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0139/2026 - Entre a clínica e o coletivo: reflexões sobre Psicanálise e Saúde Coletiva: Interfaces 2
Between the clinical and the collective: Reflections on Psychoanalysis and Collective Health: Interfaces 2

Autor:

• Georgius Cardoso Esswein - Esswein, GC - <georgius.esswein@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6757-1954



Resumo:

Não se aplica.

Palavras-chave:

Psicanálise, Saúde Coletiva, Saúde Mental

Abstract:

Não se aplica.

Keywords:

Psychoanalysis, Collective Health, Mental Health

Conteúdo:

Inaugurada por Freud, na Europa dos séculos XIX e XX, a Psicanálise constitui-se como uma prática clínica atenta ao mal-estar de cada tempo e comprometida com sua função terapêutica, no enlace entre sujeito e sociedade. Felizmente, psicanalistas como Rosana Onocko-Campos têm se dedicado a pensar uma Psicanálise implicada com as realidades territoriais e temporais que demandam o Brasil do século XXI, atravessadas por violências, processos de exclusão, racismo, machismo e outras formas de opressão. Com base em décadas de experiência como docente, pesquisadora e supervisora, Onocko-Campos tem discutido as mútuas contribuições entre a Psicanálise e a Saúde Coletiva. Em continuidade ao seu primeiro livro1, lançou em 2024 o “Psicanálise e Saúde Coletiva: Interfaces 2”2, obra organizada em oito capítulos, em que aprofunda e amadurece algumas das ideias trazidas no primeiro volume, a partir de um arcabouço teórico psicanalítico winnicottiano, em articulação constante com as políticas públicas, história e demandas brasileiras. Tal indissociabilidade presente em seu texto lhe asseguram o autodenominado “devir anfíbio”, a capacidade de transitar e reconhecer esses campos como território próprio.
No primeiro capítulo, Onocko-Campos discute a origem mítica da Saúde Coletiva, e a potência e contribuições das Ciência Sociais para o campo. No entanto, argumenta que predomina na Saúde Coletiva uma compreensão de sujeito racional, que não contempla a dimensão inconsciente envolvida nas relações entre profissionais, usuários e territórios. Defende a importância da heterogeneidade epistemológica do campo da Saúde Coletiva, reconhecendo as reivindicações identitárias enquanto um caminho possível para mudança social.
O segundo capítulo tem como mote principal uma análise sobre o cenário político atual, em que as diferentes dimensões da violência, exercidas sobretudo sobre as populações vulnerabilizadas, denunciam a problemática da falta de elaboração coletiva. Discute sobre a importância do oferecimento de espaços culturais enquanto estratégias de elaboração e promoção de saúde, em que a agressividade pode ser elaborada para o estabelecimento de um trabalho de reparação e responsabilização3. Assume esse projeto político enquanto um imperativo ético-político de psicanalistas implicados com a realidade.
No terceiro capítulo, a autora recorre a diferentes conceitos de Winnicott, como privação, holding, handling, cuidados primários, setting e agressividade, para realizar uma análise contemporânea do atual estado das políticas públicas de cuidado à infância e à adolescência. Por um lado, discute a função de pai omisso que o Estado tem ocupado com crianças e adolescentes já desamparados. Por outro, também aborda a relação dessa população com os profissionais de saúde, que frequentemente se defendem, através de relações sádicas e autoritárias, como forma de lidar com seu próprio desamparo. Desse modo, a chamada “função adulto”, necessária para os cuidados constituintes dessas crianças e adolescentes, fica fragilizada. Este conceito, é melhor explorado pela autora no capítulo 7.
Já no capítulo 4, a autora compara os conceitos de objeto transicional3 e de coisa pública4 enquanto objetos com função de transição da continuidade, de ser uma unidade com este que ocupa uma função de cuidado, para a contiguidade com o próximo, marcando uma diferenciação do sujeito para o coletivo, lugar da criatividade e da Saúde Mental3. No entanto, discute que uma parcela importante da população é privada da coisa pública e empurrada para experiências de violência e segregação. Deste modo, defende que contribuir para que os aparelhos das políticas públicas operem desde uma lógica de diferenças culturais5 e empossem essas pessoas da coisa pública, inserindo-as socialmente, também é uma forma de promover saúde mental coletiva.
No capítulo 5, a autora realiza, em suas palavras, uma “bricolagem pessoal”, a partir de sua experiência de mais de 25 anos de prática de supervisão clínico-institucional de analistas, equipes de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e turmas de residência em saúde. Discute a função do supervisor a partir dos conceitos winnicottianos6 de handling, sustentando a existência do enquadre de trabalho, e de holding, oferecendo suporte e manejo em dimensões mais instrumentais e tecnológicas. A supervisão clínico-institucional é pensada enquanto uma forma de desalienação do trabalho, que visa, para além de transformar, oportunizar novas articulações do sujeito com seu trabalho.
