0249/2026 - Produção do conhecimento em Política, Planejamento e Gestão em Saúde: tendências, desafios e agenda de pesquisa
Production of knowledge on Health Policy, Planning, and Management: trends, challenges, and research agenda
Autor:
• Monique Azevedo Esperidião - Esperidião, MA - <moniqueesper@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1827-3595
Coautor(es):
• Adelyne Maria Mendes Pereira - Pereira, AMM - <adelyne.mendes@fiocruz.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2497-9861
• Léo Heller - Heller, L - <leo.heller@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0175-0180
• Sydia Rosana de Araújo Oliveira - Oliveira, SRA - <sydia.oliveira@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6349-2917
• José Patrício Bispo Júnior - Bispo Júnior, JP - <patriciobispo@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4155-9612
• Aylene Emilia Moraes Bousquat - Bousquat, AEM - <aylenebousquat@usp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2701-1570
Resumo:
A produção científica em Política, Planejamento e Gestão em Saúde (PPGS), no âmbito da Saúde Coletiva, é marcada pela articulação entre a investigação, a intervenção e a práxis política, bem como pela diversidade temática e pluralidade epistemológica. Tendo em vista dialogar com a construção do I Plano Diretor para a área, o presente trabalho objetiva discutir características e tendências da produção científica em PPGS, identificando desafios epistemológicos, teóricos e metodológicos, a luz do Plano. Foram analisadas as teses de doutorado defendidas entre 2021 e 2024, consideradas como proxy da produção da área. O estudo revelou dois grandes clusters temáticos, organizados em torno do descritor central Sistema Único de Saúde, por um lado, e em torno de três temas de grande expressão: atenção primária à saúde, política de saúde e avaliação em saúde, por outro. Discute-se a relevância da tradução do conhecimento e de políticas de comunicação científica, bem como analisa-se a proposição de uma agenda estratégica de pesquisa comprometida com uma ciência justa, soberana, plural e acessível, que valorize a diversidade de saberes e promova o impacto social.Palavras-chave:
Política de saúde; Planejamento em Saúde; Pesquisa; Métodos; Atividades Científicas e Técnicas.Abstract:
Scientific production in Health Policy, Planning, and Management (PPGS, in Portuguese), within the scope of Collective Health, is marked by the articulation between research, intervention, and political praxis, as well as by thematic diversity and epistemological plurality. In order to contribute to the construction of the First Master Plan for the area, this study aims to discuss the characteristics and trends of scientific production in PPGS, identifying epistemological, theoretical, and methodological challenges in light of the Plan. Doctoral dissertations defended between 2021 and 2024 were analyzed, serving as a proxy for the field's production. The study revealed two major thematic clusters: one organized around the central descriptor Unified Health System (SUS), and the other around three prominent themes: primary healthcare, health policy, and health evaluation. The relevance of knowledge translation and scientific communication policies is discussed, alongside an analysis of the proposal for a strategic research agenda committed to a fair, sovereign, plural, and accessible science that values diverse forms of knowledge and promotes social impact.Keywords:
Health Policy; Health Planning; Research; Methods; Scientific and Technical Activities.Conteúdo:
A produção de pesquisas na área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde (PPGS) no Brasil remonta ao final da década de 1970, desenvolvendo-se em estreita relação com o movimento de redemocratização do país e a construção do Sistema Único de Saúde (SUS)1. Ao longo dos anos, a área consolidou-se como um dos três subcampos da Saúde Coletiva, ao lado da Epidemiologia e Ciências Sociais e Humanas em Saúde2.
Apesar de sua organização científica mais tardia, cujo congresso inaugural ocorreu apenas em 20102, a área demonstra forte dinamismo e expansão, expressos pelo crescimento contínuo de grupos de pesquisa no Diretório do CNPq e pelo expressivo volume de sua produção bibliográfica3, impulsionados pela ampliação de cursos de pós-graduação stricto sensu e pela existência, ainda que isolada, de edital temático voltado ao fomento de redes de pesquisa em políticas de saúde.
A investigação em PPGS possui natureza interdisciplinar e uma variedade de objetos e abordagens teórico-metodológicas4. O elemento organizador dos diferentes enfoques pode ser assumido como a compreensão, a explicação e a intervenção sobre os problemas e desafios dos múltiplos processos políticos, técnicos e administrativos, sobretudo no âmbito do SUS10. A análise da produção acadêmica tem interessado um conjunto de pesquisadores que realizam balanços e reflexões sobre os desafios e as especificidades da prática científica na área1-10.
