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Artigos

0039/2026 - ONDAS DE CALOR E SAÚDE HUMANA: REVISÃO DE ESCOPO DOS CÓDIGOS CID-10 PARA MORTALIDADE E MORBIDADE
HEAT WAVES AND HUMAN HEALTH: SCOPING REVIEW OF ICD-10 CODES FOR MORTALITY AND MORBIDITY

Autor:

• Amarílis Bahia Bezerra - Bezerra, AB - <amarilis.bezerra@unb.br>
ORCID: 0000-0001-9491-0336

Coautor(es):

• Helen Gurgel - Gurgel, H - <helengurgel@unb.br>
ORCID: http://orcid.org/0000-0002-4250-6742

• Eucilene Alves Santana - Santana, EA - <eucilene.alvessantana@gmail.com>
ORCID: http://orcid.org/0000-0002-8745-6216

• Eliane Lima e Silva - Silva, EL - <elianelima26@gmail.com>
ORCID: 0000-0003-4608-5946

• Lívia Feitosa de Oliveira - Oliveira, LF - <oliveira.livia@aluno.unb.br>
ORCID: 0000-0002-6613-1383

• Bruno Lofrano Porto - Porto, BL - <bruno.porto@unb.br>
ORCID: 0000-0002-3279-0401

• Marina Jorge de Miranda - Miranda, MJ - <marinajmiranda@gmail.com>
ORCID: 0000-0002-0056-7731



Resumo:

As Ondas de calor, intensificadas pelas mudanças climáticas, têm gerado impactos significativos na saúde pública global. Esta revisão de escopo teve como objetivo identificar as morbimortalidades associadas às ondas de calor, classificadas conforme a 10ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Foram consultadas as bases PubMed, Scopus, Web of Science e Science Direct para identificar estudos publicados até outubro de 2024. Focou-se em artigos sobre doenças, agravos e óbitos relacionados às ondas de calor. Foram selecionados 19 estudos, destacando desidratação severa, exaustão térmica, doenças cardiovasculares e respiratórias, além de impactos em nascimentos prematuros e transtornos mentais. Estudos sobre mortalidade são predominantes, enquanto os de morbidade são escassos. Os resultados reforçam a necessidade de mais investigações, especialmente no detalhamento dos códigos da CID-10 para morbidade. Recomenda-se estudos epidemiológicos sobre a morbidade associada a esses eventos em países em desenvolvimento e sobre a duração de seus impactos na saúde, para subsidiar a vigilância e orientar políticas adaptativas que mitiguem danos e fortaleçam a resposta a eventos climáticos extremos.

Palavras-chave:

Calor extremo; Doenças do aparelho circulatório; Doenças do aparelho respiratório; Saúde ambiental; Vigilância em Saúde Pública.

Abstract:

Heat waves, intensified by climate change, have significantly affected global public health. This scoping review aimed to identify morbidities and mortalities associated with heat waves, classified according to the 10th Revision of the International Classification of Diseases (ICD-10). PubMed, Scopus, Web of Science, and Science Direct databases were searched for studies published up to October 2024. The review focused on studies addressing diseases, health conditions, and deaths related to heat waves. A total of 19 studies were selected, highlighting severe dehydration, heat exhaustion, cardiovascular and respiratory diseases, as well as impacts on preterm births and mental disorders. Mortality-related studies predominate, while morbidity studies remain scarce. The findings emphasize the need for further research, particularly on the detailed use of ICD-10 codes for morbidity. Epidemiological studies on morbidity associated with heat waves in developing countries and on the duration of their health impacts are recommended to support surveillance and guide adaptive policies aimed at mitigating harm and strengthening responses to extreme climate events.

Keywords:

Extreme heat; Cardiovascular diseases; Respiratory diseases; Environmental health; Public health surveillance.

