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0176/2026 - Sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama: uma revisão de escopo sobre experiência e cuidado
Climacteric symptoms in young women with breast cancer: a scoping review on experience and care

Autor:

• Pedro Senise Maroun - Maroun, PS - <pedromaroun@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0007-6465-8417

Coautor(es):

• Beatriz Pina Leibold - Leibold, BP - <beatrizleibold@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0000-4930-2999

• Isabella Pólola Guimarães - Guimarães, IP - <isabellapolola@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-0104-7251

• Joyce Borges Cosmo da Silva - Silva, JBC - <joycebcsilva@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0001-2255-7278



Resumo:

Sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama reconfiguram corpo, cotidiano e relações, articulando dimensões clínicas, psicossociais e culturais. Objetiva-se mapear e analisar como esse fenômeno é abordado na literatura científica. Realizou-se revisão de escopo segundo o Joanna Briggs Institute, reportada conforme o PRISMA-ScR. As buscas em seis bases, sem recorte temporal, incluíram 97 estudos. A análise temática, ancorada em referenciais da Saúde Coletiva, evidenciou três eixos: manejo dos sintomas, mudanças corporais na menopausa precoce e sofrimento psíquico. Predominam abordagens centradas na qualidade de vida e no sofrimento, com menor desenvolvimento de estratégias integradas. Conclui-se que a literatura separa dimensões que se apresentam articuladas na experiência, limitando a compreensão do fenômeno. O cuidado emerge como eixo integrador para práticas mais sensíveis.

Palavras-chave:

câncer de mama; climatério; gênero; experiência do adoecimento; cuidado

Abstract:

Climacteric symptoms in young women with breast cancer reshape body, daily life, and social relations, articulating clinical, psychosocial, and cultural dimensions. This study aims to map and analyze how this phenomenon is addressed in the scientific literature. A scoping review was conducted according to the Joanna Briggs Institute and reported following PRISMA-ScR guidelines. Searches in six databases without time restrictions resulted in 97 included studies. Thematic analysis, grounded in Collective Health frameworks, identified three axes: symptom management, bodily changes in early menopause, and psychological distress. Approaches focused on quality of life and psychosocial suffering predominate, with limited development of integrated strategies. The literature tends to separate dimensions that are experienced as interconnected, limiting understanding. Care emerges as an integrative axis to guide more responsive practices.

Keywords:

breast cancer; climacteric; gender; illness experience; care

Conteúdo:

Introdução
O câncer de mama permanece entre os principais problemas de saúde pública em escala global, com 2,3 milhões de novos casos e cerca de 670 mil mortes estimadas em 2022¹. A doença mantém tendência de crescimento, sobretudo em países com menor índice de desenvolvimento humano². Esses indicadores, embora centrais, não esgotam a compreensão do problema. Quando a análise se concentra na incidência e na mortalidade, o adoecimento tende a ser reduzido à sua dimensão biológica, deixando em segundo plano as formas pelas quais se inscreve na vida das mulheres. Entre as repercussões do tratamento, os sintomas climatéricos ocupam lugar central na experiência de muitas mulheres jovens. Diferentemente da menopausa natural, a menopausa induzida pelo tratamento oncológico altera a temporalidade do ciclo reprodutivo e intensifica manifestações como fogachos, alterações do sono, irritabilidade e disfunções sexuais³. Essas mudanças extrapolam o plano fisiológico e repercutem sobre o corpo, o cotidiano, as relações afetivas e os projetos de vida.
Para além dos números, é necessário considerar as condições de vida após o diagnóstico, as transformações do corpo e os modos de viver com a doença. Esse deslocamento insere a discussão no campo ampliado da produção do cuidado em saúde. A organização do cuidado, especialmente em sistemas públicos como o Sistema Único de Saúde, expõe o desafio de articular abordagens que ultrapassem o controle da doença e incorporem dimensões subjetivas e socioculturais, sobretudo no acompanhamento de longo prazo.
Compreender esse fenômeno pressupõe reconhecer o corpo humano como base da experiência por meio da qual percepção, cultura e produção de sentidos se articulam?. Nessa perspectiva, os sintomas climatéricos podem reorganizar modos de estar no mundo em interação com condições sociais de vida, acesso aos serviços de saúde e redes de apoio, produzindo experiências que não podem ser compreendidas exclusivamente pela dimensão hormonal.
Os avanços terapêuticos das últimas décadas ampliaram significativamente a sobrevida das mulheres com câncer de mama, deslocando o foco da atenção oncológica para questões relacionadas à qualidade de vida e ao viver após o tratamento. O sucesso terapêutico não é mais medido como o controle da doença, envolvendo as condições concretas de vida das mulheres após o tratamento. Entendida como multidimensional, o tratamento permite integrar aspectos físicos, emocionais, sociais e culturais da experiência?. Não se trata apenas de viver mais, mas de como se vive.
Mesmo após o término da terapia inicial, muitas mulheres convivem com repercussões persistentes, particularmente intensas entre as mais jovens?. Os sintomas climatéricos costumam ser mais frequentes e mais intensos do que aqueles observados na população geral?, associando-se a sofrimento psíquico, ansiedade, depressão e dificuldades na vida sexual e nas relações sociais, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social?. A literatura aponta que a experiência do adoecimento articula simultaneamente corpo, subjetividade e condições de vida?. Quando a menopausa ocorre precocemente em decorrência do tratamento, rompe-se a temporalidade esperada do ciclo de vida, produzindo deslocamentos identitários que podem ser compreendidos como formas de disrupção biográfica¹?.
A perspectiva do cuidado amplia essa compreensão ao reconhecer o adoecimento como processo relacional e intersubjetivo, no qual reconhecimento, escuta e negociação ocupam lugar central¹¹. As transformações decorrentes do câncer de mama tensionam referências historicamente construídas sobre feminilidade, fertilidade, sexualidade e integridade corporal¹²?¹³, indicando que a experiência dos sintomas climatéricos ultrapassa a dimensão biomédica e demanda abordagens capazes de integrar aspectos clínicos, subjetivos e socioculturais.
Apesar do crescimento da produção científica sobre câncer de mama e qualidade de vida, os estudos sobre sintomas climatéricos em mulheres jovens permanecem dispersos entre enfoques predominantemente clínicos e abordagens psicossociais, com limitada articulação entre essas perspectivas. Essa fragmentação repercute também na organização do cuidado e dificulta uma compreensão integrada da experiência dessas mulheres.
Diante desse cenário, coloca-se a seguinte questão: como os sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama têm sido abordados na literatura científica? O objetivo deste estudo é mapear e analisar essa produção, considerando a articulação entre aspectos clínicos, psicossociais e socioculturais.
Método
Tipo de estudo
Este artigo consiste em uma revisão de escopo conduzida conforme a metodologia proposta pelo Joanna Briggs Institute (JBI) e reportada de acordo com o checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). O processo de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão dos estudos foi conduzido conforme o checklist PRISMA-ScR¹?. A opção por esse delineamento se justifica pela possibilidade de mapear a extensão, a natureza e as lacunas da produção científica sobre determinado tema, sobretudo em campos marcados por diversidade metodológica e heterogeneidade conceitual¹6. Além disso, esse tipo de revisão é particularmente indicado para temas que envolvem múltiplas abordagens conceituais e metodológicas, nos quais ainda não há consenso consolidado na literatura, permitindo identificar lacunas, mapear diferentes formas de construção do objeto e subsidiar futuras investigações analíticas ou sistemáticas.
