Fatores socioeconômicos e institucionais influenciam as altas taxas de violência na América Latina
Fatores socioeconômicos e institucionais influenciam as altas taxas de violência na América Latina
January 20, 2026 15:00 , Leave a Comment , Ciência e Saúde Coletiva
Luiza Gualhano, Editora assistente do periódico Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-chefe do periódico Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
O fato da América Latina ser a região mais violenta do mundo tem sido objeto de várias abordagens que analisam os prováveis fatores intervenientes na questão. É o caso do artigo de Gomes et al. (2025) Fatores correlacionados à mortalidade por violência na América Latina e Caribe, 2000-2021: um estudo ecológico, publicado pelo periódico Ciência & Saúde Coletiva (vol. 30, no. 10, 2025). Os autores iniciam ressaltando que a região fez importantes progressos nas últimas décadas: registrou altas taxas de crescimento econômico, redução da pobreza, melhorias na saúde da população e passou a ter níveis de educação mais altos (Jaitman, 2017). Mas, a violência e a criminalidade aumentaram e a região continua a ser a mais violenta do mundo. Apresentou uma taxa de 24 homicídios por 100.000 habitantes em 2017, quase quatro vezes maior que a média global. Trabalho recente de Croci et al. (2023) fala em 33/100.000.
O estudo de Gomes et al. (2025) analisou dados de 24 países quanto aos desfechos relacionados à violência: taxa de homicídios intencionais; de mortalidade por violência interpessoal; de mortalidade por violência interpessoal feminina; e de mortalidade por violência interpessoal masculina. Verificou também mudanças nos indicadores demográficos como a mediana de idade da população; nos fatores socioeconômicos como a variação do PIB, a taxa de desemprego, de mortalidade infantil e a média de escolaridade da população. Adicionalmente, avaliou efeitos distintos da violência interpessoal por sexo.
Os resultados mostram que piores indicadores socioeconômicos (menor taxa anual de variação do PIB, maior taxa de desemprego e maior taxa de mortalidade infantil) estão correlacionados com maiores taxas de homicídio intencional e interpessoal. No entanto, os autores referem muita variedade quanto ao valor desses indicadores nos países que analisam. Nenhum deles por si só explica mudanças positivas ou negativas. Por exemplo, no Brasil, os estados menos privilegiados socioeconomicamente não são os mais violentos.
Imagem: Frederick Shaw via Unsplash
Dois fatores mostraram-se indiscutíveis, o nível de desigualdade – sobretudo a que atinge a população jovem pobre – está associado a maior incidência de homicídios; e a tendência de envelhecimento da população latino-americana favorece uma queda geral nas taxas de violência, o que já vem sendo observado em alguns países da região. Algumas estimativas mostram que a criminalidade custa em termos econômicos, em média, para os países estudados 3,55 % do PIB (IMF, 2023). E a exposição à violência aumenta os riscos de lesões, doenças infecciosas, problemas de saúde mental, problemas de saúde reprodutiva e doenças não transmissíveis (Mercy et al., 2017).
Possivelmente, por não haver dados confiáveis, os autores deixaram de considerar fatores institucionais que influenciam tanto a violência como a criminalidade: a inefetividade de instituições governamentais, a corrupção e o crescimento do crime organizado. Segundo Croci e Chainey (2023) e Erthal (2025), fatores estruturais são menos significativos, e não possuem correlação estatisticamente relevante para a criminalidade latino-americana. Para medir de forma quantitativa essa variável, que é multifatorial, os autores utilizaram alguns parâmetros:
(1) Efetividade do governo: utilizando dados do Indicador de Governança do Banco Mundial. Esse parâmetro considera “percepções sobre a qualidade dos serviços públicos e o grau de sua independência em relação a pressões políticas, à qualidade da formulação e implementação de políticas e à credibilidade do compromisso do governo com tais políticas”. (2) Controle de corrupção: medida que utiliza dados do Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional. (3) Independência do Judiciário. (4) Índice de Estado de Direito e (4) Índice de Impunidade: calculada pela razão entre homicídios cometidos na década anterior e o número de pessoas na prisão. Croci e Chainey (2023) argumentam que a ineficiência governamental e a corrupção – elementos ligados ao funcionamento institucional de uma nação – são as variáveis estatisticamente mais correlacionadas ao nível de homicídios na América Latina.
Apesar de defender uma abordagem institucional para explicar o fenômeno criminal na América Latina, Croci e Chainey (2023) e Erthal (2025) reconhecem a importância de fatores socioeconômicos (pobreza, desemprego, desigualdade e níveis educacionais ruins). Entretanto, consideram que esses fatores, isoladamente, não explicam integralmente o motivo pelo qual a América Latina apresenta níveis tão elevados de violência homicida e criminosa.
São muito importantes os estudos sobre o tema tratado neste texto, porque a violência é a 3ª causa de morte dos brasileiros e a 1ª na faixa etária de 15 a 39 anos.
Para ler a edição temática completa acesse
Ciência & Saúde Coletiva, vol. 30, no. 10, 2025
Para ler o artigo completo, acesse
GOMES, J.S., TEJADA, C.A.O. and TRIACA, L.M. Fatores correlacionados à mortalidade por violência na América Latina e Caribe, 2000-2021: um estudo ecológico. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2025, vol 30, no. 10, e10672025 [viewed 20 January 2026] https://doi.org/10.1590/1413-812320253010.10672025. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/r7jdzGmBXkpFBvxJyTqcZDJ/
Referências
CROCI, G. and CHAINEY, S.P. An Institutional Perspective to Understand Latin America’s High Levels of Homicide. The British Journal of Criminology [online]. 2023, vol. 63, no. 5, p. 1199–1218 [viewed 20 January 2026]. https://doi.org/10.1093/bjc/azac083. Available from: https://academic.oup.com/bjc/article/63/5/1199/6825278
INTERNATIONAL MONETARY FUND. Regional Economic Outlook: Western Hemisphere. Washington, DC: International Monetary Fund, 2023.
Jaitman, L., et al. The costs of crime and violence. Washington, DC: Inter-American Development Bank, 2017.
MERCY, J.A., et al. Interpersonal violence: Global Impact and Paths to prevention. In: MOCK, C. et al. Injury Prevention and Environmental Health. 3rd edition. Washington, DC: World Bank, 2017.
Por que a América Latina é tão violenta? Fatores que explicam a criminalidade violenta na região. NISP – Novas ideias em segurança pública. 2025 [viewed 20 January 2026]. Available from: https://www.nispbr.org/post/por-que-a-am%C3%A9rica-latina-
Um mês do confronto mais letal da história do país: relembre em fotos e vídeos a megaoperação na Penha e no Alemão e a repercussão do caso. O GLOBO. 2025 [viewed 20 January 2026]. Available from: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2025/11/28/um-mes-do-confronto-mais-letal-da-historia-do-pais.
Links externos
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Fonte: SciELO













