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0196/2026 - ENTRE NUTRIR E CUIDAR: A (RE)CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO NUTRICIONISTA EM CUIDADOS PALIATIVOS
BETWEEN NOURISHING AND CARING: THE (RE)CONSTRUCTION OF THE DIETITIAN’S IDENTITY IN PALLIATIVE CARE

Autor:

• Rosane de Souza Santos Oliveira - Oliveira, RSS - <rosane.souza@inca.gov.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9081-3501

Coautor(es):

• Mariana Fernandes Costa - Costa, MF - <marifcosta@gamil.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7702-1841

• Francisco Romão Ferreira - Ferreira, FR - <chico.romao@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4504-3621



Resumo:

Este estudo analisa a construção da identidade profissional do nutricionista em Cuidados Paliativos, buscando compreender como esse processo se articula a partir de experiências, valores e práticas cotidianas. Trata-se de pesquisa qualitativa, exploratória e interpretativa, baseada em 25 entrevistas semiestruturadas com nutricionistas atuantes no Brasil. A análise seguiu a técnica de conteúdo de Bardin, com apoio do software MaxQDA®, e fundamentação teórica em Bourdieu, Hall, Certeau e Dejours. Emergiram duas dimensões: “Desconstrução da identidade”, marcada pela ruptura com a formação técnica tradicional, e “Construção da identidade”, caracterizada pela incorporação de práticas éticas, comunicacionais e afetivas. Evidencia-se o sofrimento psíquico diante da morte, do luto e da impotência institucional, bem como estratégias adaptativas para enfrentá-lo. Conclui-se que a identidade do nutricionista em Cuidados Paliativos constitui-se como processo dinâmico e relacional, sustentado pela ressignificação do habitus profissional e pela integração entre saber técnico, escuta ativa e humanização do cuidado.

Palavras-chave:

Cuidados Paliativos; Nutricionista; Identidade Pessoal

Abstract:

This study analyzes the construction of the professional identity of dietitians in Palliative Care. It aims to understand how this process unfolds through experiences, values, and daily practices, moving beyond the biomedical paradigm and adopting an approach centered on dignity and comfort. This is a qualitative, exploratory, and interpretative study based on 25 semi-structured interviews with Brazilian dietitians working in Palliative Care. The data were analyzed using Bardin’s content analysis technique, supported by MaxQDA® software, and grounded in the theoretical contributions of Bourdieu, Hall, Certeau, and Dejours. Two main dimensions emerged: “Deconstruction of identity,” marked by a rupture with traditional technical training, and “Construction of identity,” characterized by the incorporation of ethical, communicational, and affective practices. The results highlight the psychological suffering experienced by professionals when facing death, grief, and institutional limitations, as well as the adaptive strategies developed to cope with these challenges. It is concluded that the identity of dietitians in Palliative Care is a dynamic and relational process, sustained by the redefinition of professional habitus and the integration of technical knowledge, active listening, and humanized care.

Keywords:

Palliative Care; Dietitians; Personal Identity

Conteúdo:

INTRODUÇÃO
Os Cuidados Paliativos configuram-se como uma abordagem voltada à melhoria da qualidade de vida de pacientes com doenças ameaçadoras à vida e de seus familiares, por meio de uma intervenção multidisciplinar que previne e alivia o sofrimento físico, psicológico, social e espiritual1. Devem ser iniciados desde o diagnóstico, em paralelo aos tratamentos modificadores da doença2. Seus princípios incluem a valorização da vida, a aceitação da morte como processo natural, o suporte ao paciente e à família e a atuação interdisciplinar1. Tais diretrizes tornam-se ainda mais relevantes diante da crescente complexidade do processo saúde-doença na contemporaneidade, marcada por avanços tecnológicos e científicos, mas também por novos dilemas éticos, bioéticos e humanísticos3.
Reconhecidos como direito humano fundamental2, os Cuidados Paliativos avançaram internacionalmente, mas ainda alcançam apenas 14% da população que deles necessita, sobretudo em países de baixa renda1. No Brasil, mesmo com a instituição da Política Nacional de Cuidados Paliativos em 2024, sua implementação permanece restrita: apenas cerca de 10% dos hospitais contam com equipes especializadas, concentradas em grandes centros urbanos4. Essa limitação relaciona-se, entre outros fatores, à formação profissional insuficiente, embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponte esse aspecto como essencial para a expansão da assistência1, o que demanda políticas públicas estruturantes e revisão dos currículos em saúde.
Além dos aspectos técnicos, os Cuidados Paliativos envolvem valores como autonomia, dignidade e respeito aos direitos dos pacientes1, que desafiam o modelo biomédico hegemônico, ainda marcado por práticas paternalistas3. Estudos internacionais apontam que profissionais da saúde frequentemente se sentem despreparados para atuar em Cuidados Paliativos, especialmente no manejo do sofrimento, da comunicação e das demandas emocionais do cuidado, evidenciando lacunas importantes na formação acadêmica e na educação permanente5. Nesse cenário, destaca-se a importância de preparar profissionais aptos ao trabalho interdisciplinar e ao cuidado ético e centrado na pessoa.
A atuação do nutricionista em Cuidados Paliativos enfrenta o desafio de equilibrar sua dimensão técnica - essencial para o alívio de sintomas e promoção da qualidade de vida - com disputas simbólicas e relações de poder que frequentemente marginalizam sua presença na equipe multiprofissional. Assim, este estudo propõe refletir sobre os sistemas simbólicos que moldam a expertise nutricional nesse campo e discutir a construção da identidade profissional do nutricionista nos Cuidados Paliativos.
Ressalta-se que este é um estudo inédito, cuja proposta é ampliar o debate sobre a identidade profissional do nutricionista em Cuidados Paliativos, a partir de uma abordagem qualitativa e interdisciplinar.

MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de estudo qualitativo, de caráter exploratório-descritivo e perspectiva interpretativa, que investigou a atuação de nutricionistas em Cuidados Paliativos por meio de entrevistas semiestruturadas, com roteiro voltado à construção da identidade profissional nesse campo. A elaboração das questões norteadoras considerou a experiência dos pesquisadores, o referencial teórico e os objetivos do estudo, abordando práticas nutricionais específicas e adaptações possíveis no contexto paliativo.
A amostra foi definida a partir de equipes registradas na Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) e no movimento Frente Paliativista. Foram incluídos nutricionistas com pelo menos 12 meses de atuação em Cuidados Paliativos que aceitaram participar voluntariamente, e excluídos aqueles fora da escala de serviço por licenças prolongadas durante o período de coleta.
As entrevistas ocorreram entre julho e dezembro de 2024, presencialmente ou via Google Meet, em ambiente reservado, com gravação autorizada e posteriormente apagada após transcrição com auxílio do Reshape®. Para garantir anonimato e princípios éticos, os participantes foram identificados por pseudônimos.
Os dados foram analisados segundo a técnica de análise de conteúdo de Bardin6, com apoio do software MaxQDA® (versão 2020), seguindo as etapas de pré-análise, codificação, categorização e interpretação. Inicialmente, realizou-se a leitura flutuante para identificação de conteúdos relevantes, seguida pela seleção de falas representativas. Na exploração, as unidades de sentido foram codificadas e agrupadas por temas recorrentes.
A etapa final envolveu a interpretação das categorias à luz dos objetivos e do referencial teórico, possibilitando compreender os sentidos atribuídos pelos participantes às suas trajetórias e aprofundar a discussão sobre a identidade profissional do nutricionista. O referencial adotado reuniu quatro abordagens complementares: Pierre Bourdieu, ao discutir a relação entre habitus e campo, contribuiu para entender a ressignificação da prática e a formação de uma nova expertise7; Stuart Hall, com a teoria da identidade, e Michel de Certeau, com a teoria das práticas, permitiram analisar táticas cotidianas e estratégias de resistência diante das normas institucionais8,9; e a Psicodinâmica do Trabalho de evidenciou os aspectos subjetivos e o sofrimento psíquico envolvidos na experiência laboral10.
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ (CAAE: 76552323.4.0000.5259), e todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Para apoio na etapa final de preparação do manuscrito, foi utilizada inteligência artificial exclusivamente para revisão gramatical e aprimoramento da formatação textual, sem interferência na análise dos dados ou na construção teórica.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos 69 nutricionistas convidados, 27 aceitaram participar da pesquisa, sendo dois excluídos por não atuarem diretamente na assistência em Cuidados Paliativos, totalizando 25 entrevistas analisadas, com duração de 15 a 55 minutos. Todas as participantes eram mulheres, com idades entre 29 e 59 anos. A maioria atuava na região Sudeste (n=19), seguida pelo Sul (n=3), Centro-Oeste (n=2) e Nordeste (n=1); não houve participantes da região Norte. Quanto ao tempo de atuação na área, 11 tinham mais de cinco anos de experiência, 10 entre dois e cinco anos, e quatro menos de dois anos. Aproximadamente 65% trabalhavam em instituições públicas.
A predominância feminina entre as entrevistadas reflete a realidade histórica da Nutrição, marcada por construções sociais que associam o cuidado à mulher. Profissões como Nutrição e Enfermagem foram ocupadas majoritariamente por mulheres, reforçando estereótipos de gênero e a ideia do cuidado como extensão do trabalho doméstico11,12. Embora a Nutrição proporcione certa autonomia, ainda sofre com baixa valorização e prestígio, influenciada pela divisão sexual do trabalho13. A presença exclusiva de mulheres nas entrevistas evidencia não apenas uma tendência, mas os desafios enfrentados por essas profissionais em um campo permeado por desigualdades e papéis sociais tradicionais12.
Na etapa de exploração do material, foram identificadas duas dimensões temáticas centrais que expressam aspectos significativos da experiência das participantes: Desconstrução da identidade e Construção da identidade, esta última abrangendo as categorias construção do paliativista, estratégias adaptativas, práticas e sofrimento com o trabalho.
A inserção do nutricionista nos Cuidados Paliativos implica um processo contínuo de desconstrução e construção identitária, marcado pela ruptura com modelos tradicionais centrados exclusivamente na recuperação nutricional e pela incorporação de novas disposições éticas, comunicacionais e relacionais. Enquanto isso, a construção da identidade paliativista emerge da incorporação de competências relacionadas à escuta, à interdisciplinaridade, à sensibilidade ética e ao reconhecimento da autonomia do paciente a partir das experiências e mobilização de recurso subjetivos e prático para reorganizar as atividades cotidianas e desenvolver estratégias de enfrentamento do sofrimento no trabalho, ressignificando a própria prática profissional.
Com o objetivo de sintetizar a estrutura analítica dos resultados, elaborou-se o Quadro 1.

DESCONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
O nutricionista em Cuidados Paliativos, diante da impossibilidade de alimentar o paciente de forma convencional, vivencia uma desconstrução de sua identidade profissional. Esse processo exige adaptação e incorporação de novas dimensões ao cuidado, gerando questionamentos sobre seu papel na equipe. Trata-se de uma transição que demanda abandonar paradigmas rígidos e adotar uma visão ampliada sobre alimentar e nutrir.
Nesse cenário, os atores sociais disputam formas de capital, e Bourdieu aponta que os agentes estão desigualmente preparados, conforme sua posição social e capital acumulado7,14. As falas de Jaqueline: “Na graduação, aprendemos o que é certo e adequado na alimentação [...]”, Dorothy: “No início, eu ainda tinha aquela visão hospitalar [...]” e Úrsula: “Com o tempo, crescemos profissionalmente [...]”, mostram como a formação acadêmica priorizou metas objetivas, como a recuperação nutricional, sem articulação com as ciências humanas. Tal cenário dialoga com pesquisas que evidenciam que muitos profissionais da saúde se sentem insuficientemente preparados para lidar com aspectos emocionais, comunicacionais, existenciais e cuidado interdisciplinar, presentes nos Cuidados Paliativos15.
Essas falas revelam um habitus profissional moldado por valores institucionais que orientam práticas e percepções7,16. Ao ingressarem nos Cuidados Paliativos, essas profissionais passam por uma ressignificação. Cíntia expressa essa mudança: “Atualmente eu tenho uma perspectiva bem diferente [...]” (Cíntia). Nessa perspectiva, o campo dos Cuidados Paliativos configura-se como espaço de disputas simbólicas, no qual diferentes agentes negociam legitimidade, reconhecimento e formas de atuação. Ao ingressar nesse campo, o nutricionista confronta disposições previamente incorporadas em sua formação profissional, sendo levado a reelaborar práticas, valores e modos de compreender o cuidado. Essa transição evidencia a relação dinâmica entre campo e habitus proposta por Bourdieu14, na qual as experiências vividas no cotidiano profissional produzem conflitos e possibilidades de transformação das disposições anteriormente naturalizadas.
Esse movimento de ruptura com a lógica curativista também tem sido identificado em estudos internacionais, que apontam que a formação em Cuidados Paliativos favorece mudanças significativas na percepção dos profissionais sobre a cronicidade, a incurabilidade e as necessidades holísticas dos pacientes5. Nesse contexto, o cuidado deixa de estar centrado exclusivamente na recuperação biológica e passa a incorporar dimensões subjetivas e éticas da experiência do adoecimento5.
Nesse contexto, o nutricionista precisa desenvolver competências além do técnico, como bioética, comunicação e trabalho interdisciplinar1. A escuta das preferências alimentares, mesmo fora dos padrões convencionais, torna-se essencial para promover conforto e bem-estar17. Gláucia e Dorothy reconhecem essa transformação: a nutrição passa a ser ressignificada como conforto. Dorothy observa que colegas sem visão paliativista enfrentam dificuldades com prescrição e desprescrição.
O recém-chegado ao campo, sem familiaridade com os códigos simbólicos, pode ser visto como outsider18, mas essa condição também favorece a criatividade. Gláucia conta que saiu da universidade com foco total nos planos alimentares, mas essa abordagem se mostra limitada nos Cuidados Paliativos, onde o cuidado visa conforto e qualidade de vida19. Jaqueline e Elaine destacam que, em doenças avançadas - aquelas consideradas sem possibilidade de beneficiar-se da terapêutica específica, como exemplo, paciente com câncer sem proposta curativa e apresentando caquexia refratária - atender às necessidades nutricionais, deixa de ser a meta principal.
Naja e Dorothy também apontam essa ampliação do olhar: “O paliativo tira você da zona de conforto” (Naja); “Não posso olhar só como nutricionista [...]” (Dorothy). A Nutrição deixa de ser instrumento de recuperação e passa a ser cuidado e dignidade.
Estudos como os de Amorim20, Del Olmo García21 e Camargo22 apontam que, em pacientes com câncer avançado, a intervenção nutricional deve priorizar o bem-estar e respeitar as preferências individuais. Camargo22 e Costa23 reforçam o caráter simbólico da alimentação como expressão de cuidado, vínculo e dignidade.

CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
A dimensão de construção da identidade evidencia o processo de formação de uma nova identidade profissional, o que implica na reelaboração do habitus. As participantes relatam estratégias adaptativas diante das demandas emocionais e éticas, o uso de rituais cotidianos e o apoio mútuo entre colegas. No contexto simbólico do campo da saúde, esse movimento envolve o enfrentamento de hierarquias e normas institucionais, a redefinição da prática e o fortalecimento da abordagem interdisciplinar.
Construção do Paliativista
A trajetória profissional em Cuidados Paliativos é interativa e contingente, conforme Becker18, que vê carreiras como construções moldadas pelas experiências e interações. Os relatos mostram como a identidade do nutricionista paliativista se forma entre dilemas e aprendizados, exigindo novas competências. Elaine e Beatriz ilustram esse processo ao destacarem o desafio de “aprender quando não fazer”, reconhecendo condutas desproporcionais e a limitação da nutrição em estágios avançados da doença.
A formação em Nutrição foca no “fazer”, negligenciando o “interromper” ou “evitar intervir”. A bioética principialista de Beauchamp e Childress24 reforça a autonomia como princípio essencial, mesmo diante de escolhas que divergem das condutas biomédicas.
Selma defende que respeitar a autonomia desloca a prática de um modelo normativo para uma abordagem ética, adaptando a alimentação às preferências do paciente. Essa questão se agrava diante do habitus profissional do nutricionista7, moldado para intervir, tornando a não intervenção algo estranho. O campo exige ruptura com esse habitus e avaliação crítica dos reais benefícios da conduta.
Essa ruptura é também identitária, como propõe Hall8: a identidade é dinâmica e socialmente construída. A atuação exige competências interpessoais, éticas e comunicacionais, com foco na interdisciplinaridade15. Margarida e Elaine reforçam que o cuidado nutricional deve dialogar com outras áreas: “Você entende que precisa estar bem afinado com a interdisciplinaridade” (Margarida).
A ANCP e a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) propõem o modelo mutualista de decisão compartilhada, com planos construídos entre profissionais, pacientes e familiares25. A comunicação é competência-chave. Esse enfoque converge com os pilares dos Cuidados Paliativos, que valorizam a escuta compassiva e superam o paternalismo15,26. Individualizar condutas é fundamental: cada paciente tem uma trajetória única. Elisa, Tatiane e Elaine reforçam que o cuidado deve ser proporcional e adaptado. A OMS afirma que decisões clínicas só são legítimas quando articuladas aos valores e desejos dos pacientes1. Da mesma forma, Croker27 destaca que o campo exige ações contínuas de reconhecimento e resposta às necessidades humanas, alinhamento de expectativas, valorização das relações e reflexão permanente sobre o cuidado. Dessa forma, a prática paliativista passa a demandar dos profissionais constante reelaboração de suas formas de agir, sentir e interpretar o sofrimento.
O nutricionista torna-se mediador de sentidos e escolhas, respeitando subjetividades. As entrevistas revelam a valorização do acolhimento, vínculo e inclusão da família. Francisca destaca a participação familiar como essencial para um cuidado ampliado. Essa visão converge com Chochinov28, que reconhece as dimensões emocionais, sociais e espirituais como parte inseparável do cuidado.
Integrar avaliação clínica e prognóstica à avaliação nutricional é essencial para orientar condutas conforme a evolução do paciente e o real benefício das intervenções. Úrsula e Beatriz reforçam essa importância. Em contextos paliativos, critérios como risco nutricional perdem centralidade diante da valorização da autonomia e da qualidade de vida.
O nutricionista em Cuidados Paliativos transita entre ciência e humanidade, reconhecendo a alimentação como suporte clínico e recurso simbólico para ressignificar a vida29. Valdete, Madalena e Dorothy indicam que o olhar paliativista ultrapassa o planejamento alimentar, exigindo acolhimento das queixas e necessidades do momento. Essa construção dialoga com Tomaz Tadeu da Silva30, que entende a identidade como efeito de discursos e relações de poder, socialmente produzida e instável.
Nas práticas paliativas, essa visão rompe com discursos biomédicos centrados em protocolos e abre espaço para narrativas que valorizam a subjetividade e autonomia do paciente. Cíntia afirma que sua atuação vai além do “literalmente nutrir”, exigindo sensibilidade, escuta e disposição para lidar com frustrações.
Ao integrar elementos técnicos e afetivos, o nutricionista reconstrói sua identidade profissional, configurando um “perfil diferenciado”. Os Cuidados Paliativos tornam-se campo de reinvenção do fazer em saúde, e não apenas aplicação de diretrizes31,32. A alimentação, como prática social e cultural, participa da constituição da identidade. Cíntia destaca que “a gente está sempre sendo nutrido”, revelando o caráter simbólico e afetivo.
A interrupção desse processo, seja pela doença ou por decisões terapêuticas, gera estranhamento fisiológico e subjetivo. Reconhecer essa estranheza permite ao profissional ampliar seu olhar e reposicionar sua atuação como agente de cuidado e membro ativo da equipe multidisciplinar.
Estratégias adaptativas
