0201/2026 - Chega de Bardin! O Círculo Vicioso da Análise de Conteúdo Brasileira
Enough of Bardin! The Vicious Circle of Brazilian Content Analysis
Autor:
• Rafael Cardoso Sampaio - Sampaio, RC - <cardososampaio@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5176-173X 1
Coautor(es):
• Cristiane Sinimbu Sanchez - Sanchez, CS - <cristiane.sinimbu@ufpr.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0247-3579
• Camila Schiavon Tigrinho - Tigrinho, CS - <camilatigrinho@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3374-4615
• Karina Ernsen - Ernsen, K - <karinaealves@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0008-0659-2103
• Josiane Ribeiro de Souza - Souza, JR - <josiane.rib12@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1362-6956
• Elysangela Dittz Duarte - Duarte, ED - <elysangeladittz@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8170-7523
Resumo:
A análise de conteúdo é uma técnica amplamente utilizada em pesquisas qualitativas no Brasil, mas apresenta fragilidades metodológicas devido ao predomínio excessivo do manual de Laurence Bardin. Aplicamos o método a 71 materiais tutoriais brasileiros para verificar a citação a Bardin, a replicação de seu modelo e a presença de nove aspectos de qualidade. Os resultados demonstram que 66% dos materiais sustentam abertamente a abordagem de Bardin e 62% o utilizam como base para o ensino da técnica, enquanto apenas um único trabalho contrasta criticamente com sua visão. Na avaliação dos aspectos de qualidade, os mais frequentes foram amostra, unidade de análise e software, enquanto os menos presentes foram treinamento de codificadores, replicabilidade e múltiplos codificadores. Tais ênfases e limitações refletem novamente o padrão presente no manual da autora. Discutimos a existência de um "círculo vicioso", no qual os tutoriais perpetuam os pontos fortes e as lacunas do modelo de Bardin, dificultando a incorporação de avanços metodológicos e o diálogo internacional. Para romper este círculo, propomos uma agenda que inclua estudos críticos, novos materiais didáticos, eventos, discussões epistemológicas, integração interdisciplinar, treinamento e criação de repositórios digitais.Palavras-chave:
análise de conteúdo; rigor científico; pesquisa qualitativa.Abstract:
Content analysis is a widely used technique in qualitative research in Brazil. However, it has methodological weaknesses due to the excessive predominance of Laurence Bardin's manual. We applied the method to 71 Brazilian tutorial materials to verify the citation of Bardin, the replication of his model and the presence of the nine quality aspects. The results show that 66% of the materials openly support Bardin's approach, with 62% using it as a basis for teaching the technique and only one work critically contrasts with her view. In the evaluation of quality aspects, the most frequently cited were sample, unit of analysis and software, while the least frequently cited were coder training, replicability and multiple coders. These emphases and limitations again reflect the pattern present in the author's manual. We discuss the existence of a 'vicious circle' whereby tutorials perpetuate the strengths and weaknesses of Bardin's model, thereby hindering the adoption of methodological advances and international dialogue. To break this cycle, we propose an agenda that includes critical studies, new teaching materials, events, epistemological discussions, interdisciplinary integration, training and the creation of digital repositories.Keywords:
content analysis; scientific rigor; qualitative research.Conteúdo:
A análise de conteúdo (AC) é uma das principais técnicas utilizadas para a análise de dados qualitativos em pesquisas na saúde coletiva e em diversas outras áreas do conhecimento. Trata-se de um procedimento sistemático que possibilita a organização, classificação e agrupamento de informações com características semelhantes, permitindo a realização de inferências sobre o conteúdo das fontes exploradas. A AC pode ser utilizada tanto em sua abordagem qualitativa, frequentemente aplicada à interpretação de dados produzidos por meio de entrevistas em profundidade e grupos focais, e outras técnicas qualitativas, quanto na análise de materiais diversos, como artigos, livros, conteúdos midiáticos e postagens em redes sociais, dentre outras aplicações.
As pesquisas que investigam a aplicação da análise de conteúdo no contexto acadêmico brasileiro têm evidenciado diversas fragilidades, com recorrentes críticas à forma como essa técnica vem sendo empregada em diferentes áreas do conhecimento. Um dos principais problemas identificados diz respeito à falta de rigor metodológico e fundamentação teórica consistente na utilização da AC. Pesquisadores de diferentes campos, incluindo a área da saúde, têm questionado o modo como a AC é aplicada. A análise de conteúdo (AC) enfrenta críticas severas por ser frequentemente utilizada de forma acrítica, sem transparência metodológica e desconectada de arcabouços teóricos robustos, servindo apenas como justificativa formal para confirmar resultados esperados sem efetiva sustentação nos dados. Pesquisas em diversas áreas, como Psicologia, Administração e Educação Física, demonstram que muitos estudos falham em seguir os passos mínimos recomendados pela metodologia, omitindo procedimentos essenciais e não estabelecendo um claro encadeamento entre os dados apresentados e sua efetiva interpretação1–6.