Pergunta de pesquisa
A pergunta de pesquisa foi estruturada segundo a estratégia PCC (População, Conceito e Contexto): população (mulheres jovens com câncer de mama), conceito (sintomas climatéricos) e contexto (produção científica sobre câncer de mama).
Embora o consenso internacional BCY5 (ESO-ESMO, 2022)15 proponha a idade inferior a 40 anos para definição de mulheres jovens com câncer de mama, optou-se por não adotar esse ponto de corte como critério de elegibilidade desta revisão. Essa decisão decorreu da natureza exploratória da revisão de escopo e do objetivo de mapear como a literatura científica aborda os sintomas climatéricos nessa população. Durante a etapa de seleção, observou-se que os estudos utilizaram definições heterogêneas da população investigada, frequentemente baseadas no estado menopausal, na idade reprodutiva ou simplesmente na expressão "mulheres jovens", sem explicitar um ponto de corte etário.
A adoção de um critério ampliado permitiu abarcar diferentes formas de caracterização da população estudada, priorizando experiências relacionadas à menopausa induzida pelo tratamento oncológico e suas repercussões. Reconhece-se que essa escolha pode introduzir variação na comparabilidade entre os estudos, sendo considerada na interpretação dos achados.
Nesta revisão, a juventude foi compreendida menos como uma categoria estritamente cronológica do que como uma condição biográfica relacionada à interrupção precoce do ciclo reprodutivo e às repercussões da menopausa induzida sobre corpo, sexualidade, projetos de vida e relações sociais. Embora a idade cronológica seja central para a definição clínica proposta pelo consenso BCY5, o objetivo desta revisão concentrou-se na forma como a literatura constrói a experiência dos sintomas climatéricos e organiza as respostas de cuidado.
O conceito foi tratado de forma ampliada por compreender que, nesse grupo, os sintomas climatéricos excedem sua expressão fisiológica e se articulam à experiência do adoecimento, às mudanças corporais, à sexualidade, ao sofrimento psíquico e às condições socioculturais que organizam o cuidado. Essa perspectiva orientou a leitura interpretativa dos estudos incluídos, permitindo captar diferentes formas de construção do fenômeno na literatura e dialogando com referenciais da Saúde Coletiva que compreendem os sintomas como construções imersas em relações de cultura, gênero e cuidado. Assim, buscou-se responder à seguinte questão de pesquisa: como os sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama são abordados na literatura científica?
Critérios de elegibilidade
Foram incluídos estudos primários e secundários que abordassem sintomas climatéricos no contexto do câncer de mama em mulheres jovens, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, sem restrição de delineamento metodológico. Não foi estabelecido recorte temporal, dada a natureza exploratória da revisão e o interesse em mapear a extensão e a evolução da produção científica sobre o tema.
Fontes de informação
As buscas foram realizadas em 17 de outubro de 2024 nas seguintes bases de dados: PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, CINAHL, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e OASISbr. A inclusão da BVS e do OASISbr visou ampliar a recuperação de estudos produzidos na América Latina e no contexto brasileiro.
Estratégia de busca
A estratégia de busca foi elaborada com base em descritores controlados (MeSH e DeCS) e termos livres, combinados por operadores booleanos (AND, OR, NOT), sendo adaptada às especificidades de indexação e sintaxe de cada base de dados. Foram contemplados termos relacionados ao câncer de mama, sintomas climatéricos e suas manifestações, bem como aspectos psicossociais associados, considerando a heterogeneidade conceitual do tema. Não foram aplicados filtros quanto ao delineamento dos estudos, sendo incluídas publicações nos idiomas português, inglês e espanhol. A busca foi realizada inicialmente em 17 de outubro de 2024 e atualizada em 11 de novembro de 2024, com o objetivo de ampliar a recuperação de estudos relevantes, conforme a seguinte estratégia matriz:
("Breast Neoplasms" OR "Breast Cancer") AND ("Climacteric" OR "Menopause" OR "Premature Menopause" OR "Vasomotor Symptoms" OR "Hot Flashes") AND ("Young Women" OR "Premenopausal Women") AND ("Quality of Life" OR "Psychosocial" OR "Stigma") NOT ("Cervical Cancer").
A expressão apresentada corresponde à estratégia de busca matriz, posteriormente adaptada às especificidades de indexação e sintaxe de cada base de dados. As estratégias completas por base encontram-se no material suplementar. A síntese da estratégia de busca está apresentada no Quadro 1.

