Editorial: Efeitos e consequências da COVID-19
EDITORIAL • Ciênc. saúde coletiva 31 (10) • 2026 Link Scielo: https://doi.org/10.1590/1413-812320263110.11522026
Efeitos e consequências da COVID-19
Seis anos se passaram desde o início da pandemia da COVID-19. Foi uma época de muitas dificuldades, com o surgimento de um novo vírus que passou a circular nos seres humanos, causando uma nova doença transmissível, agravando e desencadeando manifestações clínicas de enfermidades já existentes. Inicialmente pouco se conhecia sobre o vírus SARS-CoV-2, como se dava sua disseminação, a gravidade e seu quadro clínico, os fatores de risco, a taxa de letalidade e a melhor condução clínica para os casos graves1. Ademais, a síndrome pós-COVID surgiu como uma nova condição clínica e pouco se sabia sobre seus fatores desencadeantes e como manejá-la2. Com o tempo, os estudos científicos foram respondendo a muitas dessas perguntas, mas outras questões permanecem não resolvidas. Contudo, a ciência continua progredindo.
Neste mês publicamos esta edição especial sobre os efeitos e consequências da COVID-19. Os artigos descortinam alguns aspectos ainda pouco esclarecidos dessa doença transmissível, especialmente sobre seus impactos populacionais e subjetivos a longo prazo.
No que diz respeito às consequências da COVID-19 nas populações mais vulneráveis, as maiores taxas de incidência e mortalidade pela COVID-19 foram identificadas nas populações indígenas. Quase toda a população carcerária investigada no Piauí já teve contato com o vírus SARS-CoV-2, que persiste circulando de forma endêmica nas pessoas privadas de liberdade.
Ainda há muitas dúvidas a serem respondidas em relação aos novos antivirais, mas o remdesivir parece reduzir a mortalidade em pacientes graves hospitalizados.
Óbitos por condições pós-COVID apresentaram pico no segundo trimestre de 2021 e, desde então, passaram a compor o cenário das causas de mortalidade. Alguns biomarcadores biológicos parecem ser úteis na triagem da síndrome pós-COVID: sexo feminino, hipertensão e maior tempo de internação foram identificados como fatores de risco para a síndrome pós-COVID em pacientes hospitalizados com síndrome respiratória aguda grave.
A COVID-19 também tem sido associada à insegurança alimentar e alto impacto psicológico, o que se traduziu em maior consumo de bebidas alcoólicas, especialmente por adolescentes. Condições inadequadas de ensino remoto parecem ter provocado prejuízos ao aprendizado escolar. Houve aumento da prevalência de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, influenciados pela interrupção dos trabalhos acadêmicos. O isolamento social associado ao uso intenso de telas durante a pandemia parece ter levado a um maior impacto psicológico nas meninas.
Em relação às dimensões subjetivas do cuidado, a pandemia deixou patente o papel da UTI no manejo dos casos graves e a importância de se incorporar dimensões afetivas e intersubjetividade no suporte clínico.
Na sociedade moderna hiperconectada, baseada nas plataformas tecnológicas, tanto o fluxo de informação quanto de desinformação em relação à COVID-19 se ampliou. A desinformação predominou em relação às vacinas, mas também ocorreu nas temáticas do tratamento precoce, medidas preventivas e distorção de dados epidemiológicos. No processo de formação de subjetividades, os mecanismos digitais de construção de exibição e narcisismo de massa associados a processos dessocializantes são dissecados, tendo em vista a sua possível associação com o surto depressivo que aflige a sociedade moderna. Fica a pergunta: é possível que o isolamento social na pandemia da COVID-19, que levou a um maior consumo de mídias sociais, tenha acelerado a construção de egos narcísicos e seus traços culturais distintivos: indiferença por questões alheias, exigência por gratificação imediata, intolerância ao tédio e incapacidade de sublimar desejos, potencializando interações sem relacionalidade?
Boa leitura!!!
Referências
1.Hu B, Guo H, Zhou P, Shi ZL. Characteristics of SARS-CoV-2 and COVID-19. Nat Rev Microbiol 2021; 19(3):141-154.
2. Davis HE, McCorkell L, Vogel JM, Topol EJ. Long COVID: major findings, mechanisms and recommendations. Nat Rev Microbiol 2023; 21(3):133-146.
Fonte: Revista Ciência & Saúde Coletiva











