0295/2026 - Diferenciais de sexo nos fatores associados à obesidade em adultos mais velhos: evidências do ELSI-Brasil
Sex differences in factors associated with obesity in older adults: evidences from the ELSI-Brazil
Autor:
• Larissa Franciny de Souza - Larissa Franciny de Souza - <larissa.franciny@ufvjm.edu.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1194-1135
Coautor(es):
• Débora Moraes Coelho - Coelho, DM - <coelhaenf@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0948-0971
• Bruno de Souza Moreira - Moreira, BS - <brunosouzamoreira@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8840-4496
• Nair Tavares Milhem Ygnatios - Ygnatios, NTM - <nairygnatios@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8862-1930
• Henrique Silveira Costa - Costa, HS - <henrique.costa@ufvjm.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1426-7246
• Alessandra de Carvalho Bastone - Bastone, AC - <alessandra.bastone@ufvjm.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2414-3730
Resumo:
Este estudo teve como objetivo analisar a prevalência de obesidade em adultos mais velhos brasileiros e investigar diferenças entre homens e mulheres nas associações com fatores sociodemográficos, comportamentais e contextuais. Trata-se de um estudo transversal com dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil, 2015-2016). A obesidade foi definida como índice de massa corporal ?30kg/m². Participaram do estudo 8.637 indivíduos. A prevalência de obesidade foi de 29,5%, sendo maior entre as mulheres (34,9%) do que entre os homens (23,2%). Entre as mulheres, a obesidade associou-se positivamente à raça/cor autorreferida preta (RP=1,18) e à residência em área urbana (RP=1,26), e negativamente à faixa etária ?80 anos (RP=0,65), à ausência de parceiro (RP=0,87), ao tabagismo (RP=0,58), ao consumo irregular de frutas/hortaliças (RP=0,81) e à residência na região Nordeste (RP=0,77). Entre os homens, observou-se associação positiva com ser insuficientemente ativo (RP=1,21) e associação negativa com as faixas etárias de 60-69 (RP=0,72), 70-79 (RP=0,70) e ?80 anos (RP=0,60), com o tabagismo (RP=0,54) e com a residência no Nordeste (RP=0,66). Os resultados evidenciam marcantes desigualdades de sexo nos determinantes da obesidade em adultos mais velhos brasileiros, destacando a necessidade de políticas públicas sensíveis ao sexo para sua prevenção e controle.Palavras-chave:
Obesidade; Desigualdade de sexo; Pessoa idosa; Fatores Sociodemográficos; Fatores de Estilo de Vida.Abstract:
This study aimed to analyze the prevalence of obesity in Brazilian older adults and to investigate differences between men and women in associations with sociodemographic, behavioral, and contextual factors. This is a cross-sectional study with data from the Brazilian Longitudinal Study of Aging (ELSI-Brazil, 2015-2016). Obesity was defined as body mass index ≥30kg/m2. The study included 8,637 individuals. The prevalence of obesity was 29.5%, being higher among women (34.9%) than among men (23.2%). Among women, obesity was positively associated with black self-reported race/color (PR=1.18) and residence in urban areas (PR=1.26), and negatively associated with age group ≥80 years (PR=0.65), absence of partner (PR=0.87), smoking (PR=0.58), irregular consumption of fruits/vegetables (PR=0.81) and residence in the Northeast region (PR=0.77). Among men, there was a positive association with being insufficiently active (PR=1.21) and a negative association with the age groups of 60-69 (PR=0.72), 70-79 (PR=0.70), and ≥80 years (PR=0.60), with smoking (PR=0.54), and with residence in the Northeast (PR=0.66). The results show marked sex inequalities in the determinants of obesity in the Brazilian older population, highlighting the need for sex-sensitive public policies for its prevention and control.Keywords:
Obesity; Sex inequality; Aged; Socioeconomic Factors; Life Style.Conteúdo:
A obesidade é definida como uma condição caracterizada pelo excesso de adiposidade corporal, configurando-se como uma doença crônica de natureza sistêmica 1. É reconhecida como um importante fator de risco para diversas doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes mellitus tipo 2, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer 2, além de estar associada ao aumento da mortalidade por todas as causas 3. Embora anteriormente considerados problemas predominantes em países desenvolvidos, o sobrepeso e a obesidade vêm crescendo de forma acelerada em países da América Latina, como o Brasil, que apresenta uma das mais elevadas prevalências globais 4,5. Esse cenário é impulsionado pela transição nutricional, caracterizada por mudanças nos padrões alimentares, aumento do sedentarismo e maior disponibilidade de alimentos ultraprocessados 3,6.
