian regions in the care of older adults. Methods: This cross-sectional study used data from the 2019 National Health Survey, which included 28,637 individuals aged 60 years or older, representing 10.25% of the total sample, enrolled in the Family Health Strategy. PHC attributes were assessed using the short version of the PCATool. Multiple correspondence analysis was performed to explore associations between PHC components and geographic regions. Results: Among participants, 80.5% seek the same physician as their first choice, 77.7% indicated continuity of care, and 78.8% reported being referred to specialists. Two dimensions accounted for 65.5% of total data variability. The Southeast region was associated with a lower presence of key PHC activities, including first-contact access, longitudinality, and care coordination. In contrast, greater adherence to these activities was observed in the North, Northeast, and South regions.
Conclusion: Significant regional disparities were identified in the delivery of PHC for older adults, with weaker performance in the Southeast and stronger results in the North, Northeast, and South regions.

Keywords:

Primary Health Care; Aged; Health Surveys; Multivariate Analysis

Conteúdo:

INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) é o primeiro nível da Rede de Atenção à Saúde (RAS) do Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pela coordenação do cuidado e ordenação dos serviços de saúde no Brasil1. Sua atuação é centrada na promoção da saúde, prevenção de doenças e no acompanhamento contínuo da população, sendo considerada a principal porta de entrada do sistema de saúde2. Sistemas de saúde baseados em uma APS forte são mais eficazes na redução de iniquidades, no aumento da eficiência dos serviços e na melhoria dos desfechos de saúde da população3.
No Brasil, a implementação da APS apresenta importantes disparidades regionais, influenciadas pela distribuição desigual de recursos, pelas características demográficas e pela infraestrutura disponível. As regiões Norte e Nordeste contam com maior cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) e presença de Agentes Comunitários de Saúde (ACS), além de uma maior integração com os Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB)4. Já as regiões Sudeste e Sul apresentam maior quantidade de equipamentos de média e alta complexidade, favorecendo encaminhamentos para outros níveis das RAS5. A APS tem papel importante no cuidado de todos, mas é especialmente importante no cuidado às pessoas idosas, buscando garantir um envelhecimento saudável, reduzir hospitalizações evitáveis e promover maior qualidade de vida para esta população2.
A população idosa tem crescido de forma acelerada no país, exigindo respostas estruturadas do sistema de saúde. Esse grupo demanda cuidados contínuos e integrais, especialmente no manejo de condições crônicas, como diabetes, hipertensão e doenças osteoarticulares6. Pessoas idosas que têm acesso a uma APS forte apresentam melhores indicadores de saúde, maior adesão à tratamentos e mais satisfação com os serviços7.
A efetividade da APS para esse grupo depende diretamente da presença dos chamados atributos essenciais: acesso de primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado8. Pessoas idosas cadastradas na ESF em um município de Minas Gerais apresentaram uma percepção positiva da integralidade pelo PCATool, embora essa percepção não fosse correlacionada com maior uso de serviços de saúde, como consultas médicas9. Já em um município da região Centro-Oeste, pessoas idosas avaliadas pelo mesmo instrumento indicaram que a qualidade geral da APS pelos atributos em geral é baixa, mas a parte essencial é forte, garantindo melhores desfechos10. Os resultados variam conforme a região estudada, demonstrando a importância de análises em âmbito nacional e a exploração da associação entre as ações em saúde relacionadas aos atributos da APS e o território regional, especificamente com foco na população idosa.
Pessoas idosas são mais vulneráveis e a centralidade que a APS assume no cuidado é fundamental para desfechos mais positivos em sua saúde8. Compreender como os atributos essenciais da APS se manifestam por ações para esta população em cada região pode fornecer subsídios relevantes para a qualificação do cuidado voltado às pessoas idosas na APS no Brasil, considerando suas diferentes realidades. Assim, este estudo tem como objetivo investigar a associação entre ações realizadas no cuidado para a população idosa relacionados aos atributos essenciais da APS e as diferentes regiões geográficas do Brasil, utilizando dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 201911.

