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0200/2026 - Evidências sobre a satisfação do paciente com a Atenção Primária à Saúde no Brasil: revisão de escopo
Evidence on patient satisfaction with Primary Health Care in Brazil: a scoping review

Autor:

• Romario Daniel Jantara - Jantara, RD - <romario.jantara@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7417-499X

Coautor(es):

• Rhaissa Grazielli Vieira de Azevêdo - Azevêdo, RGV - <rhaissagrazielli@outlook.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0007-5629-3040

• Vanessa Machado da Silva - Silva, VM - <va.nessamachadostefe@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4319-4509

• Danubia Andressa da Silva Stigger - Stigger, DAS - <danubia@furg.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7206-5669

• Jamila Geri Tomaschewski Barlem - Barlem, JGT - <jamila_tomaschewski@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9125-9103

• Daiane Porto Gautério Abreu - Abreu, DPG - <daianeportoabreu@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1125-4693

• Tatiane Baratieri - Baratieri, T - <tbaratieri@unicentro.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0270-6395

• Marília Daniella Machado Araújo - Araújo, MDM - <maraujo@unicentro.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7685-6679



Resumo:

O objetivo deste estudo é mapear as evidências científicas disponíveis acerca da satisfação dos pacientes com a Atenção Primária à Saúde, no contexto da Estratégia da Saúde da Família, no Brasil. Trata-se de uma revisão de escopo conduzida conforme as diretrizes do Joanna Briggs Institute. Foram identificados 753 estudos, sendo 26 incluídos, publicados entre 1994 e 2024. As evidências, embora oriundas de estudos classificados com baixa evidência, indicaram níveis de satisfação dos pacientes que oscilaram de 54,9% a 90%, relacionados a cinco grandes eixos: acesso, qualidade do cuidado, vínculo, resolutividade e fatores sociodemográficos e regionais. A insatisfação foi atribuída a aspectos estruturais, organizacionais e relacionais dos serviços, como: dificuldades de acesso e organização dos serviços, infraestrutura e recursos deficientes, falhas na comunicação, relações interpessoais fragilizadas, fatores sociodemográficos e capacitação profissional inadequada. Também foram observadas evidências em populações específicas. Conclui-se que a satisfação do paciente é uma dimensão essencial da qualidade na APS, sendo necessários estudos mais robustos para aprofundar a compreensão do tema e subsidiar a formulação de políticas públicas.

Palavras-chave:

Atenção Primária à Saúde; Satisfação do Paciente; Estratégia Saúde da Família; Indicadores de Qualidade da Assistência à Saúde; Brasil.

Abstract:

The aim of this study is to map the available scientific evidence on patient satisfaction with Primary Health Care within the context of the Family Health Strategy in Brazil. This is a scoping review conducted in accordance with the guidelines of the Joanna Briggs Institute. A total of 753 studies were identified, of which 26 were included, published between 1994 and 2024. Although the evidence derives from studies classified as having low levels of evidence, the findings indicate patient satisfaction levels ranging from 54.9% to 90%, associated with five major domains: access, quality of care, patient-provider relationship (bond), resolvability, and sociodemographic and regional factors. Dissatisfaction was attributed to structural, organizational, and relational aspects of health services, such as difficulties in access and service organization, inadequate infrastructure and resources, communication failures, weakened interpersonal relationships, sociodemographic factors, and insufficient professional training. Evidence was also observed in specific populations. It is concluded that patient satisfaction is an essential dimension of quality in Primary Health Care, and more robust studies are needed to deepen the understanding of the topic and to support the formulation of public policies.

Keywords:

Primary Health Care; Patient Satisfaction; National Health Strategies; Quality Indicators, Health Care; Brazil.

Conteúdo:

Introdução
A Declaração de Alma-Ata, assinada em 1978 durante a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, representou um marco global na consolidação da Atenção Primária à Saúde (APS), como estratégia central para a organização dos sistemas de saúde. A convenção destacou a saúde como direito fundamental, e os cuidados primários como base essencial para garantir esse direito, enfatizando ainda os princípios de equidade, participação comunitária e intersetorialidade na promoção da saúde¹.
No Brasil, o desenvolvimento da APS foi impulsionado no contexto da Reforma Sanitária, a partir da década de 1980, em meio a um cenário de mobilização social e de crítica ao modelo biomédico e hospitalocêntrico. Esse processo se fortaleceu com a promulgação da da Constituição Federal de 1988, que reconheceu a saúde como direito de todos e dever do Estado. A criação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1990, pela Lei nº 8.080, consolidou institucionalmente esse novo modelo de atenção, possibilitando a implementação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e, posteriormente, do Programa Saúde da Família (PSF), em 1994. Tais iniciativas buscavam ampliar o acesso e promover a resolutividade do cuidado com base nos princípios da APS e do SUS. Com a ampliação do escopo e da abrangência territorial, o PSF foi consolidado como Estratégia Saúde da Família (ESF), sendo reconhecido como o principal modelo de organização da APS no país².
A partir dessa afirmação, a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), instituída pela Portaria nº 648/2006, passou a estruturar a APS no âmbito da Rede de Atenção à Saúde (RAS), tendo a ESF como eixo central de organização³. As atualizações ocorridas em 2011 e 2017 promoveram ajustes na composição das equipes, reafirmaram a centralidade das necessidades dos usuários e coletividades, a integralidade entre os serviços e a continuidade do cuidado, além de flexibilizar a adoção de outros arranjos de atenção básica?. A revisão de 2017 ampliou a possibilidade de financiamento de modelos distintos da ESF e redefiniu as competências dos Agentes Comunitários de Saúde?.
No cenário contemporâneo, destaca-se a crescente valorização da qualidade dos cuidados e da segurança do paciente nos serviços de saúde. Nesse contexto, o Ministério da Saúde (MS) instituiu, por meio da Portaria n° 1.654/2011, o Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB), com o objetivo de avaliar, qualificar e ampliar o acesso aos serviços prestados na APS. O PMAQ-AB contribuiu para o estabelecimento de padrões nacionais de qualidade, além de fomentar avaliações periódicas da atenção prestada e induzir práticas voltadas à melhoria da resolutividade e da satisfação dos usuários?.
A satisfação do paciente é reconhecida pelo MS como um componente essencial da avaliação da qualidade da APS. Esse indicador reflete a percepção dos usuários sobre diferentes dimensões da atenção recebida, como o acesso, à infraestrutura, o acolhimento, a escuta qualificada e a capacidade de resposta dos serviços. Ao articular aspectos técnicos e estruturais com experiências subjetivas dos usuários. Sua avaliação contribui para o aperfeiçoamento das práticas profissionais, a reorganização dos processos de trabalho, a realocação de recursos e a redefinição de metas, alinhadas ao modelo de cuidado vigente?.
Os processos de avaliação da satisfação dos usuários nos serviços públicos de saúde também assumem um papel potencialmente transformador, ao fortalecer o controle social, fomentar a participação ativa dos usuários e estimular a construção coletiva de soluções adequadas às necessidades reais da população?. A literatura busca delinear os determinantes da satisfação do paciente, e os resultados ainda são inconclusivos, existindo evidências contraditórias nos estudos que focaram na satisfação do paciente9. Observa-se uma carência de sistematizações nacionais sobre evidências disponíveis acerca da satisfação dos pacientes com os serviços de APS, especialmente no âmbito da Estratégia Saúde da Família.
Diante disso, o presente estudo tem como objetivo mapear as evidências científicas disponíveis acerca da satisfação dos pacientes com a Atenção Primária à Saúde, no contexto da Estratégia da Saúde da Família, no Brasil.

