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Artigos

0086/2026 - Genealogia de uma depressão pandêmica: dos gatos pretos ao narcisismo de massa
Genealogy of a Pandemic Depression: From Black Cats to Mass Narcissism

Autor:

• Paulo Vasconcellos-Silva - Vasconcellos-Silva, P - <bioeticaunirio@yahoo.com.br; p.vasconcellos@unirio.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4646-3580

Coautor(es):

• Luis David Castiel - Castiel, LD - <luis.castiel@ensp.fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9528-8075



Resumo:

As mídias digitais de exibição foram alçadas à condição de presença ubíqua na existência de bilhões de indivíduos ao redor do globo.
Em paralelo, diversos estudos apontam para emergência de uma pandemia depressiva (antecessora da COVID-19) como envoltório de instabilidades psicopatológicas entre adultos e adolescentes.
A presente revisão destaca vínculos entre condicionantes psíquicos explorados pelas mídias de exibição na perspectiva de elementos culturais cada vez mais presentes na sociedade contemporânea.
Busca-se ressaltar um itinerário genealógico que parte da constituição psíquica dos sujeitos, implicando mediações tecnológicas incidentes sobre o processo de formação das subjetividades.
As mídias de exibição, como dispositivos de exposição acrítica, disseminam moldes para personas que, na dimensão coletiva, constituem-se no narcisismo de massa.
Tal conceito é aqui caracterizado por traços culturais distintivos: indiferença por questões alheias; exigência por gratificação imediata; intolerância ao tédio; incapacidade de sublimar desejos; descrença no futuro; desconexão com o passado; e indiferença política.
Falhas nos processos de sustentação dos Egos narcísicos, estremecem estruturas psíquicas pela sensação de vazio e inconsistência a ameaçar a noção de identidade e valor.
Sob tais circunstâncias, indivíduos cedem à “apatia desenvolta” de um social pulverizado, glorificando a economia da inveja sob o império do Ego puro.
Conclui-se que o narcisismo de massa apoia-se e dá substância às mídias digitais de controle insidioso e autogerado, que socializam dessocializando ao possibilitar e enaltecer interações sem relacionalidade.

Palavras-chave:

Comunicação e Saúde, Internet e saúde, Mídias sociais, Narcisismo de massa, Transtorno Depressivo.

Abstract:

Digital display media have been reached the status of a ubiquitous presence in the existence of billions of individuals around the globe. In parallel, several studies point to the emergence of a depressive pandemic (predecessor to COVID-19) as a layer of psychopathological instability among adults and adolescents. The present review highlights links between psychic conditions explored by exhibition media from the perspective of cultural elements increasingly present in contemporary society. The aim is to highlight a genealogy that starts from the psychic constitution of individuals, implying technological mediations incident to the process of formation of subjectivities. Uncritical exposure devices, disseminate templates for personas that, in the collective dimension, constitute mass narcissism. The concept is described here by distinctive cultural traits: indifference to other people's issues; demand for immediate gratification; boredom intolerance; inability to sublimate desires; disbelief in the future; disconnection with the past; and political indifference. Failures in the support processes of narcissistic Egos, shake psychic structures due to the feeling of emptiness and inconsistency, threatening the notion of identity and value. Under such circumstances, individuals give in to the “wild apathy” of a pulverized society, glorifying the economy of envy under the rule of the pure Ego. We concluded that mass narcissism supports and gives substance to digital media of insidious and self-generated control, which socialize by desocializing by enabling and praising interactions without relationality.

Keywords:

Health Communication, Internet and health, digital social networks, media and health, mass narcissism, depression.

Conteúdo:

Introdução
A sociedade do espetáculo parece não mais se contentar com a reprodução ou simbolização do que exibe, oculta ou distorce para preservação do sistema econômico-político hegemônico. As mediações tecnológicas digitais assumiram papel destacado no mundo atual a partir do momento em que se apossaram do comércio do gozo do olhar, da exposição pública de imagens de desejo (para fazer consumir) e aversão (para agregar pares em redes de ódio). Nesse ambiente de "narcisismo de massa", Egos isolados entre si exibem-se, excessivamente ocupados com likes e compartilhamentos. A busca incessante pela atenção / olhar do Outro movimenta as polias e engrenagens do consumo do reconhecimento social, embora não raro por caminhos peculiares.
The Moggery, associação inglesa para animais abandonados, descreve a curiosa rejeição coletiva por gatos pretos. Segundo Christine Bayka, gestora da entidade, “eu pergunto às pessoas se são flexíveis em relação à cor e elas respondem que sim, desde que o gato não seja preto”. Nos orfanatos dos pets, a maioria dos felinos que não conseguiram adoção são pretos e esperam donos há anos (1). A má reputação dos tempos da Peste, crenças sobre má sorte, associação com pestilências e bruxaria foram agora substituídas por outros folclores (2) e a hipótese sobre tais preconceitos liga-se ao presente tema “...os felinos pretos são mais difíceis de distinguir... os bichanos escuros não fotografam bem” (1) (2).
Em 2016 no Líbano, um grupo feriu gravemente uma tartaruga (espécie em extinção iminente) ao tentar captar imagens que multiplicariam as visualizações de seus perfis nas mídias de exibição. Na Bulgária, uma mulher arrasta pelas asas um cisne das águas do Lago Ohrid para conseguir um enquadramento perfeito – o animal não sobreviveu. Em 2021 o turismo predatório faz novas vítimas: homens capturaram tartarugas marinhas do litoral Baiano para produzir “selfies”; na Argentina um filhote de golfinho foi morto quando turistas o tiraram da água para conseguir os melhores registros. Humanos incautos também são vítimas de imprevistos fatais por vaidade irrefletida. Uma cascavel picou um homem em San Diego, quando este tentava conseguir uma selfie inconsequente. O desmedido esforço para obter imagens que frutifiquem em muitos likes para os perfis – mesmo às custas do sofrimento de animais ou da própria vida - é uma peculiaridade reveladora dos limites da vaidade humana mas, certamente, não é a única.
Nos parece que na era do narcisismo de massa, assim como os gatos pretos do Instagram e as tartarugas libanesas, a democracia representativa, a imunização contra doenças e a saúde mental de adultos e adolescentes também correm riscos.
Novas tecnologias acrescentaram volumes monumentais de informação com velocidade/imediatismo/multiplicidade/anonimato ao acervo cognitivo da humanidade. Por outro lado, observa-se a proliferação aparentemente irrefreável de inauditos fenômenos, como o populismo digital e as teorias conspiratórias provendo suporte argumentativo para movimentos anti-vax e para o negacionismo científico. A presente revisão narrativa assume seu fulcro em perspectivas psicanalíticas - como a ideia de pulsão escópica e a construção de personas sob a influência dos dispositivos digitais para o gozo da exposição / olhar. Desenvolvemos tais conceitos no percurso das tecnologias impelidas por volumosos dividendos que deixam sequelas preocupantes nas dinâmicas psíquicas - como nunca condicionadas por olhares e pelo imperativo da “distinção”. No enquadramento da presente discussão, ressalta-se o papel de algoritmos desenvolvidos para eleição personalizada de conteúdo, que ora alcançam a capacidade de incitar ciclos de exibição-distinção-inveja. A presente síntese interpretativa oferece insights diferenciados sobre as mútuas mediações sociotécnicas e o plausível nexo causal entre tais ciclos, o conceito de Lipovetsky de “senso de vazio” e a observada “depressão epidêmica” no contexto do narcisismo de massa.
Pulsão escópica, personas e formação das identidades coletivas
Freud formulou o conceito de “pulsão escópica” para descrever o instinto ou impulso relacionado à visão e ao olhar, como parte de um conceito mais amplo ligado às energias psíquicas subjacentes que influenciam e impulsionam o comportamento humano (3). Sob a perspectiva freudiana, a pulsão escópica, como atributo inerente ao sujeito, associa-se ao prazer derivado da atividade visual - seja na observação de objetos, cenas, pessoas ou peças ficcionais. Desde o nascimento, os seres humanos exibem uma disposição para busca do prazer visual e tal pulsão desempenha um papel estruturante no desenvolvimento psicossexual. Não unicamente voltado ao gozo sexual, a pulsão escópica direciona-se a outros objetos como a curiosidade visual, a apreciação estética e o voyeurismo / exibicionismo dos reality shows (3) (4). Não mais como mero recurso à disseminação de informações – como cogitado na pré-história da Internet 1.0 – desenvolveram-se novos “dispositivos para o gozo do olhar” com fins de exploração da pulsão escópica. O capitalismo da atenção percebeu a oportunidade para lucrar com o olhar que institui, valida, ordena e estabiliza o modelo socioeconomicamente dominante. Como mercadoria imaterial, a pulsão escópica na sociedade do espetáculo é explorada econômica e politicamente por minorias (5), concentrando potência suficiente para instabilizar democracias e contribuir para o ressurgimento de doenças infecciosas quase extintas.
