0180/2026 - Fatores sociodemográficos e clínicos relacionados ao cuidado da crise em saúde mental infantojuvenil Sociodemographic and clinical factors related to crisis care in child and adolescent mental health
O cuidado à crise de saúde mental infantojuvenil pode ser qualificado pela identificação dos fatores que podem influenciar o aumento do tempo de estada em serviço de saúde ou a necessidade de acompanhamento mais intensivo. Este estudo objetivou apresentar os fatores sociodemográficos e clínicos que influenciaram o tempo de permanência e necessidade de manejo de crise de crianças e adolescentes em Centros de Atenção Psicossocial infantojuvenis (CAPSij) tipo III e em hospitais gerais ou Unidades de Pronto Atendimento. Trata-se de pesquisa documental, exploratória e retrospectiva, realizada em prontuários, com análise por regressão linear. Predominaram adolescentes, meninas cisgênero, com vínculo escolar, atendidas principalmente por risco de morte. Maior tempo de permanência associou-se a usuários com transtornos de humor e afetivos, uso de álcool e outras drogas, realização de manejo de crise e atendimento em CAPSij, enquanto usuários encaminhados por outros serviços permaneceram menos tempo. Usuários atendidos nos CAPSij apresentaram menor necessidade de manejo de crise. Os achados evidenciam os fatores que podem apoiar as práticas de cuidado, a alocação de recursos e o fortalecimento do cuidado territorial e articulado com a rede em situações de crise.
Palavras-chave:
Saúde Mental; Acessibilidade aos Serviços de Saúde; Intervenção em Crise; Criança; Adolescente.
Abstract:
Care for children and adolescents experiencing mental health crises can be improved by addressing the factors that may contribute to longer stays in healthcare facilities or the need for more intensive follow-up. This study aimed to present the sociodemographic and clinical factors that influenced the length of stay and need for crisis management among children and adolescents at Type III Child and Adolescent Psychosocial Care Centers (CAPSij) and at general hospitals or emergency care units. This is a documentary, exploratory, and retrospective study conducted using medical records, with analysis via linear regression. The sample consisted predominantly of adolescents—cisgender girls enrolled in school—who were primarily treated for life-threatening conditions. Longer length of stay was associated with clients with mood and affective disorders, alcohol and other drug use, crisis management, and care at CAPSij, while clients referred by other services stayed for a shorter time. Users treated at CAPSij centers had a lower need for crisis management. The findings highlight the sociodemographic and clinical factors that can inform care practices, resource allocation, and the strengthening of community-based care coordinated with the network in crisis situations.
Keywords:
Mental Health; Health Services Accessibility; Crisis Intervention; Child; Adolescent.
Conteúdo:
Introdução
Existe um número crescente de crianças e adolescentes com dificuldades decorrentes de problemas de saúde mental1. Esse fato merece prioridade e cuidado, uma vez que o adoecimento nesta fase da vida pode trazer prejuízos duradouros e debilitantes2,3, afetando assim, a qualidade de vida de uma geração4.
A crise em saúde mental pode ser entendida como situações nas quais em que há sintomatologia psiquiátrica aguda, grave ruptura de relações interpessoais, recusa de intervenções ou de qualquer contato e situações emergenciais no contexto familiar, social e/ou impossibilidade pessoal de enfrentá-las5. No campo infantojuvenil, a crise ainda é pouco estudada6 e merece destaque, já que se trata de um momento de maior vulnerabilidade tanto para a criança ou adolescente acometido quanto para a sua família e/ou rede de apoio, ao ser um estado temporário de alterações emocionais e comportamentais com intensidade de emoções negativas e angustiantes7. No Brasil, o cuidado em saúde mental é proporcionado à população em serviços que compõem a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), tendo diversos serviços estratégicos para o cuidado dos usuários em suas necessidades e diferentes momentos de vida8. Para a crise, pode-se recorrer a serviços com os quais já se tem vínculo e acompanhamento longitudinal, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ou a serviços de cuidado mais imediato para risco de vida, por exemplo, como hospital geral e Unidades de Pronto Atendimento (UPA). A organização de cada RAPS depende da gestão local e dos serviços disponíveis no território. Os CAPS são os serviços especializados em saúde mental no Sistema Único de Saúde, sendo serviços comunitários de base territorial, nos quais o cuidado é proposto de forma individualizada e acompanhando os usuários para que sejam autônomos e independentes na circulação no território e exercendo sua cidadania. Os hospitais gerais e UPAS na RAPS compõem como pontos estratégicos para o cuidado dos períodos de crise, risco à vida e estabilização clínica dos casos para posterior referenciamento aos serviços de acompanhamento longitudinal9,10.
Referente aos CAPS, estes podem ser do tipo III, onde há camas para o acolhimento noturno dos usuários que por alguma razão necessitam de acompanhamento mais intensivo, tendo cuidado próximo, durante os períodos diurnos e noturnos, nos momentos de crise11. Apesar de serem serviços estratégicos, os CAPS infantojuvenis (CAPSij) tipo III ainda são escassos no Brasil e carecem de regulamentação federal, havendo apenas a Portaria Municipal de São Paulo - SMS nº 342, de 201912. É necessária regulamentação em âmbito federal para que seu funcionamento seja norteado, sua importância nas RAPS seja destacada e haja distribuição de recursos para a sua expansão.
A fim de fomentar política pública e discussão sobre o tema, é necessário que estudos sejam realizados para que se compreenda como a crise em saúde mental infantojuvenil ocorre nos diferentes serviços que compõem a RAPS. Conhecer o perfil dos usuários que têm recorrido aos serviços é imprescindível para o planejamento de ações de cuidado dentro e fora dos serviços, organização da rede de cuidados e alocação de recursos13-15. O presente estudo apresenta um dos resultados obtidos na pesquisa de doutorado da primeira autora.
Este artigo traz a contribuição inédita ao apresentar quais variáveis sociodemográficas e clínicas influenciam o tempo de permanência e a necessidade de manejo de crise dentro dos CAPSij III, hospitais gerais e UPAs que atendem crianças e adolescentes em momentos de crise de saúde mental.
Métodos
Trata-se de um estudo exploratório retrospectivo de abordagem quantitativa16, com coleta de dados em prontuários de oito serviços (quatro CAPSij III, dois hospitais gerais e duas UPAs) em quatro cidades brasileiras referentes ao ano de 2023. Foram coletados os dados dos usuários que ficaram em acolhimento noturno nestes serviços pela primeira vez na vida, a fim de evitar possíveis vieses sobre casos que são reincidentes frequentes no serviço17.
