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Artigos

0151/2026 - Como profissionais de saúde lidam com situações difíceis do cuidado paliativo?
How do health professionals deal with difficult palliative care situations?

Autor:

• Vanessa dos Santos Beserra - Beserra, VS - <vanessabeserra@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9841-0021

Coautor(es):

• Claudia Brito - Brito, C - <claudia.brito@fiocruz.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7982-6918



Resumo:

Objetivo: Analisar como profissionais de saúde lidam com situações difíceis (SD) no cuidado paliativo e como elas repercutem na prestação do cuidado e na vida destes profissionais.
Método: Pesquisa qualitativa de perspectiva compreensiva e fenomenológica, baseado em entrevistas com 36 profissionais de saúde do cuidado paliativo oncológico, realizadas entre agosto/2019 e fevereiro/2020. As categorias (como lidou e repercussão) foram analisadas pelo método da narrativa fenomenológica e base teórica filosófica e sociológica.
Resultados: Identificamos duas formas distintas de lidar com SD, aqueles que fugiam e aquelas que enfrentavam a SD e, essa atitude também refletiu em duas formas de repercussão: profissionais que conseguiram transformar a SD em algo proveitoso, daqueles que não vislumbraram mudanças, ou quando percebiam, eram no sentido de piora das condições de trabalho.
Conclusões: Resultados mostram que mesmo SD podem promover transformação e ressignificação no cuidado e na vida dos profissionais. Também reitera necessidade de aprofundar a dimensão subjetiva no processo de formação profissional e criação de espaços de reflexão nos serviços de saúde para tratar das dificuldades emocionais vivenciadas por profissionais, visando a aprendizagem a partir de experiências.

Palavras-chave:

Cuidado Paliativo, Neoplasias, Morfina, Doente Terminal; Formação Profissional

Abstract:

Objective: To analyze how health professionals deal with difficult situations (DS) in palliative care and how they impact the provision of care and the lives of these professionals.
Method: Qualitative research from a comprehensive and phenomenological perspective, based on interviews with 36 health professionals in oncological palliative care, carried out between August/2019 and February/2020. The categories (how it was handled and repercussion) were analyzed using the phenomenological narrative method and a philosophical and sociological theoretical basis.
Results: We identified two different ways of dealing with DS, those who fled and those who faced DS, and this attitude also reflected in two forms of repercussion: professionals who managed to transform DS into something beneficial, those who did not see changes, or when they did, they were in the direction of worsening working conditions.
Conclusions: Results show that even DS can promote transformation and new meaning in the care and lives of professionals. It also reiterates the need to deepen the subjective dimension in the professional training process and create spaces for reflection in health services to address the emotional difficulties experienced by professionals, aiming to learn from experiences.

Keywords:

Palliative Care, Neoplasms, Morphine, Terminally Ill; Professional Training

Conteúdo:

INTRODUÇÃO
Cuidados paliativos é a abordagem de atenção multidisciplinar para pessoas com doenças ameaçadoras ou limitadoras da continuidade da vida, tendo como propósito amenizar sofrimento, melhorar qualidade de vida e proporcionar conforto ao paciente e familiares1,2.
Por se tratar de uma abordagem que visa ao alívio da dor, do sofrimento e de outros sintomas, os profissionais de saúde estão cotidianamente expostos a situações difíceis? (SD) desafiadoras¹?³??, que mobilizam emoções e exigem criatividade e habilidades subjetivas.
Neste estudo, as SD são compreendidas como experiências5 que afetam e produzem transformações singulares na trajetória dos profissionais de saúde. Em diálogo com a fenomenologia6, entende-se que essas experiências se constituem no encontro com o outro em sofrimento, inscrevendo-se no corpo e na percepção dos profissionais e transformando o modo como estes se relacionam com o mundo, com o outro e consigo mesmos5,6.
Assim, as SD, presentes no cotidiano dos serviços de saúde e ao longo do cuidado paliativo oncológico, independentemente da dimensão técnica do cuidado, despertam sentimentos diversos e exacerbados, muitas vezes contraditórios, dolorosos e recalcados pelos profissionais?.
A evolução de uma doença ameaçadora da vida, com ou sem morte iminente, intensificam a ocorrência de SD, tanto em pacientes, quanto em familiares e profissionais de saúde1,4,7,8.
São inúmeras as possibilidades de profissionais vivenciarem SD durante o cuidado. No entanto, estudos sobre o tema focam na égide da comunicação de más notícias e na patologização de sintomas como burnout, estresse e licenças médicas. Reconhecemos que esse sofrimento é real, mas defendemos que ele não deve ser tratado exclusivamente sob uma perspectiva individual — diagnóstico do profissional —, pois tende a minimizar ou ignorar a dimensão emocional do cuidado, marcada por sofrimentos e incertezas que são inerentes ao processo e exigem respostas coletivas e de responsabilidade compartilhada.
Ademais, existem dificuldades nas quais a comunicação nem está presente. O desafio, por vezes, é ter humano dependente de seus cuidados e não saber agir ou o que falar. Não por despreparo ou descaso, mas pela dificuldade de lidar com os sentimentos que evocam, demonstrando a fragilidade de pessoas que cuidam de pessoas.
Reduzir essas questões a protocolos de comunicação pode alimentar práticas engessadas, dificultar o envolvimento e propiciar uma falsa sensação de proteção emocional do profissional9.
Situações extremas relacionadas a morte podem inclusive impedir a constituição de vínculos e recebimento de assistência10. Para Elias10, a dificuldade de lidar com a morte é resultante do processo civilizatório das sociedades ocidentais, marcado por: (1) transformação da morte em um ritual asséptico e afastado da sociedade; (2) valorização do prolongamento da vida e evitação da ideia da morte ao máximo; (3) aparência frágil e “decadente” dos moribundos que promove um afastamento afetivo dos vivos.
O cotidiano do cuidado paliativo está permeado por uma intensidade de crises e sentimentos (angústia, medo, raiva, tristeza e frustrações)3,4,11, mas que por vezes negligenciados pelos próprios profissionais de saúde9.
Se por um lado essa pletora de sentimentos gera impedimentos, por outro possibilita que profissionais envolvidos repensem suas práticas e existências a partir da experiência5. Neste estudo, adotamos o conceito de experiência de Larrosa5, como “o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” (p. 18).
Arendt11 afirma que diante de uma crise precisamos voltar às questões iniciais e buscar novas respostas. De acordo com a autora12, a crise se torna um desastre quando respondemos a ela com juízos pré-concebidos, e essa atitude nos priva da experiência da realidade e da oportunidade que ela proporciona à reflexão13.
Neste sentido, este estudo objetivou analisar como profissionais de saúde lidam com SD no cuidado paliativo e como elas repercutem na prestação do cuidado e na vida destes profissionais.
MÉTODO
Pesquisa exploratória, qualitativa, de perspectiva compreensiva e fenomenológica6, sobre como os profissionais de saúde lidam com SD que emergem do cuidado paliativo e repercussões correlacionadas, utilizando técnica de entrevista. O estudo foi realizado no setor de internação de hospital público exclusivo para cuidados paliativos hemato-oncológico de pacientes com mais de 18 anos. O setor de internação conta com 56 leitos e 119 profissionais, todos servidores públicos especializados em Cuidados Paliativos, sendo a maioria superior a cinco anos de atuação.
