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0199/2026 - MORTALIDADE POR SUICÍDIO NO BRASIL: SÉRIES HISTÓRICAS E FATORES DE RISCO, ESTUDO CARGA GLOBAL DE DOENÇAS 2000-2023
SUICIDE MORTALITY IN BRAZIL: TIME SERIES AND RISK FACTORS, GLOBAL BURDEN OF DISEASE STUDY 2000–2023

Autor:

• Deborah Carvalho Malta - Malta, DC - <dcmalta@uol.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8214-5734

Coautor(es):

• Ana Paula Souto Melo - Melo, Ana Paula Souto - <ana.paula.souto.melo@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9955-0824

• Fabiana Martins Dias de Andrade - Andrade, F.M.D - <fabbianamartins@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8277-6061

• Rafael Bello Corassa - Corassa, RB - <rafael.bellocorassa@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9413-7400

• Antonio Luiz Pinho Ribeiro - Ribeiro, A. L. P. - <tom1963br@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2740-0042

• Maria Cecilia de Souza Minayo - Minayo, MCS - <maria.cecilia.minayo@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6187-9301

• Mohsen Naghavi - Naghavi, M. - <nagham@uw.edu>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3691-1458



Resumo:

Objetivo: Comparar os dados de mortalidade sobre suicídio registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) com as estimativas da Carga Global de Doença (GBD) entre 2000 a 2023; analisar a carga global de mortalidade por suicídio segundo faixa etária, sexo e região; identificar os fatores de risco associados ao suicídio e as desigualdades por região, segundo o Índice Sociodemográfico (SDI). Métodos: Estudo de séries temporais, 2000-2023, com dados do SIM e do GBD 2023. As tendências foram avaliadas por regressão Joinpoint e Variação Percentual Anual Média (AAPC). A mortalidade atribuível a fatores de risco foi estimada segundo a metodologia de Avaliação Comparativa de Riscos do GBD e as desigualdades entre UF analisadas por taxas padronizadas por idade e SDI. Resultados: Observou-se aumento do suicídio no Brasil. Em 2023, o SIM registrou 16.453 óbitos e taxa padronizada de 9,0/100.000 habitantes (AAPC=+3,2), enquanto o GBD estimou 20.129 óbitos (11,0/100.000 [AAPC=+2,0]). Houve aumento das taxas em praticamente todas as regiões e faixas etárias. As taxas foram mais elevadas no sexo masculino. Destaca-se, entre mulheres, violência por parceiro íntimo, e, entre homens, abuso sexual na infância. Houve correlação inversa entre a variação da mortalidade por suicídio e o SDI. Conclusões: A mortalidade por suicídio aumentou, com desigualdades regionais, etárias e socioeconômicas.

Palavras-chave:

Suicídio; Carga Global da Doença; Fatores de risco; Violência por Parceiro Íntimo.

Abstract:

Objective: To compare suicide mortality data recorded in the Mortality Information System (SIM) with estimates from the Global Burden of Disease (GBD) study for the period 2000–2023; to analyze the global burden of suicide mortality by age group, sex and region; identify the risk factors associated with suicide and regional inequalities, according to the Sociodemographic Index (SDI). Methods: Time-series study (2000–2023) using SIM and GBD 2023 data. Trends were assessed using Joinpoint regression and Average Annual Percent Change (AAPC). Mortality attributable to selected risk factors was estimated according to the GBD Comparative Risk Assessment methodology, and inequalities across Federative Units were analyzed using age-standardized rates and SDI. Results: Suicide mortality increased in Brazil. In 2023, SIM recorded 16,453 deaths and an age-standardized rate of 9.0/100,000 inhabitants (AAPC=+3.2), while the GBD estimated 20,129 deaths (11.0/100,000 [AAPC=+2.0]). Rates increased in nearly all regions and age groups. Rates were higher among males. Among females, intimate partner violence stood out, and among males, childhood sexual abuse. An inverse correlation was observed between changes in suicide mortality and SDI. Conclusions: Suicide mortality increased, with regional, age, and socioeconomic inequalities.

Keywords:

Suicide; Global Burden of Disease; Risk Factors; Intimate Partner Violence.

