0157/2026 - A CISHETERONORMATIVIDADE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: EXPERIÊNCIAS E BARREIRAS NO ACESSO DE PESSOAS LGBTQIA+ CISHETERONORMATIVITY IN PRIMARY HEALTH CARE: EXPERIENCES AND BARRIERS IN ACCESS FOR LGBTQIA+ PEOPLE
As normas cisheteronormativas operam de forma estrutural nos serviços de saúde, afetando o acesso e a qualidade do cuidado prestado à população LGBTQIA+. Este estudo discute como a cisheteronormatividade se manifesta nos serviços de saúde e suas implicações para o acesso e a qualidade do cuidado oferecido à população LGBTQIA+, especialmente no contexto da atenção primária à saúde (APS). Com abordagem qualitativa, foram realizadas 21 entrevistas em profundidade com pessoas LGBTQIA+ usuárias da APS, analisadas por meio da análise temática de conteúdo. Os referenciais de Pierre Bourdieu, Judith Butler e Michel Foucault foram utilizados para ancorar a interpretação dos achados. A categoria central analisada “Sistema de Saúde Cisheteronormativo” revelou três subcategorias: manifestações do (Cis)tema nas práticas de cuidado, o (Cis)tema e as vivências das pessoas LGBTQIA+ e o (Cis)tema binário como estrutura normativa. O combate frente as iniquidades debatidas exige desde a desconstrução de práticas profissionais excludentes, a reformulação de políticas e sistemas de informação no reconhecimento da diversidade de gênero e o fortalecimento do controle social, garantindo uma participação ativa dos movimentos LGBTQIA+ na construção e no monitoramento das políticas de saúde.
Palavras-chave:
Pessoas LGBTQIA+; Atenção Primária à Saúde; Desigualdades em Saúde; Discriminação de Gênero.
Abstract:
Cisheteronormative norms operate structurally within health services, affecting access to and quality of care for the LGBTQIA+ population. This study aims to discuss how cisheteronormativity manifests in health services and its implications for access to and quality of care offered to LGBTQIA+ individuals, particularly in the context of Primary Health Care (PHC). Using a qualitative approach, 21 in-depth interviews were conducted with LGBTQIA+ PHC users, analyzed through thematic content analysis. The theoretical frameworks of Pierre Bourdieu, Judith Butler and Michel Foucault anchored the interpretation of findings. The central category analyzed, “Cisnormative Health System”, revealed three subcategories: manifestations of the (Cis)tem in care practices; the (Cis)tem and the experiences of LGBTQIA+ people in health services; and binary (Cis)tem as a normative structure. The fight against the discussed inequities requires the deconstruction of exclusionary professional practices, the reformulation of policies and information systems to recognize gender diversity, and the strengthening of social control, ensuring the active participation of LGBTQIA+ movements in the development and monitoring of health policies.
Keywords:
Sexual and Gender Minorities; Primary Health Care; Healthcare Disparities; Social Discrimination.
Conteúdo:
INTRODUÇÃO
A literatura evidencia os múltiplos desafios enfrentados pela população LGBTQIA+, como o risco social associado à situação de rua, consequência de desemprego, rupturas familiares e violações de direitos, além da violência recorrente vivenciada em diferentes esferas: familiar, escolar e social sobretudo quando se trata da população trans1,2.
No Brasil, em 2024, uma pessoa LGBTQIA+ foi assassinada a cada 30 horas, conforme dados do Grupo Gay da Bahia3, a mais antiga organização não governamental LGBTQIA+ da América Latina, que realiza este levantamento desde 1980. Esse número que pode ser ainda mais alarmante devido à subnotificação e à ausência de políticas públicas eficazes4.
No campo da saúde, a cisheteronormatividade tem se traduzido em diferentes formas de violências como o desrespeito ao nome social, práticas negligentes, constrangimentos e apagamento da orientação sexual e identidade de gênero, práticas que tem causado evasão da população LGBTQIA+ dos serviços formais, agravando seu estado de saúde5,6. A exclusão estrutural dessa população é intensificada com a interseccionalidade7 de violências no âmbito de outros marcadores da diferença como classe social, raça/cor e geração, refletindo em agravos em saúde e uma expectativa de vida reduzida, indicativo da profundidade dessa iniquidades8.
O termo cisheteronormatividade resulta da articulação entre duas matrizes regulatórias: a cisgeneridade e a heterossexualidade compulsória9. O conceito de cisgeneridade, cunhado por ativistas transfeministas10, busca nomear as normas que sustentam as designações compulsórias de gênero, reconhecendo como “cis” as experiências que permanecem alinhadas ao sexo/gênero atribuído no nascimento, marcação legitimada por saberes médicos e jurídicos.
A cisheteronormatividade, por sua vez, estrutura-se a partir da combinação dessas duas matrizes, organizando tanto as imposições de identidade de gênero quanto as formas reconhecidas de parentesco e sexualidade11,12. Esse regime produz e naturaliza normas culturais que estabelecem o que é tido como normal ou desviante, promovendo a abjeção e a patologização de experiências transgressoras13.
Foucault14 analisava como a normatividade se impõe por meio de dispositivos de saber-poder nas instituições, como a medicina e a psiquiatria, que buscam conformar os sujeitos às normas sociais. A ignorância operada por esse regime eleva a cisheteronormatividade a um patamar de neutralidade supostamente objetiva, ocultando suas dimensões de gênero, raça, capacidades etc. Lima15 observa que essa ignorância não é inocente: trata-se de um recurso instrumentalizado para apagar desigualdades e manter invisível a existência de sujeitos cuja presença desestabiliza o saber normativo instituído.
A esse respeito, Butler16 propõe que determinadas identidades são reconhecidas como legítimas enquanto outras são excluídas do campo do reconhecimento. Pessoas que não se enquadram nas categorias binárias, como trans, não binárias e intersexuais, são muitas vezes tornadas “ininteligíveis”, o que contribui para sua marginalização social e institucional, criando a separação entre “vidas vivíveis” e “vidas matáveis”17. No sistema de saúde, essa questão se materializa na rigidez das categorias de gênero e na recusa em reconhecer a diversidade das experiências LGBTQIA+, reforçando exclusões e dificultando o acesso dessas populações aos serviços.
Pierre Bourdieu18,19 traz os conceitos de campo, habitus e violência simbólica, que ajudam a compreender a reprodução da cisheteronormatividade. O campo define as regras sociais que valorizam determinadas práticas e excluem outras; o habitus internaliza essas normas e orienta as ações dos sujeitos, reproduzindo desigualdades; e a violência simbólica legitima essas exclusões ao naturalizá-las.
Com relação aos avanços de políticas públicas em um contexto cisheteronormativo, o Brasil apresentou, nas últimas décadas, formulações de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+10, com destaque para a criação da Política Nacional de Saúde Integral LGBT (PNSI LGBT), instituída em 20111. Tais avanços inserem-se em um processo mais amplo, iniciado com a redemocratização nos anos 1980 e impulsionado pela Reforma Sanitária. Nesse contexto, as pautas relacionadas à diversidade sexual e de gênero foram progressivamente incorporadas às políticas públicas. Iniciativas como o programa Brasil sem Homofobia20, a Portaria nº 1.70721, que institui o Processo Transexualizador no SUS, e o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT22 consolidaram o compromisso do Estado brasileiro com a promoção da equidade em saúde23.
Entretanto, a efetivação dessas políticas ainda enfrenta entraves expressivos. A falta de educação permanente dos profissionais da saúde, o desconhecimento sobre as especificidades de gênero e sexualidade e, não raro, o desinteresse pela temática representam desafios prementes23,24. Somam-se a isso, a escassez crônica de dados oficiais sobre a população LGBTQIA+, a persistência da LGBTfobia institucional e o recorrente desmonte de pautas progressistas promovido por governos conservadores, os quais, em conjunto, comprometem a implementação das diretrizes da PNSI LGBT24,25 e de demais políticas públicas de combate às iniquidades em saúde dessa população. É precisamente nesse cenário de contradição entre o marco legal e a realidade concreta que o debate sobre a cisheteronormatividade no campo da saúde se mostra não apenas atual, mas urgente e necessário.
Diante do exposto, este trabalho objetiva realizar uma discussão acerca de como a cisheteronormatividade se manifesta nos serviços de saúde e suas implicações para o acesso e a qualidade do cuidado oferecido à população LGBTQIA+, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS) do SUS.