Quadro 1

Seleção das fontes de evidência

O processo de seleção dos estudos ocorreu em três etapas: (1) remoção de duplicatas, (2) triagem dos títulos e resumos e (3) leitura na íntegra dos estudos potencialmente elegíveis. A seleção foi conduzida por dois revisores independentes, mediante leitura crítica dos registros recuperados. As referências foram organizadas no software Zotero®, utilizado para o gerenciamento bibliográfico e identificação de registros duplicados, não tendo sido empregada plataforma específica (por exemplo, Rayyan ou Covidence) para apoio à triagem.
Antes do início da seleção, os revisores alinharam os critérios de elegibilidade por meio da leitura conjunta de um subconjunto de estudos, com o objetivo de assegurar consistência em sua aplicação ao longo de todo o processo. As divergências foram resolvidas por consenso e, quando necessário, os estudos foram reavaliados conjuntamente.
Na etapa de leitura na íntegra, foram excluídos estudos que: (a) não abordavam sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama; (b) se restringiam à menopausa natural; (c) tratavam de outras neoplasias sem análise específica de câncer de mama; (d) não apresentavam relação com a pergunta de pesquisa; ou (e) correspondiam a documentos sem dados empíricos ou analíticos compatíveis com os critérios de elegibilidade. Os motivos de exclusão foram registrados de forma sistemática e quantificados, sendo apresentados no fluxograma PRISMA-ScR.