Conteúdo:

INTRODUÇÃO
O suicídio representa um grave problema de saúde pública evitável no mundo e no Brasil. Em 2021, as estimativas da Organização Mundial da Saúde mostram que cerca de 727.000 pessoas morreram por suicídio, sendo a maioria (73%) em países de baixa e média renda. Além disso, o suicídio representa a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo1. Dados do estudo Global Burden of Disease (GBD) estimaram 746.000 mortes por suicídios em 2021. Desses óbitos, a maior frequência foi entre homens. Contudo, os resultados mostram que a taxa de mortalidade por suicídio padronizada por idade diminuiu ao longo do tempo, de 14,9 óbitos em 1990 para 9,0 por 100.000 habitantes em 20212.
No contexto brasileiro, estudo com estimativas do GBD mostraram que em 2019, ocorreram 13.503 mortes por suicídio no Brasil, destes a maioria de homens. De 1990 a 2019, o número total de mortes e a taxa bruta de mortalidade por suicídio aumentaram respectivamente, 46,0% e 0,96%, entretanto, a taxa de mortalidade padronizada por idade para suicídio diminuiu 21,68%, saindo de 7,25 em 1990 para 5,68 mortes por 100.000 habitantes em 2019. Observaram-se desigualdades regionais nas taxas de mortalidade por suicídio padronizadas por idade, houve redução na região Sul e aumento na região Nordeste. As taxas de mortalidade por suicídio diminuíram em praticamente todas as faixas etárias, com exceção dos adolescentes com idade entre 10 a 14 anos, onde houve aumento de 26,9%, entre 1990 e 20193.
O comportamento suicida é multicausal, portanto, associado a fatores que interagem entre si, tais como transtorno mental, uso de medicamentos, drogas, álcool, intoxicações e hereditariedade, além de envolver questões biológicas, psicossociais, ambientais e diferenciações por faixa etária4. A literatura científica aponta associação entre comportamento suicida (incluindo ideação e tentativas) e transtornos mentais (em particular, a depressão)5–7, abuso de álcool6 e outras drogas6,7, conflitos interpessoais6,7, desemprego e perda financeira5, além de traumas8,9, históricos de violências8 e tentativas prévias de suicídio10. Embora parte dessas evidências se refira a desfechos não letais, esses fatores também são reconhecidos como componentes relevantes na trajetória que pode culminar em óbito por suicídio.
A mortalidade por suicídio é subnotificada o que decorre da estigmatização social desse tipo de morte e das dificuldades na determinação da intencionalidade do agravo3. Nesses casos, os suicídios são frequentemente classificados como mortes por causas indeterminadas, afogamento ou envenenamento acidental3. Nesse sentido, o GBD emprega metodologias específicas para a redistribuição de causas mal definidas (garbage codes - GC), o que contribui para o aprimoramento das estimativas de mortalidade por suicídio.
Neste cenário, torna-se necessário avançar nos estudos sobre as desigualdades na distribuição desse agravo, com vistas a identificar subpopulações mais vulneráveis e subsidiar a formulação de políticas e programas de prevenção mais eficazes3,11. Aprofundar análises por sexo e faixa etária, com monitoramento específico das ocorrências em populações do sexo masculino e mais jovens, uma vez que há crescimento das taxas nesses grupos etários3,12–14.
Destaca-se que este estudo utiliza as estimativas mais recentes do GBD 2023, o que permitirá uma atualização abrangente do panorama epidemiológico do suicídio no país. Além disso, outro diferencial do estudo é a comparação sistemática entre os dados observados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e as estimativas corrigidas do GBD ao longo de mais de duas décadas, a análise dos fatores de risco atribuíveis à mortalidade por suicídio e a investigação das desigualdades regionais segundo o Índice Sociodemográfico (SDI).
Desse modo, o presente estudo objetiva: a) comparar os dados de mortalidade sobre suicídio registrados no SIM com as estimativas do GBD entre 2000 a 2023; b) analisar a carga de mortalidade por suicídio segundo faixa etária, sexo e região; c) identificar os fatores de risco associados ao suicídio e as desigualdades por região, segundo o SDI.