A formulação do I Plano Diretor da Área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, promovido pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em 2025, constituiu um espaço privilegiado para o exercício da reflexividade acerca de práticas de investigação em PPGS. Esse processo viabilizou o debate qualificado acerca de seus desafios estruturais, a identificação de lacunas de pesquisa e a formulação de proposições direcionadas ao enfrentamento de problemas críticos do subcampo, destacando-se a necessidade de uma agenda estratégica para a pesquisa na área.
O presente trabalho objetiva atualizar a análise das características e tendências da produção científica em PPGS, refletindo sobre seus desafios epistemológicos, teóricos e metodológicos, à luz da formulação do I Plano Diretor para o fortalecimento da pesquisa na área.
Método
Para análise da produção acadêmica na área de PPGS foram examinadas as teses de doutorado defendidas entre 2021 e 2024, consideradas proxy da produção da área. A delimitação do período de análise justifica-se por corresponder ao último quadriênio de avaliação da CAPES, possibilitando mapear e analisar a produção científica mais recente do campo de PPGS. O conjunto de teses foi acessado via o sistema CAPES teses e pela Plataforma Sucupira. No período foram defendidas 1849 teses. Os títulos das teses foram avaliados por duas pesquisadoras com experiência no campo de PPG, sendo selecionados aqueles pertinentes à PPG, se necessário, os resumos foram acessados e as divergências foram resolvidas por consenso.
Após a condução da estratégia de busca, os resultados foram organizados em uma planilha do Excel, contendo dados de autoria, afiliação institucional, link de acesso à tese, ano de publicação, título, resumo e palavras-chave. Os dados foram formatados de acordo com o padrão de importação da Web of Science (WoS). A análise bibliométrica foi realizada por meio do pacote bibliometrix no RStudio, versão 2026.05.1, e a visualização e criação dos gráficos ocorreram pela interface biblioshiny11,12.
Para a análise, foram examinadas a afiliação institucional, verificada pelo número de teses depositadas por universidade, e a estrutura temática, mapeada a partir das palavras-chave das teses. A opção pelas palavras-chave justifica-se pela variabilidade no formato dos resumos e títulos entre as diferentes instituições, o que dificultaria a padronização e a verificação temática por essa via. Foi elaborada uma lista de sinônimos para agrupar palavras-chave equivalentes, construída com base nos descritores do DeCS e na junção de termos semelhantes.
Para a análise de coocorrência de palavras-chave, foi gerada uma rede de co-ocorrência que mapeia a estrutura conceitual de um campo de pesquisa. Nessa rede, os nós representam termos e as arestas conectam termos que aparecem conjuntamente em um mesmo documento, sendo a força das conexões proporcional à frequência de co-ocorrência, permitindo assim, identificar relações temáticas dentro do campo científico analisado13. A normalização foi realizada pelo índice de Jaccard e o agrupamento pelo algoritmo de Leiden. Para melhor visualização dos resultados, a força de repulsão entre os nós foi ajustada para 114.
Complementarmente, foi elaborado um Mapa Temático, visualização bidimensional que classifica os temas de pesquisa segundo dois eixos: centralidade: que mede a importância de um tema em relação ao campo, por meio da força de suas conexões externas, e densidade: que mede a coerência interna do tema, por meio da força das conexões entre seus termos constitutivos. A combinação dessas dimensões gera quatro quadrantes interpretativos: (i) temas motores (superior direito), com alta centralidade e alta densidade, representando temas consolidados e estruturantes do campo; (ii) temas básicos ou transversais (inferior direito), com alta centralidade e baixa densidade, indicando temas amplos ainda em desenvolvimento; (iii) temas de nicho (superior esquerdo), com baixa centralidade e alta densidade, correspondendo a tópicos especializados e periféricos; e (iv) temas emergentes ou em declínio (inferior esquerdo), com baixa centralidade e baixa densidade, sinalizando tópicos ainda incipientes ou em processo de abandono pelo campo15. Foi realizada também a visualização de temas através da nuvem de palavras. A nuvem de palavras foi configurada com base na frequência das palavras-chave.
Tendo em vista dialogar com a elaboração do I Plano Diretor para a área de PPGS16, o estudo realizado tomou o referido documento como base para uma análise crítica, bem como os documentos advindos do processo de construção do plano, tais como materiais produzido nas oficinas presenciais e remotas, formulários junto à bolsistas de produtividade e editores da área, reuniões sistemáticas de grupos de trabalho, entrevistas com atores-chave e diálogos com Fóruns, Grupos Temáticos e Redes da ABRASCO.
