0172/2026 - (In)visibilidade dos trabalhadores de limpeza hospitalar: contribuições epistemológicas decolonial e interseccional (In)visibility of hospital cleaning workers: decolonial and intersectional epistemological contributions
Este estudo apresenta-se como um ensaio teórico-reflexivo, com objetivo de refletir as contribuições epistemológicas contemporâneas da decolonialidade e da interseccionalidade como assentamento teórico útil para avanços epistemológicos e analíticos acerca das desigualdades sociais e do modelo atual de trabalho enfrentado pelos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar. Ao valorizar as epistemologias que emergem da crítica à colonialidade e à intersecção entre raça, gênero e classe, defende-se o reconhecimento das experiências subjetivas desses trabalhadores como saberes legítimos e essenciais à formulação de políticas públicas mais inclusivas. A partir desse referencial, o estudo propõe três dimensões analíticas para futuras investigações e práticas pedagógicas: (1) a colonialidade do trabalho, que associa o trabalho de limpeza à desumanização de corpos racializados; (2) a interseccionalidade estrutural, como ferramenta para compreender a articulação simultânea de opressões; e (3) o epistemicídio laboral, enquanto crítica ao apagamento dos saberes produzidos pelos sujeitos invisibilizados.
Palavras-chave:
Epistemologias; Estudos Decoloniais; Interseccionalidade; Trabalho; Serviço de Limpeza Hospitalar.
Abstract:
This study presents itself as a theoretical-reflective essay, aiming to reflect on the contemporary epistemological contributions of decoloniality and intersectionality as a theoretical foundation useful for epistemological and analytical advances concerning social inequalities and the current labor model faced by hospital cleaning workers. By valuing epistemologies that emerge from critiques of coloniality and the intersection of race, gender, and class, the study advocates for the recognition of these workers' subjective experiences as legitimate forms of knowledge, essential for the formulation of more inclusive public policies. Based on this framework, the study proposes three analytical dimensions for future research and pedagogical practices: (1) the coloniality of labor, which links cleaning work to the dehumanization of racialized bodies; (2) structural intersectionality, as a tool to understand the simultaneous articulation of oppressions; and (3) labor epistemicide, as a critique of the silencing of knowledge produced by invisibilized subjects.
INTRODUÇÃO
Em resposta ao processo capitalista baseado nos meios de produção e acumulação de lucro, apresentam-se as proposições “trabalho” e “dinâmica social” como determinantes no binômio saúde-doença e na percepção do indivíduo como ser social frente às relações de produção materializadas e condições específicas de se trabalhar1. Esse cenário suscita inquietação ao evidenciar a existência de segmentos de grupos ocupacionais submetidos a formas de exploração inerentes à lógica de extração do capitalismo, ao mesmo tempo em que persiste a negação do reconhecimento da subjetividade dos indivíduos no campo laboral.
Nesse contexto, o trabalho deixa de ser uma atividade criativa e transformadora para se tornar uma função subalterna na produção de mercadorias. O ser humano, longe de ser visto como um ser autônomo e pleno, passa a ser considerado uma extensão da máquina, onde sua força física e mental é explorada ao máximo em nome do aumento da produtividade e do lucro2,3.
Diante do sistema de extração da mais-valia, propõe-se uma reflexão sobre quem são os trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar (TSLH), indivíduos pouco valorizados socialmente, que exercem atividades pesadas e rotineiras, sem formação específica e que, muitas vezes, passam despercebidos no ambiente laboral e na elaboração de políticas públicas de promoção da saúde e prevenção de agravos4,5. A escolha para análise desses trabalhadores, no contexto social e laboral, justifica-se por sua posição estruturalmente subordinada à divisão social do trabalho em saúde, fortemente atravessada por hierarquias de classe, gênero e raça. A centralidade funcional desse trabalho contrasta com o baixo reconhecimento simbólico, econômico e político conferido a esses sujeitos, cujas condições de trabalho e saberes permanecem marginalizados nos debates acadêmicos e nas políticas públicas de saúde.
Problematiza-se o contexto histórico que fundamenta a formulação dos conceitos relacionados a essa categoria trabalhista, situando sua origem na estrutura histórico-social do regime colonial brasileiro. Essa associação histórica, marcada pela exploração intensiva da força de trabalho e pela hierarquização racial, contribuiu para a construção de relações produtivas caracterizadas pela invisibilidade e pelo baixo reconhecimento social desses sujeitos. Assim, o objetivo deste artigo consiste em refletir as contribuições epistemológicas contemporâneas da decolonialidade e da interseccionalidade como assentamento teórico útil para avanços epistemológicos e analíticos acerca das desigualdades sociais e do modelo atual de trabalho enfrentado pelos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar.
Este artigo configura-se como um ensaio teórico-reflexivo, fundamentado em uma revisão narrativa da literatura especializada em produção epistemológica, entendida como o conjunto de referenciais teóricos, categorias analíticas e formulações críticas que problematizam os modos de produção do conhecimento científico, suas bases históricas, processos de legitimação e efeitos sociais6.
A seleção bibliográfica concentrou-se em autores(as) centrais do pensamento decolonial e interseccional nos contextos latino-americano e brasileiro, cujas contribuições permitem analisar relações de poder, desigualdades estruturais e processos de subalternização. Foram priorizados textos clássicos e contemporâneos desses campos, estudos qualitativos sobre as condições e a organização do trabalho da limpeza hospitalar, bem como análises do mundo do trabalho no Brasil com recorte racial e de gênero.
DESENVOLVIMENTO
Trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar: contexto histórico e social
O serviço de limpeza hospitalar apresenta-se como atividade essencial e indispensável, com finalidade de promover o bem-estar físico e psicológico do paciente e profissionais de toda unidade hospitalar, acrescido da função de favorecer para o controle e prevenção de infecções no âmbito hospitalar7.
Enquanto serviço essencial observa-se que a centralidade recai predominantemente sobre o produto do trabalho, em detrimento da visibilização dos sujeitos que o produz. Ademais, as desigualdades que conformam o mundo do trabalho não se explicam apenas por dinâmicas econômicas, mas também pela persistência de uma cultura de privilégios, historicamente constituída no contexto colonial e escravista, cujos efeitos se atualizam e se reproduzem nas estruturas sociais contemporâneas 8,9.
Sobre os sujeitos - trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar-, existe uma lacuna de pesquisas científicas sobre trabalho, subjetividade e ser social. Os poucos estudos existentes relatam condições precárias de trabalho, baixos salários acrescidos da instabilidade financeira e terceirização do serviço, baixo nível de instrução escolar, mão de obra em massa composta por mulheres devido à característica do serviço de limpeza estar voltado ao cuidado doméstico9-11.
A Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) apresenta o serviço de limpeza como “Coletor de resíduos sólidos de serviços de saúde” - CBO 5142-30, atividade descrita como coleta de resíduos sólidos de serviços de saúde e resíduos coletados nos serviços de limpeza e conservação de áreas públicas”12. Ressalta-se, contudo, que as atividades efetivamente desempenhadas pelos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar extrapolam amplamente essa definição formal, envolvendo ações essenciais à prevenção de infecções, à segurança dos ambientes assistenciais e à continuidade do cuidado em saúde. A redução desse grupo ocupacional à função de “coletor de resíduos” contribui para a invisibilização da complexidade e da centralidade do trabalho realizado, reforçando processos históricos de desvalorização associados às atividades de limpeza e cuidado.
Em busca de compreender o contexto histórico desse grupo ocupacional, há somente registro do surgimento da limpeza hospitalar enquanto atividade essencial para promover ambiente propício ao conforto e reduzir a contaminação observado por Florence Nightingale, em 1854. Por volta do século XIX há o registro do serviço de limpeza de forma sistematizada e o surgimento de funções especializadas de limpeza nos hospitais, mas ainda de forma rudimentar e com pouca regulamentação13.
