0137/2026 - PERCURSOS E PERCALÇOS NA ITINERAÇÃO POR CUIDADO EM SAÚDE NA PANDEMIA DE COVID-19: Manaus como caso emblemático PATHS AND CHALLENGES IN THE ITINERATION FOR HEALTH CARE DURING THE COVID-19 PANDEMIC: Manaus as an emblematic case
O colapso do sistema de saúde de Manaus, na pandemia de covid-19, provocou a transferência de pacientes para outros estados. Este estudo analisou experiências de pacientes e familiares sobre o adoecimento e os itinerários terapêuticos. Trata-se de pesquisa qualitativa do tipo estudo de caso com base na fenomenologia hermenêutica. Foram entrevistados 12 pacientes e 10 familiares, em amostra intencional encerrada por saturação. O medo da doença e de infectar familiares levou ao atraso na busca por atendimento. Os serviços foram vistos como pouco resolutivos e a falta de leitos e oxigênio explicitou o colapso. Diante de ambivalências da gestão da saúde, ativaram-se redes informais de cuidados, levando pacientes e familiares a mobilizarem recursos afetivos, morais e relacionais para orientar decisões. A transferência emergencial para São Luís foi uma estratégia de sobrevivência e o retorno a Manaus trouxe reencontros e frustrações. No entrelaçamento entre relações sociais e emoções, as experiências configuraram-se como formas de compartilhamento e negociação de sentidos em torno do momento vivido. O caráter político e moral do cuidado, evidenciado nas particularidades do caso de Manaus durante um fenômeno global, tensionou os limites da dimensão biomédica na saúde.
Palavras-chave:
covid-19; itinerário terapêutico; experiência de vida; pesquisa qualitativa.
Abstract:
The collapse of the health system in Manaus during the COVID-19 pandemic led to the transfer of patients to other states. This study analyzed the experiences of patients and family members regarding illness and therapeutic itineraries. It is a qualitative case study grounded in hermeneutic phenomenology. Twelve patients and ten family members were interviewed, using an intentional sample closed by saturation. Fear of the disease and of infecting relatives led to delays in seeking care. Health services were perceived as having low problem-solving capacity, and the shortage of beds and oxygen made the collapse evident. Faced with ambivalences in health management, informal care networks were activated, prompting patients and families to mobilize affective, moral, and relational resources to guide decisions. Emergency transfer to São Luís emerged as a survival strategy, and the return to Manaus brought both reunions and frustrations. In the interweaving of social relations and emotions, the experiences took shape as forms of sharing and negotiating meanings around the lived moment. The political and moral nature of care, highlighted in the particularities of the Manaus case during a global phenomenon, strained the limits of the biomedical dimension in health.
Keywords:
covid-19; therapeutic itinerary; life experience; qualitative research.
Conteúdo:
Introdução
A pandemia de covid-19 trouxe impactos significativos nas esferas política, social e econômica, com repercussões graves na área da saúde. Entre 2021 e 2022 foram mais de 418,6 milhões de casos confirmados e 5,8 milhões de mortes em todo o mundo. Só em 2022, foram confirmados 349.641.119 casos de covid-19. A maior incidência acumulada da doença foi apresentada na Europa, mas as Américas apresentaram a maior taxa de mortalidade, 14.039,95 mortes/ 100.000 habitantes1,2.
No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, de fevereiro de 2020 a maio de 2023, ocorreram 37.511.921 casos confirmados e 702.116 óbitos pela doença3. Tal fenômeno provocou impactos distintos, exacerbando desigualdades preexistentes no cenário nacional, afetando regiões, cidades e grupos sociais de diferentes formas4. De janeiro a agosto de 2025, a incidência de casos covid-19 foi de 116,43/100 mil habitantes5.
Em março de 2025, foi aprovado o primeiro Acordo sobre Pandemias6. As dificuldades para a construção de um plano de saúde sanitária global para eventos futuros revelam os complexos entrelaçamentos entre fatores críticos que sustentam as causas e os desdobramentos das desigualdades7,8.
O Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta desafios para garantir o acesso igualitário a serviços de saúde. As disparidades regionais em termos de infraestrutura, recursos humanos e financiamento impactam na qualidade e disponibilidade dos serviços de saúde4. As respostas à emergência sanitária da pandemia adotadas pelos diferentes estados do país ampliaram tais dificuldades4,9.
Na região Norte essas desigualdades foram mais pronunciadas. Manaus, capital do Estado do Amazonas, apesar de apresentar o maior PIB da região, possui o Índice de Desenvolvimento Humano de 0,736, abaixo da média nacional10. Segundo a Fiocruz, o Amazonas apresentou baixa capacidade hospitalar para tratar casos graves desde a primeira onda e, especialmente, a partir de janeiro de 202111.
Manaus tornou-se o epicentro da doença, caracterizado pelo colapso do sistema de saúde12, definido por altas taxas de ocupação de leitos hospitalares, número crescente de casos, falta de respiradores e cilindros de oxigênio13. Esta conjunção resultou no registro da maior média diária de casos registrados no país, 2.927, e 157 mortes, em janeiro de 202114.
As causas atribuídas para o ocorrido incluem o relaxamento das medidas de isolamento social e o aumento da transmissão comunitária, devido à reabertura das escolas e do comércio em setembro de 2020, antes do início da vacinação15, assim como a demora na adoção de estratégias a exemplo da abertura de novos leitos, compra de insumos e equipamentos. Outro agravante foi a identificação da variante Gamma (P1), considerada com maior potencial de reinfecção16.
A aposta das autoridades sanitárias locais na “imunidade de rebanho”, teoria de que parte da população após imunização ou contaminação adquire anticorpos contra a doença e indiretamente protege a população não infectada, consistiu em discurso e práticas adotadas no início da pandemia, antes da vacinação, desestimulando comportamentos de proteção, como evitar aglomerações e o uso de máscaras15,16.
Para mitigar os danos foi instituído o “Plano de Ações Emergenciais”17, uma “força tarefa” estabelecido entre distintas esferas do governo, incluindo o Ministério da Saúde, as secretarias de saúde do Estado do Amazonas e a prefeitura de Manaus. Este plano consistiu em um pacto de cooperação entre doze estados para receberem pacientes com quadro clínico moderado. Assim, em janeiro foram transportados, por via aérea, 341 pacientes internados em Manaus. São Luís (MA), na região Nordeste, foi um dos destinos17.
Estudos qualitativos sobre a pandemia covid-19 em Manaus são escassos. Destaca-se uma análise de itinerários terapêuticos e das interrelações entre os subsistemas familiar, popular e profissional18. O presente estudo amplia esse olhar ao incluir os caminhos percorridos em busca de cuidados, delineando redes articuladas entre profissionais de saúde, usuários e familiares frente aos desafios enfrentados durante a crise sanitária com a transferência para outro estado. A partir das experiências de pacientes e familiares foi possível perceber a articulação de diversas escalas (individual-coletivo; local-global) de um mesmo fenômeno19.
Este estudo analisou a perspectiva de pacientes e de seus familiares acerca de itinerários terapêuticos e experiências de adoecimento em situação de colapso do sistema de saúde.
Métodos
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória20, do tipo estudo de caso21, que busca compreender fenômenos complexos e singulares — situações ou experiências — em seu contexto, considerando a interação entre sujeitos, práticas e instituições, com foco na interpretação dos significados, relações e processos sociais21.
O caso deste estudo corresponde aos movimentos na busca por cuidados, durante o colapso do sistema de saúde de Manaus, que resultou na transferência para um Hospital em São Luís, na segunda onda da pandemia.
O referencial teórico-metodológico adotado foi a perspectiva fenomenológica-hermenêutica, centrada nos conceitos de experiência de adoecimento, itinerário terapêutico e itineração, a partir da perspectiva de pacientes e familiares.
Na análise fenomenológica, a experiência diz respeito ao modo de ser do sujeito no mundo; está situada no tempo e no espaço; está encarnada (embodiment) como fenômeno ligado ao corpo e o significado vinculado à ação. Na perspectiva hermenêutica, o corpo, a compreensão e a intersubjetividade estão interligadas entre si de modo que compreender é uma experiência vivida pelo próprio sujeito em sua relação com o mundo22.
