0059/2026 - Insegurança alimentar e permanência na universidade: estudo transversal com graduandos de uma universidade pública
Food insecurity and university retention: a cross-sectional study with undergraduate stu-dents at a public university
Autor:
• Verônica Alves Pereira - Pereira, VA - <veronicals1016@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0009-0003-7984-1530
Coautor(es):
• Nadjeanny Ingrid Galdino Gomes - Gomes, NIG - <nadjeanny_ingrid@hotmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6367-2176
• Sara Ferreira de Oliveira - Oliveira, SF - <saraferoliveira@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7058-8231
• Rafaela Lira Formiga Cavalcanti de Lima - Lima, RLFC - <rafaelanutri@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1272-0067
• Rodrigo Pinheiro de Toledo Vianna - Vianna, RPT - <rodrigopissoa@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5358-1967
Resumo:
A formação superior é uma aspiração de muitos jovens e pode promover estabilidade e melhor condição socioeconômica. Insegurança alimentar (IA), entendida como o não atendimento ao direito à alimentação adequada sem comprometer outras necessidades, pode prejudicar o de-sempenho acadêmico e levar à retenção ou abandono. Estudo mediu a prevalência de IA entre estudantes de graduação e analisou sua relação com caracterÃsticas sociodemográficas e difi-culdades para permanecer na universidade. Estudo transversal com 293 estudantes ?18 anos, feito de agosto a setembro/2024, por questionário online com a Escala Brasileira de Inseguran-ça Alimentar, dados sociodemográficos e condições de permanência na universidade. Utili-zou-se o Qui-quadrado e regressão log-linear (p<0,05). Prevalência de IA foi 60,4%, sendo 6,5% grave. Morar com os pais, trabalhar e maior renda foram fatores protetores à IA. A maior despesa relatadas por 38,9% dos estudantes foi alimentação. Comparado à segurança alimen-tar, estudantes em IA grave tiveram RP=2,3 de considerar a universidade um sacrifÃcio, e RP de trancar/abandonar de 2,1; 3,5 e 3,4 para IA leve, moderada e grave. Alta IA associa-se a dificuldades de permanência na universidade, exigindo polÃticas de apoio equânimes que ga-rantam direitos básicos dos estudantes.Palavras-chave:
Jovens; Estudante Universitário; Segurança Alimentar; Estudos TransversaisAbstract:
Higher education is an aspiration for many young people and can promote stability and better socioeconomic conditions. Food insecurity (FI), understood as the failure to meet the right to adequate food without compromising other needs, can harm academic performance and lead to retention or dropout. Study measured the prevalence of FI among undergraduate students and analyzed its relationship with sociodemographic characteristics and difficulties in remain-ing in university. Cross-sectional study with 293 students aged 18 and older was conducted from Aug to Sep 2024, using an online questionnaire - the Brazilian Food Insecurity Scale, sociodemographic data, and data on university retention conditions. Chi-square and log-linear regression (p<0.05) were used. The prevalence of FI was 60.4%, with 6.5% being severe. Liv-ing with parents, working, and higher income were protective factors against FI. The biggest expense reported by 38.9% of students was food. Compared to food security, students with severe FI had a PR of 2.3 for considering university a sacrifice, and PR of dropping out was 2.1, 3.5, and 3.4 for mild, moderate, and severe FI. High FI is associated with greater difficul-ties in remaining at university, requiring equitable support policies that guarantee students' basic rights.Keywords:
Young people; University Students; Food Security; Cross-Sectional StudiesConteúdo:
Realizar um curso superior é uma aspiração comum de grande maioria de jovens estu-dantes de todo o Brasil e se configura em uma possibilidade real de mudança de status social de uma significativa parcela da população. As universidades públicas possibilitam esta forma-ção de forma gratuita sendo um importante equipamento que pode atender aqueles que não tem condição de pagar pelos seus estudos. No Brasil, segundo o Censo de 2022, somente 18,4% da população com mais de 25 anos têm concluÃdo o ensino superior e esta frequência cai para 13% na região Nordeste, que apresenta o pior resultado entre todas as macrorregiões 1.