A coleta foi realizada durante o ano de 2024 diretamente nos serviços. Uma vez que os CAPSij III ainda são raridade no país, a escolha das cidades foi balizada pela existência de CAPSij III no município, conforme registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), e em seguida, foram identificados os serviços que serviam de retaguarda para atendimento de crise infantojuvenil na rede local. Sendo assim, cinco cidades foram identificadas com CAPSij III no território: Belo Horizonte - Minas Gerais, Campo Grande - Mato Grosso do Sul, Curitiba - Paraná, Rio de Janeiro - Rio de Janeiro e São Paulo - São Paulo. Seguindo o critério de haver serviço comunitário e retaguarda com internação, Belo Horizonte foi excluída da amostra. Desta forma, os serviços de Campo Grande, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo compuseram a amostra. O critério de inclusão dos CAPSij III foi ser o primeiro serviço do tipo na cidade e para hospital geral ou UPA, o critério foi ser o com maior número de atendimentos registrados no ano de 2023, conforme dados obtidos no DataSUS.
Nos prontuários, foram coletados dados referentes ao perfil sociodemográfico e clínico das crianças e adolescentes acolhidos e internados nos serviços, além de dados sobre a entrada, período de cuidado no serviço e saída. O instrumento de coleta foi elaborado no RedCap® e os dados foram alocados nesse mesmo software.
Para análise, visto que hospital geral e UPA prestam cuidados semelhantes à demanda estudada18, com breve intervenção e visando a estabilização clínica, os dados foram agrupados a fim de haver maior robustez na análise estatística e são apresentados na categoria “Internação”. As variáveis clínicas aqui utilizadas são as características e condições individuais relevantes ao cuidado. Para os grupos diagnósticos, houve divisão entre os subgrupos do grupo F (Transtornos mentais e comportamentais), conforme a Classificação Internacional de Doenças, versão 10 (CID-10)19, que estava em uso corrente dos registros nos prontuários; o grupo “Outros” faz referência às CIDs utilizados que não são do grupo F, mas que foram amplamente utilizados nos hospitais gerais e UPAs para classificar os casos de crise de saúde mental referentes à agitação e a tentativas de autoextermínio fora do grupo F (nomeadamente: sintomas, sinais e achados anormais de exames clínicos e de laboratório, não classificados em outra parte (R44 e R45); lesões, envenenamentos e algumas outras consequências de causas externas (T39, T40, T42, T43, T46, T50); causas externas de morbidade e de mortalidade (X14, X60, X64, X65, X69, X70, X78, X79, X84, Y09, Y19); e fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com os serviços de saúde (Z00, Z62, Z63, Z75)), assim como em alguns poucos casos, classificaram adicionalmente comorbidades (a saber, epilepsia (G40) e reumatismo (M79)).
Para fins analíticos, a categoria “Outros” não foi concebida como grupo diagnóstico homogêneo ou como categoria nosológica comparável aos subgrupos F da CID-10. Trata-se de uma categoria operacional, construída para preservar na análise os atendimentos de crise em saúde mental registrados nos hospitais gerais e UPAs por códigos não pertencentes ao grupo F. Essa decisão evitou a exclusão de casos cuja demanda foi qualitativamente de saúde mental, mas registrada em outro grupo diagnóstico fora do grupo F. Reconhece-se, contudo, que a heterogeneidade interna dessa categoria limita inferências clínicas específicas; portanto, os coeficientes associados a “Outros” devem ser interpretados como expressão de um padrão de registro e de entrada nos serviços, e não como efeito de uma condição diagnóstica única.
Houve classificações diferentes para os motivos de busca pelo atendimento, desse modo os atendimentos foram categorizados em seis tipos: Vulnerabilidade - engloba vulnerabilidade familiar e vulnerabilidade social; Cuidado devido ao uso de álcool e outras drogas - engloba desintoxicação, redução de danos e abstinência; Risco de morte - engloba tentativa de suicídio, automutilação com intenção suicida e ideação suicida; Investigação e cuidados clínicos - engloba investigação do caso, convulsão, ajuste medicamentoso, acompanhamento da alimentação, síndrome extrapiramidal e gestação; Alteração de comportamento - engloba mudanças de comportamento, agressividade, surto, ideação homicida, catatonia e agitação; e Alteração de humor - engloba mudanças de humor, luto, crise de pânico, crise de ansiedade e isolamento social. As categorias foram feitas a partir da análise de todos os casos de forma a agruparem as queixas similares, respeitando o histórico dos usuários e registros da equipe.
Na análise estatística, foi utilizado um modelo de regressão linear de mínimos quadrados ordinários com erros padrão robustos à heterocedasticidade, para verificar a hipótese de correlação das variáveis dependentes "tempo de permanência" e "manejo de crise" com as variáveis independentes de dados sociodemográficos e clínicos, devido à simetria e distribuição normal da amostra20. São apresentados os intervalos de confiança de 95%, e a hipótese foi confirmada com alguns resultados apresentando correlação. Os testes foram feitos no software Stata (StataCorp 2007), versão 15. Vale ressaltar que “manejo de crise” se refere ao procedimento de contenção verbal, espacial, física, mecânica e/ou química, sendo realizado por meio de tecnologias leves, leve-duras ou duras21. Esta definição foi feita a partir das informações descritas pelos profissionais das equipes nos prontuários.
A pesquisa teve aprovação dos Comitês de Ética em Pesquisa das Secretarias Municipais de Saúde de Campo Grande, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo e da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo sob CAAEs 74548823.0.3004.5162, 74548823.0.3002.0101, 74548823.0.3003.5279, 74548823.0.3001.0086 e 74548823.0.0000.5392, respectivamente.
Resultados
Foram coletados dados de 399 crianças e adolescentes que passaram pelos serviços estudados no ano de 2023. Na Tabela 1, é apresentado o perfil sociodemográfico destes usuários. A faixa etária variou de 5 a 18 anos nos CAPSij e de 8 a 17 anos nos serviços com internação. Nos dois tipos de serviços, houve predominância dos usuários de 15 a 18 anos de idade e mulheres cisgêneros. Ressalta-se que apenas nos CAPSij foram acolhidas crianças e adolescentes transgêneros e não binários. Quanto ao perfil de raça/cor, os brancos foram maioria, seguidos por pardos e pretos em ambos os tipos de serviço e a maioria dos usuários possui vínculo escolar.
Tabela 1 - Dados sociodemográficos dos usuários por tipo de serviço.
Na Tabela 2, apresentam-se os dados clínicos das crianças e adolescentes estudados. Ressalta-se a diferença entre a modalidade de chegada no CAPSij e nos serviços com internação: enquanto os usuários que ficaram em acolhimento noturno chegaram em sua maioria via encaminhamento de outro serviço, os usuários que ficaram internados nos hospitais e UPAs chegaram predominantemente por demanda espontânea. A maioria das crianças e adolescentes da amostra não faz uso de drogas. Em ambos os tipos de serviço, a busca por cuidado se deu principalmente por risco de morte, seguido por alteração de comportamento, e ressalta-se que questões relacionadas à vulnerabilidade só foram consideradas como motivo para acolhimento no CAPSij.
