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Artigos

0290/2026 - Condição de saúde mental de policiais rodoviários federais e fatores sociodemográficos e socioprofissionais associados
Mental health status of federal highway police officers and associated sociodemographic and occupational factors

Autor:

• Thiago Drumond Moraes - Moraes, TD - <thiago.moraes@ufes.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6250-3533

Coautor(es):

• Cristina Kuster Valentim - Valentim, CK - <cristina.kuster@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8809-304X

• Alline Alves de Sousa - Sousa, AA - <alline.sousa@ufes.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4643-8089

• Roberta Belizário Alves - Alves, RB - <roberta.alves@ufes.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1206-7427

• Daniel Amorim Cavalcanti - Cavalcanti, DA - <daniel.amorim@prf.gov.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0002-0249-8204



Resumo:

Estudos sugerem que policiais rodoviários federais vivenciam problemas de saúde mental
associados a fatores ocupacionais, mas há carência de levantamentos de abrangência nacional
com essa população. Diante disso, e apoiado na teoria da Psicodinâmica do Trabalho,
realizou-se pesquisa cujo objetivo foi comparar, a partir de uma grande amostra, o quadro da
saúde mental dos servidores da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em 2023 e 2024 e os fatores
sociodemográficos e socioprofissionais a ele associados. Trata-se de pesquisa exploratória-
observacional, realizada por meio de análise de dados coletados pela PRF contendo
informações demográficas e profissionais e respostas à escala de depressão, ansiedade e
estresse (DASS-21) de 7.864 servidores em 2023 e 7.881 em 2024. 13,7% dos servidores em
2023 e 12,5% em 2024 apresentaram sinais sugestivos de algum nível de sofrimento mental,

sendo 5,6% em 2023 e 4,2% em 2024 com níveis grave e extremamente grave. Em ambos os
anos, ser mulher, trabalhar há mais tempo na PRF, atuar apenas em atividades administrativas
e trabalhar na Região Sudeste aumentou a chance de estar em níveis mais graves de
sofrimento mental. Os dados podem contribuir para delineamento de políticas institucionais
de saúde na PRF do Brasil.

Palavras-chave:

polícia, saúde mental, trabalho, estresse ocupacional, fatores de risco.

Abstract:

Studies suggest that Brazilian Federal Highway Police officers experience mental health problems associated with occupational factors, but there is a lack of nationwide surveys involving this population. In light of this, and supported by the theory of Psychodynamics of Work, a study was conducted whose objective was to compare, based on a large sample, the mental health status of Federal Highway Police (PRF in Portuguese) officers in 2023 and 2024 and the sociodemographic and socioprofessional factors associated with it. This is an exploratory-observational study, conducted through the analysis of data collected by the PRF containing demographic and professional information and responses to the Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21) from 7,864 employees in 2023 and 7,881 in 2024. 13,7% of employees in 2023 and 12.5% in 2024 showed signs of a suggestive level of mental distress, with 5.6% in 2023 and 4.2% in 2024 experiencing severe and extremely severe levels. In both years, being female, having worked longer at the PRF, performing only administrative activities, and working in the Southeast Region increased the chance of experiencing more severe levels of mental distress. These data may contribute to the design of institutional health policies at the PRF in Brazil.

Keywords:

police, mental health, work, occupational stress, risk factors.

Conteúdo:

Introdução
A relação entre saúde mental e trabalho tem sido alvo crescente de preocupação devido aos
índices de adoecimento 1, 2 . Para contribuir com o enfrentamento da situação, o Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE) recentemente revisou a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) 3 ,
que estabelece diretrizes para a gerenciamento dos riscos ocupacionais. A NR-1 atualizada
reconhece o impacto dos riscos psicossociais do trabalho e a necessidade de monitorar a saúde