MÉTODOS
Tipo de estudo
Trata-se de análise de tendência temporal da mortalidade por suicídio no Brasil, entre 2000 e 2023.
Fonte de Dados
Utilizaram-se os dados de mortalidade por suicídio no Brasil e Regiões, provenientes do SIM e as estimativas do estudo GBD 2023, conduzido pelo Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), disponíveis em: http://ghdx.healthdata.org/.
Definição de suicídio e categorias analisadas
O suicídio foi classificado pelo IHME como causa de morte intencional, de acordo com critérios padronizados por classificação internacional. A mortalidade por suicídio foi definida, de acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde - 10ª revisão (CID-10) como o “dano corporal deliberado infligido a si mesmo resultando em morte ou lesão”, segundo os códigos CID-10: X60–X64.9, X65, X66–X84.9, Y87.0.
As estimativas foram divididas em duas categorias principais:
• Suicídios por arma de fogo (Códigos X72-X74.9 da CID-10);
• Suicídios por outros meios especificados (Códigos X60-X64.9, X66-X71.9, X75-X83.9, Y87.0 da CID-10).
População do estudo
Foram investigadas as mortes por suicídio de indivíduos com mais de 10 anos de idade e analisadas as ocorrências nas faixas de 10 a 24 anos, 25 a 39 anos, 40 a 59 anos, 60 a 79 anos e 80 anos ou mais. Consideram-se os indivíduos ? 10 anos devido às baixas taxas de suicídio e à dificuldade em determinar a intencionalidade do ato em crianças.
Análise de tendência temporal e comparação entre SIM e GBD
Para analisar as mudanças ocorridas entre o ano de início da série (2000) e o ano de final da série (2023), foram realizadas comparações entre os óbitos registrados no SIM e os dados estimados pelo GBD. Essa comparação foi feita por meio de percentuais de mudança (PM), ou seja, pela diferença entre 2000 e 2023, calculados a partir do modelo de regressão por pontos de inflexão (Joinpoint Regression Model), segundo a Average Annual Percent Change (AAPC). Considerou-se a existência de tendência significativa quando a AAPC foi estatisticamente diferente de 0, ou seja, quando o valor de p do teste t de Student foi igual ou inferior a 5%, rejeitando-se a hipótese nula de ausência de tendência. A direção da tendência foi interpretada com base no sinal da AAPC: valores positivos indicam crescimento, enquanto valores negativos sugerem redução.
Analisou-se, ainda, a diferença entre o SIM e o GBD, calculando-se a % de correção estimada pelo GBD entre 2000 e 2023.
Métodos de estimação do GBD
Para fins de estimativa de mortalidade, os dados do estudo GBD tentam corrigir a subnotificação de óbitos e as mortes por causas inespecíficas ou atribuídas a GC redistribuindo-as entre as causas definidas. O detalhamento dos métodos de agrupamento de causas pode ser consultado em outras publicações3,15.
A subnotificação ou a atribuição incorreta de óbitos ao suicídio é comum. Para mitigar os efeitos da atribuição incorreta, uma fração dos óbitos codificados como lesão com intenção indeterminada (códigos Y10-Y34 na CID-10), exposição a fatores não especificados (códigos X59 na CID-10) ou como causas de mortalidade mal definidas ou desconhecidas (R99) foram redistribuídos para suicídio.
As estimativas do GBD são geradas utilizando métodos estatísticos e modelagem. A maioria das estimativas de causas de morte (incluindo suicídio) foi modelada por meio do Modelo Conjunto de Causas de Morte (CODEm). Esse método é usado para gerar indicadores por idade, sexo, país, ano e causa. O CODEm é um instrumento analítico que testa diversos modelos estatísticos possíveis de causas de morte, os quais são então combinados em um conjunto de modelos com desempenho preditivo ideal. Uma descrição detalhada dos métodos que estimam a mortalidade por suicídio foi apresentada em outra publicação3,16.
