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Artigos

0141/2026 - A Apropriação da Obra de Byung-Chul Han Pelo Campo da Saúde Coletiva no Brasil: uma revisão narrativa
The Appropriation of Byung-Chul Han's Work by the Field of Collective Health in Brazil: A Narrative Review

Autor:

• Artur Junior Santos Cardoso - Cardoso, AJS - <artur.cardoso@academico.ufpb.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6265-3187

Coautor(es):

• Rogerio Lopes Azize - Azize, RL - <rogerioazize@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1876-8507



Resumo:

O estudo analisa a recepção da obra de Byung-Chul Han no campo da Saúde Coletiva no Brasil. O objetivo é compreender como as ideias do filósofo sul-coreano têm sido incorporadas em discussões relevantes para a área da saúde. A metodologia envolveu um levantamento bibliográfico em plataformas digitais, buscando artigos científicos que abordassem questões de saúde em diálogo com Han, então submetidos a uma revisão narrativa. Os resultados indicam que as ideias de Han têm sido utilizadas em debates sobre a pandemia da Covid-19, contextos de trabalho, saúde mental e fenômenos de violência, demonstrando sua relevância para os estudos de saúde coletiva no Brasil.

Palavras-chave:

Byung-Chul Han, Saúde Coletiva, Brasil.

Abstract:

Abstract: The study analyzes the reception of Byung-Chul Han's work in the field of Public Health in Brazil. The aim is to understand how the ideas of the South Korean philosopher have been incorporated into relevant discussions in the health field. The methodology involved a bibliographic survey on digital platforms, searching for scientific articles that addressed health issues in dialogue with Han, which were then subjected to a narrative review. The results indicate that Han's ideas have been used in debates about the Covid-19 pandemic, work contexts, mental health, and phenomena of violence, demonstrating their relevance to public health studies in Brazil.

Keywords:

Byung-Chul Han, Collective Health, Brazil.

Conteúdo:

Introdução

Uma das matérias mais lidas da história do jornal/site El País na América Latina foi publicada em 2018 e fala sobre o filósofo sul-coreano (atualmente radicado na Alemanha) Byung-Chul Han. A matéria1 em questão aponta Han como um “filósofo que se tornou viral”, devido à sua popularidade singular, que extrapola os ambientes acadêmicos. No Brasil, especificamente, essa viralidade é notória: de 2015 até o presente momento deste artigo foram mais de 20 livros publicados em português; artigos científicos das mais variadas áreas do conhecimento lançam mão do pensamento do filósofo; além da produção de conteúdo digital, através de redes sociais, que buscam divulgar livros e ideias de Byung-Chul Han. Ainda que o autor não se refira diretamente ao heterogêneo contexto brasileiro (no qual a sobrevivência pode ser mais premente que o desempenho), suas reflexões sobre o sofrimento, a produtividade e a autoexploração dialogam com modos de subjetivação certamente presentes em nosso contexto e que dialogam com o campo da saúde. A relevância de sua leitura, portanto, não reside em um diagnóstico local, mas em sua capacidade de iluminar processos históricos que atravessam também a realidade brasileira. Talvez por isso, seja um autor viral em nosso país.
A obra filosófica de Byung-Chul Han dedica-se a investigar as modalidades de sofrimento do sujeito na contemporaneidade, marcadas por fenômenos como a depressão, a ansiedade, a insônia, a hiperatividade e a exaustão. Ele propõe uma interpretação desses fenômenos à luz das relações entre as estruturas políticas, econômicas e sociais e os indivíduos na sociedade atual2. Um dos eixos centrais do seu projeto filosófico consiste em examinar as formas de organização e atuação do poder e do capitalismo na atualidade, bem como as implicações políticas desse cenário2,3.
Han desenvolve em sua obra uma crítica à racionalidade econômica que permeia e conforma as relações do sujeito com o trabalho, o lazer, os espaços virtuais e a saúde. Essas relações, segundo ele, favorecem um processo de subjetivação que engendra um novo tipo de sujeito, denominado pelo filósofo sul-coreano como “sujeito do desempenho”2,3: uma figura que, movida por uma exigência de alta produtividade e performance em todos os âmbitos de sua existência, explora a si mesmo de forma violenta, sem a necessidade de qualquer coerção externa, e que paga o preço dessa violência com sua saúde, padecendo física e mentalmente.
Em suas obras, o filósofo dialoga com grandes intelectuais das Ciências Sociais e Humanas, como Foucault, Bourdieu, Agambem, Arendt, Ehrenberg, Bauman, Marx, Dardot, Laval e muitos outros; se juntarmos as pontas de seus temas centrais, suas referências de apoio e diálogo, seu enfoque crítico no campo da saúde e da saúde mental, fica sugerida uma conexão entre suas perspectivas e tais campos. No entanto, o impacto de suas ideias no campo da saúde em termos gerais e mais particularmente na Saúde Coletiva nos pareceu uma pergunta intrigante e uma questão em aberto. Levando em conta o leque de temas abordados por Han e seu mencionado caráter viral, partimos da hipótese de que ele poderia estar sendo amplamente lido e utilizado no campo da saúde coletiva, o que teria como consequência natural um grande número de citações.
Embora outros pensadores críticos – tais como alguns dos mencionados anteriormente – tenham examinado as intersecções entre capitalismo, saúde e trabalho, Han oferece uma contribuição singular ao deslocar o foco para as dinâmicas subjetivas do neoliberalismo. Sua análise do “sujeito do desempenho” e da “sociedade do cansaço” amplia o entendimento das formas contemporâneas de sofrimento, ao revelar como a lógica produtivista se internaliza e se transforma em autocoerção. Essa perspectiva, centrada nas tecnologias de poder que operam sobre a psique e a afetividade, oferece à Saúde Coletiva uma ferramenta conceitual potente para compreender o sofrimento em tempos de hiperindividualização e autoexploração.
A proximidade entre Han e a Saúde Coletiva sugere então uma investigação pertinente sobre a interação entre ambos. É nesse contexto que se coloca o seguinte questionamento: como o campo da Saúde, em seus diversos âmbitos, mas especialmente da Saúde Coletiva, vem se apropriando do instrumental conceitual de Byung-Chul Han?
Investiga-se aqui as discussões acadêmicas relevantes e busca-se entender quais temas de saúde convocam o pensamento de Han, quais conceitos são usados e quais livros lidos. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica em plataformas digitais para encontrar artigos que o referenciem, priorizando o campo da saúde, mas atento a publicações em outras áreas que abordem questões relacionadas ao campo da saúde. Os artigos selecionados, então, foram analisados no formato de uma revisão narrativa.