Fica evidente, portanto, que um considerável corpo de pesquisas sobre o emprego da AC no Brasil apontando falhas relevantes, que vão desde questões epistemológicas mais profundas até problemas pragmáticos de falta de transparência, rigor metodológico e fundamentação teórica na aplicação da técnica. Esse cenário sugere a necessidade de maior reflexão crítica e aprimoramento no uso da AC para que seu potencial analítico seja explorado de forma robusta e confiável.
Outra questão pontuada anteriormente é que o manual de análise de conteúdo de Laurence Bardin domina de forma atípica a literatura brasileira de análise de conteúdo. Diferentes estudos têm demonstrado de forma recorrente, que essa obra se constitui como a principal referência utilizada em pesquisas que empregam a AC no país4,5,7,8. Um uso excessivo de Bardin que parece estar naturalizado e ser incentivado pelos pesquisadores qualitativos.
Este artigo tem como objetivo ampliar os achados apresentados por dois estudos anteriores sobre o estado da arte da análise de conteúdo (AC) no Brasil9,10 e aprofundar a discussão sobre a temática. Primeiramente, os autores conduziram uma análise cientométrica9 abrangente, investigando a utilização da AC nos campos das humanidades e ciências da vida. A pesquisa visou identificar empiricamente se o manual de Laurence Bardin sobre a técnica constituía a principal referência no país. Para tal, foram analisados títulos, resumos, palavras-chave e metadados de autores e periódicos de 3.484 referências na SciELO. Utilizaram-se técnicas de ciência da informação, como co-citação e acoplamento bibliográfico. Os resultados revelaram que diversas versões do manual de Bardin eram frequentemente citadas em ambos os campos, dominando de forma atípica todos os clusters de cocitações analisados. Foi também evidenciado que a curva de crescimento de citações de Bardin acompanhava de perto a curva de crescimento da aplicação da AC no Brasil. Em outras palavras, Bardin tornou-se sinônimo de análise de conteúdo no contexto brasileiro9.
Posteriormente, foram examinadas a qualidade da aplicação da AC e se as citações a Bardin eram predominantemente apologéticas10. Para isso, uma amostra representativa e aleatória composta por 549 artigos que utilizaram ACs qualitativas foi construída. Esses artigos foram avaliados por meio de uma análise de conteúdo quanti-qualitativa. Já no próprio título do artigo foi destacado que havia “Muita Bardin, e pouca qualidade”. Isto porque, de maneira geral, os resultados indicaram uma qualidade baixa dos artigos em termos de detalhamento e disponibilização das categorias e unidades de análise, bem como de preocupação com a confiabilidade, transparência metodológica e validação dos dados. A pesquisa também sublinhou o uso exacerbado e acrítico do manual de Bardin10.
O presente estudo busca responder a uma hipótese levantada por Sampaio et al.9: além de o manual de Laurence Bardin ser amplamente utilizado como principal referência para a aplicação das ACs no Brasil, haveria também um círculo vicioso relacionado ao modo como essa técnica vem sendo ensinada. Neste contexto, o termo “vicioso” é compreendido como a repetição sistemática de práticas que se desviam de uma abordagem metodologicamente rigorosa e reflexiva, limitando o potencial analítico e crítico da técnica. Ou seja, os materiais didáticos e textos acadêmicos que ensinam sobre a AC - aqui denominados tutoriais - ainda seriam fortemente ou exclusivamente ancorados nas diretrizes do manual de Bardin para ensinar a técnica, sem dialogar com os avanços teóricos, metodológicos e epistemológicos acumulados nas últimas décadas. Portanto, a pergunta de pesquisa que orienta este estudo é: os materiais tutoriais contemporâneos sobre análise de conteúdo têm incorporado os aprimoramentos e atualizações da técnica, ou continuam replicando as bases estabelecidas por Bardin?
Metodologia
Para nossa avaliação, precisaríamos de um corpus abrangente de materiais tutoriais. Aqui, compreendemos tutoriais como artigos que ensinam a aplicar a técnica de pesquisa de análise de conteúdo ou que discutam aspectos metodológicos das aplicações. Para montá-lo, optamos por seguir princípios da revisão de escopo11 e especialmente da construção de um corpus qualitativo de textos12.
Assim, discussões epistemológicas e aplicações da AC foram descartadas, bem como não foram consideradas traduções de autores não brasileiros, pois acreditamos que eles não teriam a mesma influência do manual de Bardin e poderiam mitigar problemas do cenário brasileiro. Além disso, os autores optaram por não incluir os seus próprios materiais, uma vez que eles seguem, em maior ou menor medida, os princípios científicos que defendemos para uma AC, portanto evitando também o conflito ético de avaliar o próprio material. O manual de Bardin foi avaliado à parte para efeitos de comparação, mas seus resultados não foram incluídos no corpus.