Evidencia-se que a força de trabalho dos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar é composta majoritariamente por mulheres, cuja inserção ocupacional se vincula historicamente às atividades de cuidado tradicionalmente exercidas no âmbito doméstico e familiar14.
Com o propósito de estabelecer uma aproximação empírica com a realidade objetiva do mundo do trabalho brasileiro, realizou-se a análise de dados públicos disponibilizados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Referente ao perfil do trabalhador, no exercício de 2022, os dados revelam que essa categoria profissional é composta majoritariamente por mulheres, que representam 56,74% do total de trabalhadores15.
Na composição étnico-racial, 38,73% dos trabalhadores se autodeclararam brancos, 11% pretos e 47,60% pardos, configurando, portanto, um contingente de 58,6% de trabalhadores negros (soma de pretos e pardos). Acrescenta-se aos dados a escolaridade em que apenas 0,83% possuem ensino superior completo, 0,49% ensino superior incompleto, 51,43% ensino médio completo, 28,81% ensino médio incompleto e 17,91% ensino fundamental incompleto. No que tange à remuneração, a média salarial mensal registrada para essa ocupação no período analisado foi de R$ 1.890,13, o que corresponde a um valor médio de R$ 9,15 por hora trabalhada15.
Os dados analisados permitem delinear um perfil socioeconômico específico para esse grupo de trabalhadores: trata-se, em sua maioria, de mulheres negras, com baixa escolaridade e inseridas em uma ocupação de baixa remuneração, evidenciando os marcadores sociais que estruturam as desigualdades no mundo do trabalho formal. Evidencia-se, portanto, que a ocupação de coletor(a) de resíduos sólidos de serviços de saúde no Brasil é marcada por assimetrias de gênero, raça e classe.
Epistemologias contemporâneas: reflexões à luz da decolonialidade e interseccionalidade sobre contexto laboral dos trabalhadores de serviço de limpeza hospitalar e desigualdades enfrentadas
Historicamente, ao se consolidar uma sociedade capitalista marcada pela transição de uma economia escravocrata para uma estrutura baseada na exploração assalariada, volta-se para o arcabouço colonial como contribuição para a formação do serviço de limpeza hospitalar enquanto ocupação. Após a abolição, a população negra, sem acesso à educação ou a condições de trabalho dignas, continuou a ocupar as funções de limpeza e serviços domésticos16.
Sem acesso às alternativas de trabalho, muitas ex-escravizadas e suas descendentes permaneceram como empregadas domésticas, uma profissão predominantemente realizada por mulheres negras. A sociedade continuava a associar o trabalho doméstico à subordinação e à inferioridade, perpetuando uma hierarquia racial e social em que as mulheres negras estavam no fundo dessa escala17.
“A cidade encarou os pobres como elementos das “classes perigosas” (a expressão foi largamente utilizada em documentos oficiais do período) que maculavam, do ponto de vista da ocupação e reordenação do espaço urbano, o sonho da cidade moderna e cosmopolita. Ao mesmo tempo, era dessas “classes perigosas” que saíam os trabalhadores urbanos que sustentavam – ao realizar o trabalho braçal que as elites não cogitavam fazer – a viabilidade desse mesmo sonho: operários, empregadas domésticas, seguranças, porteiros, soldados, policiais, feirantes, jornaleiros, mecânicos, coveiros, floristas, caçadores de ratos. Pouca coisa mudou nesse embate disfarçado de cordialidade desde então” (Simas, 2019 p.13).
A atribuição social das tarefas domésticas e de cuidado às mulheres constitui um processo histórico fundamental para a compreensão das desigualdades de gênero no mundo do trabalho. Esse arranjo histórico produziu uma associação duradoura entre feminilidade, negritude e trabalho doméstico, contribuindo para a naturalização dessas atividades como extensões “naturais” dos papéis sociais femininos e, portanto, como trabalhos desprovidos de valor econômico, simbólico e intelectual. Ao longo do tempo, essa herança escravocrata foi ressignificada, mas não superada, manifestando-se na contemporaneidade com a persistente concentração de mulheres negras em ocupações voltadas ao cuidado manual.
Destarte, fazem-se necessárias considerações de epistemologias contemporâneas que referem-se a abordagens teóricas e críticas que buscam entender, investigar e questionar os processos de produção do conhecimento condicionado por contextos históricos, sociais, culturais e políticos18. Tanto a epistemologia decolonial quanto a interseccional, surgidas no final do século XX, apresentam-se como resposta a hierarquias e desigualdades firmadas, principalmente por características predominantes da raça, do gênero e da classe, provindas da complexidade das formas de interação da sociedade contemporânea18,19.
A decolonialidade é fortemente associada ao pensamento “pós-colonial” que visa a reparação histórica e a reflexão sobre as dissonâncias nas relações raciais, contribuindo tanto para a transformação interna do sujeito colonizado quanto a destruição das estruturas de poder que o oprimem20.
O pensamento decolonial emerge como uma proposta teórica e crítica do pensamento latino-americano, intensificado nas décadas de 1980 e 1990, de modo a confrontar continuidades da lógica colonial nas estruturas de poder, saber e ser que atravessam as sociedades contemporâneas18. Como pensadores importantes desse movimento, apresenta-se Aníbal Quijano que afirma que a estrutura de dominação colonial persiste na inferiorização de povos não europeus, legitimando hierarquias raciais e epistêmicas como parte do sistema-mundo moderno21.
Acrescenta-se Walter Mignolo, propondo uma ruptura dos padrões universais de conhecimento impostos pela tradição eurocêntrica e Nelson Maldonado Torres, demonstrando como os sujeitos racializados foram historicamente desumanizados, não apenas no plano político ou econômico, mas na própria constituição ontológica do ser22,23.
O pensamento pós-colonial, sob a ótica dos autores Aimé Césaire e Frantz Fanon, representa uma crítica radical às violências estruturais e simbólicas do colonialismo moderno, destacando suas implicações psíquicas, sociais e históricas nos povos colonizados. Na obra "Discurso sobre o colonialismo", Césaire revela que o colonialismo corrompe tanto o colonizador quanto o colonizado, ao mesmo tempo em que evidencia o racismo como elemento constitutivo da modernidade ocidental24. Já Fanon, em "Os condenados da terra", aprofunda essa crítica ao analisar os efeitos da colonização sobre a subjetividade dos sujeitos oprimidos, argumentando que a libertação do colonizado exige não apenas a independência política, mas uma ruptura ontológica e cultural com os paradigmas coloniais impostos25. Ambos os autores inauguram um pensamento comprometido com a descolonização total – política, cultural, psicológica e epistêmica –, servindo como pilares fundadores da crítica pós-colonial no século XX.
A decolonialidade, enquanto avanço epistêmico do pensamento anterior tem como referência o Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), que constitui uma perspectiva crítica que denuncia a permanência de estruturas coloniais nas esferas do poder, do saber e do ser, mesmo após o fim formal do colonialismo. Diferente do pós-colonialismo, a decolonialidade propõe uma ruptura epistêmica com os paradigmas eurocentrados da modernidade, ao reconhecer que a modernidade ocidental está intrinsecamente vinculada à colonialidade como seu lado constitutivo e oculto. A decolonialidade, portanto, propõe um “giro” (giro decolonial) que busca desobedecer à lógica colonial moderna e instaurar um projeto de pluriversalidade, no qual múltiplos saberes e cosmologias possam coexistir sem subordinação à racionalidade ocidental dominante22-25.