À luz da Psicologia Analítica, o Ego é o locus dinâmico da consciência - complexo centro de energia e agente individualizante com o qual todos os conteúdos conscientes se relacionam. Movimenta os conteúdos da consciência e os ordena na prioridade do fulcro existencial, assim como o do social que lhe dá sentido e suporte. Carl Jung acrescentou novas dimensões à construção freudiana ao destacar a dimensão social no desenvolvimento do Eu, ligando-a às máscaras que identificavam os papéis de atores em encenações do teatro grego. Usou o termo “persona” para caracterizar uma dimensão do Ego que se ocupa da adaptação social pela produção das máscaras que construímos para o convívio com o próximo. O conceito remete à “máscara” ou papel social assumido por alguém, não raro em conformidade ou conveniência com expectativas da sociedade ou de determinados grupos sociais.
Persona é uma construção do Eu para o mundo - uma imagem projetada para a sociedade que pode, em muito, diferir da identidade do Eu que a produz. Constitui-se no “Eu para o externo”, conformado por normas, valores e expectativas da sociedade em que se insere. Ao interagir nas redes digitais, indivíduos podem adaptar sua persona segundo determinado contexto social, assumindo papéis e comportamentos para se encaixar ou se destacar em determinados ambientes. Essa construção do Eu social envolve uma negociação incessante entre a expressão autêntica do self e as demandas sociais - que também podem obscurecer ou distorcer a verdadeira identidade do sujeito. Na qualidade de máscara diz respeito, sobretudo, ao que uma pessoa acredita ser socialmente esperado de si e como ela acredita que deva parecer ser, como “compromisso tácito negociado entre indivíduo e sociedade” (6) (p.142). Autoimagens e suas representações públicas se decompõem e reconstroem no delineamento das personas, na interação com círculos sociais próximos. Portanto, no exercício diário de anunciar aos outros como gostaríamos de ser vistos, envolveria não somente a escolha de trajes, penteados e maquiagem como influenciaria, também, o nível sub-consciente das relações sociais. Pelo seu uso ostensivo, não raro pressionado pelas urgências interiores de um Eu esvaziado de referências estruturantes, poderia fazer crer que é unicamente a máscara que veste, produzindo relações de dependência desta com seu senso de identidade e realidade.
Jung ressalta o caráter contratual entre indivíduo e sociedade exercido pela persona - uma representação cotidianamente negociada advinda em grande parte do coletivo - mais do que da interioridade (7) (8). Assim como fardas explicitam adesão (mais ou menos genuína ou irrestrita) a determinada ordem disciplinar, personas lidam com a exposição de uma imagem do Eu com base em contratos da vida social e comunitária. Graus de dependência mais acentuados poderiam legitimar sentimentos de mérito ou valor pessoal que, supostamente, reforçariam afinidades ao grupo ao qual se pertence (ou se quer pertencer) (9). Torna-se assim imprescindível à sobrevivência em sociedade e à conexão do grupo, assim como à construção de uma autopercepção e de um conceito de si que habilita à convivência social amistosa com os que tentamos nos aproximar.
Em outros termos, a sobrevida social pela imagem pode contribuir ou até determinar a composição do ordenamento psíquico dos indivíduos. Na grande encenação da vida, tais máscaras lidarão também com o que o Eu eventualmente se transformará - em consonância com as demandas deste por acolhimento e aprovação. Na adolescência, em caráter dinâmico e estruturante, liga exterioridades à construção do que nos é mais interior no processo reflexivo da individuação. No percurso de amadurecimento desta, o Eu busca significados essenciais à existência e compreensão de motivações internas, sobretudo em suas externalizações. A partir daí, desenvolve uma consciência ampliada de sua identidade única, que se elabora e complexifica em processo contínuo na vida. Sua autorrealização poderia, portanto, ser influenciada por relações interpessoais e confrontos com desafios existenciais - assim como por reações sociais positivas ou negativas, likes ou cancelamentos em relação à exposição da imagem ambicionada pelo Eu (10).
Instagram e Dispositivos para o gozo da exposição/olhar