As transformações no cenário demográfico, marcadas pelo aumento expressivo da população idosa, têm sido acompanhadas por uma maior prevalência de obesidade nessa faixa etária 5,7. No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostraram que a prevalência de obesidade na população idosa geral é de 24,8%, sendo 21,2% entre os homens e 27,5% entre as mulheres 8. Fatores inerentes ao processo de envelhecimento como inatividade física, padrões alimentares inadequados, alterações fisiológicas e hormonais, redução do metabolismo basal e das necessidades nutricionais contribuem para o aumento da obesidade nesse grupo populacional 5,9,10. Além de agravar doenças crônicas já prevalentes na velhice, um maior índice de massa corporal (IMC) tem sido associado ao comprometimento cognitivo e à pior qualidade de vida 2, reforçando a importância de compreender os fatores que influenciam o aumento do peso corporal em adultos mais velhos. Ademais, o monitoramento adequado do estado nutricional pode contribuir para reduzir impactos negativos à saúde, como maior risco de fragilidade, perda funcional e aumento da mortalidade 5,9,11.
Estudos mostram que a obesidade afeta homens e mulheres de maneiras distintas, considerando a prevalência, a distribuição do tecido adiposo, a associação com comorbidades e a resposta ao tratamento. Além dos aspectos biológicos, observam-se também desigualdades nas dimensões sociais e econômicas, uma vez que a obesidade pode influenciar de forma diferenciada, conforme o sexo, a probabilidade de conclusão educacional, a formação de parcerias conjugais e o nível de renda 12,13,14. Essa diferença de sexo tem sido observada de maneira consistente em diferentes contextos populacionais e reforça a importância de que análises e intervenções considerem as especificidades de cada sexo 15,16. Fatores sociodemográficos, como idade, renda, raça/cor, estado civil, escolaridade 15,16, 17, comportamentais, como tabagismo, hábitos alimentares, consumo de álcool, nível de atividade física 15,18,19,20,21 e contextuais, local de residência 17,22 também exercem influência sobre a prevalência da obesidade na população idosa. Entretanto, ainda são escassas análises em nível nacional que integrem simultaneamente aspectos sociodemográficos e contextuais, lacuna que reforça a relevância do presente estudo. Dentro do nosso conhecimento, um estudo avaliou a prevalência e fatores sociodemográficos e contextuais associados ao baixo peso e ao excesso de peso em uma amostra nacionalmente representativa de adultos mais velhos brasileiros, mas não abordou a obesidade 17. Outro estudo investigou a prevalência e fatores associados à adiposidade abdominal, também em uma amostra nacionalmente representativa desta população, incluindo variáveis sociodemográficas, condições de saúde e um fator contextual (residência rural/urbana) 23. Embora a circunferência da cintura apresente maior associação com o risco cardiometabólico, o IMC permanece como o indicador mais amplamente utilizado em estudos epidemiológicos para a classificação de sobrepeso e obesidade 5. Ademais, há uma base robusta de evidências que relaciona a obesidade definida por esse índice a um maior risco de morbidade, mortalidade e outros desfechos adversos 5.
