EN PT

Artigos

0192/2026 - Prevalência e fatores dos sintomas respiratórios na COVID longa em adultos e idosos do extremo Sul do Brasil
Prevalence and factors of respiratory symptoms in long COVID among adults and older adults in Southern Brazil

Autor:

• Brena Costa de Oliveira - Oliveira, BC - <brenacdeoliveira@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2352-6342

Coautor(es):

• Yohana Pereira Vieira - Vieira, YP - <yohanavieira00@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4828-8210

• Lara dos Santos Camilo - Camilo, LS - <larascamilo@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2352-6342

• Juliana Quadros Santos Rocha - Rocha, JQS - <julianaqrocha2@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/ 0000-0002-9743-6331

• Suele Manjourany Silva Duro - Duro, SMS - <sumanjou@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5730-0811

• Mirelle de Oliveira Saes - Saes, MO - <mirelleosaes@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7225-1552



Resumo:

OBJETIVO: Verificar a prevalência de sintomas respiratórios de COVID longa após 6-10 meses da infecção e fatores associados no município de Rio Grande/RS. MÉTODOS: Trata-se de um estudo transversal realizado a partir de uma coorte de adultos e idosos infectados por SARS-CoV-2 entre dezembro de 2020 e março de 2021, com avaliação conduzida entre 6 a 10 meses após a infecção. Avaliou-se a presença de pelo menos um sintoma respiratório persistente, considerando sexo, idade, cor da pele, escolaridade, renda, IMC, tabagismo, atividade física, comorbidades cardiorrespiratórias e hospitalização. A análise utilizou regressão de Poisson com variância robusta, com entrada hierárquica de variáveis. RESULTADOS: Dos 2.919 participantes, 16,6% apresentaram pelo menos um sintoma respiratório, principalmente dispneia, tosse seca e desconforto ao respirar. Maior probabilidade foi observada em mulheres, com alterações de peso, doenças cardiorrespiratórias prévias ou sintomas na fase aguda; maior escolaridade esteve associada à menor prevalência de sintomas respiratórios persistentes. CONCLUSÕES: Mulheres, indivíduos com doenças cardiorrespiratórias prévias, alterações de peso ou sintomas na fase aguda apresentaram maior prevalência de sintomas respiratórios persistentes. Maior escolaridade esteve associada à menor prevalência desse desfecho.

Palavras-chave:

Síndrome Pós-COVID-19 Aguda; Sinais e Sintomas Respiratórios;

Abstract:

OBJECTIVE: To assess the prevalence of long COVID respiratory symptoms 6–10 months after infection and associated factors in the municipality of Rio Grande, RS, Brazil. METHODS: This was a cross-sectional study conducted within a cohort of adults and older adults infected with SARS-CoV-2 between December 2020 and March 2021, with assessment performed 6 to 10 months after infection. The presence of at least one persistent respiratory symptom was evaluated, considering sex, age, skin color, educational level, income, BMI, smoking status, physical activity, cardiorespiratory comorbidities, and hospitalization. Analysis was performed using Poisson regression with a hierarchical model. RESULTS: Of the 2,919 participants, 16.6% had at least one respiratory symptom, mainly dyspnea, dry cough, and breathing discomfort. Higher probability was observed in women, individuals with weight changes, pre-existing cardiorespiratory diseases, or symptoms during the acute phase; higher educational levels were protective. CONCLUSIONS: Women, individuals with pre-existing cardiorespiratory diseases, weight changes, or acute-phase symptoms had a higher probability of persistent respiratory symptoms; higher educational levels were protective.

Keywords:

Post-acute COVID-19 Syndrome; Respiratory Signs and Symptoms; SARS-CoV-2; Associated Factors; Prevalence.