A alvorada das mídias digitais de exibição tem seu início em 2006 - o Facebook © acrescentou o feed de notícias à sua primeira página. Assim seria possível saber o que foi recentemente postado pelos seguidores. Naquele ano, apenas 11% dos estadunidenses tinham perfis em redes sociais - oito anos mais tarde, este percentual chegou a 66%. Uma fronteira foi ultrapassada na História da socialização do Homo Sapiens no planeta – a partir daí o tempo gasto nas plataformas digitais (média de 40 minutos/dia) superou o tempo gasto com a socialização pessoal (38 minutos) (11).
Poucos anos após a criação desse dispositivo para satisfação do desejo de exibição em conjugação com o gozo escópico, identificou-se uma forte associação entre o tempo gasto nas mídias e fenômenos depressivos (12) (13) (14) (15) (16) (17). Twenge analisou evidências de pesquisas que, somadas, envolviam mais de um milhão de jovens e suas medidas de bem-estar psicológico com base em indicadores como satisfação de vida e autoestima (12). Concluíram que os adolescentes que gastavam mais tempo em smartphones tinham maiores probabilidades de experimentar problemas de saúde mental. No que concerne à diferença entre gêneros, uma pesquisa britânica com adolescentes revelou que 7 a 8% dos meninos exibiam sintomas depressivos clinicamente significativos ou se envolviam em automutilação - entre as meninas esse percentual subia para 20%. Os tempos de tela dos meninos eram maiores, embora grande parte deste tivesse sido investido em games online (18).
A presente revisão chama à reflexão sobre as relações lógicas entre causas materiais, efeitos e condicionantes psíquicos das mídias de exibição na perspectiva de elementos culturais que se fazem presentes na sociedade contemporânea. Busca-se identificar um itinerário genealógico que parta da constituição psíquica dos sujeitos, implicando mediações tecnológicas e culturais incidentes sobre o processo de formação (ou deformação) das subjetividades em nosso tempo. No contexto da sociedade do espetáculo, na perspectiva de Guy Debord (5), como se inscreveria a pulsão escópica dos sujeitos? Haveria conexões por examinar entre a “sociedade do vazio”, o Narcisismo de massa e a “apatia desenvolta” (19) que assola os sistemas democráticos representativos? Seria difícil discordar que reflexões profundas sobre a eticidade da exposição pública ao cruel, trágico e difamatório tornaram-se uma exceção nas regras do “curta e compartilhe” das redes sociais digitais. Sendo assim, haveria injunções psico-socioculturais a considerar perante a influência destes dispositivos sobre instituições, práticas culturais e a produção de subjetividades em depressão?
Influenciadores operam na validação de crenças, valores, versões e narrativas pessoais, estabelecendo-se como protagonistas no enaltecimento de atributos pessoais e produtos de consumo, como ícones de status para preservação ou ampliação da autoestima e valorização de si. Assim demarcam tendências culturais e sociais para o consumo, promovendo estilos de vida, produtos e valores através de conteúdo patrocinado. Semi-celebridades instantâneas expõem-se à comparação, no exibicionismo de vidas idealizadamente perfeitas e bem-sucedidas – o que também tende a esgotar energia psíquica de muitos seguidores, pelo incentivo a sentimentos de inadequação ou inveja. Colocam-se como influencers dos moldes para conformação de identidades – oferecendo ou estipulando padrões para ciclos de exibição-distinção-inveja. O contrato entre indivíduo e sociedade aí encontraria condições privilegiadas para construção de modelos por meio do ordenamento por likes - úteis à prospecção e manutenção de legiões de seguidores. Instaura-se um ciclo vicioso no qual a ansiedade em não perder eventos ou novidades do momento, assim destacados pelos influenciadores, traduz-se em comportamento compulsivo, não raro com sobrecargas à saúde mental (20). Tal ansiedade se intensifica como um desdobramento inexorável, manifesto em comportamento de procrastinação com sentimentos associados à percepção de culpa por improdutividade. Em síntese, a noção de mídias de exibição como dispositivos para o gozo do olhar, como produtoras de moldes para personas pode retratar, em parte, um cenário plausível, embora ainda incompleto. Importante ressaltar que tal interpretação pode ser apenas uma das facetas de um cenário mais amplo e complexo a envolver dinâmicas psíquicas e sociais que exigem olhares e percepções de diversos campos.
Pandemia depressiva – precipícios do vazio
Os malefícios à saúde mental trazidos por estímulos de afetos negativos nas redes digitais, sobretudo a inveja e a soberba, recentemente tem sido objeto de diligentes pesquisas e acalorados debates nos âmbitos da Psicologia, Sociologia, Neurociência e Comunicação (21) (22) (23) (24) (25) (26). Embora diversos estudos tenham se concentrado em comparações ao nível das aquisições materiais ao investigar o ressentimento invejoso, há autores seguros de que a inveja é antes uma emoção subjetiva contingente, consistentemente relacionada ao status social sob determinadas circunstâncias culturais específicas. Há evidências consistentes de que as imagens dos que conquistaram sua distinção por “merecimento” separam o que se definiu como “inveja benigna” e seu oposto, “inveja maliciosa”. O estudo dos geradores neuropsíquicos da inveja, acrescentam que a vantagem não apenas material, mas social do “outro superior” causa a inveja mais dolorosa (27).