Conteúdo:

Introdução
Eventos climáticos extremos, como ondas de calor (OC), estão se tornando mais frequentes e intensos devido às mudanças climáticas globais.1 Esses fenômenos têm gerado impactos significativos na saúde pública global, afetando desproporcionalmente as populações mais vulneráveis. A exposição prolongada a temperaturas extremas pode agravar condições de saúde preexistentes e aumentar as taxas de mortalidade e morbidade, configurando um grave problema de saúde pública que exige intervenções urgentes.2
As ondas de calor representam um risco crescente à saúde humana, cujos impactos variam entre diferentes regiões e populações. Países da América Latina são particularmente vulneráveis devido às características socioeconômicas e geográficas específicas. A região tem experimentado um aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, o que agrava problemas de saúde pública preexistentes e coloca pressão adicional sobre sistemas de saúde já fragilizados. A combinação de infraestrutura de saúde deficiente, desigualdades sociais e alta densidade populacional em áreas urbanas intensifica os desafios de adaptação e mitigação.3
O Brasil, em particular, enfrenta desafios significativos devido à sua vasta extensão territorial e diversidade climática. Além disso, diferenças na capacidade instalada do Sistema Único de Saúde (SUS) nas diversas regiões e a elevada proporção de indivíduos em condições de vulnerabilidade socioeconômica aumentam os riscos associados às ondas de calor. Idosos, gestantes, crianças e pessoas com doenças crônicas destacam-se como grupos altamente suscetíveis aos impactos do calor extremo, assim como trabalhadores expostos ao ar livre e minorias étnico-raciais, que também apresentam vulnerabilidade acrescida devido a fatores ocupacionais e sociais, exigindo medidas específicas para proteção.4–7
Embora os efeitos adversos desses eventos climáticos sejam inevitáveis, grande parte dos riscos para a saúde pode ser mitigada por meio de medidas robustas, como a adaptação de sistemas de saúde para responder às mudanças climáticas. Essas estratégias incluem a construção de infraestruturas mais resilientes, o desenvolvimento de planos de preparação, resposta e recuperação, além de intervenções direcionadas a populações vulneráveis.8,9
A gestão eficaz desses desafios demanda uma abordagem integrada, na qual o monitoramento e a vigilância em saúde desempenham um papel crucial. Para que essas ações sejam efetivas, é fundamental o uso de indicadores específicos, que permitam identificar padrões de morbidade e mortalidade associados às ondas de calor. Essas medidas, por sua vez, são fundamentais para antecipar aumentos na morbimortalidade e apoiar a formulação de estratégias de saúde pública voltadas à mitigação, adaptação e implementação de intervenções preventivas.10–12
Nesse contexto, a Classificação Internacional de Doenças (CID) constitui uma referência padronizada e amplamente reconhecida para o fortalecimento das ações de vigilância em saúde, ao oferecer uma base uniforme para a notificação e o monitoramento de agravos e causas de óbito nos sistemas de informações em saúde, além de possibilitar a produção de indicadores comparáveis entre regiões e períodos.13
Diante disso, esta revisão de escopo tem como objetivo identificar os códigos de doenças, agravos e causas de óbito associadas às ondas de calor, conforme a 10ª Revisão CID, e mapear a extensão e os tipos de evidências disponíveis sobre morbidade e mortalidade relacionadas a esses eventos no Brasil e no mundo. Ao sintetizar essas informações, pretende-se oferecer subsídios para o aprimoramento da vigilância em saúde e para o fortalecimento das estratégias de mitigação dos impactos do calor extremo sobre a população.