Por acreditar que qualquer profissional é suscetível a vivenciar SD, incluiu-se todas categorias profissionais, independente do tempo de atuação no cuidado paliativo, excluindo apenas aqueles de férias, licença ou em funções administrativas no momento da entrevista. Assim, o critério de inclusão foi profissional de saúde que atuava diretamente no cuidado paliativo de paciente oncológico internado.
O contato para participação no estudo iniciou-se por meio de convite por aplicativo de conversa individualizado, para alguns membros da equipe multiprofissional. Alguns entrevistados também sugeriram outros profissionais e, teve, ainda, aqueles com interesse espontâneo, que buscaram a pesquisadora a partir do conhecimento do tema da pesquisa.
As entrevistas ocorreram de agosto/2019 a fevereiro de 2020, na própria unidade, em local com acesso restrito. Elas foram gravadas, transcritas e revisadas. Das 36 entrevistas realizadas, seis foram excluídas por tratarem de SD diretamente relacionadas a questões de gestão, chefia ou conflitos internos na equipe, e não ao cuidado de pacientes e acompanhantes, que era o foco do estudo. As SD descritas refletiam a perspectiva dos entrevistados, baseadas nas experiências desafiadoras vivenciadas no contexto do cuidado.
Assim, foram analisadas 30 entrevistas, de cinco categorias profissionais (técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas e assistentes sociais), representando 25% do total de profissionais da área de internação.
O roteiro de entrevista era composto por três perguntas abertas: (1) você teve alguma situação difícil na prestação do cuidado paliativo?; (2) como você lidou com ela?; (3) quais repercussões que essa situação difícil teve na sua vida e no cuidado prestado por você?
O Quadro 1 apresenta a categorização das SD narradas pelos profissionais e a sua respectiva descrição.
A análise foi realizada por meio do método fenomenológico6, composto por três momentos: descrição, redução e compreensão. Primeiramente, efetuou-se a leitura atenta das falas do entrevistado, com foco no conteúdo, na linguagem e no contexto da experiência narrada. Em seguida, procedeu-se à releitura do material para identificar os significados expressos nos relatos, buscando apreender a percepção do vivido pelo sujeito, isto é, o núcleo essencial do fenômeno (Redução Fenomenológica).
Durante essa etapa, adotou-se a postura de epoché, que implica a suspensão de conhecimentos prévios ou categorias definidas a priori, de modo a permitir a interpretação da narrativa a partir do ponto de vista do próprio sujeito.
A partir do agrupamento das unidades de significado, selecionou-se as situações mais relevantes para cada uma das categorias — “formas de lidar” e “repercussões” —, que posteriormente foram sustentadas por referencial teórico-conceitual, com o objetivo de aprofundar a compreensão dos resultados.
A maioria das entrevistas apresentou mais de uma subcategoria em “formas de lidar” e “repercussões”. Assim, um mesmo profissional podia recorrer a diferentes maneiras de agir, ou a apenas uma delas; da mesma forma, podia identificar múltiplas repercussões, nenhuma consequência, ou ainda perceber que tais repercussões variavam ao longo do tempo. Os Quadros 2 e 3 apresentam, respectivamente, as definições das subcategorias “formas de lidar” e “repercussões”, bem como os verbetes extraídos das narrativas dos entrevistados.
Foram realizadas alterações nos nomes de profissionais e pacientes, substituindo-os por “ciclano” e “fulano”, a fim de garantir o anonimato.
Esta pesquisa foi aprovada pelos Comitês de Ética em Pesquisa da instituição proponente e coparticipante.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Como profissionais de saúde lidam com situações difíceis do cuidado paliativo?
Do total de 30 entrevistados, 18 profissionais narraram dificuldade de lidar com SD, usando a estratégia de barreira emotiva ou “fuga” (Evitação; Controle emocional; Não Lidou; Sedação como conforto mútuo; Culpabilizar instituição/outro; Evita apoio dos pares e Barreira entre vida particular e profissional) e, consequentemente, essa dificuldade se repetia na história desses profissionais. Enquanto isso, 12 profissionais adotaram uma postura menos defensiva e assumiram uma atitude mais voltada ao enfrentamento da SD, o que lhes permitiu superar esse desafio (Envolvimento emocional; Cuidado com mais zelo; Afastamento Reflexivo).
