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0264/2026 - DIAGNÓSTICO, ACOMPANHAMENTO E CUIDADO DE CRIANÇAS COM SÍFILIS CONGÊNITA: PERSPECTIVA DAS MÃES
DIAGNOSIS, FOLLOW-UP AND CARE OF CHILDREN WITH CONGENITAL SYPHILIS: MOTHERS' PERSPECTIVE

Autor:

• Isabela Basso Doná - Doná, IB - <isa.basso.dona@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0002-4118-3547

Coautor(es):

• Natalia Franca Arroio - Arroio, NF - <nataliaarroiofacul@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-0468-6419

• Katia Terezinha Alves Rezende - Rezende, KTA - <katialvesrezende@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9022-2680

• Cássia Regina Fernandes Biffe Peres - Peres, CRFB - <c.r.biffe@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8430-0400

• Silvia Franco da Rocha Tonhom - Tonhom, SFR - <siltonhom@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7522-2861

• Maria de Fátima Graça Frade - Frade, MFG - <fatima.frade@enfermagem.ulisboa.pt>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6190-5298

• Mara Quaglio Chirelli - Chirelli, MQ - <marachirelli@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/ 0000-0002-7417-4439



Resumo:

O objetivo do estudo foi analisar a percepção das mães sobre o diagnóstico e o acompanhamento das crianças com sífilis congênita. Pesquisa qualitativa, com entrevistas semiestruturadas a 12 mães de crianças acompanhadas em ambulatório especializado e dados processados por análise de conteúdo, modalidade temática. Os resultados mostraram que o diagnóstico e o início do tratamento ocorreram predominantemente no ambiente hospitalar, enquanto a continuidade do cuidado foi realizada pela equipe de Saúde da Família e por serviços especializados. Evidenciou-se desconforto com a exposição desnecessária de suas situações de saúde no hospital e dificuldades em acompanhar a criança durante a internação prolongada e quantidade de procedimentos, além de sentimento de tristeza e culpa pela transmissão vertical, embora superados com o término do tratamento. Destacou-se ainda, situações de preconceitos e de preocupação com possíveis complicações e uso de medicamentos. Concluiu-se que é necessário qualificar a Linha de Cuidado à Gestante e à Criança, com formação profissional, organização do cuidado em rede e fortalecimento da vigilância e da educação em saúde, favorecendo diagnóstico precoce, manejo adequado e redução da sífilis gestacional e congênita.

Palavras-chave:

Sífilis; Sífilis congênita; Transmissão vertical de doenças infecciosas; Atenção à saúde; Assistência perinatal

Abstract:

The study aimed to analyze the maternal perceptions of the diagnosis and follow-up of children with congenital syphilis. The qualitative research was conducted using semi-structured interviews with 12 mothers of children followed up in a specialized outpatient clinic, and data were processed using thematic content analysis. The results showed that diagnosis and the start of treatment occurred predominantly in the hospital setting, while continuity of care was provided by the Family Health team and specialized services. Discomfort was evident regarding the unnecessary exposure of their health situations in the hospital and difficulties in accompanying the child during prolonged hospitalization and the number of procedures, as well as feelings of sadness and guilt about vertical transmission, although these were overcome with the completion of treatment. Situations of prejudice and concern about possible complications and the use of medication were also highlighted. It was concluded that the Maternal and Child Health Line of Care needs to be enhanced with professional training, organization of care in a network, and strengthening of surveillance and health education, favoring early diagnosis, adequate management, and reduction of gestational and congenital syphilis.

Keywords:

Syphilis; Congenital syphilis; Vertical transmission of infectious diseases; Health care; Perinatal care.