PERCURSO METODOLÓGICO
Trata-se de um estudo qualitativo desenvolvido no município de Fortaleza, capital do estado do Ceará. Participaram da pesquisa pessoas autodeclaradas LGBTQIA+, com 18 anos ou mais, usuárias da APS em Fortaleza. Foram excluídas da amostra pessoas menores de idade, não LGBTQIA+, usuárias de serviços privados, de outras esferas de atenção ou de municípios distintos, bem como aquelas que não consentiram em participar.
A coleta ocorreu entre julho e agosto de 2024, por meio de entrevistas em profundidade26 realizadas online. Neste trabalho, optou-se por entrevistas abertas, que favorecem a liberdade narrativa e o aprofundamento das vivências compartilhadas27.
Quanto ao critério de interrupção da coleta de dados, adotou-se o conceito de “poder de informação”27,28, segundo o qual o número de participantes é definido pela capacidade do material empírico de sustentar uma análise consistente, densa e alinhada aos objetivos do estudo, e não por critérios numéricos previamente estabelecidos.
Esse modelo considera cinco dimensões inter-relacionadas28: (1) o objetivo do estudo, de caráter específico e orientado à compreensão das manifestações da cisheteronormatividade na Atenção Primária à Saúde; (2) a alta especificidade da amostra, composta por usuários LGBTQIA+ com experiências diretamente relacionadas ao fenômeno investigado; (3) o uso de referencial teórico consistente, com base em Pierre Bourdieu, Judith Butler e Michel Foucault, que amplia a capacidade interpretativa dos dados; (4) a qualidade do diálogo, assegurada por entrevistas em profundidade conduzidas com escuta sensível e reflexividade; e (5) a estratégia analítica, centrada na identificação de padrões de sentido.
A avaliação contínua dessas dimensões ao longo da coleta indicou que, após 21 entrevistas, o material empírico apresentava densidade e consistência suficientes para sustentar uma compreensão robusta do fenômeno investigado, atendendo ao critério de suficiência analítica proposto pelo modelo.
A análise dos dados foi conduzida por meio da análise temática de conteúdo, conforme proposta por Minayo29, com foco na interpretação dos sentidos expressos nas narrativas, vinculando-os aos contextos socioculturais e subjetivos de sua produção. Minayo29(p. 316) define a análise temática como o processo de “descobrir os núcleos de sentido que estruturam uma comunicação e que são significativos para o objeto de estudo”. Essa metodologia permite captar valores, estruturas sociais e representações que atravessam os discursos.
A transcrição dos áudios foi realizada com apoio da inteligência artificial Whisper, seguida da organização e codificação dos dados com o auxílio do software MAXQDA, ferramenta que proporcionou rigor metodológico, organização temática e visualização das relações entre categorias e discursos. A codificação foi realizada de forma interativa e indutiva, com geração inicial de códigos abertos a partir das falas dos participantes, posteriormente agrupados em categorias provisórias, revisadas e refinadas até a consolidação das categorias analíticas, orientadas pelo referencial teórico e pelo material empírico.
Neste artigo, será apresentada e discutida a categoria “Sistema de saúde cisheteronormativo”, que reuniu 60 núcleos de sentido. A partir dessa categoria, foram identificadas as seguintes subcategorias: o (Cis)tema Binário como Estrutura Normativa (com 27 núcleos de sentido), O (Cis)tema e as vivências das pessoas LGBTQIA+ nos serviços de saúde (com 20 núcleos de sentido) e Manifestações do (Cis)tema nas Práticas de Cuidado (com 13 núcleos de sentido).
O uso do neologismo “cistema” neste estudo tem como finalidade evidenciar criticamente a estrutura cisheteronormativa que sustenta instituições e práticas do sistema de saúde. Embora não seja possível estabelecer com segurança uma autoria inaugural única do termo, seu uso encontra antecedentes documentados em produções transfeministas brasileiras. Vergueiro30 emprega “cistema” como uma corruptela intencional de “sistema”, mobilizando o termo para evidenciar o caráter estrutural e institucional da cisnormatividade e do cissexismo. Jaqueline Gomes de Jesus31 também utiliza explicitamente a expressão “cis-tema (ou cistema)” ao se referir ao sistema cisnormativo e transfóbico que dificulta o reconhecimento dos direitos das pessoas trans. Na literatura acadêmica de língua inglesa, a forma análoga “cis-tem” também tem sido empregada, como no trabalho de Hicks32, que problematiza a incorporação da cisnormatividade em sistemas burocráticos e institucionais. Neste estudo, portanto, “cistema” é utilizado como ferramenta crítica para evidenciar relações de poder e saber que naturalizam a cisgeneridade e atravessam os corpos, as instituições e as práticas de cuidado.
O estudo respeitou os princípios éticos das Resoluções 466/2012 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, que normatizam pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC), sob o parecer de número 6.934.406 e CAAE 80146424.1.0000.5054.
Para garantir o anonimato dos entrevistados na apresentação dos achados, será utilizada a sigla ENT, que significa entrevistado, seguida de um número e da respectiva identidade de gênero e sexualidade. Exemplo: (ENT 2, MULHER LÉSBICA).
APRESENTAÇÃO DOS ACHADOS E DISCUSSÃO
Essa sessão discorrerá acerca da categoria temática “Sistema de saúde cisheteronormativo” dividida em suas subcategorias, como detalhadas na tabela abaixo:
Tabela 1
Manifestações do (Cis)tema nas Práticas de Cuidado: Poder, Discursos e Relações
O primeiro eixo analítico revela como a cisheteronormatividade se materializa nas interações diretas entre profissionais de saúde e usuários LGBTQIA+, uma forma basilar de violência é o apagamento institucional, que nega a própria existência de identidades fora do binarismo, como pontua um dos entrevistados:
“Acho que pior não é as pessoas desconhecerem ou não terem formação suficiente para lidar é pior do que é isso, é o apagamento, tipo se tem só feminino ou masculino os outros não existem né?”(ENT 21, PESSOA TRANS NÃO BINÁRIA)
A fala não denuncia apenas uma lacuna burocrática, mas a operação de um dispositivo33 de saber-poder que produz a própria realidade do que é cognoscível e, portanto, cuidável17. Butler ajuda a entender que este não é um simples esquecimento, mas um ato performativo de desrealização: ao restringir as opções ao binário, o sistema produz ativamente a “ininteligibilidade”13 de corpos não binários, excluindo-os do domínio do humano plenamente reconhecível no campo da saúde. Este apagamento se desdobra na suposição universal da cisheteronormatividade, um regime discursivo14 que impõe um enquadramento interpretativo distorcido sobre os corpos, onde a presunção da heterossexualidade leva a absurdos clínicos, como a insistência em diagnosticar uma gravidez ectópica em uma mulher lésbica:
“Eu precisei fazer uma transvaginal e lá deu um cistozinho e aí eles quiseram dizer que era gravidez ectópica aí eu disse: ‘gente, não tem como isso ser uma gravidez ectópica’. Aí ele disse: ‘ah, mas você não tem relações sexuais?’ Aí eu disse: ‘não tem risco, é uma relação homoafetiva!’ Chegou um ponto que ele insistiu tanto nessa tecla que eu acabei me estressando”(ENT 11, MULHER CIS LÉSBICA)
A lógica clínica, supostamente neutra35, é sequestrada por um script heterossexual que se torna mais real que a evidência empírica apresentada pelo paciente. Trata-se de uma epistemologia violenta: o habitus19 cisheteronormativo do profissional torna-o incapaz de processar uma realidade corporal que escape à sua matriz de inteligibilidade, resultando em iatrogenia social e sofrimento ético-político. Essas práticas revelam os regimes de inteligibilidade que definem quais corpos e desejos são compreensíveis e, portanto, dignos de um cuidado não questionador17.
Esse contexto é agravado pela interferência religiosa, onde crenças pessoais se sobrepõem à ética do cuidado. Um usuário gay relata:
“São pessoas que infelizmente levam suas religiões para dentro do seu trabalho, levam seus preceitos para dentro do trabalho e infelizmente destratam a população que é a que mais precisa. E acaba afastando a gente dessa questão da prevenção, da promoção de saúde. A gente é destratado, a gente é visto com maus olhos e infelizmente a gente acaba se perdendo dentro do sistema de saúde por conta do preconceito” (ENT 9, HOMEM CIS GAY)
A violência simbólica18 aqui atua em seu máximo refinamento: o usuário é não apenas negado em sua identidade, mas constituído como “pecador” ou “abjeto”, internalizando uma culpa que o afasta da prevenção e promoção da saúde, num movimento de autoexclusão que mascara a coerção estrutural que o produz.