Independentemente da forma de lidar dos profissionais de saúde, compreende-se que elas não são “escolhas” individuais isoladas, mas produções situadas que emergem das relações de cuidado e se constituem em contextos civilizatórios¹?, nos processos formativos e na organização dos serviços de saúde.
Em relação aos profissionais que se mostraram desconfortáveis perante a morte (dificuldade de lidar com SD relacionadas à morte), mesmo sendo paliativistas, pode ser compreendida pela óptica da assepsia e do afastamento da morte no cotidiano da sociedade, conforme sinalizado por Elias10. Como reflexo, morte é tema evitado por profissionais, pacientes e familiares, mesmo em condições graves e prognóstico ruim¹?, chegando-se a optar por termos mais amenos como “questões de fim de vida”. Para Elias, deveríamos aceitar a morte como parte integrante da vida, vivenciar sua ocorrência e reconhecer a importância do envelhecimento e da limitação da vida10. Essa perspectiva é endossada pela Política Nacional de Cuidados Paliativos² e por instituições internacionais importantes da área¹.
Quem mencionou solicitar apoio (equipe ou externo) habitualmente evitava enfrentar as SD. O profissional que buscava apoio externo raramente buscava apoio dos pares, entretanto, quando ocorria Evitação, era comum precisar do apoio da equipe com o intuito de compartilhar os sentimentos e solicitar sua substituição no cuidado, visando à preservação emocional.
Consonante com os resultados encontrados7,15, os profissionais que buscaram apoio dos pares diante de SD7,15 fizeram de forma rápida, na passagem do corredor, por conta do excesso de trabalho; enquanto outros evitam ajuda dos pares para não sobrecarregá-los8. Como consequência, o luto do profissional é negligenciado para cuidar do luto do familiar. Estudar mais, fazer psicoterapia, atividade física e religião (Apoio externo) também foram mencionadas como formas de alívio para o sofrimento decorrente do trabalho paliativo7.
Contudo, as formas de lidar foram diversas e ambíguas para quase a totalidade dos entrevistados, mostrando o quanto que o cuidado é subjetivo, desafiante e complexo. Vale destacar que esses comportamentos de fuga estavam mais relacionados com proteção emocional do indivíduo e não necessariamente com o cuidado do outro. Por isso é possível que o sujeito crie uma barreira emocional e ao mesmo tempo cuide com zelo do paciente.
Outros estudos3,8,11 também mostraram dispositivos de evitação (Evitação) ou controle emocional para não se apegar a pacientes que iriam morrer brevemente, modificando, inclusive, escalas para evitar o confronto com a terminalidade16. Mesmo assim, esforçavam-se para acolher pacientes e familiares por acreditarem ser importante7,8 (Cuidado com mais zelo). A crença de que sentimentos são inapropriados para prestação do cuidado está alicerçada no processo civilizatório ocidental10, sendo denominado por outros estudos4,7,16 como “colocar a situação em banho maria”. Estratégia semelhante é a Barreira entre vida particular e profissional, que significa proteger a si e familiares dos transbordamentos emocionais do trabalho3,8.
Desta forma, mecanismos de evitação - sem reflexão - têm o potencial de gerar consequências mais danosas para o profissional ou instituição (por meio de licenças) do que para o paciente. Por este motivo diferenciamos Evitação e afins do Afastamento Reflexivo, pois, neste último, mesmo havendo evitação momentânea, ela é acompanhada de reflexão, possibilitando sair do processo automatizado, compreender aquele comportamento e encontrar uma nova forma de lidar. Corroborando essa análise, todos que mencionaram Afastamento Reflexivo como forma de lidar, também citaram envolvimento emocional.
A estratégia de se “desligar” para evitar sofrimento (controle emocional) mostra-se como uma opção delicada, visto que o controle entre “total envolvimento” e “desligamento” apresenta limites imprecisos9. A constância do não-envolvimento como meio de proteção precisa ser refletida para não propiciar a “coisificação” do outro, que é a transformação de seres humanos em coisas. Arendt17 salienta para os riscos de processos de trabalho burocráticos, mecanizados e sem envolvimento, sobretudo quando há a perda da “função do juízo humano”, dada a renúncia da capacidade de pensar. Como práticas cotidianas, a burocratização e o não envolvimento podem fazer com que profissionais de saúde se tornem máquinas reprodutivas, que executam seus afazeres sem a capacidade de se afetar ou sem refletir como estão agindo com o outro.