mental dos trabalhadores e fatores associados para adoção de medidas de proteção e de
promoção de saúde no trabalho. 
O gerenciamento dos riscos psicossociais é de extrema relevância para prevenção do
adoecimento mental, visto que o mundo do trabalho atual é fortemente marcado por um
cenário de intensificação das exigências laborais e redução de direitos trabalhistas, o que
contribui para que trabalhadores aumentem a autocobrança diante da pressão para elevar seus
níveis de produtividade e cumprir metas majoradas em prazos cada vez menores. Nesse
contexto, as condições e a organização do trabalho repercutem na saúde mental dos
trabalhadores 4 .
Além do contexto atual de precarização estrutural da força de trabalho, desfavorável à saúde
mental dos trabalhadores em geral 5 , o trabalho policial se destaca por ser extremamente
desgastante não apenas fisicamente, mas também emocionalmente 6 . Policiais, usualmente
lidam com perigo iminente, ficam submetidos a horários irregulares de trabalho, alimentação
e sono e estão expostos a intempéries, como chuva, sol, calor, barulho e poluição do ar 7 .
Ademais, atuam em conflitos sociais, expondo-se a interpretações e julgamentos da população
e da mídia, estando sob vigilância constante de órgãos de controle como Ministério Público e
a própria gestão 8 . Tal contexto laboral tem efeitos deletérios nos processos decisórios dos
policiais, percepção de autonomia e na saúde mental 9 .
Outrossim, há o fato de que os policiais rodoviários federais (prf) no Brasil enfrentam
diuturnamente expressiva violência do trânsito 10 , estando expostos ao risco de trafegarem e
atuarem em um ambiente de alto risco de colisões, e serem, frequentemente, os primeiros a
chegar em cenas de acidentes devastadores com casos de óbitos e ferimentos graves 11 . A
despeito do contexto singular de atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) dentre as forças

de segurança e seu possível efeito na saúde mental, ainda são escassas pesquisas sobre o tema
saúde mental e prf no Brasil 12 .
A PRF é uma instituição policial ostensiva-preventiva, subordinada ao Ministério da Justiça e
Segurança Pública, que atua em todo o território brasileiro. Ela desempenha o papel de
garantir a segurança nas rodovias federais e em áreas de interesse da União realizando
fiscalização e combate à criminalidade, e educação para o trânsito.
Estudos limitados a pequenas amostras, sugerem que prf vivenciam níveis intensificados de
sofrimento mental associados a fatores ocupacionais, tais como exigências emocionais da
profissão e conflito trabalho e família, e as exigências organizacionais, como a falta de
treinamento ou conflitos laborais 12, 13 . Demonstram também que as condições de trabalho
repercutem na capacidade laboral, na qualidade de vida, nas relações socioprofissionais e na
qualidade do serviço prestado 14 . Pesquisas com grandes amostras destes trabalhadores
concentram-se na condição de saúde física 15 , não incluindo dimensões psicológicas. 
Diante da ausência de estudos sobre a condição de saúde mental com grandes amostras e de
abrangência nacional de prf, propôs-se esta pesquisa que objetiva descrever e comparar o
quadro da saúde mental dos servidores da PRF em 2023 e 2024, bem como os fatores
socioprofissionais e sociodemográficos associados. Trata-se do primeiro levantamento de
grande porte sobre a condição de saúde mental dessa população no Brasil e os fatores que
predizem o adoecimento psíquico de um grupo populacional das forças de segurança
brasileira. Os resultados dessa pesquisa contribuem para ampliar as referências sobre a
condição de saúde mental.
Os resultados foram analisados a partir da perspectiva da Psicodinâmica do Trabalho 16 (PdT).
Esta teoria estuda os processos psicodinâmicos envolvidos na relação entre sofrimento e
prazer no trabalho e suas relações com as estratégias coletivas de defesa contra o sofrimento,

com o desenvolvimento de identidade psíquica em relação ao trabalho, e com o adoecimento
mental. Originalmente atrelada a abordagens qualitativas sobre vivências de prazer e
sofrimento no trabalho, a PdT no Brasil tem sofrido adaptações, e vem sendo empregada,
inclusive, como grade analítica de pesquisas de caráter quantitativo que avaliam os fatores
associados ao sofrimento patogênico no trabalho 17 . Nesta perspectiva, auxilia na produção de
hipóteses explicativas sobre as relações entre o sofrimento mental e diferentes fatores de
cunho laboral, ao evidenciar os mecanismos psicodinâmicos implícitos nos processos de
adoecimento.
Método
Trata-se de pesquisa exploratória-observacional, documental, de delineamento quantitativo e
natureza correlacional.
Procedimentos e fonte de dados
A pesquisa foi realizada a partir de dados produzidos e geridos pela Divisão de Saúde Integral
e Atenção ao Servidor (DISAS) da PRF em ações anuais do programa institucional de
promoção à saúde denominado Patrulha da Saúde, em todo o território nacional, com
participação voluntária de expressivo volume de servidores. Em tais ações, os trabalhadores
participam de atividades educativas e respondem questionários de rastreio das condições de
saúde mental. Em 2023 e 2024, o instrumento utilizado foi a Depression, Anxiety, Stress
Scale, de 21 questões (DASS-21) 18 . A participação neste programa é facultativa, e requisito
para a continuidade do acesso do servidor a outros programas da PRF, tais como o EFI
(Educação Física Institucional) e o IFR (Indenização por Flexibilização Voluntária do
Repouso Remunerado). O EFI concede ao servidor tempo destinado à atividade física
proporcional à carga horária: 1h para expedientes de 8h e 1,5h para jornadas superiores a 12h.
O IFR trata-se de uma compensação financeira para policiais que trabalham voluntariamente

