0208/2026 - Estratégias de testagem de infecções sexualmente transmissíveis baseadas em evidências e sua importância em pessoas assintomáticas durante o ciclo gravídico-puerperal e período de amamentação
Evidence-based testing strategies for sexually transmitted infections and their importance in asymptomatic individuals during pregnancy, the postpartum period, and breastfeeding
Autor:
• Cláudia Gonçalves Siqueira - Siqueira, CG - <claudiagsiqueira@outlook.com>ORCID: https://orcid.org/0009-0001-5984-3585
Coautor(es):
• Mariângela Freitas Silveira - Silveira, M.F - <mariangelafreitassilveira@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2861-7139
• Angélica Espinosa Miranda - Miranda, AE - <angelica.miranda@ufes.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5556-8379
• Romina do Socorro Marques de Oliveira - Oliveira, RSM - <romina.oliveira@aids.gov.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0007-1042-9029
• Pâmela Cristina Gaspar - Gaspar, PC - <pamela.gaspar@aids.gov.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4642-0783
Resumo:
Objetivos: Sintetizar as evidências sobre a frequência para o rastreamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) em pessoas assintomáticas durante a gestação, puerpério e amamentação. Métodos: Revisão sistemática rápida, com buscas no PubMed, Embase, Scopus e sites institucionais. Incluíram-se estudos e documentos técnicos publicados entre 2015 e 2025. A avaliação crítica utilizou as ferramentas AMSTAR 2, JBI, ROBINS-I V2 e AGREE II. Resultados: Foram incluídas 26 referências, predominando diretrizes clínicas (n=20), seguidas por ensaios clínicos não randomizados (n=2), estudos de coorte (n=2), uma revisão sistemática e um estudo econômico. As ISTs avaliadas incluíram clamídia, gonorreia, sífilis, hepatites B e C e HIV. Apesar da ampla incorporação de testagem para HIV e sífilis no pré-natal, observou-se heterogeneidade quanto à repetição dos testes no parto, sem consenso entre diretrizes. Para clamídia, gonorreia e hepatites, as recomendações foram mais restritas, condicionadas a fatores de risco, idade <25 anos ou alta prevalência. Conclusões: As evidências reforçam a importância do rastreamento de ISTs na gestação, mas revelam ausência de orientações específicas para puérperas e lactantes.Palavras-chave:
Infecções Sexualmente Transmissíveis; Rastreamento; Gestação; Saúde Pública, Guia de Prática ClínicaAbstract:
Objectives: To synthesize the evidence on the recommended frequency for screening Sexually Transmitted Infections (STIs) in asymptomatic individuals during pregnancy, the postpartum period, and breastfeeding. Methods: Rapid systematic review with searches in PubMed, Embase, Scopus and institutional websites. Studies and technical documents published between 2015 and 2025 were included. Critical appraisal used the AMSTAR 2, JBI, ROBINS-I V2 and AGREE II tools. Results: Twenty-six references were included, mostly clinical guidelines (n=20), followed by non-randomized clinical trials (n=2), cohort studies (n=2), one systematic review and one economic study. The STIs assessed included chlamydia, gonorrhea, syphilis, hepatitis B, hepatitis C and HIV. Despite the broad incorporation of HIV and syphilis testing in prenatal care, heterogeneity was observed regarding repeat testing at delivery, with no consensus among guidelines. For chlamydia, gonorrhea and hepatitis, recommendations were more restrictive, conditioned on risk factors, age <25 years or high prevalence. Conclusions: Evidence reinforces the importance of STI screening during pregnancy, but highlights the lack of specific guidance for postpartum and breastfeeding individuals.Keywords:
Sexually Transmitted Diseases; Mass Screening; Pregnancy; Public Health; Practice Guideline.Conteúdo:
As infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) representam um dos mais persistentes desafios de saúde pública no cenário global contemporâneo 1. Estima-se que mais de 30 agentes etiológicos possam ser transmitidos por via sexual, e que diariamente cerca de um milhão de pessoas entre 15 e 49 anos adquiram uma IST curável, em sua maioria de forma assintomática 2,3. Essas condições exercem um impacto desproporcional sobre as mulheres, em virtude de vulnerabilidades biológicas, socioculturais e econômicas que aumentam tanto a suscetibilidade à infecção quanto a probabilidade de desfechos adversos 4,5. As ISTs comprometem a saúde sexual e reprodutiva ampliando o risco de infertilidade, dor pélvica crônica, gravidez ectópica, aborto espontâneo, morte fetal e desfechos congênitos graves, além de potencializarem a transmissão do vírus da imunodeficiência humana (HIV) 1,6.