MÉTODOS
Trata-se de um estudo de delineamento transversal, elaborado conforme as recomendações do Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)12. O estudo utilizou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, base de dados de abrangência nacional, conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A PNS é caracterizada por amostragem complexa e aplica pesos amostrais para garantir a representatividade dos resultados em nível nacional. O questionário foi estruturado em módulos, abordando amplamente diferentes aspectos da saúde da população brasileira, possibilitando análises detalhadas. O estudo foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), conforme a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), com o número CAAE 11713319.7.0000.0008.
A amostra da PNS 2019 é composta por unidades de área selecionados em cadastro e denominadas Unidades Primárias de Amostragem (UPA). As UPAs foram selecionadas para a amostra mestra, considerando proporcionalidade em relação ao tamanho dos setores censitários incluídos. Em seguida, foram selecionados os domicílios em cada setor pelo Cadastro Nacional de Endereços para fins Estatísticos (CNEFE) por amostragem aleatória simples. Em cada domicílio, um morador de 15 anos ou mais foi sorteado para ser o respondente, com base na lista de moradores obtida no momento da entrevista. O tamanho da amostra foi definido pelo nível de precisão desejado, baseado em indicadores da PNS 2013, como uso de serviços de saúde, violências, plano de saúde, e também número de domicílios selecionados em cada UPA. O processo de análise é por amostragem complexa, e deve-se considerar os pesos do domicílio e morador selecionado, por três variáveis: UPA, estrato e peso13.
Foram elegíveis para o estudo dados de participantes com mais de 60 anos, considerados pessoas idosas, e que responderam “Sim” à pergunta B1 do módulo B da PNS 2019: “O seu domicílio está cadastrado na Unidade de Saúde da Família (USF)?”, totalizando 28.637 indivíduos elegíveis para a análise.
As variáveis selecionadas para avaliação das ações dos profissionais/serviços relacionadas aos atributos da APS foram extraídas do módulo H da PNS 2019, que investiga o cuidado neste nível de atenção, abrangendo aspectos como primeiro atendimento, continuidade do cuidado, encaminhamentos e orientações sobre hábitos de vida. O instrumento presente na PNS 2019 para avaliação é o Primary Care Assessment Tool (PCATool), instrumento desenvolvido por Starfield14 para avaliar se a orientação dos serviços é para a APS com base nos atributos desse nível de atenção: acesso de primeiro contato, longitudinalidade, integralidade e coordenação do cuidado. No Brasil, sua versão reduzida, com 30 questões totais e 27 referentes aos atributos essenciais, foi validada e incorporada na PNS de 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tornando-se uma ferramenta estratégica para avaliações de gestão em saúde. A avaliação da orientação, com o instrumento completo, é feito pelo cálculo de um escore15.
Diante da quantidade de questões, que seria demasiado para a análise proposta, foi realizada uma pré análise Fatorial Exploratória, para seleção das perguntas que representariam as ações relacionadas aos quatro atributos essenciais. Destaca-se que o objetivo do presente estudo não era avaliar a orientação para APS como um todo. A metodologia desta análise e tabela com seu resultado final está disponível como Material Suplementar. O acesso de primeiro contato foi relacionado a pergunta: “Quando você tem um novo problema de saúde, você consulta este(a) médico(a) antes de procurar outro serviço?”. A longitudinalidade foi relacionada à questão: “Quando você vai ao serviço de saúde, o mesmo médico(a) o(a) atende em todas as consultas?”. A integralidade foi referida por quatro questões: “Você recebe orientações sobre alimentação saudável, boa higiene e sono adequados?”; “Você recebe orientações sobre exercícios físicos apropriados para você?”; “Os medicamentos são discutidos com o(a) médico(a)?”; e “Recebe orientações para prevenção de quedas?”. Embora não tenha composto nenhum fator (Material Suplementar), a coordenação do cuidado foi inserida neste estudo pela pergunta “Esse(a) médico(a) sugeriu que você fosse consultar um(a) especialista ou serviço especializado?”. As respostas foram classificadas como "presente" quando os participantes responderam “com certeza, sim” ou “provavelmente, sim”, e como "ausente" quando responderam “com certeza, não” ou “provavelmente, não”. Não houve cálculo de escores para cada atributo.
