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Artigos

0181/2026 - Saúde em risco na era digital: desinformação, automedicação e busca por canetas emagrecedoras não autorizadas no Brasil
Health at risk in the digital age: misinformation, self-medication, and the search for unauthorized slimming pens in Brazil

Autor:

• Cláudia Pereira Galhardi - Galhardi, CP - <claudiagalhardi@usal.es>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3047-9222

Coautor(es):

• Neyson Pinheiro Freire - Freire, N.P - <neysonfreire@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9038-9974

• Renata Tereza Goncalves Pereira - Pereira, RTG - <renatatgpereira@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0009-0638-3536

• Janaina Kanni - Kanni, J - <janaina55235@uecologica.edu.bo>
ORCID: https://orcid.org/0009-0008-1645-8901



Resumo:

A obesidade constitui importante problema de saúde pública global e tem impulsionado o aumento da procura por medicamentos emagrecedores, inclusive por produtos sem registro sanitário. Este estudo analisou a tendência temporal e a distribuição geográfica das buscas on-line por canetas emagrecedoras não autorizadas no Brasil. Trata-se de estudo descritivo e analítico, de abordagem quantitativa, fundamentado na infodemiologia e na saúde coletiva digital, utilizando dados do Google Trends referentes aos termos Lipoless, Retatrutide, Tirzec, Lipoland e T.G., no período entre 4 de maio de 2025 e 3 de maio de 2026. A unidade temporal de análise foi semanal, utilizando-se regressão Joinpoint para avaliação das tendências temporais e testes de comparação de proporções para análise regional. Observou-se crescimento significativo das buscas agregadas entre junho de 2025 e janeiro de 2026, com variação percentual semanal de +6,29% (p<0,0001). Mato Grosso do Sul apresentou a maior taxa de buscas (88,9 por milhão de habitantes), seguido de Mato Grosso (48,8) e Distrito Federal (39,0), enquanto São Paulo apresentou a menor taxa (2,5 por milhão). Identificaram-se diferenças estatisticamente significativas entre as regiões brasileiras (p<0,0001), com destaque para a Região Centro-Oeste. Os achados sugerem associação entre desinformação digital, automedicação e interesse por medicamentos sem autorização sanitária, evidenciando a necessidade de fortalecimento da vigilância sanitária digital, da comunicação em saúde e das estratégias regulatórias voltadas ao ambiente on-line.

Palavras-chave:

Automedicação; Comportamento de Busca de Informação; Fármacos Antiobesidade; Infodemiologia; Obesidade; Vigilância Sanitária

Abstract:

Obesity is a major global public health problem and has driven an increase in demand for weight-loss medicines, including products without health authorisation. This study analysed the temporal trends and geographical distribution of online searches for unauthorised weight-loss pens in Brazil. This is a descriptive and analytical study with a quantitative approach, grounded in infodemiology and digital public health, using data from Google Trends relating to the terms Lipoless, Retatrutide, Tirzec, Lipoland and T.G., for the period between 4 May 2025 and 3 May 2026. The analysis was conducted on a weekly basis, using Joinpoint regression to assess temporal trends and proportion comparison tests for regional analysis. A significant increase in aggregate search volume was observed between June 2025 and January 2026, with a weekly percentage change of +6.29% (p<0.0001). Mato Grosso do Sul had the highest search rate (88.9 per million inhabitants), followed by Mato Grosso (48.8) and the Federal District (39.0), whilst São Paulo had the lowest rate (2.5 per million). Statistically significant differences were identified between Brazilian regions (p<0.0001), particularly in the Central-West Region. The findings suggest an association between digital misinformation, self-medication and interest in medicines without health authorisation, highlighting the need to strengthen digital health surveillance, health communication and regulatory strategies focused on the online environment.

Keywords:

Self-medication; Information-seeking behaviour; Anti-obesity drugs; Infodemiology; Obesity; Public health surveillance.