Resultados e Discussão
Tendências da produção científica em PPGS
Foram consideradas como da área de PPG, 570 teses, correspondendo a 30,8% do conjunto de teses defendidas no período. A distribuição por instituição (Figura 1) revelou concentração em três instituições com 44,5% do total das teses, sendo elas: a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/RJ), seguida pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Os programas dessas instituições estão entre os mais antigos da Saúde Coletiva e têm linhas consolidadas de PPGS há décadas.
Figura 1. Distribuição das Teses de Política, Planejamento e Gestão por Instituição, 2021-2024
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Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da CAPES (2021-2024)
A rede de coocorrência de palavras-chave revelou dois grandes clusters temáticos, diferenciados pela cor dos nós (azul e vermelho), que expressam agrupamentos distintos de termos com alta frequência de aparecimento conjunto nas teses analisadas (Figura 2).
O primeiro cluster (em azul) organiza-se em torno do descritor central Sistema Único de Saúde, ao qual se associam os temas de: acesso aos serviços de saúde, direito à saúde, judicialização da saúde, assistência farmacêutica, atenção à saúde, educação interprofissional e saúde suplementar. O segundo cluster (em vermelho), estrutura-se em torno de três temas de grande expressão: atenção primária à saúde, política de saúde e avaliação em saúde. Os nós de maior dimensão indicam elevada frequência e densidade de coocorrência. O tamanho proporcional desses nós evidencia que esses termos não só aparecem com alta frequência nas teses, mas tendem a ocorrer de forma articulada entre si: quando um desses descritores está presente, os demais frequentemente também aparecem, sinalizando uma convergência temática consolidada na produção analisada. A esse núcleo central articulam-se termos como gestão em saúde, processo de trabalho, covid-19, saúde mental, participação social, promoção da saúde, saúde coletiva, qualidade, regionalização e financiamento da assistência à saúde. Evidentemente, observam-se conexões, embora menores, entre os dois clusters.
Os resultados encontrados vão ao encontro dos estudos pioneiros dedicados à análise da produção acadêmica que evidenciam que a área é marcada por uma ampla diversidade de temas e recortes7. Essa constatação também é ratificada por investigações recentes, que confirmam a abrangência de suas temáticas, níveis e dimensões - estendendo-se desde o nível macro da formulação e implementação de políticas públicas até a dimensão micro das relações interpessoais nos processos de trabalho e práticas de cuidado1, 4,5, 10.
Figura 2. Rede de coocorrência de palavras-chaves. Teses de Política, Planejamento e Gestão, 2021-2024
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Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da CAPES (2021-2024)
A nuvem de palavras, construída a partir das 50 palavras-chave mais frequentes, oferece uma síntese visual imediata da produção analisada e corrobora os padrões identificados nas análises anteriores. O descritor atenção primária à saúde destaca-se com absoluta predominância, seguido por política de saúde, sistema único de saúde, avaliação em saúde e saúde pública, confirmando a centralidade desses temas, também descritos no estudo de Lima e Martins 1. Em segundo plano, termos como gestão em saúde, covid-19, saúde mental, acesso aos serviços de saúde e participação social reforçam a presença de agendas transversais já identificadas na análise da rede. O peso crescente da APS, muitas vezes associada à avaliação em saúde, expressa, por um lado, uma sintonia do campo em deter seu olhar crítico sobre uma das políticas mais exitosas no sistema de saúde brasileiro, por outro, é reflexo do processo de institucionalização da avaliação da APS brasileira levado a cabo pelo executivo federal e que teve as universidades como parceiras e protagonistas do processo.
Figura 3. Nuvem das Palavras-chaves. Teses de Política, Planejamento e Gestão, 2021-2024
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Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da CAPES (2021-2024)
No Mapa Temático (Figura 4) é possível visualizar que os temas motores (superior direito), com alta centralidade e alta densidade são o Sistema Único de Saúde, Políticas de Saúde e Saúde Pública, confirmando a indissociável relação entre conhecimento e prática característica fundante do campo. A APS, a covid-19 e a avaliação em saúde são temas básicos com tendência de crescimento, no caso da APS e Avaliação em Saúde, essa tendência já vinha sendo observada em estudos anteriores. A presença de teses sobre a covid-19 demonstra a capacidade do campo de responder prontamente aos problemas candentes da saúde no país. Nos temas de nicho (superior esquerdo), com baixa centralidade e alta densidade, correspondendo a tópicos especializados e periféricos observam-se interface com a epidemiologia, com os estudos de séries temporais, além do surgimento do tema da obesidade e das análises de custo, que tem crescido no campo. A identificação de quais temas são incipientes ou estão em processo de abandono pelo campo, necessitam de análises com uma maior janela cronológica. O acesso aos serviços de saúde, o direito à saúde e a saúde global surgem como tópicos em consolidação, que podem vir a se configurar com o passar dos tempos como temas motores.