em suas folgas. A DISAS necessita do rastreio de saúde mental também como subsídio para
avaliar as necessidades dos servidores.
Além destes dados da Patrulha da Saúde, a pesquisa usou informações sociodemográficas
(idade, sexo, raça/cor, naturalidade, conjugalidade, parentalidade), e socioprofissionais
(tempo no cargo, data de ingresso na função, função exercida, ser ou não chefe, estado em que
trabalha, ter ou não plano de saúde, ter ou não empréstimo) registradas em banco de dados de
servidores.
Os dados da DASS-21 foram obtidos por meio de formulário eletrônico disponibilizado a
todos os participantes durante as ações da Patrulha da Saúde, sendo vedada a resposta em
outro ambiente que não o organizacional. Somente membros da DISAS têm acesso aos
resultados do questionário, que é usado para busca ativa dos servidores cujo escore tenha
indicado níveis graves ou extremamente graves de estresse, ansiedade ou depressão, para
ofertar-lhes suporte psicoemocional.
Instrumentos e aspectos éticos
A DASS-21 é um instrumento composto por três subescalas que mensuram sintomas de
depressão, ansiedade e estresse vivenciados na semana anterior à participação da pesquisa. Os
escores das dimensões depressão, ansiedade e estresse são calculados pela soma dos itens
específicos de cada subescala, cujos valores, em escala do tipo likert, variam de 0 (sem
sintoma) a 3 (sintomas frequentes). Após a soma dos itens de cada subescala, e segundo a
orientação do manual do instrumento 18 , multiplica-se o escore por dois para que a pontuação
da DASS-21 seja idêntica à versão ampliada (DASS-42). Além das dimensões previstas pelo
instrumento, estudos indicam que a DASS-21 permite avaliar a condição geral do sofrimento
mental (general psychological distress) por meio da somatória do escore total dos itens 19 . Os
níveis de severidade das dimensões avaliadas por cada subescala (depressão, ansiedade e

estresse), bem como a condição geral de sofrimento mental, podem ser classificados a partir
de percentis de cortes previstos no manual 18-20 . O escore para cada dimensão da DASS-21 21 e o
escore total 20 são classificados em cinco níveis de severidade a partir dos seguintes pontos de
corte: normal (depressão: escores de 0-9; ansiedade: 0-7; estresse: 0-14; condição geral de
sofrimento mental: escore 0-16), leve (depressão: 10-13; ansiedade: 8-9; estresse: 15-18;
condição geral: 17-20), moderado (depressão: 14-20; ansiedade: 10-14; estresse: 19-25;
condição geral: 21-25), grave (depressão: 21-27; ansiedade: 15-19; estresse: 26-33; condição
geral: 26 a 29), e extremamente grave (depressão: ?28; ansiedade: ?20; estresse: ? 34;
condição geral: ? 30) 18, 20, 21 . A DASS-21 não é instrumento diagnóstico, mas possibilita
rastreio de sintomas que podem indicar algum nível de sofrimento mental. No presente estudo
o nível de severidade não é interpretado como severidade em sentido clínico, mas como
sugestivo de intensidade crescente de sintomas de sofrimento mental. Utilizou-se a versão
brasileira da DASS-21 21 , cujo estudo com população em geral demonstrou alta consistência
interna (?=0,92 para depressão, 0,90 para ansiedade e 0,85 para estresse). Não há estudo
específico brasileiro que avalie evidências de validade do instrumento na população de prf.
Os dados fornecidos pela PRF aos pesquisadores não contêm informações pessoais (nome,
endereço pessoal, documentos de identidade ou outras informações que permitem identificar
os participantes). O estudo observou todos os preceitos éticos, sendo precedido por Termo de
Cooperação Técnica assinado entre as partes e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa
com Seres Humanos sob o registro do Certificado de Apresentação de Apreciação Ética
(CAAE) n. 82467824.4.0000.5542.
Participantes
Participaram do levantamento 7.864 servidores em 2023 e 7.881 em 2024, sendo que 5.543
participaram tanto em 2023 quanto em 2024, 2.321 participaram somente em 2023, e 2.338