Para melhor compreensão das desigualdades e a sobreposição de diferentes marcadores sociais que atravessam o trabalho dos TSLH, a interseccionalidade constitui-se uma ferramenta analítica complementar à perspectiva decolonial ao permitir a análise integrada das relações de raça, gênero e classe que estruturam as experiências de subalternização desse grupo ocupacional. Proposto por Kimberlé Crenshaw, na década 1980, o conceito evidencia que tais categorias não operam de forma isolada, mas de forma articulada, produzindo posições sociais específicas marcadas pela desvalorização e pela invisibilização no campo do trabalho em saúde26.
A partir da experiência de mulheres negras, Crenshaw mostrou como o sistema jurídico e as políticas públicas frequentemente invisibilizam essas interações, reforçando desigualdades estruturais26. Patricia Hill Collins expandiu esse olhar ao desenvolver a noção de matriz de dominação, que compreende as opressões como interdependentes e sustentadas por estruturas sociais, políticas e epistêmicas27.
Aprofundando-se no pensamento crítico interseccional, em Black Feminist Thought (1990), Patricia Hill Collins desenvolve o conceito de matriz de dominação, por meio do qual sustenta que as categorias de raça, gênero, classe e sexualidade operam de maneira relacional e simultânea, não podendo ser compreendidas de forma isolada ou meramente aditiva27. Para a autora, essas categorias estruturam posições sociais historicamente localizadas em contextos de subordinação, assim, desenvolvem saberes situados e produzidos a partir de suas experiências cotidianas de opressão e resistência27.
Desse modo, a interseccionalidade sugere que em determinadas situações existe a intersecção entre diferentes identidades sociais e, quando isso ocorre, a discriminação assume características singulares. Em contextos específicos, diferentes categorias sociais e biológicas, como sexo, gênero, raça, sexualidade, religião e classe se intersectam e interagem entre si, gerando um sistema de opressão que revela múltiplas formas de discriminação e privilégio28,29. A práxis interseccional possibilita evidenciar os eixos da diferença, as desigualdades e hierarquizações sociais funcionando como ferramenta para o enfrentamento das injustiças sociais.
Como ferramenta crítica feminista negra, a interseccionalidade também se conecta ao pensamento decolonial, pois ambas as teorias rejeitam o universalismo eurocêntrico e afirmam a legitimidade de saberes situados. A decolonialidade, formulada pelo Grupo Modernidade/Colonialidade, denuncia a persistência da colonialidade do poder, do saber e do ser - estrutura que naturaliza as hierarquias raciais, epistêmicas e de gênero desde a colonização29.
Embora os autores apresentados representem uma corrente epistêmica de extrema importância da colonialidade e interseccionalidade, tenciona-os a partir do contexto brasileiro. Com primazia, apresenta-se a intelectual e ativista brasileira Lélia Gonzalez (1935-1994)30. Embora o pensamento decolonial e interseccional tenham se consolidado como campo teórico a partir das décadas de 1990 e 2000, é fundamental reconhecer a produção intelectual de autoras que, mesmo fora desse circuito acadêmico, formularam críticas convergentes às estruturas coloniais de saber e poder31.
A trajetória de Lélia Gonzalez constitui uma referência seminal na produção de um pensamento crítico enraizado nas experiências históricas da população negra e indígena no Brasil. Sua contribuição reside na articulação pioneira entre raça, gênero, classe e cultura em um contexto latino-americano, evidenciando como a experiência de mulheres negras no Brasil é marcada por uma profunda colonialidade do ser e do saber30. A autora desenvolve uma crítica contundente ao eurocentrismo epistemológico, denunciando os mecanismos que produzem a invisibilidade e a desumanização dos sujeitos negros e indígenas na história e na cultura brasileiras. Empiricamente, a população brasileira será condenada à subalternidade enquanto existir a ideia de Brasil como extensão da Europa31.
A autora propõe uma revalorização dos saberes populares, da oralidade, das expressões culturais negras como formas legítimas de conhecimento e resistência ao projeto civilizatório ocidental. Além disso, sua análise interseccional da opressão sofrida pelas mulheres negras também antecipa os debates atuais sobre a colonialidade do gênero.
Para Gonzalez, a mulher negra brasileira ocupa uma posição de duplo apagamento: silenciada tanto pelo feminismo branco quanto pelo movimento negro hegemonizado por homens. Essa abordagem complexa da subalternidade contribui de forma significativa para a ampliação do pensamento decolonial, especialmente no que tange à centralidade dos corpos racializados e generificados na crítica às estruturas coloniais31.
A partir das contribuições teóricas das epistemologias contemporâneas para a compreensão e reflexão das desigualdades do mundo atual de trabalho, reafirma-se que a colonialidade não se restringe ao período histórico da colonização, mas persiste nas relações de poder que continuam a estruturar as sociedades contemporâneas, incluindo as dinâmicas do mercado de trabalho, seja na manutenção de hierarquias raciais e de gênero que moldam as oportunidades e as experiências dos trabalhadores16.
A visão de uma pensadora crítica brasileira, que rompe com a tradição eurocêntrica, oferece uma lente fundamental para refletir sobre a situação dos trabalhadores de limpeza hospitalar. Essa perspectiva evidencia as estruturas de poder que os tornam invisíveis, desvalorizados e marginalizados na dinâmica social e econômica. Ao ressaltar a importância de reconhecer e valorizar outros saberes e formas de conhecimento, a decolonialidade contribui para a construção de uma sociedade mais justa, na qual todos os trabalhadores, independentemente de sua função ou classe social, possam ser reconhecidos e tratados com dignidade e respeito30,31.
A desvalorização do trabalho manual e de cuidados, predominantemente realizado por mulheres e pessoas negras é uma característica supostamente observada nos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar7 e se perpetua como uma das consequências diretas dessa estrutura colonial. Ao problematizar as noções de produtividade, eficiência e valor no trabalho, a decolonialidade oferece um caminho para repensar o que constitui trabalho digno e como as estruturas raciais e de classe impactam as condições de trabalho19.
À luz da interseccionalidade, há uma perspectiva analítica que amplia a compreensão das desigualdades no trabalho ao considerar a sobreposição de diferentes sistemas de opressão, como raça, gênero, classe social, sexualidade, idade e deficiência.
Para a análise da condição social dos trabalhadores do serviço de limpeza no Brasil, sobretudo mulheres negras e periféricas que compõem a maioria dessa categoria, requer uma abordagem crítica que articule raça, gênero, classe e cultura, tal como proposto por Lélia Gonzalez. Suas contribuições oferecem um aporte teórico fundamental para compreender as dinâmicas de exclusão e resistência desses sujeitos a partir da perspectiva decolonial, que visa desnaturalizar a colonialidade do poder e do saber ainda presentes na estrutura social brasileira31,32.
A identidade negra não é uma característica essencialista, mas um processo construído historicamente a partir das relações de opressão e resistência. Para os trabalhadores do serviço de limpeza, muitos dos quais enfrentam condições precárias de trabalho e invisibilidade social, essa concepção possibilita a valorização de uma identidade racial consciente e ativa, que transcende a simples atribuição social, fomentando o empoderamento coletivo e a luta por reconhecimento19. Tal dinâmica reflete-se diretamente na realidade desses trabalhadores, cujas práticas culturais, formas de expressão e saberes cotidianos são frequentemente desvalorizados ou ignorados, perpetuando a marginalização epistemológica própria do colonialismo interno.
A ênfase pautada nas epistemologias contemporâneas representa um convite para que as experiências subjetivas e emocionais desses trabalhadores sejam reconhecidas como fontes legítimas de conhecimento, essenciais para a formulação de políticas públicas mais inclusivas e sensíveis às suas realidades. Essa valorização contribui para a construção de uma prática social e política que respeite a dignidade e a agência desses sujeitos historicamente silenciados.
Ambas as teorias desvelam as múltiplas dimensões de funções e subordinação que existem nas relações de trabalho e nas estruturas sociais, os quais representam impactos significativos na vida dos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar. Ao integrar essas teorias contemporâneas, é possível compreender as múltiplas camadas de opressão e invisibilidade que esses trabalhadores enfrentam e trabalham para construir uma estrutura mais justa e equitativa dentro do complexo dito “sociedade”.