Metodologia
Trata-se de uma revisão de escopo que foi realizada seguindo a metodologia recomendada pelo Instituto Joanna Briggs14 , amplamente reconhecida e aplicada nas ciências da saúde. Essa abordagem visa sintetizar e divulgar os resultados de pesquisas relacionadas a temas ainda pouco investigados, contribuindo para o avanço do conhecimento e identificando lacunas que possam orientar futuras investigações.15
Para a identificação dos estudos, foram consultados os bancos de dados PubMed, Scopus, Web of Science, LILACS e Science Direct, escolhidas por sua abrangência e capacidade de integrar estudos relevantes, publicados em diversas plataformas. Ressalta-se que a busca realizada na base LILACS não retornou resultados, sendo excluída das etapas subsequentes. A busca foi conduzida a partir da seguinte pergunta norteadora: “Quais doenças, agravos e causas de óbitos relacionados às ondas de calor, classificados na CID-10, são prioritários para a vigilância em saúde pública?”
Para responder à questão norteadora, foram utilizadas combinações de termos e operadores booleanos, como: "Heat wave” OR Heatwave AND “Data Health” OR “Health Records” AND Surveillance AND Risk AND Morbidity OR Mortality. A busca contemplou estudos disponíveis até outubro de 2024, sem delimitação de data inicial.
Os critérios de inclusão para seleção de estudos foram: (a) artigos originais publicados em português, espanhol ou inglês; (b) estudos que abordassem morbidade e mortalidade relacionadas às ondas de calor, classificados na CID-10; e (c) estudos que apresentassem a definição de ondas de calor adotada. Por outro lado, foram excluídos: (a) estudos fora do período delimitado; (b) textos não relacionados diretamente ao tema e (c) estudos que não fizessem referência ao código da CID-10 na descrição da metodologia.
A coleta dos estudos foi realizada no dia 18 de outubro de 2024, resultando em 128 artigos inicialmente encontrados, os quais foram incorporados ao software Mendeley 1.19.5 e excluídos 3 artigos duplicados, restando 125 estudos para análise.16 Na etapa seguinte, os estudos foram importados para o Rayyan, um software gratuito para triagem de dados, onde os títulos e resumos foram avaliados por dois revisores independentes.17 Como resultado dessa triagem, 40 estudos foram excluídos baseados nos critérios de inclusão e exclusão desta revisão.
Os 85 artigos restantes foram lidos na íntegra e revisado em pares. Após essa análise detalhada, 66 estudos foram excluídos, totalizando 19 artigos que foram considerados elegíveis. A figura 1 apresenta o fluxograma do processo de seleção dos estudos desta revisão.

Fig.1

Os estudos selecionados foram analisados e sintetizados com base nos elementos essenciais de cada artigo. Para isso, adotou-se uma abordagem descritiva e analítica, examinando os textos completos. A análise qualitativa permitiu identificar os estudos que apresentavam a classificação pela CID-10, os quais foram sistematizados em uma tabela de resultados contendo referência, objetivo do estudo, área de estudo e os códigos das causas de morbimortalidade.



Resultados
Os estudos incluídos nesta revisão abordaram diferentes tipos de desfecho relacionados aos impactos das ondas de calor na saúde, conforme ilustrado na Figura 2. As pesquisas sobre mortalidade (57,89%) focaram nos óbitos relacionados às ondas de calor, tanto por causas específicas quanto gerais, enquanto os estudos sobre morbidade (10,53%) analisaram agravos que resultaram em hospitalizações, atendimentos de emergência e outros desfechos não fatais. Por sua vez, aqueles que abordaram a morbimortalidade (31,58%) consideraram simultaneamente os desfechos de mortalidade e morbidade, oferecendo uma visão abrangente sobre os efeitos das ondas de calor na saúde.

Fig.2

Em relação à distribuição dos estudos segundo a área de análise, destaca-se maior concentração de pesquisas realizadas nos Estados Unidos (31,58%) e na Austrália (26,32%). Na Europa, três estudos foram publicados, evidenciando o interesse de países do continente em compreender os impactos do calor extremo sobre a saúde. Além disso, também foram identificados estudos de abrangência multirregional, envolvendo diferentes países e continentes, o que reforça o caráter global do tema (Figura 3).