somente em 2024. Ou seja, o levantamento envolveu 10.202 servidores, o que corresponde a
78,98% de uma população de 12.917 servidores da PRF (considerando-se a base populacional
do ano de 2024). A extensa taxa de cobertura populacional obtida nesses levantamentos
minimiza em grande medida as limitações típicas de amostras não probabilísticas.
Participaram servidores com cargo de prf e administrativo (não policiais), de todos os níveis
hierárquicos. As respostas do levantamento de cada ano foram analisadas separadamente.
Considerando-se respectivamente os levantamentos de 2023 e 2024, 89,5% e 89,2% dos
trabalhadores são sexo masculino, idade média de 41,42 e 41,38 anos (dp=9,24 e 9,20), idade
média de ingresso na PRF de 31,50 e 31,54 anos (dp=5,2 e 5,29), 54,3% e 53,1% se
identificavam como pessoas brancas, 92,2% e 92,7% têm escolaridade superior, 62,4% e
62,1% são casados e 64,6% e 63,9% possuem filhos. Servidores em cargo de policial
compreendiam 99,5% e 99,3% (2023 e 2024 respectivamente) dos respondentes, sendo que
94,7% e 93,8% atuavam em Superintendências Estaduais, 69,1% e 67,4% atuavam em
delegacias regionais (unidades que contém os postos de fiscalização distribuídos ao longo das
Rodovias Federais), 69,1% e 67,3%, atuavam exclusivamente em atividade operacional e
17,3% e 19% exclusivamente em atividade administrativa. Cargos de chefia em algum nível
hierárquico foram ocupados por 27,4% dos servidores em 2023 e 27,9% em 2024. Em 2023,
28,6% eram Região Nordeste e 22,9% do Sudeste; em 2024, 26% eram do Sudeste e 25,8%
do Nordeste. Dentre os participantes, 46,4% e 47% tinham empréstimo consignado em folha
de pagamento e 72,3% e 71,9%, plano de saúde, em 2023 e 2024, respectivamente.
Análise dos dados
Dada a ausência de evidência de validade da DASS-21 nesta população, realizou-se análise
fatorial confirmatória (AFC) da escala, por meio de método de estimação do DWLS, erro-
padrão robusto e método de exclusão listwise, dada a não normalidade e natureza ordinal das

respostas. Posteriormente, foram realizadas análises descritivas e inferenciais dos resultados,
para cada ano, considerando-se as dimensões da DASS-21 (depressão, ansiedade e estresse) e
a condição geral do sofrimento mental (general psychological distress). Para identificação de
variáveis a serem inseridas no modelo de regressão, realizaram-se análises bivariadas não
paramétricas (testes de Kruskal-Wallis, Mann-Whitney ou correlação de Spearman) entre as
variáveis explicativas sociodemográficas e socioprofissionais (sexo, ter filhos, ser ou não
branca, conjugalidade, ter empréstimo consignado, ter plano de saúde, atuar em sede,
superintendências ou Univerdidade-PRF (UniPRF), morar onde nasceu, estar em cargo de
chefia, cargo na PRF, escolaridade, região em que trabalha, tipo de unidade laboral, atividade
realizada, idade e tempo de PRF), e variáveis dependentes (os escores contínuos das
subescalas de depressão, estresse, ansiedade e condição geral do sofrimento mental) dos
levantamentos de 2023 e 2024. Os resultados das análises bivariadas foram avaliados por
meio do valor de p (p-valor) e do tamanho de efeito (TDE), que é a mensuração da magnitude
da relação entre variáveis. Para visualizar as diferenças dos escores entre os grupos das
variáveis independentes, os resultados foram sumarizados por meio das médias e medianas de
cada variável. Além da exigência crescente em se reportar resultados de TDE 22 , esta medida é
particularmente necessária em amostras grandes, como o presente estudo, visto o p-valor ser
altamente sensível ao tamanho amostral 22 . Neste estudo o TDE foi interpretado segundo os
seguintes critérios: no teste Kruskal-Wallis (TDE ??²), valores de 0,00 a 0,01, interpretados
como insignificante, 0,01 a 0,04, fraco, 0,04 a 0,16 moderado, 0,16 a 0,36, relativamente
forte, 0,36 a 0,64 forte e 0,64 a 1,00 muito forte 23 ; no teste Mann-Whitney U (TDE Rrb) e na
Correlação de Spearman (TDE Rho), valores em torno de 0,10 são interpretados como fraco,
em torno de 0,30 como moderado e em torno de 0,50 como moderado a forte 24 .
Após, construíram-se dois modelos de regressão ordinal - um para 2023 e outro para 2024 -
tendo como variáveis explicativas as que apresentaram significância nas análises bivariadas e

