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Artigos

0261/2026 - BARREIRAS E FACILITADORES PARA IMPLEMENTAÇÃO DA AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL DA PESSOA IDOSA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
BARRIERS AND FACILITATORS FOR IMPLEMENTING THE MULTIDIMENSIONAL ASSESSMENT OF OLDER PERSON IN PRIMARY HEALTH CARE

Autor:

• Letícia Pimenta Costa Guarisco - Guarisco, LPC - <lepcosta@ufscar.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2687-5310

Coautor(es):

• Vania Aparecida Gurian Varoto - Varoto, VAG - <vaniav@ufscar.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3763-5638

• Isabela Martins Oliveira - Oliveira, IM - <isabelamgo@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5838-6944

• Ana Luiza Blanco - Blanco, AL - <ana.bllanco@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4711-9642

• Gabriela Zenaro Manin - Manin, GZ - <gzmanin@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0009-0289-8866

• Ingrid Bernardinelli - Bernardinelli, I - <ingridbernardinelli220894@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7201-8267

• Reijane Salazar Costa - Costa, RS - <reijaneufscar@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8731-0084

• Karina Gramani-Say - Gramani-Say, K. - <gramanisay@ufscar.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2451-8109



Resumo:

A avaliação multidimensional da pessoa idosa (AMD) auxilia no planejamento do cuidado e gera indicadores para a atenção primária à saúde (APS), sendo um importante instrumento de gestão. O estudo objetivou identificar barreiras e facilitadores para a implementação da AMD na APS das cinco regiões brasileiras e analisar como esses fatores se associam ao registro da AMD. Pesquisa transversal, descritiva, realizada por questionário direcionado a gestores e profissionais da saúde para identificação de barreiras e facilitadores para implementação da AMD na APS. Foram realizadas análises descritivas e de regressão logística com nível de significância de 5%. A pesquisa foi respondida por 2.639 participantes de 1.819 municípios brasileiros. As barreiras mais prevalentes foram o desconhecimento da AMD como instrumento de gestão e a falta de clareza sobre a responsabilidade compartilhada em sua aplicação. Entre os facilitadores, destacaram-se ações de educação permanente e o apoio técnico da gestão municipal. Estratégias como capacitação contínua, motivação das equipes e inclusão da saúde da pessoa idosa na agenda técnica aumentaram a chance de registro da AMD. Conclui-se que investir em formação, organização dos fluxos de trabalho e fortalecimento da gestão local é essencial para ampliar a implementação efetiva da AMD na APS.

Palavras-chave:

Gestão em saúde; Saúde do idoso; Atenção primária à saúde.

Abstract:

The Multidimensional Assessment of Older Adults (AMD) supports care planning and generates indicators for Primary Health Care (PHC), serving as an important management tool. This study aimed to identify barriers and facilitators for the implementation of AMD in PHC across Brazil’s five regions and to analyze how these factors are associated with AMD registration. This was a cross-sectional, descriptive study conducted through a questionnaire directed at health managers and professionals to identify implementation barriers and facilitators. Descriptive and logistic regression analyses were performed with a 5% significance level. The survey was completed by 2,639 participants from 1,819 Brazilian municipalities. The most prevalent barriers were the lack of knowledge about AMD as a management tool and the lack of clarity regarding shared responsibility for its application. Among the facilitators, continuing education initiatives and technical support from municipal management stood out. Strategies such as ongoing training, team motivation, and the inclusion of older adult health in the municipal technical agenda increased the likelihood of AMD registration. It is concluded that investing in training, organizing work processes, and strengthening local management is essential to expand the effective implementation of AMD in PHC.