Conteúdo:

Introdução
A obesidade constitui um dos principais desafios contemporâneos de saúde pública. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam crescimento contínuo da prevalência global nas últimas décadas, com impacto relevante sobre morbimortalidade e sobrecarga dos sistemas de saúde1. No Brasil, inquéritos epidemiológicos demonstram aumento expressivo da obesidade e do sobrepeso na população adulta, configurando importante problema sanitário2,3.
Nesse contexto, os medicamentos agonistas do receptor GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, ocuparam a centralidade em relação ao tratamento farmacológico da obesidade e do diabetes mellitus tipo 2. No país, medicamentos como Wegovy®, Ozempic®, Rybelsus® e Mounjaro® receberam autorização sanitária da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para indicações terapêuticas específicas4-6. Paralelamente à ampliação do uso clínico, observou-se crescimento do interesse público por esses produtos, inclusive para finalidades estéticas e fora das indicações aprovadas7.
A elevada demanda por medicamentos emagrecedores favoreceu a circulação de produtos falsificados, contrabandeados ou sem registro sanitário, frequentemente comercializados em plataformas digitais e redes sociais8. Estudos recentes apontam riscos importantes associados ao uso desses produtos, incluindo ausência ou alteração do princípio ativo, contaminação microbiológica, dosagens inadequadas e ocorrência de eventos adversos graves7-9. No Brasil, órgãos regulatórios e autoridades sanitárias têm emitido alertas sobre a apreensão e comercialização irregular de canetas emagrecedoras sem autorização da Anvisa10.
Esse cenário se insere em um contexto mais amplo de desinformação em saúde e expansão da automedicação mediada por ambientes digitais. O Brasil apresenta elevada utilização de redes sociais e mecanismos de busca on-line11, favorecendo a circulação acelerada de conteúdos relacionados à perda de peso, medicamentos e práticas terapêuticas não supervisionadas12-15. Nesse sentido, a infodemiologia tem se consolidado como importante estratégia metodológica para monitorar padrões de interesse público e comportamento informacional em saúde no ambiente digital.
Apesar da crescente circulação de medicamentos emagrecedores irregulares no país, ainda são escassos estudos que investiguem o interesse público por esses produtos a partir de dados digitais. Assim, este estudo tem como objetivo analisar a tendência temporal e a distribuição geográfica das buscas on-line por medicamentos emagrecedores não autorizados no Brasil, utilizando dados do Google Trends no período de março de 2025 a fevereiro de 2026.

