EN PT

Artigos

0266/2026 - REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE MULHERES IMIGRANTES HAITIANAS SOBRE O ACESSO À SAÚDE EM UM MUNICÍPIO NO SUL DO BRASIL
SOCIAL REPRESENTATIONS OF HAITIAN IMMIGRANT WOMEN ABOUT ACCESS TO HEALTHCARE IN A MUNICIPALITY IN SOUTHERN BRAZIL

Autor:

• Maria Solange Ferreira Alves - Alves, MSF - <solalves41@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6130-1857

Coautor(es):

• Evangelia Kotzias Atherino dos Santos - Santos, EKA - <evanguelia.ufsc@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5970-020X

• Marli Terezinha Stein Backes - Backes, MTS - <marli.backes@ufsc.br>
ORCID: http://orcid.org/0000-0003-3258-359X

• Adriana Bitencourt Magagnin - Magagnin, AB - <adrianamagagnin@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1607-9484

• Andréia Isabel Giacomozzi - Giacomozzi, AI - <agiacomozzi@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3172-5800

• Patrícia Amidianski - Amidianski, P - <patricia.amidianski@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3098-7585

• Jhoselin Paula Alves - Alves, JP - <jhoselinalves@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0004-4272-547X



Resumo:

Objetivo: compreender as representações sociais de mulheres imigrantes haitianas sobre o acesso aos cuidados em saúde em um município do Sul do Brasil. Método: trata-se de estudo qualitativo, exploratório-descritivo, fundamentado na Teoria das Representações Sociais. A coleta de dados foi realizada no período de agosto a novembro de 2023, por meio de entrevista semiestruturada, com 31 mulheres imigrantes haitianas. Os dados foram analisados com o auxílio do software IRaMuTeQ, utilizando três técnicas principais: nuvem de palavras, análise de similitude e análise de frequência. Cada uma delas foi interpretada à luz da Teoria das Representações Sociais de Moscovici. Resultados: da análise de dados empreendida, emergiram três categorias principais: Significado de ter saúde; Satisfação na utilização dos serviços de Atenção Primária à Saúde e da Unidade de Pronto Atendimento; e Facilidades e dificuldades no acesso aos serviços de saúde no município. Conclusão: apesar de barreiras estruturais, as mulheres demonstram agência na busca e elaboram estratégias próprias de cuidado, fortalecendo a importância de políticas e práticas de saúde culturalmente sensíveis que fortaleçam o protagonismo dessas mulheres na construção de suas trajetórias.

Palavras-chave:

Acesso aos Serviços e Saúde; Emigrantes e Imigrantes; Mulheres; Política e Saúde; Representação Social.

Abstract:

Objective: to understand the social representations of Haitian immigrant women regarding access to healthcare in a municipality in southern Brazil. Method: this is a qualitative, exploratory-descriptive study, based on the Theory of Social Representations. Data collection was carried out from August to November 2023, through semi-structured interviews with 31 Haitian immigrant women. Data were analyzed using the IRaMuTeQ software, employing three main techniques: word cloud; similarity analysis; and frequency analysis. Each of these was interpreted in light of the Theory of Social Representations. Results: data analysis revealed three main categories: Meaning of having health; Satisfaction with the use of Primary Health Care services and Emergency Care Unit; and Facilities and difficulties in accessing healthcare services in the municipality. Conclusion: despite the structural obstacles they face, immigrants Haitian women demonstrate remarkable agency in seeking care. Understanding their coping strategies highlights the importance of culturally sensitive health policies and practices that recognize and strengthen the leading role of these women in constructing their health and belonging trajectories in Brazil.

Keywords:

Health Services Accessibility; Immigrants; Women; Health Policy; Social Representation.

Conteúdo:

INTRODUÇÃO
A imigração internacional tem crescido nas últimas décadas e representa um desafio para os sistemas de saúde dos países de acolhimento1. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) garanta acesso universal à saúde, as questões relativas à imigração e saúde se tornam um desafio. Muitos imigrantes ainda enfrentam barreiras linguísticas, culturais, socioeconômicas e situações de discriminação. Entre os grupos mais vulneráveis, destacam-se as mulheres haitianas, frequentemente expostas a condições de vulnerabilidade social, econômica e de gênero2.
Nesse contexto, compreender como essas mulheres percebem e vivenciam o acesso aos cuidados em saúde se torna fundamental para o desenvolvimento de estratégias que promovam a equidade e a integralidade da atenção. Diante disso, este estudo busca responder à seguinte questão: como as mulheres imigrantes haitianas representam e vivenciam o acesso aos cuidados em saúde em um município do Sul do Brasil? A compreensão das representações sociais (RSs) construídas por essas mulheres acerca do acesso aos serviços de saúde possibilita identificar fatores que interferem na utilização desses serviços, contribuindo para o planejamento de ações e políticas públicas mais sensíveis às especificidades da população migrante.
Estimativas recentes demonstram que há cerca de 281 milhões de imigrantes internacionais, equivalendo a 3,6% da população no mundo3. O migrante se caracteriza como a pessoa que sai de seu local de origem e se estabelece em um novo país. Essa mudança pode ocorrer de forma espontânea ou forçada, por motivos que ultrapassam a vontade individual, como guerras, perseguições e conflitos4-5.
No Brasil, a intensificação da imigração ocorreu durante o período de 2011 a 2020, acompanhada pela pluralidade de nacionalidades em relação às origens dos imigrantes6. O fluxo migratório no Brasil não data de anos recentes, mas de meados do século XIX, com o advento da entrada dos portugueses, italianos e escravos no país, passando pelo crescente número de orientais que buscaram um novo espaço no comércio brasileiro no início do século XX7.
No contexto brasileiro, iniciou-se um processo de debate sobre as normas que regulamentam a entrada e a permanência de estrangeiros em seu território, culminando na promulgação da Lei nº 13.445, de 24 de maio de 2017, conhecida como a Lei de Migração. Essa legislação assegura aos migrantes o acesso aos serviços públicos de saúde, a assistência social e a previdência social, conforme previsto em lei, sem qualquer discriminação relacionada à nacionalidade ou à condição migratória8.
A saúde, como direito de todos e dever do estado, é fortalecida com a criação do SUS, garantindo a universalidade do acesso de toda pessoa aos cuidados em saúde, seja no âmbito da atenção primária, secundária ou terciária. A universalidade preconizada pelo SUS garante aos imigrantes e refugiados o direito à saúde, mas também traz novos desafios para o sistema: superar as desigualdades e as iniquidades de acesso à saúde8-10.
Tratar sobre a temática de migração no Brasil ainda é algo delicado, visto que essas pessoas ainda são percebidas como uma fonte de risco para a população, reforçando a discriminação e o preconceito, além de gerar e promover a manutenção de inúmeros limites no cotidiano dos imigrantes e suas famílias. Tais fatores distanciam a garantia dos direitos e da promoção do bem-estar, que deve ocorrer sem a distinção de raça, sexo, cor, credo, idade ou nacionalidade9. Desse modo, a migração tem se apresentado com um determinante às políticas de saúde e de assistência social11.
A região Sul do Brasil também enfrenta desafios significativos relacionados à ocorrência de injúrias raciais. Paralelamente, a forte influência de uma cultura local marcada por valores e tradições de origem europeia e predominantemente “branca” faz com que a presença de imigrantes negros ou de pessoas que falam outros idiomas seja frequentemente recebida com formas sutis de exclusão. Essas exclusões se manifestam em diferentes esferas, desde a dificuldade de acesso à moradia por serem vistos como “de fora” e enfrentarem cobranças mais altas em aluguéis, até práticas institucionais de acolhimento pouco sensíveis às suas especificidades culturais e linguísticas12.
Além disso, estudos sobre as RSs da (i)migração têm demonstrado que o tema é controverso, alternando entre a imagem dos imigrantes como “vítimas passivas” ou “ameaças potenciais”13-14. Esse antagonismo tem sido marcado, principalmente, pelo pertencimento político de diferentes grupos sociais, sendo que aqueles mais liberais e/ou de esquerda e seus líderes tendem a ser mais receptivos aos imigrantes, adotando uma postura acolhedora e integradora. Enquanto isso, aqueles mais conservadores e de direita do espectro político tendem a ser mais fechados à possibilidade de receber (i)migrantes em seu país15-16. Em um contexto politicamente polarizado, como o do Brasil17-19, a imigração se tornou um assunto polêmico que merece atenção.
Dessa forma, objetivando abordar os fenômenos complexos relacionados à imigração, consideramos importante conduzir pesquisas que adotem uma abordagem construcionista, levando em consideração tanto as dimensões individuais quanto as coletivas. A Teoria das Representações Sociais (TRS), proposta por Moscovici20, surgiu como uma abordagem relevante capaz de examinar como os grupos constroem e compartilham significados sobre a realidade social.
O número de imigrantes residentes no Brasil é de aproximadamente 265.396, sendo 170.929 homens e 94.467 mulheres. O Haiti lidera a lista dos países, com 99.969 imigrantes vindos para o Brasil21, sendo considerado um dos países mais vulneráveis do mundo devido aos impactos das ações da natureza, como furacões e tempestades tropicais, além das dificuldades de resposta aos danos causados por esses efeitos sobre a população, perpetuando um grave problema de pobreza entre seus moradores. Todos esses aspectos de vulnerabilidade socioeconômica contribuem para a busca de um novo país, onde idealizam dias melhores5.
As mulheres representam uma parcela significativa da população migrante espalhada pelo mundo. Elas migram por diversas razões, algumas por motivos econômicos e financeiros, outras para acompanhar a família e garantir a unificação, e outras ainda para escapar de constrangimentos culturais. Mesmo tentando o escape dessas situações, ainda são alvo de violência, de tráfico humano e de exploração sexual e laboral2.
A acessibilidade e o uso dos serviços de saúde são influenciados por aspectos funcionais e estruturais da organização dos estabelecimentos de saúde. O grau de acesso também é determinado pela qualidade da assistência prestada, elemento que, por vezes, pode ser a principal barreira de acesso por imigrantes, como diferenças linguísticas e culturais10.

MÉTODO
Trata-se de estudo de natureza qualitativa, do tipo exploratório-descritivo, que permite analisar as relações entre representações, percepções, produtos de interpretações e opiniões que as pessoas fazem de si mesmas, de como vivem, pensam e sentem22.
A pesquisa foi fundamentada na TRS23. Essa abordagem permite apreender os conhecimentos do senso comum socialmente elaborados e compartilhados. A TRS propõe explicar a relação entre a ação e o pensamento de grupos, possibilitando compreender o comportamento humano em suas dimensões cognitivas, afetivas e sociais. Dessa forma, contribui para a interpretação das práticas que cercam o ser humano, servindo de alicerce e instrumento para direcionar e facilitar as relações com o meio, as pessoas e o mundo social24-25.
O estudo foi conduzido em Joinville, a maior cidade do estado de Santa Catarina, situada na região Sul do Brasil, por ser o local de atuação profissional da autora principal.
O município é responsável por cerca de 20% das exportações catarinenses, sendo o terceiro polo industrial da região Sul. Ele figura entre os 15 maiores arrecadadores de tributos municipais, estaduais e federais. A cidade concentra grande parte da atividade econômica na indústria, que gera um faturamento de US$14,8 bilhões por ano, com destaque para os setores metal mecânico, têxtil, plástico, metalúrgico, químico, farmacêutico e estético. Possui uma população estimada em mais de 616.323 habitantes26, dos quais 9.564 são imigrantes, sendo 739 haitianos, dos quais 461 são mulheres, segundo o Cadastro Único do Governo Federal para Programas Sociais em Joinville27.
A estrutura organizacional da saúde pública no município conta com uma Rede de Atenção à Saúde, distribuída em 53 Unidades Básicas de Saúde (UBSs), atenção secundária, com quatro unidades de urgência e emergência, 16 serviços especializados, e três serviços de apoio e atenção terciária, com quatro hospitais públicos. O número de participantes da pesquisa foi de 31 mulheres imigrantes haitianas, selecionadas pelo método amostragem em bola de neve28, com a quantidade encerrada por critérios de saturação teórica, ou seja, quando se observou recorrência nas respostas e ausência de novos fatos que pudessem elucidar a coleta de dados29.
Foram incluídas no estudo mulheres haitianas maiores de 18 anos de idade e residentes há, no mínimo, um mês no município. Foram excluídas as mulheres com idade inferior a 18 anos e que residissem na cidade há mais de cinco anos.
O convite para participação em entrevistas semiestruturadas ocorreu em uma reunião de um grupo comunitário solidário de mulheres, que ocorre semanalmente em um bairro da cidade. Nesse momento, foi apresentado o objetivo da pesquisa e feita a apresentação da pesquisadora principal, responsável pela realização das entrevistas.
A coleta de dados ocorreu no período de agosto a novembro de 2023. As entrevistas foram realizadas nas residências das participantes, com dia e hora previamente agendados, a fim de não as onerar com custos em transporte.
Entrevistas em profundidade foram utilizadas para explorar as barreiras e as facilidades percebidas no acesso ao cuidado em saúde. As entrevistas foram realizadas em português ou crioulo, de acordo com a preferência das participantes, com o acompanhamento de uma tradutora nativa. A tradutora foi a primeira participante entrevistada desta pesquisa. As entrevistas foram gravadas com um gravador digital para posterior transcrição integral em português.
Vale ressaltar que a entrevistadora se aproximou das participantes em junho de 2022, quando atuava como voluntária nos encontros do Grupo Solidário de Mulheres Haitianas. O grupo, existente há cerca de dez anos no município, constitui um espaço de acolhimento, apoio mútuo e fortalecimento de vínculos entre mulheres imigrantes. Nele, são abordados temas relacionados à saúde, aos direitos das mulheres, à maternidade, ao trabalho, ao acesso aos serviços públicos e aos desafios decorrentes da experiência migratória. A participação contínua da pesquisadora nesses encontros, anterior ao início da coleta de dados, possibilitou a compreensão do contexto sociocultural das participantes e a construção gradual de relações de confiança com as integrantes do grupo.
Durante essa convivência, estabeleceu-se um vínculo mais próximo com uma liderança comunitária haitiana, que posteriormente colaborou como mediadora cultural e tradutora da pesquisa. A inserção prévia da pesquisadora no grupo contribuiu para uma compreensão mais aprofundada das experiências das mulheres imigrantes.
As entrevistas foram gravadas em áudio e um roteiro semiestruturado foi desenvolvido pela autora para auxiliar na condução das perguntas. O roteiro incluía questionamentos sobre a experiência de acesso à unidade de saúde, a compreensão do conceito de saúde, os cuidados pessoais para manter-se saudável, os sentimentos em relação ao atendimento nos cuidados primários em saúde e nos pontos de urgência e emergência, bem como as facilidades e dificuldades percebidas.
A duração das entrevistas foi de aproximadamente 45 minutos. Após esse momento, solicitava-se à entrevistada a indicação de outra participante em potencial, que era contatada via telefone, para participar da pesquisa. Não houve recusa de participação por nenhuma das mulheres que foram convidadas a participar da pesquisa. Para conferência de todas as etapas do método do estudo, utilizou-se o instrumento Consolidated criteria for Reporting Qualitative research30.
O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina, sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética nº 70185623.5.0000.0121 e Parecer nº 6.217.084, emitido em 2023. A pesquisa foi conduzida em conformidade com os preceitos éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Análise de dados
O corpus textual das entrevistas foi processado com o auxílio do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ), que permite análises lexicográficas a partir de estatísticas de frequência e coocorrência de palavras. O programa, ancorado na linguagem R e na Teoria dos Grafos, possibilita visualizar a organização das palavras em torno de núcleos de sentido e as suas associações semânticas. Neste estudo, foram utilizadas três técnicas principais: nuvem de palavras; análise de similitude; e análise de frequência. Cada uma delas foi interpretada à luz da TRS31-32 e de seus desdobramentos contemporâneos33-34.
A análise lexical é uma etapa exploratória de organização do pensamento social. As palavras mais frequentes indicam elementos centrais das representações, enquanto as menos recorrentes configuram os campos periférico e contextual, que conferem flexibilidade e adaptação às experiências cotidianas. Assim, os resultados do IRaMuTeQ foram interpretados como indicadores estruturais das RSs. A análise de similitude foi especialmente útil para identificar os nós de coocorrência lexical, que revelam as conexões simbólicas entre as categorias temáticas. Essa técnica permite compreender como os sentidos se articulam e quais conceitos organizam a estrutura das representações. A Teoria dos Grafos, ao evidenciar os enlaces entre os vocábulos, traduz o processo de ancoragem, isto é, a maneira como novos significados são integrados a sistemas de pensamento pré-existentes.