No contexto da gestação, as ISTs adquirem relevância adicional pela possibilidade de transmissão vertical durante a gestação, o parto ou a amamentação 7. Tal forma de transmissão associa-se a complicações severas, como abortos espontâneos, prematuridade, natimortalidade e infecções congênitas 7–9. A transmissão vertical de Neisseria gonorrhoeae ou Chlamydia trachomatis, por exemplo, pode resultar em conjuntivite neonatal e pneumonia, enquanto a sífilis congênita é responsável por elevada morbimortalidade, afetando múltiplos sistemas orgânicos 10. De forma semelhante, hepatite B, hepatite C e o vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV) configuram ISTs de relevância obstétrica, devido ao risco comprovado de transmissão vertical e à possibilidade de evolução para hepatite crônica, cirrose, leucemia/linfoma de células T do adulto ou mielopatia associada ao HTLV, com repercussões significativas para a saúde materno-infantil 11. O rastreamento sistemático de ISTs durante o pré-natal constitui, portanto, uma estratégia central para a prevenção de infecções em gestantes e neonatos 12. A incorporação de métodos diagnósticos etiológicos e de protocolos de rastreamento adequados possibilita diagnósticos precoces, tratamentos oportunos e a redução efetiva da transmissão vertical 8.
Em 2025, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) a certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, tornando-se o primeiro país com mais de 100 milhões de habitantes a alcançar esse marco segundo os critérios internacionais. Esse reconhecimento reflete avanços na resposta sanitária, com ampliação do diagnóstico oportuno, na expansão do acesso ao tratamento e na consolidação das estratégias de prevenção da atenção materno-infantil, incluindo a certificação de estados e municípios para a eliminação da transmissão vertical do HIV, da sífilis, da hepatite B, do HTLV e da doença de Chagas13.
A sustentabilidade dessa conquista requer vigilância epidemiológica contínua e o aprimoramento do rastreamento ao longo de todo o ciclo gravídico-puerperal, incluindo pós-parto e amamentação. Nesse sentido, a elaboração de revisões sistemáticas rápidas são ferramentas-chave para apoiar as políticas informadas por evidências (PIE) em tempo oportuno 14.
Esta revisão tem por finalidade analisar as recomendações sobre rastreamento de ISTs em gestantes, puérperas e lactantes assintomáticas, identificando lacunas assistenciais com potencial impacto para o Sistema Único de Saúde (SUS). Pretende ainda apoiar, de maneira robusta, a revisão dos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas de Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (PCDT-IST) 11 e de Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais 12, que são periodicamente atualizados pelo Ministério da Saúde do Brasil, fornecendo suporte técnico-científico às discussões relativas a esse processo.
MÉTODOS
Desenho do estudo
Trata-se de uma Revisão Sistemática Rápida, estudo secundário destinado a sintetizar e sumarizar evidências em tempo oportuno para demandas específicas da gestão em saúde 14,15. Adotou-se a metodologia das revisões sistemáticas tradicionais, com atalhos que reduziram o tempo de execução. As etapas de triagem de títulos e resumos, seleção de estudos, extração de dados e avaliação do risco de viés não foram realizadas em duplicata. O protocolo foi previamente registrado na plataforma Open Science Framework (DOI 10.17605/OSF.IO/YBRHF). O relato seguiu as recomendações da ferramenta Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) 16.
Pergunta de pesquisa
A pergunta de pesquisa foi estruturada pelo acrônimo PICOS, sendo que a população de interesse compreende pessoas grávidas, puérperas e lactantes assintomáticas para infecções sexualmente transmissíveis; a intervenção considerada é o rastreamento de ISTs; o comparador envolve diferentes frequências de rastreamento ou a ausência deste; o desfecho refere-se à frequência recomendada de rastreamento de ISTs; e o tipo de estudo contemplado inclui investigações observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas, e diretrizes clínicas.