Metodologia
Este estudo se caracteriza como uma revisão de escopo (scoping study ou scoping review), realizada de acordo com o método disposto pelo Joanna Briggs Institute Reviewers, que abarca cinco etapas: a primeira trata-se de identificar a questão de pesquisa; a segunda, delimitar os estudos relevantes, terceira, selecionar os estudos, quarta, analisar os dados, e por fim, a quinta, agrupar, sintetizar e apresentar os resultados10. Destaca-se que o protocolo desta revisão foi registrado e disponibilizado na Open Science Framework (https://osf.io/gx27b), e que a lista de verificação PRISMA-ScR própria para esse tipo de revisão foi seguida na sua elaboração 11.
Para a formulação da questão de pesquisa, utilizou-se a estratégia PCC, onde (P) representa “população”; (C) - “conceito”; e (C) - “contexto”. Considerou-se (P) – usuários dos serviços de Atenção Primária em Saúde / Estratégias Saúde da Família; (C) – satisfação do paciente; e (C) – Atenção Primária em Saúde / Estratégias Saúde da Família. Quais as evidências científicas acerca da satisfação do paciente com os serviços de Atenção Primária à Saúde no contexto das Estratégias Saúde da Família no Brasil?
Definiu-se como critérios de inclusão: estudos publicados e disponíveis nos idiomas inglês, português e espanhol; com avaliações positivas e/ou negativas com relação à satisfação do paciente com os serviços de Atenção Primária em Saúde no âmbito das equipes de Estratégia Saúde da Família autorrelatados pelos pacientes e/ou cuidadores. Foram excluídos artigos que não tratavam especificamente da satisfação do paciente, teses, monografias, estudos secundários ou protocolos de estudos, que tratavam da qualidade e satisfação de serviços especializados e não de serviços de atenção primária.
A busca e a seleção dos estudos ocorreram no mês de abril de 2025, sendo conduzida por dois pesquisadores independentes, sendo que divergências foram resolvidas por meio de um terceiro pesquisador independente. As bases de dados consultadas foram as seguintes: Web of Science (Clarivate), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online via US National Library of Medicine (MEDLINE/Pubmed), Scopus (Elsevier), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Scielo. As bases foram escolhidas devido a publicação de conteúdos brasileiros e latino-americanos e sua relevância no contexto da área da saúde coletiva.
As estratégias de busca foram executadas a partir da combinação dos operadores booleanos “AND” e “OR” com os seguintes termos: "Patient Satisfaction", " Primary Health Care", "Family Health" e "Brazil”. O procedimento ocorreu de forma manual, sem uso da inteligência artificial. As estratégias de busca encontram-se descritas no Quadro 1.

Quadro 1

Após a identificação dos estudos, os mesmos foram exportados para o software gerenciador de referências, Mendley®, objetivando remover publicações duplicadas e analisar as referências encontradas. Os estudos foram selecionados conforme os critérios de inclusão e exclusão previamente apresentados.
Para avaliação do nível de evidência, empregou-se a referência de Melnyk e Fineout-Overholt12. Após leitura e avaliação das publicações, os estudos foram submetidos a uma análise qualitativa e posteriormente as evidências foram organizadas para serem apresentadas. Empregou-se um instrumento de elaboração própria no Excel® contendo referência do estudo, ano, país, periódico, nível de evidência, objetivo, metodologia, resultados e conclusões. Os dados foram organizados conforme enfoques temáticos apresentados nos estudos.

Resultados
Dos 753 estudos identificados, 26 foram incluídos na presente revisão. A Figura 1 apresenta o fluxograma de seleção dos estudos.

Fig.1

Figura 1. Fluxograma PRISMA-ScR do processo de seleção das publicações.
Fonte: Autores.
Caracterização dos estudos
Todos os estudos (100%) foram classificados com o nível de evidência VI, em decorrência de serem todos delineamento observacional e transversal, vinte e quatro (92,3%) apresentaram abordagem quantitativa e dois (7,7%) abordagem qualitativa. Com relação ao ano de publicação, destacou-se os anos 2018 a 2022. Dos 26 estudos, cinco foram conduzidos em nível nacional, 11 na região sudeste, quatro na região sul, quatro na região nordeste e dois na região centro-oeste, não sendo identificados estudos na região Norte. Dos estudos quantitativos, foram utilizados como instrumento de coleta de dados o PMAQ (quatro), PCATool (quatro), dois outros instrumentos validados (EUROPEP e SATIS-BR) e os demais estudos utilizaram questionários estruturados elaborados pelos autores.
Pode-se afirmar a existência de evidências científicas em quatro enfoques temáticos, a saber: percepções dos níveis de satisfação dos pacientes, fatores relacionados à satisfação do paciente, fatores relacionados à insatisfação do paciente e satisfação do paciente no contexto de populações específicas. A figura 2 sintetiza os resultados encontrados.

Fig.2

Figura 2. Síntese dos resultados encontrados na revisão.
Fonte: Imagem gerada por Inteligência Artificial (Gemini).