como variável dependente o escore total da DASS-21 distribuído em classes de severidade da
condição geral do sofrimento mental: níveis normal (escores <16), leve (escores 17-20),
moderado (21-25), grave (26-29) e extremamente grave (? 30). Optou-se pela regressão
logística ordinal pela não observação dos pressupostos necessários dos dados para a
realização de análise de regressão linear múltipla, dentre os quais a homoscedasticidade,
normalidade dos resíduos, ausência de multicolinearidade e ausência de outlier 25 . O p-valor no
modelo ordinal foi calculado pela comparação de um nível de severidade (ex. extremamente
grave) com o exatamente anterior (ex. grave). As análises descritivas, bivariadas, tamanhos de
efeito e regressão ordinal foram obtidas por meio do software Jamovi 26 . A AFC foi obtida por
meio do software JASP 27 , pacote lavaan. Optou-se pela apresentação dos resultados dessas
análises por meio das razões de chance (Odds Ratios/OR) extraídas do modelo.
Resultados
A AFC da DASS-21 apresentou medidas de ajustes adequadas em ambos os anos, conforme
Tabela 1. Em 2023 observou-se RMSEA:0,035, SRMR: 0,032, CFI: 0,997, TLI: 0,997 e GFI:
0,998. Em 2024, observou-se RMSEA: 0,036, SRMR: 0,033, CFI: 0,997, TLI: 0,996 e GFI:
0,997.

Tabela 1.

Os índices de confiabilidade, conforme Tabela 2, demonstraram-se adequados para as
subescalas estresse, ansiedade, depressão, bem como para o escore total, com coeficiente ?
entre 0,870 e 0,960 em 2023 e 0,870 e 0,959 em 2024, o que fornece evidências robustas de
validade do instrumento na amostra de prf.

Tabela 2.

Todos os itens da escala apresentaram carga fatorial acima de 0,5, com exceção do item “senti
minha boca seca”, referente à ansiedade, que ainda assim apresentou índice aceitável
(0,463/0,482 em 2023/2024).
Um total de 86,2% dos servidores em 2023 e 87,5% em 2024 apresentaram respostas em
níveis normais da condição geral de sofrimento mental (general psychological distress), ou
seja, sem suspeição de sintomas relevantes de sofrimento mental (Figura 1). Em 2023 13,7%
dos servidores e em 2024 12,5% foram classificados em algum nível de severidade da
condição de sofrimento mental, sendo 5,6% em 2023 e 4,2% em 2024 classificados em níveis
grave e extremamente grave da condição geral de sofrimento mental. Observa-se relevante

estabilidade de todas as medidas ao longo dos dois anos de levantamento. Nos dois anos de
levantamento, a dimensão com maiores índices de normalidade foi ansiedade: 84,6% dos
respondentes em 2023 e 85,6% em 2024 sem suspeição de ansiedade. Em contrapartida, os
servidores apresentam um pouco mais de sintomas de depressão (17,8% e 17,1% de sintomas
de depressão), em relação às demais dimensões.

Figura 1.

Na Tabela 3 verificam-se as análises bivariadas entre as variáveis explicativas e os escores
contínuos obtidos pela DASS-21, sumarizados por meio de médias e medianas. As variáveis
analisadas que se associam a todos os desfechos (estresse, depressão, ansiedade e condição
geral de sofrimento mental) avaliados foram: sexo, ter ou não filhos, ter planos de saúde,

escolaridade, região em que trabalha, atividade, o tempo na PRF e idade do respondente. As
demais variáveis (branca-não branca, conjugalidade, ter empréstimo consignado, trabalhar no
Estado em que nasceu, exercer cargo de chefia, cargo de prf ou administrativo, tipo de serviço
e de unidade organizacional em que atua) associam-se com algumas das dimensões da escala.
Ter ou não empréstimo consignado é a que se associa com menos desfechos, seguida de atuar
no Estado em que nasceu.

Tabela 3.

O tamanho de efeito de todas as variáveis analisadas indica baixo poder explicativo da
variabilidade das associações. A maioria das análises indica tamanho de efeito fraco,
sinalizando que a variabilidade das condições de saúde é muito pouco explicada pela maioria
das variáveis de análise, mesmo que estas influenciem aquelas significativamente.
A Tabela 4 apresenta os modelos de regressão ordinal para o escore total da DASS-21
(condição geral de sofrimento mental), categorizado em cinco níveis de severidade (do normal
ao extremamente grave), referentes aos anos de 2023 e 2024. Incluíram-se nos modelos as
variáveis associadas significativamente ao escore do respectivo ano, indicadas na Tabela 3.