Critérios de elegibilidade
Foram incluídos estudos que: (1) envolvessem pessoas grávidas, puérperas ou lactantes assintomáticas para ISTs; (2) abordassem estratégias, protocolos ou diretrizes de rastreamento de ISTs direcionadas a essa população; (3) apresentassem informações ou recomendações sobre a rotina de triagem, incluindo a frequência recomendada; e (4) utilizassem delineamentos compatíveis com os objetivos da revisão, como estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas, diretrizes clínicas, consensos ou documentos técnicos emitidos por instituições científicas ou sanitárias de reconhecida credibilidade nacional ou internacional.
Foram excluídos estudos que: (1) não estivessem disponíveis em português, inglês ou espanhol; (2) abordassem populações distintas; (3) tivessem como foco o diagnóstico clínico de indivíduos sintomáticos para ISTs; (4) tratassem exclusivamente de intervenções terapêuticas ou estratégias preventivas sem relação direta com o rastreamento; (5) apresentassem delineamento experimental in vitro ou in vivo; (6) não disponibilizassem dados suficientes para extração e análise; (7 ) não estivessem acessíveis em texto completo no momento da avaliação; e (8) tivessem sido publicados antes de 2015, a fim de assegurar a atualização das recomendações.
Fontes de Informação e Estratégia de Busca
A estratégia de busca foi elaborada com vocabulário controlado MeSH e não controlado (palavras-chave e sinônimos) para a base PubMed, sendo posteriormente adaptada para Embase e Scopus. Não foram aplicados filtros de idioma ou status de publicação. Adicionalmente, realizou-se busca manual em sites institucionais para identificar documentos normativos atualizados, como guidelines, protocolos clínicos e diretrizes técnicas sobre rastreamento de ISTs. As estratégias de busca específicas para cada base de dados encontram-se disponíveis no material suplementar A.
Para o gerenciamento de referências, triagem e seleção dos estudos obtidos nas bases de dados, utilizou-se a plataforma Rayyan 17. Após a remoção de duplicatas, procedeu-se à triagem de títulos e resumos conforme os critérios de elegibilidade, seguida da leitura dos textos completos, registrando-se os motivos de exclusão dos estudos não elegíveis.
Extração dos dados
Os estudos que atenderam aos critérios de elegibilidade foram selecionados e tiveram seus dados extraídos em planilha eletrônica padronizada, previamente testada e calibrada. Foram coletadas informações referentes às características gerais do estudo (autor, ano de publicação, país de realização, desenho metodológico e tipo de publicação, como artigo científico, diretriz ou documento técnico), às características da população (faixa etária dos participantes, sexo ou identidade de gênero e tamanho da amostra), às características da intervenção de rastreamento (tipos de testes utilizados, infecções triadas e frequência ou periodicidade do rastreamento) e, por fim, os desfechos (proporção de casos identificados, efeitos na redução da morbimortalidade e recomendações para a prática clínica ou para políticas públicas).
Avaliação crítica dos estudos incluídos
A avaliação crítica dos estudos selecionados foi conduzida de forma independente, não cegada, empregando instrumentos validados e específicos para cada tipo de delineamento. As revisões sistemáticas foram analisadas por meio do A Meaasurement Tool to Assess Systematic Reviews (AMSTAR 2) 18; os estudos observacionais, pela ferramenta de avaliação crítica do Joanna Briggs Institute (JBI) para estudos de coorte 19; os ensaios clínicos não randomizados, pelo Risk of Bias in Non-randomized Studies of Interventions, Version 2 (ROBINS-I V2) 20; as diretrizes clínicas, pelo Appraisal of Guidelines for Research & Evaluation (AGREE II) 21; e as avaliações econômicas, pela ferramenta de avaliação crítica do JBI para avaliações econômicas 22. Nos estudos observacionais avaliados pela JBI Critical Appraisal Checklist, as respostas foram categorizadas em “sim”, “não”, “indeterminado” e “não aplicável”, sendo o risco de viés classificado como alto (? 49% de respostas “sim”), moderado (50–69%) ou baixo (? 70%) 23. As diretrizes clínicas avaliadas pelo AGREE II foram classificadas de acordo com pontos de corte previamente estabelecidos: baixo (< 40%), moderado (40–60%) e alto (> 60%), conforme Amer et al 24. Considerando o contexto da saúde pública, entende-se que qualquer pontuação inferior à classificação “alta” (moderada ou baixa) deve ser revisada à luz das prioridades e contextos locais 25.