Diante dessas evidências, torna-se fundamental aprofundar a investigação sobre as disparidades de sexo relacionadas à obesidade, com o intuito de subsidiar estratégias de cuidado e políticas públicas mais eficazes e sensíveis às especificidades da população 15. Compreender essas relações é crucial para o desenvolvimento de ações mais equitativas e adequadas, especialmente frente às desigualdades sociais e regionais presentes no país. Nesse contexto, este estudo tem como objetivo analisar a prevalência da obesidade geral e por sexo, bem como investigar as diferenças de sexo na associação entre obesidade e fatores sociodemográficos, comportamentais e contextuais em adultos mais velhos no Brasil.
MÉTODOS
Delineamento do estudo e fonte de dados
Trata-se de um estudo de delineamento transversal, com dados da linha de base do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido entre 2015 e 2016. O ELSI-Brasil é um inquérito domiciliar longitudinal, de abrangência nacional e representativo da população com 50 anos ou mais, cujo objetivo principal é investigar as condições de vida e saúde de pessoas idosas no Brasil 24.
Amostra
A amostra do ELSI-Brasil foi delineada com o objetivo de representar a população brasileira não institucionalizada, residente em 70 municípios distribuídos pelas cinco macrorregiões geográficas do país. A coleta de dados foi por meio de um questionário estruturado, dividido em três módulos principais: (1) domicílio, (2) individual e (3) medidas físicas, incluindo antropometria, pressão arterial e função física 24.
Para o sorteio amostral, os municípios foram classificados em quatro estratos, de acordo com o tamanho da população residente. Nos três primeiros estratos, que incluíam municípios com até 750.000 habitantes, a amostra foi selecionada em três estágios: município, setor censitário e domicílio. No quarto estrato, composto por municípios de grande porte, a seleção da amostra foi realizada em dois estágios: setor censitário e domicílio.
Informações adicionais sobre a pesquisa estão disponíveis na página oficial do ELSI-Brasil (http://elsi.cpqrr.fiocruz.br/) e em publicações anteriores 24,25.
O ELSI-Brasil foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, Minas Gerais (CAAE 34649814.3.0000.5091), e todos os participantes assinaram termos de consentimento livre e esclarecido distintos para a realização das entrevistas e das medidas físicas.
Critérios de exclusão
Para o presente estudo, foram excluídos: (1) participantes classificados como acamados (n=113) ou cadeirantes (n=61), visto que, nesses casos, o peso e a altura foram obtidos por autorrelato, o que compromete a comparabilidade das medidas; (2) indivíduos que se autodeclararam de raça/cor da pele amarela (n=87) ou indígena (n=219), devido ao número reduzido de participantes nessas categorias; e (3) aqueles sem informação sobre o IMC (n=295), totalizando uma amostra final de 8.637 indivíduos (Figura 1).
Variáveis do estudo
Variável dependente
A variável dependente foi a obesidade, definida como IMC ?30 kg/m², conforme preconizado pela Organização Mundial da Saúde 26. O IMC foi calculado pela razão entre o peso do indivíduo (em quilogramas) e sua altura (em metros) ao quadrado (kg/m²). As medidas de peso e altura foram aferidas duas vezes, seguindo protocolos padronizados, descritos em publicação anterior 27. Para as análises, considerou-se a média das duas mensurações.
Variáveis independentes
Todas as variáveis independentes foram obtidas por autorrelato. As variáveis sociodemográficas analisadas foram: faixa etária (50-59, 60-69, 70-79 ou ?80 anos); raça/cor da pele autorreferida (branca, parda ou preta); escolaridade em anos completos de estudo (?9 anos, 5 a 8, 1 a 4 ou nunca estudou); renda mensal domiciliar per capita em tercis (alta: >R$ 1.040,00; média: R$ 586,68 a 1.040,00 ou baixa:
Variável de estratificação
O sexo foi considerado um moderador potencial e utilizado como variável de estratificação, com base em evidências que indicam diferenças biológicas, comportamentais e sociais nos determinantes da obesidade entre homens e mulheres 32.