Extração dos dados

Os dados foram extraídos por meio de planilha estruturada contendo autoria, ano de publicação, país de origem, delineamento metodológico, conceito investigado e principais achados. A planilha foi previamente elaborada, testada em leitura piloto e utilizada de forma padronizada pelos revisores, com ajustes iterativos durante o processo para garantir consistência na extração dos dados e coerência com os objetivos da revisão.

Síntese e análise dos dados

Os dados foram analisados por meio de categorização temática, com base em análise de conteúdo. A construção das categorias analíticas ocorreu de forma predominantemente indutiva, a partir da leitura dos estudos incluídos, sendo posteriormente articulada aos referenciais teóricos da Saúde Coletiva.
A análise foi conduzida por leituras sucessivas, com identificação de padrões recorrentes e refinamento progressivo das categorias analíticas. As categorias foram discutidas entre os revisores ao longo do processo, buscando consistência interpretativa, preservação da diversidade de abordagens presentes na literatura e resolução de eventuais divergências por consenso.
Os estudos foram agrupados conforme os conceitos investigados e os desfechos reportados, permitindo o mapeamento da extensão e da natureza da produção científica sobre o tema. A síntese dos resultados priorizou a identificação de eixos temáticos recorrentes, sem avaliação formal da qualidade metodológica dos estudos, em conformidade com as recomendações do Joanna Briggs Institute para revisões de escopo, nas quais essa etapa não é obrigatória, uma vez que o objetivo principal consiste em mapear a extensão, a natureza e as características da literatura disponível, e não produzir uma síntese hierarquizada de evidências¹6. Ainda assim, diferenças de delineamento e de consistência metodológica entre os estudos foram consideradas de forma interpretativa na análise dos achados, compreendidos como um mapeamento da produção científica disponível, em consonância com a natureza das revisões de escopo.
O detalhamento quantitativo dos estudos excluídos por motivo está apresentado no fluxograma PRISMA-ScR (Figura 1).

Fig.1

Características das fontes de evidência
Os 97 estudos incluídos apresentaram ampla diversidade metodológica e temática, abrangendo diferentes delineamentos e contextos de investigação. A produção científica concentrou-se majoritariamente em países de alta renda, especialmente na América do Norte e na Europa, com participação limitada de estudos provenientes da América Latina. A caracterização detalhada dos estudos é apresentada no Quadro 2 e na Tabela Suplementar 1.
De forma geral, os estudos abordaram os sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama em interface com diferentes dimensões da experiência, incluindo qualidade de vida, sofrimento psicossocial, sexualidade, corpo, identidade, cultura e manejo dos sintomas. A análise do corpus permitiu organizar os resultados em três eixos temáticos: manejo dos sintomas climatéricos; qualidade de vida e mudanças corporais diante da menopausa precoce; e sofrimento psíquico relacionado ao climatério.

Quadro 2

Síntese dos achados
Os estudos incluídos foram organizados em eixos temáticos, conforme o conceito investigado e os desfechos reportados. A síntese dos estudos revela predominância de abordagens voltadas à qualidade de vida e ao sofrimento psicossocial, com menor ênfase em estratégias estruturadas de manejo dos sintomas. O quadro 3 sintetiza os principais eixos temáticos identificados.