As estimativas pontuais de mortes por suicídio foram calculadas a partir da média de 250 simulações aleatórias de possíveis valores de mortes, desagregadas por idade, sexo e localização geográfica16. Essa abordagem probabilística reduz vieses e incorpora incerteza nos dados2.
Fatores de risco
Os fatores de risco são causas de doenças e lesões potencialmente modificáveis e as principais fontes desses dados para a população brasileira utilizadas pelo GBD foram: a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), o Sistema de Vigilância por Inquérito Telefônico de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel) e a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE)16, além de incluir informações referentes a artigos científicos e publicações disponíveis17,18.
O GBD adota uma classificação hierárquica de fatores de risco estruturada em quatro níveis, que abrangem desde grandes categorias (como riscos ambientais e ocupacionais, comportamentais e metabólicos.) até componentes mais específicos. Em 2023, essa estrutura contemplou a análise de 88 fatores de risco distintos16.
Para estimar a carga atribuível aos FR, o GBD seguiu a estrutura estabelecida para Avaliação Comparativa de Riscos (ACR), que contempla cinco etapas principais:
1) Estimar o nível de exposição por meio de fontes disponíveis;
2) Identificar pares de FR e seus desfechos, de acordo com as evidências disponíveis;
3) Calcular os riscos relativos dependendo da exposição;
4) Estimar o Nível Teórico Mínimo de Exposição ao Risco (TMREL);
5) Estimar o Fator Atribuível à População (FAP).
Os detalhes de cada etapa desse processo são descritos em outras publicações do GBD19,20.
Para este estudo, foram utilizados os dados do IHME para analisar a carga de mortalidade por suicídio atribuível aos FR, segundo sexo em 2000 e 2023, usando o nível hierárquico 2 do GBD. Os FR foram estimados pelo IHME com base na literatura científica disponível2. A partir dessas evidências, foram identificados e incorporados à modelagem os seguintes FR: abuso sexual na infância, consumo de drogas, exposição a temperaturas elevadas e consumo excessivo de álcool, considerados para ambos os sexos. Adicionalmente, a violência por parceiro íntimo foi incluída como fator de risco específico para o sexo feminino18,21.
Análise de desigualdades segundo Unidades Federativas (UF)
Foi empregada a correlação de Spearman para avaliar a associação entre a variação percentual das taxas de mortalidade padronizadas por suicídio nos extremos da série (2000 a 2023) e o SDI. O SDI é um indicador composto do nível de desenvolvimento de uma localidade geográfica, calculado com base na taxa de fecundidade total entre mulheres menores de 25 anos, no nível educacional de pessoas com 15 anos ou mais, e na renda per capita. O SDI varia de 0 a 1, sendo 0 o nível mínimo de desenvolvimento e 1 o nível máximo17.
Para comparação entre anos estudados e UF, consideraram-se as taxas padronizadas por idade, o GBD utiliza a população global, estimada pelo IHME para padronização das taxas22. A análise foi conduzida no RStudio (RStudio Team, 2019), e as figuras produzidas, utilizando-se o pacote ggplot2.
Aspectos éticos
Este estudo analisou dados secundários disponíveis na plataforma GHDX e no Departamento de Informação e Informática do SUS (DATASUS). O estudo GBD Brasil foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 62803316.7.0000.5149.