No ápice deste continuum, a patologização das identidades dissidentes e a afirmação autoritária do poder profissional revelam a face mais crua do biopoder33. A medicalização da identidade trans representa a captura da diferença pelos dispositivos psiquiátricos, convertendo dissidência de gênero em sintoma patológico:
“Quando ele (o médico) conversou com a polícia ele disse que eu tinha bipolaridade e transtorno de personalidade, eu acreditava ser uma pessoa que eu não era, e que ele tinha orientado ir para o hospital mental e eu não quis aceitar.” (ENT 7, HOMEM TRANS)
Paralelamente, a imposição do “nome morto”, termo amplamente utilizado por pessoas trans para designar o nome civil atribuído ao nascimento e que não corresponde ao nome escolhido conforme sua identidade de gênero, é um ato de violência que utiliza o instrumento burocrático para efetuar um apagamento identitário. É o poder soberano do Estado, materializado no documento, sendo acionado no encontro clínico para reafirmar publicamente a negação do sujeito:
“Aí o médico foi afirmando: ‘Olha o médico aqui nesse exame sou eu, e vou lhe chamar pelo nome que está no seu documento’. Nesse momento é uma pressão que a gente só tem uma reação: só quer realmente continuar, acabar e ir pra casa.” (ENT 15, MULHER TRANS)
São atos de violência discursiva16 que reinscrevem a normatividade. O profissional, nesses casos, atua como agente de um sistema mais amplo de controle14, medicalizando a diferença e utilizando seu capital simbólico18 para silenciar e submeter.
Conjugadas, essas práticas, do apagamento sutil à negação explícita, criam um ambiente de cuidado que é, paradoxalmente, gerador de sofrimento. Elas demonstram que a transformação deste cenário exige mais do que capacitações pontuais; requer a desconstrução das relações de poder hierárquicas que permeiam o encontro clínico, substituindo-as por uma ética do cuidado centrada na autonomia e no reconhecimento.
O (Cis)tema e as vivências das pessoas LGBTQIA+ nos serviços de saúde
Se o primeiro eixo desnudou a operação do poder nas relações de cuidado, este segundo eixo focaliza os corpos e subjetividades que recebem o impacto desse poder. As narrativas revelam um quadro complexo de estratégias de navegabilidade, sofrimento ético-político e precariedade imposta, onde a cisheteronormatividade deixa de ser uma abstração para se tornar uma força íntima e moldadora das experiências de saúde.
Uma das estratégias mais paradoxais é a negociação com a passabilidade, termo que, no contexto LGBTQIA+, refere-se à capacidade de uma pessoa ser percebida pela sociedade como cisgênero e/ou heterossexual. A fala a seguir revela a passabilidade como um capital19 corporal precário. Ela é uma moeda de troca num mercado simbólico violento: garante o reconhecimento social em alguns espaços (“o seu Thomás”), mas esbarra na impossibilidade estrutural quando seu corpo dissidente adentra um serviço marcado pelo binarismo, como o ginecológico:
“Eu não gosto dessa terminologia passabilidade, eu considero que é uma forma transfóbica de você ver aquele que é diferente, mas eu sei que quanto mais eu avançar aqui no meu processo de hormonização, quanto mais traços masculinos eu tiver, eu sei que vou ter uma passada ali, que vou ser o Thomás, o seu Thomás, porém, quando eu for no serviço ginecológico, sempre vão ser caras e bocas não compreendendo aquele homem de barba entrando naquela sala”(ENT 17, HOMEM TRANS)
O incômodo do entrevistado com o termo evidencia que a passabilidade não é uma conquista, mas uma estratégia de sobrevivência que, ao mesmo tempo que protege, reforça a norma que a torna necessária, conformando-se ao que Butler16 descreve como o caráter constritivo da performatividade de gênero.
Essa negociação constante gera um estado de impotência e hipervigilância. A pessoa não binária que pondera “se eu vou chamar a polícia, eu não sei se os policiais que vão chegar vão ficar do meu lado” (ENT 16) encapsula a precariedade política de uma vida que não só pode ser mal atendida, mas ativamente violentada pelo próprio aparato que deveria protegê-la. Esta não é uma desconfiança infundada, mas um cálculo realista frente a um Estado cujas instituições são percebidas como extensões de um mesmo sistema opressor14. O resultado é um silenciamento estratégico, uma retirada calculada do campo de disputa para preservar a integridade física e mental:
“Muitas vezes a gente escolhe não falar, porque por exemplo, se eu vou chamar a polícia, eu não sei se os policiais que vão chegar vão ficar do meu lado, é capaz de eles chegarem, e eu ainda ser preso, entendeu?” (ENT 16, PESSOA TRANS NÃO BINÁRIA)
Este silenciamento é alimentado por uma violência epistêmica que sobrecarrega o sujeito. A fala da ENT 15 descreve o fardo pedagógico da dissidência, onde a vítima da violência simbólica18 é ainda responsabilizada por educar seu agressor:
“Na época eu era muito mais desinformada sobre essas questões. E assim, eu por ser uma pessoa trans, eu sentia um desrespeito gigantesco. Era uma dor muito grande mesmo. Mas pensar em me defender. Pensar em reclamar ou reperguntar porque que a pessoa fez aquele manejo. Ter que ensinar também. Não é algo que passa pela nossa cabeça.”(ENT 15, MULHER TRANS)
Neste contexto, a desinformação citada não é um vazio, mas um espaço ocupado por um habitus18 cisgênero que se recusa a ceder seu lugar de fala35. O sofrimento, portanto, não é apenas pelo desrespeito, mas pela exaustão de ter que justificar continuamente a própria existência em um mundo que a torna ininteligível13.
Por fim, a escassez material e simbólica de serviços especializados cria um cenário de desamparo institucionalizado. As falas sobre a “alta demanda para poucos serviços” (ENT 9) e a “fila muito grande” do SUS (ENT 17) demonstram como a negligência estatal atua como um mecanismo de biopoder33:
“Porque a gente busca ajuda, mas não tem... e os serviços que são voltados especificamente para demandas da nossa comunidade são pouquíssimos, é uma alta demanda. Então infelizmente não consegue abranger todo mundo. Então a gente acaba se perdendo, a gente acaba errando ou até mesmo sofrendo muitas consequências por conta da falta de informação que não chega até a gente.”(ENT 9, HOMEM CIS GAY)
“No SUS a fila é muito grande, a gente não sabe que média está essa fila, qual o tamanho dela, quanto tempo a pessoa permanece para ela poder fazer essa integralidade, tem pessoas que querem fazer suas cirurgias, que têm direito, tem pessoas trans que não querem a hormonização, fazer cirurgias, mas que precisam ter um acompanhamento psicológico, enfim, existe toda uma carência mesmo”(ENT 17, HOMEM TRANS)
A falta de serviços não é um acaso, mas uma forma de administrar populações, tornando o acesso a direitos, como a hormonização ou o acompanhamento psicológico, um privilégio inalcançável para muitos. Esta é a materialização da negligência como política, onde a omissão em garantir serviços específicos e qualificados é, na prática, uma forma eficaz de manter corpos dissidentes16 à margem do sistema de cuidado, reforçando sua vulnerabilidade e confirmando sua posição de exclusão no interior do campo19 da saúde.