Desenho do Estudo
Trata-se de estudo descritivo e analítico de dados secundários com abordagem quantitativa, contextualizado no campo da infodemiologia e da saúde coletiva digital. A infodemiologia compreende a análise dos determinantes e da distribuição de informações em ambientes digitais e seus efeitos sobre comportamentos em saúde, configurando-se como estratégia metodológica relevante para a vigilância contemporânea de fenômenos sanitários mediados por tecnologias de comunicação e informação 16,17.
Os dados foram organizados em séries temporais semanais referentes ao Volume Relativo de Busca (VRB) obtido no Google Trends, considerando o período entre 4 de maio de 2025 e 3 de maio de 2026. A plataforma fornece o indicador denominado VRB, normalizado em escala de 0 a 100, em que o valor 100 representa o pico de popularidade do termo no período selecionado e na região analisada, enquanto o valor 0 indica volume insuficiente de dados. Os resultados foram apresentados em formato de série temporal18.
Considerando o caráter ainda pouco explorado do tema e a escassez de estudos científicos específicos, nacionais e internacionais, sobre a circulação de medicamentos ilegais para emagrecimento no ambiente digital, a definição dos termos de busca no Google Trends foi fundamentada prioritariamente em alertas regulatórios emitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)19-21. Tais documentos oficiais identificaram a circulação e determinaram a apreensão, no Brasil, de canetas emagrecedoras sem registro sanitário, permitindo a extração de termos diretamente associados aos produtos investigados e constituindo, assim, uma base empírica e documental atualizada e aderente ao fenômeno em análise 22-27.
Foram incluídos os seguintes termos: Lipoless, Retatrutide, Tizerc, Lipoland e TG. As buscas foram realizadas na categoria temática “Saúde”, a fim de restringir os resultados ao contexto sanitário e farmacológico. O recorte geográfico adotado foi o Brasil, e o período de análise correspondeu aos últimos 12 meses, entre 01 de março de 2025 e 28 de fevereiro de 2026 conforme configuração disponível na plataforma. Os dados foram exportados em formato CSV e organizados para análise estatística descritiva e temporal.
Para análise das tendências temporais foi utilizada regressão Joinpoint, a qual identifica mudanças estatisticamente significativas nas trajetórias das séries temporais. A unidade de análise temporal foi semanal e o foi estimada a Weekly Percent Change (WPC), expressa como variação percentual semanal, bem como identificar pontos de inflexão (joinpoints) ao longo da série histórica com os respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). Para comparação das frequências relativas de buscas entre as regiões brasileiras, foi aplicado o teste de Kruskal-Wallis com pós-teste de Dunn. Em todos os testes de hipótese foi previamente fixado o Nível Alfa = 0.05 (Erro Alfa = 5.%). O processamento estatístico foi realizado nos programas Joinpoint Regression Program (Versão 5.0) e STATA (Versão 16, serial number 501606203204).
O estudo orienta-se por hipóteses voltadas à análise da tendência temporal e da distribuição espacial do volume relativo de buscas, incluindo a identificação de crescimento ao longo do período, ponto de inflexão e diferenças entre estados e regiões do Brasil.
Hipótese 1: Espera-se observar tendência crescente no volume relativo de buscas ao longo do período analisado.
Hipótese 2: Espera-se identificar alterações temporais na tendência das buscas ao longo da série histórica.
Hipótese 3: Espera-se observar diferenças na distribuição das buscas entre as unidades federativas brasileiras.
Hipótese 4: Espera-se observar diferenças regionais no volume relativo de buscas no Brasil.

Resultados
Os resultados demonstram variações temporais no VRB pelos termos Lipoless, TG, Lipoland, Retatrutide e Tirzec no Brasil, no período compreendido entre 4 de maio de 2025 e 3 de maio de 2026.
Buscas por LIPOLESS.
As buscas pelo termo Lipoless apresentaram um ponto de inflexão em 23 de novembro de 2025. No primeiro segmento da série temporal observou-se tendência crescente durante 29 semanas, com variação percentual semanal (WPC) de +7,69% (IC95%: +6,85 a +8,68; p<0,0001). No segundo segmento verificou-se tendência decrescente durante 23 semanas, com WPC de -1,25% (IC95%: -2,41 a -1,25; p=0,0091).
Figura 1: Evolução semanal do Volume Relativo de Buscas, indicadas pelo Google Trends, pelo termo LIPOLESS, no Brasil, em 52 semanas.

Fig.1

As buscas pelo termo TG apresentaram dois pontos de inflexão (10 de agosto de 2025 e 23 de novembro de 2025), resultando em três segmentos temporais. O primeiro segmento apresentou estabilidade estatística (p=0,9894). O segundo segmento demonstrou tendência crescente, com WPC de +5,01% (IC95%: +4,10 a +5,07; p<0,0001). O terceiro segmento manteve tendência crescente, com WPC de +2,64% (IC95%: +1,87 a +3,09; p<0,0001).
Figura 2: Evolução semanal do Volume Relativo de Buscas, indicadas pelo Google Trends, pelo termo TG, no Brasil, em 52 semanas anuais, iniciando em 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Fig.2