Figura 4. Mapa Temático. Teses de Política, Planejamento e Gestão, 2021-2024
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Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da CAPES (2021-2024)
Desafios epistemológicos e teórico-metodológicos
A área de PPGS, pela abrangência de seu objeto de estudo, comporta a incorporação de diversas abordagens teórico-metodológicas, provenientes de distintos campos acadêmicos. Tendo em vista a análise da resposta do Estado às necessidades de saúde da população e a organização do sistema de saúde como eixos, a área vem mobilizando esses diferentes campos científicos, sobretudo a partir das Ciências Humanas e Sociais, como a Sociologia, a História, a Geografia Humana e a Ciência Política, e as Ciências Sociais Aplicadas, incluindo o Direito, a Administração, a Economia e a Demografia.
O diálogo com autores latino-americano, como Mario Testa e Carlos Matus, influenciou de forma decisiva um conjunto extenso de pesquisadores brasileiros no meio acadêmico de Saúde Coletiva, com a difusão do pensamento estratégico e do enfoque situacional de planejamento10. A partir dos anos 1990, a produção voltou-se para a análise de políticas segundo perspectivas teóricas provindas da tradição norte-americana das Ciências Políticas, desdobradas na análise do processo político governamental na área da saúde, ao longo da construção do SUS.
Atualmente, há um conjunto heterogêneo de afiliações teóricas para análise política e para a análise de políticas17. Identificam-se distintas matrizes teóricas, como teorias neo-institucionalistas, como o institucionalismo histórico; teorias de matrizes sociológicas contemporâneas, como Bourdieu, Habermas, Gramsci e Foucault; teorias latino-americanas de planejamento; teorias da ciência políticas de médio alcance, como o street-level bureaucracy; e teorias das organizações e da gestão.
Caracterizada pela multiplicidade de perspectivas metodológicas 4,5,17, a pesquisa na área articula abordagens qualitativas, quantitativas e mistas. Observa-se o uso de distintos procedimentos e técnicas, que por vezes carece de desenhos de pesquisa estruturados5, além de uma preferência analítica por horizontes temporais recentes1.
Algumas lacunas e desafios emergiram na elaboração do Plano Diretor. Em primeiro lugar, identifica-se a necessidade de um maior investimento teórico, e seu rebatimento metodológico, na pesquisa em PPGS, que responda aos desafios complexos da área. Este aspecto, outrora designado como "rarefação teórica" alude a um processo de esvaziamento, simplificação ou abandono do rigor conceitual e da reflexão crítica em favor de um pragmatismo técnico e instrumental na produção do conhecimento. Ainda que o quadro teórico de referência dos estudos seja explicitado, nem sempre são capazes de ir além de um caráter prescritivo.
O entrelaçamento e a atualização de conceitos como Estado, classes sociais e políticas de saúde também têm sido considerados insuficientes, limitando o caráter explicativo de mais amplo alcance sobre as políticas, o planejamento e a gestão dos serviços. Estudos que valorizam o conflito como categoria de análise em pesquisas sobre as políticas de saúde, o espaço do planejamento e as práticas de gestão poderiam também desvendar fatores explicativos pouco explorados sobre os problemas identificados. A ancoragem marxista, ou neo-marxista, nesse particular, frequentemente empregada para abordar as tensões da relação entre Estado e sociedade nas décadas de 1970 a 1990, apresenta-se como possibilidade analítica subexplorada atualmente.
Em segundo lugar, na perspectiva de se enveredar por novas fronteiras teórico-metodológicas, identifica-se a necessidade de diálogo com novas tendências, capazes de responder às realidades complexas e interseccionais da contemporaneidade globalizada e marcada pelo neocolonialismo do século XXI. Tais fronteiras sustentam-se fortemente nas respostas à superação dos enfoques clássicos de pesquisa, com raiz no positivismo. Elementos que cumprem o papel de vigilância epistemológica apontam para pesquisa interdisciplinar focada em problemas, mobilização do pensamento complexo, trabalho coletivo plural e forte integração entre a investigação científica e as demandas das práticas em saúde18.