O (Cis)tema Binário como Estrutura Normativa
Este eixo analítico remonta à raiz do problema: a própria arquitetura binária e cisheteronormativa do Estado e suas instituições, que funciona como um campo19 “maior” estabelecendo as regras fundamentais que perpassam outros campos, como o da saúde. A binaridade compulsória dos sistemas de informação é a tecnologia burocrática primordial de exclusão trazida no relato do ENT 7, materialização de um Estado que só consegue enxergar e administrar corpos a partir de uma grade de inteligibilidade restrita13:
“E eu já ouvi um relato de uma menina trans que ela estava precisando de uma consulta com um urologista e que o médico falou assim: ‘olha, vai demorar porque você vai entrar numa fila e aí a prioridade vai ser homens cis para então encaixar você, muda seu sexo para masculino vai ser mais rápido’.”(ENT 7, HOMEM TRANS)
O sistema, nesse caso, não é neutro; ele é ativamente produtor de uma realidade binária que força o indivíduo a uma autonegação administrativa como moeda de troca para o acesso a um direito. A fala “a prioridade vai ser homens cis” explicita uma hierarquia de cidadania onde os corpos que se alinham perfeitamente à norma recebem precedência. Esta lógica, no entanto, é profundamente anacrônica e insustentável. Ela se sustenta na ficção de que lida com “minorias”, quando, na verdade, o que existe é uma “multidão queer”36, como traz Paul Preciado, uma vasta e diversa população cujas identidades, corpos e desejos escapam ao modelo binário e cisheteronormativo. A escassez de dados4 oficiais sobre esta população não é prova de sua pequenez numérica, mas sim do apagamento estatístico operado pelo próprio sistema que a multidão desafia. O “monstro sexual que tem por nome multidão torna-se queer”36(p.14) e é contra esta multidão invisibilizada, mas não necessariamente numericamente reduzida, que a arquitetura binária do Estado insiste em se erguer, tornando-se, ela própria, a principal barreira a ser transposta.
Esta lógica burocrática opera em sintonia com o que se pode denominar de Estado Negligente Biopolítico33. A fala da ENT 2 é precisa nesse ponto:
“A questão da saúde é só um braço do Estado que acaba nos marginalizando novamente, nos empurrando para os guetos, para a favela, reafirmando que de fato existe um divisório dentro desse processo de higienização dos corpos.” (ENT 2, MULHER TRANS)
Ela desloca a compreensão da negligência de uma mera “falta” para uma estratégia de gestão de populações. O Estado, através da precarização do acesso, atua no sentido de uma higienização dos corpos, confinando vidas dissidentes a espaços de marginalidade onde a própria noção de cuidado é esvaziada. Esta não é uma omissão passiva, mas um ato biopolítico ativo, como traz Foucault33, um abandono que define quais vidas são merecedoras de investimento e proteção, e quais são consideradas descartáveis17. Nesse processo, conforme articula Tertuliana Lustosa em seu “Manifesto traveco-terrorista”37, o Estado não é um ente abstrato, mas um agente que opera de forma perversa para corpos LGBTQIA+, especialmente corpos trans e travestis, relegando-os aos guetos e às zonas de abjeção.
A percepção de que a LGBTfobia é tratada como “palhaçada” e que as delegacias são extremamente negligentes corrobora a tese de um aparelho de Estado cisheteronormativo:
“Porque LGBTfobia nesse país ainda é tratada como palhaçada, mesmo tendo lei aprovada, tendo pena, tudo isso, a delegacia não tá nem aí, é extremamente negligente, os espaços são muito negligentes.” (ENT 16, PESSOA TRANS NÃO BINÁRIA)
A inefetividade das leis não é um acidente, mas o sintoma de que a cisheteronorma está profundamente inscrita no habitus19 dos agentes estatais. A violência simbólica18 é material quando a instituição que deveria coibir a discriminação se torna cúmplice por meio da inação, invalidando a cidadania LGBTQIA+. Essa negligência institucional pode ser compreendida à luz da longa história de criminalização e patologização das dissidências sexuais no Brasil, cuja superfície foi arranhada, mas não removida, pelas conquistas do movimento homossexual e posteriormente LGBTQIA+10.
Os recentes avanços normativos (a eliminação de restrições de gênero em procedimentos pelo Ministério da Saúde e a decisão do STF garantindo atendimento a pessoas trans em especialidades conforme o sexo biológico38,39) representam uma fissura significativa nesta estrutura. Tais conquistas são, em grande medida, fruto da pressão política dos movimentos sociais10. No entanto, tais medidas esbarram na inércia de um habitus19 institucional profundamente arraigado. A efetividade dessas políticas depende de sua tradução no nível local, onde gestores e profissionais, muitas vezes operando a partir da mesma lógica binária e excludente, podem esvaziá-las na prática. A disputa, portanto, não é apenas no plano jurídico, mas no campo das práticas cotidianas e dos sentidos incorporados, onde a velha ordem simbólica resiste à nova ordem legal.
Dessa forma, fica evidente que as barreiras vivenciadas nos serviços de saúde e os sofrimentos delas decorrentes não são acidentais. Elas são o resultado previsível de uma estrutura estatal que, em sua concepção e operação, organiza-se em torno do binarismo de gênero e da heterossexualidade compulsória. No entanto, a resistência a essa estrutura não se limita à reivindicação por inclusão. Como aponta Preciado36, a multidão queer opera um potente trabalho de desterritorialização da heterossexualidade, um processo que afeta tanto o espaço urbano quanto o espaço corporal. Longe de serem meras vítimas de um determinismo biopolítico, as multidões queer, justamente por carregarem “a história das tecnologias de normalização dos corpos, têm também a possibilidade de intervir nos dispositivos biotecnológicos de produção de subjetividade sexual”36(p.14).
A luta no SUS, portanto, não é apenas por acesso, mas por reescritura das próprias tecnologias de cuidado. O grande desafio político é evitar tanto a armadilha da segregação, que confina a população LGBTQIA+ à margem como um reservatório de transgressão, quanto a leitura liberal que a vê como um conjunto de indivíduos soberanos, ignorando os privilégios da norma cisheterossexual e reduzindo a potência política dessa multidão a uma luta por direitos individuais36. A superação do (Cis)tema na saúde exigirá, assim, estratégias plurais que vão da desidentificação e das identificações estratégicas até a “desontologização” do sujeito da política sexual, sinalizando que os corpos, nas suas mais diversas expressões, não são mais dóceis, e que a população LGBTQIA+, na potencialidade enquanto “multidão queer”, é uma força central na redefinição do que significa cuidar e ser cuidado36.
Este estudo apresenta limitações que merecem ser consideradas. A realização das entrevistas por meio virtual dificultou a observação de expressões não verbais, o que pode ter restringido a apreensão de nuances subjetivas relevantes. Embora tenha havido esforço para contemplar diferentes identidades LGBTQIA+, o recorte analítico priorizou as categorias de gênero e sexualidade, não explorando de forma sistemática como marcadores sociais da diferença, tais como raça, classe, geração e deficiência, interseccionam e conformam experiências singulares de acesso e cuidado. A análise das limitações e dos impactos do (cis)tema na produção do cuidado foi construída a partir do ponto de vista das pessoas LGBTQIA+ usuárias dos serviços de saúde. Ademais, a ausência de depoimentos de profissionais e gestores limitou a análise das dinâmicas institucionais sob outras perspectivas institucionais.
Reconhece-se que tais limitações, embora não invalidem os achados do estudo, evidenciam a complexidade do tema e apontam caminhos para pesquisas futuras, que poderão incorporar outros atores envolvidos na produção do cuidado e adotar abordagens interseccionais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo demonstrou que a cisheteronormatividade não é um viés pontual, mas a lógica operacional central de um Sistema de Saúde Cisheteronormativo. Através da tríade analítica que articula a estrutura binária do Estado, suas manifestações relacionais nas práticas de cuidado e seus profundos impactos nas vivências da população LGBTQIA+, ficou evidente que as iniquidades em saúde são resultado de uma maquinaria bem articulada de exclusão. Desde as burocracias que impõem uma autonegação administrativa como moeda de troca para o cuidado, passando pela violência simbólica que se manifesta no apagamento identitário e na interferência religiosa, até a precarização das vidas que gera impotência e exaustão, o (Cis)tema revela-se uma tecnologia de poder que produz e administra corpos dissidentes, confinando-os aos limites da inteligibilidade dominante.
As recentes conquistas legais e normativas, embora fundamentais, mostram-se insuficientes para romper com a inércia de um habitus institucional arraigado. A efetividade do direito à saúde para as multidões queer depende, portanto, de uma intervenção em múltiplas frentes de atuação. É preciso ir além de uma perspectiva liberal que busca apenas incluir indivíduos em uma estrutura preexistente. O desafio que se coloca é o de “desterritorializar” o próprio sistema de saúde, desmontando suas estruturas binárias e hierárquicas.
Para isso, três movimentos interligados são urgentes:
1. Desestruturar a Norma: É fundamental que gestores e formuladores de políticas promovam a revisão profunda de sistemas de informação, protocolos e fluxos, eliminando a binariedade compulsória e incorporando a diversidade de gênero e sexualidade como princípio organizador, e não como um adendo.