O adoecimento marca rupturas com as formas de entendimento da vida cotidiana. As incertezas nos processos de adoecer e lidar socialmente com a enfermidade implicam nas decisões que constroem o itinerário terapêutico, descrevendo o fluxo de circulação dos pacientes na busca por cuidados em saúde e nos processos de escolha, avaliação e adesão às formas de tratamento23.
Considerar os caminhos como linhas criadas a partir da interação entre pacientes, familiares e profissionais de saúde em situações específicas constitui a proposta de investigar a itineração24, conceito que aborda o movimento dinâmico, processual e flexível construído pelos indivíduos durante o percurso terapêutico.
Os sentidos que orientam a ação na busca por cuidados, os encontros mobilizados em momentos de aflição e de incertezas, resultam em improvisações que contribuem para redesenhar e reconfigurar o sistema de saúde tal como planejado por gestores25. Na itineração, ao mesmo tempo que os indivíduos se movimentam com base nas disponibilidades circunstanciais, compartilham pensamentos, valores, atitudes e explicações sobre a doença em suas interações sociais24.
As emoções são fenômenos situados no corpo, padrões de sentimento e ação aprendidos socialmente e internalizados. Neste trabalho foi abordada a perspectiva contextualista que encara a emoção como um construto histórico-cultural que emerge na interação social envolvendo relações de poder, estruturas hierárquicas ou igualitárias, concepções de moralidade e demarcações de fronteiras entre os grupos sociais26. Nesse sentido, as emoções realizam o trabalho micropolítico de dramatizar, reforçar ou subverter as relações sociais presentes nas interações interpessoais26.
A pesquisa foi desenvolvida no período de janeiro a junho de 2023, buscando os pacientes internados, no início de 2021, no HU-UFMA em São Luís (MA), que disponibilizou leitos e recebeu 39 pacientes procedentes de Manaus.
A seleção da amostra partiu desses 39 pacientes (Figura 1) dos quais 12 foram entrevistados. Adotou-se a amostragem intencional; a coleta de dados foi encerrada por saturação, atingida a partir da oitava entrevista. Os familiares foram selecionados com base em indicações dos próprios pacientes, e, entre os contactados, 10 aceitaram participar.
O convite aos pacientes ocorreu via aplicativo WhatsAppR, quando eram informados sobre a pesquisa. A técnica utilizada para a coleta de dados foi a entrevista semiestruturada, realizada a partir de dois instrumentos: questionário sociodemográfico e roteiro com questões relacionadas à percepção do adoecimento, estratégias na busca por cuidados, experiência na assistência hospitalar em Manaus e em São Luís e o retorno para casa.
Pesquisadoras com expertise em pesquisa qualitativa e sem relação prévia com os entrevistados, realizaram as entrevistas com duração média de 50 minutos, que foram gravadas por intermédio da plataforma Google Meet e posteriormente transcritas. Em um caso, a entrevista foi realizada em espanhol, por se tratar de um paciente venezuelano. A mediação digital possibilitou o encontro das pesquisadoras, residentes em São Luís, com os entrevistados que já estavam em Manaus.
A técnica de análise de conteúdo voltou-se à identificação de unidades temáticas e à formulação dos núcleos de sentido. O processo analítico ocorreu de forma coletiva e dialógica em um movimento contínuo entre teoria, dados empíricos e perspectiva hermenêutica. A partir dessa dinâmica, os resultados foram estruturados em categorias27.
Abordar um tema delicado como a experiência de adoecimento por covid-19, por meio de tecnologia digital poderia provocar sofrimento sem a possibilidade de mediação presencial. Todavia, segundo os participantes a escuta de suas experiências possibilitou reflexões sobre os eventos vividos.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, com CAAE nº: 46698921.5.0000.5086. Os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, sendo identificados por nomes fictícios e os familiares pelo grau de parentesco. Foram adotadas as recomendações do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research – COREQ.
Resultados e discussões
Dos 12 pacientes entrevistados, seis homens e seis mulheres, dez tinham idade igual ou superior a 50 anos. A maioria dos familiares entrevistados era de mulheres com diferentes relações de parentesco, como irmãs, filha, neta e esposas. Apenas o estrangeiro, referenciou uma amiga, da mesma nacionalidade, por não ter familiares no Brasil (Quadro 1).
A análise das entrevistas resultou nas seguintes categorias: Percepção do adoecimento e estratégias iniciais; Colapso do sistema de saúde: Manaus como "campo de guerra"; Transferência: uma questão de vida ou morte; Acolhimento em São Luís e Retorno para casa: emoções contraditórias.
Percepção do adoecimento e estratégias iniciais
A percepção do adoecimento por covid-19 esteve marcada pelas festividades de final de ano. Os entrevistados relataram suspeitas de infecção, antes da confirmação do diagnóstico.
“No dia 31 de dezembro de 2020, nós comemoramos aquele final de ano. Compartilhamos com alguns vizinhos. E aí, foi quando eu caí nisso” (Joaquim).
Ao situar o início do adoecimento no contexto das comemorações de fim de ano, os participantes reconstruíram simbolicamente o episódio. A associação entre adoecimento e festividade teve caráter contraditório, sendo visto como o evento desencadeador do sofrimento22.
No início de 2021 já era propagada a emergência de uma nova variante mais transmissível, assim como o aumento do número de casos e da taxa de mortalidade13,14. As situações referem-se à “segunda onda” da pandemia, marcada por maior informação sobre o risco de contágio, sinais e sintomas. Embora a vacinação já tivesse sido iniciada, a doença continuava a gerar insegurança, sobretudo, entre pacientes com mais de 50 anos, que temiam por sua saúde e de seus familiares.
“O que passou pela minha cabeça foi um desespero, uma angústia. Eu só pensava nos meus pais! Porque eu sabia que se um dia eles pegassem covid, eles não iriam resistir” (Paula).
"Eu já estava apavorada. E se eu levar? E se eu não for? Se vou para o hospital, vou contrair o vírus” (Irmã de Paula).
A experiência de adoecimento envolveu uma ampliação da consciência do contágio e das consequências sociais da doença, organizada também em torno do cuidado com o outro22. Pesquisas qualitativas28,29 com pacientes infectados pela covid-19 mostraram que os significados atribuídos à doença estavam ligados a sentimentos de incerteza e em relação ao temor da morte e à contaminação de familiares. Esses sentimentos não apenas moldaram percepções, mas também decisões e estratégias de busca por cuidado.
Para os entrevistados a evitação inicial de buscar assistência estava relacionada ao receio de contaminação nas unidades de saúde superlotadas. Entre os familiares havia um dilema, pois o acompanhamento nos serviços representava risco de infecção.
“Aqui em Manaus estava tudo lotado. Eu não queria ir porque você já tá ruim e chegar num local onde não tem vaga dá uma sensação de: ‘Eu não sou nada, eu não sou ninguém e não tem ninguém por mim’”(Amélia).
A hermenêutica permitiu compreender discursos como testemunhos de vivências que redefiniram os sentidos naquele contexto: o hospital como espaço de risco e exclusão, inverteu o seu sentido de cuidado e o adoecimento foi vivido como desamparo, uma perda de lugar no mundo22.
Alguns pacientes chegaram a monitorar seus sintomas em casa e só buscaram serviço de saúde frente à piora do quadro:
"Passei cinco dias me tratando em casa, seguindo os protocolos que eram orientados pelos meios de comunicação. E, mesmo assim, eu não tive êxito. Eu vi que estava sem ar, piorando muito, foi quando busquei o atendimento em um hospital público" (José).
“Fiquei tomando remédio e só piorando, até que chegou um tempo que não conseguia nem levantar mais da cama” (Mateus).
A desconfiança na capacidade de resposta do sistema de saúde e o incentivo das mídias sociais para automedicação, delinearam modos de ação: os entrevistados buscaram reordenar os cuidados com base em recursos disponíveis no cotidiano até que o risco de agravamento da doença e de suas consequências tornou-se concretamente maior, marcando a busca de cuidados nas redes institucionais.
A busca por cuidados aconteceu primeiramente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPAS), os pacientes mencionaram sucessivas idas e vindas e o uso do “kit covid”:
“Eu fui na UBS, me passaram remédio. Voltei, fiquei tomando, não passava nem a tosse, nem nada. Retornei à UBS. De novo, a mesma coisa, passaram remédio, mas não passava aquela tosse. E depois, fui ao Pronto-Socorro, só que não tinha vaga. Só me passaram remédio também. De lá me levaram pra uma clínica particular, fizeram exame e meu pulmão tava todo infectado” (Mateus).
