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Artigos

0225/2026 - Triagem Nível 1 para autismo: Revisão Integrativa sobre Eficácia, Características e Adaptações Culturais
Screening level 1 for autism: integrative review about efficacy, characteristics and cultural adaptations

Autor:

• Maira Pereira Sampaio Macêdo - Macêdo, MPS - <maira.macedo@urca.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8557-8164

Coautor(es):

• Mírian Cecília Silva Matias - Matias, MCS - <mirian.matias@urca.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0007-2506-4202

• Joseph Dimas de Oliveira - Oliveira, JD - <joseph.oliveira@urca.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8105-4286



Resumo:

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do
neurodesenvolvimento cuja identificação precoce pode melhorar os desfechos
clínicos e a qualidade de vida das crianças afetadas. Objetivou-se realizar uma
revisão integrativa da literatura sobre os instrumentos de triagem nível 1 para o
TEA, analisando sua eficácia, características e a necessidade de adaptações
transculturais. A metodologia seguiu as diretrizes de Mendes, Silveira e
Galvão (2008), com busca em bases como LILACS, MEDLINE e PUBMED.
Foram incluídos 16 estudos que avaliaram oito ferramentas, destacando
variações em sensibilidade e especificidade. Os resultados indicam que oito
instrumentos foram estudados, sobressaindo-se estudos com o M-CHAT-R/F,
porém observaram-se desafios quanto ao seu uso em países em
desenvolvimento. Conclui-se que existem diferentes instrumentos úteis na
triagem nível 1 que leva à necessidade de capacitação dos profissionais da
atenção primária à saúde e, consequentemente, otimizar a identificação das
crianças em risco para autismo.

Palavras-chave:

Transtorno do Espectro Autista, Triagem, Atenção Primária à Saúde.

Abstract:

Autism Spectrum Disorder (ASD) is a neurodevelopmental disorder
whose early identification can improve clinical outcomes and the quality of life
of affected children. This study aimed to conduct an integrative literature
review on level 1 screening instruments for ASD, analyzing their effectiveness,
characteristics, and the need for cross-cultural adaptations. The methodology
followed the guidelines of Mendes, Silveira, and Galvão (2008), with searches
conducted in databases such as LILACS, MEDLINE, and PUBMED. Sixteen
studies were included, evaluating eight tools, highlighting variations in
sensitivity and specificity. The results indicate that eight instruments were
studied, with emphasis on studies using the M-CHAT-R/F, although
challenges were noted regarding its use in developing countries. It is concluded
that there are different useful instruments for level 1 screening, highlighting

Keywords:

Autism Spectrum Disorder, Screening, Primary Health Care.

Conteúdo:

Introdução
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento, com
início na infância e que se estende na adolescência e por toda a vida. A última pesquisa dos
Estados Unidos da América apontou uma prevalência de uma criança com autismo para cada
31 crianças entre crianças de até oito anos. Para alguns indivíduos, a convivência com o TEA
não incapacita para atividades rotineiras, no entanto, uma parte apresenta importantes
incapacidades e precisam de apoio por toda a vida 1, 2 .
A avaliação da criança suspeita de autismo se divide em duas etapas: a triagem e a
investigação diagnóstica. A triagem divide-se em duas etapas: nível 1 e nível 2, onde na
primeira etapa identificam-se as crianças em risco para autismo e na segunda, confirma-se o
risco. A investigação diagnóstica, por sua vez, consiste na confirmação do diagnóstico de
autismo. Recomenda-se em todas as etapas, a utilização de instrumentos para cada objetivo
associados a à anamnese detalhada de cada criança 3 .