RESULTADOS
O estudo envolveu 31 mulheres imigrantes haitianas, com idades entre 25 e 50 anos, predominantemente casadas (64%), com filhos e inseridas em contextos de vulnerabilidade socioeconômica. Observou-se que a maior parte possuía ensino médio completo (42%) ou incompleto (25,8%), enquanto apenas uma pequena parcela havia concluído o ensino fundamental ou não possuía escolaridade.
Quanto ao trabalho e à renda, mais da metade das participantes (54,8%) exercia uma atividade remunerada, concentrando-se em ocupações de baixa qualificação e remuneração, como auxiliar de higienização, comerciante de rua, auxiliar de produção, costureira, cozinheira e profissional da hotelaria. A renda mensal de todas situava-se entre R$ 1.000,00 e R$ 2.000,00, indicando condições econômicas limitadas para o sustento familiar. Tais características podem impactar diretamente o acesso aos cuidados de saúde devido às extensas jornadas de trabalho, aos vínculos empregatícios precários, às responsabilidades domésticas e familiares e aos desafios inerentes ao processo migratório, como barreiras linguísticas, adaptação cultural e desconhecimento da Rede de Atenção à Saúde do município.

Tab.1

Significado de ter saúde
A primeira nuvem de palavras, denominada “o que é ter saúde”, evidencia que as RSs das mulheres haitianas articulam elementos do modelo biomédico com aspectos relacionados ao cuidado cotidiano: “[...] não estar doente, comer saudável, cuidar da casa, ir no médico” (P24). Observa-se que a participante, em sua fala, contempla o bem-estar físico associado à capacidade de manter as atividades cotidianas. Essa compreensão revela uma representação que, embora seja fortemente ancorada na dicotomia saúde-doença, incorpora dimensões práticas e relacionais construídas a partir das experiências de vida.

Fig. 1

A segunda nuvem de palavras, denominada “O que você faz para se manter saudável e para manter sua família saudável”, evidencia que as práticas de cuidado são representadas pelas participantes como uma responsabilidade cotidiana, fortemente associada ao papel feminino no cuidado de si, da família e do ambiente doméstico.
A higiene, em particular, aparece como um símbolo moral e culturalmente valorizado, ancorando-se em práticas de limpeza da casa, do corpo e das roupas, aspectos que remetem à noção de ordem e higiene associadas a não ter doença.
As falas das participantes ilustram essa ancoragem entre o cuidado cotidiano e a saúde, refletindo um processo de objetivação no qual o conceito abstrato de “saúde” é traduzido em práticas observáveis e concretas, como alimentar-se bem, manter a higiene e evitar o uso de medicamentos, entendidos como indicadores da presença da doença. Assim, o uso de remédios aparece nas RSs dessas mulheres como um marcador simbólico da perda da saúde, revelando a associação entre a doença e a dependência do cuidado médico.