Julga-se que as plataformas de exibição, por meio de algoritmos desenvolvidos para eleição personalizada de conteúdo, alcançaram o poder de incitar sentimentos invejosos de diversas formas, sobretudo entre adolescentes (28) (29). A comparação social nessas redes conduz usuários contumazes a contrastarem suas experiências, realizações e aparências com aquelas de pares especialmente selecionados e persistentemente expostos. De tal forma, tendem a gerar sentimentos de cobiça na perspectiva do Outro que desfruta de signos de destacada distinção (celebridades, posição social mais próspera, aparência física) (30). A exibição reiterada de personas pelos mercadores de moldes sociais pode conquistar, sobretudo, as personalidades em fase de consolidação de referências. Nos ambientes digitais, há indivíduos que usualmente oferecem versões idealizadas de suas vidas ao exibir unicamente ícones de distinção, ocultando suas mazelas e distorcendo seus reveses. Algoritmos ressaltam conquistas, viagens, eventos sociais entre outras demonstrações de status que produzem deformidades na percepção do senso de realidade - fazem crer que se está em desvantagem na comparação com os demais. A luta pela validação e reconhecimento social impele indivíduos a compararem seus êxitos e fracassos com os de seus pares, o que tende a suscitar inveja e ressentimentos pela percepção de partilha injusta de reconhecimento, admiração e elogios (31) (25)
De forma antagônica à inveja, o que pode ser útil à lógica que se pretende aqui desenvolver, sabe-se que os impactos negativos das redes sociais à saúde mental foram significativamente atenuados por atitudes pessoais norteadas pela empatia e compaixão, o que indica que tais atributos podem servir como traços “protetores”. Em outros termos, o olhar que se identifica com o outro, mesmo invejoso, pode se prestar ao papel de amortecedor de efeitos deletérios trazidos pela inveja (32) (33). O que foi designado como “dispositional gratitude” (gratidão disposicional) serviu como amortecedor no uso do Instagram©, mitigando significativamente a relação de comparação social e a inveja maliciosa (33).
Pouco mais de uma década após a criação do Instagram, o Wall Street Journal publicou uma matéria assegurando que os gestores da plataforma possuíam fartas evidências que implicavam seu uso na deterioração da saúde mental de adultos jovens e adolescentes (34). Com origem em diversos países, há quase uma década são publicados relatos e evidências robustas ligando fenômenos distímicos e declínio da saúde mental / percepção de autoimagem a implicar mídias sociais de exibição (sobretudo entre mulheres jovens), tanto em periódicos científicos (35) (36) (37) (38) como nas mídias leigas (39) (40) Diversos estudos apontam para emergência de uma epidemia depressiva global como envoltório de instabilidades psicopatológicas em adolescentes e, sobretudo, em configurações de personalidade próximas à área (41) (42). Há comentaristas que chegaram a associar o uso ostensivo das mídias sociais ao álcool e ao tabaco, com patamares de riscos e decorrências equivalentes (43) (44).
A ideia de “pandemia depressiva” liga-se estreitamente à percepção de alguns autores sobre uma peculiar transformação na clínica psiquiátrica. No início do anos 80, Alexander (45) descreveu tais transformações na forma de um peculiar esvaziamento dos sentimentos de culpa, neuroses e conflitos típicos - em contraste com a crescente dominância de manifestações depressivas. Descreveu indivíduos sem sentimentos efusivos, vítimas de uma avassaladora percepção de vazio existencial, profundamente descontentes e frustrados. Monti ressalta que a tônica das narrativas atualmente concentra-se em queixas que orbitam ao redor de “vaga sensação de vazio, de ausência de significado, de dificuldade para definir a si próprios e em gostar de si mesmos e um sentimento de inveja em relação às outras pessoas, que se presume desfrutem disso tudo”. (46) Interessante notar que tais descrições destoam muito das definições clássicas da constelação depressiva, importando defini-la como sintoma, síndrome ou doença. Assim, enquanto sintoma, a depressão pode derivar de variadas situações clínicas (transtorno de estresse pós-traumático, demência, esquizofrenia, alcoolismo ou doenças clínicas) ou como decorrência de situações estressantes ou circunstâncias sociais adversas. Como síndrome, incluiria não unicamente alterações do humor (tristeza, irritabilidade, incapacidade de sentir prazer, apatia) como também um amplo espectro de outras manifestações, incluindo alterações cognitivas, psicomotoras e vegetativas (ligadas ao sono, ou apetite). Na qualidade de doença, recebe nomeações variadas como transtorno depressivo maior, melancolia, distimia, depressão integrante do transtorno bipolar tipos I e II ou depressão alternada com ciclotimia (47).