Quanto à classificação diagnóstica, há uma diferença substancial entre os tipos de serviço: enquanto hospitais e UPAs utilizaram-se muito dos diagnósticos em outros grupos que não o grupo F (transtornos mentais e comportamentais), os CAPSij utilizaram-nos predominantemente. A variável “manejo de crise” apresenta quantas vezes o procedimento foi realizado com os usuários. Tanto nos CAPSij quanto nos hospitais e UPAs, este procedimento foi realizado com poucos usuários.
Tabela 2 - Dados clínicos dos usuários por tipo de serviço.
Na Tabela 3, observa-se a correlação entre os dados sociodemográficos e clínicos das crianças e adolescentes com o tempo de permanência nos serviços. Apesar de haver poucos casos com diagnóstico no grupo F00-F09 (transtornos mentais orgânicos, inclusive os sintomáticos), crianças e adolescentes com este diagnóstico tiveram quase três dias a mais de acolhimento/internação do que os que não os tinham. Crianças e adolescentes que apresentaram diagnóstico F30-F39, relacionados a transtornos de humor/afetivos, ficaram um dia a mais que a média, e usuários classificados com outros diagnósticos ficaram quase dois dias a mais nos serviços. Os usuários que fazem uso de drogas ficaram quase dois dias a mais dentro dos serviços. Não houve correlação significativa entre os motivos de busca pelos serviços e o tempo de permanência.
Os usuários que passaram por manejo de crise ficaram mais de um dia e meio nos serviços em comparação com a média. Quanto ao gênero, a única pessoa não binária apresentou correlação significativa, na qual ficou quase 7 dias a mais no serviço do que a média. Os usuários que foram encaminhados para acolhimento noturno ou internação por outro serviço ficaram um dia e meio a menos do que a média, e usuários que ficaram nos CAPSij ficaram em média quase dois dias a mais do que nos hospitais e UPA.
Tabela 3 - Regressão linear de mínimos quadrados ordinários para a variável dependente “Tempo de Permanência” com o conjunto de variáveis independentes de dados sociodemográficos e clínicos.
Por fim, para variável dependente referente à quantidade de vezes que foi realizado o manejo de crise, apenas os usuários em outros grupos diagnósticos, que não do grupo F, apresentaram correlação significativa, sendo feito quase um procedimento a menos para este grupo. Os usuários que estiveram nos CAPSij tiveram menos necessidade do procedimento de manejo de crise e houve significância, mas com pequeno coeficiente sobre a correlação entre manejo de crise e o uso de medicação. Os dados estão apresentados na Tabela 4, a seguir.
Tabela 4 - Regressão linear de mínimos quadrados ordinários para a variável dependente “Manejo de crise” com o conjunto de variáveis independentes de dados sociodemográficos e clínicos.
Discussão
A caracterização sociodemográfica da amostra deste estudo proporciona algumas reflexões interessantes sobre a realidade do cuidado à crise em saúde mental infantojuvenil no Brasil. Enquanto os CAPSij atenderam pessoas com 18 anos completos, ou seja, que já atingiram a maioridade, os serviços de internação limitaram-se a atender adolescentes até 17 anos. Isso acontece, pois os CAPSij, como serviços territoriais e comunitários, têm como objetivo o cuidado longitudinal da população atendida, além de prezar pelo vínculo com usuários e familiares22. Em muitos casos, é possível fazer a transferência de cuidado quando o usuário completa a maioridade23, mas, quando se entende que ainda há benefícios ou que, até mesmo, pode ser prejudicial a mudança para um serviço de adultos, o CAPSij pode seguir como referência de cuidado de usuários até os 21 anos24. Já nos serviços hospitalares e de urgência e emergência, não há o conhecimento prévio do caso e os protocolos são mais diretivos sobre quem atende cada demanda18, inclusive diferenciando-a por idade.
A predominância de meninas cisgênero adolescentes vai ao encontro do que é evidenciado em outros estudos sobre esta ser uma população mais propensa a apresentar queixas de saúde mental, seja pelos efeitos hormonais comuns à adolescência em ambos os sexos, tanto quanto pelos efeitos deletérios do machismo e misoginia25. A participação de poucos usuários transgêneros na amostra pode indicar uma dificuldade de acesso, já que se trata de uma população que apresenta altos índices de adoecimento mental, principalmente pelas violências sofridas no cotidiano26. Diferentemente do perfil da população brasileira, a amostra teve maioria de cor branca, mas acredita-se que esse dado teve grande influência por uma das cidades de coleta ter sido Curitiba, onde a população negra é bastante reduzida27. No entanto, salienta-se a relevância do cuidado e atenção às crianças e adolescentes da população negra, já que os efeitos deletérios do racismo são vivenciados cotidianamente e trazem diversas consequências, desde neurológicas até as relacionadas à saúde mental28.
Quando se analisa que a maioria dos casos chegou ao CAPSij por encaminhamento, pode-se levantar a hipótese de que além de o CAPSij estar sendo reconhecido como serviço de referência de saúde mental9, o trabalho em rede pode estar em vias de construção. Ainda não é possível dizer que a rede está formada, uma vez que somente o encaminhamento por papel não garante o trabalho em rede, mas é um bom começo para conversas e articulações inter e intrassetoriais29. Os encaminhamentos de outros serviços têm papel relevante, pois, além de poder indicar que os usuários estão sendo cuidados em outros pontos da rede, podem ter relação com tempo menor de permanência do que quando os usuários vão ao serviço por demanda espontânea30.
A porcentagem de usuários da amostra que faz de uso de drogas está condizente com o que a literatura apresenta como prevalência na população brasileira31, mas vale ressaltar o quanto o trabalho in loco nas cenas de uso, investindo na construção de vínculos e com base na redução de danos, tem alto potencial de cuidado32 e de fazer com que o CAPSij e seus profissionais tornem-se referência para as crianças e adolescentes nesta situação que as vulnerabiliza. Haver um grande percentual de usuários da amostra ter recorrido aos serviços devido ao risco de morte condiz com a tendência global de aumento das tentativas de suicídio entre o público infantojuvenil33. Motivos como o acesso constante a redes sociais, cyberbullying e sobrecarga dos pais parecem ser fortes fatores de risco para este aumento34-36.
A compreensão ampliada do conceito de crise em saúde mental pelos serviços especializados, como os CAPS, distingue-se pela capacidade de reconhecer situações de vulnerabilidade como potenciais desencadeadoras de crises5, diferentemente de outros pontos da rede de atenção. Em relação aos diagnósticos utilizados para as crianças e adolescentes, observa-se que o CAPS por ser um serviço estratégico em saúde mental e por, em tese, acompanhar os usuários longitudinalmente, utiliza-se de classificações diagnósticas do subgrupo referente aos transtornos mentais e de comportamento, enquanto os serviços de internação, utilizam-se de diagnósticos mais situacionais sobre a demanda que se apresenta.