RESULTADOS
A Tabela 1 compara a mortalidade por suicídios no Brasil e Regiões, segundo dados do SIM e estimativas do GBD, entre 2000 e 2023. Para o Brasil, os dados do SIM eram de 6.398 óbitos (4,1/100.000 habitantes) em 2000 e de 16.453 (9,0/100.000 habitantes) com AAPC de +3,2. Os dados do GBD, foram de 9.680 (7,0/100.000 habitantes) em 2000 e de 20.129 (11,0/100.000 habitantes) em 2023, AAPC +2. O número de óbitos por suicídio estimado pelo GBD foi 51,3% maior em 2000 e 22,3% maior em 2023, comparado com o SIM (Tabela 1).
Cenário similar foi observado na maioria das regiões e faixas etárias. As estimativas do GBD mostraram aumento significativo das taxas de mortalidade em todas as regiões, variando o AAPC de +1,4 na Região Sul para 3,1 na Região Norte. As comparações entre SIM e GBD mostraram maior número de óbitos nas estimativas do GBD em todas as regiões e uma redução da correção entre 2000 e 2023. As taxas de suicídio aumentaram em praticamente todas as faixas etárias em ambas as bases, exceto no grupo de 80 anos e mais (GBD). Embora as taxas sejam mais elevadas após 25 anos, a AAPC foi mais elevada entre 10 e 24 anos (+2,3), seguida de 25 a 39 anos (+2), 40 a 59 anos (+1,2), 60 a 79 anos (+1), e reduziu-se a partir dos 80 anos ou mais (-0,4). (Tabela 1)
Quanto aos meios, as taxas de mortalidade padronizada por suicídio por arma de fogo reduziram-se em mulheres cerca de 50%: 0,34/100.000 habitantes para 0,14/100.000 em 2023. Para homens, reduziu-se de 2,41/100.000 em 2000 para 1,53/100.000 em 2023. O uso de outros meios para cometer suicídio aumentou para ambos os sexos. Entre mulheres, em 2000 eram 2,43/100.000 habitantes e 4,53/100.000 em 2023. Entre homens, a taxa de 8,93/100.000 em 2000 passou para 16,14/100.000 em 2023. Em todas as regiões do país, o padrão foi semelhante ao encontrado para o Brasil. (Figura 1)
A Figura 2A apresenta os resultados para o sexo feminino. A taxa de suicídio padronizada por idade nas regiões Centro-Oeste e Sul do país foi mais alta em comparação ao Brasil, com tendência de queda em ambas entre 2021 e 2023, exceto em relação a pessoas idosas com 80 anos e mais, em que houve decréscimo na maior parte da série, mas aumento a partir de 2021. Destaca-se que as taxas foram mais baixas entre crianças de 10-24 anos, embora tenha havido grande incremento após 2013 em todas as regiões. Observou-se o mesmo padrão para o sexo masculino. (Figura 2)
A Figura 3 e a Tabela Suplementar 1 apresentam as taxas de mortalidade por suicídio padronizada por idade, atribuíveis aos FR nos anos de 2000 e 2023, segundo sexo e faixa etária. Entre mulheres, no ano 2000, o FR de risco mais comum foi violência por parceiro íntimo (VCPI), principalmente na faixa etária de 25 a 39 e 40 a 59 anos, seguido por abuso sexual infantil nas mesmas faixas etárias. Em 2023, observa-se aumento nas taxas de mortalidade, sendo a VCPI e o abuso sexual infantil os principais FR. Entre homens, observa-se aumento da taxa de suicídio na maioria das faixas etárias estudadas, sendo que o principal FR foi o abuso sexual infantil (representando cerca de 70% das mortes por associação), seguido pelo consumo excessivo de álcool em ambos os anos estudados. Além desses fatores, observou-se aumento da taxa de suicídio atribuível a temperatura alta em todas as faixas etárias, o FR ocupa o terceiro lugar entre os fatores de risco nessa população.
A Figura 4 mostra correlação negativa e estatisticamente significativa entre o SDI em 2023 e AAPC da taxa de mortalidade por suicídio padronizada por idade no período de 2000 a 2023 (R = -0,59; p = 0,0011). Observa-se que estados com menores valores de SDI, predominantemente os das regiões Norte e Nordeste, concentraram os maiores AAPC, com destaque para Paraíba (PB), Piauí (PI), Amazonas (AM) e Tocantins (TO), com AAPC de ~3,0. Já UF com maiores valores de SDI, especialmente as das regiões Sul e Sudeste, como Rio de Janeiro (RJ), Rio Grande do Sul (RS), São Paulo (SP) e Santa Catarina (SC), apresentaram menores variações anuais, sendo o AAPC de ~1,5.