Sob ponto de vista psicanalítico, é relevante adicionar que manifestações depressivas orbitam classicamente ao redor de um determinado perfil. A depressão se inscreve persistentemente na organização psíquica da personalidade narcisista, constantemente sob a ameaça do “precipício do vazio” (48) (49) Desenvolve-se uma autoestima frágil, dependente de admiração coletiva e opiniões favoráveis (sensação de insuficiência / desilusão / vergonha). A personalidade narcísica dependeria do olhar/admirar do outro para conservação de sua imagem de autoimportância - a aceitação alheia governaria seus rumos e decisões cotidianas. Assim como nos relatos de Alexander acerca das mutações na clínica, a tônica da psicopatologia narcísica no desenvolvimento de estados depressivos radica-se em penoso senso de inconsistência e na percepção do abismo do vácuo interior. Constantemente ameaçado pela desintegração e pelo sentimento de vazio, torna-se essencial um esforço ininterrupto de reequilíbrio por meio do olhar admirado de outros, direcionado à sua grandiosidade desarmônica. Torna-se prisioneiro de sua própria cilada - faz crescer suas incertezas e interrogações acerca dos olhares na medida em que mais se exibe como objeto central de atenção e apreciação.
A aversão à proximidade emocional é tão intensa quanto o apelo ao espelho vazio do Ego - nunca suficiente ao exercício desse questionar inseguro, sem respostas para construção de uma autoimagem satisfatória e estável.
Angústias precoces produzidas por ambientes familiares abusivos ou desestruturados, provoca fraturas na construção das referências para vida, originando um Eu precariamente constituído que se refugia no narcisismo grandioso. Tais fraturas prejudicam a constituição da teia de elementos simbólicos que integram o autoconhecimento, que ajudam a lidar com a rede de significantes que constituem o desejo. Esse Eu grandioso, de estruturação incompleta, ao qual faltaram referências edificantes, solicita da vida urgência na satisfação das suas necessidades, em conjunção com intensa intolerância à frustração perante às interdições. O Narciso torna-se uma estrutura aberta e indeterminada em sua superficialidade emocional, perseguido pela hipocondria, pelo horror à corrosão da idade e pela ideia da morte. A indiferença por questões alheias aos seus interesses pessoais, a exigência por gratificação imediata e a incapacidade de sublimar seus desejos rasos, incita-o às buscas compulsivas (incluindo a promiscuidade sexual). Vítima de um tédio intolerável, descrença no futuro, desconexão com o passado e indiferença política, encontra apenas um paliativo de segurança ao associar-se a líderes carismáticos que irradiam glória e poder (50) uma vez que, para o narcisista, o “mundo é um espelho” (51). Torna-se, assim, dependente da hipercompensação por meio de mecanismos de preservação da autoestima, que estabilizam seu equilíbrio precário à iminência do despenhadeiro. Quando falham os processos de sustentação do grandioso self narcísico, sua estrutura psíquica estremece e o precipício do vazio se avizinha na forma da sensação de inconsistência a ameaçar sua identidade e valor. O processo depressivo pode progredir, embora de forma diversa de seu protótipo originalmente descrito – a clássica dinâmica de agressividade e culpabilização não surge, justamente por conta de uma autopercepção condescendente, que não cogita o vazio de si e que nega acesso à ideia de autoria do próprio sofrimento.
Narcisismo de massa, líderes carismáticos e selfies
A psicopatologia do “fenômeno populista” tem sido objeto de estudo de muitos pesquisadores sociais nos últimos tempos. Seus líderes são frequentemente descritos como provocadores a sabotar o jogo político, mas também como líderes carismáticos capazes de persuadir e motivar. Com o propósito de tipificar um “estilo” ou “personalidade” populista, Nai e Coma (50) estudaram um banco de dados construído com base em avaliações de especialistas sobre 152 candidatos (incluindo 33 populistas) que competiram em 73 eleições em todo o mundo. Segundo os autores, estes últimos demonstravam baixa estabilidade emocional e “conscienciosidade”, assim como índices altos de “agradabilidade”, extroversão, narcisismo, psicopatia e maquiavelismo - peculiares não somente às personalidades psicopáticas, como também às narcísicas perversas. Considerando os achados, identificaram grande proximidade dos perfis de populistas com os três traços distintivos do lado “obscuro” das estruturas psíquicas: narcisismo (comportamentos de reforço do ego, tendência a buscar atenção e admiração), psicopatia (falta de afeto, falta de remorso, insensibilidade) e o maquiavelismo (tendência a usar manipulação e comportamentos estratégicos) (52) (53). Embora qualificáveis como “malévolos” ou “socialmente corrosivos”, ainda estão situados dentro de um espectro considerado como “funcional” - na medida em que não apresentam manifestações clínicas problemáticas que inviabilizem suas carreiras políticas.