A pandemia de SARS-CoV-2 constitui um exemplo emblemático, no qual os trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar enfrentaram desafios adicionais, compartilhando o medo e a exposição a uma doença desconhecida, de elevada transmissibilidade e gravidade, em condições semelhantes às de outros trabalhadores que atuavam nos serviços de saúde¹?. Embora as normativas vigentes à época previssem a priorização de todos os trabalhadores hospitalares, seja para a vacinação contra a Covid-19 e medidas preventivas quanto ao novo, evidências produzidas no contexto pandêmico indicaram que categorias classificadas como apoio operacional, vivenciaram processos de invisibilização institucional11,33.
O caso em tela abre valiosas possibilidades analíticas. Como já apresentado, na concepção capitalista do trabalho, o ser humano passou a ser considerado uma extensão da máquina. Para o TSLH, também já foi apresentada uma importante característica: o fato de ter sua ocupação majoritariamente de mulheres negras. Nesta direção, advoga-se que as epistemologias decoloniais e interseccionais contribuem ao apontar como a história da racialização e feminização dessas atividades, associadas à precarização laboral, conformam posições sociais marcadas pela desvalorização simbólica e pela exclusão dos espaços de reconhecimento e produção de saber no campo da saúde.
Salienta-se que ao buscar compreender as relações de poder, a presença da branquitude, como configuração nas relações raciais brasileiras nos dias de hoje, diz respeito ao processo histórico de dominação colonial de construção eurocêntrica, em que o status ocupado pelas pessoas brancas abarca a detenção do poder e manutenção do quadro das desigualdades34.
Resgate-se o pensamento do filósofo camaronês Achilles Mbembe, que compreende o racismo como tecnologia política e cultural da morte e do poder, útil ao neoliberalismo para a manutenção de preconceitos e hierarquias. Portanto, o capitalismo necessita do racismo para organizar o mundo, classificando e hierarquizando corpos com base na racialização. Esta engrenagem produz o arcabouço necessário para a exploração, legitimando práticas de dominação, controle e necropolítica35.
Se considerarmos que abordar o tema do TSLH é, invariavelmente, interseccionar o eixo de poder raça com o de gênero, assumimos que a análise precisa ser realizada, em especial, considerando o corpo negro feminino. Neste ponto, a autora brasileira Lélia Gonzalez contribui com seus ensinamentos ao analisar a posição da mulher negra no mercado de trabalho brasileiro, afirmando que esta é resultado direto da herança escravocrata e da persistência do racismo estrutural na contemporaneidade32.
Para a autora, a figura da “doméstica”, por exemplo, é a continuidade moderna da “mucama”, revelando que o corpo da mulher negra permanece utilitarizado e desumanizado, sendo destinado ao trabalho servil, invisível e com baixa remuneração. Essa subalternização, por sua vez, associa-se a uma exploração econômica - interseccionalizada, portanto, à classe - que reduz a mulher negra a um papel social previamente estabelecido e desqualificado. Culturalmente, esta intersecção naturaliza a presença destes corpos em ocupações de baixa remuneração e status, excluindo-as das esferas de decisão e representação32.
Destaca-se Maria Aparecida Bento, cuja episteme contribui à compreensão social das mulheres negras no mundo do trabalho, ao incorporar a categoria da branquitude em suas análises. A autora argumenta que o lugar social do sujeito branco no Brasil é historicamente construído e sustentado por redes de relações conscientes e inconscientes, que o estabelecem como norma e referência universal, naturalizando privilégios e reproduzindo desigualdades raciais nos espaços de poder.³?
Essa leitura dialoga com o pensamento de Achille Mbembe ao evidenciar que o racismo à brasileira não se expressa apenas pela exclusão direta da população negra, mas também pela autoproteção das elites brancas, que se organizam para preservar seus lugares de privilégio em instituições, empresas e instâncias de decisão, contribuindo para a hierarquização das ocupações e a concentração de mulheres negras em trabalhos socialmente desvalorizados, como o serviço de limpeza hospitalar35.
A esta altura, como base na cultura do privilégio, a base teórica interseccional oferta para compreensão do mundo de trabalho do serviço de limpeza hospitalar, a decolonialidade nos proporciona refletir sobre acesso desigual a benefícios e direitos de certos grupos fundado no colonialismo pelo trabalho subalternizado de pessoas negras e com forte exploração colonial. A interseccionalidade nos permite compreensão sobre os direitos trabalhistas como licença médica, seguro de saúde, acesso à aposentadoria ou férias. Muitas vezes, por fonte terceirizada de mão de obra, esses trabalhadores abstém-se desses benefícios por alta rotatividade por parte das empresas e pela insegurança de possuir um vínculo de trabalho para garantir o sustento familiar.
Portanto, ao integrar a interseccionalidade e a decolonialidade na análise do serviço de limpeza hospitalar, sob a óptica do trabalhador, espera-se a construção de caminhos possíveis para reconhecer o trabalho como essencial, não apenas para a manutenção da saúde, mas também como uma função que merece respeito e valorização. Envolve melhorar as condições de trabalho, valorização e respeito das diversidades compostas pelos trabalhadores, educação e treinamento inclusivo, enfrentamento de estigmas e preconceitos, promoção de saúde e bem-estar para os trabalhadores.
A partir da análise realizada, com base nos marcos teóricos decoloniais e interseccionais acerca dos TSLH, evidencia-se a pertinência de três dimensões analíticas fundamentais, a saber:
1 – Colonialidade do trabalho, enquanto persistência de hierarquias laborais que destinam corpos racializados a funções socialmente desvalorizadas, reproduzindo lógicas coloniais de subalternização;
2 – Interseccionalidade estrutural, compreendida como a sobreposição da opressão de raça, gênero e classe que posiciona mulheres negras como força de trabalho almejada para serviços de limpeza, naturalizando este condicionamento, e;
3 – Epistemicídio laboral, entendido como o apagamento dos saberes e experiências dos TSLH, reduzindo-os a mão de obra desqualificada e negando a complexidade e importância de seus conhecimentos e práticas.
Como limitação de estudo, apresenta-se a escassez de dados estatísticos específicos sobre a TSLH e a lacuna de discussões acadêmicas que aprofundem as análises das desigualdades no mundo de trabalho aqui propostas.
Como contribuição para a construção do conhecimento na área da Enfermagem, vos escreve uma enfermeira, mulher, negra, provinda de classe média baixa, que abarca na luta para alcançar espaço de visibilidade dentro da realidade de trabalho que, ao mesmo tempo, percebe que em sua trajetória profissional, como responsável por prevenção de doenças, educação em saúde, organização de serviços, gestão de riscos, mobilização comunitária e construção acadêmica, existem barreiras e conceitos a serem construídos sobre determinados assuntos (sujeitos e subjetividade).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Existe um protagonista no serviço de limpeza hospitalar: o trabalhador que todos os dias sai de casa para garantir a saúde e o asseio nos mais diversos ambientes públicos e privados, um trabalhador sem o qual a sociedade não funciona, não vive, mas que, curiosamente, nem sempre é adequadamente visto ou valorizado, tornando-se invisível mediante as experiências de opressão de raça, gênero ou classe e de dominação de poder.
É incontornável assumir que a predominância de mulheres negras no serviço de limpeza hospitalar está situada em um contexto histórico de marginalização, onde o racismo estrutural, o sexismo e a exploração econômica convergem para a manutenção de uma lógica de invisibilização e desigualdades. A interseccionalidade, e a perspectiva decolonial crítica revelam que o não reconhecimento dessas trabalhadoras como sujeitos plenos de direitos não é uma falha ocasional, mas uma escolha política sustentada por um sistema que hierarquiza vidas a partir dos marcadores sociais da diferença.