Além da dificuldade de acesso às universidades, manter-se em um curso também pode vir a ser um desafio, tanto pelas demandas acadêmicas como pela manutenção das necessida-des básicas, como moradia, transporte ou alimentação.
A insegurança alimentar pode ser um problema grave entre estudantes universitários que prejudicaria o seu desempenho acadêmico ou a própria permanência no curso escolhido. Estudo realizado em Santos, no Estado de São Paulo, avaliou 91 estudantes de uma universi-dade federal no ano de 2018 observou que 63,8% deles sofriam algum grau de insegurança alimentar, sendo a situação ainda mais grave entre aqueles incluÃdos nos programas de auxÃlio universitário 2.
Este problema também afeta estudantes de paÃses ricos, como os EUA, onde tem au-mentado população de estudantes universitários de baixa renda, os custos universitários são elevados e a ajuda financeira é insuficiente, além de um mercado de trabalho fraco para traba-lho a tempo parcial 3. Todos estes problemas são facilmente identificados na realidade dos estudantes brasileiros.
A insegurança alimentar é uma violação de um direito básico e acontece quando os in-divÃduos não conseguem ter acesso a alimentos de qualidade em quantidade suficiente para atender suas necessidades e garantir uma vida saudável, respeitando a diversidade cultural e a sustentabilidade ambiental, econômica e social 4.
O Brasil possui uma escala validada para a avaliação da segurançca e dos diferentes nÃveis de insegurança alimentar das famÃlias chamada Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) 5. Esta escala classifica as famÃlias em i) segurança alimentar, quando há acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficientes; ii) insegurança alimentar leve, quando há preocupação dos membros da famÃlia em não ter acesso aos alimentos necessários no futuro ou quando a qualidade da alimentação é reduzida; iii) insegurança alimentar moderada, quando ocorre diminuição na qualidade e na quantidade da dieta disponÃvel no domicÃlio; iv) insegurança alimentar grave quando há uma grande redução da quantidade de alimentos consumidos, podendo os integrantes do domicÃlio passar fome 6.
A pergunta que este trabalho busca responder é se a insegurança alimentar entre estu-dantes de uma universidade pública federal pode prejudicar a sua permanência na instituição. Assim o objetivo deste estudo é avaliar a prevalência de insegurança alimentar entre os estu-dantes de uma universidade pública da região Nordeste e analisar a sua relação com as caracte-rÃsticas sociodemográficas e com a percepção que eles têm sobre a permanência na universida-de.
Material e métodos
Foi realizado um estudo transversal com estudantes dos diversos campus da Universi-dade Federal da ParaÃba, localizados em João Pessoa, Areia, Bananeiras, Rio Tinto e Maman-guape.
Participaram da pesquisa estudantes com idade acima de 18 anos matriculados nos cur-sos de graduação da Universidade. Foi feito um esforço amostral convidando aleatoriamente os estudantes a participar do estudo utilizando estratégias de comunicação pelos grupos sociais virtuais. Foram acessados os grupos disponÃveis de turmas, cursos, centros acadêmicos entre outros e foi incentivado que os participantes também convidassem estudantes de sua rede de contatos para participar. Todos os estudantes que concordaram em participar da pesquisa assi-naram um Termo de Esclarecimento Livre e Esclarecido.
Toda a pesquisa foi feita de forma digital utilizando a plataforma Google Forms onde um questionário para autopreenchimento foi disponibilizado aos participantes. A coleta de dados aconteceu entre agosto e setembro de 2024 e obteve respostas válidas de 293 estudan-tes.
O questionário continha questões sócio demográficas (idade, sexo, cor da pele/raça, ci-dade de origem, se tem filhos, com quem mora), caracterização da atividade acadêmica (curso, perÃodo letivo, se recebe auxÃlio estudantil, se considera trancar o curso, como se desloca para a universidade, avaliação do curso, situação na universidade), de renda (renda mensal, qual a maior despesa mensal, realiza trabalho remunerado, com o que gastaria caso tivesse mais di-nheiro), hábitos (se fuma, se consome bebidas alcoólicas) e situação de insegurança alimentar de acordo com a EBIA.