“Tem um pronto-socorro próximo da minha casa. Eu cheguei lá, estava sentindo muita falta de ar, muita dor de cabeça, quando o médico me olhou. Aí, me deu um kit de Manaus, mas esse kit não resolvia mais nada!” (Lucas).
“Me deram o kit Manaus: cloroquina, azitromicina e o outro lá, de verme” (Joaquim)
Os relatos indicam que o início da itineração por cuidado foi marcado por uma sequência de atendimentos não resolutivos e centrados em práticas medicamentosas. A prescrição do “kit covid” em unidades de saúde tornou-se um “padrão” de tratamento.
Naquele contexto não havia evidências científicas de que as farmacoterapias disponíveis eram eficazes contra a covid-1930. A OMS recomendava medidas não farmacológicas, como isolamento social e monitoramento dos sintomas, e, em caso de agravamento do quadro clínico, a procura dos serviços de saúde30.
No entanto, em 2020, o governo federal brasileiro incentivou o uso destes medicamentos30 e o Ministério da Saúde emitiu protocolos recomendando o tratamento precoce com cloroquina, mesmo em casos leves31. Esses fármacos foram amplamente utilizados sem monitoramento de reações adversas e o aplicativo TrateCOV, adotado pela Secretaria de Saúde do Amazonas, automatizava a prescrição do “kit covid” com base nos sintomas informados pelos profissionais32,33.
As propostas de prevenção e tratamento da covid-19 veiculadas por autoridades sanitárias globais, nacionais e locais eram contrastantes entre si. O risco, como fenômeno construído e experienciado socialmente, criou imperativos morais para a ação que se somou à ideia de emergência7. O “kit covid” configurou-se como um símbolo de disputa entre ciência e política em meio à incerteza gerada pela infodemia31.
Colapso do sistema de saúde: Manaus como "campo de guerra"
Pacientes e familiares relataram que mesmo regulados para UPAS e hospitais especializados continuaram a peregrinação. O agravamento do estado de saúde e as dificuldades encontradas foram constituindo a percepção do colapso.
“A rede hospitalar de Manaus estava super colapsada naquela época, porque nem o número de ambulâncias dava para procurar os pacientes. A ambulância nunca chegou, foi quando tomei a decisão de pegar um táxi” (Joaquim).
“Naquele dia em Manaus estava um caos. Não tinha mais como entrar em nenhum hospital. Pense num local assim... como aqueles filmes de zumbi. Muita gente chorando, pessoal na cadeira de rodas… a enfermeira falou: ‘Não tem mais como colocar seu filho pra dentro’” (Lucas).
Não havia mais leitos disponíveis, o número de profissionais de saúde era insuficiente e havia escassez de insumos, como cilindros de oxigênio34,35. Nesse contexto, famílias com recursos materiais o adquiriram por conta própria, enfrentando altos custos e filas de espera. A partir de então, o Governo Federal mobilizou recursos emergenciais para o transporte de cilindros por meio da Força Aérea Brasileira (FAB)35.
Frente às dificuldades de acesso a cuidados especializados, os entrevistados adotaram diferentes estratégias, como recorrer a conhecidos que trabalhavam na saúde ou utilizar sua condição de pacientes já acompanhados por comorbidades pré-existentes em outros serviços, para conseguir atendimento.
“Vai lá na UPA, a minha mulher tá te esperando e ela vai te colocar logo na frente [ouviu de um amigo]’. Aí, chegando lá, entrei direto com o médico, que disse: ‘deita aqui, cara’. E de lá, ele já me mandou para internação” (Pedro).
“Em 2018 eu tive um câncer de mama. Então, pelo câncer de mama, eu tinha a emergência do X. (Amélia).
A mobilização de redes de apoio e de conhecimentos prévios sobre o funcionamento do sistema de saúde constituem ações denominadas “redes intersticiais”. Essas práticas situadas entre as estruturas formais do sistema de saúde e os arranjos informais, ao se articularem, moldam as itinerações24,25.
Em janeiro de 2021, a situação foi descrita por pacientes e familiares como “cena de guerra”, pela escassez de recursos humanos, materiais, sobretudo oxigênio, e sobrecarga de trabalho dos profissionais de saúde.
“Parecia que eu estava num campo de guerra. Desespero total, entrando mais de 40 pessoas por dia" (João).
“Disseram ‘Manaus vai sofrer um caos’. Eu respondi: ‘Um caos? Como assim?’ ‘Não tem mais oxigênio’. Eu já comecei a me apavorar. Falei pra minha filha: ‘Temos que conseguir oxigênio’. Era um desespero, se você visse a porta do hospital, estava o tempo todo saindo pessoas mortas” (Irmã de Paula).
“O nosso Amazonas não estava preparado para tratar essa doença. A gente vê pelo nível de casos que teve aqui. Então, saturou os hospitais, mesmo com os médicos, enfermeiros, plantonistas, estando ali, dando o seu sangue, né?” (Esposo de Amélia).
O aumento da ocupação de leitos clínicos na rede pública e privada foi de 101% e 81%, respectivamente, e da ocupação de leitos de UTI de 93% e 97%13,14. Houve a contratação de novos profissionais36, mas o caos já estava instalado. Frente à demanda, pacientes e familiares reconheceram os esforços de profissionais que, no entanto, foram insuficientes.
A associação do hospital à guerra, ao desespero e ao caos revela a violência vivida por usuários e profissionais, contradizendo sua concepção moderna como espaço terapêutico, disciplinar e produtor de saber37.
Devido às normas sanitárias de isolamento, a comunicação entre pacientes e familiares era prejudicada. Algumas famílias chegaram a contratar profissionais dos mesmos hospitais que, em suas folgas, cuidavam dos pacientes e atuavam como elo de comunicação. Adoecimento, negociação e sofrimento entrelaçam as trajetórias dos pacientes e seus familiares.
“E quem estava lá fora também não sabia do que nós estávamos passando lá dentro. [...] Minha neta contratou uma pessoa para ficar me vendo no hospital” (Maria).
“Liga pra família aqui fora e vamos dar um jeito, tem que conseguir bala [oxigênio]” (Irmã de Paula).
Mesmo no “campo de guerra” as desigualdades se fizeram presentes. Quem tinha mais recursos, pode comprar oxigênio e/ou pagar um profissional de saúde para garantir informações sobre o estado de saúde do familiar.
No contexto da covid-19, parte da literatura destacou as relações entre usuários e profissionais de saúde sob as noções de falha, fragmentação e limitação do acesso a informações, destacando o despreparo e vulnerabilidade do sistema de saúde28,29.
A noção de itineração24 possibilita outra abordagem, pois considera a circulação de usuários pelos serviços, incluindo suas estratégias, negociações e tomadas de decisão, como linhas tecidas entre estes, seus familiares e profissionais em movimentos que incorporam improvisações em situações críticas. Este olhar não atribui valor normativo aos caminhos traçados por movimentos que não correspondem ao planejado por gestores.
Transferência: uma questão de vida ou morte
Em Manaus, órgãos governamentais emitiram nota técnica orientando a transferência de pacientes para hospitais em outras cidades17. Pacientes e familiares foram contatados para autorizar essa medida.
“Veio a proposta pela direção do hospital. Então, foi comunicado à minha família primeiramente, depois a mim, se eu aceitava ser transferido para outro estado, que teria uma maior capacidade de receber a mim e um grupo” (José).
Familiares, profissionais e gestores mobilizaram-se conjuntamente para viabilizar a transferência dos pacientes. Um processo descrito como uma questão de “vida ou morte".
“Você sair num momento como esse, de perto da sua família... mas também com a esperança de ir pra um lugar sabendo que teria uma estrutura mais adequada mesmo estando longe de seus familiares. O sentimento de todo mundo era buscar a vida” (José).
Os pacientes foram informados que nem todos eram elegíveis para transferência. Era necessário apresentar uma condição relativamente estável para suportar a viagem.
“A assistente social falou, que só iam aquelas pessoas que tivessem uma saturação boa pra fazer a viagem” (Rita).