Análise estatística
Todas as análises foram realizadas no software Stata/SE, versão 17.0, considerando os pesos amostrais. Para isso, foi empregado o comando svy (survey) em todas as etapas analíticas. As análises foram estratificadas por sexo. As análises descritivas dos fatores sociodemográficos, comportamentais e contextuais foram conduzidas para a amostra total e estratificadas de acordo com o desfecho, sendo os resultados apresentados por meio de distribuições de frequência (%) com os respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Para estimar as associações entre as variáveis independentes e o desfecho, empregou-se a regressão de Poisson. Inicialmente, foram realizadas análises univariadas entre cada variável independente e o desfecho (modelo bruto). Em seguida, foi conduzida a análise múltipla. Todas as variáveis independentes foram incluídas no modelo de regressão múltipla, independentemente do nível de significância na análise univariada, com base em um modelo conceitual previamente estabelecido. Essa estratégia foi adotada para garantir o controle adequado de potenciais fatores de confusão. Foram calculadas as razões de prevalência (RP), brutas e ajustadas, com os respectivos IC95%. Neste estudo, adotou-se o nível de significância de 5%.
RESULTADOS
Dos 9.412 participantes elegíveis para o estudo, 775 foram excluídos, resultando em uma amostra final de 8.637 indivíduos (4.857 mulheres e 3.780 homens) (Figura 1). A média de idade da amostra foi de 63,2 anos (desvio padrão=9,9), sendo a maioria composta por mulheres (56,2%).
(FIGURA 1)
A prevalência de obesidade na amostra total foi de 29,5% (IC95%=28,2-30,9), sendo significativamente maior entre as mulheres [34,9% (IC95%=32,9-37,0)] em comparação aos homens [23,2% (IC95%=21,5-25,0)]. A prevalência de obesidade entre as mulheres variou de 37,5% na faixa etária de 50 a 59 anos para 24,5% entre aquelas com 80 anos ou mais. Entre os homens, observou-se redução de 27,8% na faixa de 50 a 59 anos para 16,6% entre os indivíduos com 80 anos ou mais (Figura 2). A Tabelas 1 apresenta a distribuição da amostra e a prevalência de obesidade de acordo com as características sociodemográficas, comportamentais e contextuais, tanto na amostra total quanto estratificada por sexo. Entre os participantes, 48,5% estavam na faixa etária de 50 a 59 anos; 46,2% autodeclararam da raça/cor da pele parda; 38,3% tinham entre 1 e 4 anos de estudo; 64,7% eram casados ou viviam em união estável; 70,5% eram suficientemente ativos; 89,3% relataram não fazer uso excessivo de álcool; 82,9% não eram tabagistas; 79,7% consumiam regularmente frutas e hortaliças; 46,8% residiam na região Sudeste; e 84,7% moravam em área urbana.
(FIGURA 2)
(TABELA 1)
A Tabela 2 apresenta as associações brutas e ajustadas entre os fatores sociodemográficos, comportamentais e contextuais e a obesidade, estratificadas por sexo. Entre as mulheres, no modelo ajustado, observou-se menor prevalência de obesidade entre aquelas com idade ?80 anos (RP=0,65; IC95%=0,51–0,84), sem parceiro (solteiras, divorciadas ou viúvas) (RP=0,87; IC95%=0,78–0,96), tabagistas (RP=0,58; IC95%=0,50–0,68), aquelas que não consumiam regularmente frutas e hortaliças (RP=0,81; IC95%=0,68–0,95) e residentes na região Nordeste (RP=0,77; IC95%=0,62–0,95). Em contrapartida, a prevalência de obesidade foi maior entre mulheres que se autodeclararam de raça/cor da pele preta (RP=1,18; IC95%=1,01–1,42) e entre aquelas que residiam em áreas urbanas (RP=1,26; IC95%=1,04-1,53).