Keywords:

Health Management; Health of the Elderly; Primary Health Care

Conteúdo:

1. INTRODUÇÃO:
A Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMD) configura-se como uma das principais estratégias para garantir o cuidado integral à saúde da população idosa, especialmente no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS)1. Alinhada às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), a AMD permite identificar demandas de forma precoce, orientar intervenções e subsidiar a tomada de decisões, o planejamento e a reorganização dos serviços, contribuindo para a formulação de políticas públicas mais efetivas1,2.
Os desafios na construção de modelos de gestão em saúde no Brasil são significativos, principalmente diante da predominância de um modelo assistencial centrado no tratamento de doenças instaladas3-5. Em contraponto, observa-se um esforço crescente na adoção de estratégias voltadas à promoção da saúde e à prevenção de agravos, nas quais a APS ocupa papel central, com modelos de cuidado centrados na pessoa, enfoque multidisciplinar e linhas de cuidado integradas 1,6-9. A gestão eficaz nesses níveis depende diretamente da atuação dos gestores, que influenciam a organização do trabalho e os resultados assistenciais10-11.
O envelhecimento populacional impõe novas exigências aos modelos de cuidado em saúde, especialmente devido à alta prevalência de doenças crônicas e condições de fragilidade12,13. A resposta a essas demandas requer gestores preparados e políticas articuladas entre os diversos setores da atenção à saúde da pessoa idosa. A longevidade crescente, ainda que represente desafios assistenciais, também reflete avanços sociais e tecnológicos, maior acesso aos serviços de saúde e melhorias nas condições de vida 10–15.
A qualidade do envelhecimento está diretamente relacionada à existência de políticas públicas que assegurem direitos e promovam um envelhecimento ativo e saudável1,12. A Política Nacional da Pessoa Idosa e o Estatuto da Pessoa Idosa constituem marcos nesse sentido16, enquanto a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa destaca a avaliação multidimensional e a educação permanente das equipes como estratégias centrais para o cuidado integral8,9,17,18.
A saúde da pessoa idosa, baseada em um modelo de atenção integral, requer ferramentas como a AMD e a estratificação de risco para orientar intervenções qualificadas1,19. A escolha dos instrumentos da AMD deve considerar a heterogeneidade do envelhecimento, as necessidades da população idosa, o contexto territorial e os serviços disponíveis1,2,18,19. A análise dos diferentes domínios da AMD permite identificar condições funcionais e de bem-estar, subsidiando o diagnóstico da pessoa idosa e do território, além de orientar o planejamento em diferentes níveis de gestão2,18-21.
As ferramentas devem ser escolhidas considerando as características da equipe de saúde e a aplicabilidade dos instrumentos, alinhando-se ao contexto locorreginal1. Com isso, as linhas de cuidado podem ser estruturadas de acordo com os recursos existentes, favorecendo a manutenção da autonomia e da funcionalidade da pessoa idosa1,2,19. A aplicação da AMD possibilita a detecção precoce de riscos e vulnerabilidades, orienta intervenções e identifica necessidades de cuidados mais complexos1,16,19. Os dados obtidos também podem ser utilizados em ações de proteção social e garantia de direitos,20.
A implementação da AMD na APS exige planejamento coordenado entre gestores e equipes multiprofissionais1. O cronograma de trabalho deve incluir aplicação da AMD, discussão de casos, elaboração de planos de cuidado e ações em todos os níveis. Os registros individuais devem ser integrados ao Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) permitindo análise coletiva dos dados, monitoramento e acompanhamento longitudinal dos indicadores em saúde, identificação de demandas e educação permanente, agregando às atividades regulares e auxiliando o planejamento futuro1,7,11,21.
Apesar de a atenção à saúde da pessoa idosa estar ancorada em diretrizes consistentes, estudos apontam fragilidades no cuidado ofertado, destacando barreiras que dificultam a adoção de modelos de cuidado integral e resolutivo. Entre essas barreiras, estão a escassez de recursos humanos, a ausência de planejamento de linhas de cuidado, a fragmentação dos processos de trabalho e a fragilidade na comunicação entre equipes e entre os serviços de diferentes níveis assistenciais22–24. A educação permanente, portanto, é essencial para o desempenho das equipes ao longo de sua atuação profissional17,25.
Nesse contexto, gestores e profissionais de saúde enfrentam desafios constantes para implementar ações de cuidado integral. Embora a AMD represente uma estratégia concreta para enfrentar esses desafios, são escassos os estudos que investigam, de forma abrangente, os fatores que influenciam sua adoção no SUS. Diante dessa lacuna, o presente estudo tem por objetivo investigar as barreiras e os facilitadores para a implementação da AMD na APS, com base na percepção de profissionais e gestores da saúde pública das cinco regiões do Brasil. Além disso, o estudo apresenta uma proposta original ao analisar como esses fatores se associam ao registro da AMD nos serviços, contribuindo para o fortalecimento das práticas de cuidado integral à pessoa idosa.