Nesta direção, a partir da articulação entre os aportes da decolonialidade e da interseccionalidade, a presente reflexão teórica evidencia cinco contribuições centrais para a compreensão da condição dos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar:
(1) O reconhecimento da invisibilidade como produto da colonialidade do poder, do saber, do ser e do trabalho;
(2) A identificação da subalternização interseccionalizada, marcada pelas articulações entre gênero, raça e classe;
(3) A necessidade de valorização das experiências vividas como formas lícitas de conhecimento para a formulação de políticas de saúde do trabalhador mais justas e equitativas;
(4) A urgência de políticas públicas que considerem as especificidades interseccionais desta categoria;
(5) A importância de reposicionar a enfermagem como campo comprometido com a justiça social e epistêmica.
Para a enfermagem, este estudo representa um chamado ao compromisso ético-político com categorias profissionais subalternizadas que compartilham o espaço hospitalar, bem como características interseccionais (em especial as de gênero, raça e classe) contribuindo para uma prática profissional mais justa e inclusiva.
No campo da Saúde Coletiva, este estudo contribui ao ampliar a análise do trabalho em saúde para além das categorias tradicionalmente reconhecidas como profissionais de cuidado, incorporando trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar como sujeitos centrais na compreensão dos processos laborais e de produção de riscos no ambiente hospitalar. Ao evidenciar a distância entre a centralidade funcional desse trabalho e seu reduzido reconhecimento institucional, a abordagem proposta tensiona modelos analíticos hegemônicos e oferece subsídios para a formulação de políticas e práticas que considerem a heterogeneidade da força de trabalho em saúde.
Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
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(In)visibility of hospital cleaning workers: decolonial and intersectional epistemological contributions
Resumo (abstract):
This study presents itself as a theoretical-reflective essay, aiming to reflect on the contemporary epistemological contributions of decoloniality and intersectionality as a theoretical foundation useful for epistemological and analytical advances concerning social inequalities and the current labor model faced by hospital cleaning workers. By valuing epistemologies that emerge from critiques of coloniality and the intersection of race, gender, and class, the study advocates for the recognition of these workers' subjective experiences as legitimate forms of knowledge, essential for the formulation of more inclusive public policies. Based on this framework, the study proposes three analytical dimensions for future research and pedagogical practices: (1) the coloniality of labor, which links cleaning work to the dehumanization of racialized bodies; (2) structural intersectionality, as a tool to understand the simultaneous articulation of oppressions; and (3) labor epistemicide, as a critique of the silencing of knowledge produced by invisibilized subjects.
(In)visibilidade dos trabalhadores de limpeza hospitalar: contribuições epistemológicas decolonial e interseccional
(In)visibility of hospital cleaning staff: epistemological contributions based on decoloniality and intersectionality
(In)visibilidad de las trabajadoras de limpieza hospitalaria: aportes epistemológicos decoloniales e interseccionales
Larissia Admá de Souza Pereira
https://orcid.org/0000-0002-4242-2354
Tiago Braga do Espírito Santo
https://orcid.org/0000-0002-4313-6894
Magda Guimarães de Araujo Faria
https://orcid.org/0000-0001-9928-6392
Cristiane Helena Gallasch
https://orcid.org/0000-0002-0823-0818
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
RESUMO
Este estudo apresenta-se como um ensaio teórico-reflexivo, com objetivo de refletir as contribuições epistemológicas contemporâneas da decolonialidade e da interseccionalidade como assentamento teórico útil para avanços epistemológicos e analíticos acerca das desigualdades sociais e do modelo atual de trabalho enfrentado pelos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar. Ao valorizar as epistemologias que emergem da crítica à colonialidade e à intersecção entre raça, gênero e classe, defende-se o reconhecimento das experiências subjetivas desses trabalhadores como saberes legítimos e essenciais à formulação de políticas públicas mais inclusivas. A partir desse referencial, o estudo propõe três dimensões analíticas para futuras investigações e práticas pedagógicas: (1) a colonialidade do trabalho, que associa o trabalho de limpeza à desumanização de corpos racializados; (2) a interseccionalidade estrutural, como ferramenta para compreender a articulação simultânea de opressões; e (3) o epistemicídio laboral, enquanto crítica ao apagamento dos saberes produzidos pelos sujeitos invisibilizados.
Palavras-chave: Epistemologias; Estudos Decoloniais; Interseccionalidade; Trabalho; Serviço de Limpeza Hospitalar.
ABSTRACT
This reflective, theoretical essay reflects on the contemporary epistemological potential of decoloniality and intersectionality for the development of epistemological conceptions and analyses about the social inequalities and the current labor model faced by hospital cleaning staff. Drawing on epistemologies that have emerged from critiques of coloniality and the intersections of race, gender, and class, the study advocates for the recognition of these workers’ subjective experiences as legitimate forms of knowledge, essential for the formulation of more inclusive public policies. Based on this framework, the study proposes three analytical dimensions for future research and pedagogical practices: (1) the coloniality of labor, which links cleaning work to the dehumanization of racialized bodies; (2) structural intersectionality, as a tool for understanding the simultaneous articulation of oppressions; and (3) labor epistemicide, as a critique of the silencing of knowledge produced by invisibilized subjects.
Keywords: Epistemologies; Decolonial Studies; Intersectionality; Work; Hospital Cleaning Services.
RESUMEN
Este estudio se presenta como un ensayo teórico-reflexivo que tiene como objetivo reflexionar las contribuciones epistemológicas contemporáneas de la decolonialidad y la interseccionalidad como fundamento teórico útil para los avances epistemológicos y analíticos en torno a las desigualdades sociales y al modelo laboral actual enfrentado por los trabajadores del servicio de limpieza hospitalaria. Al valorar las epistemologías que emergen de la crítica a la colonialidad y a la intersección entre raza, género y clase, se defiende el reconocimiento de las experiencias subjetivas de estos trabajadores como saberes legítimos y esenciales para la formulación de políticas públicas más inclusivas. Desde este marco, el estudio propone tres dimensiones analíticas para futuras investigaciones y prácticas pedagógicas: (1) la colonialidad del trabajo, que asocia el trabajo de limpieza con la deshumanización de cuerpos racializados; (2) la interseccionalidad estructural, como herramienta para comprender la articulación simultánea de opresiones; y (3) el epistemicidio laboral, como crítica al silenciamiento de los saberes producidos por sujetos invisibilizados.
Palabras clave: Epistemologías; Estudios Decoloniales; Interseccionalidad; Trabajo; Servicio de Limpieza Hospitalaria.
INTRODUCTION
In capitalist processes, based on means of production and the accumulation of profits, the concepts of “labor” and “social dynamics” become determinant in health and disease processes and the perception of individuals as social beings in specific working conditions and materialized production relations1. It is a scenario that raises concerns, as it reveals the existence of occupation groups that are particularly susceptible to the forms of exploitation inherent to the capitalist rationale of exploitation, exacerbated by a refusal to recognize the subjectivity of individuals in the sphere of work.
In this context, as labor is subordinated within the goods production process, it loses its creative and transformative potential. Similarly, the human being is seen no longer as an autonomous entity in their own right, but as an extension of the machine, with their physical strength and mental capacity being exploited to the fullest in the name of increased productivity and profit2,3.
Situated in a system that envisages the appropriation of surplus value, this study offers a reflection on the identity of hospital cleaning staff , known in Brazil as hospital cleaning service workers: individuals who are socially undervalued, who perform physically demanding, routine tasks without specific training, and who often go unnoticed both in the workplace and when public policymakers are discussing legislation to ensure health, hygiene, and disease prevention4,5. The decision to analyze these workers in this particular social and labor setting is justified by their structurally subordinate position within the social division of labor in healthcare, which is deeply intersected by class-, gender-, and race-related hierarchies. The fundamental importance of the work they undertake stands in stark contrast with the limited symbolic, economic, and political recognition of these individuals, whose working conditions and knowledge remain marginalized in academic debates and public health policies.