Percepções dos níveis de satisfação dos pacientes
Foram observados elevados índices de satisfação dos usuários com os serviços da APS no contexto das unidades da Estratégia Saúde da Família (ESF). Foram identificados percentuais que variam entre 54,9% (A1)? e 90% (A2)¹³, dependendo dos serviços avaliados e dos grupos populacionais. Por exemplo, 65,51% dos usuários relataram satisfação com o atendimento de saúde bucal, especialmente entre os socioeconomicamente desfavorecidos (beneficiários do Bolsa Família) e aumentando com a idade (acima dos 20) (A3)¹?. Revelou-se que, quando avaliado em conjunto o atendimento adulto e a avaliação do cuidador no atendimento pediátrico, a satisfação foi de 90% (A2)¹³. Um índice global de satisfação de 76,6% foi observado quando considerados indicadores compostos (A4)¹?.

Fatores relacionados à satisfação dos pacientes
A satisfação dos usuários com os serviços da APS está associada principalmente a cinco grandes eixos: acesso, qualidade do cuidado, vínculo interpessoal e resolutividade e fatores sociodemográficos e regionais.

Acesso e disponibilidade
A satisfação é fortemente influenciada pela proximidade da unidade de saúde (A5, A6)¹?,¹?, facilidade de atendimento, inclusive sem agendamento prévio (A7, A8)¹?,¹?, horário de funcionamento adequado às necessidades da população (A7)¹? e acesso rápido a serviços específicos, como fonoaudiologia (A9)²? e ao tratamento de condições crônicas (A10)²¹. A frequência das visitas dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) também aumenta a percepção de acesso e gera satisfação (A6, A11)¹?,²².

Qualidade relacional e acolhimento
Aspectos relacionados ao acolhimento, escuta qualificada, respeito às singularidades e cordialidade dos profissionais são determinantes (A5, A7, A12, A13, A8, A14)¹?,¹?,²³,²?,¹?,²?. Destaca-se um atendimento acolhedor, marcado por uma interação equipe-usuário que se dá de forma empática e paciente (A12)²³. Nessa direção, 66% afirmaram ser escutados pelas equipes da ESF; 80,2% obtiveram ajuda quando procuraram o acolhimento; 64,6% disseram que a acolhida foi amigável ou muito amigável (A13)²?. É apontada satisfação nas relações marcadas por afetividade e atenção, aspectos diferenciais na atenção à saúde (A14)²?. Relações de confiança e empatia, com os profissionais chamando os usuários pelo nome e estabelecendo comunicação afetiva, aparecem como pontos de alta valorização (A4, A15)¹?,²?.

Vínculo e longitudinalidade
A satisfação cresce quando há continuidade no acompanhamento, vínculo duradouro com a equipe, atendimento centrado na família e no território (A6, A16, A17, A15)¹?,²?,²?,²?, e cuidado humanizado (A10)²¹. Muitos usuários não desejam trocar de equipe ou buscar outro serviço devido à confiança construída (A8)¹?. O indicador "Relação e Comunicação" foi o que mais se destacou positivamente em comparação aos outros indicadores de avaliação (A4)¹?.

Resolutividade e organização dos serviços
Os usuários se mostram mais satisfeitos quando percebem que seus problemas são resolvidos na APS, sem necessidade de múltiplos encaminhamentos (A5, A7, A2)¹?,¹?,¹³. A disponibilidade de medicamentos, a organização dos processos de trabalho e a coordenação do cuidado são fatores positivos (A17, A2, A18)²?,¹³,²?.
Além disso, a organização dos serviços no modelo de ESF gerou mais satisfação dos pacientes atendidos do que em serviços que não são caracterizados como ESF e aqueles vinculados a planos de saúde privados (A19)³?, inclusive quando avaliados os atributos de integralidade, primeiro contato, acessibilidade e longitudinalidade (A20)³¹. Nas comparações entre ESF e unidades básicas tradicionais, as avaliações são sempre mais favoráveis à ESF (A16)²?. Há uma alta satisfação com o modelo da Saúde da Família, com reconhecimento do atendimento humanizado, próximo e personalizado (A8)¹?.

Fatores sociodemográficos e regionais
Além disso, pode-se inferir que fatores sociodemográficos e regionais também estiveram relacionados à satisfação do paciente, uma vez que moradores urbanos e com menores condições socioeconômicas apresentaram maior nível de satisfação (A19)³?. Alguns fatores influenciaram em regiões específicas do país, como no Nordeste, o horário de funcionamento adequado; no Norte, o interesse dos profissionais pelos membros da família; no Centro-Oeste, a atenção às outras necessidades de saúde além da queixa principal; no Sul, o atendimento sem hora marcada; e no Sudeste, os usuários fazendo perguntas após a consulta (A20)³¹.