Para caracterização dos participantes da análise do estudo, foram utilizadas informações sociodemográficas obtidas a partir dos módulos C (características gerais dos moradores) e D (características educacionais) da PNS 2019. As variáveis analisadas incluíram: raça ou cor da pele autorreferida (C9), classificada em branca, preta, amarela, parda ou indígena; estado civil (C11), categorizado em vive com companheiro (casado) e não vive com companheiro (divorciado, desquitado, separado judicialmente, viúvo ou solteiro); e escolaridade (D9a), agrupada em menos de quatro anos de estudo e mais de quatro anos (ensino fundamental 1, ensino fundamental 2, ensino médio, superior ou pós-graduação).
As regiões geográficas foram organizadas de acordo com os estados de origem dos participantes, agrupados em cinco macrorregiões, sendo cada uma considerada uma categoria desta variável: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
Cada variável recebeu um código para a análise, conforme exposto no Quadro 1.

QUADRO 1
Análise estatística
A amostra foi descrita por meio de valores de média e desvio-padrão para as variáveis contínuas, com intervalos de confiança de 95%. Para as variáveis categóricas, os resultados foram expressos em percentuais, também acompanhados por seus respectivos intervalos de confiança de 95%. O percentual de realização de cada ação de saúde foi igualmente descrito por percentuais, com seus intervalos de confiança a 95%.
Para analisar as associações e explorar a estrutura das relações entre as sete variáveis de Atributos da Atenção Primária à Saúde e as regiões geográficas do Brasil, foi utilizada a Análise de Correspondência Múltipla (ACM)16. Essa análise permite projetar os dados em um subespaço de dimensão reduzida, otimizando a visualização das relações entre as categorias das variáveis estudadas. O subespaço é definido por eixos principais, responsáveis por captar a variância explicada pelas categorias.
Neste trabalho, a matriz de dados necessária à aplicação da análise de correspondência múltipla, foi representada pela matriz de Burt. A variância explicada por cada eixo foi usada para analisar o quanto da variabilidade de cada categoria foi capturada por esses eixos. Também foram consideradas as contribuições das categorias para a inércia dos eixos, ou seja, quanto da variabilidade do eixo é devida ao ponto, permitindo assim identificar quais pontos considerar para a interpretação de cada eixo. Quanto mais afastadas da origem do eixo, maior é a contribuição das categorias para a variância do eixo. Quanto mais variáveis e categorias, maior a dimensão do espaço e mais difícil e complexa é sua interpretação. Por essa razão e considerando a variância média da nuvem de pontos e as oito variáveis envolvidas nesta análise, foram examinados os dois primeiros eixos. A distribuição dos pontos é mostrada em gráficos chamados mapas perceptuais ou gráficos de correspondência múltipla. Quanto mais próximos estiverem os pontos, maior será a associação entre as categorias que eles representam.
A análise estatística foi processada com o software R (version 4.2.2, 2022), sendo utilizadas as bibliotecas survey, para consideração dos pesos para análise da PNS, e ca para realização da análise de correspondência múltipla. Foi considerado o peso do domicílio e dos moradores com calibração utilizado pela própria PNS e que se refere ao peso do domicílio e dos moradores com correção de não entrevista com calibração pela projeção de população - usado no cálculo de indicadores de domicílio e moradores, como o peso do morador13.

RESULTADOS
O presente estudo analisou 28.637 indivíduos com 60 anos ou mais, o que representa 10,25% da amostra total da PNS 2019 (n = 279.382). Todos os participantes eram residentes em domicílios cadastrados na Estratégia Saúde da Família (ESF). A média de idade foi de 70 anos (IC95%: 69,9; 70,2), com predominância do sexo feminino (56,3%; IC95%: 55,6; 56,9) em relação ao masculino (43,7%; IC95%: 43,1; 44,4).
A distribuição percentual para as variáveis sociodemográficas escolaridade, raça/cor da pele autorreferida, estado civil e distribuição geográfica estão apresentadas na Tabela 1.

TABELA 1

A Tabela 2 apresenta a distribuição percentual para as variáveis de ações realizadas na APS, relacionadas aos seus atributos essenciais.
TABELA 2
A análise dos resultados da Tabela 2 revela que 80,5% das pessoas idosas procura o mesmo médico antes de buscar outro serviço de saúde, quando enfrenta um novo problema (acesso de primeiro contato). Além disso, 77,7% afirmam que são atendidos pelo mesmo médico em todas as visitas (longitudinalidade). Quanto à coordenação do cuidado, 78,8% confirmam que o médico oferece sugestões e encaminhamentos a especialistas. Em relação à integralidade, 81,7% recebem orientações sobre alimentação, higiene e sono, 76% sobre exercícios físicos, 82,4% sobre medicamentos, e 67,3% sobre prevenção de quedas.
