0235/2026 - I Plano Diretor da Área de Política, Planejamento e Gestão da Saúde (2026-2030)
First Master Plan for the Area of Health Policy, Planning, and Management (2026-2030)
Autor:
• Dário Frederico Pasche - Pasche, DF - <dario.pasche@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7161-8607
Coautor(es):
• Tatiana Wargas de Faria Baptista - Baptista, TWF - <tatiana.baptista@fiocruz.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3445-2027
• Catharina Matos Soares - Soares, CM - <catharinamatos@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8131-4831
• Marília Louvison - Louvison, M - <mariliacpl@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1630-3463
• Monique Azevedo Esperidião - Esperidião, MA - <moniqueesper@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1827-3595
• Nivaldo Carneiro Junior - Carneiro Junior, N. - <nivaldo.junior@fmabc.net>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1358-9160
• Ronaldo Teodoro dos Santos - Santos, RT - <ronaldosann@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0125-7700
• Adelyne Maria Mendes Pereira - Pereira, AMM - <adelyne.mendes@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2497-9861
• Alberto Novaes Ramos Jr. - Ramos Jr, AN - <novaes@ufc.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7982-1757
• Alcides Silva de Miranda - Miranda, AS - <alcides.miranda@ufrgs.br>
ORCID: http://orcid.org/0000-0001-8947-9676
• Ana Lígia Passos Meira - Meira, ALP - <ligiapassos3@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0776-5543
• Aylene Emilia Moraes Bousquat - Bousquat, AEM - <aylenebousquat@usp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2701-1570
• Bibiana Machado Nunes - Nunes, BM - <bibiana_machado@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-7466-5937 0009
• Carlos Eduardo Menezes de Rezende - Rezende, C. E. M. - <cemrezende@usp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5716-858X
• Carmem E. Leitão Araújo - Araújo, CEL - <carmemleitao@ufc.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4322-8390
• Cristian Fabiano Guimarães - Guimarães, CF - <cristian.guimaraes@unifesp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3101-634X
• Elizabeth Artmann - Artmann, E. - <artmann@ensp.fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8690-5964
• Helena Eri Shimizu - Shimizu, HE - <shimizu@unb.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5612-5695
• Isabela Soares Santos - Santos, IS - <isabela.santos@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-1664-331X
• José Patrício Bispo Júnior - Bispo Júnior, JP - <jpatricio@ufba.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4155-9612
• Leonardo Costa de Castro - Castro, LC - <leonardo.costa@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9376-5103
• Léo Heller - Heller, L - <leo.heller@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0175-0180
• Luiza Jane Eyre de Souza Vieira - Vieira, LJES - <souzaevieira.2022@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5220-027X
• Nemora Tregnago Barcellos - Barcellos, NT - <nemoratb@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5812-7843
• Regimarina Soares Reis - Reis, RS - <regimarina.reis@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2741-4380
• Rodrigo Tobias de Sousa Lima - Lima, RTS - <tobiasrodrigo@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4098-5276
• Ronald Pereira Cavalcanti - Cavalcanti, RP - <ronald.cavalcanti@ufpe.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4948-0327
• Sydia Rosana de Araújo Oliveira - Oliveira, SRA - <sydia.oliveira@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6349-2917
• Thais Regis Aranha Rossi - Rossi, TRA - <thais.aranha@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2561-088X
Resumo:
Este artigo apresenta o I Plano Diretor da Área de Política, Planejamento e Gestão da Saúde (PPGS) da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Elaborado entre 2022 e 2025 por meio de oficinas, reuniões, questionários, entrevistas, análise documental e diálogo com fóruns, grupos temáticos, gestores(as) e movimentos sociais, o Plano responde aos desafios contemporâneos do SUS e da Saúde Coletiva. O processo assumiu uma perspectiva crítico-participativa e ético-política, orientada pela defesa da democracia, do direito à saúde, da ciência pública e plural, do trabalho digno, da equidade e da justiça socioambiental. Organizado em três eixos: ensino e formação; pesquisa, produção e disseminação do conhecimento; e articulação com políticas públicas e sociedade, o Plano sistematiza problemas, pontos críticos, estratégias e ações para fortalecer a PPGS, enfrentar iniquidades e contribuir para a consolidação do SUS como sistema público, universal e equânime.Palavras-chave:
Políticas, Planejamento e Administração em Saúde; Saúde Coletiva; Sistema Único de Saúde; Educação em Saúde Pública; Equidade em Saúde.Abstract:
This article presents the First Master Plan for the Area of Health Policy, Planning, and Management (PPGS) of the Brazilian Association of Collective Health (Abrasco). Developed between 2022 and 2025 through workshops, meetings, questionnaires, interviews, document analysis, and dialogue with forums, thematic groups, managers, and social movements, the Plan responds to contemporary challenges facing the SUS and Collective Health. The process adopted a critical-participatory and ethical-political perspective, guided by the defence of democracy, the right to health, public and plural science, decent work, equity, and socio-environmental justice. Organised into three axes: education and training; research, knowledge production, and dissemination; and coordination with public policies and society, the Plan systematises problems, critical points, strategies, and actions to strengthen PPGS, confront inequities, and contribute to consolidating the SUS as a public, universal, and equitable system.Keywords:
Health Policy, Planning, and Administration; Collective Health; Unified Health System; Public Health Education; Health Equity.Conteúdo:
A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) desempenha papel relevante na consolidação da Saúde Coletiva como campo científico e de práticas sociais1,2. Em um contexto marcado pela sobreposição de crises e por disputas em torno das políticas sociais, a Abrasco tem buscado analisar criticamente as transformações da sociedade brasileira e fortalecer a Saúde Coletiva no ensino, na pesquisa, no engajamento social e político e na incidência sobre as políticas de saúde. É nesse contexto que a Comissão de Política, Planejamento e Gestão em Saúde (PPGS) elaborou seu I Plano Diretor (2026–2030), que sistematiza os principais desafios da área e define objetivos, estratégias e ações para seu desenvolvimento.
A PPGS constitui um dos subcampos estruturantes da Saúde Coletiva no Brasil, ao lado da Epidemiologia e das Ciências Sociais e Humanas em Saúde. Caracteriza-se pela abrangência dos estudos sobre as relações entre Estado, sociedade e mercado e por sua vinculação às necessidades de saúde da população. Historicamente, dedica-se aos processos de formulação, planejamento, implementação, avaliação e gestão das políticas de saúde3,4. Nas últimas décadas, a área vem diversificando seus objetos de estudo, abordagens teórico-metodológicas e espaços de intervenção, incorporando novos atores e perspectivas e ampliando a pluralidade de saberes. Esse processo coloca o desafio de atualizar suas referências e formas de atuação diante das transformações do Sistema Único de Saúde (SUS), do Estado e da sociedade brasileira5.
A área enfrenta, nesse cenário, um conjunto de desafios políticos, econômicos, sociais, sanitários e ambientais que ultrapassam as fronteiras nacionais. Entre eles, destacam-se o enfraquecimento das capacidades estatais e públicas; a consolidação do capitalismo em sua fase ultraneoliberal, marcada pela financeirização da economia e pela retração das políticas sociais6,7; a ascensão de forças de direita, do ultraconservadorismo, do negacionismo e de novas formas de autoritarismo8; e a expansão de lógicas privatistas que aprofundam a mercantilização e a medicalização da vida.
No Brasil, esses processos incidem diretamente sobre o SUS. Ao mesmo tempo em que o sistema permanece subfinanciado e submetido a agendas que tensionam seus princípios, avançam a privatização, a oligopolização e a financeirização do setor, com repercussões sobre a organização dos serviços, os modelos de atenção, o trabalho e o cuidado9. A persistência das desigualdades, a emergência climática, a precarização do trabalho, as dificuldades de coordenação federativa e regionalização e as transformações decorrentes das tecnologias digitais acrescentam novas dimensões aos problemas enfrentados pela área10.
Esses processos articulam-se a formas históricas e contemporâneas de dominação, como a colonialidade, o racismo, o patriarcado e o capacitismo, entre outras estruturas de opressão que se interseccionam e reproduzem desigualdades em saúde. Compreender essas determinações e suas relações com os modelos de desenvolvimento, a hegemonia biomédica e as formas contemporâneas de organização e controle da vida social é fundamental para a formulação de políticas públicas orientadas pela equidade, pela democracia, pelos direitos humanos e pela sustentabilidade da vida.