Buscas por LIPOLAND.
As buscas pelo termo Lipoland apresentaram dois pontos de inflexão (23 de novembro de 2025 e 18 de janeiro de 2026). O primeiro segmento apresentou (4/maio/2025 até 23/nov/2025) apresentou ausência de procura pelo Lipoland. O segundo segmento apresentou crescimento semanal de +53.2% (IC95%: +29,3 a +181,7; p<0,0001). O terceiro segmento apresentou comportamento estacionário -1,78% (IC95%: +10,7 a +4,1; p=0,5652, não é significante).
Figura 3: Evolução semanal do Volume Relativo de Buscas, indicadas pelo Google Trends, pelo termo LIPOLAND, no Brasil, em 52 semanas anuais, iniciando em 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Fig.3

Buscas por RETATRUTIDE.
As buscas pelo termo Retatrutide apresentaram dois pontos de inflexão (21 de setembro de 2025 e 7 de dezembro de 2025). O primeiro segmento apresentou crescimento semanal de +6,49% (IC95%: +4,01 a +7,73; p<0,0001). O segundo segmento apresentou crescimento de +13,1% (IC95%: +9,98 a +28,1; p<0,0001). O terceiro segmento apresentou estabilidade estatística (p=0,9577).
Figura 4: Evolução semanal do Volume Relativo de Buscas, indicadas pelo Google Trends, pelo termo RETATRUTIDE, no Brasil, em 52 semanas anuais, iniciando em 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Fig.4

Buscas por TIZERC.
As buscas pelo termo Tirzec apresentaram tendência crescente ao longo de todo o período analisado, sem identificação de pontos de inflexão, com significância estatística (p<0,0001).
Figura 5: Evolução semanal do Volume Relativo de Buscas, indicadas pelo Google Trends, pelo termo TIZERC, no Brasil, em 52 semanas anuais, iniciando em 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Fig.5

Buscas por 5 produtos (LIPOLESS, TG, LIPOLAND, RETATRUTIDE E TIZERC).
A análise conjunta dos cinco termos apresentou dois pontos de inflexão (1 de junho de 2025 e 11 de janeiro de 2026). O primeiro segmento apresentou estabilidade estatística (p=0,1476). O segundo segmento demonstrou crescimento significativo durante 33 semanas, com WPC de +6,29% (IC95%: +5,42 a +8,18; p<0,0001). O terceiro segmento apresentou comportamento estacionário (p=0,5162).
Figura 6: Evolução semanal do Volume Relativo de Buscas, indicadas pelo Google Trends, por 5 produtos (LIPOLESS, TG, LIPOLAND, RETATRUTIDE E TIZERC), no Brasil, em 52 semanas anuais, iniciando em 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Fig.6

Buscas conforme as Unidades Federativas do Brasil
A distribuição das buscas on-line por medicamentos emagrecedores apresentou heterogeneidade entre as unidades federativas brasileiras.
Mato Grosso do Sul apresentou a maior taxa de buscas, com 88,9 buscas por milhão de habitantes, seguido por Mato Grosso (48,8), Distrito Federal (39,0), Alagoas (33,2) e Acre (29,4). As menores taxas foram observadas no Amapá (1,2), São Paulo (2,5), Rio de Janeiro (3,6) e Minas Gerais (4,0).
Tabela 1: Buscas, indicadas pelo Google Trends, pelos medicamentos (Tirzec, TG, Lipoless, Lipoland e Retatrutide) realizadas nos últimos 12 meses, nas unidades federativas do Brasil, no período de 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Tab.1

