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0164/2026 - Condições pós-COVID-19 no Brasil: antecipação, tendências e políticas públicas
Post-COVID-19 Conditions in Brazil: Anticipation, Trends, and Public Policies

Autor:

• Inara Amorim - Amorim, I - <inaraamorim@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6913-4221

Coautor(es):

• Virginia Fava - Fava, V - <virginiafava@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4960-9012

• Daniel Silva - Silva, D - <danttew@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-5909-3154

• Islaine Santana - Santana, I - <islaine664@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6579-9058

• Bernardo Cabral - Cabral, B - <bernardopcabral@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8242-1244

• Roseli Monteiro - Monteiro, R - <roselimonteiro1@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7184-0256

• Vinícius Cordeiro - Cordeiro, V - <viniciusamc.contato@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0000-7073-5422

• Fernanda Carvalho - Carvalho, F - <fernandacarvalho@ufba.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7487-5729



Resumo:

O artigo investiga as condições pós-COVID-19, também conhecidas como COVID longa, que emergem como uma preocupação global devido às sequelas e complicações prolongadas em pacientes após a infecção pelo SARS-CoV-2. O objetivo central é comparar as políticas e ações de atenção à saúde do Ministério da Saúde no Brasil e a percepção de pesquisadores sobre o futuro dessas sequelas até o ano de 2032. Para isso, foi realizada uma revisão de literatura na Web of Science para identificar as principais sequelas das condições pós-COVID-19 e um questionário com pesquisadores para mapear opiniões sobre as sequelas mais relevantes da infecção. Adicionalmente, foi realizada uma pesquisa documental na página eletrônica do Ministério da Saúde do Brasil para mapeamento das estratégias governamentais voltadas à atenção à saúde das pessoas que apresentam essas condições. O estudo revela uma convergência entre os achados e as ações do Ministério da Saúde do Brasil. No entanto, a implementação completa das estratégias de atenção à saúde ainda enfrenta desafios significativos. A gestão de saúde pública precisa ser aprimorada para enfrentar adequadamente os desafios impostos pela pandemia e suas sequelas, incluindo o desenvolvimento de vacinas mais eficazes.

Palavras-chave:

COVID Longa; Brasil; Políticas de Saúde; Futuro

Abstract:

This article investigates post-COVID-19 conditions, also known as Long COVID, which have emerged as a global concern due to the prolonged sequelae and complications in patients following SARS-CoV-2 infection. The primary objective is to compare the health policies and actions of the Brazilian Ministry of Health with the perceptions of researchers regarding the future of these sequelae until the year 2032. To this end, a literature review was conducted using the Web of Science to identify the main sequelae associated with post-COVID-19 conditions, and a survey was administered to researchers to map opinions on the most relevant sequelae of the infection. Additionally, a documentary research was conducted on the Brazilian Ministry of Health’s website to map government strategies aimed at the healthcare of individuals presenting with these conditions. The study reveals a convergence between the findings and the actions of the Brazilian Ministry of Health. However, the full implementation of health care strategies still faces significant challenges. Public health management needs to be improved to adequately address the challenges posed by the pandemic and its sequelae, including the development of more effective vaccines.

Keywords:

Long COVID; Brazil; Health Policies; Future

Conteúdo:

Introdução
As condições pós-COVID-19, ou COVID longa, têm emergido como uma preocupação global devido ao aumento de sequelas prolongadas em pacientes meses após a infecção por SARS-CoV-2. Estudos recentes indicam a persistência crescente de sintomas, afetando a qualidade de vida e desafiando os sistemas de saúde globalmente (1,2). A Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio de seu painel COVID-19 reportou até agosto de 2024, 775 milhões de casos e mais de 7 milhões de mortes, com estimativas de que 10% a 20% dos infectados apresentem sintomas persistentes (3).
Utilizando a metodologia Delphi, a OMS definiu as condições pós-COVID-19 como aquelas que surgem em indivíduos com histórico de infecção por SARS-CoV-2, geralmente 3 meses após o início da doença, com sintomas que duram ao menos 2 meses e não são explicados por outro diagnóstico. Sintomas comuns incluem fadiga, falta de ar e disfunção cognitiva, que em geral impactam o funcionamento diário e podem flutuar ou recidivar ao longo do tempo (3,4) Estima-se que a incidência seja de 10 a 30% dos casos não hospitalizados, 50 a 70% dos casos hospitalizados (5) e 10 a 12% dos casos em pessoas vacinadas (6). Afeta todas as faixas etárias, com maior incidência entre 36 e 50 anos, predominando em pacientes não hospitalizados com doença aguda leve, que constituem a maioria dos casos globais de infecção (7).
Pesquisadores exploram diferentes explicações para as complicações (8). Uma abordagem sugere que indivíduos, especialmente com casos graves, podem não ter eliminado completamente o vírus, levando a uma ativação persistente do sistema imunológico e a sintomas crônicos(9). Outra perspectiva é que as condições pós-COVID-19 possam ter origem em um distúrbio autoimune (10).
Embora haja progresso no entendimento sobre o tema, ainda existem desafios significativos na investigação da fisiopatologia, tratamentos eficazes e fatores de risco. A variedade de sintomas que podem caracterizar as condições pós-COVID-19 e a subjetividade na identificação dificultam o diagnóstico diferencial (11). No campo da atenção e do cuidado, os desafios surgem com essa nova demanda, incluindo questões relacionadas à capacidade de fornecer serviços adequados, alocação de recursos, treinamento de profissionais e adaptação de protocolos (12).
Estudos recentes têm destacado a necessidade de fortalecer estratégias de atenção e cuidado voltadas a pessoas vivendo com condições pós-COVID, tanto no Brasil quanto em outros países. No contexto nacional, a prevalência da condição ainda é considerada subestimada, o que reforça a importância de ampliar a vigilância epidemiológica e integrar a atenção primária com serviços especializados (13). Em âmbito internacional, os principais desafios para o manejo clínico envolvem a identificação precoce de sintomas persistentes, a capacitação de profissionais de saúde para lidar com manifestações variadas e o desenvolvimento de linhas de cuidado que articulem reabilitação, acompanhamento multidisciplinar e suporte psicossocial (14,15).
A resposta global às condições pós-COVID-19 envolve esforços governamentais, orientações de saúde, pesquisa científica e ações de organizações não governamentais (16,17). No Brasil, é necessário avançar em uma estratégia política que amplie o acesso à rede de atenção e imunização, além de fortalecer a educação e a seguridade social (12). Nesse contexto, o objetivo central deste estudo é analisar em que medida os documentos do Ministério da Saúde sobre atenção às condições pós-COVID-19 se alinham às percepções de pesquisadores que publicaram neste tema quanto a prioridades de cuidado e organização de serviços
O estudo usa do método de consulta a pesquisadores, que é um dos mais utilizados no campo de estudos de futuro e prospecção tecnológica (tecnology foresight) em saúde. Essa estratégia busca antecipar tendências e apoiar desenho de serviços e políticas e tem crescido nos últimos anos (18). Estudos recentes usando esse método incluem consultas a pesquisadores para antecipar mudanças e tendências em terapias de substituição renal (19), inteligência artificial na oncologia (20), inteligência artificial em medicina diagnóstica (21) e tecnologias assistivas para deficiência visual (22). Mais recentemente, também tem se institucionalizada em órgãos internacionais, como em estudos da unidade de Global Health Foresight da OMS (23) e no planejamento estratégico do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) (24) .

Método
Questionário com pesquisadores
Foi realizada uma revisão de literatura com base em publicações científicas indexadas na Web of Science (WoS), da Thomson Reuters, para analisar as sequelas da COVID-19. As publicações foram identificadas por meio da seguinte estratégia de busca:

ts: (long-covid*) or (long-haul and (covid* or sars-cov-2)) or (post-acute* and (covid* or sars-cov-2) and syndrome*) or (persistent* and (covid-19 or covid* or sars-cov-2)) or (post-acute* and (covid19 or covid* or sars-cov-2 ) and syndrome*) or (long* and hauler* and (covid*or sars-cov-2)) or (long* and (covid* or sars-cov-2)) or (post-acute* and sequelae* and (sars-cov-2 or covid*) and infection*) or (long* and haul* and (sars-cov-2 or covid*)) or (chronic* and (sars-cov-2 or covid*) and syndrome*).
Período: 2020-2022.
A busca concentrou-se em estudos recentes sobre sequelas e complicações prolongadas da COVID-19, utilizando termos do tesauro Medical Subject Headings (MeSH) para condições pós-COVID. A pesquisa foi realizada no modo avançado da WoS, filtrando os periódicos pela tag Título (ti) e priorizando publicações nas ciências naturais, com uso exclusivo do indexador Science Citation Index Expanded (SCI-EXPANDED).
A escolha do termo “condições pós-COVID” neste estudo segue a definição estabelecida pela OMS (25), que também foi a terminologia oficial adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil por meio da Nota Técnica nº 31/2021 (26)
O levantamento bibliográfico foi realizado em setembro de 2022. Na fase inicial, foram identificadas 2.507 publicações sobre condições pós-COVID, das quais 204 foram selecionadas após revisão bibliográfica, revelando 133 diferentes sequelas. Os critérios de exclusão envolveram a remoção de duplicatas, a exclusão de artigos fora do período delimitado (2020-2022) ou que não abordaram diretamente as sequelas e complicações após a infeção inicial pelo vírus SARS-CoV-2. A pesquisa foi complementada com materiais adicionais de outras fontes (literatura cinza), enriquecendo a análise.
Em fase subsequente, as sequelas e complicações prolongadas foram categorizadas em treze grupos: anormalidades laboratoriais, cardiovasculares, dermatológicas, endócrinas, gastrointestinais, hemolíticas e vasculares, musculoesqueléticas, neurológicas, oculares, psiquiátricas, renais, respiratórias e manifestações diversas. A literatura também possibilitou identificar as sequelas e complicações específicas para cada grupo.
Posteriormente, uma nova estratégia de busca foi realizada na WoS utilizando a tag de tópicos (ts), visando identificar pesquisadores que publicaram sobre COVID-19 nos últimos três anos. A estratégia de busca adotada foi a seguinte:

(ts:((( long-covid*) or (long* and (covid* or sars-cov-2)) or (long-haul and (covid* or sars-cov-2)) or (long* and haul* and (sars-cov-2 or covid)) or (long* and hauler* and (covid*or sars-cov-2)) or (persistent* and (covid-19 or covid* or sars-cov-2)) or (chronic* and (sars-cov-2 or covid*) and syndrome*) or (post-acute* and (covid* or sars-cov-2) and syndrome*)or (post-acute* and (covid-19 or covid* or sars-cov-2 ) and syndrome*) or (post-acute* and sequelae* and (sars-cov-2 or covid*) and infection*)))) and idioma: (english) and document type: (article or review or editorial material).
Período: 2020-2022.
Utilizou-se o indexador SCI-EXPANDED para buscar artigos, materiais editoriais e revisões na área de ciências naturais. Foram identificados aproximadamente 23.144 registros, dos quais as informações dos autores foram extraídas. Com um código Python desenvolvido pelo Núcleo de Estudos em Foresight do Laboratório de Comunicação Celular do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), duplicatas foram removidas e e-mails foram pareados com autores, resultando em 25.332 contatos eletrônicos, dos quais 22.350 receberam e-mails personalizados com nome e artigo identificados no e-mail convite. Os demais, receberam e-mails convite, mas sem essa personalização.
Dez dos treze grupos de sequelas e complicações prolongadas foram selecionados e categorizados preliminarmente com base em sua relevância na literatura revisada. As categorias incluíam: cardiovascular, musculoesqueléticas, neurológicas, psiquiátricas, respiratórias, dermatológicas, endócrinas, gastrointestinais, renais, hemolíticas e vasculares.
O questionário elaborado foi dividido em quatro partes. A primeira incluía uma autoavaliação do respondente, que era questionado sobre seu nível de conhecimento do tema e, se alegasse ter baixo conhecimento, era desqualificado. Essa estratégia criava mais uma etapa de filtragem na seleção dos respondentes, permitindo que, aqueles identificados na coleta de e-mails, mas que por algum motivo não tivessem conhecimento concreto no tema, se autodeclarassem e fossem desconsiderados para o questionário. Na segunda parte, os participantes indicaram o grupo de sequelas com maior probabilidade de ocorrer nos próximos 10 anos, como cardiovascular, sendo direcionados a selecionar sequelas específicas, como insuficiência cardíaca. A terceira parte tratou de alternativas para reduzir o impacto das sequelas da COVID-19 em futuras gerações. Por fim, os respondentes forneceram informações demográficas, como escolaridade e ocupação. A consulta foi concebida como elicitação prospectiva complementar à revisão, visando colher julgamentos informados sobre prioridades assistenciais, sinais emergentes e barreiras e facilitadores de implementação.
Um piloto foi realizado na plataforma SurveyMonkey, com uma amostra aleatória de 0,53% dos e-mails (231 sem o nome do autor), resultando em 5 respondentes e uma taxa de resposta de 2,16%. Sem sugestões de alteração ou problemas no questionário, os resultados dessa etapa foram combinados com os da pesquisa completa.
A pesquisa completa foi realizada em outubro de 2022 via SurveyMonkey. Devido às limitações da plataforma, 20 mil e-mails foram enviados por dia, dividindo os respondentes em 5 grupos, incluindo o piloto. A taxa total de resposta foi de 6,67%, com 2.882 questionários respondidos, dos quais 2.247 foram completos, representando uma amostra com 95% de confiança e 3% de margem de erro.
O perfil desses participantes revelou-se bastante qualificado, composto majoritariamente por pesquisadores e docentes vinculados a universidades e centros de pesquisa. Observou-se que 79,42% possuem doutorado e que 41,30% contam com mais de 20 anos de experiência profissional em suas áreas. Quanto à ocupação, predominam pesquisadores e docentes (64,72%), e a maior parte está vinculada a instituições de ensino e pesquisa (74,21%). O perfil completo pode ser visto no Material Suplementar.

Pesquisa documental no Ministério da Saúde
A pesquisa bibliográfica analisou os principais documentos disponibilizados pelos sistemas do Ministério da Saúde, incluindo a Biblioteca Virtual em Saúde, notas técnicas e portarias sobre condições pós-COVID-19 a partir de 2020. A análise documental considerou atos normativos, notas técnicas e publicações do MS de 2020 até março de 2024, data da última atualização desta etapa. Foram identificadas 5 notas técnicas, 4 publicações e 2 portarias, conforme demonstrado no Quadro 1.
Quadro 1 – Registro cronológico das principais iniciativas do Ministério da Saúde em resposta à condições pós-COVID-19
QUADRO 1
Fonte: elaboração própria com base nos dados da pesquisa.