Fig.3

Os estudos incluídos nesta análise foram publicados entre os anos de 2009 e 2024. Essas pesquisas estão apresentadas nas Tabelas 1, 2 e 3, que sintetizam os dados levantados sobre os impactos das ondas de calor em diferentes contextos geográficos e temporais.

Mortalidade
Estudos sobre ondas de calor têm evidenciado impactos significativos na mortalidade, com destaque para os códigos da CID-10 mais frequentemente analisados, apresentados na Tabela 1. Nos estudos revisados18–22, as causas não externas (A00-R99) foram amplamente utilizadas para descrever a mortalidade associada às ondas de calor, abrangendo doenças do aparelho circulatório, respiratório e metabólico. Esse grupo inclui um amplo espectro de condições naturais não relacionadas a eventos externos, a exemplo de traumas ou acidentes. Contudo, embora esse agrupamento de causas seja útil para capturar a mortalidade geral nos estudos, sua abrangência pode limitar a identificação dos agravos específicos mais afetados.
Entre as causas de óbito específicas mais destacadas, as doenças do aparelho circulatório (I00-I99) foram frequentemente associadas ao aumento da mortalidade durante as ondas de calor. Estudos como os de Miron et al. (2015)23 e Rocklöv et al. (2014)24 evidenciaram um crescimento significativo nas mortes atribuídas a doenças cardiovasculares (J00–J98). Já o trabalho de Morais et al. (2020)25, realizado em Lisboa, apontou uma forte relação entre doenças cardiovasculares e ondas de calor, com maior prevalência em idosos e indivíduos com condições preexistentes.
A insuficiência cardíaca congestiva (I50), mencionada por Oudin Åström et al. (2015)26 em Roma e Estocolmo, também emergiu como uma condição altamente vulnerável, exacerbada por temperaturas elevadas. Nessas localidades, a condição foi identificada entre os principais agravos cardiovasculares com aumento da mortalidade durante ondas de calor. Os estudos analisados relataram um aumento da mortalidade cardiovascular durante períodos de calor, especialmente em indivíduos com condições crônicas preexistentes.
As doenças do aparelho respiratório (J00-J99) também foram destaques, sendo identificadas nos estudos de Kang et al. (2020)27, Morais et al. (2020)25, Miron et al. (2015)23 e Oudin Åström et al. (2015)26. Essas investigações descrevem associação entre agravos respiratórios, como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) (J43-J44) e insuficiência respiratória (J96) e ondas de calor, com maior frequência em estudos conduzidos em áreas urbanas e entre populações idosas.
Em Estocolmo, conforme destacado por Rocklöv et al. (2014)24, relataram que condições respiratórias foram associadas tanto a ondas de calor quanto de frio, indicando que temperaturas extremas, independentemente de sua direção, afetam criticamente o sistema respiratório.
Outras causas de mortalidade, embora menos frequentes, também foram relatadas nos estudos analisados. A pesquisa de Oudin Åström et al. (2015)26 destacou o diabetes mellitus (E10–E14) como uma condição acentuada pelo calor, especialmente entre populações idosas em centros urbanos. Adicionalmente, Rocklöv et al. (2014)24 e Oudin Åström et al. (2015)26 relataram uma associação entre ondas de calor e o agravamento de transtornos mentais. Os estudos analisados também indicaram maior prevalência desses agravos em populações vulneráveis, incluindo indivíduos com transtornos psiquiátricos e residentes em áreas urbanas de menor renda.
Por fim, estudos que analisaram conjuntos abrangentes de causas, como as causas totais (A00-Z99), foram utilizados para examinar a mortalidade associadas às ondas de calor. Conforme relatado nos artigos de Franklin et al. (2023)28 e Kang et al. (2020)27, essas categorias incluem tanto condições crônicas quanto eventos agudos, capturando a ampla carga de saúde associada ao calor extremo.