A Tabela 1 mostra que há estados com maior quantitativo populacional com baixa procura pelas canetas emagrecedoras. Em contrapartida, observa-se Estados mais populosos do Sudeste apresentando as menores taxas de busca, um fenômeno que pode indicar maior acesso à orientação médica ou uma fiscalização mais rígida, mas que também acende um alerta sobre o sub-registro ou a busca por canais alternativos. São Paulo (SP), o estado mais populoso do país, registra a menor taxa de todas: apenas 2,5 buscas por milhão de habitantes, seguido de perto pelo Rio de Janeiro (RJ), com 3,6 buscas, e Minas Gerais (MG), com 4,0 buscas. Essa baixa procura nos grandes centros contrasta desproporcionalmente com a liderança do Mato Grosso do Sul e sugere que a busca pela informação digital sobre esses medicamentos não é uniforme e pode ser influenciada por fatores culturais e de acesso à saúde formal.
Por outro lado, o Amapá (AP), que, com uma taxa de 1,2 buscas por milhão, é o estado com o menor índice do país. Enquanto o Amapá representa o desinteresse ou a falta de acesso à informação digital, o caso do Acre, seu vizinho na Região Norte, mostra como realidades muito próximas geograficamente podem ser radicalmente diferentes, provavelmente influenciadas por questões locais específicas, como a facilidade de acesso a medicamentos oriundos de países vizinhos ou campanhas de desinformação direcionadas.

Fig.7

Na Figura 8, a análise regional aprofunda o entendimento sobre a distribuição das buscas por medicamentos para emagrecimento no Brasil e revela um padrão geográfico de notória relevância para a saúde pública. Enquanto as regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul apresentam médias que oscilam entre 8,7 e 17,4 buscas por milhão de habitantes, a Região Centro-Oeste se destaca de forma expressiva, com uma média de 49,7 buscas por milhão. Esse valor é quase o triplo da média nacional (20,4) e cerca de seis vezes superior à média da Região Sudeste, a menos engajada na procura digital por esses produtos.
A Figura 8 mostra que a diferença entre as Regiões do Brasil. A Região Centro-Oeste possui, de fato, apresenta uma taxa de buscas superior a todas as outras regiões do país, caracterizando-se como um foco de atenção prioritário para as autoridades sanitárias. Enquanto isso, as regiões Norte (16,9) e Nordeste (17,4) situam-se ligeiramente abaixo da média nacional, e a Região Sul (14,0) também fica aquém. O dado mais alarmante, no entanto, é o da Região Sudeste, que, com apenas 8,7 buscas por milhão, apresenta a menor procura relativa, contrastando fortemente com sua densidade populacional e poder econômico.
Essa concentração de buscas no Centro-Oeste pode estar associada a uma combinação de fatores. A região é caracterizada por um alto índice de desenvolvimento humano em algumas áreas, forte presença do agronegócio e uma cultura de valorização da estética e do bem-estar, o que pode impulsionar a busca por soluções rápidas para emagrecimento. Além disso, a capilaridade da internet e a influência de redes sociais podem ser mais intensas em determinados polos urbanos da região, como o Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que já lideravam o ranking estadual.
A Figura 8 mostra diferenças entre as Regiões do Brasil. O Centro-Oeste emerge como um epicentro desse comportamento de risco, exigindo ações direcionadas de vigilância sanitária, campanhas educativas e controle da venda ilegal de medicamentos. Enquanto isso, a baixíssima taxa no Sudeste pode indicar subnotificação nas buscas ou um acesso mais regulado à informação, mas também não pode ser ignorada, pois pode mascarar a procura por canais ainda mais obscuros. O cruzamento desses dados com a renda, a escolaridade e a penetração de influenciadores digitais em cada região seria um próximo passo fundamental para entender as causas profundas desse preocupante cenário nacional.
Figura 8: Buscas nas Regiões do Brasil pelos medicamentos (Tirzec, TG, Lipoless, Lipoland e Retatrutide), conforme dados indicados pelo Google Trends, nos últimos 12 meses, abrangendo o período de 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Fig.8