Ao que se refere a análise de correspondência múltipla, a Tabela 3 foi construída para apresentar as categorias e suas respectivas contribuições para os dois primeiros eixos. De acordo com as contribuições individuais das variáveis para cada eixo, o primeiro eixo é predominantemente composto pelas categorias associadas às variáveis de ações relacionadas à coordenação e integralidade. Já no segundo eixo, destacam-se como principais contribuintes as categorias relacionadas às variáveis de ações relacionadas a atenção de primeiro contato, longitudinalidade e as diferentes regiões geográficas do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul). Juntos, os dois eixos respondem por 65,5% da variabilidade dos dados. O gráfico de correspondência é apresentado na Figura 1.
TABELA 3
FIGURA 1
De acordo com a análise das contribuições e do mapa de correspondência da Figura 1, pode-se dizer que há uma leve associação entre a região Sudeste (RG:SE) com a ausência das ações associadas aos atributos essenciais da APS. Associados à esta região, estão pessoas idosas que não vão ao mesmo médico antes de ir a outro serviço de saúde quando apresenta um novo problema de saúde (APC:0), afirmam que quando vão ao “serviço de saúde”, não é o mesmo médico que as atende todas as vezes (LONG:0), o médico não faz sugestões, como indicações e encaminhamentos para consultar com especialista (COOR:0). Também há uma associação entre aqueles que não recebem orientações, especialmente em relação à alimentação, higiene, sono, prática de exercícios físicos e uso de medicamentos, sendo a relação com a prevenção de quedas um pouco menos intensa (INA:0, INB:0, INC:0 e IND:0).
A associação com a presença das ações relacionadas aos atributos essenciais da APS é observada principalmente com as regiões Norte e Nordeste (RG:N, RG:NE), mas também com a região Sul (RG:S), ainda que em menor intensidade. Nestas, há correspondência entre o relato de ir ao mesmo médico antes de ir a outro serviço de saúde quando apresenta um novo problema de saúde (APC:1), afirmar que quando vão ao “serviço de saúde”, é o mesmo médico que as atende todas as vezes (LONG:1), e que o médico faz sugestões, como indicações e encaminhamentos para consultar com especialista (COOR:1). Em relação à região Centro-Oeste (RG:CO) não há associação com nenhuma ação referente aos atributos, de forma positiva ou negativa. Por isso, este ponto não está dentro de nenhum conjunto da Figura 1.

DISCUSSÃO
O presente estudo buscou investigar a associação entre ações relacionadas à atributos da APS e as diferentes regiões do Brasil, por meio de uma análise de correspondência múltipla. Os resultados destacaram associação entre a região Sudeste (RG:SE) e a ausência dessas ações relacionadas aos atributos de acesso de primeiro contato (APC:0), longitudinalidade (LONG:0) e coordenação do cuidado (COOR:0). Isso se reflete em pessoas idosas que não consultam o mesmo médico repetidamente ou não recebem encaminhamentos a especialistas. Já nas regiões Norte, Nordeste e Sul (RG:N, RG:NE e RG:S), há uma maior presença dessas ações de cuidado, com as pessoas idosas relatando continuidade no atendimento médico e recebimento de orientações e encaminhamentos adequados (APC:1, LONG:1, COOR:1). Além disso, há uma carência de orientações sobre aspectos importantes de saúde, como alimentação, higiene, prática de exercícios, uso de medicamentos e prevenção de quedas (INA:0, INB:0, INC:0, IND:0) em todas as regiões.
A maioria das respostas à PNS 2019 foi fornecida por mulheres, o que possivelmente se deve ao fato de estarem mais presentes no domicílio no momento da coleta, enquanto homens poderiam estar no trabalho. Esse dado reflete a tendência nacional de maior procura de serviços de saúde por parte do público feminino, particularmente nos serviços de APS. No presente estudo, essa maior prevalência feminina é indicativa da relevância da APS na vida dessas mulheres, que estão cadastradas e demonstram maior acesso e familiaridade com o sistema de saúde. Essa diferença está fortemente associada a normas sociais e culturais que influenciam os padrões de autocuidado entre os gêneros, resultando em discrepâncias que impactam, inclusive, as taxas de mortalidade diferenciadas entre homens e mulheres17-19.