2. MÉTODO
Para desenvolver essa pesquisa, todos os norteadores éticos dispostos na resolução CNS 510/16 foram respeitados com aprovação pelo comitê de ética em pesquisa da Universidade (removido para avaliação a cegas) (CAAE: 71079923.3.0000.5504 e parecer: 6.289.782 ) 26.
Trata-se de um estudo transversal, descritivo e observacional com abordagem quantitativa27. Foram utilizados dados oriundo de um projeto de extensão desenvolvido por uma universidade brasileira em parceria com a Coordenação de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa na Atenção Primária do Ministério da Saúde (COPID/MS) por meio de um Termo de Execução Descentralizada (TED). O objetivo primário do projeto foi qualificar a atenção ofertada à saúde da pessoa idosa por meio de apoio técnico a gestores estaduais, municipais e técnicos de referência da APS nas cinco regiões brasileiras.
Todas as unidades federativas da união foram elegíveis a participarem deste projeto, bem como os municípios que aderiram à caderneta de saúde da pessoa idosa em 2016, nas diferentes regiões do país, com cobertura de 100% dos estados. O público-alvo incluiu gestores estaduais de saúde e gestores regionais (para os estados que possuem regionalização do território), bem como gestores municipais da APS e técnicos de referência por eles indicados, que atuavam na gestão do cuidado à pessoa idosa na APS. O processo de recrutamento dos participantes iniciou-se com reuniões virtuais, realizadas por Estado, para a apresentação do projeto aos gestores estaduais e regionais, visando à pactuação de sua execução e à sensibilização quanto à relevância de se incorporar a promoção da saúde da pessoa idosa nas agendas técnica e política, bem como na rotina dos profissionais das unidades de Atenção Primária à Saúde (APS). Posteriormente, com o suporte dos gestores estaduais e regionais, os municípios foram contatados para verificar o interesse em aderir ao projeto e solicitar a indicação de dois participantes, preferencialmente profissionais da saúde com cargo de gestão em saúde no município, da APS ou referência técnica na área do envelhecimento.
Após o aceite dos municípios em aderirem ao projeto, os representantes indicados participaram de uma oficina presencial de dois dias. Por meio de metodologia ativa, os participantes foram sensibilizados sobre a importância da AMD como ferramenta de gestão, planejamento, implementação e registro adequado no sistema de informação, projeto terapêutico individual e monitoramento, além de fluxogramas para linhas de cuidado e articulação de redes. Após a oficina, foi oferecida teleconsultoria por um ano para apoiar a elaboração e acompanhamento de planos municipais de implementação da AMD.
O critério de inclusão para este estudo foi ser um representante municipal participante do projeto. Representantes estaduais e regionais foram excluídos.
A coleta de dados ocorreu entre 2022 e 2023, por meio de questionário semiestruturado aplicado via plataforma Google Forms e enviado aos participantes do projeto antes do início das oficinas presenciais. A participação foi voluntária e não envolveu seleção aleatória dos respondentes, caracterizando uma amostra não probabilística, obtida por conveniência.
O questionário foi elaborado pelos pesquisadores e equipe do projeto, e validado pela COPID/MS, com o intuito de conhecer as características dos territórios e gerar indicadores de acompanhamento. Foram incluídas questões relativas ao município, cargo e formação acadêmica dos respondentes, uso da AMD na APS, bem como as principais barreiras e facilitadores à sua implementação nos territórios de sua responsabilidade.
Para investigação das barreiras e dos facilitadores, os pesquisadores preparam um checklist de opções que incluíam itens relacionados aos instrumentos de AMD, ao serviço, à gestão e à qualificação e disponibilidade das equipes assistenciais na APS. Essa estratégia foi utilizada para que o respondente pudesse refletir sobre os diversos aspectos que poderiam se configurar como barreiras ou facilitadores para a aplicação da AMD na APS. Também foi dada a opção de resposta “não identifico dificuldade alguma” ou não identifico facilitadores”.
As opções de barreiras apresentadas foram: dificuldade de compreensão ou não conhecimento sobre a AMD como instrumento de gestão em saúde; excesso de atividades administrativas; excesso de atividades assistenciais; falta de valorização/priorização da gestão em relação à saúde da pessoa idosa na agenda técnica e política municipal; falta de divulgação sobre o uso da AMD; falta de recursos humanos nas Secretarias Municipais da Saúde para monitoramento do uso da AMD; resistência da equipe técnica na aplicação e uso da AMD em virtude do tempo de preenchimento da avaliação; falta de clareza sobre a responsabilidade compartilhada no preenchimento; existência de regiões de difícil acesso para as equipes.
Os facilitadores apresentadores foram: oferecimento de ações de educação permanente voltadas para saúde da pessoa idosa; inclusão do tema saúde da pessoa idosa na agenda técnica do município; apoio técnico da gestão municipal para realização dessas ações; apoio político nas decisões sobre a saúde da pessoa idosa; existência de políticas públicas municipais/programas sobre a saúde da pessoa idosa; profissionais qualificados na área de envelhecimento; disponibilidade de profissionais para aplicação da AMD; número de profissionais interessados/motivados sobre a saúde da pessoa idosa.
Para avaliar o registro da AMD, utilizou-se o número absoluto de registro da AMD de cada município participante, obtidos no sistema e-SUS Atenção Primária (e-SUS APS), disponibilizados pelo Ministério da Saúde, referente ao quadrimestre anterior ao início das atividades do projeto (maio a agosto de 2022). Os municípios foram classificados em duas categorias: com registro (um ou mais registro de AMD no período apurado) e sem registro (ausência de registro de AMD no período apurado).
Análises estatística
Os dados foram extraídos da plataforma online, estrutura do recurso google forms, e extraídos para planilhas do software Microsoft Excel e, após, as análises foram realizadas no Software Stata 14.0. As respostas dos participantes de um mesmo município foram compiladas e consolidadas considerando-se como afirmativos as barreiras e facilitadores mencionados por, pelo menos, um dos respondentes daquele local. Isso se deve ao fato de terem sido disponibilizadas duas vagas por município.
Para analisar o registro da AMD, bem como as barreiras e facilitadores, realizou-se uma análise comparativa entre as diferentes regiões por meio do teste de Qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5%.
A fim de avaliar os facilitadores associados ao registro da AMD em cada região brasileira, foi utilizado modelo de regressão logística binária. Os municípios foram classificados em duas categorias: com registro e sem registro (categoria de referência). Cada facilitador citado no questionário foi utilizado como variável independente nas análises, de maneira isolada. Como variável de ajuste, foi utilizado o tipo de município de acordo com a classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): rural, intermediário e urbano 28. Foram obtidas as Odds Ratio (OR) e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC 95%) de todos os resultados.