O caráter emergencial da crise exigiu ações imediatas naquela situação inusitada24,25 que produziram movimentos não lineares entre gestores, profissionais de saúde, pacientes e familiares impactando nas experiências vividas.
A transferência foi coordenada pelo Governo Federal por meio de um Plano de Cooperação17. Os pacientes foram trasladados em aviões da FAB, acompanhados por profissionais de saúde, sem a presença de familiares. Incertezas e outros imprevistos fizeram parte do percurso.
“Quando eu entrei no avião, eu não sabia exatamente para onde eu estava indo (...) Então, eu fiquei perdida” (Maria).
“Nós embarcamos no avião da FAB. Todo mundo aflito (Antônia).
Na perspectiva de familiares, a gestão da transferência envolveu a indefinição quanto ao destino e a impossibilidade de acompanhá-los. Houve mobilizações para obtenção de recursos financeiros para o custeamento de suas viagens em voos comerciais, hospedagens e redes de oração à distância. Foi este engajamento que possibilitou as redes intersticiais25.
Os sentidos do cuidar em saúde compreendem práticas e disposições que envolvem dimensões biológicas, psicológicas e culturais interagindo em um mesmo processo, formando redes25. Esse encontro entre diferentes atores no processo de atenção à saúde vai além das questões biológicas e técnicas, evidenciando uma dimensão relacional essencial ao cuidado24,25.
Acolhimento em São Luís
O contraste entre o caos vivenciado em Manaus e as condições encontradas em São Luís moldou a experiência dos entrevistados sobre o atendimento recebido. A difícil experiência anterior intensificou o impacto positivo de vivenciar um “acolhimento profundo” durante a internação no HU-UFMA.
“Quando eu cheguei no hospital, já me colocaram na maca… não sei nem te explicar! Foi coisa de cinema. Eles foram muito profissionais mesmo, começando pelo maqueiro e o resto. O médico falou: ‘Dá esse medicamento, vê se ele reage’. Eu fui com a segurança que eu estava bem” (Pedro).
A presença constante dos profissionais nos leitos, prestando cuidados e averiguando suas necessidades, a disponibilização de recursos tecnológicos para a comunicação com os familiares foram percebidos como algo excepcional, que ia “além da assistência”:
“Aquilo ali foi muito forte pra mim, assim, como um acolhimento profundo. Tipo assim: ‘tu tá perdida, eu tô aqui contigo (...)’. Eles conversavam muito comigo, era uma equipe assim de tudo” (Maria).
A confiança no serviço ofertado e o sentimento de gratidão aos profissionais foram vistos como essenciais na recuperação dos pacientes. Os familiares também compartilharam a gratidão aos profissionais que possibilitaram a comunicação diária, por vídeo chamada, com os pacientes internados.
“Foi uma experiência que não tenho nem palavras pra descrever por que acolheram com amor as pessoas desde a chegada. O funcionário da limpeza, o médico... o tratamento foi muito bom e isso tudo fez a diferença na recuperação dela” (Esposo da Amélia).
Após a alta médica, o retorno a Manaus ficou pendente dos trâmites para aquisição das passagens aéreas pelo Governo do Amazonas, resultando em uma permanência adicional no hospital. Durante esse período, profissionais e gestores mobilizaram-se para proporcionar momentos de lazer, organizando visitas a pontos turísticos próximos ao hospital.
“Me levaram na praia, no mar. Me levaram para igreja. Eu tenho uma foto na igreja. Já tava andando; pegando solzinho na praia” (Joana).
Ao abordarem este tema que reúne sofrimento e gratidão, muitos entrevistados faziam questão de compartilhar com as entrevistadoras, vídeos, fotos dos passeios e objetos simbólicos, como lembranças entregues pelos profissionais.
As “linhas da vida” que se entrelaçaram no contexto da itineração24,25 promoveram potentes laços de afetos e engajamentos entre profissionais de saúde e pacientes. Uma visão ampliada do cuidado24 permite ultrapassar fronteiras demarcadas pela hierarquia e pelo distanciamento entre usuários e profissionais e vislumbrar a acolhida terapêutica e afetiva realizada por profissionais de saúde naquele contexto de tratamento em situação de crise sanitária, numa cidade desconhecida e sem familiares.
Retorno para casa: emoções contraditórias
A maioria dos pacientes recebeu alta em fevereiro de 2021, com o retorno a Manaus ocorrendo em pequenos grupos, conforme liberação médica. O translado foi realizado em voos comerciais custeados pelo Governo do Amazonas, sem o acompanhamento de profissionais de saúde, diferentemente da ida para São Luís.
“Me deixaram no aeroporto de São Luís. Eu estava muito debilitada e não poderia falar que tinha tido covid. Eu pensei que era rápido, só que eu não sabia que tinha conexão com São Paulo. Aquele aeroporto é imenso e eu perguntava e as pessoas davam informação errada” (Rita).
“Graças a Deus eu fui nesse voo. A minha mãe sem poder andar direito... eu tive que arranjar cadeira de rodas. Pedi pra que todos eles [outros pacientes] pudessem ter preferência para entrar no avião, e eles não se alimentaram” (Filha de Maria).
Apesar da alta médica, os pacientes ainda se sentiam frágeis. Quase metade descreveu o retorno a Manaus como uma experiência angustiante, marcada por exposição e discriminação por parte de outros passageiros. O sentimento de desamparo foi recorrente entre os relatos.
Na chegada dos pacientes em Manaus, as famílias foram instruídas a ficar em casa à espera deles. Estiveram no local de desembarque para recebê-los, representantes do governo estadual e da imprensa local e o retorno para suas casas aconteceu através de um transporte exclusivo fornecido pelo governo. Alguns entrevistados relataram descontentamento, pois acreditavam tratar-se de uma estratégia para minimizar as experiências vivenciadas no “cenário de guerra” em Manaus.
"No aeroporto, tinha a imprensa lá. Eu acho, não tenho certeza, que foi para fazer uma média" (Pedro).
Em contrapartida, o reencontro com os familiares foi atravessado por sentimentos de alegria e alívio.
“Eu só pensava quando cheguei: ‘meu Deus, eu vou voltar pra minha casa, pros meus familiares’. E foi assim, muito emocionante. Sem palavras. Foi muita alegria” (Paula).
Após um ano (momento da realização da pesquisa), a maioria dos pacientes relatou a convivência com sequelas que afetavam seus corpos. Alguns relataram mudanças em seus hábitos de vida, uma atitude tomada em conjunto entre pacientes que se tornaram amigos.
"Me deixou sequelas. Meu ouvido dói muito e eu tenho muito esquecimento. De vez em quando meus ossos doem muito” (Antônia).
"Eu e esses amigos, nos falamos até hoje, a maioria tinha problema de diabetes, bebia muito, não praticava exercício físico. No meu caso, obesidade. Resolvemos mudar, então desde que eu voltei, eu fui fazer fisioterapia pós-covid, passei um ano ainda muito ruim, mas consegui perder vinte e cinco quilos” (José).
Para algumas pessoas as consequências da pandemia persistem, pois precisam lidar com as incertezas em relação à saúde, perdas de amigos e familiares e a reconstrução de suas vidas. Os impactos da covid-19 naqueles que sobreviveram são considerados multidimensionais, criando necessidades de ações de cuidado intersetorial, a fim de garantir amparo frente às sequelas da doença38. O cuidado em saúde após a covid-19 pode ser ressignificado e possibilitar uma abordagem mais ampla do modelo biomédico39.
Considerações finais
Nesta pesquisa privilegiamos olhar para o sistema de saúde a partir de experiências de adoecimento e de itinerários de cuidado em contexto de crise sanitária. Este caminho nos possibilitou analisar as relações entre usuários, familiares e profissionais de saúde, enfocando engajamentos, improvisações e tomadas de decisão direcionadas à solução de problemas práticos provocados por um fenômeno novo, com alcance global e grande impacto, a pandemia de covid-19, a partir de um caso dramático, como o de Manaus.