__
3
A triagem deve ser feita no nível da atenção primária à saúde (APS) enquanto a
investigação diagnóstica deve ser realizada nos demais níveis. No Brasil, a APS é
representada pela Estratégia de Saúde da Família (eSF) que é composta por médicos/as,
enfermeiros/as, técnicos/as de enfermagem e agentes comunitários de saúde. Assim, cabe ao/à
médico/a e ao/à enfermeiro/a a realização da triagem para o autismo e, portanto, a
identificação das crianças com risco para autismo 4, 5, 6, 3 .
A triagem nível 1, portanto, é o primeiro passo da avaliação da criança com suspeita de
autismo e acontece através da anamnese e da aplicação de instrumentos de rastreio utilizando-
se entrevistas junto aos pais e/ou cuidadores. A utilização da triagem nível 1 deve ser rotina
na APS, e ainda, a depender da organização do serviço, a triagem nível 2 também 4, 7 .
A triagem adequada de crianças com suspeita de autismo depende de instrumentos
padronizados, de rápida aplicabilidade, bem direcionados, com boa sensibilidade e
especificidade e que possam ser inseridos dentro das consultas de rotina para os profissionais
da APS 4, 7, 8, 9 .
No Brasil, a APS é operacionalizada majoritariamente por meio da Estratégia de Saúde da
Família (eSF), onde profissionais como médicos e enfermeiros assumem papel central na
realização da triagem do desenvolvimento infantil, incluindo o TEA. Apesar disso, a
incorporação sistemática de instrumentos de triagem ainda enfrenta desafios relacionados à
organização dos serviços, à capacitação profissional e às condições de trabalho, o que pode
comprometer a efetividade dessas ações no cotidiano da prática 5-6-7 .
Atualmente, o instrumento Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised with
Follow-Up (M-CHAT-R/F) é amplamente recomendado e encontra-se incorporado à
Caderneta de Saúde da Criança como ferramenta de triagem para o TEA. No entanto, a
existência de um instrumento oficialmente indicado não garante sua utilização efetiva na
prática dos serviços. Estudos apontam limitações relacionadas ao tempo disponível nas

__
4
consultas, à falta de treinamento dos profissionais e às dificuldades na adaptação cultural e
compreensão por parte dos cuidadores, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade
social 3-7-8 .
Além disto, a literatura aponta a existência de mais de 20 instrumentos de triagem para
autismo, embora poucos estejam devidamente traduzidos, adaptados e validados para o
cenário nacional. Nesse tocante, existem poucos estudos testados e escassos instrumentos
disponíveis, no nosso cotidiano, o que coloca o país em posição de desvantagens sobre a
performance desses instrumentos na realidade brasileira 10 .
Sob a perspectiva da Saúde Coletiva, a triagem para o TEA deve ser compreendida não
apenas como uma etapa técnica do cuidado individual, mas como uma estratégia fundamental
para a organização da rede de atenção, promoção da equidade no acesso ao diagnóstico e às
intervenções precoces, e redução das iniquidades em saúde. Nesse sentido, ampliar o
conhecimento sobre os instrumentos disponíveis e suas aplicabilidades pode contribuir para o
fortalecimento das práticas na APS e para a qualificação do cuidado às crianças com suspeita
de TEA 4-5-6-7 .
Diante desse contexto, torna-se relevante identificar e analisar criticamente o
conhecimento científico produzido sobre instrumentos de triagem nível 1 para o TEA,
considerando suas características, eficácia e necessidades de adaptação transcultural. Assim, o
presente estudo teve como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura sobre os
principais instrumentos de triagem nível 1 para o Transtorno do Espectro Autista, com o
propósito de subsidiar a qualificação da identificação precoce no âmbito da Atenção Primária
à Saúde.