3. RESULTADOS
O projeto alcançou 2.618 municípios e contou com a participação de 4.445 pessoas. A amostra final incluiu 1.819 municípios com respostas válidas. Estas respostas foram consolidadas a partir de 2.639 respondentes municipais, representando uma taxa de resposta de 59,36% dos participantes e de 69,48% dos municípios. Dos municípios brasileiros representados no questionário, 40,02% eram do Nordeste (n=728), 22,81% do Sul (n=415), 14,02% do Norte (n=255), 13,25% do Sudeste (n=241) e 9,90% do Centro-Oeste (n=180). Dentre os respondentes, 57% ocupavam cargos de gestão em saúde (coordenador, supervisor, referência técnica ou secretário municipal) e os demais eram profissionais da APS que ocupavam o cargo de gestão da unidade.
Segundo os dados obtidos por meio da plataforma online E-SUS-APS no período que antecedeu o início do projeto, aproximadamente 46% dos municípios representados não tiveram registro da AMD nos sistemas de informação (Tabela 1). A região Sul apresentou a maior proporção de municípios com registros de AMD.

As barreiras mais relatadas para a aplicação da AMD segundo a visão dos participantes municipais estão apresentadas na Tabela 2, sendo que a frequência variou significativamente entre as diferentes regiões do país. De maneira geral, nota-se um desconhecimento sobre o uso e aplicação da AMD, bem como falta de clareza sobre a responsabilidade compartilhada no seu preenchimento em todas as regiões do Brasil. Destaca-se a maior frequência de relato de regiões de difícil acesso e falta de recursos humanos na região norte, enquanto na região sul destaca-se a resistência das equipes para aplicação e uso da AMD e o excesso de atividades administrativas e assistenciais, comparados às demais regiões do país.

Com relação aos facilitadores, destacaram-se como mais relatados o oferecimento de ações de educação permanente voltadas para saúde da pessoa idosa e o apoio técnico da gestão municipal para realização dessas ações, sem diferença estatística entre as regiões, bem como a inclusão do tema saúde da pessoa idosa na agenda técnica do município, principalmente nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste (Tabela 3). Nas regiões Norte e Nordeste, a disponibilidade de profissionais para aplicação da AMD não foi citada como facilitador por nenhum dos respondentes.

Os resultados dos modelos de regressão logística (Tabela 4) mostraram que os facilitadores associados à maior chance de possuir registros da AMD (categoria de referência: municípios sem registro) variou entre as regiões CO, NE e S, no entanto para as regiões NO e SE não houve fatores associados.


