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Artigos

0175/2026 - Experiência médica como expertise social: limites da racionalidade biomédica e implicações para o cuidado em saúde
Medical Experience as Social Expertise: Limits of Biomedical Rationality and Implications for Health Care

Autor:

• Pedro Senise Maroun - Maroun, PS - <pedromaroun@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0007-6465-8417



Resumo:

A experiência médica permanece pouco definida no campo da saúde coletiva, frequentemente reduzida ao tempo de prática ou ao acúmulo técnico. Este ensaio teve como objetivo compreender a experiência médica como forma de expertise social produzida na articulação entre conhecimento biomédico, experiência do adoecimento e contextos institucionais do cuidado. Adotou-se revisão teórica seletiva e interdisciplinar, articulando contribuições da filosofia da medicina, antropologia da saúde e saúde coletiva. O percurso analítico mobilizou Georges Canguilhem, Marcel Mauss, AnneMarie Mol, Octavio Bonet, Hans-Georg Gadamer, Ricardo Ayres e Gastão Wagner de Sousa Campos. Os resultados indicam que o conhecimento clínico depende de processos de interpretação, reciprocidade e mediação institucional que ultrapassam a racionalidade biomédica instrumental. A experiência médica foi compreendida como competência relacional produzida no interior das práticas de cuidado, envolvendo manejo da incerteza, construção de vínculos e produção compartilhada de sentidos. Conclui-se que a fragilização dessas dimensões compromete simultaneamente a densidade ética do cuidado e as condições de produção do conhecimento clínico.

Palavras-chave:

Experiência Médica; Cuidado em Saúde; Relações Médico-Paciente; Hermenêutica; Saúde Coletiva.

Abstract:

Medical experience remains poorly defined in collective health, often reduced to years of practice or technical accumulation. This essay aimed to understand experience as a form of social expertise produced through the articulation between biomedical knowledge, illness experience, and institutional contexts of care. A selective and interdisciplinary theoretical review was conducted, drawing on philosophy of medicine, medical anthropology, and collective health. The analysis mobilized contributions from Georges Canguilhem, Marcel Mauss, Anne-Marie Mol, Octavio Bonet, Hans-Georg Gadamer, Ricardo Ayres, and Gastão Wagner de Sousa Campos. The findings indicate that clinical knowledge depends on processes of interpretation, reciprocity, and institutional mediation that exceed instrumental biomedical rationality. Medical experience was understood as a relational competence produced within care practices, involving management of uncertainty, construction of bonds, and shared production of meaning. The study concludes that weakening these dimensions compromises both the ethical density of care and the conditions for producing clinical knowledge.

Keywords:

Medical Experience; Health Care; Physician-Patient Relations; Hermeneutics; Collective Health.

Conteúdo:

Introdução:

A experiência médica ocupa um lugar contraditório na medicina contemporânea. Ao mesmo tempo em que permanece como critério valorizado na avaliação profissional, continua conceitualmente pouco definida no campo da saúde coletiva e das ciências sociais em saúde. Frequentemente associada ao tempo de prática ou ao acúmulo técnico, tende a ser tratada como atributo individual, raramente problematizada como fenômeno relacional e situado???. Essa redução dificulta compreender como o conhecimento clínico se produz em situações que escapam à padronização biomédica, especialmente em cenários de sofrimento, incerteza e vulnerabilidade social.
A ausência de uma definição conceitual mais precisa da experiência médica constitui um limite analítico relevante. Em contextos clínicos marcados pela complexidade do cuidado, torna-se insuficiente explicar a prática médica apenas pela aplicação de protocolos ou pela incorporação de evidências científicas. Situações como a comunicação de notícias difíceis, a negociação de adesão terapêutica ou o manejo de condições crônicas exemplificam como parte importante da decisão clínica depende da interpretação das experiências do paciente e da construção de vínculos no interior das instituições de saúde. Ainda assim, a experiência permanece frequentemente descrita como saber tácito ou competência implícita, sem que seu estatuto epistemológico seja claramente delimitado.
A indefinição de experiência médica se torna ainda mais evidente em um contexto marcado pela crescente centralidade da medicina baseada em evidências, pela padronização de condutas e pela intensificação do uso de tecnologias diagnósticas. Embora essas transformações tenham ampliado a capacidade de intervenção biomédica, também contribuíram para deslocar a experiência para uma posição subordinada, frequentemente percebida como complemento subjetivo da racionalidade técnica¹ ?. A prática clínica passa a se organizar sob uma lógica instrumental na qual a mediação entre conhecimento científico, vida cotidiana e sofrimento tende a ocupar um lugar secundário???.
No contexto da saúde coletiva, a subordinação da experiência clínica à dimensão técnico-instrumental da medicina produz implicações importantes. O cuidado em saúde não se limita à execução técnica de intervenções, envolvendo processos interpretativos, negociações morais e construção de relações de confiança. O cuidado, então, é compreendido neste ensaio, como prática relacional e situada, produzida no encontro entre sujeitos, saberes e instituições, ultrapassando a dimensão estritamente instrumental da clínica. Essa perspectiva aproxima-se das formulações de Anne-Marie Mol?, para quem o cuidado não se organiza a partir de uma “lógica da escolha”, centrada em decisões abstratas e individuais. A autora trabalha com a “lógica do cuidado”, construída em ajustes contínuos entre técnica, experiência e vida cotidiana.
Embora exista uma produção consistente sobre humanização, clínica ampliada, intersubjetividade e competência cultural, esses debates ainda não se consolidaram em uma formulação teórica mais sistemática da experiência médica como forma específica de conhecimento relacional³??. A experiência aparece frequentemente como valor normativo ou atributo desejável da prática profissional, sem que sejam suficientemente exploradas as condições sociais, institucionais e intersubjetivas que tornam possível sua produção.
Diante dessa lacuna, este ensaio parte da seguinte questão: como definir teoricamente a experiência médica em contextos marcados pela complexidade do cuidado e pelos limites da racionalidade biomédica? A hipótese central sustenta que a experiência médica deve ser compreendida como forma de expertise social, construída na relação entre médico, paciente e contexto institucional²???. Essa formulação implica deslocar a experiência do plano empírico para o plano analítico, compreendendo a clínica como espaço de mediação entre conhecimento biomédico, sofrimento e vida social.
O objetivo do artigo consiste em propor essa redefinição conceitual a partir do diálogo entre filosofia da medicina, antropologia da saúde e saúde coletiva. Para isso, o texto articula contribuições de Georges Canguilhem, Marcel Mauss, Anne-Marie Mol, Octavio Bonet e autores da saúde coletiva brasileira, especialmente Ricardo Ayres e Gastão Wagner de Sousa Campos¹²³???. A escolha desses autores decorre da possibilidade de analisar diferentes dimensões constitutivas da experiência médica: a normatividade da vida, a reciprocidade do vínculo clínico, a articulação entre saber e sentir na formação médica e a dimensão relacional do cuidado. O artigo sustenta que a experiência médica constitui uma forma específica de conhecimento clínico, cuja produção depende de estruturas de interpretação, reciprocidade e mediação institucional ainda pouco exploradas na literatura.
Este trabalho adota uma estratégia metodológica baseada em revisão teórica seletiva e orientada, organizada em torno de autores cuja densidade conceitual permite estruturar o percurso interpretativo desenvolvido no ensaio. A análise privilegia a articulação entre conceitos e a construção de uma leitura interdisciplinar da prática clínica, em consonância com a tradição hermenêutica e socioantropológica das ciências sociais em saúde.