Foi realizada também uma busca na literatura cinza para encontrar estudos sobre ações e políticas de saúde adotadas pelo Brasil para diagnosticar e tratar as sequelas da COVID-19. Os dados obtidos foram analisados à luz dos resultados do questionário respondido pelos pesquisadores.
Resultados
Questionário com pesquisadores
O questionário, com horizonte temporal de 10 anos (2022-2032), avaliou inicialmente o nível de conhecimento dos respondentes sobre sequelas e complicações prolongadas da pós-COVID-19. Os participantes que relataram falta de conhecimento foram desqualificados, não prosseguindo com o restante do questionário. Assim, os resultados descritos neste artigo refletem as respostas de indivíduos com conhecimento sobre o tema.
Na segunda parte, os participantes indicaram suas expectativas sobre os grupos mais frequentes de sequelas e complicações pós-COVID-19. Inicialmente, foi solicitado que escolhessem um entre cinco grupos principais de sequelas (cardiovasculares, musculoesqueléticas, neurológicas, psiquiátricas, respiratórias e outros) com maior probabilidade de ocorrer nos próximos 10 anos. Em seguida, dentro do grupo selecionado, eles apontaram as sequelas específicas que se tornariam mais comuns. O grupo de sequelas mais escolhido foi o neurológico (29,4%), seguido pelo respiratório (21,8%), cardiovascular (20,9%), psiquiátrico (19,3%) e musculoesquelético (4,5%).
Entre os participantes que indicaram o grupo de sequelas neurológicas, 67,9% selecionaram nevoeiro cerebral (dificuldades de atenção, concentração e memória) e 18,3% apontaram neurodegeneração como as sequelas mais prováveis. No grupo de sequelas respiratórias, 39,1% indicaram insuficiência respiratória, seguida por lesões pulmonares fibróticas (30,2%). Para sequelas cardiovasculares, insuficiência cardíaca (24,7%) foi a mais citada, seguida por trombose (23,9%), miocardite (18,4%) e arritmias (15,5%). No grupo de sequelas psiquiátricas, 28% indicaram ansiedade, 23,6% depressão, 18,1% perturbações do humor, e 14,5% transtorno de estresse pós-traumático. Entre aqueles que selecionaram sequelas musculoesqueléticas, 55,5% escolheram fadiga como a mais provável, seguida de fraqueza muscular (17,9%). A Figura 1 apresenta os resultados.
Figura 1 - Grupo mais frequente de sequelas e complicações relacionadas com as condições pós-COVID-19 nos próximos 10 anos
FIGURA 1
Fonte: elaboração própria com base nos dados da pesquisa.

A terceira parte do questionário visou captar a opinião dos pesquisadores sobre alternativas para reduzir os impactos das sequelas e complicações da condição pós-COVID-19. Os entrevistados foram questionados sobre a probabilidade de desenvolvimento de uma vacina que previna a infecção por COVID-19 (em vez de apenas mitigar os riscos de hospitalização e morte) nos próximos 10 anos. A maioria dos respondentes (52,2%) considerou “altamente provável” ou “provável” o desenvolvimento de tal vacina (Figura 2).
Figura 2 - Probabilidade de uma vacina prevenir a infecção por COVID-19
FIGURA 2
Fonte: elaboração própria com base nos dados da pesquisa.
Com o objetivo de verificar a necessidade de ações específicas voltadas à prevenção da infecção por COVID-19 durante a gestação, perguntou-se sobre a probabilidade de a exposição ao vírus no útero gerar um risco maior de distúrbios do desenvolvimento neurológico nos primeiros anos de vida. Entre os participantes, 23,5% responderam como “pouco provável”, 19,3% como “improvável”, 17,5% como “provável”, e 4,5% como “altamente provável”. Notou-se que 35% dos respondentes indicaram que ainda não há conhecimento sobre esse tema. Considerando a probabilidade de ocorrência das sequelas da condição pós-COVID-19, os respondentes foram solicitados a indicara área mais importante para apoiar os pacientes nos próximos 10 anos. A área de apoio psicológico se destacou com 39% das respostas, seguida pela área física (28,3%), cognitiva (27,8%) e "outra" (4,8%).