2. Subverter as Práticas: A educação permanente dos profissionais deve ser orientada por uma perspectiva crítica que vá além da “competência cultural”. É necessário fomentar a reflexão sobre o poder, o habitus cisgênero e a violência simbólica, capacitando-os não para “lidar com minorias”, mas para reconhecer e acolher a multidão queer em sua potência e diversidade, combatendo ativamente a patologização e a interferência de dogmas no cuidado.
3. Potencializar a Multidão: Por fim, é crucial fortalecer os mecanismos de participação social, controle social e responsabilização, garantindo que os movimentos LGBTQIA+ tenham voz ativa na construção, monitoramento e avaliação das políticas de saúde. São suas vozes e corpos dissidentes que, ao operarem a “desidentificação” e as identificações estratégicas, apontam os caminhos para a construção de um SUS verdadeiramente plural e equânime.
A transformação almejada não é um ajuste, mas uma reescrita. Significa construir um sistema de saúde onde o cuidado seja um ato de reconhecimento mútuo e de afirmação da vida em sua infinita diversidade, e onde a multidão queer não precise mais negociar sua existência para acessar o direito fundamental à saúde.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos a Tatiana Monteiro Fiuza por auxiliar na revisão crítica do artigo e aprovação da versão a ser publicada. Agradecemos a todas as pessoas LGBTQIA+ que participaram desse estudo, sem a sua contribuição ele não seria possível.
CIÊNCIA ABERTA
Em conformidade com as práticas de Ciência Aberta, o material metodológico detalhado referente à pesquisa encontra-se disponível no Repositório Institucional da Universidade Federal do Ceará (UFC): https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/79746
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CISHETERONORMATIVITY IN PRIMARY HEALTH CARE: EXPERIENCES AND BARRIERS IN ACCESS FOR LGBTQIA+ PEOPLE
Resumo (abstract):
Cisheteronormative norms operate structurally within health services, affecting access to and quality of care for the LGBTQIA+ population. This study aims to discuss how cisheteronormativity manifests in health services and its implications for access to and quality of care offered to LGBTQIA+ individuals, particularly in the context of Primary Health Care (PHC). Using a qualitative approach, 21 in-depth interviews were conducted with LGBTQIA+ PHC users, analyzed through thematic content analysis. The theoretical frameworks of Pierre Bourdieu, Judith Butler and Michel Foucault anchored the interpretation of findings. The central category analyzed, “Cisnormative Health System”, revealed three subcategories: manifestations of the (Cis)tem in care practices; the (Cis)tem and the experiences of LGBTQIA+ people in health services; and binary (Cis)tem as a normative structure. The fight against the discussed inequities requires the deconstruction of exclusionary professional practices, the reformulation of policies and information systems to recognize gender diversity, and the strengthening of social control, ensuring the active participation of LGBTQIA+ movements in the development and monitoring of health policies.
Palavras-chave (keywords):
Sexual and Gender Minorities; Primary Health Care; Healthcare Disparities; Social Discrimination.
CISHETERONORMATIVITY IN PRIMARY HEALTH CARE: EXPERIENCES OF LGBTQIA+ PEOPLE AND BARRIERS TO HEALTHCARE ACCESS
CISHETERONORMATIVITY IN PRIMARY HEALTH CARE: EXPERIENCES OF LGBTQIA+ PEOPLE AND BARRIERS TO HEALTHCARE ACCESS
ABSTRACT
Cisheteronormative norms operate structurally within health services, affecting access to and quality of care for the LGBTQIA+ population. This study aims to discuss how cisheteronormativity manifests in health services and its implications for access to and quality of care offered to LGBTQIA+ individuals, particularly in the context of Primary Health Care (PHC). Using a qualitative approach, 21 in-depth interviews were conducted with LGBTQIA+ PHC users and analyzed through thematic content analysis. The theoretical frameworks of Pierre Bourdieu, Judith Butler, and Michel Foucault guided the interpretation of the findings. The central category analyzed, “Cisheteronormative Health System,” revealed three subcategories: manifestations of the cis-tem in care practices; the cis-tem and the experiences of LGBTQIA+ people in health services; and the binary cis-tem as a normative structure. Addressing these inequities requires deconstructing exclusionary professional practices, reformulating policies and information systems to recognize gender diversity, and strengthening democratic social participation and oversight (controle social), with LGBTQIA+ movements actively participating in the development and monitoring of health policies.
Keywords: Sexual and Gender Minorities; Primary Health Care; Health Inequities; Gender Discrimination.
ABSTRACT
Cisheteronormative norms operate structurally within health services, affecting access to and quality of care for the LGBTQIA+ population. This study aims to discuss how cisheteronormativity manifests in health services and its implications for access to and quality of care offered to LGBTQIA+ individuals, particularly in the context of PHC. Using a qualitative approach, 21 in-depth interviews were conducted with LGBTQIA+ PHC users and analyzed through thematic content analysis. The theoretical frameworks of Pierre Bourdieu, Judith Butler, and Michel Foucault guided the interpretation of the findings. The central category analyzed, “Cisheteronormative Health System,” revealed three subcategories: manifestations of the cis-tem in care practices; the cis-tem and the experiences of LGBTQIA+ people in health services; and the binary cis-tem as a normative structure. Addressing these inequities requires deconstructing exclusionary professional practices, reformulating policies and information systems to recognize gender diversity, and strengthening democratic social participation and oversight (controle social), with LGBTQIA+ movements actively participating in the development and monitoring of health policies.
Keywords: Sexual and Gender Minorities; PHC; Health Inequities; Gender Discrimination.
INTRODUCTION
The literature highlights the multiple challenges faced by the LGBTQIA+ population, such as the social risk associated with homelessness, a consequence of unemployment, family estrangement, and rights violations, in addition to the recurrent violence experienced in different spheres: family, school, and social, especially regarding the trans population¹,².
In Brazil, one violent death of an LGBTQIA+ person was recorded every 30 hours in 2024, according to data from the Gay Group of Bahia (Grupo Gay da Bahia)³, the oldest LGBTQIA+ non-governmental organization in Latin America, which has conducted this survey since 1980. The figure may be even more alarming because of underreporting and the absence of effective public policies⁴.
In the health field, cisheteronormativity manifests in different forms of violence, such as disrespect for the legally recognized affirmed name (nome social; the name by which a person is recognized in accordance with their gender identity), negligent practices, embarrassment, and the erasure of sexual orientation and gender identity. These practices have driven LGBTQIA+ people away from formal services, worsening their health status⁵,⁶. The structural exclusion of this population is intensified both by the intersection⁷ of different forms of violence and by violence shaped by intersecting social markers, such as social class, race/skin color, and generation, resulting in health complications and reduced life expectancy and revealing the depth of these inequities⁸.
The term cisheteronormativity results from the articulation of two regulatory matrices: cisgenderism and compulsory heterosexuality⁹. The concept of cisgenderism, coined by transfeminist activists¹⁰, seeks to name the norms that sustain compulsory gender assignments, recognizing as “cis” the experiences that remain aligned with the sex/gender assigned at birth, a designation legitimized by medical and legal knowledge.
Cisheteronormativity, in turn, is structured from the combination of these two matrices, organizing both gender identity impositions and recognized forms of kinship and sexuality¹¹,¹². This regime produces and naturalizes cultural norms that establish what is considered normal or deviant, promoting the abjection and pathologization of transgressive experiences¹³.
Foucault¹⁴ analyzed how normativity is imposed through apparatuses of power-knowledge in institutions, such as medicine and psychiatry, which seek to conform subjects to social norms. The ignorance produced by this regime elevates cisheteronormativity to a level of supposedly objective neutrality, concealing its dimensions of gender, race, ability, and other social differences. Lima¹⁵ observes that this ignorance is not innocent: it is an instrumentalized resource to erase inequalities and render invisible subjects whose presence destabilizes established normative knowledge.
In this regard, Butler¹⁶ proposes that certain identities are recognized as legitimate while others are excluded from the field of recognition. People who do not fit into binary categories, such as trans, non-binary, and intersex individuals, are often rendered “unintelligible”, which contributes to their social and institutional marginalization, creating a separation between “livable lives” and “ungrievable lives”¹⁷. In the health system, this issue materializes in the rigidity of gender categories and the refusal to recognize the diversity of LGBTQIA+ experiences, reinforcing exclusions and hindering these populations\' access to services.