As estimativas de colinearidade (VIF) apresentaram-se adequadas em ambos os modelos:
abaixo de 3,41 em 2023; inferior a 2,91 em 2024. Os testes de linha paralela apresentaram
resultado não significativo (p=0,999 modelo de 2023; p=0,610 modelo de 2024).
Na avaliação das condições de saúde mental obtidas em 2023 (Tabela 2), observa-se que ser
mulher (OR=1,62), atuar em atividades exclusivamente administrativas (OR=1,58), ter mais
tempo de atuação na PRF (OR=1,05) e trabalhar na Região Sudeste (OR=1,37 em relação a
quem trabalha na região Sul), aumenta o risco de responder a níveis mais altos da DASS-21.
Por outro lado, ser pessoa branca (OR=0,868), trabalhar na Região Norte (OR=0,56) e
Nordeste (OR=0,761), em comparação com trabalhadores da Região Sul, diminui a chance de
se encontrarem respondentes com maiores níveis de severidade da condição geral de
sofrimento mental.
No modelo de 2023, é marginalmente significativa a diferença entre trabalhadores que
exercem simultaneamente atividades administrativas e operacionais (OR=1,230) em
comparação com os do operacional, e trabalhadores com cargos administrativos (OR=0,515)
em comparação com os de cargos de prf. Esses resultados reforçam a concepção de que em
2023 trabalhar em atividades administrativas incrementou o sofrimento mental de
trabalhadores. O ajuste do modelo testado sinaliza baixo poder explicativo (ver nota da Tabela
2), visto todos os resultados serem muito próximos de zero.

Tabela 4.

No modelo de 2024 (Tabela 2) permanece a associação entre maiores níveis de severidade da condição geral de sofrimento mental e ser mulher (OR=1,64), ter mais tempo de PRF (OR=1,03) e atuar na Região Sudeste em comparação com a Região Norte (OR=1,53). Em 2024, trabalhadores das Superintendências Regionais ou da Sede da PRF-DF apresentam menores chances de responderem a níveis mais altos de severidade da DASS-21 (OR=0,04 e 0,052) em relação aos trabalhadores da UniPRF. Nesta última associação é relevante destacar a amplitude do intervalo de confiança da OR (0,003-0,904), indicando cautela em suas análises. Trabalhadores que atuam exclusivamente em atividades administrativas apresentam de maneira marginalmente significativa (p=0,053) maiores chances de responder a níveis mais altos da DASS-21 (OR=1,23) em comparação aos que atuam exclusivamente em atividades operacionais. Não se encontrou diferenças significativas de respostas entre pessoas brancas e não brancas no ano de 2024. As medidas de ajuste do modelo de 2024 também indicam baixo poder explicativo.
Nos modelos de 2023 e 2024 ser mulher, ter maior tempo de atuação na PRF, ser da Região Sudeste e atuar exclusivamente no setor administrativo aumentam a chance de apresentar maiores níveis de severidade da condição geral de sofrimento mental. Outras variáveis se apresentaram significativas em um ou outro ano, e requerem atenção em mensurações futuras, tais como ser pessoa branca, atuar na Região Sul ou atuar na UniPRF.



Discussão
Os resultados dos levantamentos sobre a condição de saúde mental dos prf indicam que a
maior parte dos trabalhadores não apresenta sintomas que indicam suspeição de sofrimento
mental. Outros estudos na PRF demonstraram condição de saúde mental dos servidores mais
deteriorada que os observados na presente pesquisa 12, 13 , embora tenham sido realizados com
amostras menores de estudos não-probabilísticos, e em Estados pertencentes à Região do
Brasil cujos níveis da DASS-21 foram os maiores na presente pesquisa.
Os níveis de sintomas de sofrimento mental observados no presente estudo são similares ao
descrito em estudos com profissionais de outras forças de segurança, nos quais se encontram
índices equivalentes 28 ou superiores de sofrimento mental 29-31 , embora sejam raras pesquisas

