0011/2026 - Consumo alimentar de pessoas idosas brasileiras segundo a presença de depressão: dados do Vigitel 2023
Food consumption of Brazilian older adults according to the presence of depression: data from Vigitel 2023
Autor:
• Carolina Lima Marques - Marques, CL - <caroolmarquess92@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0009-0003-2841-5099
Coautor(es):
• Hadassa Gonçalves Di Lêu de Carvalho - Carvalho, HGDL - <nutricao.hadassadileu@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0009-0000-0727-4221
• Ivy Evangelista Costa Ramos - Ramos, IEC - <ivyevangelista@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0004-5819-364X
• Maria Emília Coimbra Pereira - Pereira, MEC - <mariacoimbra93@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2736-0965
• Daniela Silva Canella - Canella, DS - <danicanella@gmail.com> +
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9672-4983
• Thaís Marquezine Caldeira - Caldeira, TM - <thaismarquezinec@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9415-5817
• Rafael Moreira Claro - Claro, RM - <rafael.claro@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9690-575X
• Taciana Maia de Sousa - Sousa, TM - <tacianamaias@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7387-154X
Resumo:
Estudo transversal com subamostra de pessoas idosas (? 60 anos) avaliados pelo inquérito Vigitel 2023 (n=6.940) para investigar a relação entre o consumo alimentar de pessoas idosas brasileiras e a presença de depressão. Modelos de regressão logística estimaram a Odds Ratio ajustada (ORa) da associação entre o diagnóstico autorreferido de depressão (explicativa) e indicadores de consumo alimentar (desfechos), ajustados por variáveis sociodemográficas, atividade física e estado nutricional. Entre o conjunto total de pessoas idosas, houve uma associação inversa entre a presença de depressão e o consumo regular de feijão (ORa: 0,75; IC95% 0,58-0,97) e direta com o consumo regular de bebidas adoçadas (ORa: 1,62; IC95% 1,05-2,51). Entre aqueles do sexo masculino, a presença de depressão se associou inversamente ao consumo regular (ORa: 0,41; IC95% 0,23-0,74) e recomendado (ORa: 0,55; IC95% 0,22-0,90) de frutas e hortaliças, enquanto apresentou associação direta com o consumo elevado de ultraprocessados (ORa: 2,41; IC95% 1,34-4,34). Já entre idosas do sexo feminino, a presença de depressão se associou diretamente com o consumo regular de bebidas adoçadas (ORa: 1,89; IC95% 1,11-3,23). A depressão se associou a piores desfechos de consumo alimentar entre pessoas idosas, especialmente entre aqueles do sexo masculino.Palavras-chave:
Idoso; Depressão; Consumo alimentar; Alimentos ultraprocessados; Nutrição do idoso.Abstract:
This was a cross-sectional study using a subsample of older adults (≥60 years) from the 2023 Vigitel survey (n=6,940), aiming to assess the association between dietary consumption and depression among Brazilian older adults (≥60 years). Logistic regression models estimated the adjusted Odds Ratio (aOR) for the association between self-reported depression diagnosis (explanatory variable) and food consumption indicators (outcomes), adjusted for sociodemographic variables, physical activity, and nutritional status. In the total sample of older adults, depression was inversely associated with regular bean consumption (aOR: 0.75; 95% CI: 0.58-0.97) and positively associated with regular consumption of sweetened beverages (aOR: 1.62; 95% CI: 1.05-2.51). Among males, depression was inversely associated with both regular (aOR: 0.41; 95% CI: 0.23-0.74) and recommended (aOR: 0.55; 95% CI: 0.22-0.90) fruit and vegetable consumption, while it was positively associated with high consumption of ultra-processed foods (aOR: 2.41; 95% CI: 1.34-4.34). Among females, depression was positively associated with regular consumption of sweetened beverages (aOR: 1.89; 95% CI: 1.11-3.23). Depression was associated with poorer dietary outcomes among older adults, particularly among males.Keywords:
Older Adults; Depression; Food Consumption; Ultra-processed Foods; Elderly nutrition.Conteúdo:
O envelhecimento populacional é um fenômeno global crescente, impulsionado por avanços no cuidado em saúde e nas condições de vida, resultando em aumento da expectativa de vida. No Brasil, as pessoas idosas representavam 15,8% da população em 2022, um crescimento de 46,6% em relação a 2010, quando correspondiam a 10,8%1. Esse processo, contudo, pode acarretar maior vulnerabilidade à saúde e o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como a depressão2.