Importa para a reflexão da pesquisa em PPGS a afirmação das críticas sobre o positivismo ou o positivismo lógico do Círculo de Viena, ainda que reconfigurado pelo falseacionismo de Popper no século XX, tanto pelo seu reducionismo em retratar a realidade por meio de variáveis mensuráveis quanto pelas limitações do método indutivo19. A tirania do método e a pretensa superioridade epistêmica do conhecimento científico sobre as demais formas de conhecimento também compõem o repertório de críticas às linhagens nascidas com a ciência moderna20.
Na mesma linha, cabe localizar na pesquisa em PPGS as limitações do chamado “pacto modernista”, que estabelece uma separação estrita entre natureza e cultura, entre ciência e política e entre sujeito e objeto, como apontam diferentes tradições filosóficas. Essas visões abrangem autores como Gaston Bachelard, Georges Canguilhem e, mais recentemente, Pierre Bourdieu, que defendem uma ciência não-cartesiana e histórica, sugerindo a ocorrência de rupturas epistemológicas. Outros, como Bruno Latour, rompem com a própria noção de epistemologia e autonomia oriunda da racionalidade do projeto iluminista, quando se pretende enfrentar conflitos ambientais, políticos e econômicos21.
A necessidade de enfoques interdisciplinares (transdisciplinares, segundo determinadas tradições epistemológicas) tem sido evocada por muitos dos que criticam a fragmentação do saber influenciado pelo cartesianismo 18,19, 22,23. Os desafios para se concretizar tal abordagem, no entanto, também têm sido problematizados, considerando as limitações de caráter conceitual, metodológico e prático, derivados de como os diferentes olhares disciplinares, os diferentes paradigmas e as diferentes formas de comunicação se estabelecem. O enfrentamento desses desafios supõe superar as diferentes maneiras como as disciplinas definem suas questões de pesquisa, como formulam objetivos almejados, como tratam evidências válidas e como se dá a articulação entre teoria e interpretação de dados24. A demarcação e a defesa de fronteiras disciplinares, reproduz-se também na Saúde Coletiva, dificultando a integração de seus subcampos2.
Parte dessas visões, com reflexo na investigação sobre PPGS, comporta um vasto leque de olhares na perspectiva da captação dos saberes locais – e das comunidades de gestores e trabalhadores – numa linha de coprodução do conhecimento. O conceito de “inter-epistemologia” vem sendo empregado no sentido de “decolonizar” a injustiça epistêmica, ao confrontar a ciência ocidental com diferentes sistemas de conhecimento, o que pode ter rebatimento em pesquisas em PPGS voltadas para o atendimento a populações tradicionais. Essa abordagem requer pluralidade e uma teoria e metodologia específicas, visando enfrentar o desafio teórico de conhecer o “outro epistêmico” 25, tal como tratado pelos estudos pós-coloniais ou decoloniais26.
A pesquisa participativa e a coprodução de conhecimento propõem uma renovação na prática da pesquisa ao incluir os sujeitos das políticas públicas no processo. No entanto, autores como Felder e Garz27 alertam que essa abordagem requere atenção quanto ao conhecimento produzido, sua legitimidade e sua autoridade. Nesse caso, critérios da ciência moderna, como objetividade, validade e confiabilidade, são colocados lado a lado, ou mesmo substituídos, por reflexividade, responsabilização e sustentabilidade. Isso exige que o pesquisador assuma uma postura de humildade epistêmica, reconhecendo a incompletude do seu próprio saber e entendendo que diferentes formas de conhecimento são válidas e se fortalecem quando integradas28.
Em qualquer caso, é importante a vigilância quanto à prática de “epistemologias extrativistas”, nas quais a pesquisa se limita a obter informações dos participantes, sem nenhuma preocupação com uma efetiva devolutiva aos que com ela contribuem. Chaves para essa reorientação incluem a ideia de um olhar não fragmentado, interdisciplinar/transdisciplinar29, engajado, participativo e instrumentalizador de processos emancipatórios30.