Tab.1

Morbidade
Os estudos que descrevem os CID-10 das morbidades relacionada às ondas de calor são apresentados na Tabela 2. O estudo de Zhang et al. (2013)29, realizado em Adelaide, na Austrália, identificou a exposição ao calor natural excessivo (X30) os efeitos do calor e da luz (T67) e a depleção de volume (E86). Esses códigos da CID-10 referem-se a condições agudas diretamente associadas à exposição ao calor extremo, incluindo desidratação severa e exaustão térmica, que podem resultar em hospitalizações em períodos de calor prolongado. Além disso, os autores identificaram fatores de risco associados a determinantes sociais e contextuais, como características demográficas e condições socioeconômicas, destacando que os impactos não são apenas clínicos.
Por outro lado, Rocklöv e Forsberg, (2009)30, ao avaliarem os impactos das ondas de calor nas morbidades, analisaram categorias mais amplas, incluindo causas não externas (A00-R99) e condições específicas, como doenças cardiovasculares (I00–I99) e respiratórias (J00–J98). O estudo relatou um aumento significativo nas admissões hospitalares durante períodos de calor extremo, com as internações por doenças respiratórias dobrando em comparação aos períodos de referência, especialmente entre idosos.
Os dois estudos apresentaram abordagens complementares para a análise da morbidade relacionada ao calor. Enquanto um focou em condições agudas emergenciais, como desidratação e exaustão térmica, o outro explorou os impactos prolongados em doenças crônicas. Os estudos analisados abordaram tanto agravos agudos quanto desfechos crônicos, associados a hospitalizações prolongadas, conforme descrito nos dados analisados.

Tab.2

Morbimortalidade
Os estudos que analisaram a morbimortalidade associada às ondas de calor incluíram desde condições agudas até doenças crônicas, com relatos de múltiplos impactos desses eventos climáticos extremos na saúde. Diversos códigos da CID-10 foram utilizados, abrangendo tanto condições comumente associadas ao calor quanto agravos em indivíduos com doenças preexistentes durante esses períodos. Esses diferentes desfechos e classificações estão sistematizados na Tabela 3.
Os códigos mais frequentemente utilizados nos estudos para avaliar os impactos das ondas de calor na mortalidade e morbidade incluem os efeitos do calor e da luz (T67), exposição ao calor natural excessivo (X30) e depleção de volume (E86). Essas categorias foram analisadas em estudos como os de Schaffer et al. (2012)31, Williams et al. (2018)32, Zhang et al. (2015)33 e Sheridan e Lin (2014)34.
Os autores destacam que agravos diretamente relacionados ao calor, como desidratação severa e exaustão térmica, resultaram em maior demanda por serviços de emergência, especialmente entre idosos. Williams et al. (2018) observaram que essas internações chegaram a aumentar até oito vezes nos períodos de calor mais intenso. Além disso, Sheridan e Lin (2014) constataram que, além dos picos de hospitalizações durante os eventos iniciais, os efeitos do calor podem persistir por dias após sua ocorrência.
Entre as condições específicas, as doenças cardiovasculares (I00-I99) e as doenças respiratórias (J00-J99) foram amplamente reportadas nos estudos analisados. Estudos como os de Sheridan e Lin (2014) e Tong et al. (2014) relataram que o calor extremo está associado a um aumento tanto na mortalidade quanto na morbidade por essas doenças, especialmente em idosos.
Além disso, os estudos indicaram um aumento significativo na incidência de desfechos adversos entre indivíduos com condições preexistentes, como insuficiência cardíaca e infarto. Da mesma forma, os autores identificaram um aumento expressivo nas hospitalizações por doenças respiratórias, como DPOC e insuficiência respiratória, durante os períodos de ondas de calor.
Por fim, os estudos de Tong et al. (2014)35 e Kent et al. (2014)36 investigaram desfechos gerais associados às ondas de calor, utilizando categorias amplas, como causas não externas (A00-R99). Esses estudos destacaram um aumento significativo de mortes não acidentais e internações hospitalares. Adicionalmente, os autores também identificaram outros desfechos relevantes, como nascimentos prematuros, reforçando que as ondas de calor podem afetar diversas condições de saúde de maneira abrangente.