O Normal e o Patológico: A Reconstrução da Norma de Vida

A fundamentação teórica da experiência médica exige uma revisão crítica do que se considera normal e patológico. A incorporação de Georges Canguilhem neste ensaio decorre da centralidade de sua noção de normatividade para compreender a experiência médica para além da racionalidade biomédica estrita. Ao questionar a ideia de que o patológico constitui uma simples variação quantitativa do normal¹, Canguilhem desloca o eixo da medicina para uma compreensão centrada na vida. Nessa perspectiva, a saúde consiste na capacidade normativa do sujeito de enfrentar as infidelidades do meio¹. Esse deslocamento altera profundamente o estatuto da prática clínica, que deixa de se orientar exclusivamente pela correção de desvios para se configurar como interpretação das formas de vida.
A noção de normatividade permite compreender que estar saudável implica instituir novas normas diante de condições adversas¹, onde a doença representa uma transformação nas possibilidades de existência do sujeito. A clínica passa a lidar com modos de vida concretos, exigindo do profissional a capacidade de interpretar como cada indivíduo reorganiza sua relação com o mundo. A experiência médica emerge, assim, como competência situada, que articula conhecimento técnico e compreensão da singularidade.
Essa abordagem implica reconhecer que o normal não se limita a uma média universal, sendo constituído a partir das condições de existência de cada sujeito¹. Cultura, contexto social e trajetória de vida moldam as normas que orientam o viver. A prática clínica exige uma atenção que ultrapassa parâmetros biomédicos, incorporando a dimensão biográfica do adoecimento, o que podemos nominar de expertise social. Esta, se manifesta na capacidade de interpretar normas de vida e de ajustar a intervenção técnica à realidade concreta do paciente.
Na oncologia, a perspectiva relacional do cuidado adquire relevância particular. O diagnóstico de uma doença grave desorganiza profundamente as normas de existência, exigindo processos de reorganização que envolvem corpo, identidade e projetos de vida. A experiência médica se expressa na capacidade de acompanhar esse processo, compreendendo como o sujeito constrói novas formas de viver diante da perda corporal ou da ameaça à finitude. A clínica passa a operar como espaço de reconstrução de possibilidades.
A reorganização da vida produzida pela experiência do adoecimento não se limita ao plano individual. A doença incide sobre vínculos sociais, relações familiares e inserção no mundo. A prática clínica exige uma abordagem que reconheça essa complexidade e que seja capaz de articular diferentes níveis de análise. A experiência médica emerge na gestão dessas múltiplas dimensões.
Quando a clínica é reduzida à correção de desvios fisiológicos, perde-se a capacidade de compreender o sentido do adoecimento. O erro biológico adquire a nomenclatura de doença quando afeta a vida do sujeito em sua totalidade¹. Essa formulação recoloca o sofrimento no centro da prática clínica e exige uma abordagem que considere sua dimensão existencial. A experiência médica amadurecida reconhece o patológico como modo de vida distinto, orientando a intervenção pela possibilidade de reconstrução da normatividade.
O deslocamento da clínica de uma lógica estritamente instrumental para uma perspectiva relacional implica rever a posição do saber técnico. A técnica permanece indispensável, embora sua aplicação dependa de mediação interpretativa. O médico precisa ajustar protocolos à singularidade da situação, operando na tensão entre universalidade científica e particularidade da experiência. A contribuição de Canguilhem, neste cenário, permite compreender que o raciocínio clínico opera pela identificação de alterações biológicas e pela interpretação das formas concretas de viver e adoecer. É nesse ponto que a reflexão do autor encaminha a compreensão da clínica como prática relacional. A interpretação das normas de vida abre espaço para reconhecer que o conhecimento clínico depende das condições do encontro entre médico e paciente.
A compreensão da clínica como prática interpretativa também dialoga com a etnografia de Octavio Bonet ?, especialmente ao mostrar que a prática médica se constitui na articulação entre saber e sentir. A experiência clínica não se limita ao domínio técnico de protocolos, incluindo processos de aprendizagem relacional, manejo de afetos e incorporação prática da incerteza no cotidiano profissional. O exercício da medicina se amplia diante da capacidade de interpretar situações concretas de sofrimento e sustentar decisões em contextos nos quais a aplicação automática de normas técnicas se mostra insuficiente. A compreensão do cuidado como prática relacional permite estabelecer uma ponte direta com a teoria da dádiva, na medida em que a interpretação da norma de vida se realiza no interior de relações de reciprocidade que estruturam o vínculo². Antes de sua aplicação ao campo da saúde, contudo, é importante destacar que Marcel Mauss compreende a dádiva como sistema de obrigações recíprocas de dar, receber e retribuir, responsável por produzir vínculos e reconhecimento social². Essa formulação também se conecta à proposta da clínica ampliada, ao sugerir que o cuidado se organiza em práticas que integram sujeito, contexto e instituições³.
De forma semelhante, a hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer analisa a experiência como processo interpretativo marcado pela abertura ao outro e pela revisão contínua das próprias expectativas ?. Na perspectiva de Gadamer e Ayres há um aprofundamento teórico que busca reconhecer a experiência clínica como processo interpretativo mediado pela linguagem e pela relação com o outro??. A experiência médica contextualizada se configura como forma de saber localizado, produzido na articulação entre vida, relação e interpretação¹²³??.