Metodologia e resultados

Para entender como – ou se – a filosofia de Byung-Chul Han é utilizada na Saúde Coletiva, buscamos artigos na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), SciELO, Periódicos Capes e Google Acadêmico. Optou-se pela utilização dessas bases por combinarem amplitude e pertinência: as duas primeiras são referências centrais para a produção científica em Saúde Coletiva e áreas afins, enquanto as outras permitem mapear trabalhos de circulação mais ampla, incluindo produções interdisciplinares e emergentes.
A escolha de palavras-chave utilizadas na busca levou em consideração temas que são relevantes tanto na obra do filósofo sul-coreano, quanto no campo da Saúde Coletiva, tais como: Morte, Desempenho, Violência, Depressão, Saúde e Sofrimento; para além destes termos, palavras como Byung-Chul Han, Psicopolítica e Sociedade do Cansaço também foram utilizadas por contribuírem para especificar os resultados.
Nas buscas, ajustamos os filtros para mostrar apenas artigos em português publicados a partir de 2015. Isso foi feito por dois motivos: 1) Interesse em entender a influência de Byung-Chul Han nas discussões de saúde no contexto brasileiro; 2) O primeiro livro de Han, "Sociedade do Cansaço", foi publicado no Brasil em 2015, o que tornou a obra do autor ainda mais acessível e aumentou a sua circulação no mercado editorial brasileiro.
No site da BVS, apenas duas buscas encontraram artigos científicos pertinentes aos objetivos desta pesquisa: uma com o termo isolado "Psicopolítica", que gerou 8 artigos, dos quais 2 foram selecionados (Tabela 1); e outra com a palavra "Sofrimento", em combinação com o nome "Byung-Chul Han", que resultou em apenas 1 artigo selecionado dentre os 67 encontrados (Tabela 1). É importante destacar que os critérios para escolha dos artigos foram: serem escritos em português, publicados no Brasil após 2015, apresentarem discussões relevantes para a área da saúde e abordarem algum aspecto da filosofia de Han. Esses critérios balizaram as buscas e seleções de artigos que ocorreram nos outros sites e bases de indexação.
No Google Acadêmico, foram encontrados artigos importantes para esta pesquisa a partir de cinco combinações de palavras-chave diferentes. Na primeira busca, as palavras "Depressão" e "Byung-Chul Han" foram combinadas e, dentre os resultados obtidos, 5 artigos foram selecionados (Tabela 1). Na segunda busca, três palavras-chave foram utilizadas em combinação: "Desempenho", "Byung-Chul Han" e "Saúde", e, com isso, 1 artigo foi selecionado dentre os resultados que surgiram (Tabela 1). Para a terceira busca, "Morte" e "Byung-Chul Han" foram as palavras-chave, e a busca com essa combinação resultou na escolha de 4 artigos (Tabela 1). Na quarta busca, as palavras-chave foram "Violência", "Byung-Chul Han" e "Saúde", e 2 artigos foram selecionados (Tabela 1). Por fim, 3 artigos foram selecionados a partir da busca combinada entre as seguintes palavras-chave: "Sofrimento" e "Byung-Chul Han" (Tabela 1). Todas as buscas com palavras combinadas contaram com o operador “AND” entre elas, algo que ocorreu também nas buscas em outros sites.
Na plataforma de Periódicos da CAPES, as buscas realizadas seguiram combinações semelhantes às do Google Acadêmico. Foram encontrados 27 resultados na busca por “Depressão” e “Byung-Chul Han”, dos quais 2 foram selecionados (Tabela 1). Na combinação “Desempenho”, “Byung-Chul Han” e “Saúde”, foram encontrados 27 artigos, dos quais 4 foram selecionados (Tabela 1). Na busca por “Morte” e “Byung-Chul Han”, foram selecionados 4 artigos entre os 37 encontrados (Tabela 1). Na combinação “Violência”, “Byung-Chul Han” e “Saúde”, foram encontrados 42 artigos, mas apenas 1 foi selecionado (Tabela 1). Na busca por “Sofrimento” e “Byung-Chul Han”, foram encontrados 18 artigos, dos quais 1 foi selecionado (Tabela 1). Por fim, ao buscar apenas pelo termo “Sociedade do Cansaço”, foram encontrados 50 resultados, dos quais 2 foram escolhidos (Tabela 1). Os 14 artigos coletados na busca que ocorreu neste site estão de acordo com os critérios estabelecidos anteriormente como recorte.
A plataforma SciELO foi o último site onde as buscas ocorreram. Dois artigos foram selecionados a partir da busca pelo termo “Sociedade do cansaço”, e depois mais um outro artigo que foi encontrado a partir dos resultados que surgiram da busca por “Sofrimento” AND “Byung-Chul Han” (Tabela 1). Nenhuma das outras palavras-chave, isoladas ou em combinação, encontraram artigos relevantes para a discussão proposta.
Os artigos que não foram selecionados, mesmo surgindo nos resultados, não apresentavam discussões que se adequassem à proposta da pesquisa, ou seja, não abordavam questões relevantes ao campo da Saúde.