Com tais critérios de exclusão estabelecidos, inicialmente, fizemos a leitura manual de títulos e resumos das 3.484 referências coletadas na SciELO para o mapeamento original do uso da análise de conteúdo na ciência brasileira9, no qual a busca se deu pelos termos “análise de conteúdo” e “análise do conteúdo”. Por meio desta leitura, 41 artigos foram selecionados como sendo materiais tutoriais. Após essa seleção, avaliamos as referências em busca de outros artigos, além de capítulos e de livros. Foram selecionados, assim, mais 10 livros, quatro capítulos e outros oito artigos não presentes no corpus inicial. Para finalizar, posteriormente, buscamos pelos termos “análise de conteúdo” e “análise do conteúdo” no Google Books e dois outros capítulos puderam ser encontrados. Os pesquisadores ainda incluíram seis capítulos de obras que circulam em suas áreas de atuação (notadamente Administração, Ciência Política, Comunicação, Educação e Saúde Coletiva). Assim, ao final construímos um corpus qualitativo de textos com 71 materiais tutoriais, sendo 49 artigos, 12 capítulos e 10 livros que ensinam ou discutem a aplicação de uma AC, que compreendem a pesquisa até o final de 2023. Por uma questão de ética, os materiais dos autores não foram incluídos.
Fig.1
Então, seguiu-se para a criação de um Livro de Códigos (LdC) que nos permitisse avaliar em que medida os textos tutoriais denotavam ou não a inclusão de etapas e princípios que reforçassem a qualidade da AC, notadamente em termos de confiabilidade, credibilidade, replicabilidade, transparência e validação dos dados13–16. O livro de códigos se baseou no estudo de Sampaio et al. (2022b) que avaliou ACs qualitativas em termos de citações e de aspectos de rigor e em avaliações da qualidade em pesquisas qualitativas16–20.
Assim, foi elaborado um livro de códigos com 12 categorias de análise (ver apêndice 1). As três primeiras buscavam verificar em que medida os textos tutoriais brasileiros citam e fazem uso de outros autores. Em outras palavras, é esperado que um artigo de cunho tutorial faça referências a outros textos do mesmo gênero, seja para criticar suas limitações, seja para realizar uma tradução ou mesmo simplificação de esquemas anteriores, tidos como excessivamente complexos. Por fim, tais referências também podem ocorrer em sentido oposto, ou seja, para apresentar esquemas de aplicação da técnica mais elaborados e com mais etapas de realização do que os atualmente existentes.
Então, inicialmente, avaliamos todos os autores de análise de conteúdo citados ao longo dos tutoriais e os codificamos a cada aparição no texto (i.e. codificação in vivo). Nosso objetivo era, então, verificar não apenas quantas vezes esses autores são acionados nas referências, mas também quantas vezes são acionados ao longo do texto, pois partimos do pressuposto que autores mais acionados são aqueles mais importantes e basilares para os tutoriais.
Com base em estudos anteriores, sabemos que o manual de Bardin é de longe o mais utilizado nas aplicações de AC no Brasil9,10, mas tentamos verificar o quanto essa situação se repete ou não nos materiais tutoriais. Em outras palavras, uma hipótese rival seria que temos vários textos tutoriais que não se baseiam em Bardin, porém que a literatura insiste em continuar utilizando predominantemente seu manual. Assim, dividimos essa verificação em duas categorias. Na primeira, verificamos apenas se Bardin era citada ou não e em que medida a citação era apologista ou crítica ao seu manual. E, em seguida, se o manual de Bardin era a base do texto tutorial, seguindo os seus princípios, como a divisão em três grandes etapas e suas recomendações em termos de criação de categorias, definição das unidades de análise e contexto, categorização e amostra.
Na sequência, a partir do método desenvolvido por Sampaio et al.10, buscamos verificar em que medida os textos tutoriais incluíam aspectos que aumentam o rigor e o caráter científico da análise de conteúdo, nomeadamente: construção de amostra ou corpus qualitativo; definição de unidade de análise, contexto ou registro; importância de utilização de software de análise qualitativo, como CAQDAs; importância da codificação ser realizada por mais de um codificador; necessidade de treinamento desses codificadores; importância de se lidar com a subjetividade da codificação ou mesmo realizar um teste de confiabilidade entre codificadores; importância de usar estratégias para validação dos dados; importância de haver transparência metodológica da pesquisa e importância de tornar disponíveis os resultados de forma pública e/ou de outras formas que permitam a replicação da pesquisa (ver livro de códigos no apêndice 1 para detalhes de cada categoria).
Após a definição do corpus de análise e do Livro de Códigos, foi estabelecida a unidade de análise como a de um parágrafo, enquanto a unidade de contexto são os dois parágrafos anteriores ou posteriores. Então, cada parágrafo foi analisado em busca das categorias e caso achado, codificado no NVivo. Seguiu-se a leitura de cada parágrafo em busca de outras categorias (as notas de rodapé foram consideradas para codificação).
Para padronizar a codificação entre os codificadores envolvidos na pesquisa foram realizados sete treinamentos, liderados pelo autor principal, nos quais eram selecionados documentos do corpus para codificação individual e posterior discussão em grupo, conforme sugestões de Sampaio e Lycarião15. Além do nivelamento da codificação, a cada rodada de treinamento, o LdC também foi aprimorado, com exemplos e melhores explicações.