* Teste de Kruskal-Wallis com pós-teste de Dunn.
A Figura 9 expõe contradições internas. No Nordeste, enquanto Alagoas apresenta 33,2 buscas por milhão, a Bahia (BA) registra apenas 5,3, e Pernambuco (PE com 6,8).
Na Região Sul, o Paraná (PR.) se aproxima da média nacional com 19,9 buscas, enquanto Santa Catarina (SC.) (16,9) e, principalmente, o Rio Grande do Sul (RS) (5,3) ficam abaixo. O dado do Rio Grande do Sul é particularmente interessante por ser um estado com forte tradição de cuidados com a saúde e bem-estar, mas que aparece com uma taxa de busca digital relativamente baixa para os medicamentos listados.
A procura em Estados como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Alagoas, Rondônia, Roraima e Acre, somada à baixíssima procura formal nos grandes centros, pode indicar que a população está buscando informações e, possivelmente, adquirindo esses produtos por canais não oficiais e sem prescrição. O dado é um retrato de como a era digital pode facilitar o acesso a informações de risco, com destaque para unidades federativas onde a vigilância sanitária e as campanhas de conscientização precisam ser intensificadas com urgência, considerando as particularidades locais que tornam cada estado um caso único nesse cenário nacional.
A análise regional demonstrou diferenças estatisticamente significativas no volume relativo de buscas entre as regiões brasileiras (p<0,0001). A Região Centro-Oeste apresentou a maior média de buscas por milhão de habitantes (49,7), seguida pelas regiões Nordeste (17,4), Norte (16,9), Sul (14,0) e Sudeste (8,7).
Figura 9: Clarificação das buscas, indicadas pelo Google Trends, pelos medicamentos (Tirzec, TG, Lipoless, Lipoland e Retatrutide) realizadas nos últimos 12 meses, nas unidades federativas do Brasil, no período de 4/maio/2025 até 3/maio/2026.