Conteúdo:

Introdução
A sífilis é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) curável, causada pela bactéria Treponema pallidum, transmitida por via sexual e vertical. Essa última é denominada Sífilis Congênita transmitida ao feto pela placenta ou no momento do parto, ocorre quando não há tratamento adequado da gestante. Nesses casos podem ocasionar aborto, natimorto, parto prematuro, morte neonatal e má formações congênitas, sendo estimado que ocorra em 50 a 80% dos casos1.
Para se evitar a transmissão, as gestantes devem ser testadas no 1º, no início do 3º trimestre de gestação e no momento do parto, sendo o teste reagente, deve-se iniciar imediatamente o tratamento2. Apesar desse ser ofertado pelo serviço público e de baixo custo, sua efetivação é considerada complexa, devido à periodicidade, a dor provocada pelo fármaco e o estigma da doença.
Nesse sentido, a sífilis congênita apresenta-se como um dos maiores desafios de saúde pública em virtude de seus potenciais impactos negativos na saúde infantil e materna, se não houver diagnóstico preciso e tratamento oportuno da gestante e parceria.
A persistência de altas taxas de transmissão vertical observada nos indicadores revela dificuldades no cuidado pré-natal, no manejo e vigilância dos casos3,4,5,6,7. Em 2022, o número de casos de sífilis no Brasil aumentou mais de um milhão, atingindo oito milhões no mundo, com maior incidência nas Américas, com 3,37 milhões de casos, sendo 6,5 por mil pessoas. O aumento da sífilis congênita foi de 28%, com estimativa de 4,98 casos por mil nascidos vivos8, ultrapassando significativamente a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 0,5/1000. Estima-se que em 2022, 68 mil bebês nasceram com sífilis na Américas9.
No Brasil, de 2005 ao primeiro semestre de 2025, registrou-se 810.246 casos de sífilis em gestantes, com taxa crescente de detecção de sífilis em gestantes nesse período, atingindo 35,4 casos por 1.000 nascidos vivos em 2024. Entre 1999 e 30 de junho de 2025, foram registrados 369.468 casos de sífilis congênita em menores de um ano. Em 2024, a taxa de incidência foi de 9,6 casos por 1.000 nascidos vivos. No período de 1998 a 2024, foram registrados 3.739 óbitos por sífilis congênita em menores de um ano e no ano de 2024, o coeficiente de mortalidade infantil específica por sífilis congênita foi de 7,2 óbitos por 100.000 nascidos vivos10.
Em 2007, a OMS propôs iniciativa global para eliminação da transmissão vertical da sífilis, com as metas de acesso ao pré-natal e à testagem para sífilis e tratamento adequado para as gestantes soropositivas. Embora tenham ocorrido esforços para diminuir os casos, persistem problemas com a vigilância para identificação, notificação, investigação e tratamento dos casos, tanto da sífilis gestacional como da congênita11.
Nessa direção, em 2016, o Brasil lançou o projeto “Sífilis Não!” como estratégia de intervenção perante o aumento de 240 para 650 por 100 mil nascidos vivos, no período de 2010 a 2015. Houve melhoria da oferta de testes para diagnóstico e do tratamento, muitas vezes direcionados aos municípios prioritários8. Apesar da redução dos casos, ainda se identificam oportunidades perdidas durante o cuidado às gestantes12.
Diante desse contexto, o aumento nos casos de sífilis gestacional e congênita e a efetivação de seu tratamento têm sido um desafio aos profissionais e usuários dos serviços de saúde. Assim, questiona-se quando e como foi realizado o diagnóstico e acompanhamento do cuidado das crianças com sífilis congênita na perspectiva das mães.
Objetiva-se, portanto, analisar a percepção das mães sobre o diagnóstico e o acompanhamento das crianças com sífilis congênita.