É nesse contexto de expansão e diversificação da PPGS e de crescente complexidade dos problemas que constituem seu campo de atuação que se insere o I Plano Diretor da PPGS (2026–2030), elaborado pela Abrasco com o apoio do Ministério da Saúde. O Plano explicita compromissos ético-políticos com a valorização da vida, a equidade, a participação social, a ciência pública e plural, a educação pública, o trabalho digno, o fortalecimento do Estado democrático e a justiça socioambiental. Reafirma, ainda, a defesa da democracia, do direito universal à saúde, da justiça social e dos direitos humanos como referências para a atuação da área.
Mais do que sistematizar diagnósticos e definir prioridades, o Plano busca constituir uma agenda político-institucional capaz de orientar o desenvolvimento da PPGS e ampliar sua capacidade de incidência sobre os desafios contemporâneos da Saúde Coletiva e do SUS. Para isso, propõe fortalecer a capacidade de incidir sobre as políticas nacionais sem perder de vista os territórios; disputar políticas públicas preservando a autonomia crítica; dialogar com os governos sem se confundir com eles; e aproximar a produção acadêmica da sociedade por meio de uma comunicação acessível, plural e mobilizadora.
Assim, o Plano é concebido como instrumento de orientação e mobilização política, aberto a revisões e desdobramentos ao longo de sua implementação. Pretende estimular o diálogo entre os diferentes espaços que constituem a Saúde Coletiva e o SUS e favorecer a articulação entre ensino, pesquisa e ação política, contribuindo para uma PPGS mais plural, crítica e capaz de responder às transformações e necessidades da sociedade brasileira.
O processo de elaboração do Plano Diretor
A Comissão de Política, Planejamento e Gestão da Abrasco assumiu, em novembro de 2022, a elaboração de seu I Plano Diretor. Criada em 1987, inicialmente sob a denominação de “Comissão de Políticas de Saúde e Planejamento”, foi a última das três grandes Comissões da Saúde Coletiva instituídas pela Abrasco. Ao longo de sua trajetória, passou por períodos de descontinuidade e por diferentes iniciativas de organização e consolidação da área, incluindo tentativas anteriores de elaboração de um Plano Diretor11.
Em dezembro de 2001, durante o Seminário “Saúde e Desigualdade - Instituições e Políticas Públicas no Século XXI”, promovido pela Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Oswaldo Cruz e pela Organização Pan-Americana da Saúde, foi proposta a “re-fundação” da Comissão, que passou a denominar-se “Política, Planejamento e Gestão em Saúde”. Na ocasião, definiu-se como objetivo central “a definição de uma agenda de cooperação entre pesquisa e gestão, visando à redução das desigualdades em saúde”12. Nos anos seguintes, foram desenvolvidas iniciativas relevantes para a consolidação da área, entre elas a realização do I Congresso de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, em 2010, e o lançamento, no mesmo ano, da Revista de Política, Planejamento e Gestão em Saúde da Abrasco, que teve um único número publicado.
Em 2013, durante encontro da Comissão realizado no pré-congresso do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, foi retomada a discussão sobre a elaboração de um Plano Diretor. O debate evidenciou, contudo, a insuficiência de informações sistematizadas sobre a abrangência e a diversidade da área, particularmente em relação ao ensino de PPGS na graduação e na pós-graduação e à articulação entre grupos de pesquisa. Nesse mesmo período, integrantes da Comissão intensificaram a interlocução com o Ministério da Saúde e com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação/CNPq, contribuindo para a criação de editais específicos de fomento à área. Entre eles, destaca-se a Chamada MCTI/CNPq/CT-Saúde/MS/SCTIE/Decit nº 41/2013, que apoiou grupos e linhas de pesquisa e contribuiu para a constituição de redes colaborativas em PPGS.
Essas iniciativas favoreceram a consolidação de grupos, agendas e trajetórias de pesquisa e produziram referências importantes para a área. Entretanto, nos anos subsequentes, não foi possível sustentar de forma contínua os esforços de articulação entre pesquisadores e de consolidação da Comissão, o que contribuiu para a interrupção do processo de construção de um Plano Diretor.