Fig.9

Discussão
O estudo mostrou o crescimento temporal das buscas on-line por medicamentos emagrecedores não autorizados no Brasil, além de importante heterogeneidade geográfica entre unidades federativas e regiões brasileiras. A identificação de tendências nas séries temporais sugere aumento do interesse informacional relacionado a esses produtos no ambiente digital, especialmente a partir do segundo semestre de 202528,29.
O aumento das buscas on-line relacionadas a medicamentos para perda de peso concorda com a expansão global do uso de agonistas do receptor GLP-1, amplamente divulgados nos meios digitais e nas redes sociais28. Nesse cenário, a infodemiologia tem sido utilizada como ferramenta para monitoramento de padrões coletivos de interesse em saúde, permitindo identificar mudanças comportamentais e tendências informacionais em tempo oportuno.
A crescente procura, verificada no ano 2025, por conteúdos relacionados a canetas emagrecedoras também ocorre em um cenário de ampliação da circulação de produtos falsificados, contrabandeados ou sem autorização sanitária30. Relatórios internacionais de farmacovigilância e alertas emitidos por agências regulatórias, como a Food and Drug Administration (FDA), a European Medicines Agency (EMA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), têm descrito apreensões de produtos contendo composição desconhecida, concentrações inadequadas de princípios ativos, contaminação microbiológica e substâncias não declaradas31-34. Além disso, estudos laboratoriais identificaram irregularidades em formulações comercializadas de maneira clandestina, incluindo presença de endotoxinas bacterianas e desvios de pureza, fatores potencialmente associados à ocorrência de eventos adversos graves35.
Embora o presente estudo não avalie consumo direto, aquisição ou utilização efetiva desses produtos, os dados mostram o maior interesse em conteúdos relacionados ao emagrecimento medicamentoso, conforme investigações da ANVISA que relacionam o aumento da exposição populacional a estratégias de marketing informal em redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de comércio eletrônico, frequentemente associadas à promoção de produtos sem registro sanitário22,24.
A distribuição geográfica observada neste estudo demonstrou diferenças expressivas entre as regiões brasileiras, com maiores frequências relativas de buscas na Região Centro-Oeste e destaque para Mato Grosso do Sul. Esses achados podem estar relacionados a características regionais específicas, incluindo dinâmica de circulação comercial em áreas de fronteira, disponibilidade informal de produtos e maior exposição a mercados paralelos. Relatórios24 de órgãos de fiscalização sanitária e aduaneira têm descrito apreensões frequentes de medicamentos irregulares em rotas fronteiriças localizadas nessa região do país, especialmente em áreas de conexão com o Paraguai36. Contudo, tais interpretações devem ser consideradas com cautela, uma vez que o delineamento ecológico do estudo não permite estabelecer relações causais.
Outro aspecto relevante refere-se ao comportamento temporal heterogêneo entre os termos analisados. Enquanto alguns produtos apresentaram crescimento contínuo das buscas, outros demonstraram estabilidade ou redução após períodos iniciais de aumento37. Esse padrão sugere dinâmica informacional não uniforme, possivelmente influenciada por fatores como exposição midiática, circulação de conteúdos digitais, mudanças na oferta de produtos e interesse público transitório38.
Os achados reforçam a importância da vigilância sanitária digital como componente complementar das estratégias contemporâneas de saúde pública. O monitoramento de tendências de busca pode contribuir para identificação precoce de temas emergentes relacionados à automedicação, desinformação em saúde e circulação de produtos irregulares, subsidiando ações regulatórias, educativas e de farmacovigilância39-41. Além disso, os resultados destacam a necessidade de fortalecimento das estratégias de comunicação em saúde voltadas ao ambiente digital, com produção de conteúdos baseados em evidências e ampliação da alfabetização em saúde da população16,17.
Este estudo apresenta limitações inerentes ao uso do Google Trends. Os dados representam volume relativo de buscas e não correspondem diretamente ao consumo, aquisição ou uso efetivo dos produtos investigados. Além disso, a plataforma não disponibiliza características sociodemográficas dos usuários nem permite identificar motivação individual das buscas. O delineamento ecológico também impede inferências causais entre aumento das buscas e circulação real dos medicamentos. Apesar dessas limitações, o estudo apresenta potencial relevante ao utilizar ferramentas de infodemiologia para análise de fenômenos emergentes em saúde coletiva digital, contribuindo para o monitoramento de comportamentos informacionais relacionados a medicamentos sem autorização sanitária no Brasil.
Conclusão
O estudo evidenciou o crescimento temporal das buscas on-line por medicamentos emagrecedores não autorizados no Brasil, em especial no ano 2025, além de diferenças geográficas relevantes entre estados e regiões brasileiras. Os achados sugerem aumento do interesse informacional relacionado a esses produtos no ambiente digital, especialmente em áreas com maiores frequências relativas de busca.
Embora os dados não permitam inferir consumo direto ou utilização efetiva dos medicamentos investigados, os resultados reforçam a relevância da infodemiologia como ferramenta complementar para monitoramento de fenômenos emergentes relacionados à desinformação em saúde, automedicação e circulação de produtos sem autorização sanitária.
Nesse contexto, o fortalecimento das estratégias de vigilância sanitária digital, farmacovigilância e comunicação em saúde pode contribuir para o enfrentamento da disseminação de informações não verificadas e da comercialização irregular de medicamentos em plataformas digitais.

Colaboradores
CPG, NPF, RTGP e JKG atuaram na concepção e delineamento do artigo, na discussão dos resultados, na redação do manuscrito e revisão crítica do seu conteúdo.
Financiamento
Não houve financiamento para o estudo.

Declaração de disponibilidade de dados
As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
Aspectos éticos
Foram utilizados exclusivamente dados secundários de acesso público, sem identificação individual de usuários. Não houve interação direta com sujeitos humanos nem coleta de dados sensíveis, caracterizando dispensa de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme normativas nacionais e internacionais vigentes.
Declaração de disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
Referências
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Galhardi, CP, Freire, N.P, Pereira, RTG, Kanni, J. Saúde em risco na era digital: desinformação, automedicação e busca por canetas emagrecedoras não autorizadas no Brasil. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 14/08/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/saude-em-risco-na-era-digital-desinformacao-automedicacao-e-busca-por-canetas-emagrecedoras-nao-autorizadas-no-brasil/20079

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