Métodos

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura sobre instrumentos de triagem nível 1
para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), conduzida conforme as etapas propostas por
Mendes, Silveira e Galvão (2008), que compreendem: identificação do problema, busca na
literatura, avaliação dos dados, análise e apresentação dos resultados 11 .
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do
Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System
Online (MEDLINE), Base de Dados de Enfermagem (BDENF) e PubMed. Foram utilizados
descritores controlados dos vocabulários DeCS/MeSH, combinados por meio do operador
booleano AND, incluindo: “Autism Spectrum Disorder”, “Screening”, “Primary Health
Care”, “Diagnostic Screening Programs” e termos relacionados à tradução e adaptação
cultural.
A pergunta com o mnemônico PVO (População, Intervenção, Comparador, Outcome),
sendo a população/paciente/problema (crianças com suspeita de transtorno do espectro
autista), a variável (o conhecimento científico sobre instrumentos de triagem de nível 1) e o
outcome (desfecho) foram os instrumentos de triagem nível 1. Dessa forma, a pergunta
norteadora ficou estabelecida da seguinte forma: “Qual o conhecimento científico produzido
sobre instrumentos de triagem de nível 1 para crianças com suspeita de autismo?".
Foram incluídos estudos publicados no período de 2013 a 2024, nos idiomas
português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra, que abordassem instrumentos de triagem
nível 1 para o TEA em crianças. Optou-se por esse recorte temporal considerando o aumento
da produção científica sobre o tema na última década e as atualizações recentes dos
instrumentos de triagem.
Os critérios de inclusão foram: artigos originais, estudos de validação, estudos de
adaptação transcultural, relatos de experiência e estudos de caso clínico que abordassem a
aplicação de instrumentos de triagem nível 1 para o TEA. A inclusão de relatos de experiência

e estudos de caso clínico se justifica pela escassez de estudos com delineamentos mais
robustos em determinados contextos, especialmente em países em desenvolvimento,
permitindo ampliar a compreensão sobre a aplicabilidade prática dos instrumentos na Atenção
Primária à Saúde.
Foram excluídos editoriais, revisões de literatura, estudos duplicados, estudos que não
atendiam ao objetivo da pesquisa (triagem nível 1), estudos voltados exclusivamente para
diagnóstico, bem como aqueles que abordavam populações diferentes da faixa etária infantil.
O processo de busca ocorreu entre agosto e setembro de 2024. A seleção dos estudos
foi realizada em etapas: inicialmente, leitura de títulos e resumos; em seguida, leitura na
íntegra dos artigos potencialmente elegíveis. A organização das referências e a remoção de
duplicatas foram realizadas com o auxílio do software EndNote.
Para sistematizar o processo de seleção, foi utilizado o fluxograma PRISMA,
permitindo transparência na identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos.
A extração dos dados foi realizada por meio de planilha estruturada, contemplando
informações como: tipo de instrumento, população-alvo, faixa etária, contexto de aplicação,
tempo de aplicação, sensibilidade e especificidade. Os dados foram analisados de forma
descritiva e interpretativa, buscando identificar padrões, lacunas e implicações para a prática
na Atenção Primária à Saúde.

Fig.1

Resultados
A busca inicial resultou em 649 artigos, dos quais cinco eram duplicados. Após a triagem
inicial dos títulos e resumos, foi possível acessar 88 artigos com texto completo, destes 16
atenderam aos critérios de inclusão e foram selecionados para a extração de dados.

Tab.1

A revisão identificou oito instrumentos para a triagem nível 1 de autismo, conforme
observado na Tabela 1. Os instrumentos foram: Questionários de Idades e Estágios, Terceira
Edição (ASQ-3), Lista de Verificação Modificada para Autismo em Crianças, Revisada com
Follow-UP (M-CHAT R/F), Lista de Verificação Modificada para Autismo em Crianças (M-
CHAT), O Childhood Autism Spectrum Test (CAST), Observação dos pais de Interação
(POSI), Ferramenta de Triagem para Autismo em Crianças (STAT), Escala de Avaliação do
Espectro do Autismo (ASRS) e Lista de Verificação para Crianças Pequenas (ITC). O M-
CHAT e o M-CHAT R/F se referem ao mesmo instrumento, mas com uma revisão dos itens e
redução do instrumento, sendo os mais citados, representando metade dos artigos.