A retomada ocorreu em 2021, com a renovação da Coordenação da Comissão e o incentivo da Direção da Abrasco. A realização, naquele ano, do IV Congresso de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, em formato virtual, em razão da pandemia de Covid-19, favoreceu a retomada de debates e a construção de uma agenda comum. Também contribuiu para esse movimento a nova composição da Coordenação, que passou a reunir representantes de quatro regiões do país, ainda sem representação da Região Norte. A ampliação da diversidade regional, tanto na Coordenação quanto na Comissão, incorporou novas perspectivas e favoreceu o debate sobre as diferentes realidades e desafios da área.
Nesse processo de retomada, a incorporação de novos referenciais teóricos e metodológicos, a diversidade de atores envolvidos e a pluralidade de saberes reforçaram a necessidade de atualizar a agenda da PPGS e ampliar sua capacidade de diálogo e articulação com diferentes espaços da Saúde Coletiva e do SUS.
Em maio de 2021, a elaboração de um Plano Diretor foi inscrita na agenda de trabalho da nova coordenação da Comissão de PPGS, que, em abril de 2022, aprovou um Termo de Referência para a busca de apoio junto ao Ministério da Saúde para sua elaboração.
Em novembro de 2022, no contexto do 13º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, realizado em Salvador (BA), a Comissão promoveu uma oficina especificamente dedicada à discussão da elaboração do Plano Diretor. A atividade marcou a formalização desse processo e partiu do reconhecimento da importância estratégica da PPGS para a Saúde Coletiva brasileira, para o SUS e para a Reforma Sanitária Brasileira (RSB)13.
A partir dessa oficina, a elaboração do Plano Diretor foi assumida como uma das frentes prioritárias de trabalho da Comissão e conduzida como um processo coletivo de diagnóstico, definição de prioridades e formulação de estratégias. Buscou-se identificar problemas e desafios da área, estabelecer objetivos e construir propostas de ação capazes de orientar sua atuação nos diferentes espaços de ensino, pesquisa, gestão e intervenção social.
O processo estendeu-se por 40 meses, culminando na versão final do documento após a consulta pública encerrada em 30 de março de 2026. Em um movimento articulado “para dentro e para fora” da Abrasco, a Comissão PPGS mobilizou diretamente mais de 200 participantes. Entre eles estiveram representantes da própria Comissão e das demais Comissões da Abrasco - Epidemiologia e Ciências Sociais e Humanas -, coordenadores de cursos de graduação, programas de pós-graduação stricto sensu e residências multiprofissionais, editores científicos, integrantes dos Grupos Temáticos e Redes da Abrasco, instituições parceiras, como a Rede de Escolas de Saúde Pública (Redescola), e movimentos da sociedade civil organizada.
A construção participativa buscou assegurar diversidade institucional, regional e de perspectivas, articulando diferentes experiências e saberes na definição dos problemas e prioridades da área. O Plano foi concebido, assim, não apenas como um documento orientador, mas como resultado de um processo de mobilização e articulação da área de PPGS, capaz de favorecer a continuidade do diálogo e a construção coletiva de agendas ao longo de sua implementação.
O diagnóstico e a definição de prioridades foram organizados em três grandes eixos: 1) Ensino e Formação; 2) Pesquisa, Produção e Disseminação do Conhecimento; e 3) Articulação com as Políticas Públicas e a Sociedade. Essa organização expressa as principais dimensões de atuação da PPGS e permite articular formação, produção de conhecimento e incidência sobre as políticas públicas e a sociedade.
Em cada eixo, foram realizados exercícios de identificação e análise de problemas, definição de objetivos e formulação de estratégias. O processo procurou integrar as diferentes dimensões da atuação da área, reconhecendo a interdependência entre ensino, pesquisa, gestão, serviços e sociedade e buscando orientar uma agenda comum para o desenvolvimento da PPGS.
O presente texto apresenta uma versão sintética do Plano Diretor, preservando sua estrutura geral e os principais problemas, objetivos e estratégias definidos no processo de construção. Pretende-se, desse modo, ampliar a circulação de suas propostas no campo da Saúde Coletiva e contribuir para sua implementação no período de 2026 a 2030.
