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0027/2026 - Teleinterconsulta como estratégia de apoio à vigilância da incapacidade física em hanseníase no estado do Maranhão
Teleinterconsultation as a strategy to support surveillance of physical disability in leprosy in the state of Maranhão

Autor:

• Ariane Cristina Ferreira Bernardes Neves - Neves, ACFB - <ariane.bernardes@ufma.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5258-1172

Coautor(es):

• Shirlene Oliveira Vieira Matos - Matos, SOV - <shirlene.matos@saude.ma.gov.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7584-711X

• Vinicius Freire Pereira - Pereira, VF - <viniciuspereira1789@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6137-862X

• Marcos Moreno Salgado - Salgado, MM - <marcos_msalgado@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6023-7283

• Carlos Alberto Araújo Azevedo Neto - Azevedo Neto, CAA - <azevedocarlosneto@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7158-6668

• João Mateus Silva Lopes - Lopes, JMS - <jms.lopes2001@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-8255-2010

• Gyovanna de Sousa Moreira - Moreira, GS - <giovannasmoreira@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-5508-9147

• Dalila de Nazaré Vasconcelos dos Santos - Santos, DNV - <dalilanvsantos@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5963-1200



Resumo:

Este estudo teve como objetivo analisar a implementação da teleinterconsulta como estratégia de apoio à confirmação do Grau 2 de Incapacidade Física (GIF 2) em pessoas diagnosticadas com hanseníase no estado do Maranhão. Trata-se de um estudo transversal analítico, desenvolvido entre março de 2023 e março de 2025, vinculado à Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão (SES-MA), em parceria com o Núcleo de Telessaúde da Universidade Federal do Maranhão (NTS-UFMA). Foram incluídos todos os casos novos de hanseníase com registro de GIF 2 no momento do diagnóstico. Ao todo, 77 atendimentos foram analisados, sendo 47 realizados de forma presencial e 30 por teleinterconsulta. A avaliação por teleinterconsulta ampliou a cobertura nas macrorregiões Sul e Leste do estado. O tempo entre o diagnóstico e a confirmação do GIF 2 foi semelhante entre os grupos, sem diferença significativa. Estimou-se uma economia de até R$ 338,39 por teleinterconsulta. A adoção dessa estratégia se mostrou viável e custo-efetiva, com potencial para expandir a vigilância de GIF 2 em hanseníase mesmo em locais com pouco acesso a serviços especializados.

Palavras-chave:

Hanseníase; Incapacidade; Atenção Primária à Saúde; Telessaúde; Consulta Remota

Abstract:

This study aimed to analyze the implementation of teleinterconsultation as a support strategy for the evaluation of Grade 2 Physical Disability (G2D) in individuals diagnosed with leprosy in the state of Maranhão, Brazil. This was a cross-sectional analytical study conducted between March 2023 and March 2025, coordinated by the Maranhão State Health Department (SES-MA) in partnership with the Telehealth Center of the Federal University of Maranhão (NTS-UFMA). All new leprosy cases with G2D recorded at the time of diagnosis were included. A total of 77 evaluations were analyzed, with 47 performed in person and 30 via teleinterconsultation. The remote assessments expanded coverage in the southern and eastern health macroregions of the state. There was no significant difference in the time between diagnosis and evaluation across groups. An estimated cost saving of up to R$ 338.39 per teleinterconsultation was observed. The adoption of this strategy proved to be feasible and cost-effective, with the potential to strengthen G2D surveillance in leprosy, particularly in settings with geographic barriers and limited access to specialized services.