Pierre Bourdieu¹⁸,¹⁹ introduces the concepts of field, habitus, and symbolic violence, which help to understand the reproduction of cisheteronormativity. The field defines the social rules that value certain practices and exclude others; the habitus internalizes these norms and guides the actions of subjects, reproducing inequalities; and symbolic violence legitimizes these exclusions by naturalizing them.
Despite the persistence of a cisheteronormative context, Brazil has developed public policies aimed at the LGBTQIA+ population in recent decades¹⁰, most notably the National Comprehensive Health Policy for LGBT People (Política Nacional de Saúde Integral LGBT, PNSI LGBT), instituted in 2011¹. These advances are part of a broader process that began with Brazil\'s redemocratization in the 1980s and was driven by the Brazilian Health Reform (Reforma Sanitária). In this context, agendas related to sexual and gender diversity were progressively incorporated into public policies. Initiatives such as the Brazil Without Homophobia program (Brasil sem Homofobia)²⁰, Ordinance No. 1,707²¹, which instituted the Transsexualization Process (Processo Transexualizador) within the Brazilian Unified Health System (Sistema Único de Saúde, SUS), and the National Plan for the Promotion of Citizenship and Human Rights of LGBT People (Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT)²² consolidated the Brazilian State\'s commitment to promoting health equity²³.
However, the effective implementation of these policies still faces significant obstacles. The lack of Permanent Education in Health (Educação Permanente em Saúde; a Brazilian work-based learning approach integrated into everyday health-service practice) for health professionals, limited awareness of gender- and sexuality-related specificities, and frequent disinterest in the topic represent pressing challenges²³,²⁴. Added to this are the chronic shortage of official data on the LGBTQIA+ population, the persistence of institutional LGBTphobia, and the recurring dismantling of progressive agendas promoted by conservative governments. Together, these factors compromise the implementation of the PNSI LGBT guidelines²⁴,²⁵ and other public policies aimed at addressing health inequities affecting this population. In this context of contradiction between the legal framework and concrete reality, debate on cisheteronormativity in health is not only timely but also urgent and necessary.
Against this background, this study aims to discuss how cisheteronormativity manifests in health services and its implications for access to and quality of care offered to the LGBTQIA+ population, especially in the context of PHC within the SUS.
METHODOLOGICAL PATHWAY
This is a qualitative study developed in the municipality of Fortaleza, capital of the state of Ceará. The research included self-declared LGBTQIA+ individuals, aged 18 or older, who use PHC in Fortaleza. Minors, non-LGBTQIA+ individuals, users of private services, other levels of care, or different municipalities, as well as those who did not consent to participate, were excluded from the sample.
Data collection took place between July and August 2024 through in-depth online interviews²⁶. In this study, open interviews were chosen to favor narrative freedom and a deeper understanding of the shared experiences²⁷.
Regarding the criterion for ending data collection, the concept of "information power"²⁷,²⁸ was adopted, according to which the number of participants is defined by the empirical material\'s capacity to sustain a consistent, dense analysis aligned with the study\'s objectives, rather than by previously established numerical criteria.
This model considers five interrelated dimensions²⁸: (1) the study\'s objective, which is specific and oriented toward understanding the manifestations of cisheteronormativity in PHC; (2) the high specificity of the sample, composed of LGBTQIA+ users with experiences directly related to the investigated phenomenon; (3) the use of a consistent theoretical framework, based on Pierre Bourdieu, Judith Butler, and Michel Foucault, which expands the interpretative capacity of the data; (4) the quality of the dialogue, ensured by in-depth interviews conducted with sensitive listening and reflexivity; and (5) the analytical strategy, centered on identifying patterns of meaning.
The continuous evaluation of these dimensions throughout data collection indicated that, after 21 interviews, the empirical material had achieved sufficient density and consistency to support a robust understanding of the phenomenon under investigation, meeting the criterion of analytical sufficiency proposed by the model.
Data analysis was conducted through thematic content analysis, as proposed by Minayo²⁹, focusing on the interpretation of the meanings expressed in the narratives, linking them to the sociocultural and subjective contexts of their production. Minayo²⁹(p. 316) defines thematic analysis as the process of “identifying the units of meaning (núcleos de sentido) that structure a communication and are significant for the object of study.” This methodology captures values, social structures, and representations that permeate the discourses.
Audio transcription was performed with the support of the Whisper automatic speech-recognition model, followed by data organization and coding using the MAXQDA software, a tool that provided methodological rigor, thematic organization, and visualization of the relationships between categories and discourses. Coding was conducted iteratively and inductively, with an initial generation of open codes from the participants\' speeches, which were subsequently grouped into provisional categories, reviewed, and refined until the consolidation of analytical categories, guided by the theoretical framework and empirical material.
In this article, the category “Cisheteronormative Health System”, which gathered 60 units of meaning, will be presented and discussed. From this category, the following subcategories were identified: \'Manifestations of the cis-tem in Care Practices\' (with 27 units of meaning), \'The cis-tem and the experiences of LGBTQIA+ people in health services\' (with 20 units of meaning), and \'The Binary cis-tem as a Normative Structure\' (with 13 units of meaning).
The neologism “cis-tem” is used in this study to critically expose the cisheteronormative structure that sustains health-system institutions and care practices. Although no single inaugural authorship can be established with certainty, documented precedents exist in Brazilian transfeminist scholarship. Vergueiro³⁰ uses cistema, an intentional corruption of sistema, to foreground the structural and institutional character of cisnormativity and cissexism. Jaqueline Gomes de Jesus³¹ explicitly uses the expression “cis-tema (or cistema)” for the cisnormative and transphobic system that obstructs recognition of trans people\'s rights. In English-language scholarship, the analogous form “cis-tem” is also established, as in Hicks³², who examines cisnormativity embedded in bureaucratic and institutional systems. Accordingly, this English version uses “cis-tem” as a critical tool for exposing relations of power and knowledge that naturalize cisgender identity and permeate bodies, institutions, and care practices.
The study respected the ethical principles of Resolutions 466/2012 and 510/2016 of the National Health Council, which regulate research involving human beings in Brazil. The project was approved by the Research Ethics Committee of the Federal University of Ceará (UFC), under approval No. 6,934,406 and Certificate of Presentation for Ethical Consideration (Certificado de Apresentação de Apreciação Ética, CAAE) No. 80146424.1.0000.5054.
To protect participants\' anonymity when presenting the findings, the participant code ENT, derived from the Portuguese entrevistado (“interviewee”), is followed by a number and the participant\'s gender identity and sexuality. Example: (ENT 2, LESBIAN WOMAN).
PRESENTATION OF FINDINGS AND DISCUSSION
This section discusses the thematic category “Cisheteronormative Health System” and its subcategories, as detailed in the table below:
Table 1
Manifestations of the cis-tem in Care Practices: Power, Discourses, and Relations
The first analytical axis reveals how cisheteronormativity materializes in direct interactions between health professionals and LGBTQIA+ users. A fundamental form of this violence is institutional erasure, which denies the very existence of identities outside the binary, as pointed out by one of the interviewees:
“I think the worst thing is not people not knowing or not having enough training to deal with it; it\'s worse than that, it\'s the erasure, like if there is only female or male, the others don\'t exist, right?” (ENT 21, NON-BINARY TRANS PERSON)
The statement does not merely denounce a bureaucratic gap. It identifies the operation of a knowledge-power apparatus³³ that produces the very reality of what is knowable and therefore recognized as care-worthy (that is, both eligible for and deserving of care)¹⁷. Butler helps us understand that this is not a simple oversight but a performative act of derealization. By restricting the available options to a binary, the system actively produces the “unintelligibility”¹³ of non-binary bodies and excludes them from the domain of the fully recognizable human within the health field. This erasure extends to the universal presumption of cisheteronormativity, a discursive regime¹⁴ that imposes a distorted interpretive framework on bodies. The presumption of heterosexuality then produces clinical absurdities, such as the insistence on diagnosing an ectopic pregnancy in a lesbian woman:
“I had to have a transvaginal ultrasound, and it showed a small cyst. Then they tried to say it was an ectopic pregnancy, and I said, ‘Guys, there is no way this is an ectopic pregnancy.’ Then he said, ‘Oh, but don’t you have sexual intercourse?’ I said, ‘There is no risk; it is a same-sex relationship (relação homoafetiva)!’ He kept insisting on it until I finally got stressed.” (ENT 11, CIS LESBIAN WOMAN)
Clinical logic, supposedly neutral³⁵, is hijacked by a heterosexual script that becomes more real than the empirical evidence presented by the patient. It is a violent epistemology: the professional\'s cisheteronormative habitus¹⁹ makes them incapable of processing a bodily reality that escapes their matrix of intelligibility, resulting in social iatrogenesis and ethical-political suffering. These practices reveal the regimes of intelligibility that define which bodies and desires are comprehensible and, therefore, worthy of unquestioning care¹⁷.