Pesquisa documental no Ministério da Saúde
Os primeiros documentos emitidos pelo Ministério da Saúde sobre as condições pós-COVID-19 remontam a agosto de 2021. A Nota Técnica nº 31 estabelece a padronização da terminologia utilizada pelo Ministério da Saúde em seus documentos oficiais, passando a referir-se, a partir de então, como "condições pós-COVID-19". Este documento também detalha as manifestações clínicas que persistem ou recorrem após quatro semanas da infecção pelo SARS-CoV-2, de acordo com evidências científicas (26).
Em novembro de 2021, a Nota Técnica nº 60, em conjunto com a Nota Técnica n° 62, ampliaram a descrição das principais manifestações clínicas associadas às condições pós-COVID-19, fornecendo orientações fundamentadas em evidências científicas para gestores e profissionais da saúde, bem como ressaltam a importância do registro adequado nos sistemas de informação (27,28). Em paralelo, a Nota Técnica nº 133 foi publicada no mesmo período com o intuito de qualificar a atuação dos profissionais de saúde no manejo de pacientes afetados por condições pós-COVID-19, além de apresentar recomendações para o atendimento domiciliar de indivíduos com sintomas clínicos relacionados a tais condições, cujo plano terapêutico deve ter como base uma avaliação de aspectos relacionados a mobilidade, funcionalidade, deglutição, deficiências cognitivas e problemas de saúde mental (29).
Em dezembro de 2021, foram adicionadas orientações à Tabela de Procedimentos, Medicamentos, Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPM) do Sistema Único de Saúde (SUS), intituladas Reabilitação de Pacientes Pós-Covid-19 e Reabilitação Funcional de Pacientes Pós-Covid-19 (30). Entretanto, essas orientações não foram acompanhadas de imediato pela apresentação de diretrizes ou condutas específicas a serem adotadas pelo SUS e pelos profissionais de saúde para lidar com esses casos (31).
Somente em fevereiro de 2022, o Ministério da Saúde publicou um manual de diretrizes destinado à identificação e manejo desses casos pelos profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS). Segundo o Ministério da Saúde, essa iniciativa decorreu de estudos que apontaram a APS como um componente essencial no cuidado de indivíduos afetados por condições pós-COVID-19, dada a sua estrutura organizacional e a sua capacidade de coordenação da rede, que permitem abordagens eficazes e oportunas para o tratamento desses pacientes (32,33). Esse documento apresenta diretrizes sobre avaliação e manejo de algumas sequelas: tosse e dispneia, fadiga, dor torácica, tromboembolismo, sintomas cardiovasculares, sintomas neurológicos, alterações do olfato e do paladar, diarreia, disautonomia e síndrome pós-cuidado intensivo. Com base em dados que indicavam que a COVID-19 estava relacionada a um aumento nos casos de problemas emocionais e psicológicos, este relatório estabeleceu a realização do acompanhamento regular de pessoas que foram infectadas, de seus familiares e de profissionais de saúde, bem como daqueles que já tinham condições mentais pré-existentes (33).
Para apoiar as ações das equipes de APS, voltadas ao cuidado das pessoas com condições pós-COVID-19, foi estabelecido um incentivo financeiro federal de custeio, destinado de forma excepcional e temporária aos municípios e ao Distrito Federal (34). O montante total destinado foi R$ 160 milhões em incentivos federais, visando fortalecer a APS. Esses recursos foram distribuídos conforme a prioridade, sendo identificados 1.373 municípios com perfil alto (cada um recebeu R$ 43.632), 2.679 com perfil médio (R$ 29.088) e 1.518 com perfil baixo (cada um receberá R$ 14.544).
O documento definiu diretrizes detalhadas para o monitoramento das ações das equipes de APS, através do registro de atendimentos identificados como "condição de saúde após COVID-19" no Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab), conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID) em vigor. O monitoramento seria realizado de forma quadrimestral durante o período de um ano, pelos órgãos responsáveis que integram o Sisab (34). Devido à falta de registros no sistema, foi necessária a prorrogação, até o dia 31 de dezembro de 2024, para que os municípios realizem atendimento e registro (35). O fato evidencia a insuficiência e a imprecisão dos dados sobre a incidência das sequelas prolongadas pós infecção por SARS-CoV-2.
Em abril de 2022, a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à COVID-19 (SECOVID), junto outras secretarias do Ministério da Saúde, publicou o Caderno de ações para a vigilância e assistência à saúde das condições pós-COVID, que apresenta as condutas realizadas ou em andamento da assistência à saúde nas condições pós-COVID-19 até então (33). Entre as medidas apresentadas, destaca-se a produção de indicadores básicos, boletins epidemiológicos e de notas técnicas.
Em agosto de 2022, o Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde (DGITIS/ SCTIE/MS) publicou as Orientações sobre diagnóstico e tratamento de pacientes com as condições pós-COVID, cujo objetivo era orientar a prática clínica, quanto à identificação das principais condições pós-COVID-19 e o seu controle inicial; orientar os profissionais de saúde sobre o encaminhamento de pacientes que necessitam do serviço especializado e contribuir para sistematizar e padronizar os procedimentos terapêuticos destinados aos pacientes com COVID-19. Esse documento reforça novamente a relevância da APS no cuidado integral dos pacientes com as condições pós-COVID-19 (36).
O programa Unidos contra a COVID-19 foi uma iniciativa da Fiocruz direcionado à indivíduos e organizações interessadas em contribuir no contexto de crise sanitária relacionado a pandemia da COVID-19, assim, surgiram iniciativas como: a ampliação da capacidade de testagem do vírus; apoio ao aumento da capacidade de diversas ações estaduais e municipais na prestação de serviços relacionados assistência às pessoas com COVID-19; e projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico executados regularmente para possíveis tratamentos para a enfermidade, a vacina da Astrazeneca é um exemplo disso, um acordo firmado entre o Ministério da Saúde e a biofarmacêutica com o objetivo de garantir compras de lotes e transferência tecnológica desta vacina (37). Em maio de 2023, o mesmo programa desempenhou um papel crucial na criação do Centro de COVID Longa localizado na cidade do Rio de Janeiro. O centro não apenas se estabelece como um polo de pesquisa multidisciplinar, mas também serve como uma instância de tratamento e recuperação para indivíduos afetados pelas sequelas (38). Vale destacar, que no local é conduzido o projeto Recover Pós-Covid: monitoramento, avaliação multidisciplinar e reabilitação de indivíduos com afecções pós-COVID-19 no Rio de Janeiro, Brasil e o Recover-Pós-Covid SUS-Brasil, uma colaboração entre pesquisadores do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz) (38).