Tab.1

Os 35 artigos selecionados foram divididos em 4 categorias, conforme mostrado na Tabela 2: "Pandemia da Covid-19" com 14 artigos; "Contextos de trabalho e processos de subjetivação" com 11 artigos; "Dispositivos e práticas em Saúde Mental" e "Fenômeno da Violência", ambas com 5 artigos cada. Todos os artigos citam Byung-Chul Han, seja como referência principal ou como uma entre várias linhas de raciocínio.
Tabela 2 – Categorias em que os artigos foram distribuídos

Tab.2

As categorias de análise indicam que a filosofia de Byung-Chul Han é considerada relevante nos debates de saúde. Isso é evidente, independentemente de os textos estarem em total concordância com suas ideias ou apenas parcialmente alinhados a elas.
A maioria dos artigos selecionados foram publicados em periódicos de Ciências Sociais e de Filosofia, além das revistas Inter e Multidisciplinares. Contudo, há publicações em revistas de Psicologia, Enfermagem, Psicopatologia, Psiquiatria, entre outras (Tabela 3). Em Saúde Coletiva, especificamente, não houve periódicos abordando o pensamento de Han. A divisão foi baseada na autodefinição dos periódicos.
Tabela 3 – Áreas de conhecimento dos periódicos em que os artigos foram encontrados

Tab.3

Nos 35 artigos levantados, 13 livros de Han foram citados, 12 em português e 1 em espanhol. “Sociedade do Cansaço” foi o mais citado (26 artigos), seguido por “Psicopolítica” (11 citações) e “Sociedade da Transparência” (9 citações), conforme mostra a Tabela 2.
Tabela 2 - Livros de Byung-Chul Han utilizados nos artigos selecionados

Tab 2

O Gráfico 1 mostra a distribuição dos anos em que os artigos selecionados no levantamento bibliográfico foram publicados. O recorte de nossa busca, como dito anteriormente, inicia em 2015, ano da primeira publicação de um livro de Byung-Chul Han no Brasil. Como é possível ver neste gráfico, o ano de 2021 teve uma maior concentração de artigos a respeito de algum tema relacionado a saúde e que cita o filósofo sul-coreano – 13 ao todo.
Vale ressaltar que esse levantamento não se limitou à identificação quantitativa de textos

Gráfico 1

que mencionam Byung-Chul Han, mas teve como propósito compreender a profundidade e as formas de apropriação de seu pensamento no campo da Saúde. Esse tipo de metodologia possibilita observar a circulação de ideias e a densidade conceitual com que um autor é mobilizado, revelando não apenas o alcance, mas também o modo como sua obra é reinterpretada e integrada a novos contextos de debate. Assim, mais do que medir o impacto de Han por sua popularidade, buscou-se evidenciar a relevância de seu projeto filosófico a partir dos sentidos que ele adquire nas produções brasileiras sobre questões caras à saúde coletiva, tais como trabalho e sofrimento.