Adicionalmente, a alta proporção de participantes não brancos destaca o papel crucial do Sistema Único de Saúde (SUS) e da APS como meios de acesso a serviços de saúde para as populações mais vulneráveis17,18. A pesquisa também mostra que fatores como escolaridade e estado civil influenciam o uso de serviços de saúde públicos, por serem prevalentes pessoas idosas de baixa escolaridade, com maior procura entre aqueles com menor renda e um desejo aumentado de manter a saúde em dia19-22.
A caracterização do perfil das pessoas idosas da comunidade no âmbito da APS é imprescindível para o planejamento das ações com qualidade e com a prática assistencial de todos os profissionais nesse nível de atenção23. A APS possui ações que cooperam para a resolução da maioria dos problemas que as pessoas idosas vivenciam e, com isso, consegue reduzir a realização de procedimentos desnecessários, ampliando a utilização dos serviços e favorecendo a ação integral ampla8.
Para atender às necessidades das pessoas idosas, o governo brasileiro instituiu políticas públicas capazes de oferecer suporte a essa população. Em um país com mais de 30 milhões de pessoas acima de 60 anos, controlar as iniquidades se torna desafiador. Foram criados o Estatuto do Idoso, em 2003, a fim de regular os direitos assegurados a este grupo; a Política Nacional do Idoso, em 1994; o Pacto pela Vida e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, em 2006, para nortear ações sociais e de saúde a essa população24. Em 2014, foram publicadas as diretrizes para o cuidado das pessoas idosas no SUS, para orientar a organização do cuidado e ampliar o acesso da pessoa idosa às Redes de Atenção à Saúde (RAS)25.
A avaliação dos atributos essenciais da APS, considerando ações relacionadas a eles, é fundamental para compreender a eficácia e a qualidade dos serviços oferecidos para pessoas idosas. Segundo Silva et al.26, uma APS forte é capaz de atenuar o risco de hospitalização em pessoas idosas frágeis. Esse mesmo estudo mostra que sistemas de saúde que possuem como base a APS possuem melhores resultados, em comparação aos serviços que não se estruturam a partir desse nível de atenção26. No Brasil existem 21 iniciativas de ações, programas e estratégias da APS para cuidar da população e da comunidade em que vivem, de acordo com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS)27. Dentre as iniciativas estão a Academia da Saúde, Saúde na Hora e Estratégia Saúde da Família (ESF). A ESF brasileira está fortemente associada a um melhor desempenho do sistema de saúde quando comparado a postos tradicionais de saúde pública28.
Ao analisar as diferenças regionais neste estudo, percebe-se uma associação entre a região geográfica e a realização de ações de cuidado relacionados aos atributos essenciais da APS. As regiões Sul e Sudeste, que são mais urbanizadas e desenvolvidas economicamente, apresentam uma infraestrutura de saúde mais robusta. Isso, em teoria, deveria resultar em uma maior qualidade e resolutividade do atendimento, dado que deveria haver uma melhor integração entre os níveis de atenção à saúde29. No entanto, apesar dessas vantagens estruturais, para a região Sudeste não foi observado neste estudo uma associação com a realização de ações de cuidado e sim com a carência das mesmas, ainda que de pouca intensidade.
Em relação à região Sul, observou-se uma associação com as ações de cuidado da APS relacionados aos atributos de acesso de primeiro contato (APC:1), longitudinalidade (LONG:1) e coordenação do cuidado (COOR:1), embora com menor intensidade em comparação com as regiões Norte e Nordeste. Segundo Puccini et al.30, isso pode ser explicado pela priorização de atendimentos especializados em detrimento das necessidades da APS, levando a uma fragmentação dos serviços. Bousquat et al.31, ao analisar se a APS assume seu papel como ordenadora do sistema de saúde em diferentes cenários regionais brasileiros, observou que a região Sul possui pequenas fragilidades em relação à dimensão política, estrutural e organizacional, comparada às outras regiões brasileiras. Já os resultados de Chaves et al.29 mostram que, na região Sul, a continuidade no cuidado tem contribuído significativamente para a manutenção da saúde e para a resolutividade da APS.