No capítulo 6, a autora retoma a relação entre Psicanálise e o cuidado com o coletivo, desde Freud até a história menos conhecida da Psicanálise na América Latina, atravessada por contextos de violência e repressão das ditaduras militares. Rosana situa sua trajetória nesse cenário entre Psicanálise, Saúde Mental e Saúde Coletiva, configurando o que denomina seu “devir anfíbio”. Recorre a diferentes casos que acompanhou no projeto Liame para ilustrar aspectos dos territórios atendidos pelos serviços de saúde que atravessam as relações entre usuários e trabalhadores. O Projeto Liame, também brevemente abordado em outros capítulos, é um serviço público de Psicanálise e apoio matricial para serviços de saúde que atuam em casos que envolvem violência. A partir de casos acompanhados pelo Liame, discute desafios que impactam a relação profissional-usuário, como: a agressividade dos usuários, em resposta à ineficiência do Estado; os processos identificatórios, defensivos e burocratizantes dos profissionais de saúde em serviços situados em territórios marginalizados; e o desafio do profissional lidar com a escuta da violência. Para a autora, apresentar aos profissionais de saúde, em experiências de matriciamento, como se articulam as relações entre subjetividade e trabalho, pode ter um efeito libertador para esses profissionais, uma vez que os ajuda a compreender do que sofrem. Este capítulo, junto ao capítulo 5, tornam-se recomendações fundamentais para profissionais e pesquisadores que buscam amparo teórico, técnico e de experiência empírica para a prática de supervisão clínico-institucional.
O capítulo 7 é marcado por um avanço conceitual original, a partir dos conceitos de função materna e paterna de Winnicott6, que classicamente expressam funções de cuidado específicas atravessadas por gênero e concepções clássicas de família. No lugar destes, Rosana propõe o conceito de “função adulto” enquanto o exercício para a facilitação de processos constituintes de uma criança, independentemente do gênero de quem ocupe tal função. Interessante notar a escolha da palavra “adulto”, pois parte-se do pressuposto que exercer tal função constituinte e de autoridade simbólica demanda certo grau de amadurecimento emocional. Este é um aspecto implicitamente discutido ao longo do capítulo, uma vez que as violências e negligências experienciadas por populações vulnerabilizadas muitas vezes atrapalham o próprio processo de amadurecimento emocional, que impedem o exercício da chamada função adulto. Desta forma, muitos adultos não conseguem exercer tal função por também terem sofrido diversos tipos de violência não simbolizadas, pelas quais nem o Estado se responsabilizou. Para a autora, políticas públicas e serviços de saúde, tal como o Liame, podem oportunizar espaços de vínculo afiliativo para o reestabelecimento da capacidade de agir sobre as violências transgeracionais. Nesse sentido, reafirma a necessidade de políticas públicas se responsabilizarem pelo oferecimento desses espaços.
Por fim, no último capítulo a autora propõe uma reflexão sobre os fundamentos políticos e psíquicos que sustentam uma sociedade democrática. A partir das concepções de Freud e Winnicott sobre os laços que sustentam uma sociedade, argumenta que a saúde do coletivo depende das experiências de cuidado dos seus cidadãos. Esse raciocínio leva à crítica das condições de subjetivação e das violências estruturais, indicando que a democracia não se sustenta apenas por leis, mas por uma maturidade emocional coletiva para sustenta-las. Para a autora, não se trata de idealizar uma sociedade sem conflitos, mas de promover espaços em que o sofrimento psíquico seja escutado, simbolizado e elaborado, em vez de negado, medicalizado ou criminalizado. Isso exige uma aposta radical na potência transformadora das políticas públicas, que devem ser capazes de oferecer experiências de reparação simbólica e acolhimento aos sujeitos, em especial àqueles historicamente marcados por exclusões de raça, classe, gênero e território.
Ao longo da obra, a Psicanálise, na sua interface com a Saúde Coletiva, é interpretada enquanto um dispositivo ético-político para repensar as formas de escuta, de cuidado e de elaboração do mal-estar contemporâneo, tanto dos usuários atendidos pelos serviços de saúde, como dos profissionais. Nesse sentido, a clínica extrapola os muros do consultório e se torna também uma clínica do social e um dispositivo de análise política e discursiva, necessário sobretudo em tempos de desmonte das políticas de saúde. Assim, convida o leitor a se engajar na construção de territórios de cuidado em que a alteridade seja possível, onde haja espaço para a palavra, para o vínculo e para o reconhecimento da dor do outro como parte do laço social, aquilo que nos une e permite a transformação.

Referências
1. Onocko-Campos, R. Psicanálise e Saúde Coletiva: Interfaces. São Paulo: Hucitec, 2014.
2. Onocko-Campos, R. Psicanálise e Saúde Coletiva: Interfaces 2. São Paulo: Hucitec, 2024.
3. Winnicott, D. W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu editora, 2020.
4. Honig. B. The politics of Public Things: Neoliberalism and the routine of privatization. Sydney: Fordham University Press, 2013.
5. Bhabha, H. O lugar da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
6. Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.


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Como

Citar

Esswein, GC. Entre a clínica e o coletivo: reflexões sobre Psicanálise e Saúde Coletiva: Interfaces 2. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jun). [Citado em 02/06/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/entre-a-clinica-e-o-coletivo-reflexoes-sobre-psicanalise-e-saude-coletiva-interfaces-2/20037?id=20037&id=20037

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