Objetivos Estratégicos do Plano Diretor por Eixo
Eixo 1: Ensino e Formação em PPGS
A formação em Política, Planejamento e Gestão em Saúde (PPGS) constitui dimensão estratégica da Saúde Coletiva, tanto pela natureza aplicada da área quanto por sua contribuição histórica para a formação de profissionais, gestores(as), docentes, pesquisadores(as), trabalhadores(as) e sujeitos sociais. Sua especificidade está na articulação entre referenciais teóricos e metodológicos e os problemas concretos das políticas, sistemas e serviços de saúde, especialmente no âmbito do SUS.
No contexto atual, a formação em PPGS é desafiada pelas transformações do Estado e das políticas sociais, pela expansão do setor privado na atenção, na gestão e na formação, pelas mudanças no mundo do trabalho e pela persistência de desigualdades produzidas por processos históricos de dominação. Esses desafios demandam uma formação capaz de compreender criticamente a sociedade brasileira e suas relações com o Estado, a economia e as políticas de proteção social, incorporando as contribuições dos estudos sobre racismo, colonialidade e outros marcadores sociais e interseccionais da saúde.
Essas questões se expressam em quatro dimensões articuladas: referenciais teórico-metodológicos; currículos e ofertas formativas; docência; e integração entre ensino, serviço, gestão e comunidade. Ao mesmo tempo em que se torna necessário preservar e atualizar os referenciais críticos que constituíram a Saúde Coletiva, é preciso incorporar novas abordagens, objetos e perspectivas capazes de responder à diversidade e à complexidade dos problemas contemporâneos. A formação deve, ainda, favorecer a articulação entre conhecimento acadêmico e experiências dos serviços, da gestão e dos territórios, fortalecendo a capacidade de análise e intervenção sobre as políticas de saúde.
Nesse sentido, o problema central do eixo é a fragilidade da formação em PPGS para articular fundamentos teórico-conceituais e metodológicos críticos, referenciais contemporâneos e experiências concretas do SUS, diante da complexidade dos problemas de saúde e das transformações do Estado, da sociedade e das políticas públicas. Essa fragilidade se expressa na presença insuficiente e heterogênea de conteúdos de PPGS nos currículos, na fragmentação entre os subcampos da Saúde Coletiva, no distanciamento entre formação, serviços, gestão e territórios e no enfraquecimento da formação política necessária à defesa e à construção do SUS como sistema público, universal e equitativo.
Dessa forma, são objetivos do eixo:
1. Qualificar a formação e o ensino em PPGS, aprofundando a compreensão das relações entre saúde, Estado, economia, política e planejamento, situadas na formação social brasileira e nas transformações do capitalismo contemporâneo, com atenção às desigualdades produzidas pelo racismo estrutural, pela colonialidade e por outras formas de opressão.
2. Fortalecer o diálogo com as demais áreas da Saúde Coletiva e com os cenários de prática do SUS, articulando conhecimentos teórico-metodológicos e problemas concretos das políticas, sistemas e serviços de saúde e favorecendo a construção de novas perspectivas de atuação.
3. Promover processos de formação crítico-reflexivos, articulando referenciais clássicos da Saúde Coletiva à produção contemporânea e garantindo espaço para perspectivas minoritárias e contra-hegemônicas, bem como para abordagens que considerem os marcadores sociais e as dimensões interseccionais da saúde.
As estratégias destinadas ao enfrentamento desses desafios, organizadas nas dimensões de referenciais teórico-metodológicos, currículos e ofertas formativas, docência e integração entre ensino, serviço, gestão e comunidade, são apresentadas no Quadro 1.
Eixo 2: Pesquisa, produção e disseminação do conhecimento
A produção científica em PPGS vem se ampliando no âmbito da Saúde Coletiva, como evidenciado pelo crescimento das publicações e dos trabalhos apresentados em eventos científicos, pela expansão dos cursos de pós-graduação, dos grupos de pesquisa e das linhas de investigação em diferentes regiões do país. Balanços do estado da arte da área têm contribuído para compreender sua origem, diversidade temática e pluralidade teórico-metodológica, bem como sua contribuição para a Reforma Sanitária Brasileira e na construção do SUS3,4,14-16.