Viver na região Sudeste não apresentou correspondência com a realização de ações relacionados aos atributos de acesso de primeiro contato, coordenação e longitudinalidade. Apesar de contar com mais centros de alta complexidade e especialistas, a qualidade dos serviços prestados e a implementação dos atributos da APS não estão diretamente proporcionais à disponibilidade de recursos, e as pessoas idosas acabam procurando direto a atenção especializada29. Por outro lado, as regiões Norte e Nordeste mostram uma associação com essas ações, sugerindo sua realização, refletindo a importância da ESF em áreas com menor urbanização e dificuldade de acesso a serviços secundários e terciários19,29,32. Nessas regiões, a APS se consolida não apenas como porta de entrada, mas como referência para diagnóstico, tratamento e acompanhamento de diversas condições de saúde19,32.
As regiões Norte e Nordeste enfrentam desafios importantes em relação ao acesso à APS, especialmente em áreas rurais, onde a escassez de recursos e as dificuldades de transporte limitam a mobilidade dos usuários29,32,33. Contudo, os cuidados primários nas regiões Norte e Nordeste são considerados melhores, possivelmente devido a políticas focadas na expansão da ESF, que visam atender as necessidades locais de saúde, promovendo um cuidado mais integral e comunitário. Carvalho et al.5 aponta a região Nordeste como a que mais aumentou a oferta de serviços, indicando pioneirismo desta região no crescimento do NASF-AB. No presente estudo, esses dados são confirmados pela associação dessas regiões com a realização de ações de cuidado vinculados aos atributos essenciais da APS analisados.
Em relação à região Centro-Oeste, o presente estudo não encontrou associação com nenhuma ação avaliada. Andrade et al.34 mensuraram a desigualdade socioeconômica no acesso aos serviços de saúde no Brasil e em suas regiões em 1998 e 2008, e identificaram que o Centro-Oeste apresentava a maior iniquidade no acesso a esses serviços. Além disso, Arruda et al.35, ao analisar os fatores que determinam o acesso e as desigualdades na saúde entre áreas urbanas e rurais durante o mesmo período, observaram que a região Centro-Oeste tinha um menor acesso à saúde, relacionado ao processo de urbanização que desloca a população de áreas rurais para urbanas.
Apesar da robustez do modelo da APS, alguns casos exigem encaminhamentos para serviços especializados, reforçando a necessidade de uma coordenação efetiva do cuidado. No Norte e Nordeste, essa questão se agrava pela menor disponibilidade de recursos e serviços especializados. Nestas regiões, as equipes da APS contam com o apoio matricial de especialistas e do NASF-AB como suporte para fortalecer o cuidado integral e evitar encaminhamentos desnecessários4,5,36. No Sudeste, embora haja mais recursos, a deficiência na coordenação do cuidado persiste, o que evidencia a necessidade de uma melhor integração entre os níveis de atenção29,37. Os resultados do presente estudo reforçam essas informações, referentes às pessoas idosas.
As disparidades regionais destacam a importância da APS como porta de entrada ao Sistema de Saúde, especialmente em áreas de difícil acesso32. O acesso inicial relatado por mais de 80% dos idosos, aliado à longitudinalidade do cuidado, fortalece a criação de vínculos entre os usuários e o sistema de saúde, fomentando a confiança nos serviços e promovendo uma abordagem centrada na pessoa19,20. Frente às desigualdades entre regiões, é crucial reforçar o papel da APS como ponto inicial de atendimento e coordenadora das Redes de Atenção à Saúde, especialmente na região Sudeste, para assegurar o cumprimento das diretrizes estabelecidas pela Política Nacional de Atenção Básica (PNAB)38. Tal fortalecimento ajudaria a aliviar a demanda sobre serviços de maior complexidade, permitindo um acompanhamento mais eficiente dos usuários. Adicionalmente, para garantir a integralidade do cuidado, é essencial implementar políticas que priorizem a prevenção de acidentes e agravos à saúde entre a população idosa, promovendo uma melhoria contínua na saúde desse grupo.