Das estratégias comumente narradas, que visavam criar barreira emotiva para lidar com SD (Controle emocional; Barreira entre vida particular e profissional; Evita apoio pares e Sedação como conforto mútuo), percebemos quatro níveis distintos com mesmo intuito: (1) Individual – visa ao autocontrole e acredita na dissociação entre emoção e técnica; (2) Profissional – acredita na dissociação entre vida profissional e particular; (3) Equipe – o profissional não pede ajuda e não compartilha sentimentos com o intuito de proteger a equipe; (4) Medicalização – o profissional oferece/usa sedação para aplacar o sofrimento que também é seu, mas acredita ser apenas do paciente.
A saída deste ciclo é o estabelecimento de conexão com a experiência para enxergar a potência dos atos sutis do cuidado. Aprender pela experiência, conforme relatado por nove profissionais, traduz em si a dimensão de experiência enquanto única e impossível de ser repetida, e¬ de que o conhecimento não está fora de nós5,12.
Outra forma de lidar com SD por meio de criação de barreira emotiva foi o uso do dripping de morfina e sedativos para aplacar o sofrimento creditado ao paciente (Sedação como conforto mútuo), mas não apenas dele. Neste último caso, fazemos distinção entre sedação prescrita a partir de demanda do paciente para alívio dos sintomas, daquela que o profissional acredita ser melhor para ele, mesmo que ele não deseje.
O cuidado paliativo é complexo e guiado pelo ideal de uma “boa morte”, no qual a morfina é vista como recurso central para promover conforto1,2,4. Quando sua administração não é possível em situações de sofrimento extremo, somada ao compromisso de garantir uma morte pacífica, os profissionais vivenciam intenso sofrimento e enfrentam dilemas éticos, como a tensão entre a autonomia e o direito de não sofrer de forma insuportável (beneficência). Neste sentido, recorreram à sedação por considerarem insuportável testemunhar a dor do paciente e por entenderem o alívio do sofrimento como parte da dignidade humana, embora soubessem do desejo do paciente de morrer com mais consciência e menor interferência.
A este respeito, Siebers18 afirma que a dor suscita um grande sofrimento nos indivíduos, por sua característica subjetiva, dificulta a compreensão sobre qual dor o outro sente, sendo comum a imputação de sentimentos de dor e sofrimento a outrem apenas pela aparência ou contexto. Soma-se a isto o medo, comumente expresso de sofrer de forma insuportável no final da vida4,19. Assim, o paradigma da morte enquanto pacífica19 e da dor como mote para justificar condutas18 reforça a medicalização do cuidado e a estratégia de Sedação como conforto mútuo. A falta de reflexão de todo o contexto propicia que a dor seja um gatilho para emoções, opiniões e decisões, inclusive com desejo de uma morte misericordiosa (morte boa), uma vez que a dor é entendida como sofrimento não justificado e sua eliminação a finalidade4,18, mesmo que o desejo do paciente seja divergente.
As experiências narradas mostraram diversas formas para evitar o envolvimento no cuidado, mas uma entrevistada citou uma estratégia requintada: trabalhar em regime de plantão ou com alta rotatividade de pacientes para não se envolver e não sofrer. Este fato mostra o quanto esse tema ainda é um tabu e necessita ser aprofundado.
O envolvimento emocional em situações desafiantes tende a manifestar-se, para parte dos profissionais, como um processo que ocorre por permissões internas sequenciais: (1) iniciar-se com “não envolvimento”; (2) em alguns casos, pode evoluir para um processo de “indiferenciação”, no qual o cuidado do outro é vivenciado como cuidado de si ou de um ente querido; e (3) a partir de permissões sucessivas — que combinam envolvimento, sofrimento e reflexão —, pode ocorrer a diferenciação do outro, possibilitando um cuidado com envolvimento e sem tanto sofrimento. Vale mencionar que nem todos os profissionais chegam no terceiro movimento, podendo ficar no primeiro ou no segundo.
Estudo16 em hospices dinamarqueses mostrou que todos os enfermeiros consideravam o envolvimento emocional crucial para suas funções, ainda que o percebessem simultaneamente como enriquecedor e exaustivo. Para aliviar, buscavam apoio de colegas ou de seus cônjuges16.
Este estudo16 aponta uma distinção em relação ao contexto brasileiro: na Dinamarca, era difundida a crença de que o envolvimento emocional é inerente ao cuidado, enquanto, neste estudo, alguns profissionais acreditam que ele é prejudicial. Essa diferença pode ser explicada por fatores culturais e implicações paradigmáticas na formação profissional.