DISCUSSÃO
O presente estudo revela que o suicídio é uma causa significativa de mortalidade evitável, com cerca de 16 mil mortes registradas no SIM e 20 mil estimadas pelo GBD, em 2023 no Brasil. Homens cometeram quatro vezes mais suicídios do que mulheres. Houve aumento das taxas padronizadas por idade em todas as Regiões e faixas etárias, exceto nas pessoas idosas com 80 anos ou mais. Destaca-se o incremento anual das taxas de populações mais jovens (10 a 24 anos e 25 a 39 anos). Outros meios foram mais frequentemente utilizados na prática do suicídio quando comparados às armas de fogo, cujo uso apresentou redução de aproximadamente 50% ao longo do período analisado. Na comparação com dados do SIM, as estimativas do GBD passaram por correção de 50% em 2000 e de cerca de 20% em 2023, o que indica melhora na qualidade dos dados do SIM.
O presente estudo identificou aumento das taxas de suicídio padronizadas por idade no Brasil. Contudo, esses achados diferem dos dados globais, que indicam redução das taxas de suicídio por faixa etária em ambos os sexos. Dados do GBD mostram diminuição dos óbitos por suicídio ao longo do tempo, passando de 14,9 óbitos em 1990 para 9,0 por 100.000 habitantes em 2021. As taxas foram mais elevadas na Europa Oriental e na África subsaariana2.
Este estudo identificou, que as mortes por suicídio no Brasil ocorreram mais frequentemente entre homens, o que se mostra compatível com o contexto global2. Estudo do GDB (2021) demonstrou que homens morreram por suicídio em proporção mais que duas vezes superior às mulheres. Em contrapartida, elas apresentaram maior incidência de tentativas de suicídio que demandaram cuidados médicos2. Cabe destacar na escolha dos meios, os homens mostraram-se mais propensos a utilizar os mais letais, enquanto as mulheres tendem a recorrer a métodos potencialmente reversíveis23.
Observa-se aumento expressivo de suicídio na população jovem brasileira, padrão que diverge dos achados de estudos globais. Em âmbito internacional, tem sido descrita não apenas uma redução das taxas de suicídio, mas também um aumento da idade média do momento da morte, o que indica que homens e mulheres se suicidam em fases mais tardias da vida2. Segundo estimativas do GBD, a idade média do óbito por suicídio em 2021 foi superior à observada em 19902. Esse fenômeno deve ser visto com atenção, pois pode expressar um cenário preocupante de desesperança, falta de perspectivas e fragilidade das redes familiares e de apoio social24. E no mundo contemporâneo, vários autores têm associado o suicídio com o uso inadequado de redes sociais/internet25, isolamento, transtornos mentais, comportamentais e alimentares26.
No Brasil, caíram as taxas de mortes por uso de armas de fogo pela metade no período analisado. Globalmente, observa-se o oposto, elas constituem o meio mais frequente para a consumação do suicídio. Os países com maiores taxas padronizadas de suicídio por esse meio em 2021 foram os Estados Unidos da América (EUA), Uruguai e Venezuela2.
Evidências indicam que taxas mais elevadas de mortalidade por suicídio com armas de fogo estão associadas a maiores níveis de posse desse artefato na população. Particularmente, nos EUA, o fácil acesso torna o suicídio de jovens adultos mais facilitado, quando enfrentam estresse psicossocial27. Estudo de Malta et al. (2020) identificou que, no Brasil, as UF que recolheram mais armas de fogo apresentaram taxas reduzidas de mortes violentas por esse meio28. Esses achados reiteram a importância de políticas públicas, como o Estatuto do Desarmamento, na redução de mortes por suicídio e acidentais28,29.
Neste estudo, o consumo excessivo de álcool configurou-se como FR para o suicídio, especialmente para homens. Este resultado está em consonância com os achados de uma revisão sistemática com metanálise que identificou que o consumo excessivo de álcool previu um risco aumentado de suicídio, sendo essa magnitude de 94% de risco30. Além disso, o consumo excessivo de álcool, especialmente o consumo em grandes quantidades, mostrou-se mais fortemente associado a morte por suicídio. O consumo de álcool pode desencadear diversos comportamentos destrutivos, tais como pensamentos depressivos, estratégias de enfrentamento psicológicas prejudicadas entre outros31.