Análise dos dados e apresentação dos resultados
Os resultados dos estudos foram sintetizados de forma descritiva, por meio de quadros, agrupando os principais achados de acordo com o tipo de estudo e por meio de síntese narrativa dos desfechos avaliados.
RESULTADOS
Estratégias de Busca e seleção dos estudos
As buscas eletrônicas identificaram 700 referências, enquanto a busca manual em sites institucionais acrescentou outras 17. Após a remoção das duplicatas, 487 referências foram submetidas à triagem por título e resumo. Destas, 63 foram selecionadas para leitura na íntegra, resultando na inclusão final de 26 estudos 26–51. As 36 exclusões e seus respectivos motivos estão descritos no material suplementar B. A Figura 1 apresenta o fluxograma do processo de identificação e seleção dos estudos.
Fig. 1
Características dos estudos incluídos
Dos vinte e seis estudos incluídos nesta revisão, vinte consistiam em diretrizes clínicas ou guidelines elaboradas por instituições governamentais ou entidades de saúde com reconhecimento internacional 26,28,29,31–33,36–38,40–49. Além disso, foram analisados dois ensaios clínicos não randomizados 35,50, dois estudos de coorte 30,34, um estudo de avaliação econômica 39 e uma revisão sistemática 51. Todos os documentos selecionados foram publicados no período de 2015 a 2025.
Quanto à origem geográfica, observa-se uma predominância de publicações provenientes dos Estados Unidos da América (n = 8) 32,33,40,42–46 e do Canadá (n = 4) 26,36–38, seguidas por estudos europeus (n = 4) 29,31,41,47 e diretrizes de alcance global (n = 3) 28,48,49. Há ainda contribuições oriundas de Botsuana (n = 2) 35,50, Países Baixos (n = 1) 39, Uganda (n = 1) 34, Papua Nova Guiné (n = 1) 27 e Guiana Francesa (n = 1) 30. A revisão sistemática incluída 51 contemplou 35 estudos primários, sendo a maioria oriunda dos Estados Unidos (n = 15) e dos Países Baixos (n = 9), além de estudos realizados no Reino Unido (n = 2), Canadá (n = 2), Hungria (n = 2), Suécia (n = 1), Dinamarca (n = 1), Austrália (n = 1), Irlanda (n = 1) e China (n = 1). A figura 2 representa a distribuição geográfica dos estudos incluídos de acordo com as ISTs abordadas.
Fig.2
As infecções sexualmente transmissíveis contempladas nos estudos incluídos foram clamídia, gonorreia, sífilis, HIV, hepatite B e hepatite C. A distribuição dessas infecções encontra-se sintetizada no Gráfico 1.
Gráfico 1
As buscas não identificaram estudos ou diretrizes voltados especificamente às populações de puérperas e lactantes. Os resultados encontrados restringiram-se a gestantes, com apenas um estudo incluindo puérperas 50, no qual foi recomendada a testagem para clamídia e gonorreia entre 6 e 8 semanas após o parto.
Avaliação crítica dos estudos incluídos
Nesta revisão sistemática, a qualidade metodológica de 25 estudos incluídos foi avaliada por meio de instrumentos validados e amplamente utilizados na literatura, aplicados conforme o delineamento de cada investigação. Foram analisadas diretrizes clínicas (n = 19), ensaios clínicos randomizados (n = 2), estudos de coorte (n = 2), uma avaliação econômica, uma revisão sistemática. O estudo descritivo de viabilidade está incluído na síntese, mas não foi avaliado metodologicamente pela inexistência de ferramenta validada para tal delineamento.
Os dois ensaios clínicos não randomizados 35,50, avaliados pela ferramenta ROBINS-I V2 20, apresentaram risco crítico de viés, sobretudo nos domínios relacionados a dados ausentes e fatores de confusão. Embora descritas, as medidas de controle adotadas foram insuficientes para mitigar tais limitações, exigindo cautela na interpretação dos resultados. A revisão sistemática 51, analisada com base no AMSTAR 2 18, apresentou limitações em domínios críticos, ausência de registro prévio de protocolo, métodos não robustos para avaliação do risco de viés dos estudos primários e falta de discussão sobre viés de publicação, sendo sua confiança global considerada criticamente baixa.
