0188/2026 - Narrativas de resistência e silenciamentos: mulheres e violência de gênero no interior de Minas Gerais
Resistance Narratives and Silencing: Women and Gender-Based Violence in the Countryside of Minas Gerais
Autor:
• Simone Rodrigues de Sá - Sá, SR - <monedesa44@gmail.com,>ORCID: https://orcid.org/0009-0009-8255-4851
Coautor(es):
• Adriana de Souza Medeiros Batista - Batista, ASM - <adriananuclear@yahoo.com.br>ORCID: https://orcid.org/0000- 0001-6834-7551
Resumo:
Não se aplica.Abstract:
Não se aplica.Keywords:
Não se aplica.Conteúdo:
Organizada em três capítulos, adicionados de um dedicado a considerações finais, a obra apresenta uma estrutura clara e coerente. No primeiro, “Patriarcado, violência de gênero e os percursos da pesquisa”, Cheim revisita o arcabouço teórico sobre patriarcado, violência contra mulheres e cidadania, articulando-o ao percurso da pesquisa2. A discussão vai além da exposição conceitual: insere Carangola em uma história social marcada por relações de gênero tradicionalistas, padrões de sociabilidade baseados na proximidade e estruturas familiares rígidas. Ao situar sua investigação nesse contexto, a autora reforça a importância de uma leitura territorializada da violência, perspectiva ainda pouco explorada nos estudos brasileiros, majoritariamente voltados às realidades metropolitanas.
O segundo capítulo, “Mulheres, violências e vozes silenciadas”, apresenta o perfil das dez participantes da pesquisa, revelando dinâmicas complexas de silenciamento que atravessam suas trajetórias. Das narrativas emergem cotidianos que naturalizam a violência, especialmente a conjugal, sustentados por uma cultura do silêncio reproduzida por famílias, comunidades religiosas e redes sociais locais3. A proximidade social, característica das pequenas cidades, aparece como ambivalente: se por um lado reforça a vigilância comunitária e a pressão pela manutenção da união conjugal, por outro pode mobilizar redes de apoio entre vizinhos, amigas ou familiares. Cheim demonstra sensibilidade ao captar essas nuances, evitando leituras simplistas que associem interioridade a atraso ou passividade.
No terceiro capítulo, “O silêncio é um grito de socorro”, as narrativas são apresentadas de forma temática, abordando diferentes tipos de violência: física, psicológica, patrimonial, sexual e simbólica. Destaca-se a discussão sobre estupro conjugal (ainda pouco reconhecido socialmente) e sobre violência contra mulheres idosas, marcada por dependência econômica, isolamento e fragilidade das redes de apoio3. Ao dar visibilidade a essas dimensões, a autora amplia o debate público, evidenciando que formas naturalizadas de abuso permanecem subnotificadas, sobretudo em localidades onde os serviços de proteção são escassos ou pouco acessíveis. A noção de “histórias de luta” reforça que as mulheres entrevistadas não são apenas vítimas, mas agentes que narram rupturas, tomam decisões difíceis e reinventam suas vidas.
A seção intitulada “Atravessamentos e reflexões” cumpre um papel estratégico na obra, pois desloca o olhar das narrativas individuais para uma análise que evidencia as interconexões entre dimensões subjetivas e estruturais da violência. Nesse espaço, Cheim problematiza como gênero, território, classe e moralidade se entrecruzam na produção e manutenção das violências, destacando que os mecanismos de silenciamento não são apenas familiares ou comunitários, mas também institucionais. A autora tensiona a ideia de enfrentamento como ato isolado, mostrando que as rupturas das mulheres ocorrem em meio a redes frágeis e políticas públicas insuficientes. Essa reflexão amplia o alcance da pesquisa, aproximando-a do debate sobre determinantes sociais da saúde e da necessidade de respostas intersetoriais, aspecto central para a Saúde Coletiva.