A atuação do nutricionista demanda considerar não apenas as práticas instituídas, mas também as possibilidades de ação transformadora dos sujeitos. Essa reprodução não é absoluta: existe sempre a possibilidade da reflexividade, da capacidade dos agentes de reconsiderar conscientemente suas práticas e desafiar os determinantes estruturais inscritos em seu habitus. Nesse sentido, emerge a dimensão ética do cuidado, que se fortalece quando o profissional se permite questionar e reinventar seu modo de atuar. Como relembra Sartre: “o que importa realmente não é o que se faz com um homem, mas o que ele faz com o que é feito a ele”33.
Essa lógica se aproxima da distinção entre estratégias e táticas proposta por Michel de Certeau9, segundo a qual, enquanto as instituições operam por estratégias para manter a ordem e a previsibilidade, os sujeitos “iniciantes”, como os nutricionistas no contexto paliativista, recorrem a táticas para improvisar, resistir e construir espaços de atuação possíveis.
O cuidado nutricional nesse campo não é algo consolidado em protocolos ou consensos universais, mas um espaço em formação e constante disputa de significados, no qual os profissionais testam, ajustam e ressignificam condutas, reconstruindo sua identidade. Essa necessidade de adaptação contínua também é reconhecida em pesquisas internacionais, que destacam que a atuação em Cuidados Paliativos exige aprendizagem permanente e capacidade de reorganização das práticas frente às demandas complexas do cuidado15.
As narrativas de Rosangela, Madalena e Gláucia mostram que esses ajustes cotidianos transitam pela flexibilização de protocolos, abdicando de recomendações rígidas em prol da individualidade e das peculiaridades da pessoa, o que exige contínua reflexão e adaptação das medidas terapêuticas. Elas defendem uma prática nutricional mais humanizada e flexível, que se afasta da rigidez técnica e se adapta às singularidades de cada paciente, considerando cultura, idade, fisiologia, diagnóstico e prognóstico para construir condutas mais sensíveis e eficazes.
As táticas surgem como práticas criativas e inventivas dos sujeitos, capazes de reapropriar-se das regras e ajustá-las à situação concreta, como propõe Certeau9. Abdicar de recomendações rígidas em favor da individualidade não significa negar a técnica, mas reinventá-la no espaço vivido, criando brechas onde a subjetividade do paciente e a sensibilidade do cuidador encontram lugar.
Esses ajustes cotidianos não apenas quebram protocolos, mas expressam um uso criativo e crítico do saber instituído, típico das microrresistências descritas por Certeau, nas quais o agir profissional deixa de ser estritamente prescritivo e passa a se basear em relações humanas, transformando o cuidado em um campo de negociação e construção compartilhada.
Essas adaptações deslocam o foco dos “números” para um cuidado verdadeiramente centrado no paciente e geram aquilo que Lúcia denomina “uma bricolagem nutricional com estudos”: arranjos criativos e contextuais que reconfiguram práticas conforme o cenário.
O conceito de bricolagem, elaborado por Lévi-Strauss34 e aprofundado por Ricoeur35 e Canevacci36, remete à ressignificação típica da modernidade e da globalização, sendo ao mesmo tempo instrumento de sobrevivência e reinvenção simbólica. Diferente do engenheiro, que planeja com ferramentas específicas, o bricoleur “arranja-se com os meios disponíveis”, compondo novas ordens a partir de fragmentos e resíduos de construções anteriores. Ao reinterpretar estudos e protocolos conforme as singularidades do cuidado, o nutricionista realiza uma “bricolagem nutricional” que traduz a complexidade do cotidiano em práticas adaptativas.
Ao sair dos livros e adaptar condutas de maneira individualizada, os nutricionistas constroem espaços de liberdade e inovação dentro de sistemas de saúde ainda fortemente protocolizados. Ivone, por exemplo, ressalta que, ao adaptar a alimentação para pacientes com disfagia, o foco passa a ser o conforto e o prazer. A conduta se torna individualizada, indo além das evidências técnicas e dos protocolos dos livros e diretrizes.
A identidade profissional do nutricionista nos Cuidados Paliativos não é fixa, nem determinada apenas pela formação acadêmica, mas continuamente (re)construída nas interações com pacientes, famílias e outros profissionais. Como ressalta Margarida: “O nosso desafio é sair um pouco dessa nossa ansiedade de praticar de forma livre a Nutrição e entender que, se a gente não fizer aquilo, não é deixar de praticar a nutrição, é ter um outro olhar na nossa prática”.
O cuidado nutricional nesse campo exige mais do que conhecimento técnico: requer a capacidade de mobilizar e combinar recursos pessoais e contextuais em função das necessidades reais de pacientes e familiares. Como observa Le Boterf37, a construção de competências favorece a formação de esquemas de mobilização de recursos que permitem ao sujeito aplicá-los em suas atividades cotidianas, em função de um projeto que lhe dá sentido. Por sua natureza transdisciplinar e colaborativa, esse campo demanda um conjunto de conhecimentos relacionais, habilidades e atitudes associadas ao trabalho em equipe38.
Práticas
As práticas, mais do que aplicação ou verificação de ideias, são agentes ativos nas transformações sociais, políticas e econômicas - fontes de pensamento, sentido e mudança. Elas não apenas reproduzem estruturas sociais, mas também as tensionam e reconfiguram, abrindo espaço para novos modos de ação e significação7.