4. DISCUSSÃO
O estudo, que teve por objetivo identificar barreiras e facilitadores para a implementação da AMD na APS e analisar como esses fatores se associam ao registro da AMD, evidenciou, de maneira generalizada, o desconhecimento sobre a AMD nas cinco regiões brasileiras e ressaltou a importância das ações de educação permanente como estratégia de promoção da aplicação da AMD. As barreiras para a implementação da AMD mais prevalentes neste estudo foram a dificuldade de compreensão ou não conhecimento das ferramentas da avaliação como instrumento de gestão e a falta de clareza sobre a responsabilidade compartilhada no preenchimento e divulgação sobre o uso, cujos dados corroboram com outros estudos 29-32.
Uma das principais dificuldades para a implementação de políticas públicas voltadas à Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMD) na Atenção Primária à Saúde (APS) é a insuficiente capacitação dos profissionais em geriatria e gerontologia, o que pode ser enfrentado por meio de estratégias de educação permanente sobre o tema9,25,32. Neste sentido, a adoção de planos de educação permanente para as equipes multiprofissionais é necessária para fortalecer formas de trabalho no sistema de saúde e potencializar competências individuais e coletivas 25. Essa capacitação tem sido viabilizada nas diferentes formas de educação, tanto presencial como em cursos à distância, por meio de técnicas e equipamentos de inclusão digital no território nacional 30,31. Embora o Ministério da Saúde disponibilize, por meio da plataforma da Universidade Aberta do SUS (UNASUS), cerca de dez cursos gratuitos relacionados ao envelhecimento, a baixa adesão sugere desconhecimento dessa oferta por parte dos profissionais.
Nesse sentido, é fundamental que o domínio da AMD como instrumento de gestão seja incorporado à formação dos gestores, os quais devem atuar como agentes de mudança ao incluir esse tema nas rotinas da APS e qualificar o planejamento do cuidado. Diante disso, torna-se essencial ampliar programas de qualificação permanente para profissionais e gestores de saúde em todas as regiões do país, além de incluir conteúdos sobre envelhecimento e sua heterogeneidade nos currículos de graduação e pós-graduação em diferentes áreas do conhecimento16,33. Também se recomenda que os processos de capacitação considerem os distintos níveis de conhecimento e habilidades dos profissionais, de modo a favorecer a implementação da AMD de forma colaborativa e alinhada às competências das equipes32,34.
Outra barreira bastante citada foi a falta de clareza sobre a responsabilidade compartilhada no preenchimento da avaliação multidimensional, aspecto que pode estar atrelado à sobrecarga de tarefas dos profissionais na APS e ao modelo de cuidado centrado no cuidado de patologias, que sobrepõe às medidas de cuidado integral à saúde, muitas vezes dificultando ações interdisciplinares e responsabilidades compartilhadas5,35-37. A sobrecarga de profissionais em saúde é um tema sensível nos diferentes serviços de atenção, como salienta Garcia e Marziale (2018), que analisaram os indicadores de sobrecarga profissional na atenção primária em uma revisão integrativa e observaram que estes apresentam-se esgotados em decorrência da alta demanda de trabalho, escassez de recursos humanos e a dificuldade no trabalho em equipe,37.
A heterogeneidade e as diferenças regionais do Brasil, como características socioeconômicas, de acesso e disponibilidade aos cuidados de saúde, denotam pontos relevantes a serem considerados pelos gestores no planejamento de ações mais efetivas em cada contexto, conforme previsto nas diretrizes de cuidado à pessoa idosa1,34. Barreiras estruturais foram relatadas por participantes da região Norte, como a dificuldade de acesso aos territórios atendidos pelas equipes de saúde e a escassez de recursos humanos, realidade também observada por Coelho et al. (2022), que identificaram dificuldades logísticas para transporte e distribuição de materiais essenciais à aplicação da AMD na região35.
Por outro lado, a região Sul evidenciou o excesso de atividades administrativas e assistenciais como barreira prevalente. O acúmulo de tarefas burocráticas reduz o tempo disponível para o cuidado direto e pode estar relacionado ao cumprimento de metas estabelecidas pela gestão38. A priorização de atividades administrativas em detrimento das assistenciais compromete a qualidade do cuidado, fragiliza a organização das ações voltadas à AMD e dificulta a integração entre os níveis de atenção3,9,38.