Discussão

Com base no levantamento realizado, é possível constatar que a filosofia de Byung-Chul Han foi muito relevante para discussões que envolviam o contexto social pandêmico. Como se percebe através da leitura do Gráfico 1, a grande maioria dos artigos apresentam a Covid-19 como tema principal.
Essa quantidade de artigos discutindo diferentes aspectos da pandemia de Covid-19 em diálogo com o autor também se relaciona com o período no qual a grande maioria dos artigos foi publicado, o ano de 2021, o segundo da pandemia.
Na categoria criada apenas para textos que apontam nessa direção, o contexto pandêmico foi discutido através de temas como educação, trabalho docente, saúde mental, modos de atuação do Governo Federal, a disseminação de informações sobre o vírus, luto, uso de psicotrópicos e desastres ambientais. O pensamento do filósofo sul-coreano é acionado, nestes artigos, como uma importante ferramenta de compreensão acerca da sociedade que o vírus encontra e de como ela se desdobra, se adapta e, no fim, ainda reforça as possibilidades e impossibilidades de existência colocadas pela pandemia.
Na maioria dos textos sobre a crise pandêmica nesta pesquisa, há uma disposição para entender aspectos como, por exemplo, o modo como o panorama da doença intensificou traços da sociedade do cansaço e do desempenho e como isso impactou a saúde psíquica das pessoas, seus contextos educacionais, familiares e de trabalho; de que forma os dispositivos psicopolíticos operaram no Brasil e quais foram os efeitos disso; como o indivíduo do desempenho, acostumado a se autoexplorar até o burnout, lidou com um cenário de produtividade diminuída; qual foi o papel que o imperativo de transparência desempenhou na crise sanitária.
Em resumo, os textos que compõem esse tópico, em sua maior parte, empregam as ideias de Han que são anteriores à crise, para refletir sobre o contexto da pandemia, principalmente, no Brasil. A filosofia do autor é explorada em situações que não foram antecipadas pelo filósofo sul-coreano, muito mais do que a parte de seu pensamento que foi produzida e publicada, especificamente, a partir da pandemia da Covid-19.
No tópico onde a violência é o tema principal a ser discutido pelos artigos, há um foco em seus aspectos simbólicos e psicológicos. A ideia neoliberal de que cada pessoa é responsável pelo seu próprio sucesso ou fracasso e a de que, se alguém sofre ou se sente mal, é por sua própria culpa, é duramente atacada. O motivo disso é porque os artigos partem da perspectiva do filósofo sul-coreano, que analisa a situação por um outro ângulo. Para Han2,3, muitas pessoas sofrem de depressão e burnout porque esse modelo de sociedade neoliberal é muito exigente e cruel, tendo em vista os imperativos que levam as pessoas a trabalhar e competir sem parar, até ficarem doentes e/ou esgotadas física e mentalmente. Essa dinâmica é entendida no pensamento do filósofo sul-coreano como uma forma de violência, só que cometida pelos próprios sujeitos, que se exploram e se consomem, levados pela narrativa neoliberal.
Os 5 textos que integram este tópico, como é notado no Gráfico 1, abordam a violência dentro desses limites da análise do próprio Han sobre o assunto. As concepções do autor não são estendidas para além das realidades imaginadas e experimentadas pelo filósofo sul-coreano e colocadas em diálogo com acontecimentos mais próximos às nossas realidades. Faltou aos autores e autoras dos textos presentes neste tópico tentar ir além de uma exposição de conceitos de Han.
Há uma exploração muito bem-sucedida da ideia de que as formas de sofrimento psíquico que o sujeito contemporâneo enfrenta são, na verdade, manifestações de uma forma de violência simbólica, invisível e pouco perceptíveis. O neoliberalismo, através de uma política voltada para a psiquê, manipula os indivíduos, mexe com seus sentimentos e pensamentos, fazendo todos e todas acreditarem que somente através do máximo de desempenho é que vão ter grande sucesso. Mas isso é uma mentira, de acordo com Han3, pois, na verdade, esse discurso apenas faz com as pessoas se explorem, sem perceber, e como isso não é percebido, não tentam fugir ou resistir.
Entretanto, o filósofo sul-coreano já explica tudo isso muito bem. Os artigos que compõem este tópico mostram o que ele pensa, mas não mostram como isso pode ajudar a entender ou mudar o contexto brasileiro. Eles não fazem a ligação entre a teoria dele e os problemas enfrentados especificamente no Brasil. No cenário brasileiro, muitas pessoas enfrentam violências visíveis e invisíveis, tais como o machismo e o racismo, que vêm de sistemas opressores. Esses sistemas prejudicam negros e mulheres todos os dias, restringindo seus direitos e benefícios, e não raramente as matam.