Em julho de 2023, em resposta a uma demanda da Coordenação-Geral de Vigilância das Síndromes Gripais (CGVDI/DPNI/SVSA/MS) para subsidiar a implementação de um sistema de vigilância da pós-COVID-19 no Brasil, foi publicada uma revisão sistemática rápida. Embora a solicitação inicial fosse analisar a incidência global, o estudo focou em identificar os fatores de risco no contexto brasileiro. A análise incluiu três estudos de coorte e concluiu que ser do sexo feminino e possuir Índice de Massa Corporal (IMC) elevado foram os principais fatores de risco para o desenvolvimento de condições pós-COVID, sendo a dispneia e a fadiga os sintomas mais comuns. O documento teve caráter informativo e não representou uma recomendação oficial do Ministério da Saúde (39).
Em dezembro de 2023, o Ministério da Saúde emitiu a Nota Técnica nº 57, a qual oferece atualizações acerca das condições pós-COVID-19, com base em publicações científicas mais recentes. As sequelas mais comuns incluem manifestações neurológicas, cardiovasculares, respiratórias, gastrointestinais, musculoesqueléticas, mentais, geniturinárias e outras. Entre as sequelas neurológicas estão dificuldade de memória e concentração, alterações cognitivas, cefaleia, perda de paladar e olfato. No âmbito cardiovascular, observam-se palpitações, disautonomia, dor torácica, arritmias, trombose/coagulopatias e intolerância ao esforço físico. As manifestações respiratórias incluem tosse, dispneia, taquipneia e dor torácica. No sistema gastrointestinal, as sequelas mais frequentes são alterações do hábito intestinal, náusea, dor epigástrica, disfagia e refluxo gastroesofágico. As manifestações musculoesqueléticas abrangem mialgia e artralgia. As sequelas mentais incluem distúrbios do sono, depressão e ansiedade. No sistema geniturinário, são observadas disfunção erétil e alterações menstruais. Outras sequelas incluem alopecia, alterações cutâneas, desordens endócrinas, fadiga/cansaço e alterações visuais (40).
Em adição, o documento evidencia que o Ministério da Saúde está conduzindo e financiando estudos científicos e levantamentos em toda a base populacional, em colaboração estreita com outras instituições e universidades do país. A Nota destaca ainda que a melhor estratégia para prevenção de condições pós-COVID-19 é manter o esquema vacinal atualizado, além de evitar a infecção da doença através de medidas preventivas (40).
No que diz respeito ao esquema vacinal, o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a COVID-19 (PNO) foi um documento publicado periodicamente pelo Ministério da Saúde, de dezembro de 2020 a setembro de 2022, consolidando as estratégias de imunização contra a enfermidade no país. O documento e suas atualizações reúnem orientações sobre as vacinas licenciadas, públicos-alvo, esquemas vacinais, registro e vigilância. A publicação foi encerrada em 2023, quando o Ministério da Saúde decidiu que as atualizações nas diretrizes seriam apresentadas apenas por meio de notas técnicas e informes operacionais (41).
A vacinação contra a COVID-19 teve um grande impacto na redução da morbimortalidade da doença, evitando milhares de óbitos e internações no Brasil desde a sua introdução em 2021 (42). No entanto, apesar da elevada eficácia das vacinas contra a COVID-19 na prevenção de casos graves e óbitos, observa-se uma redução da proteção imunológica alguns meses após a vacinação, principalmente nas faixas etárias a partir dos 60 anos. Essa redução foi mais proeminente com o surgimento da variante Ômicron e suas subvariantes. Assim, visando recuperar a resposta protetora da vacinação, foi recomendada a administração de doses de reforço em diferentes faixas etárias (43).
No Boletim Epidemiológico especial 161: doença pelo novo Coronavírus - Covid-19, publicado em março de 2024 pelo Ministério da Saúde (44), constavam sete vacinas autorizadas pela Anvisa e em uso no Brasil para a imunização contra a COVID-19: duas com autorização para uso emergencial (CoronaVac/Butantan e Comirnaty bivalente Pfizer) e cinco com registro definitivo (AstraZeneca/Fiocruz, Janssen-Cilag e Comirnaty Pfizer/Wyeth). Desde o início da vacinação até 2 de março de 2024, foram aplicadas 517.678.753 doses de vacinas monovalentes contra a COVID-19. As coberturas vacinais são de 84% para pessoas com duas doses, 51,3% para aquelas com três doses, e 14,9% para indivíduos com quatro doses. A vacina bivalente contra a COVID-19 foi introduzida em fevereiro de 2023, com um total de 33.704.612 doses aplicadas até a mesma data (44).
Ações orientadas para o manejo, tratamento e desenvolvimento de vacinas são fundamentais para mitigar os efeitos de uma pandemia. Além disso, é essencial contar com um sistema de vigilância robusto, capaz de identificar anomalias, definir síndromes clínicas, rastrear patógenos, pesquisar novos agentes e estabelecer tendências epidemiológicas. Isso é ainda mais crucial diante do crescimento populacional, da mobilidade global, da expansão de áreas habitadas próximas à vida selvagem, do aumento de comorbidades e imunodeficiências, e da maior incidência de desastres causados por ações humanas, que elevam o risco de novas pandemias (45).
Diante desse cenário, a Portaria nº 1334, de setembro de 2023, criou um Grupo de Trabalho (GT) no Ministério da Saúde para elaborar um plano estratégico de prevenção, preparação e resposta a pandemias (46). O prazo de atuação do GT foi prorrogado pela Portaria nº 3.393, de 20 de março de 2024, indicando que ainda não foi elaborado um plano estratégico para enfrentar novas pandemias (47). Em março de 2024, uma reunião virtual extraordinária dos Ministros da Saúde do G20, coordenada pela ministra da Saúde do Brasil, Nísia Trindade, discutiu, entre outras pautas, as negociações na OMS para um acordo internacional de prevenção e resposta a pandemias e as emendas ao Regulamento Sanitário Internacional (RSI). As metas incluíram o fortalecimento da Arquitetura Global da Saúde, promovendo a distribuição equitativa de tecnologia em saúde, assegurando uma capacidade de produção diversificada, fortalecendo a prevenção e vigilância com a abordagem "Uma Só Saúde" e adotando sistemas de saúde resilientes (48).