A doença e as aflições possibilitaram o acesso às tramas que marcaram desde as estratégias de pacientes e familiares em busca de assistência até os efeitos da gestão ambivalente do Estado. Considerar o cuidado como uma categoria situacional possibilitou compreender ações mais fluidas, incluindo processos de saúde e doença, itinerários, percepções, mobilizações por parte de usuários, familiares e profissionais, levando em conta o caráter político e moral do cuidado e, por isso, rompendo fronteiras com a dimensão biomédica associada à saúde.
As experiências na pandemia de covid-19 tiveram o medo como fio condutor e também foram marcadas por angústias, sofrimento e gratidão. As emoções, como uma gramática, são tributárias das relações sociais e do contexto em que emergem. Não têm uma natureza universal, tampouco são espontâneas e provenientes da singularidade de cada indivíduo. Foram tecidas nas trajetórias, compartilhadas, negociadas e apresentadas nas narrativas em torno do cuidado.
Compreender este “caos” pela ótica de pacientes e familiares que enfrentaram percursos e percalços em suas itinerações em busca de assistência é realizar o esforço de problematizar numa dimensão micro, um fenômeno global sem perder de vista suas articulações.
Este estudo apresenta algumas limitações. As entrevistas em formato online podem ter dificultado a criação de um ambiente de maior proximidade entre pesquisador e participante. Além disso, não foi possível entrevistar familiares de dois pacientes inicialmente previstos. O tempo decorrido entre a experiência vivida e o momento da entrevista pode ter levado a reelaborações e esquecimentos. Entretanto, entendemos que estas alterações fazem parte do processo de construção das experiências. Apesar dessas limitações, as narrativas obtidas permitiram compreender as experiências de adoecimento, cuidado e deslocamento vividas no contexto da pandemia.
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PATHS AND CHALLENGES IN THE ITINERATION FOR HEALTH CARE DURING THE COVID-19 PANDEMIC: Manaus as an emblematic case
Resumo (abstract):
The collapse of the health system in Manaus during the COVID-19 pandemic led to the transfer of patients to other states. This study analyzed the experiences of patients and family members regarding illness and therapeutic itineraries. It is a qualitative case study grounded in hermeneutic phenomenology. Twelve patients and ten family members were interviewed, using an intentional sample closed by saturation. Fear of the disease and of infecting relatives led to delays in seeking care. Health services were perceived as having low problem-solving capacity, and the shortage of beds and oxygen made the collapse evident. Faced with ambivalences in health management, informal care networks were activated, prompting patients and families to mobilize affective, moral, and relational resources to guide decisions. Emergency transfer to São Luís emerged as a survival strategy, and the return to Manaus brought both reunions and frustrations. In the interweaving of social relations and emotions, the experiences took shape as forms of sharing and negotiating meanings around the lived moment. The political and moral nature of care, highlighted in the particularities of the Manaus case during a global phenomenon, strained the limits of the biomedical dimension in health.
Palavras-chave (keywords):
covid-19; therapeutic itinerary; life experience; qualitative research.
PERCURSOS E PERCALÇOS NA ITINERAÇÃO POR CUIDADO EM SAÚDE NA PANDEMIA DE COVID-19: Manaus como caso emblemático
PATHS AND CHALLENGES IN THE ITINERATION FOR HEALTH CARE DURING THE COVID-19 PANDEMIC: Manaus as an emblematic case
CAMINOS Y OBSTÁCULOS EN LA RUTA DE ATENCIÓN A LA SALUD DURANTE LA PANDEMIA COVID-19: Manaos como caso emblemático
Nome: Marcela Lobão de Oliveira
E-mail: marcela.lobao@ufma.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0508-7980
Nome: Laura Froes Nunes da Silva
E-mail: laura.froes@discente.ufma.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6741-0344
Nome: Rodrigo Natan do Nascimento Almeida
Email: rodrigo.nna@discente.ufma.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5052-3289
Nome: Ruth Helena de Souza Britto Ferreira de Carvalho
E-mail: ruth.britto@ufma.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1180-1586
Resumo
O colapso do sistema de saúde de Manaus, na pandemia de covid-19, provocou a transferência de pacientes para outros estados. Este estudo analisou experiências de pacientes e familiares sobre o adoecimento e os itinerários terapêuticos. Trata-se de pesquisa qualitativa do tipo estudo de caso com base na fenomenologia hermenêutica. Foram entrevistados 12 pacientes e 10 familiares, em amostra intencional encerrada por saturação. O medo da doença e de infectar familiares levou ao atraso na busca por atendimento. Os serviços foram vistos como pouco resolutivos e a falta de leitos e oxigênio explicitou o colapso. Diante de ambivalências da gestão da saúde, ativaram-se redes informais de cuidados, levando pacientes e familiares a mobilizarem recursos afetivos, morais e relacionais para orientar decisões. A transferência emergencial para São Luís foi uma estratégia de sobrevivência e o retorno a Manaus trouxe reencontros e frustrações. No entrelaçamento entre relações sociais e emoções, as experiências configuraram-se como formas de compartilhamento e negociação de sentidos em torno do momento vivido. O caráter político e moral do cuidado, evidenciado nas particularidades do caso de Manaus durante um fenômeno global, tensionou os limites da dimensão biomédica na saúde.
Palavras-chave: covid-19; itinerário terapêutico; experiência de vida; pesquisa qualitativa.
Abstract
The collapse of the health system in Manaus during the covid-19 pandemic led to the transfer of patients to other states. This study analyzed the experiences of patients and family members regarding illness and therapeutic itineraries. It is a qualitative case study grounded in hermeneutic phenomenology. Twelve patients and ten family members were interviewed, using an intentional sample closed by saturation. Fear of the disease and of infecting relatives led to delays in seeking care. Health services were perceived as having low problem-solving capacity, and the shortage of beds and oxygen made the collapse evident. Faced with ambivalences in health management, informal care networks were activated, prompting patients and families to mobilize affective, moral and relational resources to guide decisions. Emergency transfer to São Luís emerged as a survival strategy, and the return to Manaus brought both reunions and frustrations. In the interweaving of social relations and emotions, the experiences took shape as forms of sharing and negotiating meanings around the lived moment. The political and moral nature of care, highlighted in the particularities of the Manaus case during a global phenomenon, strained the limits of the biomedical dimension in health.
Keywords: covid-19; therapeutic itinerary; life experience; qualitative research.
Resumen
El colapso del Sistema de Salud de Manus, en la pandemia covid-19, ocasionó el traslado de pacientes para otros Estados. Este estudio analizó la experiencia con respecto a enfermar y los itinerarios terapéuticos de pacientes y familiares. Se trata de un estudio de caso cualitativo basado en la fenomenología hermenéutica. Se entrevistó a doce pacientes y diez familiares en una muestra intencional que se cerró al alcanzar la saturación. El temor a la enfermedad y al contagio de los familiares provocó retrasos en la búsqueda de atención médica. Los servicios se percibieron como insuficientemente eficaces, y la falta de camas y oxígeno puso de manifiesto el colapso. Ante la ambivalencia en la gestión de la atención médica, se activaron redes informales de apoyo, lo que llevó a pacientes y familias a movilizar recursos afectivos, morales y relacionales para orientar sus decisiones. El traslado de emergencia a São Luís fue una estrategia de supervivencia, y el regreso a Manaus trajo consigo tanto reencuentros y frustraciones. En el entrelazamiento entre relaciones y emociones, las experiencias se configuraron como formas de compartir y negociar el significado del momento vivido. El carácter político y moral de la atención, evidenciada en las particularidades del caso de Manaos durante un fenómeno global, puso a prueba los límites de la dimensión biomédica en la salud.
Palabras Clave: covid-19; itinerario terapéutico; experiencias de vida; investigación cualitativa.
Introduction
The covid-19 pandemic had a significant impact in the political, social and economic areas, with serious repercussions for public health. Between 2021 and 2022, there were more than 418.6 million confirmed cases and 5.8 million deaths worldwide. In 2022 alone, 349,641,119 cases of covid-19 were confirmed. The highest cumulative incidence of the disease was in Europe, but the Americas had the highest mortality rate, at 14,039.95 deaths per 100,000 inhabitants1,2.
In Brazil, according to data from the Ministry of Health, from February 2020 to May 2023, there were 37,511,921 confirmed cases and 702,116 deaths from the disease3. This phenomenon had varying impacts, exacerbating preexisting inequalities across the country and affecting regions, cities and social groups in different ways4. From January to August 2025, the incidence of covid-19 cases was 116.43 per 100,000 inhabitants5.