Métodos
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva cuja abordagem permite compreender o significado de fenômenos abstratos e não evidentes presentes em cada indivíduo, para se conhecer seus motivos, suas crenças e seus valores e mostrar as perspectivas da realidade social dos participantes, como suas ações, formas de pensar e o contexto em que estão inseridos13.
A dimensão sociocultural das opiniões e representações de um grupo com as mesmas características costuma ter muitos pontos em comum ao mesmo tempo que apresentam singularidades próprias das individualidades de cada um. Assim, na análise qualitativa devem-se explorar tanto a homogeneidade quanto o que se diferencia em um mesmo meio social14.
O artigo orienta-se pelo Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) para sua estruturação. E a investigação que o originou segue normas éticas, tendo sendo aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa, sob Parecer 5.921.584 e CAEE 65034422.8.0000.5413.
O estudo ocorreu em um município de médio porte da região Centro-Oeste do estado de São Paulo (Brasil), com população de 237.627 pessoas, em 2023. Nessa localidade, a rede municipal de saúde organiza-se em 50 equipes Saúde da Família (eSF) tendo, aproximadamente, 88% de cobertura para a população, além de oito Unidades Básicas de Saúde (UBS).
A coleta de dados ocorreu no Serviço de Assistência Especializada (SAE) onde são oferecidos o l do atendimento e o acompanhamento de pacientes na área de infectologia, além de o local ser um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), no qual são realizados testes para detecção de ISTs, aconselhamento e entrega de preservativos. Essa unidade conta com uma equipe multiprofissional, com médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e assistente social15.
Participaram desta investigação as mães das crianças em atendimento para o acompanhamento e tratamento de sífilis congênita. Após o convite, elucidou-se sobre o objetivo da pesquisa, assim como o desenvolvimento da entrevista. Aquelas que concordaram em colaborar, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Coletaram-se os dados em uma sala reservada disponibilizada pelo SAE, no período de outubro a dezembro de 2023. As entrevistas, com tempo médio de duração de 15 minutos, foram realizadas e audiogravadas por duas pesquisadoras acompanhadas pela orientadora da investigação com experiência no método e em pesquisa qualitativa. Posteriormente, elas foram transcritas na íntegra e validadas.
Adotou-se a entrevista semiestruturada, que é uma ferramenta utilizada pela pesquisa qualitativa para obter informações que atingissem os objetivos pretendidos a partir de questões direcionadas. Ela proporciona a criação de novas hipóteses a partir do que foi vivenciado e relatado pelos participantes, fornecendo informações que dão suporte a novas problematizações sobre o tema exposto 13.
A coleta de dados ocorreu por meio de um roteiro previamente elaborado que contempla duas partes: a caracterização dos participantes e as questões norteadoras. A primeira consistiu em caracterizar as mães segundo dados demográficos, idade gestacional no início do pré-natal, idade gestacional no diagnóstico de sífilis gestacional, idade da criança no diagnóstico e início do tratamento de sífilis congênita; a segunda compreendei os conceitos-chave do percurso do diagnóstico e tratamento da sífilis da criança.
Iniciou-se a coleta de dados com duas entrevistas piloto para validação do instrumento e capacitação das pesquisadoras, mantendo a estrutura geral das questões e suprimindo uma que apresentava duplicação de dados.
Foram entrevistadas todas as mães das crianças portadoras de sífilis que compareceram ao agendamento mensal de consulta médica. Essa atividade ocorreu duas vezes na semana, assim, as pesquisadoras compareceram na unidade nos dias de atendimento durante um mês, contemplando o universo desta população. Houve uma recusa, e foram realizadas 12 entrevistas.
Utilizou-se a técnica de análise de conteúdo, modalidade temática, que permite identificar, analisar e interpretar padrões significativos. A partir destes, são revelados aspectos das experiências e vivências dos participantes, possibilitando a correlação dos dados com o contexto social e cultural em que foram produzidos. Isso gera percepções e novas teorias sobre as questões investigadas16.
Iniciou-se pela escuta e transcrição na íntegra de todas as entrevistas, para depois se realizar a leitura dos materiais para compreensão e entendimento aprofundado do conteúdo como um todo, identificando características únicas. Posteriormente e manualmente, desenvolveu-se uma matriz com os dados, na qual ocorreu uma classificação inicial a partir dos extratos das falas, norteada pela pergunta de pesquisa e objetivo, que permitiu a separação em categorias: diagnóstico e tratamento da criança; e problemas/desafios, diagnóstico e tratamento da criança; e problemas/desafios nesse processo.
Posteriormente, elaborou-se uma síntese para cada categoria e identificaram-se os núcleos de sentido. Estes foram agrupados de acordo com o tema: processo de cuidado durante o diagnóstico e tratamento da criança.
Para garantir o sigilo e anonimato, as participantes foram identificadas com a letra E de entrevistado e o número da entrevista de 1 a 12 (Ex: E1, E2, … E12).