Discussão
Os resultados deste estudo revelaram duas perspectivas sobre as condições pós-COVID-19: uma baseada na opinião de pesquisadores que estudam e publicam sobre esse tema, e outra em documentos técnicos do Ministério da Saúde, órgão governamental responsável pela coordenação das ações de atenção à saúde relacionadas à essa doença. Em geral, há uma convergência entre a opinião dos pesquisadores e as ações governamentais, indicando que essas ações são orientadas por evidências científicas.
É importante ressaltar que as condições pós-COVID-19 fazem parte de um espectro maior de sequelas duradouras após infecções virais, um fenômeno já conhecido na saúde pública. Diversos vírus apresentam capacidade de desencadear síndromes pós-infecciosas de longa duração. Arboviroses como dengue, Chikungunya e Zika podem deixar sequelas crônicas envolvendo dor musculoesquelética, fadiga, alterações neurocognitivas e até comprometimento visual (49,50). Em especial, a síndrome pós-Chikungunya caracteriza-se por artralgia persistente e redução prolongada da qualidade de vida, afetando principalmente mulheres e idosos (51). De forma semelhante, infecções congênitas por vírus como citomegalovírus, rubéola e Zika estão associadas a déficits do desenvolvimento, como perda auditiva, deficiência intelectual e paralisia cerebral, evidenciando o impacto de longo prazo dessas doenças na saúde pública (52).
Nesse contexto, as condições pós-COVID-19 emergem como continuidade desse padrão histórico, mas com uma magnitude inédita. Estudos apontam que milhões de pessoas já foram afetadas globalmente, com impacto direto sobre funcionalidade, mercado de trabalho e demanda assistencial (53). As sequelas pós-COVID-19 apontadas neste estudo como mais frequentes nos próximos dez anos pelos pesquisadores, assim como aquelas apresentadas nos documento técnicos do Ministério da Saúde - sequelas neurológicas, como névoa cerebral; respiratórias, como insuficiência respiratória e lesões pulmonares fibróticas; e cardiovasculares, como insuficiência cardíaca e trombose - são corroboradas por resultados apresentados na literatura científica (7,54). Assim, observa-se uma convergência entre a opinião dos pesquisadores e a descrição das principais manifestações clínicas fornecida pelo governo federal, explicada pelo embasamento das informações em evidências científicas.
Em relação à atenção à saúde de pacientes com condições pós-COVID-19, este estudo destaca a necessidade de um atendimento multidisciplinar. O apoio psicológico foi identificado como a área mais crucial, seguido pela área física, e pela área cognitiva. Essas três áreas de atenção são contempladas nos documentos do Ministério da Saúde, especialmente na Nota Técnica nº 133/2021 e no manual para avaliação e manejo de condições pós-COVID-19 na APS, indicando uma convergência também nessa questão (29).
Apesar de esses documentos enfatizarem a importância do trabalho integrado e multidisciplinar dos profissionais de saúde, desenvolvendo um plano de cuidados completo e individualizado que considerem os sinais e sintomas apresentados, as comorbidades associadas, a saúde mental e os aspectos sociais envolvidos, o impacto do manejo das condições pós-COVID-19 no sistema de saúde ainda é amplamente desconhecido. Um exemplo disso é a dificuldade de verificar a distribuição da carga de atendimento entre a atenção primária e o cuidado especializado, devido ao uso de sistemas de registro diferentes e a complexidade na manipulação de dados, frequentemente não estruturados (55).
Nesse contexto, a ocorrência do mal-estar pós-exercional (PEM na sigla em inglês) ou exacerbação dos sintomas pós-exercionais (PESE na sigla em inglês) merece destaque por ilustrar a complexidade tanto da doença quanto dos cuidados necessários. Esse sintoma, caracterizado pela piora dos sintomas após esforço físico ou mental, é relativamente frequente em pessoas com condições pós-COVID-19, mas ainda pouco reconhecido pelos profissionais de saúde. Sua presença exige cautela, pois, diferentemente de outras situações clínicas em que o exercício físico supervisionado é benéfico, no caso de pacientes com PEM/PESE o esforço pode agravar o quadro, levando a piora prolongada dos sintomas (7). Esse achado reforça a necessidade de protocolos diferenciados e de capacitação das equipes de saúde, especialmente na atenção primária, para orientar o cuidado e evitar iatrogenias.
No contexto internacional, observa-se que diferentes países adotaram estratégias diversas, com resultados heterogêneos. O Reino Unido, por exemplo, investiu mais de 100 milhões de libras na criação de clínicas especializadas para o tratamento de condições pós-COVID-19, combinadas a ações de capacitação na atenção primária e incentivo ao autocuidado. Contudo, estudos mostram que apenas uma fração dos pacientes que relatam limitações funcionais significativas consegue acesso a essas clínicas, indicando barreiras de acesso e subutilização dos serviços especializados (53).
No Brasil, o SUS enfrenta desafios adicionais. A subnotificação de casos relacionados a condições pós-COVID-19, a ausência de protocolos clínicos robustos e a fragmentação entre níveis de atenção tornam difícil o acompanhamento sistemático dos pacientes (56). Além disso, a concentração de serviços especializados em grandes centros urbanos amplia desigualdades no acesso, prejudicando populações vulneráveis, como indígenas, ribeirinhas e moradores de periferias, que enfrentam barreiras geográficas, sociais e econômicas (57). Essa desigualdade repete um padrão já observado em outras sequelas pós-virais no país, como as complicações neurológicas do Zika vírus e as sequelas articulares da Chikungunya, que historicamente não receberam estruturação adequada de serviços de reabilitação (58,59).
Outro ponto crítico é a ausência de biomarcadores diagnósticos claros e de consenso clínico internacional para as condições pós-COVID-19. A heterogeneidade dos sintomas, que podem afetar múltiplos órgãos independentemente da gravidade da fase aguda, dificulta tanto o diagnóstico quanto o planejamento terapêutico (56). Em países de baixa e média renda, como o Brasil, essa falta de padronização impacta ainda mais, pois limita a vigilância epidemiológica e o desenvolvimento de linhas de cuidado integradas.
No campo da prevenção, tanto os pesquisadores internacionais quanto os documentos do Ministério da Saúde destacam a vacinação como a principal estratégia para reduzir a incidência de sequelas. Evidências recentes sugerem que a imunização pode reduzir a probabilidade de desenvolver condições pós-COVID-19 (60). As vacinas possuem maior eficácia quando administradas em crianças e adolescentes, com raros relatos de reações adversas sérias, reduzindo em 41% a possibilidade de sequelas (61). Contudo, atrasos na implementação do esquema vacinal no Brasil, associados à desinformação e à baixa cobertura em alguns grupos, comprometeram essa estratégia.
Em suma, há convergência entre a pesquisa prospectiva e as ações do Ministério, especialmente na tendência de prevalência das sequelas nos próximos dez anos. Isso destaca a crescente necessidade de centros de reabilitação multidisciplinar, com foco no suporte psicológico. No Brasil, as ações para as condições pós-COVID-19 ainda não estão plenamente implementadas no sistema de saúde pública, apesar de normas específicas. Houve demora na implementação do esquema vacinal e dificuldades na organização de ações para enfrentar uma nova pandemia. Esses desafios ressaltam a necessidade de melhorar a gestão de saúde pública e a execução de políticas eficazes para garantir atendimento adequado aos pacientes com sequelas da COVID-19.
Por fim, apesar do avanço nas investigações, as evidências científicas sobre as condições pós-COVID-19 ainda são incipientes e de qualidade metodológica limitada. Os estudos disponíveis apresentam fragilidades, como amostras reduzidas e heterogeneidade nos métodos, o que reforça a necessidade de pesquisas mais robustas e consistentes (62).