Keywords:

Leprosy; Disability; Primary Health Care; Telehealth; Remote Consultation

Conteúdo:

Introdução
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica e negligenciada, causada pelo Mycobacterium leprae, que apresenta forte impacto social e sanitário, permanecendo como um grave problema de saúde pública no Brasil, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste1. Apesar dos avanços terapêuticos e das estratégias de diagnóstico precoce alcançados nas últimas décadas, em 2018, 22 países ainda registravam altas cargas da doença, com a Índia concentrando o maior número de casos, seguida pelo Brasil e pela Indonésia, cenário que se manteve no ano de 20242,3. No cenário das Américas, o Brasil permanece como o país com maior número de casos, sendo responsável por mais de 90% das notificações na região, especialmente nas regiões Norte e Nordeste3.
No Maranhão, entre 2022 e o início de 2024, foram notificados 8.952 casos de hanseníase, com persistência de diagnósticos tardios, evidenciando fragilidades no rastreio e no diagnóstico precoce da doença3. Essa realidade é agravada pela constatação frequente de incapacidades físicas Grau 2 (GIF 2) já no momento da notificação, um marcador de falha na detecção precoce e de elevada carga de estigma e exclusão social nos pacientes com hanseníase4,5.
O GIF 2 refere-se a deformidades visíveis ou perdas funcionais permanentes decorrentes do acometimento neural, com implicações importantes na vida dos pacientes, como limitações funcionais graves, maior risco de marginalização social e aumento da demanda sobre os sistemas de reabilitação e previdência3,5. Esses impactos são ainda mais acentuados em regiões marcadas por desigualdades sociais e limitações estruturais nos serviços de saúde, como ocorre no estado do Maranhão, onde as incapacidades físicas decorrentes da hanseníase evidenciam não apenas a gravidade da doença, mas também a fragilidade das ações de vigilância e reabilitação existentes6,7.
Em 2019, o Ministério da Saúde (MS) agrupou os municípios brasileiros segundo critérios epidemiológicos e operacionais, com base na carga da hanseníase e na qualidade da resposta local. O subgrupo 3.1 reuniu aqueles com alta endemicidade (? 10 casos/100 mil habitantes) e avaliação insuficiente do GIF no diagnóstico (< 75%), sendo o Maranhão o estado com maior número de municípios nessa condição, totalizando 58 localidades8.
Considerando as limitações no acesso à avaliação especializada e as dificuldades na detecção precoce das incapacidades físicas, a incorporação de tecnologias digitais em saúde torna-se cada vez mais relevante9. A teleinterconsulta, contemplada pela Portaria MS nº 3.691/202410 e regulamentada pela Resolução CFM nº 2.314/202211, configura uma estratégia inovadora que viabiliza a discussão clínica entre profissionais da saúde e pacientes, com potencial para ampliar o acesso à avaliação qualificada, fortalecer o diagnóstico e apoiar a Atenção Primária à Saúde (APS).
Contudo, ainda são escassas as evidências sobre a utilização da teleinterconsulta na confirmação de GIF 2 em hanseníase12. Diante disso, o presente estudo avaliou a implementação da teleinterconsulta como ferramenta de apoio à confirmação do GIF 2 no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) do estado do Maranhão.
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal analítico, vinculado ao Projeto de ampliação do monitoramento do GIF 2 em pessoas diagnosticadas com hanseníase, conduzido pela Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão (SES-MA), em parceria com o Núcleo de Telessaúde do Maranhão (NTS-UFMA).
Foram incluídos todos os atendimentos de casos novos de hanseníase com registro de GIF 2 no momento do diagnóstico, notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) entre março de 2023 e março de 2025. Registros com modo de entrada diferente de “caso novo” ou com dados incompletos nas variáveis essenciais foram excluídos da análise.
As teleinterconsultas foram realizadas por profissionais vinculados à SES-MA e/ou ao Hospital Dr. Genésio Rêgo, referência estadual para hanseníase, por meio de plataforma digital (consultório virtual) desenvolvida pelo NTS-UFMA, com uso das tecnologias Jitsi Meet e React, em ambiente auto-hospedado (Figura 1). As equipes municipais e do hospital foram previamente capacitadas para utilização da ferramenta e para a condução adequada das avaliações clínicas à distância. A confidencialidade das informações seguiu as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e da Health Insurance Portability and Accountability Act (HIPAA)13,14. O acesso foi restrito a profissionais habilitados, conforme os fluxos definidos pelo Sistema Online de Fortalecimento Interativo para Atenção Primária (SOFIA)15.
Os atendimentos foram organizados em dois grupos, de acordo com a modalidade de avaliação do GIF?2 e o período em que foram realizados. O grupo 1 incluiu os atendimentos presenciais realizados entre março de 2023 e junho de 2024, antes da implementação da teleinterconsulta. O grupo 2 compreendeu os atendimentos realizados por teleinterconsulta, entre julho de 2024 e março de 2025. Os municípios de diagnóstico foram classificados conforme as 19 regionais de saúde do Maranhão e distribuídos nas três macrorregiões de saúde do estado (Norte, Sul e Leste).