Após o perÃodo de coleta, os dados foram colocados em uma planilha eletrônica e foi feita a análise descritiva de todas as variáveis para garantir a consistência dos dados e excluir possÃveis valores impossÃveis. A classificação da situação de segurança e de insegurança ali-mentar familiar dos estudantes foi feita segundo os escores obtidos nos itens da EBIA, classi-ficando os estudantes em seguros ou nos três nÃveis de gravidade da insegurança alimentar, leve, moderada e grave.
Foi realizada a análise descritiva dos dados e a apresentação dos resultados na forma de tabelas e gráficos. Para verificar a relação da insegurança alimentar com as demais variáveis do estudo foram feitos testes de associação qui-quadrado, considerados significativos os valo-res de p inferiores a 0,05.
Para avaliar o efeito, bruto e ajustado, da insegurança alimentar nos desfechos acadê-micos foi construÃdo um modelo de regressão log-linear simples e múltiplo com a inclusão das variáveis que tiveram valor de p<0,20 no teste de associação com cada desfecho modelado. Todas as análises estatÃsticas foram como auxÃlio do software livre Jamovi, versão 2.6 7.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da UFPB (CAAE 79797624.5.0000.5188; parecer no: 6.933.757) e foram seguidas todas as recomendações para estudos observacionais com seres humanos.
Resultados
Responderam ao questionário online 308 estudantes, sendo que 15 deles (4,9%) não atendiam aos critérios inclusão com relação à idade, estar cursando graduação ou estar regularmente matriculado no momento da realização da pesquisa. Os 293 questionários válidos foram de estudantes de todos os 16 centros de ensino da universidade, com respostas de estudantes de diferentes cursos distribuÃdos aleatoriamente. A idade média dos estudantes foi 22,7 anos (IC 95%: 22,0 – 23,5). As caracterÃsticas dos estudantes que participaram da pesquisa é mostrada na Tabela1.
A frequência de insegurança alimentar entre os estudantes foi de 60,4%, sendo 6,5% no seu nÃvel mais grave (Gráfico 1) e 38,9% dos estudantes declarou que seu maior gasto mensal era com alimentação.
Quando foram feitas perguntas com relação à universidade, apesar da avaliação positiva de grande maioria dos estudantes que consideram que a instituição é igual ou melhor do que esperava, em torno de um terço dos alunos declararam ter dificuldades em se manter na universidade e uma proporção equivalente considera a possibilidade de trancar ou abandonar o curso (Tabela 2).
As caracterÃsticas dos estudantes que mostraram associação com insegurança alimentar são mostradas na Tabela 3. Ser do sexo masculino e trabalhar apresentou ao mesmo tempo maior frequência das condições de segurança alimentar e de insegurança alimentar grave. Morar com amigos foi a condição de moradia associada a maior insegurança alimentar e, como esperado, os estudantes que declararam as menores rendas foram aqueles com pior situação de insegurança alimentar. Quando a maior despesa dos estudantes foi relacionada aos itens básicos de despesa, comida, moradia e transporte, a prevalência de insegurança alimentar foi maior. Com relação aos benefÃcios oferecidos aos estudantes, ao mesmo tempo que se observa que eles são direcionados aos estudantes com maior frequência de insegurança alimentar, a porcentagem de estudantes em insegurança alimentar grava é quase o dobro entre os estudantes que não recebem nenhum benefÃcio, comparado com aqueles que recebem. Os estudantes em insegurança alimentar consideraram, com maior frequência, ser um sacrifÃcio estar na universidade ou considerar a possibilidade de trancar ou desistir dos seus cursos.
As perguntas estar na universidade é fácil, normal ou um sacrifÃcio e se considera trancar ou desistir do curso foram dicotomizadas para a construção de dois modelos de regressão logÃstica simples e múltipla (Tabela 4). Para a primeira variável se comparou aqueles que responderam normal ou fácil com os que declararam ser um sacrifÃcio e para a segunda o sim e o talvez foram comparados com a resposta negativa.