Fig.2

Satisfação na utilização dos serviços da Atenção Primária à Saúde e da Unidade de Pronto Atendimento
As representações das participantes acerca da Rede de Atenção à Saúde evidenciam que as UBSs e os serviços de pronto atendimento ocupam um lugar central em seus itinerários de cuidado. Entretanto, observa-se uma inversão simbólica do modelo de assistência, uma vez que 51% das entrevistadas relataram procurar primeiramente a Unidade de Pronto Atendimento, enquanto 29% recorreram à Atenção Primária à Saúde (APS) e 22,5% dirigem-se diretamente aos hospitais. Essa preferência sugere que o cuidado em saúde é representado a partir da lógica da resolutividade imediata, característica ligada aos serviços de urgência e hospitalares. As falas das participantes revelam que a avaliação dos serviços está fortemente vinculada à oferta de consulta médica e à rapidez na obtenção de respostas às demandas apresentadas. As dificuldades para conseguir atendimento, expressas pela ausência de médicos, demora para marcar consultas, necessidade de enfrentar filas e falta de medicamentos, refletem uma percepção de baixa efetividade da APS, conforme evidenciado nos relatos: “[...] nas vezes que fui no posto de saúde, não tinha médico para atender, então não vou mais lá” (P1); “[...] não tem vaga para médico, tem que ir na fila da madrugada” (P17); e “É bem difícil. Demora o atendimento com o médico; marca consulta para mais de um mês; exame demora; falta medicamento” (P8). Nessa perspectiva, a figura do médico emerge como um elemento central na construção das representações sobre o cuidado, sendo sua ausência interpretada como a ausência do próprio acesso ao cuidado em saúde. Essa compreensão evidencia a permanência de uma representação biomédica do cuidado, fortemente associada à consulta médica e à intervenção curativa, em detrimento das ações de prevenção, promoção e recuperação da saúde, estratégia central da APS.

Fig.3

A análise lexical (Figura 4) evidencia que as RSs das mulheres haitianas sobre o pronto atendimento são sinalizadas entre satisfação e insatisfação. Embora as participantes reconheçam que esses serviços atendem às suas necessidades de saúde, as participantes também apontam fragilidades no acolhimento e no reconhecimento de suas condições de imigrantes. O reconhecimento do pronto atendimento está ligado à consulta médica e aos medicamentos, reforçando a compreensão da assistência centrada na resolutividade imediata. Ao afirmar que “nunca voltei para casa sem atendimento médico” e que sai do serviço “até com remédio para levar para casa” (P1), observa-se que a efetividade do atendimento é avaliada a partir da rápida obtenção da necessidade do momento.
Entretanto, as narrativas das participantes indicam que a avaliação do atendimento não depende apenas da resolução do problema de saúde, mas da forma como são acolhidas e tratadas nos serviços. A afirmação de que “falta olhar o imigrante com mais valor, consideração, atender com mais atenção” (P4) revela que o acesso à saúde também é permeado por necessidades de reconhecimento, respeito e pertencimento. Nesse sentido, as representações sobre o pronto atendimento são estruturadas por duas dimensões complementares: uma instrumental, relacionada à resolução dos problemas de saúde, e outra relacional, vinculada à forma como essas mulheres se percebem acolhidas e legitimadas nos serviços. A afirmação de que se deseja uma maior valorização do imigrante mostra que, além do atendimento recebido, espera-se ser respeitado, ouvido e acolhido em sua condição social, cultural e linguística — fatores que influenciam a construção de vínculos com os serviços de saúde.

Fig.4

Fig.5

Na análise lexical realizada (Figura 5), observa-se que as representações sobre a saúde e os serviços revelam uma experiência permeada por avanços no acesso aos direitos, mas também por desafios relacionados ao reconhecimento e à inclusão das mulheres imigrantes na Rede de Atenção à Saúde. Embora as participantes reconheçam a gratuidade do sistema e valorizem o acolhimento recebido pelos profissionais, ainda apontam dificuldades encontradas para obter consultas, realizar exames e se comunicar com a equipe de saúde. Nesse contexto, o atendimento emerge como um elemento central das representações, assumindo significados que extrapolam a oferta do cuidado clínico e abrangem os aspectos relacionados à acessibilidade, ao acolhimento e à possibilidade de ter suas necessidades efetivamente atendidas. A gratuidade do atendimento é valorizada e reconhecida como uma importante garantia de cuidado, especialmente diante das condições socioeconômicas vivenciadas pelas entrevistadas. Entretanto, as dificuldades para conseguir consultas e a limitação da comunicação com os profissionais são percebidas como obstáculos que comprometem o exercício pleno desse direito.