A exposição a diferentes tipos de violência, tais como violência interpessoal32, por parceiro íntimo33, sexual34 e maus-tratos na infância35 contribui para aumento substancial na probabilidade de suicídio e/ou ideação suicida. Esse efeito pode ser mediado por sofrimento psíquico persistente, desenvolvimento de transtornos mentais, uso problemático de substâncias e sentimentos de desesperança, o que pode potencializar a exposição cumulativa a múltiplas formas de violência32–35.
Embora ainda sejam limitadas as evidências nacionais, estudos internacionais indicam associação positiva entre a temperatura do ambiente e a mortalidade por suicídio36–39. Neste estudo, a temperatura alta foi um dos FR para o suicídio, especialmente entre pessoas do sexo masculino. Um estudo de revisão sistemática estimou que cada aumento de 1°C (grau Celsius) na temperatura ambiente está associado ao incremento de aproximadamente 1% na incidência de suicídio39. Essa associação pode ser explicada por mecanismos biológicos, como a disfunção do sistema serotoninérgico e a modulação da neurotransmissão pela exposição ao calor40,41. Além disso, são observados aumento de estados de desconforto, impulsividade e agressividade42. Aspectos psicossociais também são relevantes, incluindo redução das interações sociais, isolamento, distúrbios do sono e agravamento de sintomas como estresse, ansiedade e desesperança, com evidências de maior demanda por atendimentos em saúde mental em dias mais quentes37,43. Apesar das evidências mostradas, esse resultado deve ser interpretado com cautela, uma vez que a relação entre temperatura alta e suicídio é complexa e pode ser influenciada por fatores individuais, sociais e contextuais não abrangidos neste estudo. Além disso, a escassez de evidências nacionais limita a compreensão dos mecanismos envolvidos e das especificidades do contexto brasileiro. Assim, são necessários estudos adicionais, especialmente longitudinais para aprofundar o entendimento dessa associação e subsidiar estratégias de prevenção diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
O presente estudo mostrou melhora importante na qualidade dos dados do SIM em comparação às estimativas do GBD 2023. Esse resultado está em consonância com os achados de uma revisão de escopo, a qual demonstrou que a qualidade geral das informações disponibilizadas pelo SIM tem melhorado ao longo dos anos, especialmente nas dimensões de cobertura, completitude e redução das causas mal definidas e dos GC44. Estudo com dados do SIM mostrou que a completude da cobertura do registro de óbitos no Brasil aumentou de cerca de 80% em 1980-1991 para mais de 95% em 2000-2010, ao mesmo tempo em que a proporção de causas de morte mal definidas diminuiu em cerca de 53%45. Assim, para assegurar a melhoria contínua do SIM, é fundamental qualificar os médicos para o preenchimento correto e completo das declarações de óbito. Além disso, é necessário fortalecer a infraestrutura e a capacidade técnica dos órgãos municipais e estaduais de saúde, bem como garantir o funcionamento adequado dos comitês de investigação de óbitos. Essas medidas contribuem para aumentar a qualidade e a precisão das informações registradas, tornando os dados de mortalidade mais confiáveis para o planejamento, o monitoramento e a avaliação das ações em saúde44.
As evidências mostram a necessidade de implementar intervenções para prevenção do suicídio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs um Plano de Ação Abrangente de Saúde Mental 2013–203046. As ações do plano de ação se baseiam em seis princípios e abordagens transversais, que incluem a cobertura universal de saúde, os direitos humanos, a prática baseada em evidências, a abordagem ao longo da vida, a abordagem multissetorial e o empoderamento de pessoas com transtornos mentais e incapacidades psicossociais. Além do plano, a OMS implementou o “Viver a vida: Guia de implementação para a prevenção do suicídio nos países”47. O Guia detalha aspectos práticos para a implementação de quatro intervenções com foco na restrição de acesso aos meios de suicídio, interação com a mídia para a divulgação responsável de notícias, ações para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais para adolescentes e identificação precoce, avaliação, orientação e acompanhamento de pessoas com comportamentos suicidas. Portanto, é fundamental que o Sistema Único de Saúde (SUS) desenvolva processos pedagógicos e operacionais capazes de transformar essas abordagens em planos de ação viáveis e adequados à realidade brasileira.