As duas versões da Lista de Verificação Modificada para Autismo em Crianças (M-CHAT
e M-CHAT R/F) fez com que o instrumento fosse citado no maior número de publicações.
Esse instrumento é utilizado na triagem em crianças de 18 a 24 meses, validado para o Brasil,
de uso gratuito, com sensibilidade e especificidade comprovadas e que os autores estimulam a
sua tradução em diversas línguas 8 .
O Childhood Autism Spectrum Test (CAST) foi outra ferramenta encontrada e que tem
se mostrado útil na identificação de sinais sutis de TEA em crianças. Um estudo realizou a
versão em espanhol do CAST, método de retrotradução descrito por Hambleton, em uma
população de 1496 crianças, na faixa etária de 4 a 11 anos e apresentou valores de
sensibilidade (83,9%) e especificidade (92,5%) no ponto de corte 15 (VPP 5 ± 0,63),
comprovando ser válido e confiável para triagem de manifestações mais leves ou sutis de
TEA 12 .
Outro estudo teve uma intervenção bem-sucedida no aumento nas taxas de triagem
utilizando os instrumentos Ages and Stages Questionnaires (ASQ-3) e a Modified Checklist
for Autism in Toddlers (M-CHAT) e aumento o número de encaminhamentos para o serviço
especializado e que a intervenção talvez possa ter levado os profissionais a considerar os
marcos de desenvolvimento com maior frequência e favorecer a comunicação efetiva entre as
famílias 13 .
Em substituição ao M-CHAT, foi trazido a utilização do instrumento Observação dos
Pais de Interação (POSI), que é composto por perguntas que avaliam a consistência do
comportamento da criança e apresenta sensibilidade de 75%–94% e especificidade de
41%–74%, sendo que foi criado uma versão eletrônica do instrumento e implementado no
sistema de prontuários lembretes para os médicos sobre a aplicação, dependendo da faixa
etária da criança 14 .

Um estudo sobre a Ferramenta de Triagem para Autismo em Crianças Pequenas e
Crianças Pequenas (STAT) se utilizada em treinamento formal era um modelo de prática
preciso e realista para o diagnóstico. Dessa forma, desenvolveu um novo estudo com o
objetivo de fornecer dados pré/pós-implementação do modelo simplificado em uma gama
diversificada de clínicas que oferecem assistência médica para comunidades rurais e
carentes 15 .
O STAT se refere a uma avaliação padrão que aborda 12 atividades simples baseadas
em brincadeiras e habilidades de comunicação social, com uma aplicação de 15 a 20 minutos
e na base da observação o item é pontuado como aprovado/reprovado. Inicialmente foi
desenvolvido para crianças de 24 a 36 meses, mas pontos de corte de pontuação validados
estão disponíveis para crianças de 14 a 47 meses. Em outro estudo, as famílias tiveram que
esperar uma média de 95 dias a menos do que as famílias que não tinham acesso ao modelo
STAT e a média do diagnóstico foi de 31,1 meses para pacientes em comparação com 32,6
para pacientes não tiveram acesso a implementação 15 .
A Escala de Avaliação do Espectro do Autismo (ASRS) é um instrumento de triagem
recém desenvolvido, composta por 71 itens, que contou com uma única análise fatorial
realizada nos Estados Unidos. A faixa etária de utilização é de 2 a 5 anos e de 6 a 18 anos.
Nos estudos realizados nos Estados Unidos, a escala apresentou pontuações significativas em
crianças com TEA. Em uma amostra chinesa, demonstrou excelente validade discriminante,
bem como boa sensibilidade (65,63% a 94,2%) e especificidade (82% à 85,63), sendo uma
ferramenta útil e confiável para a população chinesa 16 .
O Infant Toddler Checklist (ITC) foi outro instrumento onde avaliou-se a validade
preditiva. Ele é composto por 24 itens, para identificação precoce de crianças de 6 a 24 meses
que têm, ou estão em risco de desenvolver, um comprometimento da comunicação e é uma
ferramenta na triagem do TEA. Buscando avaliar o ITC, foi realizado um estudo com 488