Interessante notar que, nas histórias de vida dos populistas carismáticos, não são incomuns experiências ligadas a brutalidade ou abuso na infância. De forma análoga, no enfrentamento de desafios políticos, as reações de violência e destrutividade também se inscrevem com frequência na biografia política destes líderes. No “Coração do Homem” e na “Anatomia da destrutividade humana”, Erick Fromm associa os efeitos deletérios do abandono parental e das agressões na infância a reproduzir-se em personalidades psicopáticas capazes de feitos bárbaros (54) (55).
Narcisos nas mídias
Algumas teorias ressaltam vinculações diretas e lineares entre o coletivo de personalidades narcísicas e o “narcisismo de massa”, relacionando a preocupação excessiva com o Eu como centro da dinâmica psicossocial implicada nos diversos malefícios políticos, sanitários e adjacentes. Talvez o conjunto não se faça pela soma de suas partes. Decerto não há relutância em reconhecer que personas narcísicas contam com um espaço de destaque crescente nas mídias (56). Investem, de fato, com afinco persistente no registro de circunstâncias de distinção social usando os melhores filtros fotográficos. Uma vez que julgam alcançar seus objetivos, produzem novas exigências pela constatação do sucesso alheio. A comparação com outros Narcisos e a inveja consequente, conduzem a novos comprometimentos que ainda não o convencem da impossibilidade da perfeição, da ausência de doenças, da decomposição do envelhecimento, da morte e de outros tantos problemas comuns aos seres humanos mortais. Se a vida não lhe retribui com fama e apreciação universal ou não posiciona seu Ego no Olimpo da distinção, percebe-se de tal forma à beira do abismo do Eu vazio. Fenômenos culturais associados ao Narcisismo de massa também implicam uma autopercepção de irrelevância, impelindo à busca incessante por atenção e admiração do Outro - o que movimenta as engrenagens do consumismo de exibição rumo à aquisição de bens materiais, status e reconhecimento social. Além de uma preocupante insuficiência de empatia, também há esforços para exibição de versões idealizadas de si, na publicação irrefletida de informações pessoais (pormenorizadas demais, por vezes) no caminho da busca incessante por "likes", número de visualizações e "compartilhamentos". Manifesta-se indiretamente, também, no culto às celebridades e na idealização acrítica de líderes carismáticos que propõem mudanças drásticas na direção de um passado de glória (nem sempre comprometidos com a construção do bem comum). Em casos dramáticos - de consequências políticas, sanitárias e educacionais drásticas – tais líderes podem excitar a vaidade coletiva para angariar admiração e identificação ao promover imagens grandiosas de si, úteis à exploração política.
Além da percepção distorcida da autoimagem, da busca pelo olhar do Outro e pelo recurso às versões idealizadas de si que culminam na publicação irrefletida de informações pessoais, é relevante mencionar a emergência de um novo artefato técnico-cultural essencial ao zeitgeist narcísico. Como recurso fotográfico, as selfies são produtos nascidos na web 2.0 – como suporte tecnológico comunicativo essencial ao narcisismo de massa. Nas origens de sua versão original distributiva, na propensão do “muito para muitos”, a Internet 1.0 era basicamente instrumental prestando-se à utilidade da distribuição de imagens como recurso cognitivo – usualmente acessório aos textos. Para tanto, operava à base de softwares proprietários que habitavam as máquinas individuais para as quais haviam sido licenciados. À época era incogitável a sofisticação de softwares, algoritmos e funcionalidades técnicas interligadas na composição das plataformas de interação entre usuários.
A horizontalidade das trocas informativas na Web 1.0 era (e ainda é) aberta e simétrica, até que a inovação da banda larga descortinou potencialidades aparentemente inexauríveis. A Web 2.0 engendrou coletivos on-line por meio de sistemas que impulsionavam compartilhamentos e trocas regidos pelo pressuposto da colaboração - constituinte elementar das redes sociais digitais. Atributos antes meramente instrumentais, agora apontavam para potencialidades relacionais ilimitadas - até mesmo com repercussões políticas emancipatórias mais otimistas no cenário de uma cyberdemocracia (57). Da mesma forma que a câmera box e o “you press the button and we do the rest” da Kodac conclamaram as massas à fotografia, um conjunto de dispositivos digitais de operação intuitiva convidaram à coletivização de suas percepções, encantos, medos e aversões nas redes sociais digitais. No entanto, tal forma de consumo sofisticou-se em novos formatos impulsionados pelo narcisismo de massa a pressionar insistentemente o desejo pelo autoaperfeiçoamento, autogratificação e performance da “sociedade da transparência” (58) onde novos imperativos morais pressionam pela participação ativa nas redes digitais de exibição. O narcisismo de massa apoia-se nessas tecnologias de controle suave e autogerado, que socializa dessocializando ao possibilitar e enaltecer interações sem relacionalidade. Submetem indivíduos à “apatia desenvolta” de um social pulverizado, que glorifica a política da destruição sob o império do Ego puro.