A qualidade de vida e as condições de saúde de cada indivíduo na sociedade estão interligadas com o nível de exposição a experiências violentas e, principalmente, do que é entendido como violência ou não em um contexto social4. É por essa razão que este tema é importante para a Saúde Coletiva, além de ser abordado com frequência no levantamento bibliográfico realizado.
No tópico que trata do trabalho e da subjetividade, já se observa uma movimentação diferente daquela descrita anteriormente no tópico sobre a violência. Os artigos dessa terceira categoria usam a filosofia de Byung-Chul Han para analisar situações brasileiras mais cotidianas. Eles abordam temas como a precarização do trabalho e seu sofrimento, o domínio do discurso empresarial e da lógica econômica na vida das pessoas, e o impacto da linguagem neoliberal no empreendedorismo e no desempenho, entre outros.
O pensamento de Han sobre o sujeito do desempenho e sua devida subjetividade, é utilizado neste tópico para entender o cenário brasileiro, onde as pessoas sofrem com trabalhos precários, pressão por produtividade, insegurança e falta de direitos. Além do fato de que essas pessoas são inseridas desde cedo em um sistema educacional marcado pela competição e pelos resultados, tal como apontam Filho, Rosa e Marchiori5.
Os textos também mostram como Han dialoga com outros autores e autoras como Arendt, Agamben e Foucault, que são mais utilizados tanto nessas discussões sobre trabalho e subjetividade, como também fazem parte do processo de ensino-aprendizagem na Saúde Coletiva.
Uma hipótese para o fato de que a filosofia de Han tenha aplicação ao cenário brasileiro em discussões sobre trabalho e subjetividade, se baseia nas afirmações de Dardot e Laval6 e Bauman7 a respeito de como o neoliberalismo e o mercado funcionam de forma parecida em todo lugar. Esse fato facilita que as análises de um filósofo sul-coreano que vive na Alemanha encontrem relações com a situação laboral do Brasil, mesmo se tratando de um contexto diferente, afinal, no Brasil, o imperativo de desempenho também atravessa realidades de extrema precariedade, muito embora, nesses casos, não se traduza necessariamente em ambição ou sucesso, mas em estratégias de sobrevivência dentro de um mercado de trabalho informal, intermitente e desigual. Mesmo aqueles e aquelas que atuam em condições instáveis, como entregadores, diaristas, trabalhadores de aplicativos, entre outros, são capturados por essa lógica de autoexploração e responsabilização individual. Assim, o “sujeito do desempenho” se manifesta também nos estratos mais vulneráveis da população, onde a pressão por produtividade se confunde com a necessidade de simplesmente continuar existindo8,9.
Nesse ponto, as reflexões de Han2,3,12 dialogam com análises já consolidadas sobre o neoliberalismo, o trabalho e o sofrimento no Brasil. Autores como Ricardo Antunes e Maria da Graça Druck têm mostrado como o avanço da racionalidade neoliberal fragmenta vínculos, intensifica a exploração e converte a sobrevivência em um exercício de desempenho contínuo. Antunes10 identifica o surgimento de novas morfologias do trabalho marcadas pela flexibilidade e pela autogestão subordinada, enquanto Druck11 aponta a precarização como eixo central da vida produtiva e subjetiva no capitalismo contemporâneo. Essas formulações se aproximam das teses de Han2,3,12 sobre o sujeito do desempenho e a autoexploração, indicando que, mesmo em contextos de trabalho precário, a lógica neoliberal transforma o sofrimento em um efeito normalizado da produtividade.
Na última categoria, dedicada a artigos sobre os dispositivos e práticas em Saúde Mental, há discussões que atravessam tanto o campo da Saúde Coletiva quanto o projeto filosófico de Han, como por exemplo, a alta incidência de depressão na contemporaneidade. Essa é uma questão que move esforços analíticos por parte do filósofo sul-coreano e do campo, além da perspectiva bastante alinhada entre ambos, que buscam extrapolar as explicações biomédicas e neuroquímicas ao levar os determinantes sociais e culturais em consideração em suas análises.