Fig.1

As variáveis analisadas foram obtidas de banco de dados secundário fornecido pela SES-MA, contendo informações sociodemográficas e clínicas. As distâncias entre os municípios de origem e as unidades de referência foram aferidas consoante com a Base de Referência de Distâncias Rodoviárias, Hidroviárias e Aéreas (REGIC), disponibilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)16.
Os custos estimados com transporte, alimentação e estadia seguiram os parâmetros da Portaria MS nº 2.448/200717, que regulamenta os repasses para tratamento fora de domicílio (TFD). Todos os valores foram corrigidos monetariamente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), conforme parâmetros oficiais do Banco Central do Brasil18. Diante dos dados, foram calculados os custos por consulta presencial e estimado a economia gerada por teleinterconsulta. Avaliou-se, ainda, o intervalo entre o diagnóstico da hanseníase e a avaliação do GIF 2 no serviço de referência, com base na meta de até 60 dias definida pela Nota Técnica MS nº 12/202319.
As variáveis qualitativas foram descritas por frequências absolutas e relativas e variáveis numéricas por meio de média e desvio padrão ou mediana e intervalo interquartil [Q1-Q3]. A normalidade das distribuições foi verificada pelo teste de Shapiro-Wilk. Para comparação entre grupos, utilizou-se o teste de Mann-Whitney, e as associações entre variáveis categóricas foram avaliadas com o teste qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher. Adotou-se nível de significância de 5% (p < 0,05). As análises foram realizadas no software IBM SPSS® versão 25.0 e os mapas foram elaborados no software ArcGIS Pro® versão 3.5 por meio do shapefile das regionais de saúde do SUS20.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Maranhão, sob o parecer consubstanciado CAAE nº 77830223.5.0000.5087, com consentimento livre e esclarecido obtido de todos os participantes.
Resultados
Durante o estudo, foram notificados 343 casos novos de hanseníase no Maranhão, dos quais 77 (22,4%) apresentaram GIF 2 e foram incluídos na análise. Desses, 47 foram avaliados presencialmente e 30 por teleinterconsulta. A maioria dos pacientes era do sexo masculino, com 74,5% no grupo presencial e 83,3% no grupo da teleinterconsulta (p = 0,360). A mediana de idade foi de 54,0 anos (30,0-71,0) no grupo presencial e 54,0 anos (42,0-70,5) no grupo da teleinterconsulta (p = 0,847).
Nos atendimentos presenciais, a maior cobertura foi observada na macrorregião Norte, com 33 atendimentos (70,2%), enquanto as macrorregiões Leste e Sul apresentaram menores participações, com 12 (25,5%) e 2 (4,3%) atendimentos, respectivamente. Já nas teleinterconsultas, a maior cobertura foi observada na região Sul, com 14 (46,7%) teleinterconsultas, seguido das macrorregiões Leste com 9 (30%) e Norte com 7 (23,3%) (Figura 2). Essa diferença entre as modalidades foi estatisticamente significativa (p < 0,001), conforme representado na Tabela 1.
Figura 2. Distribuição da confirmação de GIF 2 realizada de forma presencial ou por teleinterconsulta, conforme as macrorregiões de saúde no estado do Maranhão.