No Brasil, em 2006, foram publicadas as Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio, por meio da Portaria nº 1.87648. Essas diretrizes tinham como objetivo orientar os estados no desenvolvimento de estratégias, linha de cuidado, entre outras ações para prevenir o suicídio. Ainda em 2006, o Ministério da Saúde lançou o documento “Prevenção do suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental”, construído especialmente para os profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)49. O objetivo do manual é contribuir para reduzir as taxas de suicídio e tentativas e os danos associados aos comportamentos suicidas. Em 2011, a Portaria nº 3.088 instituiu a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)50, responsável pela oferta de cuidado em saúde mental em todos os seus pontos de atenção, incluindo Unidades Básicas de Saúde, Centros de Convivência, Consultórios na Rua, serviços de atenção hospitalar e serviços de urgência e emergência, como UPA 24h e SAMU 192, sob a coordenação dos CAPS. Em 2014, a Portaria nº 1.271 incluiu a tentativa de suicídio na Lista Nacional de Notificação Compulsória51. Com isso, as violências autoprovocadas passaram a ser de notificação imediata em todo o território nacional. Em 2017, a Portaria nº 3.491, instituiu incentivo financeiro para o desenvolvimento de projetos de promoção da saúde, vigilância, e atenção integral relacionadas à prevenção do suicídio no âmbito da RAPS do SUS52. Em 2019, foi publicada a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, instituída pela Lei nº 13.819. A política é um marco normativo importante na promoção da saúde mental e da prevenção de violências autoprovocadas, bem como do controle dos fatores que determinam e condicionam a saúde mental dos indivíduos. Essa política assegura atendimento psicossocial das pessoas com histórico de ideação suicida, automutilações e tentativa de suicídio, abordagem da família das vítimas e articulação intersetorial para a prevenção do suicídio53. Todas essas estratégias e políticas implementadas, são primordiais para a visibilização do problema, prevenção do suicídio e cuidado integral do indivíduo e da família no âmbito do SUS.
Entre as limitações do estudo, destaca-se a ausência de variáveis individuais e sociais associadas ao risco de suicídio nas análises do GBD, como fatores relacionados a transtornos mentais, experiências adversas no início do desenvolvimento, isolamento social e insegurança econômica, entre outros. Além disso, as estimativas disponíveis restringem-se às categorias “arma de fogo” e “outros métodos”, o que impede uma análise mais detalhada dos diferentes meios utilizados.
Em síntese, os achados evidenciam a persistência e a gravidade do suicídio no Brasil, especialmente entre homens e populações mais jovens. Em relação aos fatores de risco, a VPI e o abuso sexual infantil apresentaram maior relevância entre as mulheres. Entre os homens, os principais fatores identificados foram o abuso sexual infantil, o consumo excessivo de álcool e a exposição a altas temperaturas. Esses achados evidenciam diferenças relacionadas ao gênero na mortalidade por suicídio, devido aos papéis sociais, violência e desigualdades de gênero, os quais demandam estratégias de prevenção específicas para homens e mulheres54. O crescimento das taxas padronizadas nas faixas de 10 a 39 anos sinaliza a necessidade de estratégias preventivas precoces e intersetoriais, com foco na promoção da saúde mental, identificação oportuna de riscos e ampliação do acesso ao cuidado. A redução do uso de armas de fogo e a melhoria progressiva da qualidade dos dados do SIM, indicam avanços importantes. Contudo, o cenário geral demanda o fortalecimento contínuo das políticas públicas, da vigilância e das ações de prevenção do suicídio em todo o território nacional.

Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.












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Malta, DC, Melo, Ana Paula Souto, Andrade, F.M.D, Corassa, RB, Ribeiro, A. L. P., Minayo, MCS, Naghavi, M.. MORTALIDADE POR SUICÍDIO NO BRASIL: SÉRIES HISTÓRICAS E FATORES DE RISCO, ESTUDO CARGA GLOBAL DE DOENÇAS 2000-2023. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/ago). [Citado em 14/08/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/mortalidade-por-suicidio-no-brasil-series-historicas-e-fatores-de-risco-estudo-carga-global-de-doencas-20002023/20097?id=20097

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