Resultados
Foram entrevistadas 12 mães (Tabela 1) com idades entre 20 e 40 anos: cinco (42%) casadas, cinco (42%) solteiras, uma amasiada e uma em união estável, com profissões diversificadas, incluindo estudantes, donas de casa, atendentes e autônomas. Quanto à escolaridade, 50% têm ensino médio completo.
Todas iniciaram o pré-natal no primeiro trimestre, porém o diagnóstico de sífilis gestacional teve variações: a maioria (50%) foi diagnosticada com sífilis gestacional no 1º trimestre, 8,3% no 2º trimestre (8,3%), 16,6% no 3º trimestre, e 16,6% no momento do parto (16,6%) e 8,3% não souberam identificar quando foram diagnosticadas (Tabela1). Esses dados sinalizam problemas no acompanhamento da gestante durante o pré-natal que precisam ser compreendidos a partir das falas das mães.

Tab.1

O diagnóstico de sífilis congênita na criança foi realizado no hospital, e o tratamento inicial incluiu dose(s) de benzilpenicilina cristalina ou procaína, ainda durante a internação. Elas não souberam referenciar como foi o tratamento durante a internação, houve mãe que se referiram ao medicamento como “vacina de benzetacil”. Ficaram internadas para o diagnóstico e tratamento por 14 dias e depois foram encaminhadas para o SAE.
Aí no hospital, quando ela nasceu, eles fizeram o primeiro exame. E a médica lá já tinha me falado que não, que não tinha constado. Só que ela tomou a primeira dose da benzetacil. Ela falou que mesmo assim ia dar uma dose nela. Aí encaminhou. [E3]
Tomou a dose da benzetacil, ganhou alta, e falou pra fazer o acompanhamento no SAE, não lembro se foi duas doses ou uma. [E2]
Isso, no dia da internação [começou o tratamento do bebê], já tomou a vacina de benzetacil, quando nasceu. [E4]
Não porque elas queriam tirar sangue, pegavam ela para tirar sangue pra ver se tinha alguma coisa ou não, aí foi fazendo exame. Aí demorou uns 4 dias para sair o exame, aí quando saiu falou que ela estava com sífilis. O diagnóstico foi lá no hospital mesmo. Nem sai de lá, na verdade, fiquei 14 a 19 dias, não lembro. [E1]
Houve caso em que a criança foi diagnosticada com sífilis, ficou internada na UTI por ter nascido prematura, devido a hipertensão gestacional, sendo encaminhada, posteriormente, para o acompanhamento no SAE.
Ele foi internado quarenta e cinco dias, na UTI (pois nasceu prematuro, 31 semanas, devido a mãe hipertensa). Logo quando nasceu, já fizeram o tratamento dele. [E8]
Identificaram-se crianças com complicações durante a internação no acesso venoso periférico, septicemia neonatal por causa do longo período de trabalho de parto da mãe, anemia durante o tratamento, e criança que apresentou conjuntivite neonatal. Esses são parâmetros que podem indicar como o cuidado é realizado pelo serviço e os desdobramentos na saúde do recém-nascido.
O cuidado ao não estar centrado na pessoa não é construído a partir das necessidades da gestante/puérpera, ficando as lacunas sobre o estado de saúde do recém-nascido, não conseguindo reconhecer os problemas, para que a mãe possa detectá-los em tempo e procurar o serviço de saúde. Por outro lado, os profissionais do serviço também podem ter dificuldades para realizar o diagnóstico e iniciar o tratamento dos problemas de forma rápida e segura, podendo ter consequências para a saúde da criança.
[Teve problema no tratamento], (...) ficou na carne viva e ficava ela procurando e não achava veia, fora isso não. [E1]
Então, como deu um pouco de anemia nela, eles fizeram o exame de sangue, ai estou voltando hoje para saber como está, se tiver tudo bem, vai ter alta e daí vai demorar um pouco para voltar [E2]
Ele pegou sepse neonatal, aí eu fiquei 13 horas de parto com bolsa rota. Aí acabou pegando essa bactéria no sangue. Demorou 7 dias pra descobrir, quando descobriu começou a tratar direitinho, ele ficou muito malzinho, não ganhava peso, ele estava amarelo, com o olho bem fundo, tem problema de glicemia também, a endocrinologista falou que é porque ele é prematuro, ele nasceu de 36 semanas e 6 dias, essa célula que fala não sei como fala não desenvolveu muito bem, então ele toma hidrocortisona todo dia, pra ajudar e ele não pode ficar sem mamar senão a glicemia dele cai lá embaixo, quando eu cheguei no hospital a glicemia dele estava 33, desidratado porque eu não sabia e nesse dia eu tinha ido na pediatra do posto e ela disse que ele estava saudável, estava bem, mas ele só estava dormindo. Não estava reagindo e quando eu medi a temperatura dele estava 38º. de febre. Estava com a moleira baixa, desidratado, fazendo hipoglicemia, ai eu cheguei no hospital e o médico disse que se a gente não tivesse levado, a gente tinha perdido ele. [E5]
A condução do diagnóstico e tratamento da sífilis congênita no hospital também apresentou desafios no momento da realização do raio X de ossos longos do recém-nascido e presença de outra especialidade médica, tendo como desfecho a autorização da mãe para iniciar o tratamento medicamentoso sem a confirmação pelo exame diagnóstico, considerando a demora para sua realização e ausência do especialista.