Quadro 3

Nota: Os estudos incluídos (n=97) foram analisados por categorização temática, podendo um mesmo estudo contribuir para mais de um eixo temático, conforme os conceitos investigados.
Fonte: elaboração própria a partir dos estudos incluídos.
Discussão
A leitura do conjunto de estudos permite reconhecer regularidades na forma como o climatério em mulheres jovens com câncer de mama tem sido construído na literatura científica, demonstrando a diversidade de manifestações e a multiplicidade de sentidos atribuídos a essas experiências. A organização em categorias analíticas expressa modos recorrentes de abordagem do tema, indo além de estratégia de sistematização. A forma de organização desses eixos revela que a literatura participa da construção de seus próprios enquadramentos interpretativos, estabelecendo distinções entre dimensões clínicas, psicossociais e culturais.
Os modos de abordagem descrevem o climatério e, ao mesmo tempo, delimitam como ele passa a ser compreendido e manejado no campo da saúde, indicando que a produção do conhecimento participa ativamente da construção das respostas assistenciais. Tal produção não se apresenta como neutra, pois orienta prioridades, define o que pode ser mensurado e delimita quais aspectos do adoecimento passam a integrar ou a permanecer ausentes nas práticas de cuidado.
A análise revela três eixos: o manejo dos sintomas climatéricos, a qualidade de vida e as mudanças corporais diante da menopausa precoce, e o sofrimento diante da menopausa. Os eixos são apresentados de forma analítica e não se configuram como dimensões isoladas, mas como planos interdependentes que se articulam na experiência das mulheres e nas formas de organização do cuidado. A separação entre esses planos decorre menos da natureza do fenômeno e mais das escolhas analíticas que orientam sua apreensão na literatura.
Manejo dos sintomas climatéricos
Os sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama constituem um eixo estruturante dos efeitos tardios do tratamento oncológico. Esses sintomas organizam a experiência do adoecimento envolvendo processos que atingem o corpo, a subjetividade e as relações sociais. A associação entre fogachos e alterações do sono ilustra como manifestações corporais incidem diretamente sobre a vida cotidiana, com consequências na qualidade de vida?. A elevada prevalência de sintomas como calores intensos, irritabilidade e insônia reforça a centralidade dessas experiências, indicando que o climatério articula dimensões biológicas e socioculturais³.
Apesar dessa centralidade, predomina na literatura uma abordagem voltada ao manejo clínico, especialmente em estudos observacionais e ensaios focados na redução de sintomas específicos. Essa orientação tende a produzir uma leitura fragmentada do fenômeno, ao privilegiar manifestações isoladas em detrimento de sua inserção em contextos de vida, o que limita a compreensão da experiência do adoecimento. Ao privilegiar a mensuração de manifestações isoladas, parte dos estudos reduz a complexidade do fenômeno a variáveis observáveis, deslocando para segundo plano os sentidos atribuídos pelas próprias mulheres às suas vivências. Essa fragmentação torna-se ainda mais evidente quando se consideram as limitações terapêuticas próprias dessa população. Em mulheres com câncer de mama, a restrição ao uso da terapia hormonal sistêmica e as limitações das opções terapêuticas disponíveis evidenciam que o manejo clínico, embora indispensável, frequentemente não é suficiente para responder às múltiplas repercussões da menopausa induzida. Esses limites reforçam a necessidade de estratégias de cuidado mais abrangentes, capazes de responder às múltiplas repercussões da menopausa induzida¹?.
A experiência do adoecimento não corresponde à soma de eventos fisiológicos. Ela se constitui na relação entre aspectos materiais e simbólicos.?. O predomínio de estratégias biomédicas limita o alcance das práticas de cuidado ao privilegiar o controle sintomático em detrimento da compreensão do que foi vivido. Esse padrão sugere que abordagens centradas exclusivamente no controle de sintomas podem ser insuficientes, indicando a necessidade de estratégias que incorporem dimensões da subjetividade na condução do cuidado. Limitações dessa natureza também se refletem na organização dos serviços de saúde, onde o manejo dos sintomas tende a ocorrer de forma fragmentada, com baixa articulação entre diferentes dimensões do cuidado.
Qualidade de vida e mudanças corporais diante da menopausa precoce
Os sintomas climatéricos incidem diretamente sobre a qualidade de vida, especialmente em mulheres jovens. Há comprometimentos importantes nos domínios emocional e social que se mantêm mesmo após o término do tratamento inicial?. Essas alterações não se restringem à dimensão funcional, reorganizando a relação com o corpo e com o cotidiano. Tal reorganização ultrapassa a esfera individual, inscrevendo-se em relações sociais que atribuem valor ao corpo, à produtividade e à feminilidade, produzindo efeitos que excedem a dimensão funcional.
A reestruturação das relações com o corpo que a mulher jovem no climatério dialoga diretamente com o manejo dos sintomas, uma vez que as manifestações físicas não se dissociam de seus efeitos sobre a vida social e emocional. A menopausa induzida pelo tratamento rompe a temporalidade esperada do ciclo de vida e desloca o corpo de sua condição anterior. Esse deslocamento também pode ser compreendido a partir das normas que regulam o gênero e definem quais corpos são reconhecíveis e legítimos17. A dimensão disciplinar do corpo é evidenciada quando se considera que o tratamento oncológico intensifica processos de controle, monitoramento e normatização16.
O corpo tratado deixa de ser apenas suporte de intervenção clínica e passa a ser também objeto de regulação social, no qual se inscrevem expectativas normativas sobre saúde, feminilidade e funcionalidade. No contexto do câncer de mama, o corpo tratado passa a ser continuamente avaliado, e os sintomas do climatério expressam uma tensão entre o corpo vivido e o corpo regulado. Nessa tensão, o corpo emerge como espaço de produção simbólica, onde se estabelecem normas de adequação, reconhecimento e pertencimento.
O corpo pode ser compreendido além de uma construção simbólica e espaço de experiência17. Como base existencial da experiência, ele emerge a partir da articulação entre percepção, cultura e subjetividade?. Nessa perspectiva, o climatério precoce produz um corpo que deixa de ser familiar, exigindo novas formas de percepção e interpretação, reorganizando a experiência corporal e os modos de reconhecimento de si¹².