Conteúdo:

INTRODUÇÃO
A síndrome pós-Covid, comumente conhecida como COVID longa, é uma condição clínica na qual indivíduos com histórico de infecção pelo SARS-CoV-2 continuam apresentando sintomas pelo menos três meses após a fase aguda da doença, com duração mínima de duas semanas e sem explicação ou diagnóstico alternativo¹. Diversos sintomas têm sido relatados na literatura, sendo os principais fadiga, dispneia, transtorno de atenção, distúrbios de memória e ansiedade²,³,?,?.
Uma meta-análise realizada por Chen et al.? observou que a prevalência global da COVID longa foi de 43%, sendo maior entre pacientes hospitalizados do que entre os não hospitalizados (54% versus 34%). Estudos conduzidos no Brasil demonstram ampla variação na prevalência de COVID longa, dependendo da população avaliada, do tempo de seguimento e da definição adotada. Na coorte PAMPA, realizada no Sul do Brasil, a prevalência de sintomas persistentes por três meses ou mais após a infecção foi de 77,4% (IC95%: 74,7–79,9)?. Em outra investigação populacional conduzida no extremo sul do país, a presença de sintomas entre 6 e 9 meses após a infecção foi observada em 48,3% dos participantes?. De forma semelhante, um estudo longitudinal com adultos avaliados 12 meses após a infecção identificou prevalência de COVID longa de 60,3%?. Dados de um inquérito populacional multicêntrico realizado em 133 cidades brasileiras indicaram que 65,1% dos indivíduos infectados preencheram critérios para condição pós-COVID¹?. Além disso, um web survey nacional identificou prevalência de 56,4% de sintomas persistentes após a fase aguda¹¹. Em coortes hospitalares brasileiras, as estimativas tendem a ser ainda mais elevadas, variando de aproximadamente 60% a mais de 80%, especialmente entre pacientes com maior gravidade inicial¹². Em conjunto, esses achados indicam que a COVID longa representa uma condição frequente na população brasileira, embora diferenças metodológicas — incluindo definição de caso, instrumento de coleta e tempo de seguimento — possam explicar parte da heterogeneidade observada. A literatura geralmente concorda que a síndrome afeta principalmente mulheres com mais de 50 anos e que mais da metade dos indivíduos infectados apresenta pelo menos um sintoma residual após a infecção pelo coronavírus¹³,¹?,¹?.
A redução da troca gasosa e o declínio na função pulmonar podem ocorrer mesmo após 12 meses da fase aguda da doença¹?. Entre os principais sintomas respiratórios remanescentes estão a dispneia, com prevalências variando entre 22% e 50%¹?,¹?, a tosse entre 10% e 23% e a congestão nasal em 5 a 7%¹?,¹³. No centro do Brasil, um estudo de coorte prospectivo com indivíduos que tiveram forma leve da doença revelou a presença de congestão nasal (13,2%), tosse (12,8%), coriza (12,1%) e dor de garganta (9,9%) por pelo menos seis meses após a infecção aguda¹?.
Infecções pulmonares, especialmente por vírus e patógenos intracelulares, alteram as células epiteliais alveolares e modificam a regeneração alveolar, levando a uma série de eventos que aumentam as chances de evolução para fibrose pulmonar e reduzem a capacidade de difusão dos gases nos alvéolos, dos volumes e das capacidades pulmonares, levando ao surgimento de um padrão restritivo pulmonar, comprometendo a capacidade respiratória dos indivíduos e limitando o exercício físico e as atividades diárias, afetando a qualidade de vida²?,²¹,²²,²³.
É fundamental conhecer os fatores de risco para a persistência desses sintomas a fim de facilitar o diagnóstico da covid longa e aprimorar o cuidado e a assistência a esses indivíduos, dado o crescente número de casos relatados. Este estudo diferencia-se por investigar uma população composta predominantemente por indivíduos que apresentaram formas leves da infecção e por concentrar-se especificamente em sintomas respiratórios. O objetivo foi estimar a prevalência de sintomas respiratórios persistentes entre 6 e 10 meses após a infecção por SARS-CoV-2, bem como identificar os fatores associados, no município de Rio Grande, Rio Grande do Sul (RS).