Tab.3

Discussões
As ondas de calor representam um desafio crescente para a saúde pública, com impactos relevantes na mortalidade e morbidade, sobretudo entre populações vulneráveis, como idosos, indivíduos com doenças crônicas e pessoas em condições socioeconômicas desfavoráveis. Esta revisão destacou avanços no entendimento desses efeitos, mas também revelou lacunas importantes na literatura, especialmente em relação aos estudos que abordam morbidade e agravos específicos associados aos eventos climáticos extremos por onda de calor.
Estudos globais têm mostrado consistentemente que períodos de calor extremo estão associados a aumentos significativos na desidratação, exaustão térmica e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias37–39. Essa relação também se reflete em regiões tropicais, como o Brasil, onde eventos de calor intenso exacerbam condições respiratórias e cardiovasculares, afetando desproporcionalmente os idosos40.
Além dos resultados amplamente reconhecidos, os efeitos das ondas de calor também podem acarretar outros desfechos, ainda pouco explorados, como os partos prematuros. Evidências sugerem que o estresse térmico em gestantes pode aumentar a ocorrência de partos precoces, especialmente em países de baixa e média renda41–43.
Além dos efeitos físicos diretos, as ondas de calor também têm repercussões psicossociais importantes, incluindo o agravamento de transtornos mentais e o aumento do risco de suicídio. Evidências indicam que altas temperaturas estão associadas ao aumento das taxas de suicídio e das internações psiquiátricas durante ondas de calor44. Esse efeito pode ser ainda mais pronunciado entre indivíduos com transtornos mentais pré-existentes, como esquizofrenia e transtornos do humor45. Além disso, o uso de medicações psiquiátricas, como antipsicóticos e estabilizadores de humor, pode comprometer a regulação térmica do organismo, aumentando a vulnerabilidade desses pacientes a temperaturas elevadas46.
Esses efeitos na saúde também se refletem no aumento da demanda por serviços de urgência e internações hospitalares. Um estudo realizado por Nhung et al. (2023)47, no Vietnã, durante o período de 2010 a 2018, identificou que a ocorrência de ondas de calor esteve associada a um aumento de 8,3% nas internações por doenças respiratórias. De forma semelhante, em Hefei, China, altas temperaturas resultaram em aumentos nas admissões hospitalares relacionadas a doenças cardiovasculares durante períodos de calor extremo48.
Nesse sentido, o aumento na demanda por atendimentos pode sobrecarregar os sistemas de saúde, comprometendo a capacidade de atendimento e gerando custos adicionais, tanto em recursos humanos quanto materiais. Assim, os desafios impostos por eventos extremos reforçam a necessidade de fortalecer a capacidade de resposta dos sistemas de saúde para lidar com picos de demanda durante e após a ocorrência de períodos de ondas de calor.
Apesar dos avanços no entendimento dos impactos das ondas de calor na saúde, os resultados deste estudo evidenciam uma lacuna de conhecimento sobre as morbidades associadas ao calor. Destaca-se, ainda, a necessidade de investigações mais detalhadas sobre a categorização desses agravos nos códigos da CID-10, a fim de aprimorar a padronização e a comparabilidade dos dados epidemiológicos. Ademais, grande parte das pesquisas concentra-se em regiões desenvolvidas, como Estados Unidos, Austrália e Europa, enquanto os países em desenvolvimento permanecem pouco investigados, reforçando a necessidade de expandir as pesquisas para incluir agravos que impactam diretamente os sistemas de saúde.
Outro ponto que merece atenção é a duração dos impactos do calor extremo na saúde. Embora não tenha sido amplamente relatado na revisão, há indícios de que os efeitos das ondas de calor na morbimortalidade podem se estender por dias após o término do evento. Esse aspecto ainda pouco explorado reforça a necessidade de investigações que aprofundem a relação entre mudanças climáticas e saúde pública, ajudando a identificar quais doenças tendem a persistir e quais grupos populacionais estão mais vulneráveis a esses efeitos prolongados.
Desse modo, os achados reforçam a necessidade de investigações voltadas para contextos regionais específicos, como o Brasil, que carece de estudos aprofundados sobre os impactos das ondas de calor na morbimortalidade. Pesquisas futuras devem abordar as especificidades regionais e populacionais brasileiras, considerando fatores socioeconômicos e climáticos, a fim de compreender os agravos que afetam a população e subsidiar políticas públicas voltadas para reduzir os impactos das mudanças climáticas na saúde.