Finalmente, debate essencial à área diz respeito à aproximação entre pesquisa e intervenção. Neste sentido, em algumas de suas vertentes, a área de PPGS constitui locus de produção técnico-científica de caráter mais aplicado na Saúde Coletiva, traduzindo as ciências de base em conhecimentos aplicados, sobretudo no desenvolvimento de tecnologias de gestão para intervir e qualificar os serviços e as práticas de saúde31. Esta aproximação, no entanto, requer problematizações quanto ao atendimento das demandas da agenda governamental e a construção de objetos científicos próprios, orientados por perguntas oriundas autonomamente da necessidade de produção do conhecimento. Mesmo o "senso comum douto", revestido de tecnicismo burocrático, pode atuar como um obstáculo epistemológico se não for submetido à crítica e ao distanciamento analítico32.
Tradução do conhecimento, formulação de políticas e tomada de decisão
A distância entre a produção científica e o processo de formulação de políticas e tomada de decisão em saúde é um desafio persistente que impacta no desempenho dos sistemas de saúde e na qualidade de vida da população. Para superação deste entrave, é apontado na literatura da área a necessidade de ampliação da comunicação científica33 do engajamento e do desenvolvimento de estratégias para a tradução do conhecimento34.
De acordo com o instituto canadense de pesquisa em saúde, a tradução do conhecimento pode ser entendida como um processo dinâmico e interativo que inclui síntese, disseminação, intercâmbio e aplicação ética do conhecimento para melhorar a saúde35. Tal definição tem sido amplamente utilizada na literatura em razão de expressar a ideia que o conhecimento pode e deve embasar os processos de tomada de decisão e as práticas dos serviços36.
Andrade e Pereira37 sistematizaram que a tradução do conhecimento se estrutura em quatro elementos dinâmicos e não sequenciais: geração de evidências (produção científica primária), síntese da evidência (compilação de resultados e elaboração de diretrizes), transferência de evidência (disseminação ao usuário) e implementação da evidência (adoção das intervenções adaptadas). De acordo com os autores, esse processo configura-se como um fluxo contínuo que pode se iniciar em qualquer uma das fases.
Embora a tradução do conhecimento seja algo desejável e esperado, a sua aplicação não é algo simples de ser exercida. Ferraz et al34 sistematizam as dificuldades da tradução do conhecimento em duas grandes dimensões: I. falta de coesão entre a comunidade científica e os tomadores de decisão em saúde; e II. inabilidade dos profissionais e escassez de recursos para a tradução conhecimento. Os autores destacam persistirem consideráveis lacunas entre os universos da produção e do consumo e utilização do conhecimento. No âmbito dos sistemas e serviços de saúde, há uma frágil interação entre os cientistas, os tomadores de decisão e a população assistida.
No Brasil, enfrentam-se ainda consideráveis dificuldades para se utilizar os resultados das pesquisas científicas no processo de formulação de diretrizes para as práticas e políticas de saúde37. Essa realidade é comum aos países de baixa e média renda36,37, caracterizados por baixo investimento em pesquisa e frágeis estratégias para traduzir evidências em ações.
O Plano Diretor da área de PPGS aborda a temática da tradução do conhecimento e do diálogo com sociedade em diversos trechos. No eixo 2 Pesquisa, Produção e Disseminação do Conhecimento, estão dispostos os problemas, estratégias e ações que objetivam orientar a área, dentre outros objetivos, para o desenvolvimento de estratégias de pesquisa que visem fortalecer o SUS e para a promoção de estratégias de difusão do conhecimento no âmbito acadêmico, no diálogo com as políticas públicas e com a sociedade16. No Quadro 1, estão dispostos os problemas, estratégias e ações do eixo pesquisa.
Inserir Quadro 1. Problemas, pontos críticos, estratégias e ações do Plano Diretor PPGS sobre a tradução do conhecimento.
Conforme o plano, os principais desafios para ampliação da tradução conhecimento na área de PPGS perpassa pela incipiente atividade de disseminação do conhecimento, limitação da linguagem e o financiamento insuficiente para as atividades de comunicação. Esses três desafios convergem em direção à necessidade de ampliar o diálogo sobre o conhecimento produzido para além da comunidade científica, de modo a fortalecer a contribuição da área no processo de produção das políticas do SUS. O plano diretor também aponta para a necessidade de ampliação da comunicação com diversificação de formatos e linguagens, inclusive com apoio dos profissionais da comunicação e a necessidade de financiamentos específicos para essas atividades.
Frente aos desafios levantados, o plano diretor dispõe de oito ações a serem desenvolvidas com o intuito de superar o problema das dificuldades de tradução do conhecimento (Quadro 1).