A necessidade de realizar contenção física e/ou mecânica por parte das equipes foi baixa, o que sugere a competência das equipes em lidar com as crises de crianças e adolescentes por meio de tecnologias leves37, sem a necessidade de recorrer a outros tipos de intervenção mais invasiva ou violenta, como contenções físicas para manejo de agressividade38. Em revisão sistemática qualitativa, Telles e colaboradoras39 mostraram que o uso de diferentes formas de contenção é percebido como negativo e abala a relação entre usuários, familiares e profissionais.
Comumente, as pessoas que recebem a classificação diagnóstica relacionadas a transtornos de humor e afetivos (subgrupo F30-F39) apresentam ideação ou tentativa de suicídio40,41, assim como os usuários que receberam outros diagnósticos relacionados a autoextermínio. Sendo assim, os cuidados que demandam, seja por cuidado com feridas, sequelas ou necessidade de acompanhamento clínico devido à intoxicação42, por exemplo, parecem explicar o tempo maior de permanência do que a média da amostra.
Os usuários em uso de drogas costumam ter muitos efeitos adversos, como alterações clínicas ligadas à abstinência, uso excessivo ou ainda aumento das vulnerabilidades sociais e laços afetivos fragilizados43, o que corrobora a necessidade de mais dias de cuidado para suas demandas de saúde. Já os usuários que passaram por manejo de crise durante o tratamento, por mais que se evite utilizar medidas coercitivas como contenções químicas ou mecânicas e busquem-se formas de estabilização mais breves possíveis, apresentam-se como casos mais difíceis de estabilização44 e por isso, a necessidade de maior tempo de permanência.
Em estudo realizado no Canadá, Sockalingam e colaboradores45 concluíram que pacientes encaminhados rapidamente para cuidados de saúde mental por outro departamento dentro do hospital fez com que o tempo de permanência no serviço diminuísse. Algo similar foi encontrado no presente estudo, no qual os usuários que foram encaminhados por outro serviço ficaram menos tempo sob cuidados.
Ademais, isso pode indicar que tinham retaguarda para seguir o tratamento em outro ponto da rede. Em revisão sistemática, Steffen e colaboradores46 observaram que a alta planejada se mostrou uma estratégia eficiente para diminuir as chances de reinternações e aumentar o seguimento do cuidado pós-alta. Quanto à permanência mais longa nos CAPSij, imagina-se que isso aconteça devido ao protocolo mais rígido nas UPAs e hospitais em que o trabalho de estabilização dos casos é pontual18, além de nos CAPSij haver maior flexibilidade para articulações diversas, como conversas com famílias e preparação da volta para casa, ou ainda, por outras questões de vulnerabilidade que podem demandar mais tempo no acolhimento47.
Sobre a ocorrência de manejo de crise, imagina-se que a menor frequência de realizá-lo com outros grupos diagnósticos se dê pela característica dos usuários: crianças e adolescentes que tiveram tentativas de autoextermínio e estão sob cuidados clínicos e/ou vigilância mais intensiva48. No CAPSij foi realizado menos vezes o procedimento de manejo de crise, uma vez que o CAPSij, em teoria, busca a utilização de, prioritariamente, tecnologias leves37 e, por, no geral, serem casos já conhecidos pelas equipes, o manejo de outras formas e por meio do vínculo fica mais facilitado49. O que pode trazer insegurança e medo para os profissionais de serviços de internação que não conhecem os casos e podem optar por lidar de formas mais invasivas, assim como podem fazer essa opção por necessidade logística, como estar com poucos funcionários ou falta de estrutura50.
Esses achados também devem ser lidos à luz dos tensionamentos recentes da Política Nacional de Saúde Mental e da RAPS. A fragilização do financiamento e a disputa em torno do modelo assistencial repercutem diretamente sobre a capacidade dos serviços territoriais de sustentarem respostas à crise baseadas em vínculo, continuidade do cuidado, presença no território e articulação intersetorial51. Quando os CAPSij e demais pontos comunitários da rede são insuficientes, pouco regulamentados ou subfinanciados, a crise infantojuvenil tende a ser deslocada para dispositivos hospitalares e de urgência, cuja lógica de cuidado é mais voltada à estabilização pontual e à resposta imediata ao risco18. Nesse cenário, aumenta-se a sobrecarga dos serviços de internação e emergência, ao mesmo tempo em que se reduzem as possibilidades de construção de projetos terapêuticos singulares, cuidado longitudinal, planos de crise e estratégias compartilhadas com crianças, adolescentes, famílias e rede de apoio. Esse quadro é agravado pelo atraso histórico nos investimentos em saúde mental infantojuvenil52 e pela ausência de regulamentação federal para CAPSij.
Em estudo com profissionais de enfermagem, a maior parte da equipe em serviços de internação, Piton e colaboradores53 identificaram que muitas vezes esses profissionais percebem sua prática distanciada do ideal e que não conseguem considerar a subjetividade e compreender as necessidades dos usuários, por terem sua prática muito voltada à formação biomédica. A contenção química parece ser uma forma de manejo utilizada pelos serviços, uma vez que houve correlação significativa entre o manejo de crise e o uso de medicação, apesar de o coeficiente ser baixo. Na Índia, em estudo realizado em enfermaria psiquiátrica, foi identificado o uso predominante de contenção química nos pacientes54 e em revisão da literatura, Muir-Cochrane e Oster55 apresentam que a maioria de usuários que foi contido quimicamente entendeu a conduta como injustificada e violenta, enquanto os profissionais de saúde perceberam a conduta como necessária e possível devido à limitação de equipe e de outras estratégias de contenção.
Como alternativa a intervenções realizadas contra a vontade dos usuários e buscando seu empoderamento sobre o cuidado, prevenção de crises e agravamento de quadros, propõe-se que equipes de saúde mental adotem novas possibilidades de cuidado, como a Gestão Autônoma da Medicação (GAM)56,57 e outras formas de diálogos que possibilitam que essa experiência da contenção química seja menos negativa e caminhe na direção da autonomia e participação dos usuários sobre o próprio tratamento, como na Decisão Compartilhada58 e no Plano de Crise Conjunto, que apresentou redução significativa na quantidade de readmissões, incluindo as compulsórias, em internações59.
Neste estudo, enfatiza-se a limitação de não terem sido considerados os casos reincidentes tanto no acolhimento quanto na internação, já que seriam casos que, possivelmente, demandam articulações e cuidados mais complexos, fatores sobre os quais esta pesquisa não teve como objetivo se debruçar, e os autores entenderam que seria imprudente considerar esses dados sem análises mais aprofundadas. Outra limitação refere-se à categoria “Outros”, composta por códigos heterogêneos fora do grupo F da CID-10. Embora sua manutenção tenha sido necessária para não excluir registros frequentes em hospitais gerais e UPAs, essa categoria não permite interpretações clínicas específicas e deve ser compreendida como marcador do modo de registro das situações de crise nesses pontos de atenção.