Entre os homens, o modelo ajustado revelou menor prevalência de obesidade nas faixas etárias de 60 a 69 anos (RP=0,72; IC95%=0,61–0,84), 70 a 79 anos (RP=0,70, IC95%=0,54–0,90) e ?80 anos (RP=0,60; IC95%=0,43–0,83), entre tabagistas (RP=0,54; IC95%=0,43–0,68) e entre aqueles que residiam na região Nordeste (RP=0,66; IC95%=0,50–0,88). Por outro lado, verificou-se maior prevalência de obesidade entre os homens classificados como insuficientemente ativos (RP=1,21; IC95%=1,06–1,39).
(TABELA 2)
DISCUSSÃO
O presente estudo, com base em uma amostra nacional representativa, demonstrou que os determinantes da obesidade em adultos mais velhos brasileiros variam conforme o sexo. Diferentemente de análises anteriores, evidenciou que mulheres são mais vulneráveis a fatores sociodemográficos e contextuais, enquanto homens são mais afetados por comportamentos individuais, além de destacar desigualdades regionais e achados paradoxais que reforçam a complexidade do fenômeno. A obesidade foi mais prevalente entre as mulheres (34,9%) do que entre os homens (23,2%), confirmando as desigualdades de sexo previamente descritas na literatura. Dentre os fatores associados à menor prevalência de obesidade em ambos os sexos, destacaram-se a idade com redução progressiva da prevalência nas faixas etárias de 60-69, 70-79 e ?80 anos entre os homens e ?80 anos entre as mulheres, o tabagismo e residir na região Nordeste. Entre as mulheres, a ausência de parceiro e o consumo não regular de frutas e hortaliças também se associaram à menor prevalência de obesidade, enquanto a autodeclaração de raça/cor da pele preta e residir em área urbana foram associados à maior prevalência. Nos homens, o único fator comportamental associado à maior prevalência de obesidade foi ser classificado como insuficientemente ativo.
Um estudo recente, que também utilizou o banco de dados do ELSI-Brasil (2019-2021), adotou a circunferência da cintura como medida para definição de obesidade (obesidade abdominal) e encontrou uma prevalência mais elevada de obesidade (55,1%). Assim como no presente estudo, a obesidade associou-se negativamente ao sexo masculino, à idade maior ou igual a 80 anos, à residência em área rural e ao tabagismo 23.
A elevada prevalência de obesidade em adultos mais velhos tem sido documentada em diferentes países, variando entre 12,8% e 31,9%, segundo estudos prévios 33,34,35. No Brasil, uma investigação conduzida em Vitória (ES) com 882 idosos (?60 anos) identificou prevalência de 23,4% 36, enquanto outro estudo realizado em Pelotas (RS), envolvendo 1.451 idosos (?60 anos), apontou prevalência de 29,9% 37. Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL) mostraram que, em 2016, a prevalência de obesidade em adultos mais velhos variou de 22,9% (55 a 64 anos) a 20,3% (65 anos e mais) 38. Esses resultados estão em consonância com os 29,5% encontrados na presente análise, reforçando a magnitude e relevância do problema no contexto nacional.
Investigações anteriores também apontam que a prevalência de obesidade é mais elevada entre mulheres idosas do que entre homens 39,40, achado consistente com os resultados do presente estudo. Essa diferença pode ser parcialmente atribuída às alterações hormonais decorrentes da menopausa, período marcado pela redução dos níveis de estrogênio, que favorece o aumento da gordura corporal total e central 41. Além disso, fatores comportamentais como menor nível de atividade física e maior consumo de alimentos ultraprocessados tendem a intensificar o acúmulo de adiposidade e os riscos associados à obesidade em mulheres idosas. Tais evidências ressaltam a importância de estratégias de prevenção e intervenção que considerem padrões específicos de comportamento alimentar e prática de atividade física nesse grupo populacional 42,43.