Uma das ideias-chave de Han2,3 é a noção de "sociedade do desempenho" ou "sociedade do cansaço", em que os indivíduos são constantemente pressionados a produzir, ter sucesso e se superar. Han argumenta que essa cultura do desempenho leva ao surgimento de diversos problemas sociais, incluindo o esgotamento emocional, a ansiedade e a depressão. O filósofo sul-coreano critica a forma como o neoliberalismo promove uma lógica de autopressão, em que os indivíduos se tornam seus próprios exploradores, estabelecendo altos padrões de produtividade e perfeição. Ele argumenta que essa pressão constante para ser bem-sucedido e alcançar metas irreais pode levar a um estado de exaustão física e mental, contribuindo para o surgimento de formas de sofrimento diversas, como a depressão por exemplo.
No Brasil, por exemplo, essa lógica pode ser observada de forma crescente entre os mais jovens, especialmente aqueles inseridos em vínculos laborais instáveis ou em trajetórias acadêmicas marcadas por competitividade, produtividade exagerada e incerteza. Trabalhadores de plataformas digitais e estudantes de pós-graduação compartilham experiências de exaustão e autoexigência13,14 que traduzem, quase de forma literal, o imperativo de desempenho descrito pelo filósofo sul-coreano. O sofrimento entre os mais jovens reflete a internalização precoce da lógica neoliberal, em que a valorização da produtividade se sobrepõe à saúde e ao sentido da própria experiência.
Uma outra questão que surge ao longo do último tópico e que também é pertinente para Han12 e para a Saúde Coletiva, diz respeito à chamada “epidemia de drogas psiquiátricas”. Uma questão interessante abordada neste tópico, se refere ao papel que essas drogas psiquiátricas exercem no atual modelo de sociedade. Enquanto Alvarenga e Dias15 falam de um uso que serve para potencializar o desempenho, Londero e Takara16 apontam para o uso anestésico dessas substâncias, que reflete uma tendência social de se evitar o sofrimento.
A problematização do uso que se faz de drogas psiquiátricas para evitar o sofrimento ou aumentar o desempenho também é encontrada em livros de Byung-Chul Han. Em Sociedade Paliativa: a dor hoje (2021), ele foca no primeiro aspecto, e em Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder (2018), no segundo. Para Han3,12, tanto um quanto outro são influenciados pelas lógicas de mercado do neoliberalismo, e há um interesse de grandes corporações e saberes da Saúde Mental em intensificar, necessitar e prolongar esse uso.
Apesar do projeto filosófico de Han se aproximar do campo da Saúde Coletiva, principalmente nas discussões do quarto tópico, ele não é muito explorado na maioria dos artigos dessa parte do levantamento bibliográfico. Em alguns casos, ele é apenas citado rapidamente, o que causa bastante estranheza, tendo em vista o sólido diálogo que Han estabelece com temas relacionados ao campo da Saúde Mental.
Em suma, o que pode ser notado com essa pesquisa é que a obra de Han está sendo utilizada por quem pesquisa temas relevantes para a Saúde Coletiva no Brasil, conforme mostram as categorias apresentadas, mas não necessariamente em artigos publicados na área Todos os textos do levantamento tentam, de alguma forma, mostrar como o pensamento do filósofo sul-coreano pode enriquecer o assunto debatido por cada artigo.
Todas as temáticas dos artigos deste levantamento se relacionam ou se aproximam da Saúde Coletiva, mostrando que há diálogos e possibilidades de contribuições entre Han e esse campo. Porém, só um desses artigos foi publicado em uma revista que seja específica de Saúde Coletiva no Brasil. O que é possível concluir a partir disso é que por mais que a obra de Han esteja reverberando em discussões sobre saúde no Brasil, essa tendência ainda não alcançou as revistas de Saúde Coletiva. O que o levantamento bibliográfico realizado mostra é que os artigos que usam as ideias de Han para falar de saúde são publicados, principalmente, em revistas de Ciências Sociais e de Filosofia.
É difícil entender as razões por trás disso, considerando as conexões sólidas que foram observadas várias vezes entre o autor e o campo de estudo na pesquisa. Uma possível explicação para a ausência do filósofo sul-coreano em artigos publicados em revistas de Saúde Coletiva no Brasil é o fato de sua filosofia ter chegado no país há pouco tempo. Mesmo sendo um autor popular, seus livros começaram a circular no Brasil há menos de 10 anos. Ainda há muito a explorar no pensamento de Han e ele mesmo tem muito a mostrar ainda. Portanto, só resta esperar para ver como essa relação ainda incipiente entre Byung-Chul Han e o campo da Saúde Coletiva irá evoluir, e quais diálogos, contribuições e direções surgirão a partir desses desenvolvimentos.