Considerações finais
Os achados desta pesquisa evidenciam o perfil das crianças e adolescentes que buscaram cuidado para momento de crise de saúde mental - meninas cisgênero, adolescentes e com risco de morte - assim como apresentou fatores que parecem influenciar a necessidade de permanências mais longas no acolhimento ou na internação e o uso de contenção durante o tratamento. O cuidado às tentativas de suicídio e às crianças e adolescentes que fazem uso de álcool e outras drogas devem ser foco de investimento de cuidado pelos serviços. O investimento na articulação de rede e cuidado integral deve ser fortalecido, visando estadas menores no acolhimento ou na internação, proporcionando menor impacto na rotina e cotidiano dessas crianças e adolescentes.
Ademais, os resultados deste estudo colaboram na formação de evidências sobre uma temática que deve ser objeto de formação e atualização das equipes de saúde, tanto para a avaliação quanto acompanhamento dos casos nos serviços da RAPS, a fim de proporcionar um cuidado que considere os contextos em que as crianças e adolescentes se encontram e como estes contextos as permeiam. Para a formulação de políticas públicas em saúde mental sobre o público infantojuvenil, tornam-se relevantes estudos como este, que investiguem correlações entre as características individuais e como o cuidado se dá na prática.
Estas informações são relevantes para que os profissionais, serviços de saúde e gestores orientem suas práticas e a própria alocação de recursos para o cuidado das populações mais vulnerabilizadas e a criação de estratégias de cuidado, visando a prevenção e promoção de saúde de crianças e adolescentes com questões de saúde mental.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
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Sociodemographic and clinical factors related to crisis care in child and adolescent mental health
Resumo (abstract):
Care for children and adolescents experiencing mental health crises can be improved by addressing the factors that may contribute to longer stays in healthcare facilities or the need for more intensive follow-up. This study aimed to present the sociodemographic and clinical factors that influenced the length of stay and need for crisis management among children and adolescents at Type III Child and Adolescent Psychosocial Care Centers (CAPSij) and at general hospitals or emergency care units. This is a documentary, exploratory, and retrospective study conducted using medical records, with analysis via linear regression. The sample consisted predominantly of adolescents—cisgender girls enrolled in school—who were primarily treated for life-threatening conditions. Longer length of stay was associated with clients with mood and affective disorders, alcohol and other drug use, crisis management, and care at CAPSij, while clients referred by other services stayed for a shorter time. Users treated at CAPSij centers had a lower need for crisis management. The findings highlight the sociodemographic and clinical factors that can inform care practices, resource allocation, and the strengthening of community-based care coordinated with the network in crisis situations.
Palavras-chave (keywords):
Mental Health; Health Services Accessibility; Crisis Intervention; Child; Adolescent.
Fatores sociodemográficos e clínicos relacionados ao cuidado da crise em saúde mental infantojuvenil
Sociodemographic and clinical factors associated with crisis care in child and adolescent mental health
Factores sociodemográficos y clínicos relacionados con la atención de crisis de salud mental de niños y adolescentes
Nathalia Nakano Telles – Universidade de São Paulo – nnakanot@gmail.com - https://orcid.org/0000-0002-9176-887X
Heloísa Garcia Claro – Universidade Estadual de Campinas – clarohg@unicamp.br - https://orcid.org/0000-0003-1504-7074
José Carlos Marques de Carvalho – Escola Superior de Enfermagem do Porto – zecarlos@esenf.pt - https://orcid.org/0000-0002-8391-8647
Márcia Aparecida Ferreira de Oliveira – Universidade de São Paulo – marciaap@usp.br - https://orcid.org/0000-0002-1069-8700
Resumo
O cuidado à crise de saúde mental infantojuvenil pode ser qualificado pela identificação dos fatores que podem influenciar o aumento do tempo de estada em serviço de saúde ou a necessidade de acompanhamento mais intensivo. Este estudo objetivou apresentar os fatores sociodemográficos e clínicos que influenciaram o tempo de permanência e necessidade de manejo de crise de crianças e adolescentes em Centros de Atenção Psicossocial infantojuvenis (CAPSij) tipo III e em hospitais gerais ou Unidades de Pronto Atendimento. Trata-se de pesquisa documental, exploratória e retrospectiva, realizada em prontuários, com análise por regressão linear. Predominaram adolescentes, meninas cisgênero, com vínculo escolar, atendidas principalmente por risco de morte. Maior tempo de permanência associou-se a usuários com transtornos de humor e afetivos, uso de álcool e outras drogas, realização de manejo de crise e atendimento em CAPSij, enquanto usuários encaminhados por outros serviços permaneceram menos tempo. Usuários atendidos nos CAPSij apresentaram menor necessidade de manejo de crise. Os achados evidenciam os fatores que podem apoiar as práticas de cuidado, a alocação de recursos e o fortalecimento do cuidado territorial e articulado com a rede em situações de crise.
Palavras-chave: Saúde Mental; Acessibilidade aos Serviços de Saúde; Intervenção em Crise; Criança; Adolescente.
Abstract
Care for children and adolescents experiencing mental health crises can be improved by addressing factors that prolong stays in healthcare facilities or require more intensive follow-up. This study aimed to identify the sociodemographic and clinical factors influencing the length of stay and the need for crisis management among children and adolescents at Type III Child and Adolescent Psychosocial Care Centers (CAPSij), general hospitals, and emergency care units. This exploratory and retrospective study analyzed medical records using linear regression. The sample consisted predominantly of school-enrolled cisgender female adolescents primarily treated for life-threatening conditions. Longer stays were associated with mood and affective disorders, alcohol and drug use, crisis management interventions, and care at CAPSij facilities. In contrast, patients referred by other services had shorter stays. Patients treated at CAPSij centers required fewer crisis management interventions. These findings highlight sociodemographic and clinical factors that can inform care practices, resource allocation, and the strengthening of network-coordinated, community-based care during crises.
Keywords: Mental Health; Health Services Accessibility; Crisis Intervention; Child; Adolescent.