Novamente, há indícios de que o serviço tem dificuldades para conduzir o diagnóstico da sífilis neonatal na perspectiva do cuidado centrado na pessoa, podendo ter prejuízos para o início do tratamento do recém-nascido, sendo que a mãe tomou a decisão sem necessariamente ter compreensão sobre a necessidade do referido exame para a confirmação do diagnóstico.
Ainda que ele deu a conjuntivite neonatal e eu achei até que era (da sífilis), falei nossa, quer ver que “zuou” o olhinho dele! Só que aí depois viu que realmente era, aquele líquido amniótico, não sei o que que caiu dentro do olho dele porque ele nasceu com ele aberto e caiu dentro e deu uma infecção. Aí a mulher falou que talvez até (poderia ser da sífilis) e tirou o líquido da coluna dele e deu levemente amarelada, aí falou que não sabe se foi por conta da infecção que deu no olho ou se era por conta da sífilis que tinha dado e ficou nessa dúvida. Aí falou que ia chamar o médico do osso só que no final acabou que o médico não vinha, não vinha e eu falei vamos começar o tratamento porque se esse médico vier só depois de 10 dias, vamos ficar mais 10 dias aqui e, então, eu autorizei e começou o tratamento. [E7]
Durante o tratamento do recém-nascido no hospital, a mãe expressou desconforto por causa da exposição desnecessária sobre a situação de saúde de ambos. Além disso, há mãe que relata que foi um desafio acompanhar a criança internada por causa do número de dias e procedimentos realizados.
Eu só me senti desconfortável quando fui para o hospital, porque eu fiquei no quarto com outras pessoas e como tiveram que colher exames na nenê e em mim eu achava que eles estavam expondo demais a situação porque eu acho isso um assunto bem particular.” [E2]
Não (tive problemas), só ficar esse tempo (12 dias) presa com ela lá (hospital), o que foi difícil. [E12]
Durante o diagnóstico do recém-nascido, as mães expressaram sentimentos de tristeza e culpa pela transmissão vertical. Entretanto, algumase relataram que se sentiram orgulhosas por ter superado as preocupações e receios ao longo do tratamento, chegando a sua finalização.
Após o diagnóstico, uma das mães mencionou o preconceito das pessoas associando qualquer complicação apresentada com a sífilis congênita; outras expressaram preocupação com as possíveis complicações geradas pela doença e com o tratamento com benzetacil. Ainda, para outras, o cuidado com a criança no período de tratamento hospitalar foi cansativo, citando que é difícil lidar com o julgamento das pessoas sobre a situação de saúde.
Não, é muito difícil, é mais sentimental, sabe! Porque o esforço a gente tem que fazer para o filho sempre. Mas, aí, agora eu estou cheia de alegria aqui. Não vou falar muito, porque eu não vou chorar. Só estamos felizes. [E6]
Foi complicado, as pessoas julgam sem saber, é muito fácil ir lá apontar os outros e não ajudar. Mas eu jurava que era sífilis e tudo o que aparecia do nenê falavam que era a sífilis também.” [E5]
Ah, eu tentei ficar tranquila, assim, porque eu fiquei mais com medo de ela nascer, e e ela ter que ficar lá na maternidade e eu ter que ir embora e deixá-la lá. Mas eu tentava ficar tranquila e tentar não pensar o que poderia acontecer. Quando ela nasceu, eu fiquei...tomara que ela não tenha, ou que ela tenha baixa, ou que esteja igual, para ela não ter que fazer o tratamento também. Porque, benzetacil, se na gente dói, neles deve doer mais ainda, mas quando deu o positivo eu fiquei mal. [E9]
Foi difícil, porque é culpa minha ela ter pegado isso, me sinto bem culpada. Mas fora isso é normal, uma criança bem saudável, bem esbelta. [E12]
Para a continuidade do tratamento, as mães levavam as crianças às consultas na eSF e no SAE. Entretanto, houve eSF que dispensou o acompanhamento de puericultura, indicando apenas a necessidade das consultas pelo SAE.
Aí a enfermeira, me dispensou de lá da eSF, porque falou que como ela passa com um pediatra não tinha necessidade de ficar indo lá (na eSF) e aqui (SAE), porque às vezes cai no mesmo dia. A enfermeira, que suspendeu lá falou, se caso precisar, para eu procurar o médico de lá. Aí antes de ontem como ela estava com essa tosse, eu levei lá. [E3]
Quanto ao seguimento no SAE, elas consideraram bom o acompanhamento e dizem que foram informadas que duraria pelo menos um ano.
Quando fui encaminhada para o SAE, pediu um exame, pediu para ir no otorrino, no oftalmo, até levei, já deu alta também. [E10]
Foi bom, tranquilo o tratamento no SAE. [E8]
Até aqui, no SAE, ela falou que tem que fazer acompanhamento até um 1 ano, porque pode dar sífilis tardia, não sei como que fala, mas só isso mesmo [E2]
Durante o tratamento das crianças, as mães não fazem referência a problemas: elas sentem culpa, mas, no cuidado com a criança, contam com o auxílio da rede de apoio.
Não teve algum problema durante o acompanhamento. Não teve reação. [E3]
A parte mais pesada sou eu. Mas, nossa família é muito boa, me ajuda muito, muito, muito, muito. [E6]
Sim, tenho bastante rede de apoio, minha sogra, meu marido, minha mãe, minha irmã, graças a Deus eu tenho uma rede de apoio boa, senão eu já estava doida. [E5]