crianças onde a sensibilidade foi de 23%–31%, a especificidade de 92%–95%, as taxas de
falsos positivos de 5%–8%, o VPP de 17%–21% 17 .
Em relação ao ano de publicação, identificou-se que os estudos ocorreram ao longo de em
oito anos, sendo eles: 2013 (6%), 2016 (19%), 2017 (6%), 2018 (6%), 2019 (13%), 2020
(19%), 2021 (13%), 2022 (6%) e 2023 (13%), ou seja, entre os anos de 2013 e 2019 foram
publicados 50% dos artigos identificados e entre 2020 a 2023 foi publicada uma quantitativo
igual.
O idioma prevalente todos os artigos publicados era o inglês (100%) e relataram o
processo de tradução, adaptação e/ou validação dos instrumentos para idiomas como inglês
(69%), espanhol (19%), chinês (13%), nepalês (6%), e árabe (6%). No que se refere ao idioma
é importante salientar que dois estudos realizaram traduções para o idioma espanhol e inglês
conjuntamente, o que justifica um percentual superior a 100%.
Os estudos incluídos foram realizados em seis países: nove nos Estados Unidos da
América (EUA), dois na China, dois no Canadá, um na Espanha, um no Egito e um em
Singapura, conforme mostra a tabela 2. Assim, é possível analisar que foram oriundos de
países desenvolvidos (EUA, Canadá e Espanha) e em desenvolvimento (China, Egito e
Singapura), respectivamente 75% e 25%.

Tab.2

O número de participantes dos estudos é um aspecto que vale destacar, pois difere
significativamente, variando de 13 a 26.364. Destaca-se que metade (50%) dos estudos
trabalhou com população maior que 1 mil pessoas, e dois (13%) a população foi superior a 10
mil participantes.
Os estudos tiveram muitos objetivos, mas em sua maioria abordou a tradução e adaptação
cultural de instrumentos a aplicação da triagem inicial como ferramenta necessária para o
diagnóstico precoce, analisando especificidade e sensibilidade. Apenas dois estudos não
apresentaram essa informação. A faixa etária de aplicação dos estudos foi em sua maioria em
crianças de 16 a 60 meses, o que reforça a importância de que a triagem deve ser realizada nos
anos iniciais. Um estudo trabalhou com crianças até 11 anos e outro até 12 anos.
A sensibilidade se refere à capacidade do instrumento de identificar corretamente as
crianças autistas. Em outras palavras, é a proporção de crianças autistas corretamente
identificada pelo instrumento em relação ao total de crianças autistas presentes. Uma alta

sensibilidade significa que o instrumento é bom para identificar a maioria dos casos de
autismo 18 .
Os valores de referência de uma boa sensibilidade estão definidos na maioria das
diretrizes como superior a 80%. Assim, com a análise dos estudos, foi possível notar que o M-
CHAT R/F vem apresentando uma boa sensibilidade, o que pode ser assegurado devido a sua
revisão e por ser um dos instrumentos mais traduzido e adaptado nos países, permitindo a sua
qualificação. Destaca-se ainda, a baixa sensibilidade do ITC, o que pode levar a uma triagem
de baixa qualidade, não oportunizando a investigação diagnóstica 18 .
A especificidade é a proporção de verdadeiros negativos. Um valor de especificidade
superior a 80% também é geralmente considerado bom. Isso significa que o instrumento é
capaz de identificar corretamente 80% ou mais das crianças que não têm autismo. Se um
instrumento tem alta especificidade, ele vai identificar com precisão a maioria das crianças
não autistas, evitando o risco de rotular erroneamente crianças sem autismo como tendo a
condição 18 . Assim, o M-CHAT R/F e o M-CHAT mantêm sua qualidade, mas cabe destacar
que instrumentos como CAST, ASRS e ITC apresentam boa especificidade