Após se alcançar nível aceitável de padronização na codificação, passamos para a codificação, o corpus foi dividido entre os codificadores, e a codificação se deu por meio do software NVivo versão 11. Cada codificação foi conferida por um segundo codificador e discordâncias foram resolvidas pelo autor principal. Ao final, optamos por fazer uma validação transacional dos dados por uma pesquisadora especialista em análise de conteúdo externa à pesquisa, conforme indicação da literatura de pesquisa qualitativa18–20.
Resultados
Nesta seção, apresenta-se os resultados obtidos a partir da análise de conteúdo das fontes anteriormente apresentadas.
Resultados gerais
A primeira categoria, “Os(as) autores(as) citados(as) para apoiar a AC”, objetivava identificar quais autores são referenciados nos materiais que ensinam a técnica. Desta forma, todos os autores citados para explicar ou orientar a aplicação da AC eram codificados. Os resultados indicam que, ao longo dos artigos, livros e capítulos de livros tutoriais, 65 diferentes autores foram acionados como base da análise de conteúdo. Laurence Bardin foi notavelmente a mais citada em comparação aos demais autores utilizados com 430 citações, seguida por Maria Laura Franco (86 citações), Roque Moraes (50 citações), Martin W. Bauer (40 citações), Klaus Krippendorff (36 citações), Maria Cecília Minayo (34 citações) e Bernard Berelson (30 citações). Tal resultado já nos dá um indicativo de que Bardin é bastante acionada ao longo dos textos manuais.
A segunda categoria, “Bardin é referenciada como autora para fundamentar a AC?”, tinha o objetivo de verificar se as referências à Bardin nas fontes eram usadas para apoiar o modelo de AC da autora, para questionar ou criticar a perspectiva da autora, ou se era uma citação à autora entre outros citados para legitimar a AC. Para esta variável, tem-se como resultados que, dos 71 materiais, 47 (66%) sustentam, apoiam, elogiam o modelo de AC de Bardin, 12 (17%) estudos a mencionam de forma subjacente a outros autores ou neutra, 11 (15%) trabalhos não a citam e apenas um dos trabalhos tutoriais (0,014%) contrasta com a visão da autora21, abordando seus pontos cegos ou insuficiências.
A terceira categoria, “A base da metodologia empregada é o modelo de Bardin?”, buscava apreender se a metodologia ensinada, era basicamente uma reedição do modelo de Bardin, utilizando das três fases elencadas pela autora, sejam elas a pré-análise, a exploração dos materiais e o tratamento dos resultados e interpretações, conforme a Figura 1. Destaca-se que, dos 71 materiais analisados, quase 62% (n=44) usam a base do modelo de Bardin para ensinar como aplicar a AC.
As outras nove categorias se referem às características que conferem qualidade à análise de conteúdo. Assim, buscou-se avaliar se elas estavam presentes ou não nos materiais tutoriais. Ou ainda, se os autores explicitavam a importância de se verificar tais questões na aplicação de uma análise de conteúdo. Verificou-se que 59 materiais dos 71 totais constituíram a definição de uma amostra ou de um corpus qualitativo como um passo importante para o desenvolvimento da AC, e 57 consideraram o mesmo sobre a definição de uma Unidade de Análise, de contexto ou de Registro. Esses são elementos fundamentais para o desenvolvimento da técnica, bastante enfatizados no manual de Bardin22, mas que não são abordados por 12 e 14 materiais, respectivamente. Por sua vez, 31 tutoriais sugeriram o uso de softwares qualitativos para incrementar a análise de conteúdo, notadamente pelo uso de CAQAS, como Atlas.ti (n=11), NVivo (N=7), Alceste (n=4), MaxQDA (n=3) e afins.
A presença de mais de um codificador, ou seja, de mais de uma pessoa responsável por analisar e categorizar os dados, é considerada por diversos autores como fundamental para garantir a confiabilidade e minimizar possíveis vieses individuais13,16,23. A utilização de mais de um codificador permite a comparação e o cruzamento de resultados, verificando-se a consistência e a concordância entre as análises. Para tanto, é necessário que os codificadores recebam um treinamento adequado para garantir a uniformidade na aplicação dos critérios de codificação, reduzindo a subjetividade e aumentando a confiabilidade dos resultados. Apesar de ser um passo muito importante para o emprego da técnica, apenas 17 dos materiais que a ensinam destacam a presença de mais de um codificador na análise, enquanto somente nove tratam da realização de um treinamento entre os codificadores como um passo relevante da AC.
Nesse pressuposto, havendo mais de um codificador, é essencial que haja a adoção de mecanismos para lidar com as diferenças interpretativas dos codificadores e, preferencialmente, a realização de testes de confiabilidade entre codificadores13,14,16,24,25, para se garantir que as codificações não sejam aleatórias e que haja um padrão na forma como os códigos e as categorias são aplicadas. Esta importância foi destacada em 23 materiais.