This article examines the historical context that gave rise to the concepts related to this occupational category, tracing its origins back to the historical and social structure of Brazil under colonial rule. This historical legacy, marked by the intensive exploitation of the workforce and the imposition of racial hierarchies, was instrumental in shaping production relations in which certain individuals became socially invisible and underappreciated. Thus, the objective of this article is to reflect on how to employ the contemporary contributions of decoloniality and intersectionality in a theoretical framework to develop new epistemological and analytical approaches to the social inequalities and labor model faced by hospital cleaning staff in Brazil.
This article takes the form of a reflective, theoretical essay that develops a narrative review of the specialized literature in contemporary epistemology—understood here as the set of theoretical frameworks, analytical categories, and critical formulations that problematize the ways by which scientific knowledge is produced, their historical roots, their legitimation processes, and their social effects6.
The literature review focuses on some key figures in the development of decolonial and intersectional thinking in Brazil and Latin America, whose contributions enable the analysis of power relations, structural inequalities, and processes of subalternation. Priority is given to classic and contemporary texts, qualitative studies on the conditions and organization of hospital cleaning services, and analyses of the labor context Brazil, with a focus on race and gender.
DEVELOPMENT
Hospital cleaning staff: historical and social context
Hospital cleaning services are indispensable for ensuring the physical and psychological well-being of patients and healthcare workers in every area of a hospital, while also being important for controlling and preventing infections in the hospital setting7.
As cleaning is an essential service, the focus tends to fall predominantly on the outcome of the work rather than the individuals who undertake it. Furthermore, the inequalities that shape the world of work cannot be explained solely by economic dynamics, as they also reveal the continued prevalence of a culture of privilege, whose historical roots lie in Brazil’s colonial, slavocratic past and which is perpetuated and reproduced in contemporary social structures 8,9.
As for the individuals themselves—hospital cleaning staff—there is very little scientific research on their work, subjectivity, and lived social experience. The few studies that exist report on their precarious working conditions, low wages compounded by financial instability and the outsourcing of the work, low levels of formal education, and the existence of a mass workforce composed primarily of women, since cleaning services are associated primarily with the domestic arena9–11.
The Brazilian Classification of Occupations classifies a cleaner as a “collector of solid waste from health services” (CBO 5142-30), with the activity being described as the “collection of solid waste from health services and waste collected during cleaning and maintenance of public areas”12. Yet the activities hospital cleaning staff actually perform go far beyond this formal definition, involving tasks essential to infection prevention, the safety of healthcare settings, and the continuity of care. Reducing such workers to mere “waste collectors” only makes the complexity and centrality of their work more invisible, reproducing the historical undervaluation associated with cleaning and care activities.
A search for the historical antecedents of this group of workers reveals Florence Nightingale’s observations in 1854 on the importance of hospital cleaning services to ensure comfort for patients and to reduce contamination. The nineteenth century was indeed when the first more systematic records were produced about cleaning services and when specialized cleaning roles were first defined in hospitals, though these were still rudimentary and subject to limited regulation13.
It is evident that the hospital cleaning workforce is overwhelmingly female. The tendency for the work to be done by women has its roots in the traditional role of women in caregiving and domestic service in the family and home14.
To build up an empirical understanding of the objective reality of the Brazilian labor market, we analyzed data published in 2022 by the Ministry of Labor and Employment. According to this source, this occupational category consisted primarily of women, who represent 56.74% of all the workers classified in this category15.
In terms of the workers’ self-declared race/ethnicity, based on skin color categories, 38.73% of these workers self-identified as white, 11% as black, and 47.60% as “brown” (mulatto); in other words, 58.6% of the workers were Black (summing “black” and “brown”). In terms of educational attainment, only 0.83% had a higher education degree, 0.49% had started but not completed a higher education course, 51.43% had graduated from high school, 28.81% had not completed their high school, and 17.91% had not completed their lower secondary education (fewer than nine years in formal education). The workers’ average monthly wage at the time was R$ 1,890.13 (approximately US$ 366.00) , which corresponds to an average of R$ 9.15 (US$ 1.77) per hour worked15.
The data analysis reveals a clear overall socioeconomic profile for this group of workers: they are, for the most part, Black women with low levels of education who are employed in a low-income occupation, which confirms and reinforces the social markers that underpin the kinds of structural inequalities seen in Brazil’s formal labor market. Clearly, collectors of solid waste from healthcare services in Brazil constitute a labor category marked by gender-based, ethnic, and economic asymmetries.
Contemporary epistemologies: reflections on the labor context of hospital cleaning staff and the inequalities they face, in light of decolonization and intersectionality
Historically, in a capitalist society marked by the transition from a slavocratic economy to one based on the exploitation of salaried workers, the colonial framework provided the cornerstones for the emergence of hospital cleaning as an occupation. After the abolition of slavery, the black population—unable to gain an education or decent working conditions—had little option but to carry on working as cleaners and in domestic service16.
Denied access to other employment opportunities, many formerly enslaved people and their descendants continued to work in the home, perpetuating the tendency for such tasks to be undertaken by Black women. Brazilian society continued to associate domestic work with subordination and inferiority, reproducing a racial and social hierarchy whose lowest echelons were occupied by this social group17.
The city viewed the poor as members of the “dangerous classes” (an expression widely used in official documents from the period) who, from the perspective of the occupation and reorganization of urban space, tarnished the dream of a modern and cosmopolitan city. At the same time, it was from these ‘dangerous classes’ that the urban workers emerged who sustained—by performing the manual labor the elites would not deign to consider—the viability of that very dream: factory workers, domestic workers, security guards, doormen, soldiers, police officers, market vendors, newspaper sellers, mechanics, gravediggers, florists, and rat catchers. Little has changed in this conflict disguised as cordiality since then” (Simas, 2019, p. 13).
The social assignment of domestic and care work to women is a historical process that is key to understanding gender inequalities in the Brazilian labor context. The historical arrangement forged a lasting association between femalehood, Blackness, and domestic work, creating the impression that these activities are “natural” extensions of women’s social roles and therefore devoid of economic, symbolic, and intellectual value. Over time, this legacy of slavery was reframed, but not superseded: it continues to be manifested in the fact that black women still undertake the majority of the manual labor involving care.
This makes it all the more pressing for us to seek out theoretical and critical approaches based on contemporary epistemologies that endeavor to question, investigate, and comprehend knowledge production processes shaped by specific historical, social, cultural, and political contexts18. Both decolonial and intersectional epistemologies, which emerged in the late twentieth century, provide a response to the entrenched hierarchies and inequalities—based primarily on race-, gender-, and class-related characteristics—that arise in the complex forms of interaction in contemporary society18,19.
Decolonization is strongly associated with “postcolonial” thinking, which aims at making historical reparations and reflecting on the discords in race relations, contributing both to the internal transformation of the colonized subject and to the dismantling of the power structures that oppress them20.
Decolonial thinking emerged as a theoretical and critical proposal in Latin America with greater strength in the 1980s and 1990s for its power to deconstruct the perpetuation of the colonial mindset in the structures of power, knowledge, and being across contemporary societies18. The key thinkers of this movement include Aníbal Quijano, who asserts that the structure of colonial domination persists in the marginalization of non-European peoples, legitimizing racial and epistemic hierarchies as part of the modern world-system21.
Other key thinkers are Walter Mignolo, who proposes breaking away from universal patterns of knowledge imposed by the Eurocentric tradition, and Nelson Maldonado Torres, who demonstrates how racialized subjects have historically been dehumanized, not only politically and economically, but in the very ontological constitution of their being22,23.