Tab.3

A sensibilidade dos estudos se apresentou de forma diversificada, sendo o M-CHAT R/F
com maior percentual (98%). Em seguida, pode-se destacar o ASRS (94,2%), CAST (83,9%),
STAT (78 a 100%), POSI (75 a 94%), M-CHAT (50 a 78%) e ITC (23 a 31%). Ainda nos
estudos foi possível localizar uma variação de sensibilidade do M-CHAT R/F (88,6%), do M-
CHAT (33%), do ASRS (65,93%) e o ITC (11 a 32%). Os estudos incluídos nesta revisão não
citaram valores de sensibilidade e especificidade sobre o ASQ-3 19, 12, 13, 14, 20 .
A especificidade do M-CHAT R/F apresentou em um dos estudos um valor absolutamente
igual a sensibilidade (98%) em um dos estudos e 71,4% em outro, em seguida o M-CHAT
com 97,8%. O CAST (92,5%) apresenta sensibilidade próxima ao M-CHAT, assim como o
ITC (92 a 95% e 91 a 96%). O STAT apresentou especificidade de 57 a 78% e o POSI de 41 à
74% 19, 15, 16, 21 .

Discussão

A triagem nível 1 para o TEA constitui uma estratégia fundamental para a
identificação precoce de crianças em risco, possibilitando o encaminhamento oportuno para
investigação diagnóstica e intervenções especializadas. No contexto da APS, essa prática

assume papel estratégico, considerando sua capilaridade, proximidade com as famílias e
potencial de acompanhamento longitudinal do desenvolvimento infantil.
Os achados desta revisão evidenciam a existência de diferentes instrumentos de
triagem nível 1, com variações quanto à sensibilidade, especificidade, faixa etária e contexto
de aplicação. Observou-se a predominância do M-CHAT-R/F na literatura, o que reforça sua
ampla utilização e reconhecimento internacional. No Brasil, esse instrumento encontra-se
incorporado à Caderneta de Saúde da Criança, configurando-se como principal ferramenta
recomendada para o rastreamento do TEA na APS 3,17, 14, 20 .
Entretanto, a existência de um instrumento oficialmente indicado não garante sua
efetiva utilização na prática dos serviços de saúde. Fatores como o tempo reduzido das
consultas, a sobrecarga dos profissionais, a ausência de capacitação específica e dificuldades
na compreensão dos itens por parte dos cuidadores podem comprometer sua aplicação
sistemática. Dessa forma, observa-se que a incorporação de instrumentos de triagem depende
não apenas de sua disponibilidade, mas também de condições organizacionais e estruturais
que favoreçam sua implementação no cotidiano da APS 8, 5 .
Além disso, a identificação de outros instrumentos com desempenho relevante, como
CAST, STAT, POSI e ASRS, evidencia a possibilidade de ampliação do repertório de
ferramentas disponíveis para a triagem do TEA. No entanto, a limitada adaptação
transcultural e validação desses instrumentos para o contexto brasileiro restringe sua
utilização, mantendo a dependência de ferramentas desenvolvidas em outros países. Esse
cenário reforça a necessidade de investimentos em estudos de validação e adaptação cultural,
considerando as especificidades linguísticas, sociais e culturais da população 12, 17, 14, 20,22 .
Sob a perspectiva da Saúde Coletiva, a triagem para o TEA deve ser compreendida
como uma ação que extrapola o âmbito clínico individual, integrando-se às estratégias de
vigilância do desenvolvimento infantil e à organização da rede de atenção à saúde 22-23 . A