Considerações finais
As condições pós-COVID-19 representam uma crescente preocupação global devido ao aumento das sequelas e complicações observadas em pacientes após a infecção pelo SARS-CoV-2. A complexidade dessas sequelas, que afetam diversos sistemas do corpo além do respiratório, torna essencial uma abordagem holística e coordenada para entender e tratar eficazmente os sintomas e necessidades dos pacientes.
Os resultados deste estudo mostram que as ações do Ministério da Saúde em relação às condições pós-COVID-19 estão alinhadas com a opinião de pesquisadores, especialmente no que se refere às principais sequelas, tipos de serviços necessários e estratégias de prevenção. No entanto, as orientações do governo federal ainda estão focadas na Atenção Primária à Saúde e na Atenção Domiciliar, dificultando o acompanhamento de pacientes referenciados para a atenção especializada e a coleta de informações sobre a carga desses serviços. Se os serviços de saúde estivessem organizados de forma adequada para atender a demandas das sequelas de outras infecções virais, provenientes de arboviroses ou ainda de infecções congênitas, essa estrutura poderia ser utilizada para o atendimento de pacientes com condições pós-COVID-19, considerando a semelhança nas sequelas decorrentes dessas infecções.
É preciso, portanto, avançar para uma resposta abrangente e articulada dos diferentes níveis de cuidado, a fim de oferecer serviços de saúde para as condições pós-COVID-19 e para as sequelas decorrentes de outras infecções virais. Destaca-se a importância de modelos integrados, com a expansão da rede de clínicas especializadas, mas reconhecendo que a maior parte do manejo ocorrerá na atenção primária, apoiada por educação continuada para médicos de família e diretrizes nacionais padronizadas. O manejo multidisciplinar deve priorizar a reabilitação funcional e estimular iniciativas no âmbito da atenção primária voltadas ao apoio físico, psicológico e social, em conjunto com ações de prevenção por meio da imunização (53).
Os pontos levantados fornecem diretrizes valiosas para formuladores de políticas, empresas e profissionais de saúde na criação de estratégias eficazes para enfrentar os desafios da pandemia de COVID-19, melhorar a qualidade de vida dos afetados e prevenir que novas doenças alcancem proporções pandêmicas.


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Amorim, I, Fava, V, Silva, D, Santana, I, Cabral, B, Monteiro, R, Cordeiro, V, Carvalho, F. Condições pós-COVID-19 no Brasil: antecipação, tendências e políticas públicas. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 02/07/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/condicoes-poscovid19-no-brasil-antecipacao-tendencias-e-politicas-publicas/20062?id=20062

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