Fig.2

O tempo entre o diagnóstico e a confirmação do GIF 2 foi ? 60 dias em 38 (80,8%) atendimentos presenciais e em 26 (86,6%) teleinterconsultas, sem diferença significativa entre as modalidades (p = 0,756) (Tabela 1). Quanto aos motivos para a confirmação tardia do GIF 2, tanto nos atendimentos presenciais quanto nas teleinterconsultas, o principal fator identificado foi a ausência de suspeita clínica de hanseníase por parte do profissional no momento do diagnóstico (48,9% nos presenciais e 50,0% nas teleinterconsultas), seguido pela demora no acesso do paciente à assistência especializada (23,4% e 43,3%, respectivamente).
Tabela 1. Associação entre a modalidade de atendimento (presencial ou teleinterconsulta) e o tempo até a confirmação do GIF 2 e conforme as macrorregiões de saúde no Maranhão.

Tab.1

Houve confirmação do GIF 2 em 26 (55,3%) dos atendimentos presenciais, enquanto 21 (44,7%) não foram confirmados. Desses, 15 (71,4%) apresentaram avaliação incorreta e 6 (28,6%) tiveram erro de preenchimento da ficha de notificação compulsória do SINAN. Nas teleinterconsultas, 21 (70,0%) casos foram confirmados, e 7 (23,3%) foram descartados. Desses, 6 (85,7%) tiveram avaliação incorreta e 1 (14,3%) apresentou erro de preenchimento. Além disso, 2 (6,7%) casos atendidos por teleinterconsulta foram inconclusivos, necessitando de atendimento presencial com a equipe multidisciplinar.
Nos 26 casos de GIF 2 confirmados presencialmente, nas mãos, observaram-se garra em 10 (38,5%), atrofia muscular em 3 (11,5%) e feridas em 3 (11,5%) pacientes. Nos pés, as condições mais frequentes foram garra em 5 (19,2%), pé caído em 5 (19,2%) e feridas em 3 (11,5%) pacientes. Já nos 21 casos GIF 2 confirmados por teleinterconsulta, as principais alterações nas mãos foram garra em 11 (55,0%) e atrofia muscular em 3 (15,0%) pacientes. Nos pés, destacaram-se garra em 3 (15,0%) e pé caído em 9 (45,0%) pacientes.
O custo estimado por atendimento presencial foi de R$ 202,30 ± 99,46 sem acompanhante, composto por R$ 151,94 [85,47-196,73] para transporte, R$ 22,84 para alimentação e R$ 67,31 para diárias. Com acompanhante, o custo foi de R$ 286,56 [131,15-331,34], distribuído entre R$ 303,88 [170,93-393,44] para transporte, R$ 45,69 para alimentação e R$ 134,62 para diárias. Já com as teleinterconsultas, a economia estimada por atendimento foi de R$ 283,30 ± 105,37 sem acompanhante, com R$ 203,77 [131,92-302,03] para transporte, R$ 22,84 para alimentação e R$ 67,31 para diárias. Com acompanhante, a economia foi de R$ 338,39 [266,54-436,65], sendo R$ 407,54 [263,84-604,06] para transporte, R$ 45,69 para alimentação e R$ 134,62 para diárias (Tabela 2).
Tabela 2. Descrição dos custos médios e medianos estimados com atendimento presencial e da economia gerada com teleinterconsulta para confirmação de GIF 2, segundo itens financiados pelo TFD.