Assim como Certeau9 descreve o uso da cidade pelos pedestres como forma de apropriação simbólica, é possível compreender que os profissionais de saúde, ao atuarem em cenários complexos como os Cuidados Paliativos, operam deslocamentos semelhantes: reconfiguram o conhecimento técnico por meio de ações impregnadas de singularidade, moldadas nas interações com pacientes, familiares e colegas.
A dimensão experiencial do aprendizado pode ser compreendida à luz de Bourdieu14, para quem as práticas sociais resultam da interiorização de esquemas de percepção, pensamento e ação construídos ao longo de processos contínuos de socialização. Tais esquemas orientam o agir profissional em contextos específicos, moldando respostas que muitas vezes dispensam racionalização explícita, mas estão profundamente enraizadas em disposições internalizadas.
Essa ideia dialoga com os estudos de Schön39, que propõe o conceito de “profissional reflexivo”, ressaltando que o conhecimento tácito desenvolvido na prática é tão relevante quanto o saber técnico-formal. Em contextos como a comunicação de notícias difíceis, o manejo não pode ser padronizado, exigindo sensibilidade e capacidade de adaptação. Segundo Célia, “parte do que eu aprendi foi na prática mesmo ali, com a médica e estudando e, enfim, foi ali na prática mesmo, fazendo” (Célia).
A formação teórica, embora essencial, não prepara integralmente o profissional para os desafios cotidianos dos Cuidados Paliativos. Úrsula e Rosângela apontam que a atuação nesse campo exige vivência prática aliada à busca contínua por conhecimento. Mesmo com domínio técnico, o cotidiano demanda adaptações que extrapolam o aprendizado acadêmico. O contraste entre teoria e prática aparece nas falas que expressam o estranhamento diante da complexidade emocional, cultural e ética do cuidado. Rosângela e Simone destacam que a experiência direta - ou mesmo observada - é fundamental para desenvolver sensibilidade diante das reações de pacientes e familiares.
Conforme apontado por Lemos, Silva e Pinto40, há uma lacuna entre o currículo tradicional e as competências necessárias à prática humanizada, o que reforça a importância da formação experiencial, interdisciplinar e contextualizada. A insuficiência formativa não é apenas uma realidade brasileira, mas um fenômeno internacional observado também entre profissionais da saúde em contextos paliativos, como no estudo de Morgan5 na Austrália que mostrou que 96% dos profissionais de apoio, como psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais, entres outros, sentiram-se despreparados ou apenas parcialmente preparados pela graduação para atuar em Cuidados Paliativos.
Os relatos indicam que a prática em bioética amplia a visão crítica sobre conflitos morais, estimulando reflexões que vão além dos protocolos técnicos. Ivone destaca que discutir dilemas com colegas e supervisores ajudou a compreender condutas e posturas éticas de forma mais profunda. Essa vivência favorece uma atuação mais madura e consciente. Zoboli e Fortes41 defendem que a ética é uma competência clínica construída principalmente na experiência prática.
Sofrimento com o trabalho
A entrada e vivência prática nesse campo pode vir acompanhada de sofrimento, relacionado a frustrações, conflitos éticos e institucionais. Esse sofrimento também pode ser um marcador da complexidade do campo e da necessidade de desenvolver estratégias de resistência e adaptação.
A literatura internacional também aponta que profissionais atuantes em Cuidados Paliativos frequentemente vivenciam sobrecarga emocional, sofrimento psíquico, dificuldades diante do luto, sentimento de impotência diante da finitude e sensação de despreparo frente às demandas subjetivas do cuidado5,27.
O sofrimento no trabalho, conforme revelado por entrevistas com profissionais da saúde no estudo de Baptista, Oliveira e Figueiredo42, manifesta-se como uma experiência complexa que envolve sentimentos de impotência, desvalorização e desgaste emocional. Giovanna relata essa experiência: “Foi muito difícil. Foi impactante participar da reunião familiar, que você tem que falar que você não... Que aquela pessoa não tolera mais a dieta. Isso psicologicamente é extremamente impactante” (Giovanna).
A nutricionista Madalena também compartilha uma dimensão afetiva intensa do seu trabalho, remetendo à associação entre os pacientes e figuras familiares. Ela conta que, no começo, enxergava nos pacientes traços de seus próprios familiares - o pai, a mãe - e que, ao observar mulheres jovens com seus companheiros ou mães com filhos, sentia forte empatia. Para ela, é preciso estar emocionalmente envolvida, pois não sentir também é uma forma de sofrimento; por isso, é necessário estar em constante trabalho interno.
Uma comunicação clara, aberta e contínua facilita a partilha de informações e a tomada de decisões compartilhada, respeitando as preferências e a autonomia da pessoa em situação paliativa e de sua família. Isso contribui para a redução de erros, melhoria da qualidade dos cuidados e criação de um ambiente de apoio e confiança entre profissionais, pacientes e cuidadores43. Para Giovana, a vivência cotidiana com o sofrimento, a morte e o adoecimento grave exige que o profissional desenvolva estratégias de comunicação e proteção emocional. Essas ferramentas são fundamentais para lidar com a intensidade psicológica do cuidado paliativo sem se deixar consumir.