O estudo de avaliação econômica 39 obteve baixo risco de viés, atendendo satisfatoriamente a todos os critérios. Os estudos de coorte 30,34 foram classificados com risco moderado, devido à insuficiência no controle de fatores de confusão, embora tenham descrito adequadamente exposições, desfechos e períodos de seguimento.
A avaliação das diretrizes clínicas 26,28,29,31–33,36–38,40–49, realizada com a ferramenta AGREE II 21, revelou heterogeneidade entre os documentos. O domínio 1 (escopo e propósito) apresentou alto desempenho, demonstrando clareza nos objetivos e na definição da população-alvo. Em contraste, os domínios 2 (participação das partes interessadas), 4 (clareza da apresentação) e 5 (aplicabilidade) tiveram desempenho inferior, evidenciando lacunas na participação de usuários, na articulação com implementadores e na operacionalização das recomendações. A Figura 3 sintetiza o desempenho médio por domínio, destacando pontos fortes e fragilidades metodológicas.
Fig.3
As informações detalhadas sobre a avaliação individual dos estudos, critérios aplicados e escores atribuídos encontram-se integralmente disponíveis nos materiais suplementares C, D, E, F e G.
Parâmetros técnicos para o rastreamento das ISTs em gestantes
As orientações para o rastreamento das infecções por C. trachomatis, N. gonorrhoeae, T. pallidum, HIV, vírus da hepatite B (HBV) e vírus da hepatite C (HCV), identificadas nos estudos e diretrizes incluídos nesta revisão, foram sistematicamente organizadas no Quadro 2. A síntese contempla, para cada infecção, os critérios para indicação da testagem, periodicidade sugerida, considerando as particularidades de cada documento analisado.
Quadro 2
DISCUSSÃO
Do ponto de vista clínico e de saúde pública, o rastreamento precoce e oportuno das ISTs desempenha papel crucial na prevenção de desfechos adversos de gestantes e em recém-nascidos. Estima-se que até 10% das gestantes possam apresentar diagnóstico positivo para sífilis, clamídia ou gonorreia quando submetidas ao rastreamento 52. Um estudo de modelagem sugere que a incorporação de testes rápidos (POC do inglês point-of-care) para ISTs curáveis (C. trachomatis, T. vaginalis e N. gonorrhoeae) pode reduzir significativamente a ocorrência de natimortalidade, prematuridade, restrição de crescimento intrauterino e baixo peso ao nascer, além de contribuir para a diminuição da transmissão vertical do HIV 8.
As repercussões das ISTs sobre os desfechos perinatais estão bem documentadas. Infecções por sífilis, isoladas ou em coinfecção, associam-se a maiores riscos de parto prematuro, hipertensão gestacional e baixa pontuação no teste de Apgar (do inglês Appearance, Pulse, Grimace, Activity e Respiration) aos cinco minutos 53. Esses achados reforçam a necessidade de estratégias consistentes de rastreamento durante a gestação, capazes de prevenir complicações obstétricas e reduzir agravos neonatais.
O rastreamento efetivo no pré-natal está associado à diminuição de natimortalidade, parto prematuro, baixo peso ao nascer e infecções congênitas 54–56. No âmbito do SUS, já está consolidado o rastreamento universal de sífilis, hepatites B e C e HIV, em consonância com as recomendações da OMS, com vistas a prevenir a transmissão vertical e reduzir desfechos adversos 54. Contudo, o rastreamento de outras ISTs, como clamídia e gonorreia, segue critérios baseados em fatores de vulnerabilidade e idade da gestante, podendo ocorrer subdiagnóstico e o tratamento inadequado nos casos não incluídos nas diretrizes nacionais 11,54–56.
Além disso, persistem barreiras estruturais que limitam a efetividade do rastreamento, incluindo baixa capilaridade da oferta da testagem molecular rápida e laboratorial para ISTs 54,56. Nesse cenário, ainda que o rastreamento das ISTs esteja integrado às políticas do SUS, torna-se imperativo ampliar seu acesso com a descentralização dos locais que fazem coleta das amostras, a fim de assegurar maior efetividade na prevenção de desfechos materno-infantis e na promoção da saúde integral.
