0148/2026 - GRAVIDEZ DE ALTO RISCO E SUAS REPERCUSSÕES NA SAÚDE MENTAL DE GESTANTES HOSPITALIZADAS
HIGH-RISK PREGNANCY AND ITS REPERCUSSIONS ONDE MENTAL HEALTH OF HOSPITALIZED PREGNANT WOMEN
Autor:
• Raimunda Magalhães da Silva - Silva, RM - <rmsilva@unifor.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5353-7520
Coautor(es):
• Fernanda Veras Vieira Feitosa - Feitosa, FVV - <fernandaveras95@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7442-3397
• Waleska Benicio de Oliveira Carvalho - Carvalho, WBO - <waleskabenicio@edu.unifor.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6255-7360
• Débora Pereira Paixão - Paixão, DP - <deborapaixaop1@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4089-2405
• Maria Helena Carvalho Valente Presado - Presado, MHCV - <mhpresado@esel.pt>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6852-7875
• Christina Cesar Praça Brasil - BRASIL, CCP - <cpraca@unifor.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7741-5349
• Laura Pinto Torres de Melo - Melo, LPT - <lauraptmelo@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3030-2216
Resumo:
Na gestação, ocorrem mudanças biopsicossociais e intercorrências que colocam em risco a saúde da mãe e do feto. Objetivou-se investigar as repercussões emocionais vivenciadas por gestantes internadas em uma maternidade após a descoberta de problemas gestacionais. Pesquisa qualitativa, fundamentada na concepção teórico-metodológica da fenomenologia de Heidegger. A coleta de dados ocorreu nos meses de agosto e setembro de 2024, em uma maternidade pública, com 19 gestantes. Os dados foram obtidos por entrevistas semiestruturadas, com questões durante a gestação de alto risco. A organização e a análise dos dados foram conduzidas de forma temática. O diagnóstico mostra repercussões na saúde física e emocional das gestantes, desencadeando sentimentos e percepções sobre si, o bebê e o mundo ao seu redor. A iminência de riscos à saúde do filho suscita angústias intensas, medos paralisantes, insegurança quanto ao desfecho da gestação e preocupações constantes sobre a possibilidade de recuperação ou perda do bebê. Essa experiência altera a dinâmica emocional das gestantes e influencia significativamente sua forma de vivenciar, interpretar e enfrentar esse cenário. Conclui-se que a gestação de alto risco gera impactos psíquicos significativos, exigindo das gestantes um processo de adaptação emocional.Palavras-chave: Gravidez de alto risco. Consciência. Saúde mental. Hospitalização.
ABSTRACT
During pregnancy, biopsychosocial changes and complications may place the health of the mother and fetus at risk. This study aimed to investigate the emotional repercussions experienced by pregnant women hospitalized in a maternity ward after the discovery of gestational complications. It is a qualitative research grounded in the theoretical-methodological framework of Heideggerian phenomenology. Data collection took place in August and September 2024, in a public maternity hospital, with 19 pregnant women interviewed using a semi-structured script about experiences during high-risk pregnancy. Data organization and analysis followed a thematic approach. The diagnosis of complications affected the women's physical and emotional health, triggering a network of feelings and perceptions about themselves, the baby, and their surroundings. The imminence of risks to the child generated intense anguish, paralyzing fears, insecurity regarding pregnancy outcomes, and constant concern about the possibility of recovery or loss. This experience altered the women’s emotional dynamics and shaped how they interpreted and coped with this scenario. It is concluded that high-risk pregnancy produces significant psychological impacts, requiring a continuous process of emotional adaptation.