A transparência metodológica consiste em descrever detalhadamente os procedimentos adotados na análise de conteúdo, desde a seleção e preparação dos dados até a categorização e interpretação dos resultados. Assim, permite que outros pesquisadores possam compreender e avaliar o rigor da análise realizada, aumentando a confiabilidade, a credibilidade e a replicabilidade dos estudos18,26. Ela foi denotada em 23 dos 71 materiais.
A validação dos dados é também um passo fundamental para garantir a confiabilidade dos resultados e para fortalecer a credibilidade da análise de conteúdo18,20,27,28, especialmente, quando não há a presença de dois ou mais codificadores ou testes de confiabilidade. Tal passo esteve explicitado em 28 materiais tutoriais.
Finalmente, avaliamos se os autores dos textos tutoriais sugeriam ações para incrementar a replicabilidade da análise e/ou a disponibilização em plataformas públicas dos resultados - outros pesquisadores devem ser capazes de reproduzir a análise utilizando os mesmos critérios e procedimentos, para chegar em resultados similares, mas também para permitir a revisão e a validação por parte da comunidade acadêmica29. Esse passo foi considerado relevante em apenas 15 dos materiais analisados. A tabela 1 resume os resultados encontrados na codificação.
Tab.1
De forma geral, podemos dizer que os principais materiais tutoriais brasileiros cobrem de maneira significativa, acima dos 80%, a necessidade da construção de uma amostra ou corpus qualitativo e a necessidade de definição de unidade de análise e contexto em uma análise de conteúdo.
A recomendação do uso de softwares para aprimorar a análise qualitativa e a importância das técnicas para validação dos dados foram temas presentes em aproximadamente 40% dos materiais tutoriais. A necessidade de transparência no detalhamento da metodologia e de atenção extra ao lidar com as diferenças interpretativas e a subjetividade da codificação, incluindo testes de confiabilidade entre codificadores, foi destacada em cerca de um terço desses materiais.
Por outro lado, os aspectos menos mencionados nos tutoriais referem-se à importância de contar com mais de um codificador (23%), de adotar medidas que facilitem a replicação da pesquisa (21%) e, especialmente, sobre a necessidade de treinamento adequado para os codificadores (12%). Estes aspectos representam, portanto, as principais lacunas identificadas na análise de conteúdo no contexto brasileiro.
Os materiais tutoriais em comparação a Bardin
Agora, em vez de olharmos apenas os totais da presença de aspectos de qualidade, achamos prudente investigar em que medida esses qualificadores foram apresentados em conjunto e como eles se comparam à análise proposta pelo manual de Bardin (ver apêndice 2). Dentre nove categorias de qualidade possíveis, a média dos materiais tutoriais foi de apontar apenas 2,85 aspectos. Dos 71 materiais, 23 (32%) apresentaram de 4 a 7 aspectos, enquanto 32 (45%) apresentaram dois ou menos indicadores em conjunto, sendo que quatro tutoriais não apresentaram nenhum dos nove aspectos que consideramos importantes para qualificar a análise de conteúdo, conforme disposto na tabela 2.
Tab.2
Do total, 25 (35%) tutoriais destacaram em conjunto a importância de amostra, unidade de análise e uso softwares. E se ignorarmos esses três qualificadores mais presentes (i.e. amostra, unidade de análise e software), 26 materiais tutoriais (36%) ficam zerados entre os outros seis outros aspectos analisados.
Se considerarmos a importância de uma análise de conteúdo contar com mais de um codificador, de existir um treinamento para esses codificadores e da necessidade de testes de confiabilidade para a codificação entre eles, então apenas quatro materiais tutoriais ressaltam esses aspectos em conjunto24,30–32.
Se considerarmos aspectos gerais para qualificar a análise de conteúdo, como transparência metodológica, validação dos dados e replicabilidade da pesquisa, apenas cinco trabalhos tutoriais destacam os três aspectos em conjunto33–36. Por sua vez, se destacamos os três qualificadores menos presentes (i.e. presença de mais de um codificador, treinamento de codificadores e replicabilidade), apenas três materiais explicitam a sua importância para a análise de conteúdo simultaneamente24,36,37. Os trabalhos tutoriais mais exemplares de nosso corpus foram do artigo de Santo, Isabel (2015) e Valentim et al (2005), além do capítulo de Maia et al (2022), que explicitaram a importância de sete dos requisitos. Alves et al (2006), Rossi (2014), Franco (2003), Herscovitz (2007) e Fonseca Júnior (2011) vem em seguida apresentando seis requisitos.
Em outras palavras, não apenas a maior parte dos materiais tutoriais disponíveis em português não explicita a importância de diversos aspectos de qualidade e cientificidade para análises de conteúdo como também há uma concentração em certos aspectos. Portanto, apenas pela leitura e uso de múltiplos materiais um analista de conteúdo estaria mais bem preparado para uma pesquisa mais rigorosa.
Pelo N reduzido, nenhum teste estatístico significativo foi capaz de evidenciar uma relação direta entre o uso do manual de Bardin e a falta da indicação de determinados critérios de qualidade em outros materiais tutoriais. Mas fizemos duas aproximações mais qualitativas. Ao elaborarmos uma matriz qualitativa de cruzamento simples entre os resultados anteriores e esta análise de Bardin, podemos ver que há, aparentemente, alguma relação entre eles, conforme a tabela 3.