In March 2025, the first Pandemic Agreement was adopted6. The challenges involved in developing a global public health plan for future events reveal the complex interconnections among critical factors that underlie the causes and consequences of inequalities7,8.
The Unified Health System (SUS) faces challenges in ensuring equality of access to health services. Regional disparities in terms of infrastructure, human resources and funding impact the quality and availability of health services4. The responses to the pandemic health emergency adopted by the different states of the country exacerbated these difficulties4,9.
In the North region, these inequalities were more pronounced. Manaus, the capital of the state of Amazonas, despite having the region’s highest GDP, has a Human Development Index of 0.736, which is below the national average10. According to Fiocruz, Amazonas had low hospital capacity to treat severe cases since the first wave and, especially, as from January 202111.
Manaus became the epicenter of the disease, marked by the collapse of the healthcare system12, characterized by high occupancy rates of hospital beds, a rising number of cases, and a shortage of ventilators and oxygen tanks13. This combination resulted in the highest daily average of cases recorded in the country, 2,927, and 157 deaths, in January 202114.
The causes attributed to this situation include the relaxation of social distancing measures and an increase in community transmission due to the reopening of schools and businesses in September 2020, before the start of vaccination15, as well as delays in implementing strategies such as creating new hospital beds and purchasing supplies and equipment. Another aggravating factor was the identification of the Gamma (P1) variant, which is considered to have a higher potential for reinfection16.
The local health authorities’ reliance on “herd immunity” - the theory that a portion of the population, after being vaccinated or infected, acquires antibodies against the disease and indirectly protects the uninfected population - manifested itself in the messaging and practices adopted at the start of the pandemic, before vaccination became available, which discouraged protective behaviors such as avoiding crowds and wearing masks15,16.
To mitigate the damage, the “Emergency Action Plan”17 was implemented - a “task force” established between different levels of government, including the Ministry of Health, the Amazonas State Health Department, and the Manaus municipal government. This plan consisted of a cooperation agreement among twelve states to receive patients with moderate symptoms. Thus, in January, 341 hospitalized patients were transported by air from Manaus. São Luís (MA), in the Northeast region, was one of the destinations17.
Qualitative studies on the covid-19 pandemic in Manaus are scarce. Of particular note is an analysis of treatment pathways and the interrelationships between the family, community and professional subsystems18. The present study broadens this perspective by including the routes taken in the search for care, outlining interconnected networks among health professionals, patients and family members in the face of the challenges encountered during the health crisis involving transfer to another state. Based on the experiences of patients and family members, it was possible to observe the interplay of various scales (individual-collective; local-global) of the same phenomenon19.
This study examined the perspective of patients and their families regarding treatment itineraries and experiences of illness in the context of a collapsed healthcare system.
Methods
This is a qualitative, exploratory20 case study21 that seeks to understand complex and unique phenomena - situations or experiences - within their context, taking into account the interaction between individuals, practices and institutions, with a focus on interpreting meanings, relationships and social processes21.
This case study examines the efforts to seek medical care during the collapse of the healthcare system in Manaus, which led to the transfer of patients to a hospital in São Luís during the second wave of the pandemic.
The theoretical and methodological framework adopted was the phenomenological-hermeneutic perspective, centered on the concepts of illness experience, therapeutic trajectory and itineration, as seen from the perspective of patients and their families.
In phenomenological analysis, experience concerns the subject’s relationship to the world; it is situated in time and space; it is embodied as a phenomenon related to the body, and its meaning is linked to action. From a hermeneutic perspective, the body, understanding and intersubjectivity are interconnected in such a way that understanding is an experience lived by the subjects themselves in their relationship with the world22.
Illness disrupts our understanding of everyday life. The uncertainties inherent in the processes of becoming ill and socially coping with illness influence the decisions that shape the therapeutic itinerary, describing the flux of patients as they seek health care and navigate the processes of choosing, evaluating and adhering to forms of treatment23.
Viewing pathways as trajectories created through the interaction between patients, family members and healthcare professionals in specific situations forms the basis for investigating itineration24, a concept that addresses the dynamic, process-oriented and flexible movement constructed by individuals throughout the therapeutic journey.
The instincts that guide action in the search for care, and the connections forged in times of distress and uncertainty, result in improvisations that help to redesign and reconfigure the healthcare system as planned by its managers25. In this itinerant process, as individuals move based on circumstantial availability, they share thoughts, values, attitudes and explanations about the disease in their social interactions24.
Emotions are phenomena situated in the body, patterns of feeling and action that are learned socially and internalized. This study adopted a contextualist perspective that views emotion as a historical-cultural construct that emerges in social interaction involving power relations, hierarchical or egalitarian structures, conceptions of morality and demarcations of boundaries between social groups26. In this sense, emotions perform the micropolitical work of dramatizing, reinforcing or subverting the social relations present in interpersonal interactions26.
The study was conducted during the period from January to June 2023, focusing on patients admitted in early 2021 to the University Hospital of Maranhão Federal University in São Luís (MA), which provided beds and received 39 patients from Manaus.
The sample was selected from these 39 patients (Figure 1), of whom 12 were interviewed. Purposive sampling was used; data collection was terminated upon reaching saturation, which occurred after the eighth interview. Family members were selected based on recommendations from the patients themselves, and of those contacted, 10 agreed to participate.
Patients were invited via the WhatsAppR app, where they were informed about the study. The data collection method used was a semi-structured interview, conducted using two instruments: a sociodemographic questionnaire and a script containing questions related to perceptions of illness, strategies for seeking care, experiences with hospital care in Manaus and São Luís, and the return home.
Researchers with expertise in qualitative research and no prior relationship with the participants conducted the interviews, which lasted an average of 50 minutes; they were recorded using the Google Meet platform and subsequently transcribed. In one case, the interview was conducted in Spanish, as the participant was a Venezuelan patient. Digital mediation enabled the researchers, who reside in São Luís, to connect with the participants who were in Manaus.
The content analysis technique focused on identifying thematic units and formulating core meanings. The analytical process was conducted collectively and dialogically, moving continuously between theory, empirical data and hermeneutic perspective. Based on this dynamic, the results were organized into categories27.
Addressing a sensitive topic such as the experience of contracting covid-19 through digital technology could cause distress without the possibility of in-person interaction. However, according to the participants, having their experiences listened to enabled them to reflect on the events they had lived through.
The study was approved by the Research Ethics Committee, under CAAE no. 46698921.5.0000.5086. The participants signed the Voluntary and Informed Consent Form and were identified by pseudonyms, while family members were identified by their relationship to the participant. The recommendations of the Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) were followed.
Results and discussions
Of the 12 patients interviewed—six men and six women—ten were 50 years of age or older. Most of the family members interviewed were women with differing degrees of kinship, such as sisters, daughters, granddaughters and wives. Only the foreign national mentioned a friend of the same nationality, as he had no family members in Brazil (Table 1).
The analysis of the interviews resulted in the following categories: Perception of illness and initial coping strategies; Collapse of the healthcare system: Manaus as a “battlefield”; Transfer: a matter of life and death; Reception in São Luís and Return home: mixed emotions.
Perception of illness and initial coping strategies
Covid-19 symptoms were noticed during the end-of-year holidays. Those interviewed reported suspicions of infecction before their diagnosis was confirmed.
“On December 31, 2020, we commemorated the end of the year. We got together with some neighbors. It was then that I realized I had caught it” (Joaquim).
By placing the onset of their illness within the context of the end-of-year celebrations, the participants symbolically reconstructed the episode. The association between illness and festivities was contradictory in nature, as it was seen as the event that triggered their suffering22.
By early 2021, reports were already circulating about the emergence of a new, more transmissible strain, as well as an increase in the number of cases and the mortality rate13,14. These developments are associated with the “second wave” of the pandemic, characterized by greater awareness of the risk of transmission, as well as signs and symptoms. Although vaccination had already begun, the disease continued to cause anxiety, especially among patients over 50, who feared for their own health and that of their family members.
“What went through my mind was a sense of despair, a feeling of anguish. All I could think about was my parents! Because I knew that if they ever caught covid they wouldn’t survive” (Paula).
"I was terrified. What if I catch it? What if I don’t go? If I go to the hospital, I’ll catch the virus” (Paula’s sister).