A Teoria da Dádiva: O Vínculo como Troca Simbólica

A incorporação da teoria da dádiva no contexto da saúde permite deslocar a compreensão da prática clínica de um modelo estritamente técnico para um modelo relacional, no qual o cuidado se estrutura como forma específica de troca social. A escolha de Marcel Mauss neste ensaio decorre da possibilidade de compreender o vínculo clínico como relação de reciprocidade, ultrapassando interpretações que reduzem a prática médica à aplicação instrumental de conhecimentos biomédicos. Em seu ensaio clássico sobre a dádiva, Mauss demonstra que diferentes formas de organização social se estruturam por sistemas simbólicos baseados nas obrigações de dar, receber e retribuir². Mais do que simples trocas materiais, essas relações produzem alianças, reconhecimento e pertencimento social. A dádiva opera, assim, como mecanismo de constituição do vínculo e da confiança entre sujeitos.
A compreensão da dádiva como sistema de reciprocidade simbólica mostra que as relações sociais não se organizam exclusivamente por contratos formais ou decisões racionais abstratas. Na perspectiva maussiana, toda troca envolve dimensões morais, simbólicas e afetivas que produzem obrigações recíprocas entre aqueles que participam da relação². A reciprocidade não corresponde apenas a um gesto de devolução material, produzindo reconhecimento mútuo continuamente. Essa dimensão relacional torna a teoria da dádiva particularmente relevante para pensar práticas de cuidado marcadas por vulnerabilidade, dependência e incerteza.
Ao transpor a teoria da dádiva para o encontro clínico, é possível observar como a relação entre médico e paciente ultrapassa a transmissão de informações ou a execução de procedimentos. O cuidado envolve implicação recíproca, onde o profissional se apresenta como agente inserido em uma situação marcada por sofrimento e imprevisibilidade. A prática clínica pode ser compreendida como espaço de circulação simultânea de valores técnicos, simbólicos e relacionais.
No encontro clínico, o circuito de dar, receber e retribuir pode ser observado de maneira concreta. O médico oferece diagnóstico, conduta terapêutica, tempo, atenção e reconhecimento diante do sofrimento do outro. Esse “dar” envolve a exposição do julgamento profissional em uma situação que não é inteiramente previsível. Ao mesmo tempo, esse gesto inaugura uma relação carregada de expectativas e implicações mútuas. O paciente, por sua vez, recebe mais do que uma orientação clínica. Ao aceitar o cuidado, reconhece a legitimidade daquele gesto e se insere em uma relação que pressupõe confiança. Há um movimento que implica na exposição de aspectos da experiência de adoecimento que não são imediatamente acessíveis ao olhar técnico. A relação clínica passa a operar em um registro que articula conhecimento e reconhecimento.
A partir desse ponto, a relação clínica é mediada por uma forma específica de reciprocidade. A adesão ao tratamento, a confiança no profissional e a disposição em compartilhar aspectos da própria experiência configuram respostas a essa dinâmica. É nesse circuito de dar, receber e retribuir que o vínculo clínico se consolida como condição de possibilidade do cuidado.
A reciprocidade corresponde a um processo dinâmico no qual diferentes formas de retorno se manifestam. O paciente retribui com narrativas, interpretações e sinais que permitem ao médico acessar dimensões da doença que escapam à mensuração técnica. A clínica se configura como espaço de circulação de informações dependentes da qualidade da relação na qual a experiência médica não se reduz ao domínio técnico de protocolos ou evidências, dependendo da capacidade do profissional de sustentar relações que tornem inteligível a experiência do adoecimento. Ao que podemos denominar expertise social do médico corresponde a capacidade de manejar relações de reciprocidade em situações concretas de cuidado. A produção do conhecimento clínico ocorre no interior dessas relações e depende das condições que as tornam possíveis.