Resumen
La atención a las crisis de salud mental en la infancia y la adolescencia puede mejorarse teniendo en cuenta los factores que pueden influir en el aumento de la duración de la estancia en los servicios de salud o en la necesidad de un seguimiento más intensivo. El objetivo de este estudio fue presentar los factores sociodemográficos y clínicos que influyeron en la duración de la estancia y la necesidad de tratamiento de crisis de niños y adolescentes en Centros de Atención Psicosocial para Niños y Adolescentes (CAPSij) de tipo III y en hospitales generales o unidades de urgencias. Se trata de un estudio documental, exploratorio y retrospectivo, realizado a partir de historiales clínicos, con análisis de regresión lineal. Predominaron las adolescentes cisgénero, escolarizadas, atendidas principalmente por riesgo de muerte. Una mayor duración de la estancia se asoció a usuarios con trastornos del estado de ánimo y afectivos, consumo de alcohol y otras drogas, intervención en crisis y atención en CAPSij, mientras que los usuarios derivados por otros servicios permanecieron menos tiempo. Los usuarios atendidos en los CAPSij presentaron una menor necesidad de gestión de crisis. Los resultados ponen de manifiesto los factores sociodemográficos y clínicos que pueden respaldar las prácticas asistenciales, la asignación de recursos y el fortalecimiento de la atención territorial y coordinada con la red en situaciones de crisis.
Palabras clave: Salud Mental; Accesibilidad a los Servicios de Salud; Intervención en la Crisis; Niño; Adolescente.
Introduction
An increasing number of children and adolescents experience difficulties arising from mental health problems1. This issue warrants priority, as illness during this life stage can cause long-lasting, debilitating consequences2,3, thereby affecting the quality of life of an entire generation4.
A mental health crisis encompasses situations involving acute psychiatric symptomatology, severe breakdown of interpersonal relationships, refusal of interventions or contact, and emergencies within the family or social context, as well as the personal inability to cope with these challenges5. In the child and adolescent population, mental health crises remain understudied6 but warrant attention. These crises represent periods of heightened vulnerability for the affected individuals, their families, and support networks, characterized by temporary emotional and behavioral changes alongside intense, distressing negative emotions7. In Brazil, mental health care is provided through the Psychosocial Care Network (RAPS), which includes various strategic services tailored to individuals\' needs at different life stages8. During a crisis, individuals can access services where they have an established relationship and receive longitudinal follow-up, such as Psychosocial Care Centers (CAPS), or opt for immediate care settings for life-threatening situations, such as general hospitals and Emergency Care Units (UPAs). The organization of each RAPS depends on local management and the services available in the region. CAPS are specialized mental health services within the Unified Health System (SUS). As community-based services, they provide individualized care and follow-up, empowering patients to achieve autonomy, navigate their communities independently, and exercise their citizenship. General hospitals and UPAs serve as strategic points within the RAPS for managing crises, addressing life-threatening risks, and providing clinical stabilization before referring patients to longitudinal follow-up services9,10.
Regarding CAPS, Type III facilities offer beds for overnight stays, accommodating patients who require more intensive, round-the-clock monitoring and close care during crises11. Despite their strategic importance, Type III Child and Adolescent CAPS (CAPSij) remain scarce in Brazil and lack federal regulation; they are currently governed only by the Municipal Ordinance of São Paulo (SMS No. 342/2019)12. Federal regulation is needed to guide their operation, highlight their importance within the RAPS, and ensure resource allocation for their expansion.
To promote public policy and further discussion, studies are needed to understand how child and adolescent mental health crises are managed across different RAPS services. Understanding the profile of patients accessing these services is essential for planning care interventions both within and outside the facilities, organizing the care network, and allocating resources13-15. This study presents findings from the first author\'s doctoral research.
This article offers a novel contribution by identifying the sociodemographic and clinical variables that influence the length of stay and the need for crisis management in Type III CAPSij, general hospitals, and UPAs treating children and adolescents during mental health crises.
Methods
This retrospective exploratory study used a quantitative approach16, collecting data from medical records at eight facilities (four Type III CAPSij, two general hospitals, and two UPAs) across four Brazilian cities in 2023. Data were collected from patients experiencing their first overnight stay at these facilities, to avoid potential bias from frequent readmissions17.
Data collection was conducted on-site at the facilities throughout 2024. Since Type III CAPSij remain rare in Brazil, city selection was based on the presence of a Type III CAPSij in the municipality, as registered in the National Register of Health Establishments (CNES). Subsequently, local backup services for child and adolescent crisis care were identified. Consequently, five cities with Type III CAPSij within their jurisdictions were identified: Belo Horizonte (Minas Gerais), Campo Grande (Mato Grosso do Sul), Curitiba (Paraná), Rio de Janeiro (Rio de Janeiro), and São Paulo (São Paulo). Applying the criterion of having both community services and inpatient backup, Belo Horizonte was excluded from the sample. Thus, services in Campo Grande, Curitiba, Rio de Janeiro, and São Paulo comprised the final sample. The inclusion criterion for Type III CAPSij was being the first service of its kind in the city; for general hospitals or UPAs, it was having the highest number of consultations recorded in 2023, based on DataSUS data.
Data extracted from medical records included the sociodemographic and clinical profiles of the children and adolescents admitted, as well as details regarding their admission, duration of care, and discharge. The data collection instrument was developed in REDCap®, and all data were managed within this platform.
For analytical purposes, because general hospitals and UPAs provide similar care for the studied population18, focusing on brief interventions and clinical stabilization, their data were pooled to enhance statistical robustness and are presented under the "Inpatient Care" category. The clinical variables used herein represent individual characteristics and conditions relevant to care. For diagnostic groups, data were divided into subgroups of Group F (Mental and behavioral disorders) according to the International Classification of Diseases, 10th Revision (ICD-10)19, which was routinely used in the medical records; the "Others" group refers to non-Group F ICD codes widely used in general hospitals and UPAs to classify mental health crises related to agitation and suicide attempts (specifically: symptoms, signs, and abnormal clinical and laboratory findings, not elsewhere classified [R44 and R45]; injury, poisoning, and certain other consequences of external causes [T39, T40, T42, T43, T46, T50]; external causes of morbidity and mortality [X14, X60, X64, X65, X69, X70, X78, X79, X84, Y09, Y19]; and factors influencing health status and contact with health services [Z00, Z62, Z63, Z75]). In a few cases, comorbidities such as epilepsy (G40) and rheumatism (M79) were additionally classified.
For analytical purposes, the "Others" category was not conceived as a homogeneous diagnostic group or as a nosological category comparable to the ICD-10 Group F subgroups. It is an operational category created to preserve mental health crisis consultations in general hospitals and UPAs that were recorded using non-Group F codes. This decision prevented the exclusion of cases where the underlying demand was qualitatively related to mental health but was logged under a different diagnostic group. However, it is acknowledged that the internal heterogeneity of this category limits specific clinical inferences; therefore, coefficients associated with "Others" should be interpreted as reflecting a pattern of documentation and service entry, rather than the effect of a single diagnostic condition.