Mesmo diante de piora na saúde física, intervenções voltadas ao cuidado podem melhorar a percepção da imagem corporal, desvelando a centralidade das dimensões simbólicas na experiência do adoecimento18. Isso indica que intervenções em saúde que considerem dimensões simbólicas e relacionais do corpo podem produzir efeitos relevantes, mesmo quando não alteram diretamente parâmetros clínicos.
As concepções sobre o corpo feminino são historicamente produzidas e tensionadas por discursos científicos e culturais que organizam experiências como menstruação, reprodução e menopausa¹³. O climatério precoce desloca o corpo de suas funções biológicas e sua relação com as expectativas sociais relacionadas à feminilidade, produzindo experiências de estranhamento e redefinição de si.
Sofrimento diante da menopausa
A experiência dos sintomas da menopausa também se articula a formas intensas de sofrimento psíquico. É frequente observarmos eventos depressivos, ansiedade e maior desconforto físico, especialmente em camadas sociais mais vulneráveis?. O sofrimento além da intensidade dos sintomas, é produzido na interface entre corpo, experiência e condições sociais de existência. A leitura do sofrimento se desloca de uma dimensão estritamente individual para uma expressão de relações sociais que configuram possibilidades de enfrentamento e acesso ao cuidado.
O sofrimento se conecta às transformações corporais e às dificuldades de manejo dos sintomas, compondo um quadro no qual diferentes dimensões do adoecimento se reforçam mutuamente. Mulheres jovens apresentam maior comprometimento da qualidade de vida quando comparadas a mulheres mais velhas, especialmente nos domínios emocional e social?. O diagnóstico e o tratamento introduzem uma ruptura que desorganiza trajetórias e reconfigura projetos de vida. Esse processo pode ser compreendido como disrupção biográfica, na qual o adoecimento altera a continuidade da experiência e exige reorganizações identitárias¹?.
As alterações na sexualidade constituem esfera frequente desse sofrimento. O comprometimento da função sexual, acompanhado por sentimentos de vergonha, frustração e desânimo, indica a necessidade de abordagens que integrem dimensões físicas, psicológicas e socioculturais do cuidado19. A redução da sexualidade a um efeito adverso reforça uma abordagem funcionalista, que desconsidera sua dimensão relacional e simbólica na vida das mulheres.
A consideração dessas dimensões sugere a importância de práticas de cuidado que abordem a sexualidade de forma integrada, evitando sua redução a efeitos colaterais do tratamento. As formas de relação com o corpo e com o cuidado são permeadas por construções sociais de gênero. No Brasil, práticas de cuidado em saúde são historicamente associadas ao feminino, enquanto a masculinidade se estrutura em torno de valores como invulnerabilidade e resistência22.
As dinâmicas de poder que recaem sobre o corpo feminino são mais evidentes quando consideradas as estruturas sociais que o regulam23. As transformações decorrentes do câncer de mama e de seu tratamento incidem sobre um corpo já marcado por normas que associam feminilidade à integridade corporal e à capacidade reprodutiva. A perda da fertilidade e as alterações corporais produzem deslocamentos simbólicos que afetam a posição social dessas mulheres.
A perspectiva do cuidado permite compreender esse sofrimento além da dimensão clínica. O cuidado pode ser entendido como prática que articula saber técnico, experiência e projeto de vida¹¹, ampliando o foco apenas da doença para a produção de relações que envolvem escuta, reconhecimento e negociação de sentidos.
Os resultados deste estudo devem ser interpretados considerando algumas limitações. A heterogeneidade dos delineamentos incluídos, característica das revisões de escopo, limita comparações diretas entre os estudos. Soma-se a isso a ausência de uniformidade na caracterização de "mulheres jovens", uma vez que muitos estudos utilizaram critérios distintos, baseados no estado menopausal, na idade reprodutiva ou simplesmente na expressão "mulheres jovens", sem explicitar um ponto de corte etário. Além disso, não foi realizada avaliação formal da qualidade metodológica dos estudos, em conformidade com as recomendações para revisões de escopo. Embora esses aspectos restrinjam a comparabilidade dos achados, eles não comprometem o objetivo desta revisão, que consistiu em mapear a extensão, a diversidade e as formas pelas quais a literatura científica constrói esse objeto. A concentração da produção científica em contextos de alta renda também limita a diversidade de experiências representadas na literatura, tornando menos visíveis formas de adoecimento e de cuidado produzidas em cenários marcados por desigualdades sociais e restrições de acesso aos serviços de saúde.
A articulação entre manejo dos sintomas, transformações corporais e sofrimento demonstra que o fenômeno não se apresenta de forma fragmentada na experiência das mulheres. Há um processo integrado que atravessa diferentes dimensões da vida. A segmentação observada na literatura parece decorrer mais das formas de abordagem adotadas pelos estudos do que da própria natureza do fenômeno, que tendem a isolar dimensões analíticas que, na experiência, se apresentam indissociáveis.
Essa constatação sugere a necessidade de reorganizar práticas de cuidado com o objetivo de evitar a compartimentalização das intervenções, favorecendo abordagens que considerem simultaneamente a produção social do adoecimento. Uma possível reestruturação exigiria reconhecer que práticas organizadas de forma compartimentalizada tendem a não responder às necessidades concretas das mulheres, demandando maior articulação entre saberes e reorganização das formas de atenção em saúde.
A interseção entre disrupção biográfica, corpo e gênero mostra que a experiência do adoecimento não pode ser compreendida por meio de categorias isoladas. Estamos diante de um processo no qual esses eixos se constituem mutuamente, reorganizando formas de existir, de perceber o corpo e de se situar socialmente. O cuidado se apresenta como dimensão constitutiva da própria experiência, ao articular práticas, sentidos e relações que sustentam o viver com a doença.