A falta de espaços de escuta agrava o sofrimento psíquico, como evidenciado no estudo com profissionais da saúde durante a pandemia42.Esses achados reforçam a importância de políticas organizacionais que reconheçam o sofrimento psíquico como fenômeno coletivo e instituam espaços permanentes de escuta e reflexão sobre o trabalho, favorecendo processos de ressignificação e fortalecimento da saúde mental coletiva44,45,46.
Christophe Dejours10, referência central na psicodinâmica do trabalho, propõe que o sofrimento não seja apenas um efeito colateral das condições laborais, mas um componente estrutural da relação entre sujeito e organização.
A necessidade de construir estratégias de comunicação e autoproteção torna-se essencial frente ao risco de adoecimento psíquico por exposição diária à dor alheia. Trata-se de uma relação complexa, na qual o envolvimento afetivo, a resiliência e o suporte institucional são fatores determinantes para o bem-estar da equipe47,48,49.
No contexto dos Cuidados Paliativos, o sofrimento não é exclusivo do paciente ou da família, ele se estende aos profissionais que acompanham de perto os processos de adoecimento e terminalidade. Os relatos de Elaine revelam aspectos sensíveis dessa vivência, destacando o impacto emocional, psicológico e existencial que se impõe no cotidiano desses trabalhadores, onde a prática e o saber técnico não impedem de sentir a dor do outro: “Pacientes jovens ou situações muito específicas, então o luto, a morte, o sofrimento, a distanásia, tudo isso é realmente algo que é bem intenso e que traz bastante desafios diários na atuação em cuidados paliativos.” (Elaine).
Elaine também destaca o caráter desafiador da atuação em Cuidados Paliativos, especialmente frente à morte, ao luto, ao sofrimento e à distanásia. Ela pontua que esses elementos estão presentes diariamente, exigindo preparo técnico, sensibilidade ética e, sobretudo, maturidade emocional. Lidar com o luto e com a morte é um dos grandes desafios da prática profissional. Esses elementos exigem não apenas preparo técnico, mas também competência emocional, como sugere Goleman50, sendo fundamental para o enfrentamento saudável das situações de sofrimento extremo. A distanásia, em particular, coloca o profissional diante de dilemas bioéticos complexos, como o prolongamento artificial da vida e os limites entre o cuidado e a postergação do sofrimento51.
De acordo com Dejours52, o trabalho pode ser um fator de exclusão da subjetividade, transformando o sujeito em objeto do sistema organizacional. No contexto dos Cuidados Paliativos, esse risco se amplifica, pois a relação entre o profissional e o paciente frequentemente transborda os limites técnicos, revelando afetos, projeções e identificações que desafiam a neutralidade esperada no ambiente clínico.
A experiência subjetiva do profissional da saúde, frequentemente invisibilizada pelos discursos institucionais e pelo modelo biomédico centrado na objetividade e eficácia técnica, é essencial para entender os impactos do trabalho sobre sua saúde mental. Segundo Dejours53, a saúde do trabalhador é atravessada por história, valores, afetos e desejos, que o tornam singular e vulnerável diante do sofrimento alheio. As frustrações de expectativas depositadas no trabalho intensificam a insatisfação pessoal e profissional, culminando em sofrimento psíquico52. Rodrigues54 reforça que os fenômenos do mundo do trabalho afetam profundamente tanto a dinâmica interna do sujeito quanto suas relações intersubjetivas.
Esse sofrimento pode ser compreendido em dois níveis: num primeiro momento, ele ocupa o campo intermediário entre saúde e doença; já numa acepção mais ampla, assume um caráter específico no âmbito da Psicopatologia do Trabalho, o que o torna não transferível a outras disciplinas, como a psicanálise. Entre o homem e a organização prescrita para a realização do trabalho, emerge, por vezes, um espaço de liberdade que permite negociações e invenções no modo operatório, uma forma de modulação em que o trabalhador adapta as exigências laborais às suas próprias necessidades e desejos. Contudo, quando essa negociação chega ao limite e a relação entre o sujeito e a estrutura organizacional se torna rígida e inflexível, instaura-se o domínio do sofrimento e da luta contra ele52.
Essa luta, segundo o autor, se desenrola tanto no plano coletivo quanto no individual. Ela pode levar ao ocultamento do sofrimento, à sua manifestação como patologia ou ao enfrentamento direto das dinâmicas causais presentes nas situações de trabalho. É importante notar que a carga psíquica gerada pelo labor é qualitativa, e não apenas mensurável por aspectos objetivos. A subjetividade na relação homem-trabalho produz efeitos concretos e reais, embora nem sempre contínuos ou facilmente visíveis.
Para os nutricionistas que lidam diariamente com pacientes na finitude da vida, a negligência pode intensificar sentimento de impotência, frustração e desgaste, tornando urgente a construção de espaços de escuta e reflexão sobre o trabalho, que reconheçam a singularidade do sujeito e promovam a saúde mental como responsabilidade compartilhada entre indivíduo e organização. Nessa direção, a reflexão coletiva sobre o cuidado aparece como elemento fundamental para elaboração das experiências emocionais vividas pelas equipes27. O compartilhamento de sentidos, dúvidas e angústias favorece processos de sustentação subjetiva e fortalecimento das práticas colaborativas no campo paliativista.