Given the varying classifications for the reasons for seeking care, consultations were categorized into six types: Vulnerability (including family and social vulnerability); Care for alcohol and drug use (including detoxification, harm reduction, and withdrawal); Life-threatening risk (including suicide attempts, suicidal self-harm, and suicidal ideation); Investigation and clinical care (including case investigation, seizures, medication adjustment, nutritional monitoring, extrapyramidal syndrome, and pregnancy); Behavioral changes (including behavioral shifts, aggressiveness, psychotic breaks, homicidal ideation, catatonia, and agitation); and Mood changes (including mood swings, grief, panic attacks, anxiety attacks, and social isolation). These categories were established by analyzing all cases to group similar complaints, respecting the patients\' histories and the teams\' documentation.
For statistical analysis, an ordinary least squares linear regression model with heteroskedasticity-robust standard errors was used. This model tested the correlation between the dependent variables ("length of stay" and "crisis management") and the independent sociodemographic and clinical variables, justified by the sample\'s symmetry and normal distribution20. We present 95% confidence intervals; the hypothesis was confirmed, with several results demonstrating significant correlations. Analyses were performed using Stata software, version 15 (StataCorp, 2007). Notably, "crisis management" refers to verbal, spatial, physical, mechanical, and/or chemical restraint procedures, implemented using soft, soft-hard, or hard health technologies21. This definition was based on information documented by healthcare professionals in the medical records.
The study was approved by the Research Ethics Committees of the Municipal Health Secretariats of Campo Grande, Curitiba, Rio de Janeiro, and São Paulo, as well as the University of São Paulo School of Nursing, under CAAE numbers 74548823.0.3004.5162, 74548823.0.3002.0101, 74548823.0.3003.5279, 74548823.0.3001.0086, and 74548823.0.0000.5392, respectively.
Results
Data were collected from 399 children and adolescents treated at the studied facilities in 2023. Table 1 presents the sociodemographic profile of these patients. Patient age ranged from 5 to 18 years at CAPSij centers and from 8 to 17 years at inpatient facilities. In both service types, patients aged 15 to 18 and cisgender females predominated. Notably, transgender and non-binary children and adolescents were only admitted to CAPSij centers. Regarding race/color, White individuals constituted the majority, followed by Brown and Black individuals in both service types. Furthermore, most patients were enrolled in school.
Table 1 - Sociodemographic data of patients by service type.
Table 2 presents the clinical data of the studied children and adolescents. A notable difference emerged in admission modalities between CAPSij and inpatient services: while patients admitted for overnight stays at CAPSij primarily arrived via referral from another service, those admitted to hospitals and UPAs were primarily walk-ins. The majority of children and adolescents in the sample did not use drugs. In both service types, care was primarily sought due to life-threatening risks, followed by behavioral changes. Issues related to vulnerability were exclusively cited as reasons for admission at CAPSij centers.
Regarding diagnostic classification, substantial differences existed between service types: hospitals and UPAs frequently used diagnoses outside Group F (mental and behavioral disorders), whereas CAPSij used Group F codes almost exclusively. The "crisis management" variable indicates the number of times this procedure was performed on patients. In both CAPSij and hospital/UPA settings, these procedures were required for only a small number of patients.
Table 2 - Clinical data of patients by service type.
Table 3 shows the correlation between the sociodemographic and clinical data of children and adolescents and their length of stay at the services. Although there were few cases with diagnoses in the F00-F09 group (organic, including symptomatic, mental disorders), children and adolescents with these diagnoses stayed almost three days longer than those without them. Patients diagnosed with F30-F39 (mood [affective] disorders) stayed one day longer than the average, while those classified with other diagnoses stayed nearly two days longer. Patients who used drugs stayed almost two days longer at the facilities. There was no significant correlation between the reasons for seeking care and the length of stay.
Patients requiring crisis management interventions stayed more than one and a half days longer than the average. Regarding gender, the only non-binary individual showed a significant correlation, staying nearly 7 days longer than the sample average. Patients referred for overnight or inpatient care by another service stayed one and a half days less than the average, whereas those admitted to CAPSij stayed, on average, nearly two days longer than those in hospitals and UPAs.
Table 3 - Ordinary least squares linear regression for the dependent variable "Length of Stay" alongside the set of independent sociodemographic and clinical variables.
Finally, regarding the dependent variable for the frequency of crisis management interventions, only patients in diagnostic groups outside Group F showed a significant correlation, requiring nearly one fewer procedure. Patients at CAPSij required fewer crisis management procedures. A significant correlation was also observed between crisis management and medication use, though with a small coefficient. These data are presented in Table 4 below.
Table 4 - Ordinary least squares linear regression for the dependent variable "Crisis Management" alongside the set of independent sociodemographic and clinical variables.
Discussion
The sociodemographic characterization of this study\'s sample prompts important reflections on the reality of child and adolescent mental health crisis care in Brazil. While CAPSij treated individuals up to 18 years of age (having reached legal adulthood), inpatient services strictly limited admissions to adolescents aged 17 and under. This discrepancy arises because CAPSij, as territorial and community-based services, aim to provide longitudinal care while fostering strong bonds with patients and their families22. In many cases, care can be transitioned when the patient reaches adulthood23. However, if continuing care is deemed beneficial, or if transitioning to an adult service might be detrimental, CAPSij can remain the reference care provider for individuals up to 21 years of age24. Conversely, hospital and emergency care services lack prior knowledge of the patient\'s history and employ more directive protocols regarding which department handles specific demands18, enforcing strict age-based triage.
The predominance of adolescent cisgender girls aligns with evidence showing that this demographic is more likely to present with mental health complaints. This propensity stems both from the hormonal shifts typical of adolescence and from the deleterious effects of sexism and misogyny25. The low representation of transgender patients in the sample may indicate barriers to access, as this population experiences high rates of mental illness, driven primarily by the violence they face daily26. Unlike the general Brazilian population profile, the majority of this sample was White. This is likely strongly influenced by the inclusion of Curitiba as a data collection site, a city with a notably smaller Black population27. Nevertheless, it is crucial to emphasize the importance of targeted care and attention for Black children and adolescents. The deleterious effects of daily racism generate profound consequences, ranging from neurological impacts to severe mental health outcomes28.
Given that most cases arrived at CAPSij via referral, one might hypothesize that, beyond CAPSij gaining recognition as a reference mental health service9, a functional care network is under active development. It is premature to conclude that a fully integrated network exists, as mere paper referrals do not guarantee true network collaboration; however, this represents a positive starting point for inter- and intrasectoral dialogue and coordination29. Referrals from other facilities play a vital role. They indicate that patients are receiving care elsewhere in the network and are associated with shorter lengths of stay compared to walk-in admissions30.
The percentage of drug users in the sample is consistent with the prevalence reported in the literature for the Brazilian population31. However, it is essential to highlight the value of in loco outreach in active use environments. Building bonds through a harm-reduction approach carries high therapeutic potential32, establishing CAPSij and its professionals as reliable references for vulnerable children and adolescents in these situations. The high percentage of patients seeking care for life-threatening risks reflects the global trend of increasing suicide attempts among children and adolescents33. Factors such as constant access to social media, cyberbullying, and parental burnout appear to be strong risk factors driving this increase34-36.