MÉTODOS
Este estudo é um estudo transversal aninhado a uma coorte prospectiva. A coorte prospectiva Sulcovid-19 monitora a saúde de adultos e idosos após a infecção por SARS-CoV-2 em residentes do município de Rio Grande. O baseline do estudo foi realizado entre 6 e 10 meses após a infecção aguda por SARS-CoV-2.
Foram incluídos indivíduos com 18 anos ou mais, residentes na zona urbana de Rio Grande, com diagnóstico de COVID-19 confirmado por RT-PCR entre dezembro de 2020 e março de 2021, que apresentaram infecção sintomática e realizaram acompanhamento ou tratamento nos serviços de saúde do município. A identificação dos participantes foi realizada a partir de uma listagem de casos confirmados fornecida pela vigilância epidemiológica municipal.
Foram excluídos aqueles com dados incompletos (sem contato telefônico e endereço disponível no registro da vigilância epidemiológica), déficit cognitivo que impossibilitasse a aplicação do questionário, indivíduos privados de liberdade e aqueles que não residiam mais na cidade durante a coleta de dados. Considerou-se perda da amostra os indivíduos que não foram localizados após cinco tentativas de contato telefônico e duas visitas domiciliares, bem como aqueles que se recusaram a participar da pesquisa.
Foram selecionados quatro entrevistadores e a coleta de dados ocorreu por meio de um questionário estruturado, elaborado pelos pesquisadores e com instrumentos validados na literatura. O questionário foi dividido em 16 blocos e a coleta de dados foi realizada utilizando o programa Redcap24. As entrevistas foram feitas por telefone, com cinco tentativas de contato em diferentes dias e horários. Quando o contato não foi bem-sucedido, foram enviadas mensagens padronizadas pelo WhatsApp e realizadas visitas domiciliares.
O controle de qualidade foi realizado por meio da repetição de cerca de 10% das entrevistas, selecionadas aleatoriamente. Um entrevistador entrou em contato novamente e reaplicou algumas perguntas para verificar a concordância das respostas, garantindo maior controle e reduzindo o risco de fraudes e enviesamento dos resultados. Maiores informações sobre o estudo podem ser encontradas em artigo metodológico25.
A variável dependente deste estudo foi a persistência de sintomas respiratórios remanescentes após a infecção aguda por SARS-CoV-2, incluindo falta de ar, tosse seca, tosse com catarro, dor ou desconforto para respirar, congestão nasal, coriza e dor de garganta. As perguntas foram formuladas da seguinte maneira: “Quais desses sintomas o(a) senhor(a) apresentou após infecção por COVID-19?” com opções de resposta “sim”, “não” e “não sabe/não quis responder”. Se a resposta fosse afirmativa, era perguntado: “Neste momento, o(a) senhor(a) continua com este sintoma?” com as mesmas opções de resposta. As respostas foram dicotomizadas em “sim” para aqueles que apresentavam pelo menos um sintoma e “não” para aqueles sem sintomas respiratórios. Foi considerado presença de sintoma respiratório remanescente a resposta afirmativa a pelo menos um dos sintomas investigados.
Para a análise dos dados, foi utilizado um modelo hierárquico multinível estruturado em quatro níveis. No primeiro nível foram incluídas variáveis demográficas — sexo (masculino e feminino), idade (18–59 anos; ?60 anos) e cor da pele (branca e não branca) — e variáveis socioeconômicas, incluindo situação conjugal (casado/vive com companheiro; solteiro; separado/divorciado; viúvo), escolaridade (fundamental, médio e superior), renda mensal (categorias em reais) e classe econômica (segundo critério baseado em bens domiciliares e escolaridade do chefe da família).