Tab.3
Por sua vez, as análises de clusters permitidas pelo NVivo nos dão alguns indicativos. Com base na codificação anterior, criamos um nó binário, a base da AC é Bardin: sim ou não. Assim, as codificações (nós) dos documentos como um todo seriam consideradas e geramos uma análise de cluster baseada no coeficiente de Jaccard na similaridade de nossas codificações, que gerou a seguinte representação:
Gráfico 1
Como podemos ver, materiais tutoriais baseados em Bardin estão mais próximos de sugestões de explicações de amostra e de unidade de análise, pontos fortes do manual de Bardin, seguidos pelo apontamento do uso de software de análise. Enquanto os tutoriais que não têm Bardin como base estão, semanticamente, mais próximos das sugestões do uso de mais de um codificador, a realizar testes de confiabilidade e fazer testes de validação.
Também uma pequena exploração textual nos consegue dar um outro indicativo da predominância absoluta do uso do referencial de Bardin para a análise de conteúdo. Pelo NVivo, analisamos a correspondência exata de palavras presentes em nosso corpus, tendo os materiais completos como unidades de análise (portanto, todas as palavras de todo o corpus entraram na contagem). Conforme a tabela 4, podemos ver que “Bardin” é a sétima palavra mais acionada em nosso corpus, com 927 aparições e sendo a única dentre este grupo que diz respeito à identificação de algum autor utilizado para orientar a AC.
Também podemos achar referências a palavras comuns às etapas metodológicas da pesquisa qualitativa, a exemplo de dados, categorias, método, unidades, contexto, estudo, técnica, codificação, classificação, registro, técnicas, dentre outras. É interessante denotar que são palavras que podemos ligar a unidade de análise, unidade de registro, unidade de contexto, um ponto bastante reforçado no manual de Bardin. Não é sem surpresa que não vemos a presença de palavras como replicabilidade, confiabilidade, transparência e validação.
Tab.4
Então, optamos por fazer essas buscas dentro do NVivo, conforme a tabela 5. Novamente, fica claro que as menções a termos bem abordados no manual de Bardin aparecem de maneira bem significativa no corpus, como amostra ou corpus (n=509), unidade de análise, contexto e registro (n=682) e software (n=535). Enquanto os aspectos não tratados ou apenas mencionados no manual de Bardin são consideravelmente menos presentes no corpus dos materiais tutoriais nacionais, nomeadamente mais de um codificador (n= 87), treinamento dos codificadores (n= 18), teste de confiabilidade ou outras formas de lidar com subjetividade (n= 174), validação dos dados (n= 218), transparência metodológica (n= 44), replicabilidade (n= 59).
Tab.5
Discussão: o Círculo vicioso da análise de conteúdo brasileira
Como visto, temos resultados significativos. Primeiro, 100% dos 71 materiais tutoriais sobre análise de conteúdo no Brasil reunidos para nossa amostra citam Bardin, sendo que 66% (n=47) fazem uma citação positiva ao seu modelo e apenas 1 artigo em todo o corpus trata sobre seus limites. Entretanto, desses 47 materiais citantes, 44 manuais tutoriais (62% do total), na verdade, replicam o modelo de aplicação de análise de conteúdo de Bardin. São, na prática, materiais que tentam simplificar o modelo de Bardin, geralmente focando na abordagem categorial-temática da autora.
Então, se pesquisas anteriores mostravam que Bardin era amplamente citada nas análises de conteúdo em todas as áreas do conhecimento9 e que não havia contestações ou críticas ao modelo da autora ao se avaliar tais ACs10, agora evidenciamos que o problema é ainda maior: existe um círculo vicioso na análise de conteúdo brasileira. Não apenas referenciamos e citamos Bardin em excesso, mas também replicamos seu modelo e, consequentemente, seus limites para nossos tutoriais. Uma replicação que não é fiel às recomendações originais
Dito de outra forma, a literatura brasileira sobre análise de conteúdo não tem apresentado mudanças ou avanços substanciais nos últimos anos. Os pontos não abordados ou apenas mencionados pela autora também são aqueles que, no geral, são menos apresentados em manuais tutoriais disponíveis na literatura brasileira. Portanto, os limites identificados no manual de Bardin são amplamente replicados pela literatura nacional, mesmo quando tratamos de materiais tutoriais recentes que buscam ensinar a aplicação da técnica. Como já dissemos em outros momentos, o manual de Bardin não é atualizado há mais de 20 anos. Então, discussões cada vez mais presentes na literatura sobre métodos qualitativos, no geral, e análise de conteúdo, em específico, seguem sendo amplamente ignoradas pela literatura nacional.