Discussão

Os dados da investigação mostram que o diagnóstico da sífilis é realizado no recém-nascido após o parto, e o tratamento é iniciado durante a internação, permanecendo hospitalizado neste período, corroborando as recomendações do Ministério da Saúde no Brasil17.
A Organização Mundial de Saúde (OMS)8, OMS diz-nos que o diagnóstico de sífilis congênita é realizado consoante o histórico de tratamento da mãe, ou seja, em bebês sem sintomatologia, cujas mães fizeram o tratamento adequado, recomenda-se uma rigorosa monitorização dos bebês, não se implementando o acompanhamento medicamentoso. Em lactentes com sífilis congênita confirmada, em que as mães não fizeram tratamento adequado, recomenda-se a administração de penicilina intravenosa nos primeiros dez dias de vida. Assim, no caso de diagnóstico positivo após o parto, o lactente inicia tratamento durante a internação, sendo que o presente estudo corrobora as orientações da OMS.
Observou-se que o tratamento medicamentoso para sífilis congênita foi confundido por algumas mães com administração de vacina nos recém-nascidos no hospital. Atualmente, no Brasil, a vacina contra a tuberculose é ministrada na maternidade18, o que pode ter gerado a confusão. As que confundiram nominaram “vacina de benzetacil”.
A baixa literacia das mães associada ao tratamento da sífilis congênita, pode estar relacionada aos fatores de risco para ela, como é relatado num outro estudo, que nos indica os aspetos socioeconômicos, comportamentais e de acesso aos serviços e informação em saúde, são os principais riscos associados à sífilis congênita. Pois a educação materna inadequada leva a menos conhecimento das mães sobre o tratamento da sífilis, o que aumenta o risco de transmissão vertical19. Nesse sentido, há necessidade de se rever as ações dos profissionais durante o pré-natal na perspectiva do cuidado integral e centrado na pessoa, para que as gestantes/puérperas possam ter acesso à informações claras e assim, possam tomar decisões adequadas.
As falas das mães fazem refletir sobre como a condução do cuidado pode ter sido realizada, e na perspectiva da educação em saúde, considerar a possibilidade de a mãe não ter compreendido devidamente sobre o que significa a medicação para a sífilis gestacional, as implicações do diagnóstico de sífilis congênita e o tratamento do recém-nascido, além de outros cuidados realizados na maternidade.
Uma revisão da literatura sobre os desafios no diagnóstico e tratamento da sífilis congênita, confirma o impacto que o acompanhamento do pré-natal tardio, a não compreensão da doença e a assistência e tratamento tardio, têm na prevenção da doença. Destacam a importância do papel dos profissionais de saúde na realização de um pré-natal de qualidade, na detecção precoce da sífilis gestacional, na realização de testes no primeiro trimestre da gestação e na prescrição e realização do tratamento e acompanhamento adequado da gestante20.
Ressalta-se a importância da integralidade no cuidado na perspectiva da constituição do sujeito que constrói sua autonomia a partir de suas necessidades, ou seja, boas condições de vida, acesso à tecnologia, vínculo e afeto junto aos profissionais das equipes de saúde, informações claras, compreensíveis, fazer sentido no seu contexto, para que ele possa ter capacidade de tomar decisões de forma consciente21,22. Para que isso ocorra, a organização e o desenvolvimento do cuidado precisam estar centrados na pessoa e não na doença ou nos procedimentos, respeitando sua singularidade, valores, crenças e seu contexto de vida, mesmo em situações e contextos adversos23,24,25.
O problema de acompanhamento da sífilis gestacional continua persistindo durante o pré-natal, de forma que tem resultado no aumento de diagnóstico de casos positivos11,7,5. Durante o ciclo gravídico-puerperal, constata-se que a educação em saúde na perspectiva dialógica26 pode ser uma ferramenta potente no cuidado, mas não tem sido utilizada, pois poderia proporcionar autonomia para a tomada de decisão consciente. O que ainda ocorre é a reprodução de um modelo de transmissão de informações mais focado nos aspectos gerais do pré-natal e não nas necessidades das gestantes. Os desdobramentos futuros da sífilis gestacional têm sido abordados neste período, porém, de forma isolada e esporádica27.