No segundo nível foram incluídas variáveis comportamentais e nutricionais: índice de massa corporal (IMC), calculado a partir do peso (kg) e da estatura (m²) autorreferidos; mudança de peso após a infecção, obtida pela pergunta “Após sua infecção pela COVID-19, você percebeu alguma mudança em seu peso corporal?” (permaneceu igual; aumentou; diminuiu); tabagismo, avaliado por meio da pergunta “O(a) Senhor(a) fuma?” (não; sim, mais de um cigarro por mês nos últimos 30 dias; ex-fumante), sendo categorizado como “sim” para fumantes atuais e ex-fumantes e “não” para aqueles que nunca fumaram; e prática de atividade física após a infecção, investigada pela frequência semanal e duração média diária de exercício físico. Os participantes foram classificados como fisicamente ativos quando relataram ?150 minutos semanais de atividade física moderada a vigorosa, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde26. No terceiro nível foram incluídas morbidades prévias autorreferidas, especificamente doenças respiratórias e cardíacas. No quarto nível foram incluídas variáveis relacionadas à fase aguda da COVID-19, incluindo presença de sintomas respiratórios (falta de ar, tosse seca, tosse com catarro, dor ou desconforto para respirar, congestão nasal, coriza e dor de garganta) e hospitalização em decorrência da infecção.
Os dados foram analisados por meio do pacote estatístico Stata 17.1. Foi realizado uma análise descritiva da amostra estimando a frequência absoluta e relativa. Calcularam-se as prevalências pontuais e por intervalo (IC95%) do desfecho investigado, de acordo com as variáveis consideradas no estudo. Foram estimadas as razões de prevalência brutas e ajustadas pela regressão de Poisson com variância robusta e respectivos intervalos de confiança de 95%.
Seguindo as normas da Resolução 466/2012, os participantes assinaram previamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que detalhava todas as informações sobre o estudo. As entrevistas telefônicas foram gravadas e a aceitação ao termo de consentimento oral foi devidamente registrada. O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa na Área da Saúde (CEPAS) da Universidade Federal do Rio Grande e aprovado em 03 de novembro de 2020, sob parecer nº 4.375.6 e CAAE: 39081120.0.0000.532. Garantiu-se o sigilo total da identidade, a confidencialidade das respostas e o direito de retirar-se do estudo a qualquer momento, sem prejuízos.
RESULTADOS
Inicialmente 4.014 participantes foram diagnosticados com COVID-19. Após os critérios de inclusão foram selecionados 3.822 indivíduos, destes, 272 recusaram a participação e 631 foram considerados perdas, totalizando 2.919 entrevistados.
A caracterização da população estudada foi descrita previamente. Na população final analisada, 58,4% eram do sexo feminino e 83,3% tinham entre 18 e 59 anos. A maioria era casada ou vivia com o companheiro (60,6%), 77,5% eram brancos e 73,3% apresentavam sobrepeso ou obesidade. Além disso, 24,3% relataram aumento de peso e 23,2% diminuição do peso. A renda predominante situava-se entre mil e dois mil reais (39,9%), 54,8% pertenciam às classes econômicas D/E e 44,1% tinham escolaridade de segundo grau. Em relação aos hábitos de vida, 24,4% eram tabagistas e 28,1% praticavam atividade física. Quanto às condições prévias, 16,9% referiram alguma doença respiratória ou cardíaca e 3,4% foram internados. Durante a fase aguda da COVID-19, 34,0% relataram falta de ar, 45,2% tosse seca, 9,6% tosse com catarro, 29,6% dor ou desconforto ao respirar, 23,3% congestão nasal, 27,6% coriza e 35,1% dor de garganta¹?.
A prevalência de pelo menos um sintoma respiratório remanescente após a COVID-19 foi de 16,6% (IC95%: 15,3; 18,0). Observou-se maior prevalência entre mulheres (20,5%; IC95%: 18,6; 22,4) em comparação aos homens (11,2%; IC95%: 9,5; 13,1), e entre indivíduos com 60 anos ou mais (20,2%; IC95%: 16,9; 24,1) em relação àqueles com 18 a 59 anos (15,8%; IC95%: 14,4; 17,3). A prevalência também foi maior entre participantes com doenças respiratórias prévias (29,3%; IC95%: 25,4; 33,5), doenças cardíacas (25,8%; IC95%: 20,8; 31,4) e hipertensão arterial (21,6%; IC95%: 18,7; 24,7), bem como entre aqueles que necessitaram de internação hospitalar (23,9%; IC95%: 16,1; 33,9) ou que apresentaram alteração de peso após a infecção. Indivíduos que relataram sintomas respiratórios na fase aguda da COVID-19 também apresentaram maior prevalência de sintomas persistentes, especialmente aqueles com tosse com catarro (38,3%; IC95%: 32,7; 44,1), falta de ar (32,0%; IC95%: 29,1; 34,9) e dor ou desconforto para respirar (31,6%; IC95%: 28,6; 34,8) (Tabela 1).