Tab.2

Discussão
Os achados deste estudo indicam que a adoção da teleinterconsulta para confirmação do GIF 2 em casos de hanseníase no estado do Maranhão representa uma estratégia promissora para a reorganização da vigilância em saúde em regiões marcadas por restrições estruturais e desigualdades socioespaciais. Ao viabilizar avaliações clínicas à distância, mediadas pela teleinterconsulta, essa modalidade de cuidado contribui para ampliação do acesso à avaliação especializada e fortalecimento dos atributos essenciais da APS, sobretudo em áreas com menor densidade de serviços, promovendo o acesso, a longitudinalidade e a coordenação do cuidado1,9.
O predomínio de teleinterconsultas realizadas nas macrorregiões Sul e Leste do estado evidencia o potencial da estratégia para assistência em saúde de populações com dificuldade de acesso, contribuindo para maior equidade na oferta de serviços. A possibilidade de ofertar apoio técnico especializado, mesmo que de forma remota, favorece uma análise mais criteriosa das informações clínicas disponíveis, o que se torna relevante dado um cenário ainda recorrente de preenchimento inadequado das fichas do SINAN e dificuldade na aplicação dos critérios de GIF 2 pelos profissionais de saúde3.
A identificação de sinais clínicos avançados, como pé caído e garra, em ambos os grupos avaliados, reforça a persistência de diagnóstico tardio e a necessidade de intensificar as ações de vigilância e detecção precoce como medida central na prevenção de incapacidades5. A redução de novos casos de hanseníase com GIF 2 figura entre os principais objetivos da Estratégia Global da OMS para a hanseníase, dado o impacto funcional, psicossocial e econômico dessas sequelas21. Apesar dos avanços, o Brasil continua registrando proporções elevadas de diagnóstico em fases avançadas da doença, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, o que evidencia limitações nas estratégias tradicionais de vigilância4,22.
Considerando o cenário de elevada carga da hanseníase no estado do Maranhão e a associação frequente entre diagnóstico tardio, formas multibacilares e baixa escolaridade, a teleinterconsulta se insere como alternativa relevante para superar barreiras históricas no acesso ao cuidado22,23. Ao possibilitar avaliações especializadas com menor dependência de deslocamento e infraestrutura física, a estratégia contribui para respostas mais oportunas e qualificadas, em consonância com as diretrizes voltadas a territórios de alta endemicidade e cobertura insatisfatória de avaliação de incapacidades9,21.
Embora não tenha sido observada diferença significativa entre as modalidades em relação ao intervalo entre o diagnóstico e a confirmação do GIF 2, a viabilidade de realizar essas avaliações sem deslocamento físico, em contextos nos quais a mobilidade é comprometida pela dependência do TFD, representa um ganho operacional relevante.
A economia estimada por atendimento se alinha a evidências que apontam a telemedicina como alternativa custo-efetiva no manejo de doenças negligenciadas, permitindo maior racionalidade na alocação de recursos públicos9. Além disso, ao reduzir a necessidade de deslocamento, a estratégia minimiza custos sociais não mensuráveis, como impactos psicológicos, estigmas sociais e o afastamento prolongado das atividades sociais e laborais5.
Sob a perspectiva organizacional, a adoção das teleinterconsultas para confirmação do GIF 2 também contribui para otimizar os fluxos assistenciais, reduzir a sobrecarga dos serviços terciários, aprimorar os processos de referência e contrarreferência e fortalece a educação permanente em saúde1. A diminuição dos custos associados ao TFD, como transporte, hospedagem e alimentação, permite o redirecionamento de recursos para outras ações estratégicas, como reabilitação funcional e formação continuada das equipes da atenção primária24.
Entretanto, para que os avanços observados se sustentem a longo prazo, é necessário garantir investimentos contínuos em conectividade, qualificação das equipes e pactuação de fluxos entre os diferentes níveis de atenção. Essas condições são fundamentais para assegurar a qualidade e a efetividade das teleinterconsultas, especialmente em cenários de alta endemicidade e baixa oferta de serviços especializados, como no estado do Maranhão1,23. Os achados deste estudo indicam que a teleinterconsulta, além de tecnicamente viável e custo-efetiva, configura-se como uma ferramenta estratégica para o fortalecimento do SUS na vigilância do GIF 2, contribuindo para a superação de fragilidades organizacionais e para a redução da vulnerabilidade programática.