O manual de Bardin apresenta limitações significativas quando utilizado para análises de conteúdo quantitativas e qualitativas. Para as análises quantitativas, não oferece orientações detalhadas suficientes sobre a criação de livros de códigos rigorosos, técnicas avançadas de amostragem de textos, treinamento e testes de confiabilidade entre codificadores, testes estatísticos pós-codificação e procedimentos robustos de validação dos dados. Embora mencione brevemente a importância desses elementos, não fornece um passo a passo adequado para implementá-los conforme os padrões atuais. Além disso, não aborda explicitamente técnicas de análise de grandes volumes de dados, o que pode dificultar a adoção de ferramentas que ofereçam suporte ao trabalho dos pesquisadores brasileiros.
No campo das pesquisas qualitativas, o manual de Bardin é deficiente em diversos aspectos metodológicos fundamentais. Entre suas principais lacunas destacam-se deficiência na orientação da construção de corpora qualitativos, a elaboração de livros de códigos para análises dedutivas, o tratamento da subjetividade dos codificadores, e a adoção de estratégias que garantam maior transparência metodológica, contribuindo para a credibilidade das análises. O manual também é limitado quanto às diversas formas de validação dos dados, e o uso de softwares CAQDAS que têm contribuído para o trabalho do pesquisador na sistematização, organização e análise de bancos de dados qualitativos mais volumosos. Além disso, ignora possibilidades de análise secundária de dados, os debates éticos sobre o tratamento de informações provenientes dos participantes. O manual não oferece diretrizes para lidar com os impactos dos meios digitais e online na comunicação e na pesquisa acadêmica, tampouco orienta sobre como lidar com esses novos fenômenos na análise de conteúdo como o uso dos repositórios online que ampliam a replicabilidade e a transparência dos processos analíticos.
A manutenção deste círculo vicioso, caracterizado pela repetição acrítica de um único referencial, restringe que pesquisadores pensem analiticamente, reconheçam as estratégias analíticas que precisam ser empreendidas para responder às perguntas de investigação e o potencial dos dados produzidos. Isso é especialmente pertinente em áreas, como Enfermagem, Saúde Coletiva, que lidam com dados sensíveis profissionais, de pacientes e geram dados que podem orientar políticas públicas na área. Ao negligenciarem contribuições de outras perspectivas teórico-metodológicas, dificultam a renovação epistemológica do campo e o avanço das investigações qualitativas.
Um dos maiores impactos desta estagnação está na implicação da qualidade das investigações qualitativas ao não incorporarem procedimentos mais rigorosos e responsivos aos princípios de transparência, confiabilidade, validade e, quando possível, de replicabilidade, como podemos ver na ausência desses termos entre os mais vistos nos manuais tutoriais brasileiros, parâmetros já reconhecidos como essenciais à robustez da produção científica. Isso significa que há também barreiras epistemológicas e culturais da pesquisa qualitativa no Brasil, o que tende a isolar a produção brasileira de análise de conteúdo, dificultando o diálogo com comunidades científicas que têm incorporado práticas metodológicas mais diversificadas e atualizadas, notadamente nas revistas de alto impacto.
Chega de Bardin?
Mas a culpa é de Bardin? Ou ainda, faz sentido que o manual da autora seja o centro de nossa crítica? Não deveria a crítica ser direcionada para a falta de sofisticação e atualização metodológica da análise de conteúdo tal como vem sendo praticada? Obviamente, não é o fato de usar o manual de Bardin que torna uma pesquisa qualitativa menos rigorosa, assim como o recorrer a manuais mais atualizados não garante, por si só, a qualidade metodológica de um estudo. É bastante razoável que futuros analistas de conteúdo continuem usando o manual de Bardin como ponto de partida, desde que esse uso não se limite a ele, mas que seja complementado por tutoriais e referenciais mais atualizados, sensíveis às demandas atuais e que contribuam para a qualidade da produção científica.
Dito isso, é importante esclarecer que a crítica aqui proposta não se dirige à obra de Bardin em si, tampouco ignora a sua relevância histórica na consolidação da análise de conteúdo no campo científico brasileiro. Entretanto, é possível afirmar que Bardin não é apenas o sintoma de uma estagnação metodológica na AC brasileira, ela se tornou também parte constitutiva do próprio problema.
Sua obra, fundamental para a sistematização inicial da técnica em língua portuguesa, adquiriu uma posição de hegemonia normativa. Ela é ensinada, recomendada e reproduzida, como se fosse a única referência legítima, segura e suficiente. Bardin tornou-se, assim, o nome condensador de uma prática institucionalizada, que atravessa bibliografias, disciplinas, formações metodológicas e trajetórias investigativas. Qualquer pesquisador que deseje aprender análise de conteúdo, no contexto brasileiro, quase inevitavelmente será encaminhado ao manual da autora.
Esse fenômeno tem consequências estruturais. A centralidade na indicação de Bardin desincentiva a busca por outros referenciais metodológicos, especialmente aqueles desenvolvidos em outras línguas e em contextos investigativos contemporâneos. O próprio sistema de formação de pesquisadores da graduação à pós-graduação reproduz essa lógica de fidelidade, inviabilizando o acesso a abordagens mais recentes, que respondem às exigências da ciência aberta, dos princípios de validade e confiabilidade em pesquisa qualitativa, e das transformações tecnológicas e éticas. É sintomático, por exemplo, que grande parte das bibliotecas universitárias brasileiras mantenham apenas traduções da obra de Bardin, negligenciando a aquisição de manuais mais recentes, inclusive em outras línguas, como inglês ou espanhol que podem ajudar a superar as deficiências aqui já apontadas.