Tab.1

Na análise ajustada, os indivíduos com maiores probabilidades de apresentarem pelo menos um sintoma respiratório de covid longa foram sexo feminino (RP=1,87; IC95% 1,55; 2,26), aqueles com aumento ou redução de peso (RP=1,59; IC95% 1,29; 1,94 e RP=1,75; IC95% 1,43; 2,15, respectivamente), que possuíam doenças cardíacas e respiratórias prévias (RP=1,33; IC95% 1,04; 1,71; RP=1,72; IC95% 1,44; 2,06) e que manifestaram os seguintes sintomas na fase aguda: dispneia/falta de ar (RP=2,25; IC95% 1,80; 2,82), tosse seca (RP=1,40; IC95% 1,16; 1,69), tosse com catarro (RP=1,56; IC95% 1,29; 1,88), dor ou desconforto para respirar (RP=1,38; IC95% 1,12; 1,71), coriza (RP=1,63; IC95% 1,34; 1,97) e congestão nasal (RP=1,26; IC95% 1,04; 1,52). Enquanto indivíduos com segundo grau de escolaridade (RP=0,78; IC95% 0,64; 0,94) e terceiro grau de escolaridade (RP= 0,78 (IC95% 0,63; 0,96) tiveram menores probabilidades de apresentarem o desfecho (Tabela 2).