De acordo com a OMS, a prevalência de depressão ao longo da vida no Brasil é de aproximadamente 15,5%, podendo se manifestar em qualquer idade3. Entre toda a população, as pessoas idosas entre 60 e 64 anos correspondem à faixa etária proporcionalmente mais afetada pela depressão4, um cenário preocupante diante do crescimento desta população no país1. No Brasil, a prevalência de depressão na população idosa passou de 11% para 13% entre 2013 e 2019, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde4,5. Esta condição pode acelerar o processo de envelhecimento, ao agravar o declínio cognitivo6, reduzir a qualidade de vida4 e favorecer comportamentos de risco à saúde7.
Nesse sentido, indivíduos com depressão podem ter seus hábitos alimentares modificados, com menor consumo de refeições caseiras e alimentos frescos, como frutas e hortaliças8, possivelmente devido a maior dificuldade desses indivíduos em exercer o autocuidado. Ainda, pode haver uma tendência de maior consumo de alimentos ultraprocessados, que não requerem preparo, são hiper palatáveis e apresentam maior durabilidade8. Esse padrão alimentar, por sua vez, está associado ao desenvolvimento de quadros depressivos. Em uma meta-análise recente foi observado que consumo elevado de ultraprocessados estava ligado a maiores chances de sintomas depressivos (Odds Ratio ?1,44) e, em estudos prospectivos, a maior risco de desenvolver depressão no futuro (Hazard Ratio?1,22)9.
Considerando a relação entre a saúde mental e comportamentos de risco ou proteção à saúde, incluindo o consumo alimentar, estudos que monitorem tais fatores são relevantes para a promoção da saúde no contexto do envelhecimento. Neste cenário, o presente estudo objetivou avaliar a associação entre a presença de depressão e consumo alimentar entre pessoas idosas brasileiras, utilizando dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2023.
Métodos
Delineamento, amostragem e população de estudo
Foi realizado um estudo transversal utilizando dados do Vigitel coletados em 2023, recorte mais recente do inquérito10 (Ministério da saúde, 2023). O Vigitel acontece desde 2006 no Brasil e tem o objetivo de monitorar a frequência e a distribuição dos principais fatores que determinam as DCNT na população adulta (?18 anos) residente nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal10,11,12.
Para o ano de 2023, foi estabelecido um mínimo de 800 entrevistas em cada uma das localidades, sendo 400 entrevistas por telefone fixo e 400 por telefone móvel por cidade, permitindo estimar, com coeficiente de confiança de 95% e erro máximo de quatro pontos percentuais, a frequência de qualquer fator de risco e proteção na população adulta. Erros máximos de cinco pontos percentuais são esperados para estimativas específicas, segundo sexo, assumindo-se proporções semelhantes de homens e mulheres na amostra10.
A amostragem do Vigitel é realizada em duas etapas, sendo que a primeira consiste no sorteio de linhas telefônicas residenciais fixas e móveis fornecidas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), as quais são, em seguida, ressorteadas e divididas em réplicas. A segunda etapa consiste no sorteio de um dos adultos (?18 anos de idade) residentes no domicílio sorteado ou, no caso dos telefones móveis, o usuário adulto do número, com o qual será realizada a entrevista. As estimativas do Vigitel foram ponderadas para representar a população adulta total de cada cidade e, para isso, utilizou-se um peso pós-estratificação por meio do método Rake10. Esse peso visa corrigir a probabilidade desigual de seleção (quando o domicílio possui mais de um adulto ou telefone fixo) e equalizar a distribuição da população entrevistada (em relação ao sexo, idade e escolaridade) àquela projetada para toda a população em cada cidade e ano de estudo, com base em dados do Censo e projeções oficiais populacionais. Para o presente estudo, utilizamos uma subamostra composta por pessoas idosas (? 60 anos) (n=6.940).