com grandes amostras 31 e/ou com desenhos randomizados, o que pode impactar nas diferenças
observadas. A quantidade de pessoas com sintomas de sofrimento mental merece atenção por
parte dos gestores da PRF, sobretudo por meio de políticas especificas para prf mulheres, com
mais tempo de PRF e com cargo ou função administrativa. Pesquisas reforçam a eficácia de
estratégias de prevenção e promoção à saúde realizadas por equipe de saúde no
desenvolvimento do bem-estar desses profissionais 32 .
A quantidade de policiais com sintomas que sugerem algum nível de depressão, estresse e
ansiedade, pode estar relacionada ao cenário socio-laboral do Brasil 2, 5 , e às exigências e
características do trabalho na PRF, em particular 6-8, 12, 14 . Pesquisas futuras devem avaliar os
limites do impacto das ações de saúde institucional da PRF nos índices de depressão,
sobretudo se a tendência observada na presente pesquisa se mantiver em levantamentos
futuros.
As maiores chances das mulheres se encontrarem nos níveis mais elevados de sofrimento
mental podem estar relacionadas ao fato de policiais do sexo feminino apresentarem mais
dificuldades para atuar em ambientes ocupados majoritariamente por homens, seja pela falta
de aceitação por parte dos colegas, por serem vítimas de assédio sexual, ou não receberem
suporte organizacional para lidar com demandas pessoais e laborais 33-35 . Ademais, mulheres
ainda são as principais responsáveis pelas tarefas domésticas, cuidados e gestão familiar,
mesmo quando têm um trabalho remunerado, recaindo sobre elas a responsabilidade pela
conciliação das vidas profissional e familiar 36 , estando mais sujeitas a conflitos e sofrimento
na interface trabalho-família 37 . Vale mencionar, com base na PdT, que as estratégias coletivas
de defesas contra o sofrimento no trabalho partilhadas por policiais se amparam ainda muito
frequentemente na virilidade e em atributos considerados ainda muito masculinos 38, 39 , o que
pode dificultar a mobilização de tais estratégias de defesa pelas mulheres.

Policiais em funções administrativas apresentam maior sofrimento mental que os em funções
operacionais. Resultados semelhantes em pesquisas com trabalhadores da segurança pública
indicam que a atuação administrativa está associada a mais sintomas de transtornos mentais e
pior desempenho nas funções executivas necessárias para o trabalho 29, 40 . Embora a atividade
operacional esteja ligada a altos níveis de estresse 6 , os fatores de risco psicossociais inerentes
à atividade administrativa parecem ser maiores, seja pelas exigências específicas de
trabalhos 41 , seja pela maior exposição ao controle hierárquico presencial 29 , ou pela inclusão de
atividades de gestão em funções administrativas 42 .
Partindo das contribuições da PdT, é plausível sugerir que profissionais em atividade
administrativa mobilizem menos estratégias coletivas de defesa contra o sofrimento mental 16
em comparação ao que se observa entre aqueles em função operacional 43 , sobretudo o
“espírito de corpo”, como se nomeia a coesão e solidariedade da equipe 44 . Como as estratégias
coletivas de defesa e saberes de prudência que contribuem para esta profissão são construídos
provavelmente a partir das práticas policiais ostensivas 45 , propõe-se que o exercício de tarefas
administrativas, distante das atividades operacionais, possa ser menos identitário para
policiais, impactando no sentido partilhado sobre o trabalho. Não por acaso, a PRF iniciou em
2024 o Projeto "Origem" 46 ,  que visa reinserir policiais do administrativo em atividades
operacionais. Os efeitos dessa ação poderão se confirmar em pesquisas vindouras.
Os resultados revelam que o sofrimento mental de prf difere a depender da Região em que
atuam. Policiais lotados na Região Sudeste, seguida da Região Sul, apresentaram mais
condição geral de sofrimento mental em comparação a servidores das Regiões Norte e
Nordeste. Essa discrepância pode ser atribuída a fatores socioeconômicos e laborais. A alta
densidade populacional e a urbanização acentuada do Sul-Sudeste resultam em fluxo veicular
mais intenso nas rodovias e volume significativamente maior de acidentes 10 . Essas regiões
concentram importantes rotas de tráfico e atividades criminosas 47 aumentando a percepção de

riscos de confrontos armados por parte dos agentes. O elevado custo de vida nas grandes
cidades do Sul-Sudeste 48 pode gerar pressões financeiras adicionais sobre os servidores.
Ademais, a dinâmica social mais individualista dos centros urbanos pode dificultar a
formação e manutenção de redes de apoio social robustas, que é um fator protetivo crucial
para a saúde mental.
O aumento da condição geral de sofrimento mental relacionado ao tempo de atuação na PRF
pode ser reflexo do desgaste acumulado ao longo dos anos, combinado com uma
desvalorização da experiência profissional que se intensifica com a diminuição do vigor
físico. Pesquisas com profissionais das forças de segurança pública indicam caminhos
controversos nesse aspecto: algumas demonstram incremento do sofrimento com o aumento
do tempo de serviço 49 , sugerindo que o esforço exigido na profissão acumula-se com o tempo,
aumentando o impacto da atividade no sofrimento mental. Outras sinalizam que o sofrimento
é mais intenso na primeira metade da vida laboral 50 , em linha ao que indica a Psicodinâmica
do Trabalho 16 , visto que a experiência acumulada propicia desenvolvimento de estratégias que
permitem mitigar o sofrimento relacionado ao trabalho. As razões pelas quais a experiência
acumulada em anos de atuação como prf não é suficiente para mitigar as exigências e riscos
profissionais requer investigações futuras.
O baixo poder explicativo observado nos modelos testados indica que as variáveis
sociodemográficas e socioprofissionais testadas no presente estudo explicam apenas
parcialmente o quadro da saúde mental observado entre os prf. Considerando que a saúde
mental dos trabalhadores é multideterminada 4 , é importante atentar para outras variáveis como
as pessoais, as culturais, as sociais, as econômicas e, particularmente, aquelas relacionadas ao
contexto laboral que não foram mensuradas pelo levantamento realizado e que poderiam estar
implicadas no quadro observado no estudo. A propósito das variáveis laborais, determinadas
dimensões do trabalho, tais como a organização do trabalho, a psicodinâmica do