Postcolonial thinking, as reworked by Aimé Césaire and Frantz Fanon, represents a radical critique of the structural and symbolic violence of modern colonialism, highlighting its psychological, social, and historical effects on colonized peoples. In Discourse on Colonialism, Césaire reveals how colonialism corrupts both the colonizer and the colonized, while simultaneously highlighting how racism underpins modern Western societies24. Meanwhile, in The Wretched of the Earth, Fanon takes this critique further by analyzing the effects of colonization on the subjectivity of oppressed individuals, arguing that for colonized peoples to be truly liberated it is not enough just to gain political independence: they must break away, ontologically and culturally, from the imposed colonial paradigms25. Both authors forge a new line of thinking with an uncompromising commitment to total decolonization on all levels—political, cultural, psychological, and epistemic—as the bedrock of postcolonial criticism in the twentieth century.
Decolonization, as an epistemological advancement of earlier conceptions, draws on the Modernity/Coloniality (M/C) Group, which offers a critical perspective that denounces the perpetuation of colonial structures in the spheres of power, knowledge, and being, even after the formal end of colonialism. Unlike in postcolonialism, decolonial thinkers call for an epistemic break from Eurocentric paradigms of modernity, arguing that Western modernity is inherently and constitutively colonial, even if this is not immediately apparent. With the decolonial “turn”, decoloniality defies the modern colonial logic and seeks to put pluriversality in its place, where multiple forms of knowledge and cosmologies can coexist without being subordinated to dominant Western rationality22–25.
To better understand the inequalities and overlaps of different social markers that interact in the sphere hospital cleaning work, intersectionality serves as a complementary analytical tool to the decolonial perspective by enabling the integrated analysis of the race, gender, and class relations that structure the experiences of subjugation inherent to this occupation. Proposed by Kimberlé Crenshaw in the 1980s, the concept highlights that these categories do not operate in isolation, but are interconnected, producing specific social positions marked by undervaluation and invisibility in the field of healthcare26.
Drawing on the experiences of Black women, Crenshaw demonstrated how the legal system and public policies often render these interactions invisible, thereby reinforcing structural inequalities26. Patricia Hill Collins expanded this perspective by developing the notion of the matrix of domination, which shows the interdependencies between different forms of oppression and how they are sustained by social, political, and epistemic structures27.
Developing an even deeper critical analysis of intersectionality, Patricia Hill Collins’s Black Feminist Thought (1990) demonstrates that the categories of race, gender, class, and sexuality cannot be understood in isolation or as “add-ons” because they all operate simultaneously and interrelatedly27. Collins understands that these categories underpin social positions that are historically situated within contexts of subordination; thus, they give rise to situated knowledge produced in everyday experiences of oppression and resistance27.
Intersectionality therefore suggests that in certain situations different social identities intersect, and when this happens, it gives rise to unique forms of discrimination. In specific contexts, different social and biological categories, like sex, gender, race, sexual orientation, religion, and socioeconomic group, intersect and interact, spawning a system of oppression that reveals multiple forms of discrimination and privilege28,29. Intersectional praxis can be employed to reveal the lines along which differences, inequalities, and social hierarchies are drawn, serving as a tool for fighting all expressions of social injustice.
As a critical Black feminist tool, intersectionality is also connected to decolonial thought, as both theories reject Eurocentric universalism and affirm the legitimacy of situated knowledge. Decoloniality, as formulated by the Modernity/Coloniality Group, denounces the perpetuation of the coloniality of power, knowledge, and being—a structure that has normalized racial, epistemic, and gender-based hierarchies since colonization29.
Although the authors discussed here represent an extremely important epistemological current in coloniality and intersectionality, it gains new contours when applied to the Brazilian context. Foremost among the Brazilian authors in this field is the intellectual and activist Lélia Gonzalez (1935–1994)30. We present her and others here because although decolonial and intersectional thought took root in academia in the 1990s and 2000s, the intellectual work of female authors, even outside this academic circuit, who formulated critiques converging on colonial structures of knowledge and power must be acknowledged31.
Lélia Gonzalez is a seminal reference for the development of critical thought based on the historical experiences of Black and Indigenous populations in Brazil. Her unprecedented contribution consisted in the way she interwove race, gender, class, and culture within a Latin American context, highlighting how Black women’s ways of knowing and being in Brazil are deeply marked by coloniality30. Gonzalez develops a biting critique of epistemological Eurocentrism, denouncing the mechanisms by which Black and Indigenous subjects have been dehumanized and rendered invisible in Brazilian history and culture. Empirically, the Brazilian population will be condemned to subalternity as long as the idea of Brazil continues to be seen as an extension of Europe31.
Gonzalez calls for the legitimacy of folk knowledge, oral traditions, and Black cultural expressions to be acknowledged and for active resistance to the Western civilizing project. Furthermore, her intersectional analysis of the oppression suffered by Black women also foreshadows current debates on the coloniality of gender.
For Gonzalez, the Black Brazilian women is doubly erased, both by white feminism and by the Black movement, which is dominated by men. This complex approach to subalternity significantly expands decolonial thought, especially by making racialized and gendered bodies central to the critique of colonial structures31.
Drawing on the theoretical contributions of contemporary epistemologies to understand and reflect on inequalities in the world of work today, it becomes clear that coloniality is not something that was lost in the shadows of history; it still persists in the power relations that structure contemporary societies, including the dynamics of the labor market, reinforcing race- and gender-related hierarchies and shaping the opportunities and experiences effectively available to workers16.
The perspective of a female Brazilian critical thinker who breaks with Eurocentric tradition offers a fundamental lens through which to reflect on the situation of hospital cleaning staff. It is a perspective that sets in relief the power structures that make them invisible, undervalued, and marginalized within social and economic dynamics. By emphasizing the importance of recognizing and valuing other forms of knowledge, decoloniality can help build a more just society where all workers, irrespective of their role or social class, are recognized and treated with dignity and respect30,31.
The undervaluing of manual labor and care work—a task performed overwhelmingly by Black people and women—as observed among hospital cleaning staff7, is perpetuated as a direct consequence of this colonial structure. By challenging the notions of productivity, efficiency, and value in the workplace, decoloniality offers a way forward for rethinking what constitutes decent work and how racial and class structures impact working conditions19. Employed together with intersectionality, decoloniality provides an analytical perspective that broadens our understanding of inequalities in the workplace by considering the overlap of different systems of oppression, such as race, gender, social class, sexuality, age, and disability.
Analyzing the social conditions of people providing cleaning services in Brazil—particularly Black and peripheral women, who are the majority of this workforce—requires a critical approach that takes combined account of race, gender, class, and culture, as proposed by Lélia Gonzalez. Her contributions offer a fundamental theoretical foundation for understanding the dynamics of exclusion and resistance among these individuals from a decolonial perspective, which aims to denaturalize the coloniality of power and knowledge still present in Brazil’s social structures31,32.
Black identity is not innate, but a process constructed historically through relations of oppression and resistance. For cleaning staff, many of whom face precarious working conditions and social invisibility, this conception enables the cultivation of an active, conscious racial identity that transcends mere social attributions, fostering collective empowerment and the struggle for recognition19. This dynamic is reflected directly in the reality of these workers, whose cultural practices, forms of expression, and everyday knowledge are often undervalued or simply overlooked, perpetuating the epistemological marginalization characteristic of internalized colonialism.
Contemporary epistemologies provide a change of emphasis that invites the recognition of the subjective and emotional experiences of these workers as legitimate sources of knowledge and essential for formulating public policies that are more inclusive and sensitive to their realities. This new value then helps forge social and political practices that respect the dignity and agency of these historically silenced individuals.
Both theories reveal the multiple dimensions of the roles and subordination embedded in labor relations and social structures, which have such a strong impact on the lives of hospital cleaning staff. They can be used to shed light on the multiple layers of oppression and invisibility that these workers face and to work towards a more just and equitable structure within the complex known as “society.”