Tab.2

DISCUSSÃO
O estudo investigou a prevalência e os fatores associados aos sintomas respiratórios remanescentes após 6–10 meses da infecção por SARS-CoV-2 em adultos. Constatou-se que aproximadamente um em cada seis indivíduos apresentou pelo menos um sintoma respiratório persistente (16,6%), sendo os mais frequentes a dispneia, a tosse seca e a dor/desconforto para respirar. Observou-se maior prevalência entre mulheres, indivíduos com doenças cardíacas e respiratórias prévias, aqueles que apresentaram alteração de peso após a infecção e aqueles que relataram sintomas respiratórios durante a fase aguda, enquanto níveis mais elevados de escolaridade apresentaram associação protetora.
A prevalência observada é semelhante à encontrada em outros estudos brasileiros. A coorte PAMPA, conduzida com adultos da região Sul do Brasil, identificou prevalência de COVID longa próxima de 19%, com maior ocorrência entre mulheres e indivíduos com condições de saúde prévias?. De forma semelhante, um estudo prospectivo realizado em população socialmente vulnerável no Brasil também demonstrou elevada frequência de sintomas persistentes após a infecção, especialmente entre indivíduos com comorbidades e maior gravidade clínica inicial²?. Esses achados indicam que a persistência de sintomas após a COVID-19 é relativamente frequente e consistente em diferentes contextos populacionais brasileiros.
Observa-se que os principais sintomas respiratórios de COVID longa são dispneia e tosse seca. Embora as prevalências relatadas na literatura sejam, em alguns casos, superiores às encontradas neste estudo, esses sintomas são frequentemente descritos como manifestações persistentes após a infecção. Diferenças entre os estudos podem estar relacionadas ao tempo de acompanhamento, à gravidade da infecção inicial e ao perfil da população investigada, especialmente quando comparadas populações hospitalizadas e não hospitalizadas²?. Além disso, ainda há escassez de estudos que avaliem especificamente sintomas respiratórios com seguimento prolongado em populações predominantemente não hospitalizadas, especialmente no Brasil.
Em consonância com nossos achados, a maior prevalência de sintomas persistentes entre mulheres também tem sido descrita em estudos nacionais e internacionais. No contexto brasileiro, Feter et al. observaram maior ocorrência de COVID longa entre mulheres?, e Azambuja et al. identificaram associação semelhante em uma coorte prospectiva²?. Diferenças nas respostas imunológicas, hormonais e inflamatórias entre os sexos têm sido sugeridas como possíveis explicações, podendo influenciar o processo de recuperação após infecções virais e favorecer a persistência dos sintomas?,²?.
As alterações no peso corporal observadas após a infecção também estiveram associadas à persistência dos sintomas respiratórios. O excesso de peso pode comprometer a mecânica ventilatória, reduzir a complacência pulmonar e aumentar o esforço respiratório²?,²?. Por outro lado, a perda de peso pode refletir descondicionamento físico e perda de massa muscular, fatores que também podem comprometer a função respiratória e prolongar o tempo de recuperação.
Os resultados também demonstraram maior prevalência de sintomas persistentes entre indivíduos com doenças cardíacas e respiratórias prévias. Estudos brasileiros têm mostrado que a presença de comorbidades é um importante fator associado à COVID longa, possivelmente devido à maior vulnerabilidade fisiológica e à menor reserva funcional desses indivíduos³?,²?.
A presença de sintomas respiratórios durante a fase aguda também esteve fortemente associada à persistência desses sintomas. Esse achado é consistente com evidências de que o comprometimento pulmonar inicial influencia a evolução clínica em longo prazo, possivelmente devido à persistência de inflamação, alterações estruturais pulmonares e redução da capacidade funcional respiratória³¹,³²,³³,³?.
Por outro lado, níveis mais elevados de escolaridade apresentaram associação protetora. Esse resultado pode refletir melhores condições socioeconômicas e maior acesso aos serviços de saúde, conforme descrito em estudos nacionais sobre COVID longa e desigualdades sociais em saúde30.
Este estudo apresenta importantes fortalezas. Destaca-se o delineamento populacional da investigação, que incluiu adultos com histórico de infecção por SARS-CoV-2 acompanhados por período prolongado após a fase aguda da doença, além de serem pessoas diagnosticadas via padrão ouro (RT-PCR). A análise contemplou um conjunto abrangente de fatores sociodemográficos e condições de saúde prévias, permitindo identificar subgrupos populacionais mais vulneráveis à persistência de sintomas respiratórios. Também se diferencia por investigar especificamente sintomas respiratórios em uma amostra majoritariamente composta por indivíduos não hospitalizados. Assim, a presente investigação contribui para ampliar a compreensão da persistência de manifestações respiratórias em indivíduos que apresentaram quadros predominantemente leves ou moderados da doença.
Apesar das fortalezas, este estudo possui limitações. Destaca-se que a presença de ao menos um sintoma respiratório entre 6 e 10 meses após a infecção aguda pode não estar necessariamente relacionada ao episódio inicial de COVID-19, podendo também decorrer de reinfecção pelo próprio SARS-CoV-2 ou de outras infecções respiratórias ocorridas no período de seguimento. Adicionalmente, não foi investigada de forma sistemática a existência prévia desses sintomas antes do episódio de COVID-19. Assim, manifestações como tosse seca podem já estar presentes anteriormente à infecção aguda, e sintomas como tosse produtiva (com expectoração) são frequentes em outras condições do trato respiratório, especialmente em indivíduos fumantes, o que pode ter implicações para a interpretação causal dos achados.
CONCLUSÃO
Conclui-se que mulheres, indivíduos com histórico de doenças cardíacas ou respiratórias, alterações no peso corporal e sintomas respiratórios durante a fase aguda apresentaram maior prevalência de sintomas respiratórios persistentes na COVID longa. Em contrapartida, indivíduos com ensino médio e superior apresentaram menor prevalência desse desfecho.