Tais ações demandam a necessidade de fazeres e deslocamentos dos pesquisadores da área de PPGS para além das importantes atividades científicas que já desenvolvem. No âmbito interno, exorta-se para um movimento de ampliação do diálogo entre os pares, de utilização de novas ferramentas de comunicação e de maior integração entre pesquisadores e instituições. No contexto externo, a área é desafiada a ampliar a articulação com os movimentos sociais, agências de fomento e gestores do SUS no sentido de maior envolvimento desses atores nas atividades de pesquisas e de ampliar nossa capacidade de contribuir nas políticas e serviços de saúde, sobretudo diante do atual cenário de desinformação, negacionismo e ataques à ciência.
Lacunas de conhecimento e agenda estratégica de pesquisa
A construção de uma agenda estratégica de pesquisa para a área responde a um duplo imperativo que se impôs ao longo da elaboração do I Plano Diretor: de um lado, um imperativo interno, fortalecer a área de PPGS, dotando-a de maior capacidade reflexiva sobre seus objetos, métodos e fronteiras9,38, de outro, uma pressão externa, derivada de um cenário de restrição de fomento, instabilidade nas políticas de Ciência e Tecnologia, emergências sanitárias e sociais e de um contexto político marcado por negacionismo científico e desprestígio da ciência.
O processo coletivo de construção do Plano revelou dois diagnósticos complementares e mutuamente agravantes. O primeiro, estrutural, a insuficiência e irregularidade do financiamento da pesquisa em PPGS, com efeitos negativos sobre temas emergentes, difusão acadêmica e contribuição para as políticas públicas1,4. O segundo, o incipiente debate coletivo sobre a construção dos próprios problemas de pesquisa e sobre a definição de prioridades articuladas às necessidades do sistema de saúde e da sociedade. A escassez de editais dispersa a agenda temática e fragiliza redes de pesquisa; a ausência de espaços permanentes de discussão mantém a agenda refém das oscilações governamentais, sem protagonismo da comunidade científica na definição do que precisa ser investigado.
Sistematização das lacunas de conhecimento identificadas no Plano
Uma primeira lacuna refere-se à insuficiência de estudos sobre os sistemas sociais produtores de iniquidades, considerando uma sociedade hierarquizada por gênero, raça e classe. Essa lacuna não é apenas temática, mas epistemológica, pois implica revisar as lentes analíticas com que a área tem compreendido as desigualdades em saúde. O Plano posiciona como eixo estruturante a incorporação dos conceitos de colonialidade, racismo estrutural e patriarcado como centralidade analítica, com os marcadores sociais de gênero, raça, classe, sexualidade, território e deficiência como eixos indissociáveis do planejamento, da pesquisa e da formação. Superá-la implica ir além da descrição das desigualdades em resultados mensuráveis, investindo na análise das estruturas que as produzem e reproduzem, inclusive dentro do próprio sistema de saúde.
Uma segunda lacuna diz respeito à reflexão crítica sobre inteligência artificial, saúde digital e tecnologias da informação e comunicação. Articulada ao tema da Soberania Digital, inclui analisar as formas de controle informacional, o papel da IA na política algorítmica, o colonialismo digital e os impactos da automação sobre o trabalho em saúde. A insuficiência não é apenas de estudos sobre tecnologias específicas, mas de reflexão estratégica sobre como a transformação digital reconfigura as relações entre Estado, mercado e sociedade e tensiona os princípios do SUS.
Relacionada a essa questão, o Plano identifica o decréscimo de estudos sobre democracia e participação social nas políticas, serviços e ações de saúde, campo constitutivo do SUS cujos processos carecem de investigação atualizada, diante do esvaziamento de instâncias formais de participação e da ascensão do ultraconservadorismo. A agenda deve incluir os limites e possibilidades da participação social em contextos de restrição democrática, novas formas de expressão da cidadania em saúde e as relações entre desinformação, negacionismo e erosão da participação qualificada.
Outra lacuna refere-se à insuficiência de pesquisas que incorporem perspectivas do Sul Global nas análises de políticas e sistemas de saúde. Ainda que a Saúde Coletiva latino-americana tenha constituído referenciais originais, persistem assimetrias que reproduzem dependências epistêmicas. Superá-la implica fortalecer estudos comparados entre países do Sul Global, valorizar produções teóricas fora dos padrões hegemônicos e investir em redes internacionais com parcerias horizontais, articuladas ao financiamento e à mobilidade docente e discente.