This context is worsened by religious interference, where personal beliefs override the ethics of care. A gay user reports:
“They are people who unfortunately bring their religions into their work, bring their precepts into work, and unfortunately mistreat the population that needs it the most. And it ends up pushing us away from this issue of prevention, of health promotion. We are mistreated, we are looked down upon, and unfortunately we end up getting lost within the health system because of prejudice” (ENT 9, CIS GAY MAN)
Symbolic violence¹⁸ operates here in its utmost refinement: the user is not only denied recognition of their identity but also constituted as a “sinner” or “abject”, internalizing a guilt that pushes them away from health prevention and promotion, in a movement of self-exclusion that masks the structural coercion producing it.
At the extreme end of this continuum, the pathologization of dissident identities and the authoritarian assertion of professional power reveal the rawest face of biopower³³. The medicalization of trans identity represents the capture of difference by psychiatric devices, converting gender dissidence into a pathological symptom:
“When he (the doctor) talked to the police he said I had bipolar disorder and a personality disorder, that I believed I was a person I wasn\'t, and that he had advised me to go to a mental hospital and I refused to accept it.” (ENT 7, TRANS MAN)
Concurrently, the imposition of a “deadname” (nome morto), a term widely used by trans people for the civil name assigned at birth that no longer corresponds to the person\'s name and gender identity, is an act of violence that uses the bureaucratic apparatus to erase identity. In the clinical encounter, the sovereign power of the State, materialized in official documentation, is activated to publicly reaffirm the denial of the subject:
“Then the doctor kept saying, ‘Look, I am the doctor conducting this examination, and I will call you by the name on your document.’ At that moment, the pressure leaves us with only one response: we just want to get through it, finish, and go home.” (ENT 15, TRANS WOMAN)
These are acts of discursive violence¹⁶ that reinscribe normativity. The professional, in these cases, acts as an agent of a broader system of control¹⁴, medicalizing the difference and using their symbolic capital¹⁸ to silence and subjugate.
Combined, these practices, from subtle erasure to explicit denial, create a care environment that is, paradoxically, a generator of suffering. They demonstrate that transforming this scenario requires more than sporadic training; it requires the deconstruction of the hierarchical power relations that permeate the clinical encounter, replacing them with an ethics of care centered on autonomy and recognition.
The cis-tem and the experiences of LGBTQIA+ people in health services
If the first axis uncovered how power operates in care relationships, this second axis focuses on the bodies and subjectivities that bear its effects. The narratives reveal a complex picture of strategies for navigating services, ethical-political suffering, and imposed precariousness, in which cisheteronormativity ceases to be an abstraction and becomes an intimate force shaping health experiences.
One of the most paradoxical strategies is the negotiation of passing (passabilidade), a term that, in the LGBTQIA+ context, refers to a person\'s capacity to be perceived by society as cisgender and/or heterosexual. The following statement reveals passing as precarious bodily capital¹⁹, a bargaining chip in a violent symbolic market. It ensures social recognition in some settings (“Mr. Thomás”) but encounters a structural limit when a dissident body enters a service marked by binarism, such as gynecology:
“I don\'t like the term ‘passing’; I consider it a transphobic way of viewing those who are different. But I know that the further I get in my gender-affirming hormone therapy and the more masculine traits I develop, the more I will be able to pass there, to be Thomás, ‘Mr. Thomás.’ However, when I go to the gynecology service, people will always stare and grimace, unable to understand why a man with a beard is entering that room.” (ENT 17, TRANS MAN)
The interviewee\'s discomfort with the term shows that passing is not an achievement but a survival strategy that, while offering protection, reinforces the norm that makes it necessary. This dynamic accords with what Butler¹⁶ describes as the constraining character of gender performativity.
This constant negotiation generates a state of helplessness and hypervigilance. The non-binary person who wonders, “If I call the police, I don\'t know if the police officers who arrive will be on my side” (ENT 16), encapsulates the political precariousness of a life exposed not only to poor care but also to active violence by the very apparatus meant to protect it. This is not an unfounded suspicion but a realistic calculation in the face of a State whose institutions are perceived as extensions of the same oppressive system¹⁴. The result is strategic silence, a calculated withdrawal from the field of dispute to preserve physical and mental integrity:
“Often we choose not to speak, because for example, if I call the police, I don\'t know if the police officers who arrive will be on my side; they could arrive and I could still get arrested, you understand?” (ENT 16, NON-BINARY TRANS PERSON)
This silencing is fueled by an epistemic violence that overburdens the subject. ENT 15\'s statement describes the pedagogical burden of dissidence, where the victim of symbolic violence¹⁸ is further held responsible for educating their aggressor:
“At the time I was much more uninformed about these issues. And so, being a trans person, I felt a gigantic lack of respect. It was really a very deep pain. But thinking about defending myself. Thinking about complaining or asking why the person handled it that way. Having to teach them as well. It\'s not something that crosses our minds.” (ENT 15, TRANS WOMAN)
In this context, the cited lack of information is not a void, but a space occupied by a cisgender habitus¹⁸ that refuses to yield its privileged position of enunciation (lugar de fala; the socially situated standpoint from which a person speaks and is heard)³⁵. The suffering, therefore, is not only due to the disrespect, but to the exhaustion of continually having to justify one\'s own existence in a world that renders it unintelligible¹³.
Finally, the material and symbolic scarcity of specialized services creates a scenario of institutionalized helplessness. Statements about the “high demand for few services” (ENT 9) and the “very long line” of the SUS (ENT 17) demonstrate how State negligence acts as a biopower mechanism³³:
“Because we seek help, but there isn\'t any. The services specifically intended to meet our community\'s needs are very few, and demand is high. Unfortunately, they cannot serve everyone. So we end up lost, making mistakes, or even facing many consequences because information does not reach us.” (ENT 9, CIS GAY MAN)
“In the SUS, the waiting list is very long. We do not know the average waiting time or how long someone remains on it before receiving comprehensive care. Some people want and are entitled to surgery. Some trans people do not want hormone therapy or surgery but need psychological support. In short, there is a real lack of everything.” (ENT 17, TRANS MAN)
The lack of services is not a chance occurrence, but a way of administering populations, making access to rights, such as hormone therapy or psychological support, an unreachable privilege for many. This is the materialization of negligence as policy, in which the failure to guarantee specific and qualified services is, in practice, an effective way of keeping dissident bodies¹⁶ on the margins of the care system, reinforcing their vulnerability and entrenching their exclusion from the health field¹⁹.
The Binary cis-tem as a Normative Structure
This analytical axis goes back to the root of the problem: the very binary and cisheteronormative architecture of the State and its institutions, which functions as a “larger” field¹⁹ establishing the fundamental rules that permeate other fields, such as health. The compulsory binarity of information systems is the primordial bureaucratic technology of exclusion brought up in ENT 7\'s account, materializing a State that can only see and administer bodies from a restricted grid of intelligibility¹³:
“I heard about a trans girl who needed an appointment with a urologist, and the doctor said, ‘Look, it will take a while because you’ll join a waiting list, and cis men will have priority; we’ll fit you in afterward. Change your registered sex to male and it will be faster.’” (ENT 7, TRANS MAN)
The system, in this case, is not neutral; it actively produces a binary reality that forces individuals into administrative self-denial as a bargaining chip for access to a right. The phrase “cis men will have priority” makes explicit a hierarchy of citizenship in which bodies that align perfectly with the norm receive precedence. This logic, however, is deeply anachronistic and untenable. It rests on the fiction that it deals with “minorities,” when what exists, as Paul Preciado argues, is a “queer multitude”³⁶: a vast and diverse population whose identities, bodies, and desires escape the binary and cisheteronormative model. The scarcity of official data⁴ on this population does not show that it is numerically small; rather, it reflects the statistical erasure produced by the very system that the multitude challenges. The “sexual monster whose name is multitude becomes queer”³⁶(p.14). The State\'s binary architecture thus rises against this multitude, which has been rendered invisible but is not necessarily numerically small, and becomes the principal barrier to be overcome.