REFERÊNCIAS
1. World Health Organization. A clinical case definition of a post-COVID-19 condition by a Delphi consensus, 6 October 2021 [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2021. Available from: https://www.who.int/publications/i/item/WHO-2019-nCoV-Post_COVID-19_condition-Clinical_case_definition-2021
2. Lopez-Leon S, Wegman-Ostrosky T, Perelman C, Sepulveda R, Rebolledo PA, Cuapio A, et al. More than 50 long-term effects of COVID-19: a systematic review and meta-analysis. Sci Rep. 2021;11:16144.
3. Kamal M, Omirah MA, Hussein A, Saeed H. Assessment and characterisation of post-COVID-19 manifestations. Int J Clin Pract. 2021;75:e13746.
4. Graham EL, Clark JR, Orban ZS, Lim PH, Szymanski AL, Taylor C, et al. Persistent neurologic symptoms and cognitive dysfunction in non-hospitalized COVID-19 “long haulers”. Ann Clin Transl Neurol. 2021;8(5):1073-1085.
5. Blomberg B, Mohn KGI, Brokstad KA, Zhou F, Linchausen DW, Hansen BA, et al. Long COVID in a prospective cohort of home-isolated patients. Nat Med. 2021;27:1607-1613.
6. Chen C, Haupert SR, Zimmermann L, Shi X, Fritsche LG, Mukherjee B. Global prevalence of post-coronavirus disease 2019 condition or long COVID: a meta-analysis and systematic review. J Infect Dis. 2022;226(9):1593-1607.
7. Feter N, et al. Prevalence and factors associated with long COVID in adults from Southern Brazil: findings from the PAMPA cohort. Cad Saude Publica. 2023;39(12):e00098023.
8. Saes MO, et al. Long COVID and associated factors in individuals from Southern Brazil: a population-based study (SulCOVID-19). Hygeia. 2024;20:e2041.
9. Covre ER, Laranjeira C, Carreira L, Höring CF, Góes HLF, Baldissera VDA, et al. Prevalence and predictors of long COVID in a cohort of Brazilian adults 12 months after acute infection: a cross-sectional study. Health Expect. 2025;28(6):e70467. doi:10.1111/hex.70467.
10. Wehrmeister FC, Menezes AMB, Dalcolmo M, Prendergast ECC, Batista TGS, Leão OAA, et al. A countrywide study on post-COVID-19 condition in Brazil: the Epicovid 2.0. Int J Epidemiol. 2026;55(Suppl 1):i31-i40. doi:10.1093/ije/dyaf143.
11. Martoreli Júnior JF, Pedroso AO, Lima LDES, Gusmão CMP, Menegueti MG, Coêlho HFC, et al. Prevalence and associated factors with long COVID in the Brazilian population: the role of health-related behaviors and sociodemographic characteristics. PLoS One. 2026;21(1):e0339612. doi:10.1371/journal.pone.0339612.
12. Portela MC, Lima SML, Escosteguy CC, Martins M, Vasconcellos MTL, Caldas BDN, et al. Long COVID in the population of COVID-19 hospitalized patients discharged from SUS hospitals in Rio de Janeiro City, Brazil: a patient-engaged cohort survey study. BMC Infect Dis. 2025;25(1):1232. doi:10.1186/s12879-025-11615-w.
13. Chudzik M, Babicki M, Kapusta J, Ka?uzi?ska-Ko?at Z, Ko?at D, Jankowski P, et al. Long-COVID clinical features and risk factors: a retrospective analysis of patients from the STOP-COVID registry. Viruses. 2022;14:1755.
14. Augustin M, Schommers P, Stecher M, Dewald F, Gieselmann L, Gruell H, et al. Post-COVID syndrome in non-hospitalised patients with COVID-19: a longitudinal prospective cohort study. Lancet Reg Health Eur. 2021;6:100122.
15. Tsampasian V, Elghazaly H, Chattopadhyay R, Debski M, Naing TKP, Garg P, et al. Risk factors associated with post-COVID-19 condition: a systematic review and meta-analysis. JAMA Intern Med. 2023;183(6):566-580.
16. Lenoir A, Christe A, Ebner L, Beigelman-Aubry C, Bridevaux PO, Brutsche M, et al. Pulmonary recovery 12 months after non-severe and severe COVID-19: the prospective Swiss COVID-19 lung study. Respiration. 2023;102:120-133.
17. Fernández-Plata R, Higuera-Iglesias AL, Torres-Espíndola LM, Aquino-Gálvez A, Velázquez-Cruz R, Camarena Á, et al. Risk of pulmonary fibrosis and persistent symptoms post-COVID-19 in a cohort of outpatient health workers. Viruses. 2022;14:1843.