Fatores relacionados à insatisfação dos pacientes
A insatisfação dos usuários esteve principalmente associada a aspectos estruturais, organizacionais e relacionais no serviço. Destacam-se como principais fatores: Problemas de Acesso e Organização dos Serviços, Infraestrutura e Recursos Insuficientes, Qualidade da Comunicação e Relações Interpessoais Fatores Sociodemográficos Associados à Insatisfação e Capacitação Profissional Insuficiente.

Problemas de acesso e organização dos serviços
Dificuldades no acesso ao serviço, incluindo barreiras organizacionais (A10, A8, A14)²¹,¹?,²?, horários restritos, demora no agendamento, tempo de espera elevado para consultas e falta de profissionais (A1, A6, A16, A8, A5, A14)?,¹?,²?,¹?,¹?,²?. A não realização de visitas domiciliares também impactou negativamente a satisfação (A6)¹?. Além disso, o acesso limitado a serviços especializados, procedimentos, exames e urgência/emergência (A16, A8)²?,¹?. Ainda houve menor satisfação quando o usuário percebe que não recebeu o atendimento que buscava ou que suas necessidades não foram devidamente consideradas (A6, A21)¹?,³².

Infraestrutura e recursos insuficientes
Destacou-se a falta ou dificuldade de acesso a medicamentos, exames e vacinas (A16, A8)²?,¹?, ambiência precária e insatisfação com as condições físicas das unidades de saúde (A13, A14)²?,²?, e número reduzido de determinados profissionais, como fonoaudiólogos (A9)²? e outros membros das equipes (A1, A5)?,¹?.

Qualidade da comunicação e relações interpessoais
Houve insatisfação com a qualidade do vínculo e da comunicação quando os profissionais não demonstraram respeito às necessidades, aos hábitos culturais, religiosos ou costumes dos usuários (A21)³². Ainda que o relacionamento e a comunicação tenham sido os itens com melhor avaliação (A4)¹?, houve situações em que o relacionamento com os profissionais desfavorece o vínculo (A5)¹?.

Fatores sociodemográficos associados à insatisfação
Usuários do sexo feminino, pessoas que se autodeclararam não brancas, os mais jovens e aqueles com maior escolaridade ou em situação de emprego demonstraram menor satisfação (A6, A3, A4)¹??,¹?,¹?. Por outro lado, pessoas com menor escolaridade e melhor autopercepção de saúde tendem a estar mais satisfeitas (A4)¹?.

Capacitação profissional insuficiente
Profissionais relataram que o treinamento recebido era inadequado em quantidade, conteúdo e metodologia, o que repercute na qualidade do atendimento e, consequentemente, na satisfação dos usuários (A1)?.

Satisfação do paciente no contexto de populações específicas
Usuários com e sem deficiência avaliaram de forma semelhante os serviços da APS, o que indica fragilidade na identificação de demandas específicas desse grupo (A22)³³. Foram bem avaliados os atributos: Grau de Afiliação, Primeiro Contato – Utilização, Longitudinalidade e Coordenação de Serviços. Avaliações insatisfatórias recaíram sobre: Primeiro Contato – Acessibilidade, Coordenação de Serviços – Integração de Cuidados, Integralidade, Orientação Familiar e Orientação Comunitária. As equipes foram consideradas competentes na identificação de problemas de mobilidade, mas apresentaram falhas no reconhecimento de limitações relacionadas à audição, voz/fala e visão, além de falhas na orientação quanto aos serviços disponíveis (A22)³³.
Com relação ao atendimento infantil, houve melhor avaliação da satisfação no atendimento infantil (por pais e responsáveis) em comparação ao atendimento adulto (A23)³?. Contudo, os atributos "Acesso" e "Integralidade – Serviços Disponíveis" foram os que apresentaram pior desempenho, mesmo nesse grupo (A23)³?. Os principais fatores associados à satisfação de mães de crianças atendidas pela APS foram: o profissional ter tratado a mãe/criança pelo nome, o atendimento ter ocorrido no dia em que a mãe necessitou e a sala de espera da unidade possuir entretenimento. O acesso à atenção primária foi bem avaliado, sendo considerado como um ponto positivo (A15)²?.
Com relação à avaliação de pessoas hipertensas e diabéticas, os serviços ofertados para pessoas com hipertensão arterial foram avaliados como regulares, com principais barreiras relacionadas a aspectos geográficos e organizacionais (A10)²¹. Apesar disso, usuários hipertensos e diabéticos relataram que uma boa relação com os profissionais de saúde foi fator decisivo para maior satisfação com os serviços (A24)³?.
Com relação ao atendimento fonoaudiológico, usuários demonstraram elevada satisfação no atendimento em fonoaudiologia, destacando-se: acesso rápido ao serviço e cuidado humanizado, que promove um atendimento acolhedor e fortalece o vínculo entre profissional e comunidade (A9)²?.