Quais repercussões que as situações difíceis no cuidado paliativo geraram para o profissional de saúde?
Apesar do sofrimento relatado com SD, 13 dos entrevistados não identificaram qualquer repercussão na vida profissional e particular (Sem repercussão). Por outro lado, 17 profissionais correlacionaram algum tipo de mudança a partir da vivência de SD, seja positiva ou negativa. Destes, 15 profissionais narraram repercussões proveitosas, sobretudo para o cuidado (Aprender pela experiência; Olhar empático; Ressignificar envolvimento; Respeitar escolha do paciente; Propor melhoria cuidado e Refletir sobre vida particular), mostrando que mesmo experiências difíceis podem propiciar reflexões e aprendizados que apaziguam o trabalho em contexto doloroso.
Contudo, também ocorreram situações nas quais o profissional não conseguiu reverter a SD para algo positivo na vida particular e profissional (Sem repercussão; Barreira afetiva no cuidado; Reconsiderar escolha profissional e Afastamento legal).
Duas experiências compartilhadas tiveram Afastamento legal como consequência, seja pelo pedido de transferência do setor, seja pelo impulso de retornar para licença da qual tinha recém-saído, objetivando o afastamento da SD. Ambos os profissionais não vislumbraram outra repercussão, além do afastamento.
Os resultados mostraram que o contato reiterado com o sofrimento e a finitude fez emergir, nos profissionais, reflexões existenciais e éticas sobre o sentido do cuidado, do trabalho e da própria vida (Refletir sobre vida particular). Essa dimensão reflexiva aparece em autores que discutem o conceito de experiência como aquilo que nos atravessa e transforma5. Larrosa5 destaca que a experiência é o que nos acontece, o que nos toca e nos leva a pensar de outro modo, constituindo, assim, uma via privilegiada de aprendizado — especialmente em contextos de incerteza e vulnerabilidade, como o cuidado paliativo.
Por isso, “aprender com a SD” não se trata apenas de adquirir técnicas de enfrentamento, mas de abrir-se à experiência e permitir-se ser afetado por ela. O aprendizado se dá, então, pela incorporação da dor, da impotência e do limite como partes constitutivas da prática profissional. Essa compreensão é o que diferencia o Afastamento Reflexivo da Evitação, pois o primeiro implica um distanciamento temporário que permite elaborar e reelaborar o vivido, enquanto a segunda se restringe à defesa emocional e à negação da experiência.
Em alguns casos, a impossibilidade de reflexão levou a processos de esgotamento e adoecimento. Profissionais que relataram forte identificação com o paciente, ou que vivenciaram mortes de forma recorrente e sem espaços de elaboração, mencionaram sentimentos de exaustão, irritabilidade, insônia e desmotivação — elementos típicos do burnout3,8.
Quando o sofrimento ultrapassa os recursos subjetivos de enfrentamento, emergem estratégias de autoproteção institucionalizadas, como o afastamento do trabalho ou a transferência de área (Afastamento Legal), como única solução possível para preservar a integridade psíquica. Embora necessárias em alguns contextos, essas saídas podem perpetuar o ciclo de afastamento da experiência e impedir o aprendizado que ela poderia propiciar.
Nesses casos, o sofrimento não é simbolizado, permanecendo como trauma. Como indicam Kappaum e Gomez20, é somente por meio da significação da experiência que se torna possível extrair conhecimento e sentido do vivido. Assim, lidar com SD em cuidados paliativos demanda mais do que resistência emocional; requer a capacidade de transformar a dor em reflexão. Contudo, alguns profissionais reconheceram que a falta de espaços institucionais para lidar com a morte e as SD contribuíram para o agravamento do sofrimento, e não apenas a intensidade das situações vividas.
A análise também revelou uma categoria importante de repercussão: a Barreira Afetiva, na qual o profissional cria uma zona de contenção entre si e o outro como tentativa de autopreservação. Essa barreira, embora proteja o sujeito de colapsar frente à dor, também restringe o potencial relacional do cuidado3,7. O desafio ético, portanto, está em manter-se próximo o suficiente para cuidar, mas distante o bastante para não sucumbir.
Os achados demonstram que o enfrentamento das SD pode se tornar um processo formativo contínuo, no qual o profissional aprende a reconhecer seus próprios limites, aceita sua vulnerabilidade e reconfigura a relação com o paciente e com a morte. Essa aprendizagem pela experiência, conforme Larrosa5 e Kappaum & Gomez20, é singular e intransferível — um saber que não se ensina, apenas se vive.
As repercussões relatadas também evidenciam que o cuidado paliativo, quando atravessado por SD, não afeta apenas a dimensão técnica do trabalho, mas convoca profissionais à revisão de suas crenças, limites e modos de estar com o outro. A elaboração dessas vivências, quando possível, amplia o horizonte ético do cuidado e reforça a necessidade de que instituições promovam espaços permanentes de diálogo, supervisão e sustentação coletiva. Sem esses espaços, os profissionais tendem a recorrer de forma mais contundente a mecanismos de defesa, como evitação, controle emocional rígido ou distanciamento afetivo, que podem comprometer a qualidade do cuidado e a saúde emocional das equipes3,8.
Os resultados também reforçam que a formação em saúde, ainda marcada pelo paradigma biomédico, pouco inclui discussões sobre a morte, o morrer e o sofrimento21. A ausência desses temas nos currículos impacta diretamente a capacidade dos profissionais de reconhecerem e nomearem suas emoções frente à terminalidade. A falta de preparo contribui para que a morte seja vivida como fracasso, e não como parte constitutiva da prática clínica, como já problematizado por Elias10 e reforçado pelas diretrizes da Política Nacional de Cuidados Paliativos².
Assim, quando profissionais se permitem viver, pensar e reelaborar a experiência — em vez de apenas suportá-la — ocorre uma mudança gradual na forma de lidar com a SD: diminuem a rigidez emocional, a medicalização como resposta automática e a crença de que o afastamento afetivo é a única forma possível de proteção. Esse movimento permite um envolvimento mais consciente, sem que isso leve necessariamente ao sofrimento paralisante. Trata-se de um cuidado que reconhece a vulnerabilidade como condição humana compartilhada, e não como falha profissional7,12.
Por outro lado, quando a experiência não encontra vias de elaboração, o sofrimento emocional pode se cristalizar e gerar repercussões que extrapolam o ambiente de trabalho — como adoecimento, conflitos familiares e sentimento de inadequação profissional.
Esses achados apontam para a necessidade de que serviços de saúde considerem o cuidado da equipe como parte inseparável do cuidado ao paciente. A criação de espaços de escuta qualificada, supervisão ética, educação permanente e compartilhamento de casos pode favorecer a transição do não-envolvimento para o envolvimento com reflexão, diminuindo a probabilidade de estratégias defensivas rígidas, favorecendo o desenvolvimento de práticas mais humanas, integradas e sustentáveis. Cinco entrevistados narraram que somente após esses espaços — ou após vivências marcantes que funcionaram como limiar — conseguiram ressignificar o cuidado e acolher melhor suas próprias emoções.
Quanto as limitações, ter sido realizado em setor de internação de hospital exclusivo de cuidados paliativos pode ter potencializado as dificuldades nas formas de lidar e elas serem mais relacionadas com morte. Adicionalmente, participar de uma pesquisa relacionada com dificuldades pessoais diante de desafios, sugere profissionais mais sensíveis às questões subjetivas do cuidado.