Limitações
Foram analisados predominantemente estudos publicados em periódicos acadêmicos, enquanto publicações governamentais e outros documentos técnicos, como relatórios institucionais e dados administrativos, não foram incluídos. No caso do Brasil, por exemplo, publicações governamentais mais recentes poderiam fornecer evidências adicionais sobre os impactos das ondas de calor, mas não foram consideradas nesta revisão devido aos critérios de inclusão adotados.
Além disso, a restrição às bases de dados selecionadas para esta revisão, bem como aos estudos que utilizaram definições específicas de ondas de calor e categorização pela CID-10, reduziram a abrangência dos estudos incluídos. Tais limitações reforçam a importância de estratégias mais inclusivas em futuras revisões.

Considerações finais
Este trabalho teve como objetivo mapear os códigos da CID-10 mais relevantes de morbidades e mortalidades associadas às ondas de calor, identificando aquelas com maior potencial de interesse para a vigilância em saúde pública. Os códigos da CID-10 mais frequentemente identificados incluem doenças do aparelho circulatório (I00-I99), respiratórias (J00-J99), desidratação e exaustão térmica (T67), exposição ao calor excessivo (X30) e depleção de volume (E86). Além disso, foram relatadas associações com transtornos mentais (F00-F99) e desfechos obstétricos, como nascimentos prematuros (P00-P96), evidenciando a abrangência dos impactos do calor extremo na saúde.
Apesar da predominância de estudos sobre mortalidade, há lacunas na literatura sobre morbidade, especialmente no que se refere a hospitalizações, atendimentos emergenciais e agravos não fatais. Além disso, a produção científica sobre este tema é limitada no Brasil, destacando a necessidade de investigações que considerem suas especificidades climáticas e socioeconômicas. Em um cenário de mudanças climáticas e aumento na frequência de ondas de calor, integrar pesquisa, monitoramento e respostas intersetoriais é essencial para ampliar o conhecimento sobre o problema e assim subsidiar a adoção de medidas de gestão do risco decorrente da exposição ao calor extremo e, com isso, reduzir os impactos desses eventos sobre a saúde pública.
Espera-se que as informações aqui apresentadas contribuam para um melhor direcionamento de pesquisas futuras sobre a temática, contribuindo para a formulação e implementação de políticas públicas mais eficazes e promovendo o desenvolvimento de estratégias oportunas, robustas e adaptativas, essenciais para enfrentar os desafios impostos pelos eventos climáticos extremos no presente e em ações futuras.

Declaração de disponibilidade de dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
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Bezerra, AB, Gurgel, H, Santana, EA, Silva, EL, Oliveira, LF, Porto, BL, Miranda, MJ. ONDAS DE CALOR E SAÚDE HUMANA: REVISÃO DE ESCOPO DOS CÓDIGOS CID-10 PARA MORTALIDADE E MORBIDADE. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/fev). [Citado em 03/02/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/ondas-de-calor-e-saude-humana-revisao-de-escopo-dos-codigos-cid10-para-mortalidade-e-morbidade/19937?id=19937

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