O Plano aponta ainda a limitação do conhecimento sobre populações vulnerabilizadas e invisibilizadas capaz de nortear a reparação em saúde como direito de cidadania, população negra, indígenas, pessoas com deficiência, população LGBTQIAPN+, trabalhadoras e trabalhadores informais, moradores de territórios rurais e periferias urbanas, entre outros, para os quais o ideal da Reforma Sanitária ainda está longe de ser realidade. Superar essa lacuna requer transformar as condições de produção da pesquisa, incluindo esses sujeitos como produtores de saber e articulando a investigação ao advocacy por políticas de reparação.
Na área de gestão e financiamento do sistema, o Plano registra a insuficiência de pesquisa sobre as relações público-privado e sobre o complexo produtivo e industrial da saúde, lacuna crítica num contexto de financeirização do setor, expansão de oligopólios, crescimento dos planos de saúde e ampliação dos contratos de gestão do SUS com o setor privado. A agenda deve analisar como esses processos direcionam a organização dos serviços, reproduzem a medicalização e comprometem a garantia do direito à saúde.
Persistem também lacunas sobre a determinação social da saúde e as relações intersetoriais (ambiente, saneamento, clima, políticas urbanas, habitação e mobilidade), articuladas à emergência climática: como a crise climática e ecológica se expressa como emergência sanitária, com impactos sobre populações vulnerabilizadas e insuficiências das respostas dos sistemas de saúde. Por fim, destaca-se a lacuna no próprio campo do planejamento e gestão do SUS, com enfraquecimento das investigações teóricas e empíricas sobre planejamento como produção social e perda de protagonismo da área diante da hegemonia da racionalidade liberal, lacuna que atinge o núcleo identitário da PPGS e merece atenção redobrada.
Proposições para a agenda estratégica
A agenda estratégica proposta pelo Plano articula-se a esforços por uma ciência justa, soberana, plural e acessível, que valorize a diversidade de saberes e promova impacto social. Seus princípios incluem: pesquisa comprometida com o fortalecimento do SUS e a garantia do direito à saúde; redução das assimetrias regionais na produção do conhecimento; fortalecimento de redes colaborativas regionais, nacionais e internacionais com governança compartilhada; abertura para perspectivas teóricas do Sul Global e abordagens transdisciplinares; e engajamento público que inclua comunidades e sujeitos das pesquisas como protagonistas.
Como proposições concretas, o Plano indica: criação de um espaço permanente de troca de experiências e identificação de prioridades no âmbito da Comissão PPGS da ABRASCO; construção coletiva da agenda a partir do diálogo com a comunidade de pesquisadores; articulação junto ao MCTI, MS, CAPES e agências estaduais para financiamento robusto e estável, contemplando pesquisas multicêntricas, redes e internacionalização; e valorização de modalidades organizativas mais ágeis para divulgação de resultados, a exemplo dos Observatórios.
A implementação enfrenta obstáculos concretos: financiamento insuficiente e irregular; espaço reduzido para publicação e ausência de periódico próprio da área na ABRASCO; limitações das redes de pesquisa e da mobilidade docente e discente; o contexto de negacionismo e desprestígio da ciência; e a fragmentação interna do campo. Reconhecer esses obstáculos é condição para que a agenda seja realista, consistente e politicamente efetiva.
Considerações finais
O estudo analisou o panorama da produção de conhecimento em PPGS utilizando teses de doutorado como proxy. Os resultados evidenciam um subcampo dinâmico, articulado ao desenvolvimento do SUS e com expressiva capacidade de resposta a crises sanitárias contemporâneas, a exemplo da pandemia de covid-19.
Os principais desafios apontados incluem a superação do viés instrumental da pesquisa mediante uma refundação teórica do subcampo e o fortalecimento da colaboração na pesquisa para responder a temas emergentes. O fortalecimento do diálogo com o SUS e a sociedade civil requer linguagens acessíveis e estruturas ágeis, como adotadas atualmente pelos Observatórios de Saúde. As lacunas identificadas subsidiam uma agenda estratégica de pesquisa com potencial de se converter em instrumento político de luta por financiamento estável, consolidação de redes colaborativas e inserção internacional da área.
Por fim, o Plano reafirma o compromisso histórico da área com uma ciência socialmente referenciada, plural e soberana, comprometia com garantia do direito universal à saúde no Brasil. Sua sustentação exige transitar de iniciativas pontuais para mecanismos institucionais permanentes, combinando prioridades claras, monitoramento sistemático e prazos definidos sob a governança da Comissão PPGS.
Agradecimentos
Agradecemos ao Gabriel Ricardo Fernandes pelo apoio no auxílio com o banco de dados das teses.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
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