Neste cenário, criticar Bardin (ou mais precisamente, criticar o uso acrítico e sistematicamente protocolar de Bardin) não é desmerecer a sua contribuição fundacional, mas propor um deslocamento epistemológico necessário. Dizer que Bardin se tornou parte do problema, é acima de tudo uma convocação à ruptura simbólica. Trata-se de interrogar não apenas o conteúdo de sua obra, mas os modos como ela estrutura o campo da análise de conteúdo no Brasil, limitando o repertório metodológico e a criatividade analítica do pesquisador qualitativo. Não se trata de descartar sua obra, mas propor as reflexões que nos conduzam a caminhos para uma análise de conteúdo mais plural, sofisticada e epistemologicamente consciente.
Há que se considerar a análise como um processo criativo construído a partir das descobertas que as próprias informações possibilitam ao pesquisador. Reposicionar a análise de conteúdo como prática viva, dinâmica e intelectualmente desafiadora implica em esforço consciente de desnaturalização dessa hegemonia metodológica, incluindo a revisão de práticas curriculares, políticas de aquisição bibliográfica, formas de avaliação metodológica em revistas e o modo como se ensina a escrever a seção de métodos em teses e dissertações.
Conclusão
Este estudo analisou 71 materiais tutoriais brasileiros que ensinam a aplicação de uma AC evidenciando a hegemonia do manual de Bardin como principal referência metodológica. Os dados confirmam que esta centralidade tem limitado a diversidade e atualização das abordagens analíticas, afinal 62% dos materiais replicam o seu modelo de aplicação, suas orientações, e os aspectos de qualidade mais recorrentes refletem as suas ênfases e omissões. O principal limite da pesquisa é trabalhar somente com materiais brasileiros, o que nos impede de fazer uma efetiva comparação com o cenário internacional. Futuros estudos podem tentar compreender se o fenômeno é exclusivo do Brasil ou se outras comunidades acadêmicas apresentam problemas similares. Outro limite foi não incluir busca por outras técnicas que aplicam a análise de conteúdo em seu interior, como a etnografia.
Nesse contexto, oferecemos sugestões a serem consideradas pela comunidade para romper o círculo vicioso da análise de conteúdo. Primeiro, o fortalecimento da circulação de referências metodológicas por meio da tradução de obras consagradas e da produção de tutoriais adaptados às demandas locais e contemporâneas. Segundo a revisão das políticas editoriais e das práticas de aquisição bibliográfica em instituições públicas e universidades, visando ampliar o acesso a fontes atualizadas sobre análise de conteúdo. Terceiro, a ativação de espaços acadêmicos formais e informais nos programas de pós-graduação, periódicos científicos, congressos, seminários, workshops e mesas-redondas para estimular o debate crítico e o intercâmbio entre pesquisadores nacionais e internacionais, com ênfase em transparência, replicabilidade e rigor ético. Quarto, a estruturação de infraestruturas colaborativas, incluindo redes de treinamento, disciplinas especializadas, grupos de pesquisa e repositórios digitais abertos, nos quais sejam disponibilizados conjuntos de dados, esquemas de codificação, relatórios, softwares, prompts para inteligência artificial e scripts para R, Python etc. Em todas as sugestões, os programas de pós-graduação e periódicos da área podem ter um papel fundamental no fomento á renovação epistemológica e metodológica da técnica.
Em um cenário em que os sistemas automatizados por inteligência artificial generativa ganham cada vez mais destaque para avaliação de conteúdos textuais e qualitativos de forma geral, reafirmamos o valor da análise de conteúdo empreendida pelo pesquisador humano de forma tecnicamente rigorosa e teoricamente ancorada.
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Agradecimentos
Os autores gostariam de agradecer a várias pessoas que ajudaram em momentos da pesquisa e na revisão do texto, nomeadamente Diógenes Lycarião, Larissa Herédia, Raquel Canuto e, especialmente, Rayza Sarmento.
Conflito De Interesses
Os autores declaram que não há quaisquer conflitos de interesses envolvidos na elaboração desta pesquisa.
Colaboradores
RCS participou de todas as etapas do estudo, a saber conceituação, curadoria de dados, análise formal, aquisição de financiamento, investigação, metodologia, administração do projeto, recursos, software, supervisão, validação, visualização, redação - rascunho original, redação - revisão e edição. CSS, CST, KE e JRS contribuíram com análise formal, investigação, metodologia, redação - rascunho original e redação - revisão e edição. EDD participou da análise formal, redação - rascunho original e redação - revisão e edição.
Declaração de disponibilidade de dados
O corpus de materiais analisados e o banco de dados de análise estão disponíveis no repositório OSF https://osf.io/j8fup. Acesso 10 ago. 2026.
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