A associação inversa entre obesidade e envelhecimento é amplamente documentada na literatura, sendo que ambas as condições compartilham vias biológicas comuns, como a inflamação crônica de baixo grau, o comprometimento da qualidade muscular, as disfunções nos mecanismos de controle proteico e a redução da resposta anabólica muscular 44,45. Esses processos contribuem significativamente para o declínio da saúde e da funcionalidade ao longo do tempo. Evidências sugerem que, com a progressão do comprometimento da função física, podem ocorrer simultaneamente perda de peso e redução na ingestão alimentar 17,46. Um estudo recente com 1.157 indivíduos demonstrou que a perda de peso ?5% após três anos foi observada em 13,8%, 26,8% e 30,5% dos participantes com 70, 80 e 90 anos, respectivamente, estando associada ao IMC ?25 kg/m² (OR=1,90; IC95%=1,08–3,34) 17. Resultados similares foram observados em um estudo brasileiro, que evidenciou redução da prevalência de excesso de peso com o avanço da idade, em ambos os sexos. Notadamente, idosos com 80 anos ou mais apresentaram maior prevalência de baixo peso 17, reforçando a hipótese de que idosos em idade avançada têm menor probabilidade de apresentar obesidade. Entretanto, é importante relatar que a menor prevalência de obesidade em idosos com 80 anos ou mais pode estar relacionada à insegurança alimentar. Um estudo realizado em Campinas, com o objetivo de estimar a prevalência de insegurança alimentar em famílias com pessoas idosas, identificou ocorrência de insegurança alimentar de leve a grave em 52% dos domicílios, e que as pessoas idosas de famílias com insegurança alimentar apresentavam menor renda e escolaridade 47. Ademais, uma análise de série temporal com dados do National Health and Nutrition Examination Surveys (2007-2016), nos Estados Unidos da América, evidenciou aumento de insegurança alimentar entre os idosos, passando de 5,5% para 12,4%, com maior incremento entre aqueles de baixa renda, além de associação com pior qualidade da dieta 48. Por fim, o viés de sobrevivência constitui outro aspecto importante que pode contribuir para a menor prevalência de obesidade nas idades mais avançadas. Considerando a associação entre obesidade e mortalidade por todas as causas 5,9, indivíduos com obesidade podem estar menos representados nas faixas etárias mais avançadas.
Os dados do presente estudo indicaram que adultas mais velhas solteiras, divorciadas ou viúvas apresentaram uma prevalência de obesidade 13% menor em comparação com aquelas casadas ou em união estável (RP=0,87; IC95%=0,78–0,96). Resultados semelhantes foram encontrados em outra pesquisa nacional 17, sugerindo que a ausência de parceiro pode repercutir negativamente nos comportamentos alimentares. Esse padrão inclui o hábito de pular refeições, a menor qualidade da dieta e a falta de comensalidade compreendida como o ato de se alimentar em companhia, o que envolve aspectos sociais e emocionais 17,49,50. Além disso, idosas que vivem sozinhas apresentam menor renda e tendem a enfrentar maior insegurança alimentar e menor interação social; fatores que podem contribuir para uma menor prevalência de obesidade 51,52,53,54.
Outra variável sociodemográfica significativamente associada à obesidade neste estudo foi a raça/cor da pele autorreferida. Observou-se que mulheres pretas apresentaram uma prevalência 18% maior de obesidade em comparação com mulheres brancas (RP=1,18; IC95%=1,01–1,41). Esse resultado está em consonância com os achados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, no Brasil, que apontou associação semelhante (OR=1,19; IC95%=1,03–1,38; p=0,017) 39. De acordo com a literatura, diversos fatores podem estar relacionados a essa desigualdade, incluindo aspectos socioeconômicos, culturais, sociais, ambientais e biológicos 16,55. Uma revisão sistemática que investigou a relação entre raça e obesidade em mulheres negras destacou a complexidade dessa associação, influenciada por interações entre condição socioeconômica, sexo e contexto sócio-histórico 56. Entre as possíveis explicações, destacam-se os efeitos fisiológicos, psicológicos e culturais do estresse decorrente da discriminação racial. Essa associação pode ainda ser compreendida à luz do modelo de transição da obesidade, proposto por Jaacks et al. (2019) 21, que descreve o avanço progressivo da obesidade entre populações em situação de vulnerabilidade, como mulheres negras de baixa renda e residentes em centros urbanos. Além disso, o racismo estrutural pode impor barreiras sistêmicas ao acesso a recursos essenciais para a manutenção de um peso adequado, como alimentos saudáveis, espaços de lazer para prática de atividade física e serviços de saúde de qualidade 16,55, perpetuando as desigualdades observadas.