DISCUSSÃO
Os resultados demonstram que as RSs da saúde entre as mulheres haitianas são construídas a partir da articulação entre as condições concretas de vida, as experiências migratórias e as formas de inserção nos serviços de saúde. A saúde é compreendida como uma condição necessária para trabalhar, sustentar a família e desempenhar as responsabilidades cotidianas, revelando uma compreensão fortemente vinculada à funcionalidade do corpo e à manutenção da vida familiar. Essa é uma concepção historicamente observada em grupos populares, como analisado em estudos clássicos35-36.
A centralidade do trabalho intrínseca nas narrativas pode ser compreendida à luz das condições sociais das participantes, que são, em sua maioria, mulheres negras, imigrantes e inseridas em ocupações de baixa remuneração, para as quais a capacidade laboral representa um elemento fundamental para a sobrevivência e a estabilidade familiar. Sob a perspectiva da TRS, esse entendimento corresponde a um conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, produzido no cotidiano e capaz de orientar práticas e atribuir sentido à realidade vivida37.
Os termos “higiene”, “alimentação” e “limpeza” emergem nas narrativas como marcadores morais do que significa ser uma mulher saudável e responsável. A saúde é representada não apenas como a ausência de doença, mas como o resultado de um esforço cotidiano e visível: limpar a casa, preparar a alimentação adequada e cuidar do corpo. Esse processo de objetivação transforma a saúde em uma prática moral, articulando valores de ordem, limpeza e responsabilidade familiar historicamente atribuídos às mulheres.
Essa associação entre saúde, limpeza e responsabilidade moral encontra respaldo nas reflexões38-39 de que as noções de pureza e perigo organizam simbolicamente as fronteiras entre o saudável e o doente, o aceitável e o desviante. No contexto migratório, tais práticas podem assumir um significado ainda mais amplo, funcionando como estratégias de afirmação da dignidade, pertencimento e resistência diante de situações de discriminação e estigmatização.
Essa associação entre saúde, para as mulheres haitianas, está fortemente ancorada na possibilidade de manter o corpo apto para o trabalho e para sustentar a família após o processo migratório. As participantes demonstram uma construção social de um sentido sobre a noção de saúde. Com base na TRS, o conhecimento elaborado e partilhado a partir do senso comum por um grupo de pertença, que situa o sujeito no ambiente em que está inserido, capaz de construir uma realidade prática, faz com que os sujeitos dominem seu mundo social, atribuindo-lhe sentido37.
Como observado38-39, as noções de pureza e perigo simbolicamente organizam as fronteiras entre o saudável e o doente, o aceito e o desviante. No contexto migratório, essa representação pode funcionar também como uma estratégia de afirmação da dignidade: estar limpo e ser saudável é uma forma de pertencimento e de resistência à estigmatização.
Além disso, as categorias de pureza e perigo não são neutras, mas atravessadas por relações de poder, gênero, raça e classe social. O “sujeito impuro”, aquele que transgride fronteiras, mistura categorias ou desafia normas estabelecidas, é percebido como uma ameaça à estabilidade da ordem social. Em cada sociedade, as noções de corpo “saudável”, “normal”, “belo” e “moralmente aceitável” são construídas a partir de valores culturais, estruturas de poder e sistemas simbólicos que definem o que deve ser incluído ou excluído do espaço social.
Dessa forma, compreender as ideias de pureza e perigo implica compreender como as sociedades produzem, legitimam e mantêm suas fronteiras morais e culturais, delimitando o que é considerado aceitável ou desviante. Essas representações não são fixas, mas refletem as relações de poder, gênero, raça e classe, que influenciam o modo como determinados corpos e comportamentos são classificados e hierarquizados38-39.
Na categoria “Satisfação na utilização dos serviços da Atenção Primária à Saúde e da Unidade de Pronto Atendimento”, evidenciou-se um importante processo de ancoragem do cuidado na figura do médico. Nas narrativas das participantes, o acesso à saúde é frequentemente traduzido pela possibilidade de consultar um médico, realizar exames e obter medicamentos. O médico emerge como a principal referência para avaliar a qualidade do atendimento, de modo que a sua ausência é frequentemente interpretada como a ausência do próprio cuidado. Essa representação não decorre apenas da influência do modelo biomédico, mas também das experiências concretas de acesso vivenciadas pelas participantes. Em um contexto marcado pela dificuldade para obtenção de consultas, exames e encaminhamentos, a figura médica passa a simbolizar a possibilidade de resolução dos problemas de saúde, tornando-se um elemento central na construção das expectativas em relação aos serviços.
No núcleo das representações, emerge a figura do médico como um agente legítimo do cuidado e da cura, indicando que o modelo biomédico sustenta a organização das práticas e expectativas no acesso ao SUS. Já a outra perspectiva40 contribui para aprofundar esse achado, ao evidenciar a tensão entre a dimensão técnica da doença, regulada pelo dispositivo institucional do sistema de saúde, e a dimensão vivida da doença, marcada pelas experiências de deslocamento, racismo e barreiras linguísticas.
A acessibilidade busca ajustar os cuidados de saúde às características dos recursos disponíveis e da população assistida, permitindo identificar os fatores que facilitam ou dificultam o acesso a esses cuidados. Ela resulta de uma combinação de fatores de distintas dimensões, como as de ordem geográfica, organizacional, sociocultural e econômica41.
De certa forma, já demonstram experiências negativas no atendimento na APS. Estudo realizado sobre RSs com pessoas em situação de rua sobre acesso ao cuidado em saúde revelou que o destaque do termo “médico”, ao mesmo tempo que revela a ideia de cuidado em saúde atrelado ao diagnóstico, tratamento e, às vezes, cura de alguma doença, denúncia um dos problemas enfrentados pela população mais vulnerável: o acesso aos serviços de saúde42.
Ao ancorar e objetivar o acesso ao cuidado em saúde na figura do médico, essas mulheres demonstram ainda a fragilidade do modelo de atenção à saúde predominante, que é o modelo biomédico. Ao diminuir a perspectiva ampliada de atenção, busca-se valorizar a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, aspectos preponderantes em uma dinâmica de cuidado integral e no fortalecimento da democratização da saúde no país43. A ancoragem está relacionada à introdução de elementos distintos ao pensamento já elaborado, à qualificação de fenômenos desconhecidos pelo senso comum e à atribuição de significado aos objetos. Ela também serve como um instrumento para investigar a incorporação social de um saber. Ela tem o intuito de associar objetos e fatos estranhos, não assimilados, a algo previamente conhecido, dando sentido à realidade vivida anteriormente44.
Contudo, essa representação não pode ser compreendida apenas como o resultado da valorização cultural da medicina. Ela também reflete experiências concretas de acesso vivenciadas pelas participantes, para as quais a consulta médica representa a possibilidade de resolução de necessidades frequentemente acumuladas por dificuldades econômicas, sociais e migratórias, tendo em vista que não necessita de agendamento, existindo, assim, a maior garantia de atendimento, de acesso à assistência com maiores recursos tecnológicos e de resolutividade de forma imediata45.
A análise de dados permite identificar dois movimentos estruturantes das RSs de saúde dessas mulheres. O primeiro é o processo de objetivação: o conceito abstrato de “saúde” é convertido em imagens concretas e práticas observáveis, como alimentar-se bem, manter a higiene corporal e doméstica, e evitar o uso de medicamentos. Essa concretização transforma um objeto intangível em algo palpável e socialmente compartilhado pelo grupo. O segundo movimento é o de ancoragem: o acesso ao cuidado em saúde é classificado e interpretado a partir de um sistema de referência pré-existente centrado na figura do médico. Um “bom atendimento” é aquele que garante a consulta médica, e a “dificuldade” é a ausência desse profissional. Essa ancoragem na biomedicina não é uma característica individual, mas uma representação socialmente construída que articula a experiência migratória com um modelo de saúde aprendido no Haiti e reforçado pelo funcionamento real do SUS.
As dificuldades de acesso relatadas pelas participantes evidenciam que o adoecimento é experienciado simultaneamente como um fenômeno biológico, subjetivo e social. A compreensão do adoecimento deve ser ampliada por meio do modelo das três dimensões: disease; illness; e sickness36. Isso significa que interpretar o processo de adoecer exige articular, simultaneamente, os significados biológicos, subjetivos e sociais do sofrimento humano, considerando tanto a perspectiva médica quanto a experiência vivida pelo indivíduo e o reconhecimento social de sua condição. Neste estudo, as três dimensões se manifestam de forma articulada. A dimensão “disease” corresponde ao entendimento biomédico que orienta a expectativa das mulheres sobre o atendimento médico e o acesso a exames e medicamentos. A dimensão “illness” emerge nas narrativas em relação ao que significa não estar doente: trabalhar, cuidar da casa, manter a família, sendo a saúde representada como condição funcional e produtiva. A dimensão “sickness”, mais social, manifesta-se nas experiências de não reconhecimento nos serviços: a espera excessiva, a barreira linguística e o sentimento de ser tratada com menos valor revelam que o sofrimento dessas mulheres também é produzido socialmente por estruturas de exclusão racial e migratória.
Dessa forma, os resultados reforçam a necessidade de compreender o processo de saúde-doença além de sua dimensão biológica, incorporando os significados subjetivos e sociais atribuídos ao adoecimento.
Em relação à categoria “Facilidades e dificuldades no acesso aos serviços de saúde no município”, as participantes evidenciam que o acesso à saúde ultrapassa a disponibilidade formal dos serviços e envolve dimensões organizacionais, sociais e culturais. A barreira linguística, frequentemente mencionada pelas entrevistadas, não se restringe à dificuldade de comunicação, mas expressa desigualdades estruturais que limitam a autonomia das usuárias, dificultam a compreensão das orientações profissionais e interferem na construção de vínculos com os serviços.
Nesse contexto, o acolhimento adquire um significado ampliado. Ser acolhida significa ser respeitada, compreendida e reconhecida em suas necessidades específicas como mulher imigrante, e não apenas ser cordial ou tentar se comunicar. A demanda por maior atenção e valorização do imigrante revela que o cuidado com a saúde também é uma experiência de reconhecimento social, de pertencimento e de exercício de direitos. O acolhimento não é representado apenas como acesso ao serviço, mas como experiência de reconhecimento da própria humanidade e legitimidade da condição migrante.
A imigração precisa ser discutida nos espaços de saúde. Não deve ser compreendida apenas como uma mudança de deslocamento de espaço, mas como um fenômeno complexo, exigindo da imigrante adaptação à cultura do país de acolhimento, podendo gerar conflitos, transformações e experiências de perda, o que pode ser traumatizante em alguns casos46.
A imigração em si torna essas mulheres mais vulneráveis, devido às experiências estressoras, que determinam a sua condição de saúde, fazendo com que necessitem mais dos serviços de assistência social e de saúde28.
Ademais, é notório que o atendimento às mulheres haitianas imigrantes exige adequações no processo de cuidar, constituindo um desafio para as equipes de saúde, especialmente em relação à comunicação e ao desconhecimento por parte das usuárias sobre o funcionamento do sistema de saúde brasileiro. Nesse contexto, o acolhimento emerge como um elemento central nas representações das participantes. Em sua dimensão instrumental, refere-se aos esforços dos profissionais para superar as barreiras linguísticas, utilizando diferentes estratégias de comunicação, como aplicativos de tradução ou apoio de terceiros, mesmo sem dominar o crioulo haitiano. Já em sua dimensão simbólica, o acolhimento está relacionado ao reconhecimento da condição migrante como legítima e digna de atenção. Como sintetiza a participante P4, ainda falta “olhar o imigrante com mais valor”. Essa percepção ultrapassa a dificuldade de comunicação e remete à experiência de invisibilidade racial e cultural nos serviços de saúde, revelando que, para essas mulheres, sentir-se acolhida significa não apenas receber atendimento, mas também ser reconhecida como sujeito de direitos, pertencente ao território e merecedora de respeito, consideração e cuidado.
Experiências de implantação do acolhimento relatam como sendo facilitador do acesso, no sentido de garantir o atendimento a todos os indivíduos que procuram os serviços de saúde. Além disso, qualifica a relação trabalhador-cliente por meio de parâmetros humanitários, de solidariedade e de cidadania, possibilitando o fortalecimento das relações de vínculos e a corresponsabilização na produção da saúde47.
A interpretação dos resultados exige considerar a intersecção entre raça, gênero e migração. A interpretação das representações precisa considerar que essas mulheres são majoritariamente negras e vivem em uma região em que a branquitude opera como norma simbólica. A racialização constrói fronteiras de pertencimento que impactam o acesso ao cuidado e os modos como são percebidas nos serviços de saúde. Em contextos marcados por desigualdades raciais, as representações de grupos negros tendem a ser atravessadas por discursos que os associam à ameaça, à irregularidade ou à sobrecarga dos sistemas públicos, como mostrado em estudos sobre discriminação racial e violência em contextos de sofrimento social48.
Ao mesmo tempo, essas representações se entrelaçam à condição migrante e ao gênero, produzindo uma forma específica de vulnerabilidade para mulheres negras haitianas que buscam cuidado no SUS. Pesquisas brasileiras sobre RSs da violência de gênero têm demonstrado como a feminilidade é regulada por expectativas morais e por discursos que normalizam desigualdades na vida cotidiana43,49-50. A articulação entre raça, gênero e migração, portanto, não apenas estrutura os sentidos atribuídos à saúde e ao cuidado, mas também define quem se reconhece e quem é reconhecida como sujeito legítimo de direitos, proteção e acolhimento nos serviços.
Assim, as demandas por atendimento, acolhimento e reconhecimento expressam não apenas as necessidades assistenciais, mas também a busca por inclusão social e pelo pleno exercício do direito à saúde no contexto do SUS. Nesse sentido, a promoção da saúde e a redução das desigualdades em saúde dependem não apenas da oferta formal dos serviços, mas da capacidade do sistema em responder às necessidades específicas de populações em situação de vulnerabilidade, como mulheres negras, imigrantes e trabalhadoras.
Por fim, os achados reforçam a necessidade de fortalecer práticas culturalmente sensíveis, ampliar estratégias de acolhimento e promover ações voltadas à equidade em saúde, especialmente para populações em vulnerabilidade. Tais medidas são fundamentais para a efetivação dos princípios do SUS e para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente aqueles relacionados à redução das desigualdades e à garantia do direito universal à saúde.