A proximidade histórica da PPGS com as políticas públicas e com os sistemas e serviços de saúde constitui uma de suas características distintivas. Os problemas concretos da gestão e da atenção à saúde, assim como as agendas governamentais, influenciam a definição de objetos e prioridades de pesquisa. Essa relação cria oportunidades para a produção de conhecimento socialmente relevante, mas também exige capacidade de preservar a autonomia crítica da pesquisa, identificar novos problemas e incorporar perspectivas teóricas e metodológicas capazes de interpretar transformações sociais, políticas, econômicas, ambientais e tecnológicas.
Apesar da expansão da área, persistem condições que limitam a sustentabilidade e o impacto de sua produção científica. Destacam-se a insuficiência e a irregularidade do financiamento, a dificuldade de manter agendas de pesquisa de longo prazo, a necessidade de fortalecer redes colaborativas, a incorporação de novos objetos e abordagens e os desafios relacionados à disseminação e à tradução do conhecimento para as políticas públicas e para a sociedade. Nesse contexto, o desafio não consiste apenas em ampliar a produção científica, mas em assegurar condições para que ela seja contínua, plural, relevante e socialmente comprometida.
O problema central do eixo é, portanto, a insuficiência das condições institucionais e de financiamento para sustentar uma produção de conhecimento em PPGS contínua, diversificada e socialmente relevante, capaz de responder a problemas emergentes e contribuir para as políticas públicas, o SUS e o debate social. Esse problema envolve tanto as condições de produção quanto sua organização em redes, disseminação, tradução e avaliação de impactos.
Nesse cenário, são objetivos do eixo:
1. Qualificar e diversificar a pesquisa em PPGS, fortalecendo seu desenvolvimento teórico e metodológico e incorporando novas perspectivas e abordagens, inclusive aquelas produzidas no Sul Global.
2. Estimular pesquisas estratégicas em PPGS voltadas à compreensão dos problemas contemporâneos das políticas, sistemas e serviços de saúde, ao enfrentamento das iniquidades e à produção de conhecimento sobre populações e grupos socialmente vulnerabilizados.
3. Incidir sobre as políticas de financiamento da pesquisa, ampliando o diálogo com as agências de fomento para garantir maior estabilidade e continuidade dos investimentos em PPGS, fortalecer redes de pesquisa e desenvolver mecanismos de acompanhamento de seus resultados e impactos.
4. Ampliar a disseminação, a tradução e a circulação do conhecimento, fortalecendo sua comunicação nos espaços acadêmicos e sua interlocução com gestores, trabalhadores, movimentos sociais e sociedade, de modo a favorecer sua utilização na formulação e implementação de políticas públicas e no debate público.
As estratégias voltadas à produção, ao financiamento, à organização em redes, à disseminação e à tradução do conhecimento são apresentadas no Quadro 2, que sistematiza os principais problemas identificados e as propostas de enfrentamento.
Eixo 3: Articulação com a política pública e com a sociedade
A articulação com as políticas públicas e com a sociedade constitui dimensão fundamental da atuação da PPGS, expressa historicamente em sua interlocução com gestores, trabalhadores, instituições públicas, movimentos sociais e demais atores envolvidos na formulação e implementação das políticas de saúde. Essa dimensão ganha relevância diante dos desafios contemporâneos do SUS e da necessidade de ampliar a capacidade da área de participar do debate público e incidir sobre as políticas de saúde, preservando sua autonomia crítica.
Persistem, contudo, obstáculos à aproximação entre a produção acadêmica e diferentes segmentos da sociedade, entre eles a distância em relação aos movimentos populares, a predominância de linguagens técnicas e institucionalizadas e a limitada circulação do conhecimento para além dos espaços acadêmicos. Superar essas barreiras requer formas de comunicação mais acessíveis e dialógicas, reconhecimento de diferentes saberes e construção de espaços permanentes de escuta, colaboração e coprodução de conhecimentos e agendas.
A ampliação dessa capacidade de articulação envolve também o fortalecimento dos vínculos da Comissão PPGS com gestores, trabalhadores, conselhos de saúde, movimentos sociais, instituições de ensino e pesquisa e outros atores sociais e institucionais. Esses vínculos podem favorecer a articulação entre ensino, pesquisa e ação política e ampliar a capacidade de incidência da área sobre temas estruturantes das políticas de saúde, como financiamento, regulação do setor privado, trabalho, emergências climáticas e transformações associadas às tecnologias digitais.