Nessa perspectiva, a teoria da dádiva explicita um mecanismo frequentemente tácito na prática médica: a construção do saber está condicionada pelas formas de reciprocidade estabelecidas no encontro clínico. A qualidade da informação disponível ao profissional, especialmente aquela relativa à experiência vivida do adoecimento, passa a se constituir no interior da relação². Essa dependência se mostra quando parte significativa das informações relevantes para o cuidado não se apresenta de forma imediata. Narrativas, silêncios e interpretações do paciente surgem conforme o tipo de vínculo estabelecido. A reciprocidade condiciona a inteligibilidade da situação clínica e situações como a comunicação de más notícias ou a negociação de adesão terapêutica exemplificam empiricamente essa dinâmica.
A dinâmica de reciprocidade também encontra ressonância em formulações contemporâneas sobre cuidado. Uma proposição de Anne-Marie Mol ? é de que a prática clínica tem uma organização além da simples aplicação de escolhas racionais previamente definidas, sendo como processo de coordenação contínua entre condutas terapêuticas, limites materiais e modos concretos de viver. O cuidado se torna menos dependente da adesão abstrata das decisões e mais vinculado à capacidade de sustentar ajustes práticos diante das instabilidades do adoecimento.
No diálogo com a antropologia da medicina, Octavio Bonet? demonstra que a formação e o exercício médico envolvem a incorporação simultânea de saberes técnicos e sensibilidades práticas. A aprendizagem clínica se constitui no contato cotidiano com situações de sofrimento, incerteza e exposição emocional, produzindo formas de percepção que não se reduzem ao domínio formal do conhecimento biomédico.
Retomando Marcel Mauss2, a teoria da dádiva permite analisar como o conhecimento clínico se constitui nas relações de confiança que tornam visíveis as dimensões da experiência do paciente. A expertise social consistirá na capacidade de operar nesse nível relacional, reconhecendo que a qualidade da troca simbólica influencia diretamente a decisão clínica.
Quando as relações de reciprocidade que sustentam o vínculo clínico são enfraquecidas, seja pelo tempo reduzido de consulta, pela fragmentação do cuidado ou pela centralidade excessiva de dispositivos técnicos, o vínculo se fragiliza e o acesso à experiência do paciente se torna limitado. A perda assume caráter epistemológico, pois restringe as possibilidades de interpretação clínica.
A contribuição de Marcel Mauss² permite compreender que o desenvolvimento do saber na clínica depende de estruturas de reciprocidade. A experiência médica, compreendida como expertise social, corresponde à capacidade de reconhecer essa dinâmica, sustentar o vínculo e operar clinicamente a partir dela². Tal compreensão se aproxima da proposta da clínica ampliada, ao evidenciar que o cuidado se organiza em práticas coletivas nas quais a relação constitui condição de produção do próprio saber³. Ao mesmo tempo, esse deslocamento encontra na hermenêutica filosófica um aprofundamento teórico, na medida em que permite reconhecer a experiência clínica como processo interpretativo mediado pela linguagem e pela abertura ao outro??.