Entre os pontos fortes da obra, destaca-se a metodologia. A autora combina história oral, análise social e dados secundários (como registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN)4 e estatísticas locais), permitindo uma leitura que integra a dimensão subjetiva das narrativas à estrutura social que condiciona as formas de violência. Essa articulação confere densidade analítica e evidencia o valor da história oral para compreender fenômenos que, por sua natureza, escapam aos registros institucionais. A escrita, embora rigorosa, preserva a força das narrativas, expondo sentimentos, contradições, medos e resistências. Cheim evita o sensacionalismo e trata as entrevistadas como parceiras na produção do conhecimento.
Outro aspecto relevante é a atenção às especificidades territoriais. A autora mostra como cidades pequenas produzem dinâmicas próprias de vigilância e controle moral, que interferem nas decisões das mulheres sobre denunciar, permanecer ou romper. Ao mesmo tempo, evidencia a insuficiência da rede institucional (delegacias, serviços de saúde, Centro de Referência de Assistência Social - CRAS, Centro de Referência Especializado de Assistência Social - CREAS) muitas vezes ineficaz. Essas observações dialogam diretamente com a Saúde Coletiva, especialmente no campo das políticas públicas de enfrentamento da violência de gênero, cuja efetividade depende da articulação entre territórios, serviços e redes sociais3.
Há, contudo, pontos que poderiam ser mais explorados. A diversidade de identidades de gênero e orientação sexual aparece de forma limitada, embora seja fundamental para compreender a amplitude da violência5. Além disso, o debate sobre interseccionalidade (raça e classe) surge de maneira implícita, mas poderia ser aprofundado, dado que as desigualdades estruturais moldam tanto a vivência quanto as possibilidades de enfrentamento3. Essas lacunas, porém, não diminuem a relevância da obra; indicam caminhos para pesquisas futuras.
Do ponto de vista da Saúde Coletiva, trata-se de uma contribuição valiosa. A violência de gênero é reconhecida como grave problema de saúde pública, com impactos físicos, psicológicos, sociais e econômicos6. O livro evidencia como esses impactos se expressam em uma cidade interiorana e como território, redes sociais e condições materiais influenciam tanto o sofrimento quanto a resistência das mulheres. Para profissionais de saúde, assistentes sociais, psicólogos, educadores e agentes comunitários, a obra oferece elementos fundamentais para uma compreensão sensível e territorializada da violência. Para gestores e formuladores de políticas, aponta a urgência de fortalecer serviços, ampliar equipes multiprofissionais, investir em formação continuada e combater a subnotificação e a revitimização.
“Histórias de luta” se destaca pelo compromisso ético com as mulheres entrevistadas, pela consistência teórica e metodológica e pela relevância social. Ao articular memória, território e gênero, Érika Cheim oferece uma obra sensível e politicamente necessária, que amplia o entendimento sobre a violência contra mulheres em seus contextos cotidianos e desafia os campos da História, das Ciências Sociais e da Saúde Coletiva a escutar e reconhecer vozes historicamente silenciadas. É leitura estratégica para quem busca compreender a complexidade da violência de gênero no Brasil e os caminhos possíveis de enfrentamento e transformação.
Referências
1. Cheim ÉOAT. Histórias de luta: narrativas de mulheres e o enfrentamento da violência de gênero. Belo Horizonte: EdUEMG; 2024.
2. Saffioti H. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo; 2004.
3. Soares MLM, Guimarães NGM, Bonfada D. Tendência, espacialização e circunstâncias associadas às violências contra populações vulneráveis no Brasil, entre 2009 e 2017. Cien Saude Colet 2021; 26: 5751-5763.
4. Barufaldi LA, Souto RMCV, Correia RSDB, Montenegro MDMS, Pinto IV, Silva M MAD, Lima CMD. Violência de gênero: comparação da mortalidade por agressão em mulheres com e sem notificação prévia de violência. Cien Saude Colet 2017; 22: 2929-2938.
5. Marinho Neto KRE, Girianelli VR. Violência interpessoal em mulheres transgêneras e cisgêneras nos municípios brasileiros: tendências e características. Cien Saude Colet 2024; 29: e02702024.
6. Minayo MCS. Violência e saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006.