Estar em insegurança alimentar grave aumenta a probabilidade do estudante considerar a Universidade em um sacrifÃcio em quase 2,32 vezes. Todos os nÃveis de insegurança alimentar são fator de risco para o estudante considerar a possibilidade de trancar ou desistir do curso, quando comparado com os estudantes em segurança alimentar, sendo a razão de prevalência chegando em torno de 3,5 vezes, no caso da insegurança alimentar moderada ou grave.
Discussão
Este trabalho analisou a situação de insegurança alimentar entre estudantes universitários e também observou, por um lado, as caracterÃsticas relacionadas a esta situação e suas consequências. Apesar de não ser um estudo longitudinal, a literatura tem descrito exaustivamente que a limitação de recursos financeiros é uma importante causa da insegurança alimentar 8, bem como é muito plausÃvel que os sentimentos a avaliações referidos pelos estudantes com relação à permanência na universidade podem ser consequências da não realização de um direito básico que é a alimentação. Desta forma, apesar de não se tratar, metodologicamente, de um estudo voltado para avaliar causalidade, as associações observadas são fortes indÃcios de relações de causa e efeito
No Brasil, a prevalência de insegurança alimentar da população em geral era de 27,6%, medida em 2023 pela pesquisa nacional de amostras domiciliares contÃnua. Na região nordeste apresentou uma prevalência maior, de 38,8% 9. O resultado encontrado entre os estudantes universitários avaliados é, portanto, preocupante pois é ainda superior à média da região Nordeste, onde se encontra a universidade.
Existem poucos estudos no Brasil avaliando a insegurança alimentar de estudantes universitários, entretanto durante a pandemia alguns estudos foram realizados com este público, ou com subgrupos dele, como o estudo realizado com residentes em moradia estudantil em São Paulo que identificou, em um grupo de 84 estudantes que também responderam um questionário virtual, uma prevalência de 84,5% de IA 10, ou o estudo de Santos, já citado, com 63,8% de prevalência de algum nÃvel de insegurança alimentar entre os 91 estudantes avaliados. 2.
Entre as variáveis associadas a insegurança alimentar, foi observado o efeito dose-resposta da renda, ou seja, menores rendas apresentaram piores situações de insegurança ali-mentar. Os dados mostraram que os estudantes que declararam ter renda mensal entre um e três salários-mÃnimos ou mais não sofriam de insegurança alimentar grave e praticamente todos que declararam ter mais de seis salários-mÃnimos estavam em segurança alimentar. Apesar de coerente, estes resultados comprovam somente o importante papel da renda para a garantia da segurança alimentar, medida pelo acesso dos alimentos, mas necessita ser estudado com maior cuidado, uma vez que não foi esse o objetivo deste trabalho. As respostas de renda individual, familiar, per capita ou outros rendimentos são complexas e necessitam de técnicas especÃficas e controle de outras variáveis para serem válidas 11 e não foi o caso do presente trabalho. Esta relação está bem estabelecida para a população em geral, observado em estudos nacionais de base populacional, como o caso do inquérito realizado pela Rede PENSAN 12 e também acontece em outros paÃses, como no estudo realizado na Nigéria, com 398 estudantes universitários, que encontrou uma alta prevalência de insegurança alimentar e, especificamente, foi observada a associação desta condição com o recebimento, ou não, de mesada ou outras fontes de renda 13.
As diferenças de gênero associadas à insegurança alimentar também é uma questão que necessita ser estudada com maior profundidade. No nosso estudo, apesar de não ser represen-tativo, chama a atenção que dos oito estudantes que se autodeclararam transgênero, sete foram classificados com insegurança alimentar. Este achado é relevante e consistente com os resulta-dos de um grande estudo realizado nos Estados Unidos com estudantes universitários com idades entre 18 e 34 anos (n = 96.379), onde foi observado que a insegurança alimentar era mais prevalente entre estudantes transgênero/não-binário/outros do que entre estudantes cisgê-nero (42,1% vs 32,2% em mulheres e 27,8% em homens) 14.