Clínica Ampliada: Referenciais para a Reforma da Prática

A compreensão da experiência médica como expertise social encontra na proposta da Clínica Ampliada e Compartilhada um importante campo de operacionalização no plano das práticas e das instituições de saúde. A incorporação da Clínica Ampliada neste ensaio decorre da possibilidade de analisar o cuidado como prática construída na articulação entre sujeitos, saberes e instituições, deslocando a clínica de uma racionalidade centrada exclusivamente na doença. Conforme formulada por Campos e Amaral³, essa perspectiva propõe uma reorganização do trabalho em saúde a partir da ampliação do objeto clínico, incorporando dimensões biográficas, sociais e relacionais frequentemente marginalizadas pela racionalidade biomédica.
O deslocamento da clínica de uma lógica centrada exclusivamente na intervenção técnica para uma compreensão relacional do cuidado não possui caráter apenas discursivo. Ao reposicionar o foco da intervenção, a Clínica Ampliada introduz a necessidade de considerar, no interior da prática clínica, elementos como vínculo, negociação terapêutica e condições institucionais do cuidado³. Na Clínica Ampliada, o cuidado é compreendido além da execução linear de condutas previamente definidas, pois inclui o processo de composição prática diante de situações marcadas por singularidade, vulnerabilidade e imprevisibilidade. A experiência médica não mais se limita ao domínio técnico e passa a envolver a capacidade de articular diferentes dimensões da vida social no interior da decisão clínica.
É na compreensão relacional da clínica que a noção de expertise social adquire maior densidade analítica. A prática clínica, orientada por esse referencial, exige do profissional domínio biomédico e a capacidade de operar em redes de cuidado, reconhecendo a heterogeneidade dos saberes e sustentando processos de mediação³. Produzidas na relação entre conhecimento técnico, condições institucionais e experiência concreta do adoecimento, formas de julgamento passam a constituir a experiência médica.
A proposta de construção de projetos terapêuticos compartilhados explicita essa exigência. Ao invés de decisões unilaterais, a clínica se torna concebida como espaço de coprodução do cuidado, no qual a autoridade médica é reconfigurada. Sua legitimidade deixa de repousar exclusivamente sobre a expertise técnico-científica, dependendo da capacidade de dialogar com outros saberes e incorporar a perspectiva do paciente³. A experiência clínica não mais se restringe como atributo acumulado individualmente, se constituindo como competência continuamente produzida na interação.
A noção de “novo artesanato” do trabalho em saúde, descrita por Campos e Amaral³, permite aprofundar essa compreensão. Longe de remeter a uma idealização do cuidado, ela evidencia que a prática clínica envolve trabalho contínuo de composição entre dimensões técnicas, relacionais e institucionais. Essa formulação aproxima-se da crítica de Anne-Marie Mol? à ideia de que o cuidado possa ser reduzido à lógica abstrata da escolha individual. A prática clínica se produz por meio de ajustes permanentes entre protocolos, possibilidades terapêuticas e condições concretas da vida cotidiana.
A compreensão da experiência médica como expertise social também permite problematizar a organização institucional dos serviços de saúde. Quando o trabalho clínico é estruturado sob lógicas produtivistas ou excessivamente protocolizadas, as condições de exercício dessa expertise tendem a ser restringidas. A escuta, a negociação terapêutica e a construção de vínculos tornam-se secundárias frente à necessidade de cumprir fluxos e metas³. Nesse modelo de organização do trabalho clínico, a ausência da dimensão relacional do cuidado produz empobrecimento ético da clínica e limitação epistemológica, restringindo o acesso às experiências e interpretações produzidas pelos próprios sujeitos adoecidos.
Ao considerar a Clínica Ampliada como dispositivo teórico-operacional, torna-se possível compreender a experiência médica como prática simultaneamente técnica, relacional e institucional. A expertise social se torna dependente das condições organizacionais que permitem, ou dificultam, a integração entre saber biomédico, experiência do adoecimento e produção compartilhada do cuidado. Essa perspectiva também dialoga com Octavio Bonet? ao demonstrar que a prática médica se constitui em processos cotidianos de aprendizagem relacional. O exercício clínico envolve a incorporação prática de sensibilidades, formas de percepção e modos de manejo da incerteza que não se reduzem à aquisição formal de conhecimentos biomédicos.
A Clínica Ampliada oferece, assim, um referencial normativo para a reorganização das práticas de saúde e, simultaneamente, um modelo analítico para compreender o tipo de conhecimento implicado na experiência médica. É no saber produzido pela articulação entre diferentes dimensões do cuidado que emerge a capacidade do profissional de sustentar a complexidade das situações clínicas sem reduzilas a uma lógica exclusivamente técnica³. Nessa configuração, a experiência médica se produz no interior do trabalho coletivo, evidenciando que sua constituição depende das condições institucionais do cuidado³.