identificação precoce pode reduzir o tempo até o diagnóstico, antecipar o início das
intervenções e contribuir para melhores desfechos, além de impactar na redução de
iniquidades no acesso aos serviços especializados.
Outro aspecto relevante refere-se à concentração de estudos em países desenvolvidos,
o que limita a generalização dos achados para contextos como o brasileiro. As diferenças nos
sistemas de saúde, nas condições socioeconômicas e na organização dos serviços influenciam
diretamente a aplicabilidade dos instrumentos de triagem, evidenciando a necessidade de
produção científica contextualizada para países de baixa e média renda 10,23,24,25 .
A análise dos indicadores de sensibilidade e especificidade demonstra que não há um
instrumento ideal para todos os contextos, sendo necessária a escolha baseada nos objetivos
da triagem e nas condições de aplicação. Na APS, pode ser mais adequado priorizar
instrumentos com maior sensibilidade, visando reduzir a ocorrência de falsos negativos e
ampliar a identificação de crianças em risco. Por outro lado, instrumentos com maior
especificidade podem contribuir para evitar encaminhamentos desnecessários, especialmente
em cenários com recursos limitados 10,18,23,22 .
Adicionalmente, a qualificação dos profissionais de saúde emerge como elemento
central para a efetividade da triagem. A ausência de capacitação adequada pode comprometer
tanto a aplicação quanto a interpretação dos instrumentos, reduzindo seu potencial impacto.
Nesse sentido, estratégias de educação permanente em saúde devem ser fortalecidas, com
vistas a ampliar a capacidade resolutiva da APS no cuidado às crianças com suspeita de
TEA 4,10,26 .
Por fim, destaca-se que o fortalecimento da triagem nível 1 para o TEA depende de
uma abordagem integrada, que envolva a disponibilização de instrumentos adequados,
capacitação profissional, organização do processo de trabalho e articulação com a rede de
atenção especializada. A incorporação de tecnologias digitais e sistemas de apoio à decisão

clínica também pode representar uma estratégia promissora para ampliar a cobertura e a
qualidade da triagem. Assim, a qualificação dessas ações contribui para o fortalecimento dos
princípios do Sistema Único de Saúde, especialmente a integralidade e a equidade no cuidado
à saúde infantil.

Considerações finais

A presente revisão integrativa evidenciou a existência de diferentes instrumentos de
triagem nível 1 para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), com variações em termos de
sensibilidade, especificidade, faixa etária e aplicabilidade. Observou-se a predominância do
M-CHAT-R/F como principal ferramenta utilizada e recomendada, inclusive no contexto
brasileiro, embora outros instrumentos também apresentam potencial relevante para o
rastreamento precoce.
Entretanto, os achados indicam que a disponibilidade de instrumentos não garante sua
efetiva incorporação na prática da APS. Fatores como limitações na organização dos serviços,
ausência de capacitação profissional e dificuldades relacionadas à adaptação cultural podem
comprometer a realização sistemática da triagem, impactando negativamente a identificação
precoce de crianças em risco para TEA.
Do ponto de vista da Saúde Coletiva, a triagem nível 1 deve ser compreendida como
uma estratégia essencial para o fortalecimento da vigilância do desenvolvimento infantil,
contribuindo para a ampliação do acesso ao diagnóstico precoce, organização da rede de
atenção e redução das iniquidades em saúde.
Diante desse cenário, recomenda-se: o incentivo à tradução, adaptação transcultural e
validação de diferentes instrumentos para o contexto brasileiro; a ampliação do uso de
tecnologias digitais e sistemas de apoio à decisão clínica, com potencial de facilitar a

incorporação da triagem no cotidiano dos serviços; e o desenvolvimento de políticas públicas
que incentivem a implementação sistemática da triagem do TEA na APS.
Adicionalmente, ressalta-se a necessidade de novos estudos com delineamentos
metodológicos mais robustos, especialmente em países de baixa e média renda, que possam
subsidiar a escolha de instrumentos mais adequados às diferentes realidades e contribuir para
o aprimoramento das práticas de cuidado.

Colaboradores
MPS Macêdo trabalhou na investigação, metodologia, coleta e análise dos dados, redação e
edição do manuscrito MCS Matias contribuiu na metodologia, coleta e análise dos dados.
MCS Matias e MPS Macêdo participaram do delineamento metodológico, revisão e edição do
manuscrito. JD Oliveira orientou todas as etapas da pesquisa, desde o delineamento do tema
até a revisão final, atuando nas etapas de coleta e análises dos dados.
Financiamento
O artigo foi financiado com recursos próprios.

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Macêdo, MPS, Matias, MCS, Oliveira, JD. Triagem Nível 1 para autismo: Revisão Integrativa sobre Eficácia, Características e Adaptações Culturais. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/ago). [Citado em 27/08/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/triagem-nivel-1-para-autismo-revisao-integrativa-sobre-eficacia-caracteristicas-e-adaptacoes-culturais/20123?id=20123

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