Para que as intervenções de educação em saúde possam ter eficácia, é necessária a utilização de metodologias e ferramentas adequadas às necessidades da população. O uso de mensagens informativas via celular e internet podem ajudar a conscientizar acerca da sífilis e promover a adesão aos testes diagnósticos. O diálogo com as gestantes diagnosticadas com sífilis, onde se abordam conhecimentos sobre a doença, impacto no recém-nascido, prevenção e tratamento para a sífilis materna, comportamentos sexuais seguros e relevância da vigilânciapré-natal são fundamentais na educação em saúde28.
A proposição da vigilância em saúde dos casos de sífilis gestacional visa ao diagnóstico precoce na APS, a notificação dos casos, a testagem durante o pré-natal, o tratamento completo e o manejo clínico adequado, com acompanhamento para que não resulte em aumento de casos de transmissão vertical e de mortalidade por sífilis congênita29,30.
Sinaliza-se que, ainda, há outros desafios a serem superados. A partir do diagnóstico desse problema, muitas mães mencionam desconforto e culpa pela situação de saúde atual do recém-nascido. Por isso precisam de apoio dos profissionais e dos familiares..
No grupo de mães entrevistadas, houve casos de algumas que tiveram muito tempo prolongado de trabalho de parto, outros em que a criança teve diagnóstico de septicemia retornando ao hospital com sinais de desidratação, atribuida pela mãe à sífilis congênita. Em contraponto, observou-se um sentimento de satisfação, felicidade e alívio quando a criança teve alta do acompanhamento no ambulatório de especialidades.
O preconceito, o estigma e o isolamento diante da situação da mãe e da criança com sífilis congênita estão presentes tanto entre os familiares quanto entre profissionais não capacitados para o cuidado31. Em muitos contextos, mães são responsabilizadas pela transmissão, mesmo quando o problema decorre da falha do sistema de rastreio e tratamento durante o pré-natal. Essa situação pode afetar a identificação da mãe ou da família para realização do diagnóstico e a adesão ao tratamento da criança11.
Vários estudos corroboram esses resultados, ao referirem que o estigma social relacionado à crenças e julgamentos morais dificulta o acesso ao diagnóstico e tratamento precoces, levando os pacientes, por medo e vergonha, a não procurarem os serviços de saúde. O estigma compromete também o papel dos profissionais de saúde, que podem apresentar atitudes discriminatórias de forma inconsciente, dificultando a adesão ao tratamento32.
Esta é uma das dimensões a serem aprofundadas em investigações qualitativas, com profissionais nos diversos serviços de saúde, em que a gestante e as crianças são atendidas para que se proponha intervenção com construção de estratégias visando à superação dos preconceitos e estigmas33.
A formação dos profissionais, tanto inicial como em serviço, necessita de um referencial teórico crítico-reflexivo34, tendo como dispositivo uma ação pedagógica que promova a compreensão dos valores e crenças no processo de cuidado. Ou seja, o mundo do trabalho é um cenário de aprendizagem, que deve produzir reflexões que levem os trabalhadores a reconhecer os desafios da prática e os seus próprios nos percursos de cuidado35 inclusivos, ou seja, que respeitem o contexto e a cultura das famílias, construindo corresponsabilidade no cuidado36.
Outra das questões importantes no contexto das questões aqui tratadas diz respeito à integração e comunicação entre os serviços. Após a alta hospitalar, o recém-nascido é encaminhado para acompanhamento em unidade de saúde da Atenção Primária à Saúde (APS) para a puericultura e no SAE. As mães afirmam que gostam do atendimento do SAE, entretanto, houve unidade da APS que dispensou o acompanhamento da puericultura, o que é um equívoco diante do que é preconizado de cuidado para as crianças menores de dois anos17. Não existem estudos que evidenciem a importância do acompanhamento do latente com sífilis na APS, pelo que se recomenda estudos primários que possam reforçar a vigilância da saúde destas crianças em ambiente comunitário.
Em resumo, na Linha de Cuidado, há desafios à gestante e ao recém-nascido com sífilis, fato este que tem gerado desdobramentos perante a organização e gestão na rede no Sistema Único de Saúde (SUS). São necessários investimentos nas dimensões da formação, do desenvolvimento do cuidado, da organização e gestão compartilhada dos serviços, considerando os indicadores de saúde.