A Hermenêutica do Cuidado: Intersubjetividade e Produção de Sentidos

A fundamentação da experiência médica como expertise social encontra na hermenêutica filosófica um importante eixo interpretativo para compreender a clínica como prática de produção de sentidos. A incorporação de Hans-Georg Gadamer neste ensaio decorre da possibilidade de compreender a experiência para além do acúmulo técnico, situando-a como processo interpretativo produzido na relação com o outro. Para Gadamer ?, a experiência constitui um movimento de abertura à alteridade capaz de transformar as expectativas daquele que interpreta. A compreensão se realiza no interior do diálogo, exigindo reconhecimento da incompletude do próprio saber e disposição para ser interpelado pela experiência do outro.
Compreender a clínica como prática interpretativa e relacional permite deslocar a prática clínica de uma racionalidade centrada exclusivamente na aplicação de protocolos para uma perspectiva em que o encontro terapêutico assume caráter interpretativo. Na hermenêutica gadameriana, compreender significa, além de identificar corretamente um fenômeno, produzir sentidos compartilhados em situações marcadas por singularidade, historicidade e linguagem ?. A experiência clínica se produz menos como decodificação linear de sinais e mais como interpretação das formas pelas quais o adoecimento adquire sentido na experiência do sujeito.
O diálogo estabelecido por Ricardo Ayres ? entre hermenêutica filosófica e saúde coletiva permite compreender o cuidado como prática intersubjetiva. Ayres argumenta que as práticas de saúde precisam ultrapassar uma racionalidade estritamente instrumental, incorporando dimensões comunicativas e existenciais no interior da clínica. O diagnóstico não se reduz à classificação técnica da doença, implicando interpretar o adoecimento em sua dimensão vivida e relacional. A expertise social se expressa, assim, na capacidade de sustentar esse encontro sem reduzir o paciente à condição de objeto técnico.
Reconhecer a doença como experiência implica admitir que nenhuma intervenção opera apenas por sua racionalidade técnica, articulando-se às formas pelas quais é incorporada e significada pelo sujeito. A prática clínica envolve perceber o não dito, interpretar silêncios e reconhecer os significados atribuídos ao sofrimento pelo próprio paciente. Como aponta Ayres ?, é na articulação entre saber técnico e valor existencial que se produz uma clínica capaz de responder à complexidade do cuidado. O cuidado não se reduz, nesse cenário, à execução de condutas terapêuticas, constituindo-se como processo interpretativo continuamente mediado pela linguagem, pela escuta e pela negociação de sentidos.
Para Gadamer?, a estrutura do diálogo ocupa posição central no processo de compreensão. O autor enfatiza que compreender exige manter a questão aberta, evitando antecipar respostas definitivas. Na prática assistencial, isso implica reconhecer a anamnese não se limitando como instrumento de coleta de dados biomédicos, mas como espaço de abertura à narrativa do sujeito. Saber perguntar significa permitir que o paciente participe da construção do sentido do tratamento e da interpretação de sua própria experiência de adoecimento. A expertise social se manifesta justamente na capacidade de sustentar essa abertura diante da incerteza clínica.
A hermenêutica gadameriana? compreende a experiência como abertura àquilo que desestabiliza expectativas previamente constituídas. O profissional experiente não é aquele que domina completamente a situação clínica, já que necessita desenvolver a capacidade de reconhecer a insuficiência de suas próprias certezas diante da complexidade do sofrimento humano. Essa abertura ao inesperado impede a burocratização do cuidado e preserva a dimensão ética da prática clínica.
A compreensão da experiência médica como saber incorporado e relacional também dialoga com Octavio Bonet? ao evidenciar que a formação e o exercício da medicina envolvem processos de incorporação prática do saber clínico. A experiência profissional se constitui no manejo cotidiano da incerteza, dos afetos e das exigências morais presentes nas relações de cuidado, produzindo sensibilidades e formas de percepção que ultrapassam o domínio formal do conhecimento biomédico.
A integração da hermenêutica filosófica à saúde coletiva auxilia na compreensão de que toda prática clínica envolve produção compartilhada de sentidos. A expertise social se produz na capacidade de preservar espaços de escuta e interpretação em instituições frequentemente atravessadas por racionalidades técnicas e produtivistas. Mais do que corrigir alterações orgânicas, o cuidado envolve criar possibilidades para que a vida possa seguir sendo habitada em meio ao adoecimento.
Por fim, a articulação entre hermenêutica, clínica ampliada e saúde coletiva colabora no entendimento da experiência médica como forma de conhecimento situada na interface entre técnica, linguagem e vida social. A expertise social consiste na capacidade de operar nessa interface sem reduzir a singularidade do sujeito à lógica exclusivamente instrumental da racionalidade biomédica³??.