The broader understanding of mental health crises at specialized services like CAPS distinguishes them from other points in the care network, primarily through their ability to recognize situations of vulnerability as potential crisis triggers5. Regarding the diagnoses applied to children and adolescents, CAPS, as a strategic mental health service intended for longitudinal follow-up, relies heavily on Group F classifications for mental and behavioral disorders. In contrast, inpatient services tend to use situational diagnoses tailored to the immediate presenting demand.
The teams\' need for physical and/or mechanical restraint was low, suggesting that professionals are competent in managing child and adolescent crises using soft technologies37, without resorting to more invasive or violent interventions, such as physical restraints to manage aggression38. In a qualitative systematic review, Telles et al.39 demonstrated that the use of various forms of restraint is perceived negatively and damages the relationship among patients, families, and professionals.
Typically, individuals diagnosed with mood and affective disorders (subgroup F30-F39) present with suicidal ideation or attempts40,41, similar to those receiving other diagnoses related to suicide. Consequently, the intensive care they require, whether for wound management, treating sequelae, or clinical monitoring due to intoxication42, likely explains their longer-than-average lengths of stay.
Drug users frequently experience numerous adverse effects, including clinical alterations linked to withdrawal, heavy use, heightened social vulnerabilities, and weakened affective bonds43, all of which justify the need for extended care to address their health demands. Conversely, patients requiring crisis management interventions, even when teams actively avoid coercive measures like chemical or mechanical restraints and strive for rapid stabilization, represent more clinically challenging cases to stabilize44, necessitating longer stays.
In a Canadian study, Sockalingam et al.45 concluded that rapid referral of patients to mental health care from other hospital departments significantly reduced their length of stay. Similar results were found in the present study, where patients referred by other services spent less time in acute care.
Furthermore, this may indicate they had a structured backup plan to continue treatment elsewhere in the network. In a systematic review, Steffen et al.46 found that planned discharge was an effective strategy to reduce readmission rates and increase post-discharge follow-up care. The longer stays at CAPSij likely stem from the stricter protocols in UPAs and hospitals, where stabilization is episodic18. Additionally, CAPSij allow for greater flexibility in coordinating multidisciplinary efforts, such as family counseling and discharge planning, or addressing other vulnerabilities that demand extended admission47.
Regarding the occurrence of crisis management, the lower frequency among other diagnostic groups is presumably due to patient characteristics: these are often children and adolescents recovering from suicide attempts who are already under intensive clinical care and close surveillance48. CAPSij reported fewer crisis management procedures. Theoretically, CAPSij prioritize soft technologies37. Moreover, because the teams are generally familiar with the patients, managing crises through alternative methods and established therapeutic bonds is significantly easier49. In contrast, the lack of prior knowledge can breed insecurity and fear among inpatient staff, leading them to opt for more invasive management strategies. These choices may also be driven by logistical constraints, such as understaffing or inadequate infrastructure50.
These findings must also be interpreted in light of recent tensions surrounding the National Mental Health Policy and the RAPS. Underfunding and ongoing disputes over the care model directly compromise the capacity of territorial services to sustain crisis responses grounded in therapeutic bonding, continuity of care, community presence, and intersectoral coordination51. When CAPSij and other community network nodes are insufficient, poorly regulated, or underfunded, child and adolescent crises are inevitably displaced to hospital and emergency settings, where the logic of care prioritizes episodic stabilization and immediate risk mitigation18. This scenario overburdens inpatient and emergency services while simultaneously diminishing opportunities to develop singular therapeutic projects, provide longitudinal care, create crisis plans, and implement shared strategies with children, adolescents, families, and support networks. This situation is exacerbated by a historical backlog of investments in child and adolescent mental health52 and the absence of federal regulations for CAPSij.
In a study focusing on nursing professionals (who constitute the majority of inpatient staff), Piton et al.53 found that these workers often feel their practice falls short of the ideal. Due to their heavily biomedical training, they struggle to account for subjectivity and fully grasp patients\' underlying needs. Chemical restraint appears to be a prevalent management strategy across services, as evidenced by a significant, albeit low-coefficient, correlation between crisis management and medication use. A study in an Indian psychiatric ward identified the predominant use of chemical restraints on patients54. Furthermore, a literature review by Muir-Cochrane and Oster55 revealed that most patients subjected to chemical restraint viewed the intervention as unjustified and violent, whereas healthcare professionals deemed it a necessary and pragmatic measure given staffing shortages and the lack of alternative restraint strategies.
As an alternative to involuntary interventions, and to empower patients in their care, prevent crises, and avoid clinical deterioration, mental health teams are encouraged to adopt novel care models. Approaches such as Autonomous Medication Management (GAM)56,57 and other dialogic methods can mitigate the negative impacts of chemical restraint. These promote patient autonomy and participation in their own treatment, exemplified by Shared Decision Making58 and the Joint Crisis Plan, which has been shown to significantly reduce readmissions, including involuntary hospitalizations59.
A notable limitation of this study is the exclusion of recurrent cases in both overnight and inpatient settings. These cases likely require more complex coordination and care, factors beyond the scope of this research. We deemed it imprudent to include such data without conducting more in-depth analyses. Another limitation involves the "Others" category, composed of heterogeneous codes outside the ICD-10 Group F. Although retaining this category was necessary to avoid excluding frequent records from general hospitals and UPAs, it precludes specific clinical interpretations. Instead, it must be understood as a marker of the documentation practices for crisis situations at these care points.
Final considerations
The findings of this study outline the profile of children and adolescents seeking care during mental health crises, predominantly adolescent cisgender girls facing life-threatening risks. Furthermore, they highlight factors that appear to influence the need for prolonged stays in overnight or inpatient care and the use of restraints during treatment. Care for suicide attempts and for children and adolescents using alcohol and other drugs should be prioritized for targeted service investments. Investment in network coordination and comprehensive care must be strengthened to shorten overnight and inpatient stays, thereby minimizing disruption to the daily routines of these children and adolescents.
Moreover, results of this study contribute evidence to a topic that should be central to the training and continuing education of healthcare teams. This applies to both the assessment and follow-up of cases within RAPS services, ensuring that care accounts for the environments in which these children and adolescents live and how those contexts shape their experiences. For the formulation of public mental health policies targeting the child and adolescent population, studies like this, which investigate correlations between individual characteristics and practical care delivery, are highly relevant.
This information is essential for professionals, health services, and policymakers to guide clinical practices and optimize resource allocation for highly vulnerable populations. Ultimately, it supports the creation of care strategies aimed at health promotion and prevention for children and adolescents facing mental health challenges.
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Como
Citar
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