A capacidade de gestão emocional e a disposição para lidar com as questões de fim de vida são igualmente fundamentais, dado que os profissionais de Cuidados Paliativos são frequentemente confrontados com situações de perda e luto55. Dentre as competências mais significativas desses profissionais, destacam-se a avaliação e o controle de sintomas, competências comunicacionais, emocionais, relacionadas ao trabalho interdisciplinar, bem como a motivação para acompanhar e lidar com situações de fim de vida.
Nesse contexto, a ressignificação surge como uma estratégia para sustentar a prática profissional diante do sofrimento e transformar a experiência vivida em fonte de crescimento pessoal e coletivo. Ao atribuir novos sentidos à finitude, os nutricionistas reconfiguram suas próprias percepções e valores, o que repercute inclusive em outras dimensões da vida. Madalena revela que a vivência com o sofrimento nos Cuidados Paliativos transforma também sua vida pessoal, levando-a a ressignificar valores e a levar esse olhar sensível para além do ambiente de trabalho.
No entanto, a negligência dessa subjetividade pode levar ao esgotamento emocional, também conhecido como Burnout, amplamente documentado em profissionais de saúde56. A tarefa que é atribuída ao profissional deve oferecer uma canalização adequada dessa energia psíquica; caso contrário, emergem sentimentos como medo, angústia, frustração e agressividade, que repercutem não apenas no plano emocional, mas também sobre as cargas fisiológicas, afetando os sistemas cardiovascular, muscular e digestivo53.
Apesar disso, o sofrimento das equipes de saúde no contexto hospitalar tem sido frequentemente interpretado sob a ótica da responsabilidade individual. Parte-se da premissa de que o esgotamento e a satisfação profissional dependem exclusivamente do trabalhador, o que leva a abordagens que tratam a prevenção da fadiga emocional e a promoção do bem-estar psicológico como um déficit pessoal57.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A construção da identidade profissional é um processo em permanente evolução, marcado por transformações contínuas que a tornam sempre inacabada. Essa característica evidencia a necessidade de repensar o papel do nutricionista no contexto dos Cuidados Paliativos. A inserção em equipes interdisciplinares exige uma ruptura com modelos tradicionais centrados exclusivamente na prescrição dietética e na lógica biomédica. Tal ruptura, associada à ressignificação do habitus profissional, favorece a construção de práticas clínicas mais flexíveis, capazes de dialogar com o sofrimento, a vulnerabilidade e os dilemas éticos que permeiam o cuidado no fim da vida.
O sofrimento psíquico, inevitavelmente presente no cotidiano desse campo, atua como catalisador de transformações identitárias e impulsiona a criação de estratégias de resistência e ressignificação. Assim, a identidade paliativista emerge como um processo dinâmico, profundamente marcado pelas experiências vividas e pela negociação constante entre o saber técnico e a humanização do cuidado.
A reconstrução das práticas do nutricionista nos Cuidados Paliativos é essencial para garantir que este atue não apenas como prescritor de condutas dietéticas, mas como cuidador integral, comprometido com a promoção de uma abordagem centrada na pessoa e respeitosa de seus valores, desejos e necessidades singulares. A identidade profissional, nesse contexto, emerge da interação relacional entre o “eu” e a sociedade, sendo constantemente moldada pelas experiências, relações e significados atribuídos ao trabalho.
Este estudo apresenta uma análise crítica sobre como processos de ressignificação influenciam trajetórias profissionais e práticas de cuidado voltadas à atenção no fim da vida, contribuindo para o fortalecimento de uma Nutrição mais ética, sensível e comprometida com a dignidade humana.
Apesar das contribuições deste estudo para a compreensão da construção da identidade profissional do nutricionista em Cuidados Paliativos, algumas limitações devem ser consideradas. A amostra concentrou-se majoritariamente na região Sudeste, com ausência de participantes da região Norte, o que pode limitar a compreensão das diferentes realidades socioculturais e institucionais do país. Outra limitação refere-se ao fato de os participantes estarem vinculados, direta ou indiretamente, a equipes e redes já inseridas no campo dos Cuidados Paliativos, o que pode ter favorecido percepções mais alinhadas à lógica paliativista e à valorização desse modelo de cuidado.
Assim, futuras investigações podem ampliar a diversidade regional e institucional da amostra, incluindo diferentes níveis de atenção à saúde e serviços não especializados em Cuidados Paliativos. Estudos longitudinais também poderão contribuir para compreender como a identidade profissional do nutricionista se transforma ao longo da trajetória no campo paliativista e aprofundar as discussões sobre sofrimento psíquico e relações de poder nas equipes multiprofissionais de Cuidados Paliativos.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
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Oliveira, RSS, Costa, MF, Ferreira, FR. ENTRE NUTRIR E CUIDAR: A (RE)CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO NUTRICIONISTA EM CUIDADOS PALIATIVOS. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/ago). [Citado em 05/08/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/entre-nutrir-e-cuidar-a-reconstrucao-da-identidade-do-nutricionista-em-cuidados-paliativos/20094?id=20094

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