No Brasil, o PCDT vigente 11 recomenda o rastreamento para HIV e sífilis em três momentos ao longo do pré-natal: na primeira consulta (preferencialmente no primeiro trimestre), no início do terceiro trimestre (a partir da 28ª semana) no momento do parto ou em situações de aborto ou natimorto, no caso da sífilis, independentemente de resultados anteriores e também em situações de maior exposição de risco. De modo geral, essas recomendações mostram-se alinhadas às diretrizes internacionais quanto à realização da testagem no início da gestação e à possibilidade de repetição em fases subsequentes do pré-natal 28,30–36,41–49. No caso da sífilis, observa-se, tanto em diretrizes internacionais quanto na prática nacional, maior ênfase na repetição da testagem ao longo da gestação, incluindo o segundo e o terceiro trimestres, em razão de sua elevada magnitude e relevância como principal desafio para a prevenção da transmissão vertical 30–34,36. Esse aspecto reforça a importância de estratégias mais intensivas de rastreamento para sífilis em comparação a outras ISTs.
Para o HIV, as diretrizes internacionais corroboram a triagem na primeira consulta de pré-natal 28,33 preferencialmente no primeiro trimestre 41, podendo ser repetida no segundo 41 e terceiro trimestres 42, além do parto quando o status sorológico é desconhecido 32. Também foram levantados documentos que indicavam o rastreamento universal de gestantes, sem especificar o período gestacional 28,29,32,42.
Embora o PCDT-IST de 2022 11 não contemplasse a triagem de HTLV-1/2 no pré-natal, a Portaria SECTICS/MS nº 13/2024 formalizou sua incorporação no SUS; adicionalmente, a Nota Técnica nº 12/2025-CGIST/DATHI/SVSA/MS consolidou os critérios de notificação para gestantes, parturientes/puérperas e crianças expostas 57,58, trazendo repercussões diretas para a organização das rotinas de triagem e aconselhamento no pré-natal.
A testagem para clamídia e gonorreia, no contexto brasileiro, é indicada na primeira consulta do pré-natal para gestantes com idade ?30 anos 11. No cenário internacional, recomendações semelhantes são observadas, com indicação dessa triagem em gestantes jovens, geralmente associada à primeira consulta do pré-natal e, em alguns contextos, à repetição ao longo da gestação ou conforme histórico de exposição de risco 27,32,33,35,37,38,45,50.
Para hepatites B e C, o Brasil orienta a testagem universal na primeira consulta, preferencialmente no primeiro trimestre 11. Em conformidade, documentos internacionais recomendam rastreamento universal para hepatite B no início do pré-natal, com possibilidade de repetição ao longo da gestação ou no momento do parto e em situações de maior exposição de risco 28,32,33,41,43. Já para a hepatite C as recomendações são mais heterogêneas, variando entre a triagem universal de gestantes e a testagem direcionada com base no histórico de exposição de risco 26,28,40,41.
Os resultados desta revisão sistemática rápida evidenciaram que as recomendações de rastreamento de ISTs concentram-se quase exclusivamente no período gestacional, com ausência de evidências direcionadas especificamente às lactantes e com apenas um estudo contemplando puérperas 50. Esse achado é coerente com a centralidade atribuída à gestação nas principais diretrizes internacionais, em virtude do impacto da infecção da pessoa gestante sobre os desfechos perinatais e do risco de transmissão vertical tanto intrauterina quanto intraparto 28,43,46,48,49.
O período pós-parto representa uma etapa crítica do ciclo gravídico-puerperal, caracterizada por intensa interação entre mãe, recém-nascido e serviços de saúde, sobretudo no contexto da amamentação e do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Apesar de existentes, recomendações nacionais para rastreamento de ISTs durante a amamentação, e em situações de maior vulnerabilidade 12, é necessário a elaboração de recomendações mais objetivas. Além disso a implementação na prática ainda possui fragilidades importantes. Isto pode comprometer a detecção de infecções incidentes após o parto, com potenciais repercussões para a saúde materna e para a exposição da criança, particularmente no caso de infecções com possibilidade de transmissão pelo aleitamento, como o HIV e o HTLV. Esta revisão traz como ponto central a lacuna da literatura persistente nas recomendações voltadas ao puerpério e à lactação, períodos que permanecem relativamente invisibilizados nas estratégias de rastreamento, apesar de sua relevância para continuidade da vigilância epidemiológica e para a prevenção de novos episódios de transmissão vertical.