CONCLUSÃO
Este estudo analisou formas de lidar e repercussões diante situações desafiantes do cuidado paliativo. Grosso modo, as formas de lidar se distinguiram entre estratégias de fuga e enfrentamento das SD, enquanto as repercussões eram percebidas ora como inexistentes, ora como experiências que produziram aprendizagens úteis para a vida pessoal ou para o cuidado prestado. Os resultados mostram que serviços de saúde devem criar espaços permanentes de reflexão e diálogo sobre emoções, sofrimento e dificuldades vivenciadas por profissionais de saúde e, a partir de experiências - boas, ruins, corretas, erráticas -, possibilitar ressignificação e aprendizagem.
A capacidade de transformar a vivência em experiência — como discutem Larrosa5 e Kappaum & Gomez20 — depende sobretudo da possibilidade de pausa, elaboração e diálogo com os pares. Quando isso ocorre, a experiência deixa de ser um peso individual e torna-se fonte de sentido, aprendizado e amadurecimento profissional.
Além disso, a dificuldade de envolvimento emocional no cuidado não deve ser tratada apenas como uma barreira a ser superada individualmente pelos profissionais de saúde, mas como parte de um campo complexo de valores e crenças na sociedade que se reflete no processo de educação profissional, no modelo de atenção do cuidado e de gestão dos serviços de saúde. “Lidar” com situações difíceis no cuidado paliativo não se reduz a uma prática técnica, mas é produzido na relação entre sujeitos — profissionais, pacientes e familiares — atravessados por emoções, valores e dilemas éticos. Nessa perspectiva, o cuidado é compreendido como uma construção relacional e situada, que exige não a negação da suscetibilidade emocional, mas sua integração como dimensão constitutiva do trabalho em saúde.
A ausência de reflexão sobre questões relacionadas à finitude da vida humana no processo de formação dos profissionais de saúde compromete o bem-estar desses trabalhadores e dificulta a implementação efetiva dos cuidados paliativos1.

Declaração de Disponibilidade
Não se aplica.

REFERÊNCIAS

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Beserra, VS, Brito, C. Como profissionais de saúde lidam com situações difíceis do cuidado paliativo?. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jun). [Citado em 23/06/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/como-profissionais-de-saude-lidam-com-situacoes-dificeis-do-cuidado-paliativo/20049?id=20049

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