This bureaucratic logic operates in tune with what can be called a Biopolitically Negligent State (Estado Negligente Biopolítico)³³. ENT 2\'s statement is precise on this point:
“The issue of health is just one arm of the State that ends up marginalizing us again, pushing us into the ghettos, into the favela, reaffirming that there is indeed a divide within this process of the social cleansing of bodies.” (ENT 2, TRANS WOMAN)
This shifts the understanding of negligence from a mere “lack” to a strategy for managing populations. Through precarious access, the State enacts the social cleansing of bodies (higienização dos corpos; here encompassing normalization, disciplining, and segregation), confining dissident lives to marginal spaces where the very notion of care is emptied. This is not a passive omission but an active biopolitical act, as Foucault suggests³³, an abandonment that defines which lives are worthy of investment and protection and which are considered disposable¹⁷. In this process, as Tertuliana Lustosa argues in her “Traveco-Terrorist Manifesto” (Manifesto traveco-terrorista; traveco is a derogatory term for travestis and trans women that is politically reclaimed in the title)³⁷, the State is not an abstract entity but an agent that operates perversely against LGBTQIA+ bodies, especially trans and travesti bodies (travesti denotes a culturally and politically specific Brazilian transfeminine identity), relegating them to ghettos and zones of abjection.
The perception that LGBTphobia is treated as a “joke” and that police stations are extremely negligent corroborates the thesis of a cisheteronormative State apparatus:
“Because LGBTphobia in this country is still treated as a joke, even with an approved law, having penalties, all of that, the police station couldn\'t care less, it is extremely negligent, the spaces are very negligent.” (ENT 16, NON-BINARY TRANS PERSON)
The ineffectiveness of laws is not an accident, but a symptom that the cisheteronorm is deeply inscribed in the habitus¹⁹ of State agents. Symbolic violence¹⁸ is material when the institution that should curb discrimination becomes complicit through inaction, invalidating LGBTQIA+ citizenship. This institutional negligence can be understood in light of the long history of criminalization and pathologization of sexual dissidence in Brazil, which has been challenged but not dismantled by the achievements of the homosexual movement and, subsequently, LGBTQIA+ movements¹⁰.
Recent regulatory advances, namely the Ministry of Health\'s elimination of gender restrictions in procedures and the Supreme Federal Court decision guaranteeing trans people\'s access to clinically relevant specialties regardless of the sex marker in their civil records³⁸,³⁹, represent a significant fissure in this structure. These achievements largely resulted from the political pressure exerted by social movements¹⁰. However, such measures encounter the inertia of a deeply rooted institutional habitus¹⁹. Their effectiveness depends on implementation at the local level, where managers and professionals, often operating according to the same binary and exclusionary logic, can render them ineffective in practice. The dispute therefore occurs not only at the legal level but also in everyday practices and embodied meanings, where the old symbolic order resists the new legal order.
Thus, it becomes evident that the barriers experienced in health services and the suffering resulting from them are not accidental. They are the predictable result of a State structure that, in its conception and operation, is organized around gender binarism and compulsory heterosexuality. However, the resistance to this structure is not limited to the demand for inclusion. As Preciado points out³⁶, the queer multitude enacts a powerful deterritorialization of heterosexuality, a process that affects both the urban space and the bodily space. Far from being mere victims of biopolitical determinism, queer multitudes, precisely because they carry “the history of the technologies of normalization of bodies, also have the possibility of intervening in the biotechnological devices for the production of sexual subjectivity”³⁶(p.14).
The struggle in the SUS, therefore, is not only for access, but for the rewriting of the care technologies themselves. The great political challenge is to avoid both the trap of segregation, which confines the LGBTQIA+ population to the margins as a reservoir of transgression, and the liberal reading that views them as a set of sovereign individuals, ignoring the privileges of the cisheterosexual norm and reducing the political power of this multitude to a struggle for individual rights³⁶. Overcoming the cis-tem in health will thus require plural strategies ranging from disidentification and strategic identifications to the “de-ontologization” of the subject of sexual politics, signaling that bodies, in their most diverse expressions, are no longer docile, and that the LGBTQIA+ population, in its potentiality as a “queer multitude”, is a central force in redefining what it means to care and be cared for³⁶.
This study presents limitations that deserve to be considered. Conducting the interviews virtually hindered the observation of non-verbal expressions, which may have limited access to relevant subjective nuances. Although an effort was made to include different LGBTQIA+ identities, the analytical scope prioritized the categories of gender and sexuality, not systematically exploring how social markers of difference, such as race, class, generation, and disability, intersect and shape unique experiences of access and care. The analysis of the limitations and impacts of the cis-tem on the production of care was constructed from the perspective of LGBTQIA+ people using health services. Furthermore, the absence of testimonies from professionals and managers limited the analysis of institutional dynamics from other institutional perspectives.
It is recognized that such limitations, although they do not invalidate the findings of the study, highlight the complexity of the theme and point out paths for future research, which may incorporate other actors involved in the production of care and adopt intersectional approaches.
FINAL CONSIDERATIONS
This study demonstrated that cisheteronormativity is not a localized bias, but the central operational logic of a Cisheteronormative Health System. Through the analytical triad that articulates the binary structure of the State, its relational manifestations in care practices, and its profound impacts on the experiences of the LGBTQIA+ population, it became evident that health inequities are the result of a well-articulated machinery of exclusion. From the bureaucracies that impose an administrative self-denial as a bargaining chip for care, through the symbolic violence that manifests in identity erasure and religious interference, to the precariousness of lives that generates powerlessness and exhaustion, the cis-tem reveals itself as a technology of power that produces and administers dissident bodies, confining them to the limits of dominant intelligibility.
Recent legal and normative achievements, while fundamental, prove insufficient to break the inertia of an ingrained institutional habitus. The effectiveness of the right to health for queer multitudes depends, therefore, on action on multiple fronts. It is necessary to move beyond a liberal perspective that solely seeks to include individuals in a pre-existing structure. The challenge at hand is to “deterritorialize” the health system itself, dismantling its binary and hierarchical structures.
To this end, three interconnected movements are urgent:
1. Destructuring the Norm: It is essential for managers and policymakers to undertake a thorough review of information systems, protocols, and flows, eliminating compulsory binarity and incorporating gender and sexuality diversity as an organizing principle, and not as an addendum.
2. Subverting Practices: Permanent Education in Health for professionals must be guided by a critical perspective that goes beyond “cultural competence.” It must foster reflection on power, cisgender habitus, and symbolic violence, training professionals not to “deal with minorities” but to recognize and welcome the queer multitude in its power and diversity, while actively combating pathologization and the interference of dogma in care.
3. Empowering the Multitude: Finally, it is crucial to strengthen democratic social participation and oversight (controle social), as well as accountability, ensuring that LGBTQIA+ movements have an active voice in the construction, monitoring, and evaluation of health policies. It is their dissident voices and bodies that, by operating “disidentification” and strategic identifications, point the way for the construction of a truly plural and equitable SUS.
The desired transformation is not an adjustment, but a rewriting. It means building a health system where care is an act of mutual recognition and affirmation of life in its infinite diversity, and where the queer multitude no longer needs to negotiate its existence to access the fundamental right to health.
ACKNOWLEDGMENTS
We thank Tatiana Monteiro Fiuza for assisting with the critical review of the article and approval of the version to be published. We also thank all the LGBTQIA+ people who participated in this study; without their contributions, it would not have been possible.
OPEN SCIENCE
In accordance with Open Science practices, the detailed methodological material for this research is available in the UFC Institutional Repository: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/79746
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Como
Citar
Santos, FRP, Silva, RS, Felix, VR, Ribeiro, MTAM, Silva, MS, Costa, AHC, de Lima, RRT, Oliveira, MLM. A CISHETERONORMATIVIDADE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: EXPERIÊNCIAS E BARREIRAS NO ACESSO DE PESSOAS LGBTQIA+. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jun). [Citado em 12/09/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/a-cisheteronormatividade-na-atencao-primaria-a-saude-experiencias-e-barreiras-no-acesso-de-pessoas-lgbtqia/20055?id=20055