O problema central do eixo é a insuficiência dos mecanismos de comunicação, diálogo e articulação da PPGS com os atores sociais e institucionais envolvidos na construção das políticas públicas e na defesa do direito à saúde. Essa insuficiência limita a circulação social do conhecimento produzido pela área, a construção compartilhada de agendas e sua capacidade de incidência no debate público e nas políticas de saúde.
São objetivos do eixo:
1. Ampliar a capacidade de incidência da PPGS nas políticas públicas de saúde, fortalecendo sua interlocução com diferentes atores e preservando a autonomia crítica da área.
2. Fortalecer a comunicação pública da PPGS, desenvolvendo linguagens e estratégias acessíveis, plurais e dialógicas que ampliem a circulação do conhecimento e favoreçam sua apropriação por diferentes públicos.
3. Aproximar a área dos movimentos sociais, conselhos de saúde, trabalhadores, gestores e demais atores da sociedade, instituindo espaços permanentes de escuta, diálogo e colaboração.
4. Valorizar a diversidade de saberes e experiências na produção das agendas da área, favorecendo processos de coprodução de conhecimento e de construção compartilhada de propostas para as políticas públicas de saúde.
5. Articular ensino, pesquisa e ação política em torno de temas estratégicos para o SUS e para a sociedade, fortalecendo a participação da PPGS no debate sobre financiamento, regulação do setor privado, trabalho, emergências climáticas, transformação digital e outros desafios contemporâneos.
As estratégias destinadas ao fortalecimento da articulação com as políticas públicas e a sociedade, bem como da comunicação e da incidência da área, são apresentadas no Quadro 3.
Considerações finais
Resultado de um processo coletivo de construção e debate, desenvolvido ao longo de 40 meses, o I Plano Diretor da Área de PPGS orientará sua atuação no período de 2026 a 2030. Mais do que um documento de planejamento, constitui uma referência para a organização das prioridades da área, a articulação de seus diferentes atores e o desenvolvimento de iniciativas nos campos do ensino e da formação, da pesquisa e da disseminação do conhecimento e da articulação com as políticas públicas e a sociedade.
A versão apresentada neste artigo sintetiza o percurso de elaboração do Plano, seus principais diagnósticos, objetivos e estratégias, sem substituir o documento de base, que detalha as propostas de implementação. Sua construção participativa buscou produzir uma agenda compartilhada e, ao mesmo tempo, criar condições para que essa agenda seja permanentemente revisitada à luz das mudanças no contexto e dos resultados alcançados.
A implementação do Plano constitui, portanto, parte fundamental de seu processo de construção. Para isso, será necessário estabelecer mecanismos sistemáticos de acompanhamento, monitoramento e avaliação capazes de identificar avanços, dificuldades e efeitos das ações e de produzir subsídios para a tomada de decisão e a revisão das estratégias. Propõe-se, nessa perspectiva, um processo contínuo, participativo e formativo, orientado não apenas ao acompanhamento de metas e indicadores, mas também à reflexão crítica e à aprendizagem institucional.
Caberá à Comissão de PPGS, especialmente à sua Coordenação, conduzir esse processo e articular os diferentes atores envolvidos na implementação. Entre as iniciativas previstas estão a organização de processos de trabalho para execução do Plano, a elaboração de uma matriz avaliativa com indicadores, a construção de um modelo lógico que explicite sua racionalidade e imagem-objetivo e a instituição de ciclos periódicos de avaliação. A combinação de indicadores e metas com métodos e instrumentos participativos deverá permitir acompanhar não apenas a execução das ações, mas também seus efeitos e as condições que favorecem ou dificultam sua realização.
Desse modo, a vigência do Plano Diretor deve ser compreendida como um processo aberto de planejamento, ação, avaliação e aprendizagem. Sua capacidade de orientar a atuação da Comissão dependerá da apropriação coletiva de suas propostas, da articulação entre diferentes espaços da PPGS e da disposição para revisar caminhos diante das transformações do contexto. O Plano se afirma, assim, como instrumento de orientação estratégica e de construção coletiva, cuja efetividade será produzida no próprio processo de sua implementação.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Não se aplica.
Referências
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