Conclusão: A Ética do Reconhecimento na Clínica

Este ensaio partiu do reconhecimento de que a experiência médica, embora central na prática clínica, permanece conceitualmente pouco explorada no campo da saúde coletiva e das ciências sociais em saúde. Sua redução a atributo individual, tempo de prática ou acúmulo técnico limita a compreensão da clínica contemporânea, especialmente em contextos marcados por incerteza, cronicidade e desigualdades sociais???. A necessidade de uma formulação mais precisa emerge do descompasso entre a complexidade do cuidado e os modelos explicativos tradicionalmente mobilizados para compreender a prática médica.
A principal contribuição do artigo consistiu em propor a experiência médica como forma de expertise social, entendida como conhecimento produzido na articulação entre saber biomédico, experiência do adoecimento e contextos institucionais¹²³????. Essa redefinição desloca a experiência do plano empírico para o plano analítico, conferindolhe estatuto epistemológico no interior das ciências sociais em saúde. A experiência médica já não pode ser reduzida a atributo exclusivamente individual, constituindo-se como competência relacional produzida no interior das práticas de cuidado.
A escolha do percurso teórico adotado buscou justamente explicitar diferentes dimensões constitutivas dessa experiência. A partir de Georges Canguilhem¹, evidenciouse que a prática clínica envolve interpretação de normas de vida singulares, situando o adoecimento na experiência concreta do sujeito. A doença aparece como transformação das possibilidades de existência, exigindo do profissional a capacidade de reconhecer processos de reorganização da vida diante da vulnerabilidade.
A incorporação da teoria da dádiva possibilitou analisar como o conhecimento clínico depende das condições de reciprocidade estabelecidas no encontro entre médico e paciente². A qualidade da informação disponível ao profissional se constitui no interior das relações de confiança e reconhecimento produzidas no cuidado. Ao aprofundar a contribuição de Marcel Mauss², o artigo buscou demonstrar que a prática clínica se constitui na articulação entre transmissão técnica de condutas e circulação simbólica de expectativas, narrativas e formas de reconhecimento mútuo.
As contribuições de Anne-Marie Mol? permitiram explicitar a concepção de cuidado adotada no ensaio. O cuidado foi compreendido como prática relacional, situada e continuamente ajustada diante das instabilidades produzidas pelo adoecimento. A partir da lógica do cuidado proposta por Mol?, a efetividade clínica depende menos da aplicação abstrata de escolhas racionais e mais da capacidade de coordenar práticas, vínculos e possibilidades concretas de vida.
A aproximação com Octavio Bonet? contribuiu para compreender que a experiência médica envolve processos de incorporação prática do saber clínico. A formação e o exercício da medicina se constituem no manejo cotidiano da incerteza, dos afetos e das exigências morais presentes nas relações de cuidado. A experiência clínica passa, assim, a ser compreendida como aprendizado relacional produzido no interior das práticas assistenciais.
A hermenêutica do cuidado, articulada a partir de Hans-Georg Gadamer? e Ricardo Ayres?, aprofundou essa compreensão ao situar a experiência clínica como processo interpretativo mediado pela linguagem e pela intersubjetividade. O encontro clínico foi analisado como espaço de construção compartilhada de sentidos, no qual a decisão terapêutica se inscreve na trajetória biográfica do sujeito. A prática clínica passa a operar na interface entre ciência, linguagem e vida social, exigindo do profissional capacidade de sustentar interpretações diante da singularidade das situações concretas.
A proposta da Clínica Ampliada³ possibilitou exemplificar essa experiência no interior das instituições e das formas de organização do trabalho em saúde. O cuidado foi compreendido como prática coletiva e processual, dependente de condições organizacionais capazes de sustentar escuta, negociação terapêutica e produção compartilhada de decisões. Antes como competência isolada do profissional, a experiência médica passa a ser produzida no interior de redes de cuidado e relações institucionais.
O conjunto de contribuições acionadas nesse artigo ajuda na compreensão de que a experiência médica consiste em forma de conhecimento localizada, produzida na articulação entre normatividade da vida, reciprocidade das relações, interpretação compartilhada e condições institucionais do cuidado. Situações como comunicação de notícias difíceis, pactuação terapêutica ou manejo de condições crônicas mostram que a prática clínica depende de competências que não podem ser integralmente reduzidas à racionalidade biomédica instrumental.
Ao demonstrar que o raciocínio clínico se produz em relações atravessadas por interpretação, reciprocidade e mediações institucionais, este ensaio argumenta que a fragilização dessas dimensões compromete simultaneamente a densidade ética do cuidado e as próprias condições de produção do conhecimento clínico. Quando a experiência concreta do adoecimento perde lugar na prática assistencial, reduz-se igualmente a capacidade de compreender aquilo que escapa à objetivação biomédica. A experiência médica assume, portanto, lugar constitutivo na clínica contemporânea, recolocando em novos termos os debates sobre formação profissional, organização dos serviços e produção do cuidado no campo da saúde coletiva.

Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.

Referências

1. Georges Canguilhem Canguilhem G. O normal e o patológico. 7a ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2011.

2. Marcel Mauss Mauss M. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: Mauss M. Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU; 1974. p. 183-314.

3. Gastão Wagner de Sousa Campos, Amaral MA. A clínica ampliada e compartilhada, a gestão democrática e redes de atenção como referenciais teóricooperacionais para a reforma do hospital. Cien Saude Colet. 2007;12(4):849-859.

4. Laurence Holden, editor. Cultural expertise: anthropological theory and practice. Oxford: Oxford University Press; 2022.

5. José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres Ayres JRCM. Sujeito, intersubjetividade e práticas de saúde. Cien Saude Colet. 2001;6(1):63-72.

6. Hans-Georg Gadamer Gadamer HG. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 5a ed. Petrópolis: Vozes; 1997.

7. Alfred Schutz Schutz A. El problema de la realidad social. Buenos Aires: Amorrortu; 2008.

8. Anne-Marie Mol Mol A. The logic of care: health and the problem of patient choice. London: Routledge; 2008.

9. Octavio Bonet Bonet O. Saber e sentir: uma etnografia da aprendizagem da biomedicina. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2004.





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Como

Citar

Maroun, PS. Experiência médica como expertise social: limites da racionalidade biomédica e implicações para o cuidado em saúde. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 13/07/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/experiencia-medica-como-expertise-social-limites-da-racionalidade-biomedica-e-implicacoes-para-o-cuidado-em-saude/20073?id=20073&id=20073

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