reconhecimento, o sofrimento ético e as relações hierárquicas e coletivas, estão intimamente
relacionadas ao sofrimento mental de trabalhadores 16 . Com base na PdT, reforça-se a premissa
de que dentre inúmeros fatores que poderiam contribuir para aumentar a precisão das análises
e as possibilidades explicativas sobre o adoecimento mental dos trabalhadores em estudos
futuros, é de especial relevância a inclusão de outros fatores de risco psicossociais
relacionados ao trabalho, o que, por sua vez, poderia contribuir para conferir maior
efetividade às propostas de intervenção institucional daí derivadas.
Considerações Finais
O sofrimento mental entre prf é relativamente menos expressivo que entre outros profissionais
das forças de segurança, embora sejam consideráveis, o que requer atenção por parte dos
gestores da instituição. Observa-se maior risco de sofrimento mental entre mulheres,
indicando a manutenção de barreiras socioculturais para as policiais e a iniquidade das
condições de trabalho para atender suas especificidades socioprofissionais. O trabalho em
atividades operacionais parece ser vivenciado como mais significativo do que as atividades
administrativas. A experiência desenvolvida ao longo dos anos parece não compensar os
efeitos do desgaste imposto pelas demandas laborais. 
É relevante observar que o baixo poder explicativo dos modelos sugere que outros fatores não
investigados, principalmente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, são
necessários para se compreender mais adequadamente a condição de saúde mental do efetivo
da corporação. Tais dados poderão contribuir para avaliação e delineamento de políticas
futuras de gestão de pessoas e de saúde na PRF do Brasil.
Dentre as limitações da pesquisa pode-se mencionar que ela é baseada em instrumento
construído a partir de autorrelato, sujeito a distorções de julgamentos que podem, por sua vez
comprometer a confiabilidade dos dados. Como os levantamentos foram realizados por

membros da instituição no local de trabalho, e a não participação poderia restringir acesso a
benefícios institucionais, o viés de desejabilidade social não pode ser
desconsiderado. Adicionalmente, como se avaliou população em pleno exercício das
atividades, há o risco de viés de seleção, visto que servidores com sofrimento mental
poderiam estar afastados e, logo, sub-representados nestes levantamentos. Ademais, os
resultados obtidos unicamente a partir de escalas psicométricas não são capazes de fornecer
dados e explicações detalhadas e contextualizadas sobre a realidade dos trabalhadores. Em
contrapartida, a estabilidade dos resultados observados entre os levantamentos de 2023 e 2024
e sua ampla taxa de cobertura populacional indicam que a não aleatoriedade do levantamento
tenha sido em grande parte mitigada.
A pesquisa reforça a importância de se acompanhar adequadamente o quadro do sofrimento
mental de trabalhadores, visto que essa estratégia pode ampliar as linhas de ação para mitigar
o fenômeno observado. De igual modo, os resultados permitem indicar caminhos para
políticas institucionais de promoção da saúde mental, bem como prevenção de agravos à
saúde, com foco especial às políticas de equidade de gênero, do envelhecimento funcional e a
organização das atividades administrativas. Levantamentos futuros e pesquisas qualitativas
poderão aprofundar a compreensão dos mecanismos psicossociais subjacentes ao sofrimento
mental identificado, elucidando a plausibilidade de algumas explicações suscitadas no
presente artigo.
Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) e
CNPq (Bolsa Produtividade do primeiro autor)

Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa do artigo não estão disponíveis.

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Moraes, TD, Valentim, CK, Sousa, AA, Alves, RB, Cavalcanti, DA. Condição de saúde mental de policiais rodoviários federais e fatores sociodemográficos e socioprofissionais associados. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/out). [Citado em 06/11/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/condicao-de-saude-mental-de-policiais-rodoviarios-federais-e-fatores-sociodemograficos-e-socioprofissionais-associados/20188

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