À luz dos eixos identificados nesta revisão, manejo dos sintomas, mudanças corporais associadas à menopausa precoce e sofrimento psíquico, torna-se possível tensionar a forma como a literatura organiza o fenômeno e os modos como o cuidado vem sendo produzido. No contexto do Sistema Único de Saúde, a centralidade do manejo sintomático, frequentemente desvinculado das transformações corporais e das repercussões subjetivas, aponta para um modelo assistencial ainda marcado por respostas parciais. A persistência dos sintomas climatéricos após o tratamento inicial evidencia que o acompanhamento dessas mulheres não pode se encerrar no controle da doença e requer a construção de trajetórias de cuidado longitudinal que reconheçam a continuidade da experiência de adoecimento no cotidiano. Entre mulheres jovens, essa exigência ganha contornos próprios, uma vez que a menopausa induzida atravessa projetos de vida, sexualidade, inserção social e expectativas de futuro, produzindo deslocamentos que não se deixam reduzir a parâmetros clínicos isolados. A integração entre níveis assistenciais deixa de ser um princípio abstrato e passa a se configurar como condição concreta para o cuidado, com articulação entre a atenção especializada, a atenção primária e os dispositivos de suporte psicossocial. A dificuldade em sustentar essa integração tende a reproduzir a fragmentação observada na própria literatura, limitando a capacidade dos serviços de responder à complexidade da experiência vivida e reforçando a necessidade de estratégias que aproximem manejo clínico, escuta qualificada e construção compartilhada do cuidado no âmbito das políticas públicas.
Conclusão
Este estudo demonstra que a experiência do adoecimento, ao articular corpo, gênero e disrupção biográfica, reorganiza modos de existir e torna o cuidado uma dimensão constitutiva da vida em saúde. Essa formulação desloca o cuidado de uma prática complementar para um elemento estruturante da experiência do adoecimento. A literatura analisada mostra predominância de abordagens centradas no controle de sintomas, com foco em manifestações específicas, o que expõe limites importantes quando se busca compreender a complexidade do adoecimento??³. A centralidade atribuída ao controle de manifestações específicas contribui para obscurecer a articulação entre dimensões que, na experiência das mulheres, se apresentam de forma indissociável.
Ao tratar dimensões clínicas, subjetivas e socioculturais de forma dissociada, os estudos tendem a produzir uma leitura setorizada, que não acompanha a forma como o fenômeno se apresenta na experiência das mulheres. Os achados reunidos indicam deslocamentos na percepção do corpo, rupturas nas trajetórias de vida e repercussões nas relações sociais¹???. Uma compreensão interligada demanda práticas clínicas que ultrapassem protocolos centrados em sintomas isolados e incorporem a escuta das trajetórias, das relações e dos sentidos atribuídos ao corpo e à doença.
A perspectiva do cuidado, ao articular saber técnico e experiência, desloca o foco da doença para a relação com quem a vive¹¹. A centralidade da relação no cuidado exige reconhecer a singularidade das experiências e a necessidade de negociação contínua entre saber técnico e projeto de vida. Na prática, isso implica reconhecer que a condução do cuidado não pode se restringir à padronização de intervenções, exigindo abordagens que incluam escuta, negociação e reconhecimento das trajetórias singulares.
O corpo adoecido emerge como espaço de produção de sentido, atravessado por normas sociais e relações de poder¹8?²3. A atenção em saúde deixa de se limitar à intervenção sobre o sintoma e passa a envolver formas de relação que sustentam o viver com a doença. O corpo, nesse processo, se constitui como território no qual se inscrevem normas sociais, expectativas e espaço de reconhecimento. Os resultados indicam a necessidade de estratégias de cuidado que operem de forma integrada, articulando dimensões clínicas e socioculturais, sem reduzir a experiência a compartimentos isolados. A incorporação dessa perspectiva requer mudanças na organização do trabalho em saúde, com ampliação do tempo de escuta, maior integração entre profissionais e valorização de abordagens interdisciplinares.
A fragmentação observada na literatura também revela limites na forma como os sistemas de saúde organizam suas respostas. A baixa presença de práticas interdisciplinares e a pouca valorização das dimensões subjetivas e sociais indicam um modelo ainda centrado na doença. Surge, assim, uma dissociação entre o modo como o adoecimento é vivido e a forma como o cuidado é estruturado. A relação com uma racionalidade orientada por eficiência e controle de custos contribui para restringir o espaço de práticas voltadas à integralidade?. Ampliar condições institucionais torna-se necessário. Isso envolve organização do trabalho em saúde, tempo disponível para escuta clínica e maior articulação entre níveis de atenção. A reorganização das práticas de cuidado envolve também escolhas institucionais e políticas que definem prioridades, alocação de recursos e modos de atenção à saúde.
O estudo também aponta para a necessidade de aprofundar investigações sobre sintomas climatéricos em mulheres jovens, especialmente em contextos marcados por desigualdades. Pesquisas futuras podem explorar com maior detalhe a relação entre corpo, gênero e cuidado em diferentes cenários sociais, contribuindo para aproximar produção científica e prática assistencial??¹³. Investigações futuras podem avançar na articulação entre diferentes delineamentos metodológicos, bem como na exploração de contextos sociais diversos, ampliando a compreensão das formas de viver o adoecimento.
A fragmentação está nas formas de produzir conhecimento e organizar o cuidado. Reconhecer essa dissociação constitui passo fundamental para orientar mudanças tanto na produção do conhecimento quanto nas práticas de cuidado. Superar essa incongruência exige deslocamentos no campo científico, na prática clínica e na formulação de políticas públicas. Avançar nessa direção implica reposicionar o cuidado como eixo organizador das respostas em saúde, capaz de articular dimensões clínicas e sociais de forma integrada.
Referências
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Maroun, PS, Leibold, BP, Guimarães, IP, Silva, JBC. Sintomas climatéricos em mulheres jovens com câncer de mama: uma revisão de escopo sobre experiência e cuidado. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 13/07/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/sintomas-climatericos-em-mulheres-jovens-com-cancer-de-mama-uma-revisao-de-escopo-sobre-experiencia-e-cuidado/20074?id=20074&id=20074

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