Discussão
Os resultados desta revisão de escopo indicam que os usuários da APS, no contexto específico da ESF, de modo geral, expressam satisfação com os serviços, embora persistam desafios relacionados a acesso, organização dos serviços e atendimento às necessidades específicas de grupos populacionais. Os níveis de satisfação do paciente variaram de 54,9% e 90%, corroboram achados de pesquisas nacionais que apontam que, apesar das fragilidades estruturais e organizacionais, os usuários da APS tendem a valorizar o modelo da ESF por suas características relacionais, proximidade com o território e cuidado longitudinal¹?,³².
Vale destacar que os resultados deste estudo focam especificamente na satisfação dos pacientes, que é um dos aspectos da qualidade dos serviços de saúde. Estudo anterior no contexto do Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ) sinalizou a importância da ESF e de investimentos financeiros, técnicos e intelectuais contínuos para sua qualidade³?. Revisão internacional realizada por Ratcliffe e seus colaboradores destaca que usuários de sistemas de APS em países de renda média e baixa valorizam fortemente os aspectos relacionais e a proximidade dos serviços³?.
Os achados desta revisão indicam que a satisfação na APS está ancorada em cinco grandes eixos: acesso, qualidade do cuidado, vínculo interpessoal, resolutividade e fatores sociodemográficos/regionais. Esses resultados são apoiados pela pesquisa em qualidade em saúde, em consonância com Donabedian — estrutura, processo e resultado —, onde os elementos do processo (interação profissional-usuário) se mostram centrais na percepção dos usuários³?.
O acesso, sobretudo aquele facilitado pela proximidade da unidade, flexibilidade no agendamento e atuação ativa dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), é reiteradamente descrito como um fator relevante¹?,²?. A percepção de acolhimento, escuta e respeito às singularidades também aparece como um dos principais determinantes da satisfação, em consonância com estudos que analisam a qualidade percebida na APS³²,³?.
O vínculo e a longitudinalidade, apontados como fatores decisivos, reforçam a premissa de que o acompanhamento continuado, centrado na família e no território, é um dos pilares que sustentam a efetividade e a satisfação na APS³?. Isso se alinha com os princípios fundamentais da APS, que defendem o fortalecimento da relação paciente-equipe como elemento estruturante do cuidado40.
Por fim, a resolutividade aparece fortemente associada à satisfação, sobretudo quando há disponibilidade de medicamentos, exames e quando os problemas são resolvidos no nível da APS, reduzindo a necessidade de encaminhamentos, como também evidenciado por estudos recentes sobre avaliação dos atributos da APS no Brasil³²,³?.
Apesar das avaliações predominantemente positivas, persistem elementos que geram insatisfação. Destacam-se os problemas relacionados ao acesso, como filas, demora no agendamento e indisponibilidade de profissionais, bem como questões estruturais, como precariedade das instalações físicas e ausência de insumos¹?,²?.
As dificuldades no acesso a serviços especializados, exames e medicamentos também são fatores recorrentes na literatura, tanto nacional quanto internacional?¹,³?, sendo reconhecidas como barreiras estruturais que comprometem a efetividade e a integralidade da APS.
Adicionalmente, os achados que apontam maior insatisfação entre mulheres, pessoas não brancas, mais jovens e de maior escolaridade são coerentes com estudos que discutem as desigualdades de acesso e a percepção diferenciada dos serviços de saúde, conforme marcadores sociais de gênero, raça e classe?²,?³. Isso reforça a necessidade de uma APS que, além de universal, seja sensível às desigualdades sociais e promova equidade no cuidado.
Os achados desta revisão revelam que, embora a APS obtenha avaliações positivas no geral, há desafios importantes no atendimento a populações específicas. No caso das pessoas com deficiência, observa-se que a satisfação com aspectos como longitudinalidade e grau de afiliação não se traduz em efetiva adaptação dos serviços às suas necessidades, com fragilidades importantes no reconhecimento de limitações sensoriais e na orientação sobre os serviços disponíveis³?,??.
No atendimento infantil, os resultados indicam maior satisfação quando comparado ao atendimento adulto, especialmente quando se observam práticas que favorecem o vínculo e o acolhimento, como chamar a criança pelo nome e disponibilizar espaços lúdicos, o que está alinhado com diretrizes de humanização do cuidado na APS??.
Para pacientes com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, observa-se que a satisfação está fortemente vinculada à qualidade da relação com a equipe e à percepção de cuidado contínuo e humanizado, apesar das barreiras estruturais ainda presentes. Esses dados são convergentes com estudos nacionais³² e internacionais?¹.
Por fim, no contexto do atendimento fonoaudiológico, os usuários expressam satisfação elevada, associada ao acesso rápido e à qualidade do vínculo com o profissional, o que reafirma a importância da presença de profissionais de diferentes categorias na composição da APS, fortalecendo sua capacidade resolutiva e sua integralidade.