18. Cellai M, O’Keefe JB. Characterization of prolonged COVID-19 symptoms in an outpatient telemedicine clinic. Open Forum Infect Dis. 2020;7(10):ofaa420.
19. Costa e Silva GR, Moura WEA, Santos KC, Gomes DO, Bandeira GN, Guimarães RA, et al. Long-term symptoms after mild coronavirus disease in healthy healthcare workers: a 12-month prospective cohort study. Int J Environ Res Public Health. 2023;20(2):1483.
20. Araújo J, Silva IJCS, Centenaro TB, Karloh M. Doença pulmonar intersticial pós-COVID-19. In: Martins JA, Nascimento LL, Mendes LPS, editors. PROFISIO: Programa de Atualização em Fisioterapia Cardiovascular e Respiratória. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2023. p.47-98.
21. López-Sampalo A, Bernal-López MR, Gómez-Huergas R. Persistent COVID-19 syndrome: a narrative review. Rev Clin Esp. 2022;222(4):241-250.
22. Strieter RM, Mehrad B. New mechanisms of pulmonary fibrosis. Chest. 2009;136(5):1364-1370.
23. Amariei DE, Dodia N, Deepak J, Hines SE, Galvin JR, Atamas SP, et al. Combined pulmonary fibrosis and emphysema: pulmonary function tests and a pathophysiological perspective. Medicina (Kaunas). 2019;55(9):580.
24. Harris PA, Taylor R, Thielke R, Payne J, Gonzalez N, Conde JG. Research electronic data capture (REDCap): a metadata-driven methodology and workflow process for providing translational research informatics support. J Biomed Inform. 2009;42(2):377-381.
25. Saes MO, Rocha JQS, Rutz AAM, Silva CN, Camilo LS, Oliveira BC, et al. Aspectos metodológicos e resultados do monitoramento inicial da saúde de adultos e idosos infectados pela COVID-19 (SulCOVID-19). SciELO Preprints. 2023.
26. World Health Organization. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: World Health Organization; 2020.
27. Azambuja P, et al. Prevalence, risk factors, and impact of long COVID in a socially vulnerable community in Brazil: a prospective cohort study. Lancet Reg Health Am. 2024;37:100839.
28. Rocha RPS, et al. Post-COVID-19 syndrome among hospitalized COVID-19 patients: a cohort study assessing patients 6 and 12 months after hospital discharge. Cad Saude Publica. 2024;40(2):e00027423.
29. Huang JF, Wang XB, Zheng KI, Liu WY, Chen JJ, George J, et al. Letter to the editor: obesity hypoventilation syndrome and severe COVID-19. Metabolism. 2020;108:154249.
30. Batista KBC, et al. Panorama da COVID longa no Brasil: análise preliminar de um inquérito para pensar políticas de saúde. Cad Saude Publica. 2024;40(4):e00094623.
31. Schneider CC, Laurent E, Lemaignen A, Beaufils E, Tournois CB, Laribi S, et al. Follow-up of adults with noncritical COVID-19 two months after symptom onset. Clin Microbiol Infect. 2021;27:258-263.
32. Soriano JB, Ancochea J. On the new post COVID-19 condition. Arch Bronconeumol (Engl Ed). 2021;57:735-736.
33. McElvaney OJ, McEvoy NL, McElvaney OF, Carrol TP, Murphy MP, Dunlea DM, et al. Characterization of the inflammatory response to severe COVID-19 illness. Am J Respir Crit Care Med. 2020;202:812-821.
34. Davis HE, Assaf GS, McCorkell L, Wei H, Low RJ, Re’em Y, et al. Characterizing long COVID in an international cohort: 7 months of symptoms and their impact. EClinicalMedicine. 2021;38:101019.


Outros idiomas:







Como

Citar

Oliveira, BC, Vieira, YP, Camilo, LS, Rocha, JQS, Duro, SMS, Saes, MO. Prevalência e fatores dos sintomas respiratórios na COVID longa em adultos e idosos do extremo Sul do Brasil. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 25/07/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/prevalencia-e-fatores-dos-sintomas-respiratorios-na-covid-longa-em-adultos-e-idosos-do-extremo-sul-do-brasil/20090?id=20090

Últimos

Artigos



Realização



Patrocínio