Maiores detalhes sobre a amostragem do Vigitel e sua evolução ao longo dos anos podem ser obtidos nos relatórios anuais do sistema10. As bases de dados do Vigitel estão disponíveis para uso público no site oficial do Ministério da Saúde (https://svs.aids.gov.br/download/Vigitel/). A coleta de dados foi aprovada pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Ministério da Saúde (nº: 65610017.1.0000.0008).
Variáveis de interesse e organização de dados
As informações de interesse para o estudo incluíram: diagnóstico médico autorreferido de depressão; indicadores do consumo alimentar; prática de atividade física; estado nutricional e características sociodemográficas.
A presença de depressão foi identificada pela resposta afirmativa à pergunta: “Algum médico já lhe disse que o(a) Sr.(a) tem depressão?”.
Os indicadores de consumo alimentar incluíram: I) consumo regular de frutas e hortaliças (consumo de frutas e hortaliças em 5 dias ou mais da semana); II) consumo recomendado de frutas e hortaliças (consumo de 5 ou mais porções diárias de uma fruta e hortaliça em 5 ou mais dias da semana); III) consumo regular de bebidas adoçadas (consumo de refrigerantes ou sucos artificiais em 5 ou mais dias da semana); IV) consumo regular de feijão (consumo de feijão em 5 dias ou mais da semana); V) consumo elevado de ultraprocessados (consumo no dia anterior à entrevista de grupos de alimentos ultraprocessados acima do último quintil da população estudada).
As características sociodemográficas incluíram: sexo biológico (feminino; masculino); faixa etária (60 a 69; 70 a 79; ?80 anos de idade); escolaridade (? 8; 9 a 11; ? 12 anos de estudo); raça/cor de pele (negra – preta/parda; branca; outros – amarelos/indígenas/respostas abertas); presença de companheiro(a) (sim; não).
Por fim, as covariáveis prática de atividade física no lazer e estado nutricional foram incorporadas ao estudo, sendo ambas classificadas conforme os critérios adotados pelo Vigitel10. A prática de atividade física recomendada no lazer considerou pessoas idosas que praticam atividades físicas no tempo livre por 150 minutos ou mais por semana em atividade de intensidade moderada ou equivalente a 75 minutos de intensidade vigorosa13. O estado nutricional foi classificado a partir do cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) com base no peso e altura autorreferidos pelo entrevistado e categorizado em baixo peso (menor que 18,5 kg/m²), eutrofia (entre 18,5 e 24,9 kg/m²), sobrepeso (entre 25,0 e 29,9 kg/m²) e obesidade (maior ou igual a 30,0 kg/m²)14.
Análises estatísticas
A população total foi descrita segundo as características sociodemográficas, presença de depressão, prática de atividade física no lazer e estado nutricional por meio de prevalência (%) e intervalo de confiança de 95% (IC95%). Em seguida, a prevalência dos indicadores de consumo alimentar e seus respectivos IC95% foram estimados segundo a presença de depressão. O teste de Qui-quadrado foi adotado para comparar as proporções dos indicadores de consumo alimentar entre pessoas idosas com e sem depressão. Por fim, modelos de regressão logística foram utilizados para estimar os Odds Ratios brutos e ajustados (ORa) (por sexo, idade, escolaridade, raça/cor de pele, presença de companheiro, prática de atividade física recomendada e estado nutricional). Os indicadores de consumo alimentar foram analisados como variáveis de desfecho, enquanto a presença de depressão foi analisada como variável explicativa. As análises foram realizadas para a população total e estratificadas segundo sexo. Os dados foram organizados e analisados no software Stata, versão 16.2, utilizando o módulo survey para amostras complexas e o nível de significância de 5%.
Resultados
A maioria das pessoas idosas analisadas era do sexo feminino (57,5%), tinha entre 60 e 69 anos de idade (58,2%), com até 8 anos de estudo (51,5%) e relatou não possuir companheiro(a) (56,4%). Foram observadas prevalências semelhantes para população negra (46,1%) e branca (46,9%). Adicionalmente, 71,5% da população não realizava atividade física recomendada no lazer, 38,9% foram classificadas com sobrepeso e 23,8% com obesidade. A prevalência de diagnóstico médico de depressão foi de 13,9% (Tabela 1).