A relação entre inatividade física e obesidade em idosos é amplamente documentada na literatura 15,20,56. Uma pesquisa realizada com idosos brasileiros revelou que indivíduos fisicamente inativos apresentaram maior chance de serem obesos (OR=1,87; IC95%=1,47–2,38) em comparação com aqueles fisicamente ativos 57. Evidências indicam uma relação causal bidirecional entre inatividade física e IMC elevado, sugerindo que a inatividade contribui para o aumento do peso corporal, enquanto o excesso de peso, por sua vez, favorece o comportamento sedentário, perpetuando um ciclo de inatividade e ganho de peso 58. Além disso, fatores ambientais, como a baixa qualidade da vizinhança e a ausência de espaços adequados para a prática de atividade física, podem intensificar essa associação, especialmente entre os homens 59. É importante pontuar que, no presente estudo, a associação entre inatividade física e obesidade foi observada somente na população masculina, sugerindo que fatores relacionados ao sexo influenciam esse comportamento.
Assim como ocorre com a inatividade física, a relação entre tabagismo e obesidade em idosos é bem descrita na literatura, sendo considerada complexa e multifatorial 19. Estudos indicam que fumantes, independentemente do sexo, tendem a apresentar menor IMC e menor risco de obesidade em comparação com não fumantes, possivelmente devido ao efeito supressor de apetite da nicotina e à sua capacidade de acelerar o metabolismo 19,60. Embora o tabagismo atue como um fator aparentemente protetor contra a obesidade, em ambos os sexos, conforme observado no presente estudo, esse comportamento não deve ser interpretado como benéfico 19,61. Ao contrário, o tabagismo pode ser interpretado como um marcador de vulnerabilidade em idosos, associado a piores condições socioeconômicas, sedentarismo e maior probabilidade de desenvolvimento de doenças crônicas, especialmente histórico de acidente vascular encefálico, câncer, doenças pulmonares e transtornos como depressão e ansiedade 62.
Em relação ao consumo de frutas e hortaliças, observou-se que mulheres que não consumiam regularmente esses alimentos apresentaram uma prevalência 19% menor de obesidade em comparação àquelas que os consumiam (RP=0,81; IC95%=0,68–0,95), um achado aparentemente paradoxal. Uma possível explicação para esse resultado é a presença de causalidade reversa, em que o diagnóstico de obesidade pode ter motivado mudanças nos hábitos alimentares, levando à adoção de uma alimentação mais saudável como consequência da condição clínica já instalada 63. Recentemente, um estudo conduzido também com adultos mais velhos brasileiros encontrou que as mulheres apresentavam maior frequência de consumo de frutas e hortaliças em comparação aos homens, refletindo um padrão alimentar relativamente mais saudável. No entanto, essa prática não se traduziu em menor prevalência de obesidade entre as mulheres, sugerindo a influência de outros determinantes na manutenção de um estado nutricional adequado 64.