Embora na presente pesquisa os participantes tenham relatado diferentes barreiras e facilitadores, algumas medidas se mostraram importantes para minimizar essas dificuldades. A disponibilidade de profissionais para a aplicação da AMD e o oferecimento de ações de educação permanente, por exemplo, se destacaram como o facilitador mais citado entre os participantes, e foi associado à maior chance de registro da AMD na região centro-oeste. Já na região Nordeste, a motivação dos profissionais foi um facilitador associado ao maior registro da AMD. Em estudo que avaliou o impacto de capacitações sobre a AMD para profissionais da APS, 100% relataram aumento de motivação, 75% referiram maior confiança na assistência à pessoa idosa e mais de 87% aplicaram os conhecimentos adquiridos na prática30. Por outro lado, um estudo sobre a caderneta de saúde da pessoa idosa apontou que a ausência de capacitação adequada comprometeu a adesão das equipes à ferramentas39.
Na região Sul, a inclusão do tema da saúde da pessoa idosa na agenda técnica e política municipal foi identificada como facilitador associado ao registro da AMD. Um estudo realizado com gestores de saúde de um município da região enfatizou algumas estratégias implementadas pela gestão municipal, tais como a criação de cargos de gestão específicos de saúde da pessoa idosa, capacitação das equipes, reuniões frequentes e organização dos fluxos dentro da rede de atenção a partir da avaliação multidimensional 40. É imprescindível que os gestores estejam sensibilizados e comprometidos com o tema para consolidar a implementação de ações direcionadas ao envelhecimento nos municípios.
A identificação de barreiras e facilitadores é fundamental para reconhecer fragilidades nos processos de trabalho em saúde. Os resultados deste estudo reforçam a importância das parcerias estabelecidas entre as universidades e a COPID/MS, que têm contribuído para a qualificação de gestores da APS e fortalecimento da política de cuidado à pessoa idosa. A inclusão da educação permanente em saúde da pessoa idosa na agenda de planejamento das três esferas de gestão (federal, estadual e municipal) é fundamental para sustentar as transformações necessárias na APS.
Foi verificado, com base nos registros da AMD disponíveis junto ao Ministério da Saúde, que pouco mais da metade dos municípios participantes realizaram a AMD, embora muitos tenham feito um número reduzido de aplicações no período analisado. Tal fato dificultou a categorização dos grupos para a análise por regressão logística binária. Ainda assim, os resultados foram satisfatórios para identificar os principais fatores associados à promoção do registro da AMD nos municípios.
Este estudo apresenta como diferencial a inclusão de um elevado número de participantes, que atuam em todas as regiões e estados brasileiros. Esse aspecto é especialmente relevante considerando a diversidade territorial, social, estrutural e populacional do país. No entanto, os participantes não foram selecionados de maneira probabilística, mas por conveniência, uma vez que foram convidados para participar de um projeto. Adicionalmente, a taxa de resposta ao questionário foi inferior a 60%. Isso pode indicar um viés de voluntariado, em que os respondentes tendem a ser indivíduos com maior interesse, conhecimento sobre o tema e disponibilidade para participar de pesquisas. Esses vieses de seleção e de voluntariado representam limitações que podem afetar a validade externa dos resultados, dado que os participantes podem não ser representativos da população-alvo do projeto.
Ainda assim, ressalta-se que a relevância da temática e a abrangência da amostra conferem ao estudo potencial para subsidiar o planejamento de políticas públicas e fortalecer os processos de cuidado intersetorial e interdisciplinar nos diferentes contextos regionais. Os dados desta pesquisa são oriundos de um projeto de extensão que ofereceu qualificação presencial e consultoria virtual voltadas à implantação e fortalecimento da avaliação multidimensional da pessoa idosa para os municípios de todos os estados brasileiros durante dois anos, considerando as experiências e especificidades de cada região.