Conclusões
A presente revisão de escopo evidencia que a satisfação dos usuários adscritos na APS brasileira, no contexto da ESF, destacando-se a predominância da satisfação, diretamente associada a uma combinação de fatores técnicos — como acesso, resolutividade e infraestrutura — e relacionais — como acolhimento, escuta qualificada, vínculo e empatia. Esses achados reforçam a centralidade dos atributos da APS na percepção positiva dos usuários e na efetividade do cuidado em saúde.
Contudo, persistem desafios importantes, sobretudo relacionados às barreiras estruturais, organizacionais e às limitações no atendimento às necessidades específicas da população. Além disso, observa-se que modelos de atenção centrados no território, como a ESF, demonstram maior capacidade de gerar satisfação e adesão dos usuários, quando comparados a modelos fragmentados ou com menor grau de adscrição e vínculo comunitário.
Essa análise também evidencia lacunas relevantes na produção científica sobre o tema. A predominância de estudos de delineamento transversal, de caráter descritivo e majoritariamente quantitativo, limita a compreensão aprofundada dos processos, das dinâmicas e dos determinantes da satisfação no cuidado primário. Tal limitação metodológica impede, por exemplo, compreender como as experiências dos usuários se transformam ao longo do tempo, frente às mudanças nos contextos socioeconômicos, nas políticas públicas e na própria organização dos serviços.
Diante disso, torna-se urgente estimular a realização de pesquisas que utilizem desenhos metodológicos mais robustos e diversificados. Estudos longitudinais permitiriam acompanhar a evolução da satisfação dos usuários ao longo do tempo, identificando tendências, impactos de políticas, reformas ou mudanças no modelo assistencial. Pesquisas de métodos mistos, integrando abordagens quantitativas e qualitativas, poderiam oferecer uma compreensão mais abrangente e profunda, ao capturar não apenas indicadores objetivos, mas também as experiências subjetivas dos usuários, seus sentidos e expectativas em relação ao cuidado.
Além disso, estudos qualitativos, centrados na análise dos discursos dos usuários, poderiam aprofundar aspectos subjetivos da satisfação, como percepções sobre dignidade, respeito, autonomia e qualidade relacional com as equipes. Pesquisas avaliativas com uso de teorias críticas, socioecológicas ou de complexidade também se mostram promissoras para compreender os múltiplos determinantes da satisfação e os contextos em que ela se produz.
Por fim, recomenda-se que investigações futuras incluam a análise interseccional, considerando como gênero, raça, classe, território e condição de saúde interagem e impactam a experiência dos usuários com os serviços. Tal abordagem pode oferecer subsídios qualificados para o aprimoramento das políticas públicas, da gestão dos serviços e da formação dos profissionais de saúde, contribuindo para o fortalecimento da APS como pilar estruturante do SUS e para a efetivação dos princípios de equidade, integralidade e participação social.


Declaração de Disponibilidade
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.


Referências
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Jantara, RD, Azevêdo, RGV, Silva, VM, Stigger, DAS, Barlem, JGT, Abreu, DPG, Baratieri, T, Araújo, MDM. Evidências sobre a satisfação do paciente com a Atenção Primária à Saúde no Brasil: revisão de escopo. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/ago). [Citado em 14/08/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/evidencias-sobre-a-satisfacao-do-paciente-com-a-atencao-primaria-a-saude-no-brasil-revisao-de-escopo/20098?id=20098

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