Observou-se a menor prevalência de consumo regular de feijão entre pessoas idosas com depressão, comparado àqueles sem depressão (52,9% vs. 63,9%; p<0.001). Para o sexo masculino, pessoas idosas com depressão apresentaram menor prevalência de consumo regular de frutas e hortaliças (22,1% vs. 35.4%; p=0,016) e maior prevalência de consumo elevado de alimentos ultraprocessados (39,3% vs. 20,1%; p=0,001). Já entre o sexo feminino, verificou-se maior prevalência de consumo regular de bebidas adoçadas entre idosas com depressão (9,8% vs. 5,3%; p=0,013) (Tabela 2).
A Tabela 3 apresenta os resultados dos modelos múltiplos para associação entre depressão e o consumo alimentar. Segundo os resultados ajustados, observou-se no conjunto total da população de pessoas idosas, que a presença de depressão reduz em 25% a chance de consumo regular de feijão (ORa: 0,75; IC95% 0,58-0,97) e aumenta em 62% a chance de consumo regular de bebidas adoçadas (ORa: 1,62; IC95% 1,05-2,51) (Tabela 3).
Quando estratificados por sexo, para o sexo masculino, os resultados revelam que a presença de depressão reduz em 59% a chance de consumo regular de frutas e hortaliças (ORa: 0,41; IC95% 0,23-0,74) e em 55% a chance de consumo recomendado de frutas e hortaliças (ORa: 0,55; IC95%0,22-0,90). Entretanto, aumenta em 141% a chance de consumo elevado de ultraprocessados (ORa: 2,41; IC95% 1,34-4,34). Entre o sexo feminino, a presença de depressão aumenta em 89% a chance de consumo regular de bebidas adoçadas (ORa: 1,89; IC95%1,11-3,23) (Tabela 3).
Discussão
Por meio da avaliação dos dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2023 de aproximadamente 7 mil idosos brasileiros foi possível identificar a associação entre a depressão e diferentes indicadores de consumo alimentar saudável e não saudável. Observou-se que a depressão esteve relacionada a menores chances de consumo regular de alimentos marcadores de uma alimentação saudável, como o feijão, frutas e hortaliças, ao passo que aumentou a chance de consumo de bebidas adoçadas e de alimentos ultraprocessados. Feijão, frutas e hortaliças fazem parte do grupo de alimentos in natura ou minimamente processados que devem compor a base de uma alimentação saudável, conforme as diretrizes consolidadas no Guia Alimentar para a População Brasileira15, devido ao seu fator protetor para diversas doenças crônicas, como doenças cardiovasculares, obesidade e depressão16-18.
A associação inversa encontrada entre o diagnóstico autorreferido de depressão e o consumo de frutas, hortaliças e feijão, já descrita em estudo prévio19, pode ser explicada devido ao fato destes alimentos demandarem mais planejamento e preparo para o consumo20. Essa demanda pode impactar na alimentação de pessoas com depressão, visto que muitas experimentam apatia e fadiga, o que compromete a realização de atividades diárias, como cozinhar21. Além disso, a depressão pode modificar as preferências alimentares, levando a um maior consumo regular de doces, substituição de refeições por lanches, desejo por alimentos ricos em carboidratos, e o comer emocional23,24. Portanto, está população se beneficiaria de estratégias que viabilizem o aumento no consumo de alimentos saudáveis, como feijão, frutas e hortaliças, pois estes já foram associados a um menor risco de desenvolvimento de depressão em pessoas idosas19,24.
A relação entre escolhas alimentares e depressão pode ocorrer de forma bidirecional, ou seja, a alimentação leva à ocorrência de depressão e a própria depressão leva a piores escolhas alimentares25. Essa relação já foi relatada entre a população adulta, um estudo com participantes de uma coorte espanhola (Project SUN), verificou que houve relação positiva entre o consumo de ultraprocessados e o aumento do risco de depressão26. Outro estudo realizado com adultos brasileiros, encontrou que o consumo regular de doces e a substituição de refeições por lanches foram positivamente associados à doença, possivelmente devido a alterações no comportamento alimentar causadas pela depressão19;25. Tal relação pode ser exacerbada considerando o crescente aumento do consumo de alimentos ultraprocessados em detrimento dos alimentos in natura ou minimamente processados na dieta brasileira27.