Considerar o ciclo gravídico-puerperal de forma completa, incluindo o puerpério e o aleitamento, é fundamental para garantir a continuidade da testagem e a efetiva cobertura de ações de prevenção e diagnóstico oportuno. Tal perspectiva implica reconhecer que para além da recuperação materna, o período de pós-parto também se caracteriza como uma etapa estratégica para a manutenção das ações de cuidado, especialmente em contextos de vulnerabilidades sociais, que que dificultam o acesso contínuo aos serviços de saúde.
Do ponto de vista metodológico, essa revisão sistemática rápida destaca-se pela análise minuciosa e sistemática das diretrizes clínicas e dos estudos incluídos, possibilitando a organização e a síntese das práticas atualmente adotadas, bem como a explicitação da periodicidade dos testes para rastreamento de HIV, sífilis e outras ISTs em gestantes. Essa abordagem evidencia lacunas relevantes no conhecimento científico, como a inexistência de estudos direcionados para testagem durante o período puerperal e amamentação. Ao mesmo tempo, reforça-se a necessidade de atualização contínua dos protocolos nacionais, de forma a alinhá-los às melhores evidências disponíveis e às demandas do SUS. Os resultados aqui apresentados oferecem base técnica consistente para subsidiar a formulação de políticas públicas, orientar a revisão dos PCDTs e fortalecer estratégias de enfrentamento das ISTs no Brasil, com foco na equidade, na efetividade das ações e na ampliação do acesso ao diagnóstico oportuno.
No entanto, algumas limitações devem ser consideradas na interpretação dos achados. Por tratar-se de uma revisão sistemática conduzida em formato rápido, as etapas de triagem, extração, análise da qualidade metodológica e do risco de viés dos estudos foram realizadas por uma única revisora, o que pode aumentar o risco de viés de seleção e interpretação 14. Essas condições, embora inerentes ao delineamento do estudo, devem ser reconhecidas na apreciação crítica de seus resultados. Adicionalmente, como a estratégia de busca foi ancorada no PCDT-IST de 2022 11, não foram incluídos descritores/termos para HTLV-1/2. À luz da incorporação do exame de HTLV-1/2 no pré-natal do SUS em 2024 e da normatização recente da notificação 57,58, esta constitui uma limitação e deve ser considerada na interpretação do escopo desta revisão. Recomenda-se que atualizações futuras incluam explicitamente o HTLV-1/2.
Por fim, ressalta-se que esta revisão não constitui uma recomendação oficial do Ministério da Saúde do Brasil, mas sim um insumo técnico destinado a subsidiar o início das discussões referentes à atualização dos PCDTs. A decisão final quanto às recomendações dependerá da análise integrada de múltiplos fatores, incluindo o julgamento de especialistas, a consideração de aspectos contextuais e a incorporação de valores sociais, reforçando a premissa das políticas informadas por evidências.
CONCLUSÃO
Ao sintetizar as evidências disponíveis e identificar lacunas no conhecimento científico, este estudo oferece subsídios técnico-científicos para o aprimoramento das recomendações nacionais de rastreamento e para a atualização PCDTs, contribuindo para o fortalecimento da linha de cuidado materno-infantil no SUS. O reconhecimento dessas lacunas também aponta para a necessidade de ampliar a produção de evidências sobre rastreamento de ISTs no puerpério e na lactação, de modo a apoiar políticas públicas capazes de sustentar os avanços obtidos na prevenção da transmissão vertical de HIV, bem como avançarmos na eliminação da transmissão vertical das demais infecções, e na melhoria contínua no cuidado da saúde materno-infantil.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os bancos de dados utilizados no artigo, incluindo os códigos de extração, análises e
resultados estão disponíveis em repositório:
https://data.scielo.org/dataset.xhtml?persistentId=doi:10.48331/SCIELODATA.2B7CVL?
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