The SARS-CoV-2 pandemic serves as a prime example for our analysis. During this public health crisis, hospital cleaning staff, like other health workers, faced the fear of and increased exposure to a deadly, unknown, highly transmissible disease¹⁰. Although the regulations put into effect required hospital workers to be considered top priority—whether for COVID-19 vaccination or protective measures—evidence gathered during the pandemic indicated that occupations classified as “operational support” were rendered institutionally invisible11,33.
This case opens up a range of valuable analytical possibilities. As previously noted, in the capitalist conception of labor, the human being is regarded as an extension of the machine. Likewise, we noted that hospital cleaning services are primarily performed by Black women. We would argue that the epistemological contributions of decoloniality and intersectionality help reveal how the history of the racialization and feminization of these activities, linked to precarious working conditions, has shaped social positions marked by symbolic undervaluation and the exclusion from spaces of recognition and knowledge production in the field of health.
In the context of analyzing power relations, the presence of whiteness in shaping race relations in Brazil today relates to a Eurocentrism rooted in historical colonialism, putting the reins of power in the hands of those considered white and enabling the perpetuation of existing inequalities34.
At this point, we bring into play the Cameroonian philosopher Achilles Mbembe, who understands racism as a political and cultural technology of death and power wielded by neoliberalism in order to maintain prejudices and hierarchies. Capitalism therefore actually depends on racism to organize the world, classifying and hierarchizing bodies based on racialization. This mechanism produces the necessary framework for exploitation, legitimizing practices of domination, control, and necropolitics35.
If we accept that the intersections of race and gender are part and parcel of addressing the issue of hospital cleaning staff, we must also acknowledge that any analysis must also take account of the Black female body. The Brazilian thinker Lélia Gonzalez provides valuable insights in this respect: her analysis of the position of Black women in the Brazilian labor market reveals that it is a direct legacy of Brazil’s slavocratic past and a stark testament to the structural racism that is still perpetuated in contemporary society32.
For Gonzalez, the “domestic worker” is a modern iteration of the “housemaid”: the body of the Black woman continues to be dehumanized, used for utilitarian ends, destined for invisible, servile, low-paid labor. This subjugation is in turn associated with economic exploitation—and thus intersected with class—in which Black women are relegated to a pre-established and undervalued social role. Culturally, this intersection normalizes the presence of these bodies in low-paying, low-status occupations, excluding them from spheres of decision-making and representation32.
Another author of note is Maria Aparecida Bento, whose episteme helps us understand the social phenomenon of Black women in the world of work by incorporating the category of whiteness into her analyses. She argues that the social position of white individuals in Brazil is historically constructed and sustained by networks of conscious and unconscious relationships, making it a universal reference and norm, normalizing privileges, and reproducing racial inequalities in spaces of power.³⁴
This interpretation resonates with Achille Mbembe’s thinking in that it reveals how racism in Brazil is expressed not just through the direct exclusion of the Black population, but also through the self-protection of the white elites, who organize themselves to ensure they retain their positions of privilege in institutions, businesses, and decision-making forums, contributing to the hierarchization of occupations and the concentration of Black women in socially undervalued jobs, such as hospital cleaning services35.
At this point, building on the culture of privilege, we can see how the theoretical framework of intersectionality offers a way to understand the world of hospital cleaning work, with decoloniality helping us reflect on the unequal access to benefits and rights experienced by certain groups—a situation rooted in colonialism, with the subalternized labor of Black people and severe colonial exploitation. Intersectionality also casts light on labor rights such as sick leave, health insurance, paid vacations, and pensions. Often, as part of a largely outsourced workforce, these workers are deprived of these benefits, mainly because of the high turnover of the outsourced companies and the instability associated with not having stable employment and thus not being able to ensure a stable income for their families.
Therefore, by integrating intersectionality and decoloniality into the analysis of hospital cleaning services from the workers’ perspective, we hope to chart possible paths toward recognizing this work as essential, not just for its contribution to healthcare, but also for its intrinsic value as a role deserving of respect. This will mean improving working conditions, valuing and respecting the diversity among the workers, providing inclusive education and training, combating stigmas and prejudices, and promoting workers’ health and well-being.
The analysis conducted in this paper of hospital cleaning service workers, rooted in the theories of decoloniality and intersectionality, reveals three fundamental analytical dimensions as fundamental for moving forwards:
1 – The coloniality of labor, with the perpetuation of labor and workplace hierarchies that assign racialized bodies to socially devalued roles, thereby reproducing colonial logics of subordination;
2 – Structural intersectionality, understood as the overlap of race-, gender-, and class-based oppression that makes Black women the prime workforce for cleaning services and normalizes this conditioning; and
3 – Labor epistemicide, understood as the erasure of the knowledge and experiences of hospital cleaning staff, reducing them to unskilled laborers and denying the complexity and importance of their knowledge and practices.
Limitations of this study include the scarcity of statistical data on hospital cleaning staff and the lack of in-depth academic analyses of the inequalities in the world of work addressed here.
A contribution of this paper to the construction of knowledge in the field of nursing is its authorship. The lead author is a nurse, a woman, a Black Brazilian, from the lower-middle class, who is embarking on a fight to gain a space of visibility within the reality of the workplace, who simultaneously recognizes that in her professional trajectory, taking responsibility for disease prevention, health education, service organization, risk management, community mobilization, and academic development, there are barriers and concepts that need to be developed regarding certain issues (subjects and subjectivities).
CONCLUDING REMARKS
There is a key figure in hospital cleaning services: a worker who sets off from home every day to ensure the health and sanitary conditions of other people in a range of public and private settings; a worker without whom society could not function or survive; yet a worker who is not always properly recognized or valued, becoming invisible due to experiences of race-, gender-, or class-based oppression, and power domination.
It cannot be overlooked that the predominance of Black women working in hospital cleaning services is a legacy of historical marginalization, with structural racism, sexism, and economic exploitation converging to perpetuate a logic of invisibility and inequality. Intersectionality and critical decoloniality reveal how the failure to recognize these workers as subjects entitled to full rights is not an occasional oversight, but a political choice sustained by a system that hierarchizes lives based on social markers of difference.
In this vein, and drawing on the interplay between the contributions of decoloniality and intersectionality, this theoretical reflection highlights five central approaches that can be used to understand the status of hospital cleaning staff:
1 – Recognition that invisibility is a product of the coloniality of power, knowledge, being, and labor;
2 – The identification of intersectional subalternation, marked by the interplay between gender, race, and class;
3 – The need to value lived experiences as legitimate forms of knowledge for the formulation of fairer and more equitable occupational health policies;
4 – The urgent need for public policies that take account of the specific intersectionalities characteristic of this occupation;
5 – The importance of repositioning nursing as a field committed to social and epistemic justice.
For the nursing profession, this article is a call to action taking an ethical and political approach to subalternized professional groups that share the hospital setting, as well as to intersectional characteristics (particularly those of gender, race, and class), thereby contributing to a more just and inclusive professional practice.
In the field of public health, this study contributes by broadening the analysis of health work beyond the traditionally recognized categories to incorporate hospital cleaning staff as central to understanding labor processes and the production of risks in the hospital setting. By highlighting the gap between the functional centrality of this work and its limited institutional recognition, the proposed approach challenges hegemonic analytical models and provides a basis for the formulation of policies and practices that take full account of the heterogeneity of the healthcare workforce.
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Como
Citar
Pereira, LAS, Espírito Santo, TB, Faria, MGA, Gallasch, CH. (In)visibilidade dos trabalhadores de limpeza hospitalar: contribuições epistemológicas decolonial e interseccional. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 14/08/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/invisibilidade-dos-trabalhadores-de-limpeza-hospitalar-contribuicoes-epistemologicas-decolonial-e-interseccional/20070