CONCLUSÃO
As RSs da saúde construídas pelas mulheres imigrantes haitianas revelam que o cuidado em saúde é compreendido além da utilização dos serviços, sendo fortemente relacionado à capacidade de trabalhar, sustentar a família e cumprir as responsabilidades cotidianas. A saúde é objetivada em práticas concretas de cuidado, como a alimentação, a higiene e a busca por atendimento médico, enquanto o acesso aos serviços é ancorado na figura do médico como principal referência de cuidado e resolutividade. Esses achados evidenciam a permanência de elementos do modelo biomédico na construção dos sentidos atribuídos à saúde, ao mesmo tempo em que demonstram como as experiências migratórias, as condições de vida e as desigualdades sociais contribuem para a elaboração dessas representações.
A partir da TRS, este estudo demonstra como grupos em situação de vulnerabilidade constroem saberes práticos e partilhados que lhes permitem navegar sistemas complexos. As RSs de saúde dessas mulheres não são meros reflexos das condições estruturais; são construções ativas que orientam condutas, atribuem sentido às experiências de adoecimento e acesso, e sustentam estratégias de enfrentamento coletivo. No campo das implicações práticas, os resultados apontam para a necessidade de formação dos profissionais de saúde em competência intercultural e de mediação linguística nos serviços do SUS, bem como para a participação ativa das mulheres imigrantes na elaboração de políticas locais de saúde.
A TRS mostrou-se particularmente relevante para revelar que as dificuldades encontradas no acesso ao SUS são incorporadas às representações construídas sobre o cuidado, influenciando a forma como essas mulheres reconhecem, avaliam e utilizam os serviços de saúde.
Os resultados também demonstram que as experiências de saúde dessas mulheres são atravessadas pela intersecção entre gênero, raça, condição migratória e posição socioeconômica. As barreiras linguísticas, as dificuldades organizacionais dos serviços e as experiências de não reconhecimento evidenciam que o acesso à saúde não depende exclusivamente da disponibilidade formal dos serviços, mas da capacidade do sistema em atender às necessidades sociais, culturais e comunicacionais da população migrante. Assim, o estudo reforça que a efetivação do princípio da universalidade do SUS exige o enfrentamento das desigualdades que produzem as situações de vulnerabilidade e limitam o exercício pleno do direito à saúde.
Como limitação, destaca-se a complexidade do fenômeno investigado, que demanda a articulação com outros referenciais teóricos e metodológicos para aprofundar a compreensão das experiências migratórias e de saúde. Além disso, observou-se, durante a produção dos dados, a preocupação de algumas participantes quanto à possibilidade de sofrerem represálias em atendimentos futuros ao relatarem dificuldades vivenciadas nos serviços de saúde, aspecto que pode ter influenciado a expressão de determinadas percepções. Apesar dessas limitações, o estudo contribui para ampliar o conhecimento sobre as experiências de mulheres haitianas no contexto do SUS, dando visibilidade às relações entre migração, saúde, gênero e raça, e reforçando a necessidade de políticas e práticas comprometidas com a inclusão social e a garantia do direito à saúde para populações migrantes.

Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.

REFERÊNCIAS
1 International Organization for Migration. World migration report 2024 [Internet]. Geneva: IOM; 2024 [cited 2026 Jun 19]. Available from: https://worldmigrationreport.iom.int/world-migration-report-2024

2 Pinto MB, Pereira MC, Schimanski É, Margraf W. A mulher imigrante e sua vulnerabilidade no ambiente de trabalho: uma revisão de literatura [Internet]. Rev Magistro. 2020 [cited 2024 Jun 30];1(21). Available from: https://publicacoes.unigranrio.edu.br/magistro/article/view/6164

3 Pizzol ESRD; Barreto MS; Figueiredo MCAB; Gurrutxaga MIU; Padilla FMG; Santos ML; et al. Perspective of immigrants on personal and family integration in Brazilian society. Texto Contexto Enferm. 2023;32:e2220226. doi: https://doi.org/10.1590/1980-265X-TCE-2022-0226pt

4 Organização das Nações Unidas (ONU). ONU News: perspectiva global reportagens humans, 2022 [Internet]. 2022 [cited 2024 Jun 30]. Available from: https://news.un.org/pt/story/2021/12/1772272

5 Tafner DPOV; Nitschke RG; Tholl AD; Souza JB; Nabarro M. Potências e limites no cotidiano dos imigrantes refugiados afrodescendentes haitianos. Cien Cuid Saúde. 2022;21:e62578. doi: https://doi.org/10.4025/ciencuidsaude.v21i0.62578

6 Cavalcanti L; Oliveira T; Silva BG. Relatório Anual 2021 – 2011-2020: Uma década de desafios para a imigração e o refúgio no Brasil. Série Migrações. Brasília, DF: Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra); Ministério da Justiça e Segurança Pública; Conselho Nacional de Imigração; Coordenação Geral de Imigração Laboral; 2021.

7 Barreto TMAC; Rodrigues FS; Barreto F. Os impactos nos serviços de saúde decorrentes da migração venezuelana em Roraima: ensaio reflexivo. Hum Tecnol Rev. 2018;14(1):32-42.

8 Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 3.565, de 22 de dezembro de 2017. Institui, no âmbito do Ministério da Saúde, o Grupo de Trabalho sobre Saúde do Estrangeiro. Brasília [Internet]. 2017 [cited 2024 Abr 15]. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt3565_27_12_2017.html

9 Ventura DFL, Yujra VQ. Saúde do migrante e refugiados. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2019.

10 Araújo TN, Pessalacia JDR, Balderrama P, Ribeiro AA, Santos FR. Atenção à saúde de imigrantes haitianos em diferentes países na atualidade: revisão integrativa de literatura. Rev Eletr Com Inf Inov Saúde. 2021;15(1):249-267. doi: https://doi.org/10.29397/reciis.v15i1.2082.

11 Wermuth MAD, Aguiar JT. Direitos humanos e políticas migratórias brasileiras: do estatuto do estrangeiro à nova lei de migrações, rupturas e continuidades. Rev Cult Jurid. 2018;5(10). doi: https://doi.org/10.22409/rcj.v5i10.479.

12 Hillesheim B, Darsie C, Dhein G, Weber DL, Couto CR; Back LA. Migratory movements in Brazil: challenges for public health and social assistance [Internet]. Psicol Polít. 2022 [cited 2024 Apr 15].;22(55):587-601. Available from: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpp/v22n55/v22n55a06.pdf.

13 Soares CG. The presence of Haitians in western Santa Catarina: the encounter with whiteness. RELACult-Rev Latino-Am Estud Cult Soc. 2019;5(Spec Issue: II SEMLACult). doi: https://doi.org/10.23899/relacult.v5i5.1549

14 Rosa AS, Bocci E, Nubola A, Salvati M. The Polarized Social Representations of immigration through the photographic lens of INSTAGRAM. Psychol Hub. 2020;3:5-22. doi: https://doi.org/10.13133/2724-2943/17227.

15 Rosa AS, Bocci E, Bonito M, Salvati M. Twitter as social media arena for polarised social representations about the (im)migration: The controversial discourse in the Italian and international political frame. Migration Stud. 2021;9(3):1167–1194. doi: https://doi.org/10.1093/migration/mnab001.

16 Rozendo A, Giacomozzi AI, Vitali MM. Representações Sociais sobre Migrantes. [Internet]. Estud Contemp Subj. 2022 [cited 2024 Jun 30];1:109–119. Available from: http://www.periodicoshumanas.uff.br/ecos/article/view/3119.

17 Giacomozzi AI, Rosa AS, Silva MLB, Gizzi F, Moraes VS. Representações sociais de (im)migrantes no primeiro ano da pandemia de covid-19 no Brasil: um estudo de notícias online [Internet]. Pap Soc Represent. 2023[cited 2024 Abr 15];32(1):3-1–3-33. Available from: https://psr.iscte-iul.pt/index.php/PSR/article/view/625.

18 Giacomozzi AI, Silveira A, Tavares ACA, Justo AM. Polarização Política e Relações Intergrupais: um estudo das Representações Sociais no Brasil. Quaderns de Psicologia. 2022;24(3):1–26. doi: https://doi.org/10.5565/rev/qpsicologia.1643.

19 Giacomozzi AI, Fiorott JG, Bertoldo R, Contarello A. Representações sociais da polarização política através da mídia tradicional: um estudo do caso brasileiro entre 2015 e 2019. Hum Aff. 2023;1:1–15. doi: https://doi.org/10.1515/humaff-2022-2032.

20 Moscovici S. A psicanálise, sua imagem e seu público. Petrópolis: Vozes; 2012.

21 Giacomozzi AI, Vitali MM, Presotto GC, Vidal GP, Gomes MA. Constructing emotional meanings about Jair Bolsonaro in Brazil during the Covid-19 pandemic on twitter. Discov Glob Soc. 2024;2(1):37. doi: https://doi.org/10.1007/s44282-024-00066-4G.

22 Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra). Resumo executivo: relatório anual do OBMigra 2020 [Internet]. Brasília: OBMigra; 2020 [cited 2024 Jun 30]. Available from: https://portaldeimigracao.mj.gov.br/pt/dados/relatorios-a.

23 Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 13. ed. São Paulo: HUCITEC; 2013.