The experience of falling ill involved a heightened awareness of contagion and the social consequences of the disease, centered as well on caring for others22. Qualitative studies28,29 involving patients infected with covid-19 showed that the meanings attributed to the disease were linked to feelings of uncertainty, as well as to the fear of death and the infection of family members. These feelings not only shaped perceptions but also decisions and strategies for seeking care.
For the interviewees, their initial reluctance to seek care was linked to fears of infection in overcrowded healthcare facilities. Family members faced a dilemma, as accompanying patients to these facilities posed a risk of infection.
“Here in Manaus everything was packed. I didn’t want to go because you’re already feeling ill and showing up somewhere where there’s no room makes you feel like: ‘I’m nothing, I’m nobody and nobody cares about me’” (Amélia).
Hermeneutics has made it possible to understand discourses as accounts of experiences that redefined meanings in that context: the hospital, as a space of risk and exclusion, reversed its meaning of care, and illness was experienced as helplessness, a loss of one’s place in the world22.
Some patients even monitored their symptoms at home and only sought medical care when their condition worsened:
"I spent five days treating myself at home, following the procedures recommended by the media. And, even so, I wasn’t successful. I realized I was having trouble breathing and getting much worse, which is when I sought care at a public hospital" (José).
“I kept taking medicine, but I just kept getting worse, until there came a time when I couldn’t even get out of bed anymore” (Mateus).
Mistrust in the healthcare system’s ability to respond, coupled with the social media’s encouragement of self-medication, shaped courses of action: the interviewees sought to reorganize their care based on resources available in their daily lives until the risk of the disease worsening and its consequences became tangibly greater, prompting them to seek care through institutional networks.
Patients first sought care at Primary Health Care Units (UBS) and Emergency Care Units (UPAS); they reported making multiple trips back and forth and using the “covid kit”:
“I went to the UBS, and they gave me some medicine. I came back, took the medicine, but neither the cough nor anything else went away. I went back to the UBS. Again, same thing, they gave me medicine, but that cough wouldn’t go away. Then I went to the Emergency Ward, but there was no vacancy. They just gave me medicine there too. From there they took me to a private clinic, where they ran some tests and found that my lung was completely infected” (Mateus).
“There’s an emergency room near my house. I went there – I was having a lot of trouble breathing, and a very bad headache – and the doctor examined me. Then he gave me a Manaus kit, but that kit didn’t help at all!” (Lucas).
“They gave me the Manaus kit: chloroquine, azithromycin and that other one for worms” (Joaquim)
Reports indicate that the start of the care itinerary was marked by a series of unproductive visits focused on medication. Prescribing the “covid kit” at health clinics became a “standard” of care.
At that time, there was no scientific evidence that the available drug therapies were effective against covid-1930. The WHO recommended non-pharmacological measures, such as social distancing and monitoring of symptoms, and, in the event of a worsening of the clinical condition, seeking medical care30.
However, in 2020, the Brazilian federal government encouraged the use of these drugs30, and the Ministry of Health issued protocols recommending early treatment with chloroquine, even in mild cases31. These drugs were widely used without monitoring for adverse reactions, and the TrateCOV app, adopted by the Amazonas State Health Department, automated the prescription of the “covid kit” based on symptoms reported by healthcare professionals32,33.
The proposals for the prevention and treatment of covid-19 put forward by global, national and local health authorities were inconsistent with one another. Risk, as a socially constructed and experienced phenomenon, created moral imperatives for action that reinforced the sense of emergency7. The “covid kit” emerged as a symbol of the conflict between science and politics amid the uncertainty generated by the infodemic31.
Collapse of the health system: Manaus a "battlefield"
Patients and their families reported that even after being referred to emergency care units and specialized hospitals, they continued their long journey. As their health deteriorated and they encountered further difficulties, they began to realize that the system was collapsing.
“The hospital system in Manaus was completely overwhelmed at the time, because there weren’t even enough ambulances to pick up the patients. The ambulance never showed up, so that’s when I decided to take a taxi” (Joaquim).
“That day in Manaus was chaos. There was no way to get into any hospital. Imagine a place like that... like those zombie movies. Lots of people crying, people in wheelchairs… the nurse said: ‘There’s no way we can get your son in here’” (Lucas).
There were no more beds available, the number of healthcare professionals was insufficient, and there was a shortage of supplies, such as oxygen cylinders34,35. In this context, families with the financial means purchased them on their own, facing high costs and long waiting lines. From that point on, the Federal Government mobilized emergency resources to transport cylinders via the Brazilian Air Force (FAB)35.
Faced with difficulties in accessing specialized care, the interviewees adopted various strategies, such as resorting to acquaintances who worked in healthcare or using their status as patients already being treated for pre-existing comorbidities at other facilities to obtain care.
“Go to the UPA, my wife’s waiting for you there and she’ll put you right at the front of the line [he heard from a friend]’. So, when I got there, I went straight in to see the doctor, who said: ‘lie down here, man’. And from there, he sent me straight to the hospital” (Pedro).
“In 2018 I was diagnosed with breast cancer. Then, because of the breast cancer, I had an emergency requiring X. (Amélia).
The mobilization of support networks and prior knowledge about how the health care system works are actions referred to as “interstitial networks.” These practices, situated between the formal structures of the health care system and informal arrangements, shape care pathways when they interact24,25.
In January 2021, patients and their families described the situation as a “war zone”, due to shortages of staff and supplies - especially oxygen - and the overwhelming workload faced by healthcare workers.
“It felt like I was on a battlefield. Total despair, with more than 40 people coming in every day" (João).
“They said ‘Manaus is going to descend into chaos’. I replied: ‘Chaos? What do you mean?’ ‘There’s no more oxygen’. I began to panic. I said to my daughter: ‘We have to get some oxygen’. It was pure desperation, if you’d seen the hospital entrance, dead bodies were being carried out all the time” (Paula’s sister).
“Our State of Amazonas wasn’t prepared to handle this disease. You can see that from the number of cases we have had here. So the hospitals were overwhelmed, even though the doctors, nurses and support staff were there, giving their life-blood, okay?” (Amélia’s husband).
The increase in the occupancy rate of general hospital beds in the public and private sectors was 101% and 81% respectively, and the increase in ICU bed occupancy was 93% and 97%13,14. New staff were hired36, but chaos had already set in. Faced with the demand, patients and their families acknowledged the efforts of the healthcare professionals, which, however, proved insufficient.
The association of the hospital with war, despair and chaos reveals the violence experienced by patients and professionals, contradicting its modern conception as a space for therapy, discipline and production of knowledge37.
Due to isolation protocols, communication between patients and their families was hampered. Some families even hired staff from the same hospitals who, during their time off, cared for the patients and served as a link for communication. Illness, negotiation and suffering intertwine in the experiences of patients and their families.
“And those outside also had no idea what we were going through inside. [...] My granddaughter hired someone to check on me in the hospital” (Maria).
“Call the family out here and we’ll figure something out – we’ve got to get some oxygen” (Paula’s sister).
Even on the “battlefield" inequalities were evident. Those with greater resources could buy oxygen and/or pay a healthcare professional to obtain information about a family member’s condition.
In the context of covid-19, some studies have highlighted the relationships between patients and healthcare professionals in terms of failure, fragmentation and limited access to information, underscoring the healthcare system’s lack of preparedness and vulnerability28,29.
The concept of itineration24 offers an alternative approach, as it considers the movement - of users through services - including their strategies, negotiations and decision-making - as threads woven between them, their families and professionals in processes that incorporate improvisation in critical situations. This perspective does not assign normative value to the paths taken by movements that do not correspond to what managers had planned.
Transfer: a question of life or death
In Manaus, government agencies issued a technical memo recommending the transfer of patients to hospitals in other cities17. Patients and their families were contacted to authorize this measure.
“The proposal came from the hospital management. So, my family was informed first, then I was asked if I would agree to be transferred to another state, which would be better equipped to accommodate me and a group” (José).
Family members, healthcare professionals and managers joined forces to facilitate the transfer of patients. A process described as a matter of “life or death.”
“You leave at a time like this, away from your family... but also with the hope of going somewhere where you know you’ll have better support even though you’re far from your relatives. Everyone’s hope was to find a better life” (José).