É importante ressaltar que esse estudo foi realizado com um pequeno tamanho amostral, com abrangência local, o que pode restringir a generalização dos achados para outros contextos epidemiológicos ou operacionais. Embora os resultados indiquem tendências relevantes para o uso da teleinterconsulta na vigilância do GIF 2 em hanseníase, estudos com populações maiores e maior diversidade territorial podem fornecer análises mais robustas e comparáveis. Além disso, fatores logísticos e institucionais, como conectividade, carga de trabalho das equipes e integração com sistemas de vigilância em saúde, precisam ser analisados para garantia da viabilidade e sustentabilidade do modelo a longo prazo.
Considerações finais
A adoção da teleinterconsulta configura uma estratégia promissora para o fortalecimento da vigilância do GIF 2 em hanseníase, mostrando potencial para ampliação no âmbito do SUS Digital. No Maranhão, iniciativas como o Projeto Hanseníase em Foco, desenvolvido pelo NTS-UFMA, demonstram que o uso da telessaúde pode fortalecer as redes de cuidado, qualificar o diagnóstico, apoiar o acompanhamento clínico e colaborar para a redução das incapacidades físicas associadas à doença. Assim, evidencia-se que a teleinterconsulta se apresenta como um caminho viável e estratégico para qualificar a vigilância de incapacidades em hanseníase e fortalecer a resposta do SUS frente a doenças negligenciadas.
Contudo, a implementação ampliada dessa estratégia ainda enfrenta desafios relevantes. Entre eles, destacam-se as limitações de conectividade em áreas remotas e a capacitação contínua dos profissionais para uso efetivo das ferramentas digitais. Além disso, fatores organizacionais, como fragilidades nos fluxos de referência e contrarreferência, podem influenciar a adesão e a sustentabilidade das ações de teleassistência.
Apesar desses desafios, o presente estudo aponta oportunidades concretas de replicabilidade do modelo em diferentes contextos do país. A padronização dos fluxos de teleinterconsulta, a definição de métricas de monitoramento e a adoção de protocolos clínicos adaptados à realidade local favorecem a expansão da estratégia. Ademais, a experiência acumulada por iniciativas como a do NTS-UFMA oferece insumos metodológicos e operacionais que podem orientar outros serviços e estados na adoção de soluções semelhantes.
Contribuição dos autores
ACFB Neves e GS Moreira idealizaram, coordenaram o projeto e realizaram a revisão final. SOV Matos, MM Salgado e DNV Santos realizaram coleta e tabulação dos dados. JMS Lopes desenvolveu a plataforma digital. VF Pereira e CAA Azevedo Neto conduziram o tratamento dos dados, análise estatística e redação do artigo. Todos os autores aprovaram a versão final do manuscrito.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Financiamento
Este estudo foi realizado com o apoio do Ministério da Saúde (MS), por meio do Departamento de Saúde Digital (DESD) e da Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde do Maranhão (SES-MA) e com o apoio institucional do Núcleo de Telessaúde do Maranhão do Maranhão (NTS-UFMA), sendo parte das despesas operacionais custeada pelos próprios pesquisadores.
Declaração de disponibilidade de dados
Os dados desse estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência e as fontes dos dados utilizados encontram-se referenciadas no corpo do artigo.
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Neves, ACFB, Matos, SOV, Pereira, VF, Salgado, MM, Azevedo Neto, CAA, Lopes, JMS, Moreira, GS, Santos, DNV. Teleinterconsulta como estratégia de apoio à vigilância da incapacidade física em hanseníase no estado do Maranhão. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jan). [Citado em 30/01/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/teleinterconsulta-como-estrategia-de-apoio-a-vigilancia-da-incapacidade-fisica-em-hanseniase-no-estado-do-maranhao/19925?id=19925&id=19925

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