24 Moscovici S. Representações sociais: investigações em psicologia social. 7. ed. Petrópolis: Vozes; 2010.

25 Santos EA, Campos PHF. As representações sociais como teoria e como prática. Fragmentos de Cultura. 2022;32(2):181-190. doi: https://doi.org/10.18224/frag.v32i2.12267.

26 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cidades e estados. [Internet]. Brasil: IBGE; 2022 [cited 2026 Abr 15]. Available from: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/sc/joinville.html.

27 Joinville. Prefeitura Municipal. Inscrição e atualização no Cadastro Único (CadÚnico) [Internet]. Joinville: Prefeitura Municipal de Joinville; 2026 [cited 2026 Jun 19]. Available from: https://www.joinville.sc.gov.br/servicos/ingressar-em-cadastro-unico-para-programas-sociais/

28 Barreto MS, Sanguino GZ, Vieira VCL, Furlan MCR, Flavio GG, Gutiérrez-Carmona A, Marcon SS. Challenges of nursing research with immigrant and refugee populations: methodological and pragmatic considerations. Rev Esc Enferm USP. 2024;58:e20230417. doi: https://doi.org/10.1590/1980-220X-REEUSP-2023-0417en.

29 Minayo MC de S. Amostragem e saturação em pesquisa qualitativa: consensos e controvérsias. Rev. Pesq. Qual. [Internet]. 2017 [cited 2024 Jun 10];5(7):1-12. Available from: https://editora.sepq.org.br/rpq/article/view/82b

30 Souza VRS, Marziale MHP, Silva GTR, Nascimento PL. Translation and validation into Brazilian Portuguese and assessment of the COREQ checklist. Acta Paul Enferm. 2021;34:eAPE02631. doi: https://doi.org/10.37689/acta-ape/2021AO02631.

31 Moscovici S. La psychanalyse, son image, son public. Paris: Presses Universitaires de France; 1961.

32 Moscovici S. A psicanálise, sua imagem e seu público. Petrópolis (RJ): Vozes; 2012.

33 Abric J-C. The structural approach to social representations: recent developments. In: Campos PHF, Loureir MC, editors. Representações sociais: avanços e perspectivas. Goiânia: UCG; 2003.

34 Jodelet D. Représentations sociales: un domaine en expansion. In: Jodelet D, editor. Les représentations sociales. Paris: Presses Universitaires de France; 1989.

35 Boltanski L. Les usages sociaux du corps. Ann Écon Sociétés Civilisations. 1971;26(1):205-33.

36 Herzlich C. Saúde e doença: um enfoque social. São Paulo: Difel; 1973.

37 Matinei S, Stefani SR, Carraro E. Tecnologias da informação e comunicação e seu uso na saúde pública: contribuições aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS 3. Rev Gestão Análise. 2023;12(1):49-62. doi: https://doi.org/10.12662/2359-618xregea.v12i1.p49-62.2023.

38 Douglas M, Silva SP. Pureza e perigo: ensaio sobre as noções de poluição e tabu. Lisboa: Edições 70; 1985. 213 p.

39 Lupton D. Cultura e corpo. Rio de Janeiro: Vozes; 2012.

40 Kleinman A. The illness narratives: suffering, healing, and the human condition. New York: Basic Books; 1988.

41 Moscovici S. Representações sociais. Petrópolis: Vozes; 2003.

42 Giovanella L, Mendonça MHM, Buss PM, Fleury S, Gadelha CAG, Galvão LAC, Santos RF dos. From Alma-Ata to Astana. Primary health care and universal health systems: an inseparable commitment and a fundamental human right. Cad Saúde Pública. 2019;35(3):e00012219. doi: https://doi.org/10.1590/0102-311X00012219. 42

43 Leandro M, Giacomozzi AI, Fiorott JG, Marx D. Representações sociais da violência doméstica em comentários de rede social. Rev Eletr Cient UERGS. 2019;5(n. esp.):208-216. doi: https://doi.org/10.21674/2448-0479.52.208-216.

44 Mortimer C. Cholera in Haiti: political crisis and poor sanitation mean thousands are dying unnecessarily in the Caribbean nation [Internet]. The Independent. London; 2016 mar [cited 2024 Jun 5]. Available from: https://www.independent.co.uk/news/world/americas/cholera-in-haiti-political-crisis-and-poor-sanitation-mean-thousands-are-dying-unnecessarily-in-the-caribbean-nation-a6910626.html

45 Delamuta KG, Mendonça FF, Domingos CM, Carvalho MN. Healthcare experiences of primary care workers with Bengalese immigrants in Paraná State, Brazil. Cad Saúde Pública. 2020;36(8):e00087019. doi: https://doi.org/10.1590/0102-311X00087019.

46 Grandahl M, Tydén T, Gottvall M, Westerling R, Oscarsson M. Immigrant women's experiences and views on the prevention of cervical cancer: a qualitative study. Health Expect. 2015;18(3):344-354. doi: https://doi.org/10.1111/hex.12034.

47 Silva ICN, Santos MVS, Campos LCM, Silva DO, Porcino CA, Oliveira JF. Representações sociais do cuidado em saúde de pessoas em situação de rua. Rev Esc Enferm USP. 2018;52:e03314. doi: https://doi.org/10.1590/S1980-220X2017023703314.

48 Vitali MM, Presotto GC, Gizzi F, Gomes MA, Giacomozzi AI. #BLACKLIVESMATTER: a study of social representations from Twitter. Community Psychol Glob Perspect. 2022;8(1):1-19. doi: http://dx.doi.org/10.1285/i24212113v8i1p1

49 Nieswald LMR, Giacomozzi AI. Implicações dos dispositivos amoroso e materno sobre mulheres em situação de violência doméstica. Nova Perspect Sist. 2024;33(78):57-67. doi: https://doi.org/10.38034/nps.v33i78.745.

50 Giacomozzi AI, Barros SBT, Silveira A. Preciso de um espaço onde eu possa desabafar e ser ouvida?: a busca por acolhimento em grupos reflexivos para mulheres vítimas de violência [Internet]. Rev COCEVID. 2025;2(01):88-109. [cited 2026 Jun 19]. Available from: https://cocevid.com.br/wp-content/uploads/2025/04/Preciso-de-um-espaco-onde-eu-possa-desabafar-e-ser-ouvida.pdf



Outros idiomas:







Como

Citar

Alves, MSF, Santos, EKA, Backes, MTS, Magagnin, AB, Giacomozzi, AI, Amidianski, P, Alves, JP. REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE MULHERES IMIGRANTES HAITIANAS SOBRE O ACESSO À SAÚDE EM UM MUNICÍPIO NO SUL DO BRASIL. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/set). [Citado em 25/09/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/representacoes-sociais-de-mulheres-imigrantes-haitianas-sobre-o-acesso-a-saude-em-um-municipio-no-sul-do-brasil/20164?id=20164

Últimos

Artigos



Realização



Patrocínio