Entre as variáveis contextuais analisadas, o presente estudo identificou que a prevalência de obesidade foi menor entre mulheres e homens residentes na região Nordeste do Brasil, em comparação com seus pares residentes na região Sul. Em uma pesquisa realizada com adultos mais velhos brasileiros, observou-se que mulheres residentes nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste apresentavam menor chance de excesso de peso em comparação àquelas do Sul 17. Viver na região Nordeste pode estar associado a um menor risco de obesidade, possivelmente em função de diferenças em aspectos socioeconômicos, padrões alimentares, níveis de atividade física e acesso a alimentos ultraprocessados 18,21. Além disso, neste estudo, residir em áreas urbanas foi associado à maior prevalência de obesidade entre as mulheres. Estudos anteriores indicam que mulheres que vivem em áreas urbanas apresentam maior prevalência de sobrepeso e obesidade em comparação àquelas residentes em áreas rurais 18,65,66. A urbanização está fortemente relacionada a mudanças no estilo de vida, como a redução da prática de atividade física, o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados hipercalóricos e a ampliação das desigualdades socioeconômicas; fatores que, em conjunto, contribuem para o aumento das taxas de obesidade 21,65,67,68. Esses achados reforçam a importância de considerar os determinantes contextuais na formulação de políticas públicas de promoção da saúde voltadas à população adulta mais velha brasileira.
Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos achados. Primeiramente, por se tratar de um estudo com delineamento transversal, não é possível estabelecer relações de causalidade entre os fatores analisados e a obesidade. Além disso, a utilização do IMC ?30 kg/m² para a definição de obesidade constitui uma limitação, uma vez que este indicador não distingue massa gorda de massa magra e não considera a distribuição da gordura corporal. Essas limitações são particularmente relevantes na população idosa, devido às alterações na composição corporal que acompanham o envelhecimento, incluindo a redução da massa muscular e a redistribuição da gordura corporal. Nesse contexto, o uso de um ponto de corte fixo de IMC pode não identificar adequadamente alterações na adiposidade em diferentes faixas etárias e pode, potencialmente, subestimar a presença de obesidade em indivíduos com elevada adiposidade e baixa massa muscular. Medidas adicionais, como a circunferência da cintura e o percentual de gordura corporal, poderiam proporcionar uma avaliação mais abrangente da adiposidade. Entretanto, o ponto de corte de IMC ?30 kg/m² permanece amplamente estabelecido e internacionalmente utilizado para a classificação da obesidade, tanto em estudos epidemiológicos, como o ELSI-Brasil, quanto na prática clínica, além de possibilitar a padronização e a comparabilidade dos resultados entre diferentes estudos e populações. Por fim, o uso de dados autorreferidos pode ter introduzido viés de informação, com possível impacto na acurácia das medidas e, consequentemente, nas estimativas obtidas.
Apesar dessas limitações, o estudo apresenta importantes pontos fortes. A ampla e representativa amostra populacional do estudo confere robustez aos resultados, enquanto a análise multivariada, estratificada por sexo, possibilita uma compreensão mais abrangente e precisa dos determinantes da obesidade em adultos mais velhos, além de possibilitar a identificação das especificidades relacionadas a cada sexo.
Em síntese, os achados deste estudo demonstram uma elevada prevalência de obesidade em adultos mais velhos no Brasil, especialmente entre as mulheres. Os fatores associados à obesidade evidenciam importantes desigualdades de sexo: entre os homens, observa-se maior influência de comportamentos individuais, como a inatividade física, enquanto, entre as mulheres, destacam-se determinantes sociodemográficos, como a autodeclaração de raça/cor preta e a ausência de parceiro. No que se refere aos fatores contextuais, observou-se que residir na região Nordeste esteve associado a uma menor prevalência de obesidade, enquanto viver em áreas urbanas associou-se a uma maior prevalência desse desfecho em ambos os sexos.
Esses achados reforçam a complexidade dos determinantes da obesidade nesse grupo etário e apontam para a necessidade de estratégias de promoção de saúde sensíveis ao sexo e ao contexto ambiental dos indivíduos. Exemplos incluem programas comunitários de incentivo à atividade física direcionados aos homens idosos, além de ações voltadas às mulheres mais velhas que incluam educação alimentar e estímulo à comensalidade. Por fim, ressalta-se a importância de estudos longitudinais que aprofundem a compreensão das trajetórias da obesidade ao longo do envelhecimento, contribuindo para o desenvolvimento de intervenções mais eficazes na prevenção e no enfrentamento desse agravo.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
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