5. CONCLUSÃO:
Os achados deste estudo revelam que a principal barreira para a implementação da Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMD) na Atenção Primária à Saúde é o desconhecimento sobre a própria ferramenta, seguido pela falta de clareza quanto à responsabilidade compartilhada por sua aplicação. A recorrência desses fatores em todas as macrorregiões brasileiras indica não apenas uma fragilidade na disseminação da AMD, mas também uma lacuna na formação e na gestão das equipes quanto ao cuidado integral à pessoa idosa.
Por outro lado, a identificação das ações de educação permanente como principal facilitador aponta caminhos concretos para superar essas barreiras. A experiência da região Centro-Oeste, onde a capacitação e a disponibilidade de profissionais mostraram-se associadas ao aumento do registro da AMD, sugere que investimentos estruturados em formação podem gerar impactos diretos na adesão à ferramenta. Situações semelhantes nas regiões Nordeste e Sul — com destaque para a motivação das equipes e a priorização do tema na agenda técnica municipal — reforçam a importância do comprometimento institucional e da valorização do cuidado à pessoa idosa na organização dos serviços.
Conclui-se, portanto, que para avançar na implementação efetiva da AMD na APS, é fundamental investir em estratégias que articulem capacitação contínua, clareza nos fluxos e responsabilidades, apoio da gestão local e valorização das equipes. A superação das barreiras identificadas passa, sobretudo, pelo reconhecimento da AMD como instrumento estratégico para qualificar o cuidado, orientar o planejamento e garantir os direitos da pessoa idosa no sistema de saúde brasileiro.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.


5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Guarisco, LPC, Varoto, VAG, Oliveira, IM, Blanco, AL, Manin, GZ, Bernardinelli, I, Costa, RS, Gramani-Say, K.. BARREIRAS E FACILITADORES PARA IMPLEMENTAÇÃO DA AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL DA PESSOA IDOSA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/set). [Citado em 24/09/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/barreiras-e-facilitadores-para-implementacao-da-avaliacao-multidimensional-da-pessoa-idosa-na-atencao-primaria-a-saude/20159?id=20159&id=20159

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