Houve também diferenças entre os universitários homens e mulheres no presente estu-do, onde os homens apresentaram maior frequência de segurança alimentar e ao mesmo tempo maior frequência de insegurança alimentar grave. Estudos sobre as desigualdades de gênero podem encontrar melhores explicações para estas diferenças, mas aparentemente os privilégios da sociedade patriarcal e as desigualdades sociais podem ser responsáveis simultaneamente por este achado. Não foi observada diferenças quando esta variável foi relacionada com turno de estudo, com quem mora ou se trabalha.
Os estudantes que moram com os pais apresentaram maior frequência de segurança alimentar, mostrando que este é um fator de proteção e também identificando que aqueles estudantes de são provenientes de outras cidades e passam a morar sozinhos ou com amigos são potenciais estudantes que podem vir a necessitar de apoio da universidade. Em estudo realizado na Austrália, também de forma online com 366 estudantes, observou uma prevalên-cia total de 48% de insegurança alimentar e uma chance 2,39 vezes maior de estar em insegu-rança alimentar quando residente em casa alugada, comparado com aqueles que residiam com seus pais 15.
Trabalhar foi um fator protetor para associado à segurança alimentar, o que é um acha-do positivo se não consideramos o aumento do esforço para realizar simultaneamente o traba-lho e o estudo ou uma possÃvel redução no desempenho acadêmico. Em estudo realizado em uma universidade privada dos Estados Unidos, foi observado também que os estudantes que exerciam atividade remunerada tinham menores prevalências de insegurança alimentar. Entre os 1.316 estudantes avaliados, 34% apresentavam algum grau de insegurança alimentar e esta condição apresentou uma correlação negativa com estar empregado 16.
Todo este cenário identifica as caracterÃsticas dos estudantes associadas à maior chance de sofrer insegurança alimentar. Apesar de ser um estudo realizado em uma universidade pú-blica de uma capital do Nordeste, é bem possÃvel que este cenário, em intensidades diferentes, deva se repetir em outras universidades do PaÃs.
E o que acontece na prática, além do não atendimento ao direito básico do acesso à alimentação, com os estudantes que vivenciam a insegurança alimentar? Revisão de literatura identificou que esta situação tem relação com pior desempenho acadêmico além de maior risco de problemas fÃsicos e psicossociais 17. Estudo transversal realizado em universidade norte americana, com 237 estudantes, identificou que os estudantes com insegurança alimentar, 15% dos estudantes daquela instituição, tinham maior risco de depressão, além de implicações ne-gativas no desempenho acadêmico, podendo aumentar as taxas de retenção e desistência dos cursos, mas considera que avaliar a situação de insegurança alimentar dos estudantes é uma importante ferramenta para identificar o problema e encontrar soluções adequadas de assistên-cia estudantil 18.
No presente estudo a situação de insegurança alimentar grave esteve associado a con-siderar estar na universidade um sacrifÃcio, o que tem relação tanto com a dificuldade de se manter na universidade como também a um sofrimento. Este resultado indica a necessidade de se realizar mais estudos com estudantes universitários que avaliem simultaneamente a insegu-rança alimentar e a saúde mental, especialmente os transtornos comuns, como a depressão e ansiedade. Recentemente vários estudos foram realizados avaliando a saúde mental de univer-sitários, considerando o cenário da pandemia da Covid-19, e os resultados mostraram um risco aumentado de ansiedade e depressão, considerando as incertezas do futuro profissional, pro-blemas financeiros, além dos transtornos causados pelas medidas restritivas de relacionamento 19.
De maneira objetiva, foi observado entre os estudantes universitários avaliados uma ra-zão de prevalência cada vez maior de trancar ou desistir do curso na medida em que aumenta-va o grau de severidade da insegurança alimentar, mostrando um claro comportamento de efeito dose-resposta. Este resultado é coerente e consistente com os estudos internacionais já citados, não havendo no nosso conhecimento, outros trabalhos realizados com estudante uni-versitários no Brasil que avalia esta mesma relação.