Conclusão
No ambiente social digital a aceleração, os excessos e o anonimato produzem destroços e vítimas de variadas formas: tédio inaceitável e inaptidão para o olhar contemplativo; ascensão e queda do populismo digital e das celebridades instantâneas; desencanto da pós-verdade com o saber tradicional; conexões pífias com o passado convergente com descrença no porvir; dessensibilização política e ocaso da democracia representativa; o bálsamo sedutor servido por líderes carismáticos que exalam glória, poder e ódio. A julgar por sua rápida expansão e tremendo alcance, as mídias sociais – em particular os dispositivos de exibição - foram alçadas à condição de presença ubíqua na existência de bilhões de indivíduos ao redor do globo. Constituem-se como veículos de exibição acrítica de expansão irrefreável e consequências não unicamente limitadas à adoção de gatos pretos e ao turismo inconsequente.
Na ausência de perspectivas críticas e sob o regime do “exiba-se” e “veja” e das visualidades, a inveja, a vaidade, a ostentação e a cobiça alcançam espaços de regência e controle sobre o espetáculo das imagens no palco contemporâneo. Na qualidade de veículos de comunicação de massa, parecem protagonizar uma inaudita onda de fenômenos depressivos em franca expansão em escala e gravidade. Não obstante às funcionalidades úteis ao conhecimento e ao entretenimento, tais dispositivos de exibição também revelam uma faceta sombria, como potencializadores de efeitos deletérios - sensação de vazio, ansiedade e depressão, sobretudo entre usuários com traços de personalidade narcisista. Estes, em busca da gratificação imediata da aprovação e do reconhecimento público, encontram apenas seus espelhos do vazio a indicar a iminência de um abismo.
A presente síntese interpretativa busca oferecer novos enquadramentos e teorizações sobre o preocupante fenômeno que acomete a saúde psíquica coletiva. Tais argumentos ressaltam as influências deletérias das mediações sociotécnicas por algoritmos e o plausível nexo causal entre os ciclos de exibição-distinção-inveja, o senso de vazio do narcisismo de massa e a depressão epidêmica resultante. Funcionalidades de exibição guiadas por algoritmos implicam sérias decorrências sobre os mecanismos de constituição psíquica, sobretudo em dinâmicas inconscientes que operam sobre a conformação de nossas personas. A mercantilização de tais dinâmicas pelas tecnologias do “tornar-se visível” criou condições para a ética do “exiba-se” que ignora a alteridade, hiperdimensiona o consumo para o bem-estar individual como sentido de vida e contribui para reificação das relações sociais nas quais vigora a lógica da vaidade, da inveja e da soberba. O panóptico digital coletivo granjeia sujeitos aparentemente felizes e de alta performance - cidadãos transparentes que dispensam supervisão por supervisionarem-se mutuamente, posto que o adestramento social não se dá apenas pelo imperativo disciplinar, mas também pela autossedução. Orientam-se unicamente pelo Norte dos interesses pessoais, da incapacidade de sublimar desejos fúteis e da indiferença por questões alheias. Observam-se, comparam-se, apreciam-se e regulam-se como vigias e encarcerados, simultaneamente.
Em um contexto de esvaziamento de subjetividades, o dar-se ao olhar do Outro é estruturante - personas validam-se e orientam-se na direção de metas evanescentes. Sob a regência do gozo escópico, o Narciso Coletivo busca incessantemente em seu espelho vazio uma apreciação coletiva de sua imagem - operação que pode esgota-lo psiquicamente. A busca interminável pelo preenchimento de suas vacuidades pelo olhar do Outro nas telas anônimas, solicitam novas e repetidas autenticações. Surgem, assim, relações de dependência – a penúria de sinais de validação a exigir novas e reiteradas autenticações das telas em um processo de Exibição / Visualização interminável. Há obstinação em tornar-se alguém para o Outro por meio de infinitos espelhos, como artefatos para uma construção eternamente inacabada. O reflexo no lago dos novos Narcisos se mostra nas imagens que aprisionam, enternecem, fascinam e reafirmam, embora não lhe assegurem uma existência psiquicamente sadia.
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Vasconcellos-Silva, P, Castiel, LD. Genealogia de uma depressão pandêmica: dos gatos pretos ao narcisismo de massa. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/abr). [Citado em 14/04/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/genealogia-de-uma-depressao-pandemica-dos-gatos-pretos-ao-narcisismo-de-massa/19984?id=19984

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