Patients were informed that not all of them were eligible for transfer. They had to be in a relatively stable condition to withstand the journey.
“The social worker said that only people with good oxygen saturation levels could make the trip” (Rita).
The emergency nature of the crisis called for immediate action in that unusual situation24,25, which led to nonlinear interactions among managers, healthcare professionals, patients and family members, thereby influencing their lived experiences.
The transfer was coordinated by the federal government through a Cooperation Plan17. The patients were transported on FAB aircraft, accompanied by healthcare professionals, without family members present. Uncertainties and other unforeseen circumstances were part of the journey.
“When I got on the plane, I didn’t know exactly where I was going (...), so I felt lost” (Maria).
“We boarded the FAB plane. Everyone was anxious” (Antônia).
From the families’ perspective, managing the transfer involved uncertainty regarding the destination and the inability to accompany them. Efforts were made to raise funds to cover the costs of their travel on commercial flights, lodging and distant prayer networks. It was this engagement that made the interstitial networks possible25.
The concept of healthcare encompasses practices and approaches that involve biological, psychological and cultural dimensions interacting within a single process, forming networks25. This interaction among different actors in the healthcare process goes beyond biological and technical issues, revealing a relational dimension that is essential to care24,25.
Accommodation in São Luís
The contrast between the chaos experienced in Manaus and the conditions encountered in São Luís shaped the experience of the interviewees regarding the care they received. Their previous difficult experience heightened the positive impact of experiencing a “warm welcome” during their hospitalization at the HU-UFMA.
“When I got to the hospital, they put me on a stretcher right away… I can’t even begin to describe it! It was like something out of a movie. They were really professional, starting with the stretcher attendant and everyone else. The doctor said: ‘Give him this medicine and see if he responds’. I went in feeling confident that I was okay” (Pedro).
The constant presence of staff at patients’ bedsides, providing care and assessing their needs, as well as the availability of technological resources for communicating with family members, were seen as exceptional, going “beyond mere care”:
“That really meant a lot to me – it felt like a deep sense of welcome. Like, ‘You’re lost, but I’m here with you (...)’. They talked to me a lot; it was a team that really had it all” (Maria).
Trust in the services provided and a sense of gratitude toward the healthcare professionals were seen as essential to the patients’ recovery. Family members also expressed their gratitude to the professionals who made it possible for them to communicate daily with hospitalized patients via video calls.
“It was an experience I can’t even begin to describe, because everyone welcomed us with such warmth from the moment we arrived. The cleaning staff, the doctor... the care we received was excellent, and it all made a huge difference to her recovery” (Amélia’s husband).
After the medical discharge, the return to Manaus was delayed pending the Amazonas Government’s purchase of airline tickets, resulting in an extended stay at the hospital. During this time, staff and managers organized leisure activities, arranging visits to tourist attractions near the hospital.
“They took me to the beach, to the ocean. They took me to church. I have a photo at the church. I was already walking around; soaking up the sun on the beach” (Joana).
When discussing this topic, which combines suffering and gratitude, many interviewees made a point of sharing with the interviewers videos, photos from their outings and symbolic objects, such as mementos given to them by the staff.
The “lines of life” that intertwined in the context of the itinerary24,25 fostered powerful bonds of affection and commitment between healthcare professionals and patients. A broader view of care24 allows us to transcend boundaries defined by hierarchy and the distance between patients and professionals, and to glimpse the therapeutic and emotional support provided by healthcare professionals in that treatment context during a public health crisis, in an unfamiliar city and without family members.
Return home: contradictory emotions
Most patients were discharged in February 2021, returning to Manaus in small groups as they received medical discharge. The transfer was carried out on commercial flights funded by the Amazonas Government, without the accompaniment of healthcare professionals, unlike the journey to São Luís.
“They dropped me off at the São Luís airport. I was very weak and couldn’t say I’d had covid. I thought it would be quick, but I didn’t know there was a connecting flight to São Paulo. That airport is huge and when I asked for directions people gave me the wrong information” (Rita).
“Thank God I was on that flight. My mother couldn’t walk properly... so I had to get a wheelchair. I asked for all of them [the other patients] to be allowed to board the plane first, and they didn’t eat” (Maria’s daughter).
Although they had been discharged from hospital, the patients still felt weak. Nearly half described their return to Manaus as a distressing experience, marked by exposure and discrimination from other passengers. A sense of helplessness was a recurring theme in their accounts.
When the patients arrived in Manaus, their families were instructed to stay home and wait for them. Representatives from the state government and the local press were at the arrival area to receive them, and their return home was facilitated by dedicated transportation provided by the government. Some interviewees expressed dissatisfaction, as they believed this was a strategy to downplay the experiences they had endured in the “war zone” in Manaus.
"The press was there at the airport. I think, but I’m not sure, that it was to make a good impression" (Pedro).
In contrast, the reunion with family members was marked by feelings of joy and relief.
“All I could think when I arrived was: ‘My God, I’m going back home to my family’. And that’s exactly as it was - very moving. I was speechless. It was such a joy” (Paula).
One year later (at the time of the survey), most patients reported living with after-effects that affected them physically. Some reported changes in their lifestyles, an attitude adopted jointly by patients who had become friends.
"It left me with after-effects. My ear hurts a lot and I have difficulty remembering things. Every now and then my bones hurt a lot” (Antônia).
"Those friends and I are still in touch today; the majority had diabetes, drank heavily and didn’t take physical exercise. In my case it was obesity. We decided to make a change, so since I came back I’ve been doing post-covid physiotherapy. I’ve had a really rough year, but I managed to shed twenty five kilos” (José).
For some people, the consequences of the pandemic persist, as they have to cope with uncertainties regarding their health, the loss of friends and family members and the process of rebuilding their lives. The impacts of covid-19 on those who have survived are considered multidimensional, creating a need for intersectoral care initiatives to ensure support in the face of the disease’s sequelae38. Post-covid-19 healthcare can be redefined and may enable a broader approach to the biomedical model39.
Final considerations
In this study, we focused on examining the healthcare system through the lens of experiences of illness and care pathways in the context of a health crisis. This approach allowed us to analyze the relationships between patients, family members and healthcare professionals, focusing on engagement, improvisation and decision-making aimed at solving practical problems caused by a new phenomenon with global reach and significant impact - the covid-19 pandemic - based on a dramatic case such as that of Manaus.
The disease and the hardships it caused provided insight into the dynamics that shaped everything from the strategies of patients and their families in seeking care to the effects of the state’s ambivalent management. Considering care as a situational category allowed for an understanding of more fluid actions, including processes of health and illness, pathways, perceptions and mobilizations on the part of users, family members and professionals, taking into account the political and moral character of care and therefore breaking boundaries with the biomedical dimension associated with health.
Experiences during the covid-19 pandemic were driven by fear and were also marked by anxiety, suffering and gratitude. Emotions, like grammar, are shaped by social relationships and the context in which they emerge. They are not universal in nature, nor are they spontaneous or derived from the uniqueness of each individual. They were woven into trajectories, shared, negotiated and presented in narratives involving care.
Understanding this “chaos” from the perspective of patients and family members who faced obstacles and setbacks in their quest for care means making the effort to problematize a global phenomenon at the micro level without losing sight of its broader context.
This study has some limitations. Conducting the interviews online may have made it difficult to create a more intimate atmosphere between the researcher and the participants. In addition, it was not possible to interview the family members of two patients who were initially included in the study. The time elapsed between the lived experience and the interview may have led to reinterpretations and omissions. However, we believe that these changes are part of the process of constructing experiences. Despite these limitations, the narratives obtained allowed us to understand the experiences of illness, care and displacement lived in the context of the pandemic.
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Como
Citar
Oliveira, ML, Lamy, ZC, Oliveira, PS, Erazo-Chavez, LJ, Aristizábal, LYG, Silva, LFN, Almeida, RNN, Carvalho, RHSBF. PERCURSOS E PERCALÇOS NA ITINERAÇÃO POR CUIDADO EM SAÚDE NA PANDEMIA DE COVID-19: Manaus como caso emblemático. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/mai). [Citado em 14/08/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/percursos-e-percalcos-na-itineracao-por-cuidado-em-saude-na-pandemia-de-covid19-manaus-como-caso-emblematico/20035