As ações relacionadas a integralidade do cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS) não demonstrou associação com as diferentes regiões do Brasil, o que reflete uma percepção de insuficiência no atendimento de aspectos essenciais da vida das pessoas idosas, como orientações sobre uso adequado de medicamentos, higiene, nutrição, sono e prevenção de quedas. Esses fatores são fundamentais para evitar hospitalizações e promover a autonomia das pessoas idosas, impactando diretamente sua qualidade de vida21,39. Garantir que essas ações sejam implementadas de maneira eficaz e equitativa em todas as regiões é um dos principais objetivos da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI)21,37,40.
Além disso, a ausência de associação entre ações relacionadas à integralidade do cuidado e as regiões geográficas pode ser explicada por diversos desafios estruturais e organizacionais. Em muitas Unidades Básicas de Saúde (UBS), as equipes são pequenas e não conseguem oferecer cuidados de forma integrada e multidisciplinar41. Esse problema é mais acentuado em áreas remotas, onde há escassez de profissionais de saúde, limitando a capacidade de resolução local41. Além disso, a APS ainda adota uma abordagem predominantemente curativa, deixando em segundo plano a promoção da saúde e a prevenção de doenças, áreas em que a educação em saúde é frequentemente negligenciada42. Esses fatores comprometem a implementação plena da integralidade e explicam a falta de associação observada entre ações relacionadas à integralidade e as regiões do país.
O estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas. Fatores socioeconômicos e estruturais, que poderiam influenciar a qualidade da APS, não foram amplamente explorados, limitando a compreensão de como esses fatores impactam os resultados. Também os atributos essenciais foram relacionados a ações pontuais, que fazem parte do PCATool, mas não são capazes de retratar o atributo como um todo, de forma individual. Esta limitação é decorrente da opção por manter a maior clareza dos resultados do método analítico selecionado. Entretanto, são capazes de fornecer direcionamento para elaboração de estratégias que podem qualificar o cuidado em saúde das pessoas idosas.
O estudo conta com importantes contribuições. A amostra é representativa, composta por 28.637 pessoas idosas, fortalece a validade externa, permitindo que os achados sejam generalizáveis a uma parcela significativa da população idosa brasileira. O uso de uma análise de correspondência múltipla proporcionou uma abordagem robusta para identificar associações entre variáveis, destacando disparidades regionais na realização de ações relacionadas aos atributos da APS. Esses achados contribuem para um melhor entendimento das desigualdades no acesso e na qualidade da APS no Brasil, no cuidado às pessoas idosas.
CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou diferenças entre as regiões do Brasil relacionadas ao cuidado da pessoa idosa na APS. As regiões Norte, Nordeste e Sul se destacaram pela maior presença de realização de ações associados a acesso de primeiro contato e longitudinalidade, refletindo uma APS mais estruturada e eficiente. Em contrapartida, a região Sudeste mostrou uma preocupante relação com a ausência de ações vinculados à longitudinalidade e coordenação do cuidado, o que pode impactar negativamente a continuidade e a qualidade da assistência prestada.
Esses resultados revelam desigualdades regionais na implementação da APS, com implicações diretas para a saúde da população idosa, que depende de cuidados contínuos e coordenados, especialmente no manejo de condições crônicas. O fortalecimento da APS nas áreas mais urbanizadas, como a região Sudeste, onde há maior fragmentação no cuidado, é crucial para garantir o acesso equitativo e a resolutividade do sistema de saúde.
Portanto, torna-se imperativo o desenvolvimento de estratégias de cuidado que assegurem uma APS de qualidade em todas as regiões do país, com foco na redução das disparidades regionais e na promoção de um cuidado integral, acessível e coordenado. Investimentos em capacitação de profissionais, ampliação da cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) e fortalecimento da articulação entre os níveis de atenção são fundamentais para otimizar os desfechos de saúde da população idosa e, ao mesmo tempo, promover a equidade no sistema de saúde.

Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo
REFERÊNCIAS
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Moreira, WEM, Silva, SLA, Giarola, LTP, Leite, ICG. ASSOCIAÇÃO ENTRE AÇÕES RELACIONADAS A ATRIBUTOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA E REGIÕES DO BRASIL NO CUIDADO ÀS PESSOAS IDOSAS. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/out). [Citado em 06/11/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/associacao-entre-acoes-relacionadas-a-atributos-da-atencao-primaria-e-regioes-do-brasil-no-cuidado-as-pessoas-idosas/20187

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