Conclusão

Essa pesquisa revela que existem vários assuntos em Saúde Coletiva que podem ser interessantes e úteis para quem quer pesquisar e trabalhar com as ideias de Byung-Chul Han. Assuntos como a violência na sociedade, a saúde das pessoas que trabalham, a forma como as pessoas se relacionam consigo mesmas e com os outros, a educação para a saúde, o uso de tecnologias para aliviar ou causar sofrimento, a influência da mídia na saúde, as formas de fazer política que afetam os governos e as instituições, a negação da ciência e da realidade, e muitos outros.
Apesar do alto contingente de possibilidades de diálogos entre Han e a Saúde Coletiva, discussões sobre contextos brasileiros de trabalho e o momento pandêmico no Brasil se destacam, enquanto a quantidade baixa de artigos com temas que atravessam a Saúde Mental surpreende. O que justifica essa surpresa é o fato de boa parte da obra de Han2,3,12 se dedicar a problematizar a tendência contemporânea de conceber o indivíduo sob uma perspectiva exclusivamente biológica, fisicalista e cerebral – tendência essa que já encontra problematizações dentro do campo da Saúde Coletiva, onde há discussões sobre a crescente hegemonia do cérebro sobre outros órgãos e a redução do indivíduo ao seu cérebro físico, impulsionada pelo discurso neurocientífico. Com a disseminação dessa visão tanto entre especialistas quanto no público leigo, o cérebro é cada vez mais visto como o centro de controle do indivíduo, refletindo-se em áreas como a psicologia e a psiquiatria17. No Brasil, a neuropsicologia se expande, com currículos universitários que enfatizam funções e disfunções cerebrais, muitas vezes em detrimento da relação entre indivíduo e sociedade18.
O filósofo sul-coreano denuncia em vários momentos como essa concepção estimula processos de medicalização e farmacologização, e, também, como o neoliberalismo se articula e se beneficia dessa racionalidade, seja mercantilizando tratamentos, terapêuticas e modos de ser e existir no mundo, seja forjando sujeitos que elegem o desempenho e a sobrevivência como valores supremos e inquestionáveis3,12.
Essas discussões também atravessam a Saúde Coletiva. É importante lembrar que esse campo surgiu e se fortaleceu no Brasil, justamente, por reconhecer que existem outros fatores que influenciam na saúde, na doença e no bem-estar das pessoas que vão além da hegemonia das explicações biomédicas19.
No entanto, mesmo com tantos assuntos possíveis, nosso levantamento mostra que as revistas de Saúde Coletiva ainda publicam poucos artigos que lançam mão da obra de Han. O que se pode dizer, de forma geral, é que ainda há muito o que se estudar sobre a relação entre o filósofo sul-coreano e o campo da Saúde Coletiva, pois eles têm muitas coisas em comum, seja pelos temas que abordam, pelas referências que usam ou pela visão que adotam.
Embora este estudo se concentre especificamente no contexto brasileiro, seria relevante que futuras investigações ampliassem esse olhar para o cenário latino-americano. A filosofia de Byung-Chul Han2,3,12, ao problematizar o sofrimento e a subjetividade no capitalismo neoliberal, pode dialogar com experiências regionais marcadas por desigualdades estruturais semelhantes e por tradições críticas próprias das ciências sociais latino-americanas. Uma análise comparativa poderia revelar tanto convergências quanto especificidades na apropriação de seu pensamento pelos diferentes campos da saúde no continente.
Dito isso, ressaltamos que é provável que essa falta de artigos que dialogam com a filosofia de Han nas revistas de Saúde Coletiva não dure muito tempo. Assim como essa pesquisa16 mostra, as revistas de outras áreas estão publicando artigos que conseguem ligar assuntos de Saúde com as ideias do filósofo. Isso faz pensar que logo essa tendência deve alcançar o campo da Saúde Coletiva.

Referências utilizadas no texto

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Cardoso, AJS, Azize, RL. A Apropriação da Obra de Byung-Chul Han Pelo Campo da Saúde Coletiva no Brasil: uma revisão narrativa. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jun). [Citado em 03/06/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/a-apropriacao-da-obra-de-byungchul-han-pelo-campo-da-saude-coletiva-no-brasil-uma-revisao-narrativa/20039?id=20039

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