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0251/2026 - Envelhecimento, desigualdade e cidadania: a longevidade como questão central da saúde coletiva
Ageing, Inequality, and Citizenship: Longevity as a Central Issue in Collective Health

Autor:

• Daniela Bueno Barbosa - Barbosa, DB - <buenodani.b@gmail.com>
ORCID: 0009-0004-6088-4925

Coautor(es):

• Bárbara Alves Pereira - Pereira, BA - <barbaraalpe.ufrj@gmail.com>
ORCID: 0000-0003-1818-4103

• Luiz Roberto Ramos - Ramos, LR - <lrramos1953@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3143-8315



Resumo:

Esta resenha analisa a obra A revolução da longevidade, de Alexandre Kalache,
destacando suas contribuições para a compreensão do envelhecimento como processo
social e político, atravessado por desigualdades acumuladas ao longo do curso da vida.
Discute-se a articulação entre longevidade, equidade, envelhecimento ativo e cidadania,
bem como os desafios impostos aos sistemas de saúde e de proteção social. A obra
reafirma a centralidade do envelhecimento para a Saúde Coletiva e a necessidade de
políticas intersetoriais comprometidas com a redução das desigualdades e a garantia de
direitos.

Palavras-chave:

Envelhecimento; Longevidade; Desigualdades em saúde; Cidadania; Saúde Coletiva.

Abstract:

This review examines Alexandre Kalache’s A revolução da longevidade, highlighting its
contributions to understanding ageing as a social and political process shaped by
inequalities accumulated throughout the life course. It discusses the connections
between longevity, equity, active ageing, and citizenship, as well as the challenges
posed to health and social protection systems. The book reaffirms the central role of
ageing in Collective Health and the need for intersectoral policies committed to
reducing inequalities and ensuring rights.

Keywords:

Ageing; Longevity; Health inequalities; Citizenship; Collective Health.

Conteúdo:

A chamada “revolução da longevidade”, expressão utilizada por Alexandre Kalache para caracterizar as profundas transformações decorrentes da ampliação da expectativa de vida, constitui uma das mais significativas mudanças demográficas, epidemiológicas e sociais das sociedades contemporâneas¹. Em contextos marcados por desigualdades estruturais persistentes, como o brasileiro, esse fenômeno extrapola a dimensão demográfica e impõe novos desafios aos sistemas de proteção social, às relações intergeracionais e às políticas públicas de saúde. A ampliação da longevidade, contudo, não implica, por si só, melhores condições de vida; ao contrário, evidencia que as oportunidades de envelhecer com saúde permanecem desigualmente distribuídas, refletindo trajetórias sociais marcadas por diferentes formas de acesso a direitos, recursos e cuidados ao longo do curso da vida.
É nesse contexto que se insere a obra de Alexandre Kalache, cuja trajetória no campo da saúde pública – especialmente na Organização Mundial da Saúde (OMS) – confere consistência técnica e legitimidade política às reflexões apresentadas. Mais do que reunir evidências sobre a transição demográfica, o autor articula contribuições da epidemiologia, da promoção da saúde e da teoria social para sustentar que a longevidade deve ser compreendida como questão eminentemente política. Sob essa ótica, o envelhecimento deixa de ser concebido apenas como fenômeno biológico ou demográfico para ser entendido como processo socialmente produzido, diretamente condicionado pelas desigualdades que estruturam as condições de vida e de saúde das populações.
A formulação desenvolvida por Kalache aproxima-se da tradição crítica da Saúde Coletiva latino-americana ao compreender o envelhecimento como processo socialmente produzido, inscrito nas condições históricas de reprodução da vida e atravessado pelas desigualdades estruturais. Nessa concepção, as desigualdades acumuladas ao longo do curso da vida condicionam, de maneira diferenciada, as possibilidades de envelhecer com saúde. Ao mesmo tempo, a obra enfatiza que as oportunidades de envelhecer com saúde são socialmente distribuídas, sendo condicionadas por desigualdades de classe, raça, gênero e outros marcadores sociais que se acumulam ao longo do curso da vida.
O conceito de “revolução da longevidade” constitui o eixo organizador da obra. A formulação, desenvolvida por Kalache em trabalhos anteriores², sustenta que o desafio contemporâneo consiste não apenas em acrescentar anos à vida, mas vida aos anos, deslocando o debate da sobrevivência para a qualidade do envelhecimento. Ao incorporar o curso de vida como marco analítico, o autor rompe com abordagens que restringem a velhice à sua etapa final e evidencia que o envelhecimento resulta da acumulação de exposições, oportunidades e vulnerabilidades ao longo da existência. Sob essa ótica, políticas públicas, condições materiais de vida e experiências sociais deixam de ser fatores periféricos para constituírem elementos centrais na produção das desigualdades em saúde observadas na velhice.
A obra organiza-se em torno de três eixos analíticos. O primeiro problematiza a transição demográfica, com destaque para a rapidez e a intensidade do envelhecimento em países de renda média. O segundo incorpora a dimensão das desigualdades estruturais, evidenciando como raça, gênero e classe conformam trajetórias desiguais de saúde e longevidade. O terceiro propõe uma agenda orientada pelo conceito de Envelhecimento Ativo, formulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)³ e estruturado nos pilares da saúde, participação, aprendizagem ao longo da vida e segurança.
Nessa direção, enfatiza-se a ampliação das oportunidades e das condições sociais necessárias para um envelhecimento com autonomia e participação social. Kalache, contudo, confere concretude a esse referencial ao situá-lo no contexto brasileiro, marcado por desigualdades persistentes que condicionam de forma desigual o acesso aos recursos necessários para um envelhecimento saudável.
A discussão sobre desigualdade racial ocupa lugar central ao evidenciar o racismo como processo estruturante das iniquidades em saúde, cujos efeitos se expressam no desgaste fisiológico decorrente da exposição crônica ao estresse. Ao incorporar essa dimensão, a obra reforça a necessidade de políticas públicas sensíveis à interseccionalidade na produção das desigualdades.
Outro eixo relevante da obra é a crítica ao idadismo, conceito formulado por Robert Butler?, compreendido como mecanismo de exclusão que restringe o exercício da cidadania e dificulta a efetivação dos direitos das pessoas idosas. Ao tratar a discriminação etária como fenômeno estrutural, Kalache amplia o debate sobre envelhecimento para além do campo sanitário, situando-o no âmbito dos direitos humanos.
No plano institucional, o autor evidencia a inadequação dos sistemas de saúde diante da transição epidemiológica e da predominância das condições crônicas, defendendo a reorganização do modelo assistencial em direção à integralidade do cuidado, ao fortalecimento da atenção primária e à coordenação das redes de atenção, em consonância com formulações consolidadas da Saúde Coletiva brasileira.
Entretanto, a obra ultrapassa a análise das dimensões institucionais, ao incorporar aspectos culturais e subjetivos do envelhecimento. Nos capítulos finais, especialmente no posfácio, de Lucas Capretz?, a reflexão desloca-se para temas como memória, legado e finitude, e introduz, assim, uma dimensão existencial que amplia o horizonte interpretativo da obra. Esse movimento tensiona a análise das determinações estruturais com a experiência vivida do envelhecer, evidenciando que a longevidade não constitui apenas objeto de políticas públicas, mas experiência social permeada por afetos, expectativas e diferentes formas de atribuição de sentido ao curso da vida.
Do ponto de vista crítico, a obra apresenta algumas limitações. A discussão sobre os impactos econômicos do envelhecimento – particularmente em relação à sustentabilidade dos sistemas de proteção social e às transformações associadas à denominada economia da longevidade – permanece relativamente pouco explorada. Da mesma forma, embora proponha uma agenda consistente para a promoção do envelhecimento saudável, dedica menor atenção às disputas políticas e aos condicionantes institucionais que limitam sua implementação em contextos marcados por profundas desigualdades.
Essas limitações, no entanto, não reduzem a relevância da obra. Sua principal contribuição reside na capacidade de articular dimensões biológicas, sociais, políticas e subjetivas em uma interpretação integrada do envelhecimento. Ao compreender a longevidade como expressão das desigualdades que atravessam o curso da vida, Kalache desloca o debate da assistência para a cidadania e reafirma o envelhecimento como questão estratégica para a Saúde Coletiva, recolocando-o no centro das discussões sobre equidade, direitos sociais e organização dos sistemas de saúde.
Para o campo da Saúde Coletiva, a principal contribuição da obra reside em reafirmar o envelhecimento como processo socialmente produzido, cuja compreensão exige integrar a abordagem do curso de vida às análises epidemiológicas e reconhecer a centralidade das desigualdades estruturais na produção das iniquidades em saúde. Ao defender políticas intersetoriais que articulem saúde, educação, trabalho e proteção social, Kalache amplia o debate para além da organização dos serviços, incorporando dimensões políticas, culturais e subjetivas indispensáveis à construção de sociedades mais equitativas.
Em síntese, a obra transcende a descrição da transição demográfica para situar a chamada revolução da longevidade como um dos principais desafios contemporâneos da Saúde Coletiva. Ao articular evidências epidemiológicas, experiência institucional e compromisso com a equidade, Kalache demonstra que o envelhecimento não constitui apenas uma conquista demográfica, mas um fenômeno social e político cuja resposta depende da capacidade das sociedades de reduzir desigualdades e garantir condições dignas de viver e envelhecer. Nesse sentido, a revolução da longevidade representa menos um desafio imposto pelo aumento da expectativa de vida do que uma oportunidade para recolocar a cidadania, a justiça social e o direito à saúde no centro da agenda pública.

Declaração de Disponibilidade de Dados
Não se aplica.

Referências
1. Kalache A. A revolução da longevidade. São Paulo: Vestígio; 2025.
2. Kalache A. Coping with the longevity revolution. Cien Saude Colet. 2014; 19(8):3306-3307.
3. World Health Organization. Active ageing: a policy framework. Geneva: WHO; 2002.
4. Butler RN. Why survive? Being old in America. New York: Harper & Row; 1975.
5. Capretz L. Diálogo entre gerações: aprendendo com o tempo, a memória e o envelhecer. In: Kalache A. A revolução da longevidade. São Paulo: Vestígio; 2025. Posfácio.


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Como

Citar

Barbosa, DB, Pereira, BA, Ramos, LR. Envelhecimento, desigualdade e cidadania: a longevidade como questão central da saúde coletiva. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/set). [Citado em 17/09/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/envelhecimento-desigualdade-e-cidadania-a-longevidade-como-questao-central-da-saude-coletiva/20149?id=20149&id=20149

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