Recebiam algum auxÃlio universitário um terço dos estudantes desta pesquisa e muitos deles ainda foram classificados com algum grau de insegurança alimentar, o que justifica o benefÃcio por um lado, mas faz-se necessário investigar se este benefÃcio é suficiente para ga-rantir o direito à alimentação deles. Também, entre os não beneficiários de auxÃlio estudantil, muitos também foram classificados com insegurança alimentar, mostrando que a quantidade de auxÃlio certamente é insuficiente para suprir as necessidades da comunidade estudantes universitários. O trabalho realizado em uma universidade federal na região Sudeste, avaliando o auxÃlio financeiro a estudantes, também chegou a mesma conclusão, ou seja, embora o auxÃ-lio contribua, ele foi reconhecido como insuficiente para suprir as necessidades básicas dos beneficiários 2.
As universidades públicas contam com um importante equipamento voltado para a ali-mentação da comunidade universitária que são os Restaurantes Universitários institucionais que oferecem alimentação de qualidade a preços reduzidos. Além de ser uma importante ga-rantia do acesso à alimentação e consequentemente à garantia da segurança alimentar, eles também influenciam positivamente na melhoria da alimentação e no consumo de alimentos mais saudáveis, como observaram estudos realizados com estudantes universitários do Rio de Janeiro 20, 21. A ampliação do serviço de almoço com o oferecimento de outras refeições como o café da manhã e jantar são possibilidades viáveis de aproveitamento dos equipamentos exis-tentes e melhor assistência dos estudantes universitários em situação de insegurança alimentar.
Outro achado deste trabalho indicou que entre os maiores itens de despesa dos estu-dantes, aqueles com insegurança alimentar declararam maior comprometimento da renda com despesas básicas como alimentação, moradia e transporte. Esta é uma questão interessante de se estudar mais profundamente, uma vez que o direito a lazer, esporte e outras atividades tam-bém são componentes importantes para garantir a saúde mental e o bem estar de todas as pes-soas.
Este estudo apresentou as limitações decorrentes de um estudo transversal, que é a im-possibilidade de estabelecer relações causais e medir incidências decorrentes de exposições especÃficas. Também pode ter acontecido algum viés de seleção, em função da amostra haver sido obtida por adesão espontânea dos estudantes, podendo fazer com que aqueles mais preo-cupados com os problemas decorrentes da falta de acesso aos alimentos tenham maior interes-se em responder a pesquisa. Caso isso tenha acontecido, as prevalências observadas de insegu-rança alimentar podem estar superestimadas, mas este problema não afeta as relações observa-das dos fatores de risco para a insegurança alimentar nem para os importantes problemas asso-ciados que foram observados. Foi possÃvel obter respostas de estudantes de praticamente to-dos os cursos da universidade assim como dos diversos campus, o que reforça a aleatoriedade da amostra estudada. O tamanho amostral do estudo também possibilita aumentar o poder dos testes estatÃsticos, dando maior confiabilidade dos testes estatÃsticos realizados. A opção de se realizar uma regressão log-linear, caso particular da regressão de Poisson, garante que os efei-tos encontrados não foram inflacionados, coisa que acontece com a utilização de modelos lo-gÃsticos para eventos de grande prevalência 22.
Conclusão
Este trabalho encontrou uma alta prevalência de insegurança alimentar entre estudantes universitários de uma universidade federal localizada em uma capital de Estado do Nordeste. Piores condições socioeconômicas estiveram diretamente associadas a maior severidade da insegurança alimentar e, por sua vez, esta condição esteve associada a dificuldades em se man-ter ou concluir o curso de graduação.
Apesar de existirem programas de auxÃlio universitário e serviços de alimentação como os restaurantes universitários, os resultados mostraram que eles são insuficientes, tanto com relação a atender as demandas dos alunos como em atingir todos os necessitados.
Estudos prospectivos são recomendados para se aprofundar o conhecimento sobre este problema e a realização de censos universitários avaliando a situação de insegurança alimentar dos estudantes parece ser uma importante iniciativa para o real e adequado enfrentamento des-te problema.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponÃveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
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