As associações identificadas no estudo mostraram-se distintas segundo o sexo. No contexto dos hábitos alimentares, tais diferenças podem estar relacionadas a questões de gênero que implicam nas habilidades culinárias e a autonomia na alimentação. Entre os homens idosos, a depressão esteve associada à menor probabilidade de ingestão regular e adequada de frutas e hortaliças e ao maior consumo de ultraprocessados, que pode ser explicado pela maior frequência de substituição das refeições por lanches, associada à falta de companhia por morar sozinho, e pela menor autonomia no preparo de refeições por este grupo28. Além disso, ultraprocessados geralmente contêm aditivos para intensificar suas qualidades sensoriais, tornando-os mais palatáveis e altamente atraentes para esta população, devido às mudanças nas preferências alimentares decorrentes tanto do envelhecimento, como da depressão29,30.
Entre as mulheres idosas, observa-se um maior consumo regular de bebidas adoçadas. Estudos anteriores já relataram a associação positiva entre o consumo dessas bebidas, a ingestão elevada de açúcares e a ocorrência de depressão em mulheres31,32. Observa-se também que, entre pessoas idosas, o consumo de açúcares é maior entre as mulheres, assim como a prevalência de depressão, o que pode explicar em partes esses achados21,33. Adicionalmente, a preferência por bebidas adoçadas pode estar relacionada à menor necessidade de mastigação, especialmente considerando as alterações do paladar que ocorrem com o envelhecimento30,34.
No presente estudo, a maior parte das pessoas idosas apresentou baixa escolaridade, variável que pode ser considerada uma proxy de renda. Sabe-se que a renda impacta diretamente o acesso, especialmente às frutas e hortaliças, e a qualidade da alimentação, principalmente entre os estratos de menor renda35. Estudos prévios evidenciaram que quando as famílias de baixa renda eram beneficiadas no programa de transferência de renda, elas tinham maior acesso aos alimentos, no entanto, não necessariamente de maior qualidade nutricional36,37. O recurso financeiro pela transferência de renda esteve também mais associado ao maior consumo de alimentos de alta densidade calórica e baixo valor nutritivo, como ultraprocessados, contribuindo para um possível aumento nos casos de obesidade e doenças crônicas38-40. Acredita-se que este cenário seja agravado no contexto da população idosa, visto que muitos dependem exclusivamente da aposentadoria, o que, em casos de benefícios reduzidos, não garante o acesso pleno a alimentos nutricionalmente adequados, condição que foi ainda mais afetada após a pandemia da COVID-1941. Em suma, observa-se que entre pessoas idosas, a depressão está relacionada a aspectos da rotina diária, fatores psicossociais e econômicos42. Nesse sentido, nossos achados ajudam a compreender como a presença desta condição pode refletir em escolhas alimentares menos saudáveis, uma vez que esse transtorno pode reduzir a motivação e a energia necessárias para preparar refeições mais adequadas, além de estar associado a contextos de baixa escolaridade e maior vulnerabilidade social43.
As limitações deste estudo incluem o fato de os dados terem sido coletados por meio de entrevista telefônica pode ter introduzido um viés relacionado à compreensão das perguntas. Contudo, a coleta do Vigitel é realizada apenas com indivíduos em plenas condições de responder às questões sem o intermédio de terceiros. Além disso, a avaliação da presença de depressão por diagnóstico médico autorreferido pode subestimar a prevalência desse agravo, visto que no Brasil nem toda população tem acesso a profissionais de saúde mental para receber o diagnóstico oportunamente44. Apesar das limitações mencionadas, destaca-se a potencialidade do estudo ao lançar luz à relação entre a presença de depressão e o consumo alimentar de pessoas idosas por meio de uma amostra representativa da população idosa residente nas 26 capitais brasileiras e Distrito Federal.
Conclui-se que a presença de depressão está relacionada a piores indicadores de consumo alimentar na população de pessoas idosas. Neste contexto, a atuação do nutricionista, por meio de atividades de educação alimentar e nutricional e ações de vigilância alimentar e nutricional, é fundamental para promover um envelhecimento saudável.
Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
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