Considerações Finais
O diagnóstico e o tratamento da sífilis congênita são operacionalizados, inicialmente, no hospital, e a sua continuidade ocorre no Serviço de Assistência Especializada (SAE) em nível ambulatorial. Porém, o recém-nascido, concomitantemente, deve começar as consultas de puericultura na unidade de saúde da APS.
É necessário investir contra o preconceito, o estigma e a culpa, sentimentos comuns entre familiares, profissionais e na própria mãe no tratamento para sífilis do recém-nascido na maternidade. Sobretudo os profissionais precisam de uma formação compreensiva e reflexiva para lidarem com diferentes valores e crenças que envolvem o problema em pauta.
Assim, a ampliação, a melhoria e aqualificação na Linha de Cuidado à Gestante e à Criança requer foco na formação dos profissionais para que centrem sua atenção na pessoa; promovam a constituição do sujeito que possa decidir sobre sua vida; numa gestão em rede que melhore a vigilância e a continuidade do cuidado. No caso da sífilis congênita fazem-se necessários o diagnóstico precoce, a notificação e o acompanhamento epidemiológico, o manejo clínico adequado e a educação em saúde.
Como limites da pesquisa, identifica-se a abordagem na perspectiva das mães que estavam em acompanhamento no Serviço de Assistência Especializada, porém as ausentes não foram contempladas. Assim, há a necessidade de ampliar a investigação com as mães de crianças que não comparecem no atendimento ambulatorial. Além disso, investigar o problema junto as mães e aos profissionais nos diversos serviços da Linha de Cuidado.

Referências
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Doná, IB, Arroio, NF, Rezende, KTA, Peres, CRFB, Tonhom, SFR, Frade, MFG, Chirelli, MQ. DIAGNÓSTICO, ACOMPANHAMENTO E CUIDADO DE CRIANÇAS COM SÍFILIS CONGÊNITA: PERSPECTIVA DAS MÃES. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/set). [Citado em 24/09/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/diagnostico-acompanhamento-e-cuidado-de-criancas-com-sifilis-congenita-perspectiva-das-maes/20162?id=20162&id=20162

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