Palavras-chave:
High-risk pregnancy. Consciousness. Mental health. Hospitalization.Abstract:
During pregnancy, biopsychosocial changes and complications may place the health of the mother and fetus at risk. This study aimed to investigate the emotional repercussions experienced by pregnant women hospitalized in a maternity ward after the discovery of gestational complications. It is a qualitative research grounded in the theoretical-methodological framework of Heideggerian phenomenology. Data collection took place in August and September 2024, in a public maternity hospital, with 19 pregnant women interviewed using a semi-structured script about experiences during high-risk pregnancy. Data organization and analysis followed a thematic approach. The diagnosis of complications affected the women's physical and emotional health, triggering a network of feelings and perceptions about themselves, the baby, and their surroundings. The imminence of risks to the child generated intense anguish, paralyzing fears, insecurity regarding pregnancy outcomes, and constant concern about the possibility of recovery or loss. This experience altered the women’s emotional dynamics and shaped how they interpreted and coped with this scenario. It is concluded that high-risk pregnancy produces significant psychological impacts, requiring a continuous process of emotional adaptation.Keywords:
High-risk pregnancy. Consciousness. Mental health. Hospitalization.Conteúdo:
A gestação configura-se como um evento singular na trajetória da mulher. É marcada por mudanças que ultrapassam o âmbito fisiológico e alcançam dimensões subjetivas profundas. Além das alterações hormonais e corporais, esse período exige uma ressignificação da identidade, da percepção do próprio corpo e do papel social exercido. Trata-se de uma vivência permeada por expectativas, medos e idealizações, influenciada por fatores culturais, laços familiares e contextos históricos, que moldam a forma como cada mulher vivencia o processo de tornar-se mãe 1,2.
Embora seja um processo fisiológico natural, a gestação pode apresentar complicações clínicas, como hipertensão arterial, diabetes gestacional, sangramentos e outras condições que caracterizam uma gestação de alto risco3,4. O surgimento dessas intercorrências não apenas ameaça a saúde da mãe e do feto, mas também pode romper as expectativas idealizadas sobre a maternidade, impactando significativamente a dimensão biopsicossocial da mulher 5,6..
No Brasil, estima-se que cerca de 20% das gestações sejam classificadas como de alto risco, com destaque para hipertensão arterial, diabetes gestacional, infecções e outras complicações obstétricas2. Uma revisão sistemática publicada em 2024 apontou que a taxa global de complicações maternas com risco potencial de mortalidade é de aproximadamente 6,98%, sendo significativamente maior em países de baixa e média renda7,8. Esses dados evidenciam os desafios da saúde materna e reforçam a necessidade de estratégias específicas de cuidado e acolhimento das gestantes9.
O avanço das políticas públicas para a saúde da mulher, como a Rede Aline, tem ampliado o acesso ao pré-natal, estruturado diretrizes para o cuidado humanizado e reorganizado a atenção à saúde materno-infantil, promovendo cuidado integral e contínuo à mulher e à criança, com vistas à redução da mortalidade e das complicações maternas e infantis por meio de ações articuladas entre diferentes esferas de gestão 10,11.
Contudo, a atenção à saúde mental da gestante ainda se apresenta como uma fragilidade no sistema, visto que as repercussões emocionais relacionadas às complicações gestacionais e à hospitalização frequentemente são negligenciadas nas práticas assistenciais11-13. A escassez de estudos voltados à dimensão emocional da gestação de alto risco, sobretudo sob a perspectiva das próprias mulheres, dificulta a construção de estratégias de cuidado que considerem a integralidade do ser. Nesse sentido, a escuta qualificada das experiências emocionais pode subsidiar a formulação de práticas mais humanizadas, sensíveis e adequadas às necessidades reais dessas gestantes.
Este estudo justifica-se, portanto, pela urgência de lançar luz sobre os aspectos subjetivos que permeiam a vivência da gestação de alto risco, contribuindo para o fortalecimento de políticas públicas, o aprimoramento dos serviços de saúde e a qualificação da assistência hospitalar. Além disso, a pesquisa apresenta relevância científica e social, pois amplia o conhecimento sobre os impactos emocionais das complicações gestacionais e promove reflexões acerca da saúde mental materna em situações de risco.
Alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar – e sua meta 3.1, que visa reduzir a razão de mortalidade materna para menos de 70 por 100.000 nascidos vivos, esta pesquisa dialoga com os compromissos globais de promoção da saúde materna e da melhoria da saúde mental. Ao reconhecer a complexidade emocional vivida por gestantes de alto risco, o estudo reforça a importância de estratégias que garantam cuidado integral e humanizado, contribuindo para a atualização de políticas públicas mais sensíveis e eficazes, conforme preconiza a Agenda 2030 da ONU 4,14.
Para compreender as nuances dessas experiências subjetivas, o estudo fundamenta-se na fenomenologia existencial de Heidegger15, a qual permite apreender os sentidos que a mulher atribui ao seu processo gestacional, considerando a gestação como um fenômeno existencial complexo, multifacetado e pleno de significados. No contexto das intercorrências gestacionais, esse despertar da consciência torna-se mais sensível e desafiador, uma vez que a percepção do risco impõe um confronto direto com a vulnerabilidade, a finitude e as incertezas da vida. O referencial heideggeriano auxilia na captura das nuances dos significados atribuídos a essa realidade complexa e frequentemente angustiante, reconhecendo que a mulher enfrenta maior vulnerabilidade emocional, impactando sua autoimagem, autoestima e percepção corporal 5, 13.
Considerando que a gestação de alto risco agrega complexidade aos fenômenos emocionais já presentes na gestação natural, esse tipo de gravidez exige cuidados especiais e, frequentemente, hospitalização. Surge, assim, o questionamento sobre os sentimentos que emergem nas mulheres ao se depararem com o diagnóstico de complicações gestacionais. O presente estudo tem como objetivo investigar as repercussões emocionais vivenciadas por gestantes internadas em uma maternidade após a descoberta de intercorrências gestacionais.
MÉTODOS
Trata-se de uma pesquisa qualitativa voltada à compreensão das experiências subjetivas, particularidades e sentimentos de gestantes em situação de alto risco16. O estudo foi conduzido com base nas diretrizes do Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ)17 e ancorado na perspectiva teórico-metodológica da fenomenologia de Heidegger18, complementada por referenciais bibliográficos pertinentes ao tema.
A fenomenologia heideggeriana investiga o fenômeno da existência por meio da descrição fenomenológica, buscando compreender os elementos ontológicos que estruturam o ser-no-mundo, ou seja, a forma singular pela qual cada indivíduo vivencia sua existência18. Nessa perspectiva, o “ser” refere-se ao ser humano em sua essência mais profunda, pautado na experiência concreta do existir.
O estudo foi realizado em uma maternidade pública do estado do Ceará, referência em atendimento especializado em obstetrícia de alto risco. Participaram 19 gestantes, selecionadas por conveniência, considerando a acessibilidade e disponibilidade durante o período de hospitalização.
Incluíram-se gestantes internadas na instituição durante o período de coleta de dados, com idade igual ou superior a 18 anos, que atendessem aos critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. A seleção das participantes foi realizada por amostragem de conveniência, considerando a acessibilidade e a disponibilidade durante a hospitalização. Excluíram-se gestantes em trabalho de parto ativo ou em condições clínicas que exigissem restrição de mobilidade, a fim de preservar o bem-estar físico e emocional das participantes e garantir a viabilidade da coleta de dados.
As entrevistas foram conduzidas individualmente por duas profissionais com experiência teórica e prática em obstetrícia e pesquisa qualitativa, sem vínculos hierárquicos com as participantes, evitando possíveis vieses. Não havia relação prévia entre as ntrevistadoras e as gestantes na coleta de dados. A reflexividade foi promovida por meio de reuniões regulares da equipe, para discussão de impressões e possíveis influências durante o processo.
Os dados foram coletados nos meses de agosto e setembro de 2024, por meio de entrevistas semiestruturadas, conduzidas individualmente a partir de uma pergunta central relacionada às vivências durante a gestação de alto risco. As entrevistas ocorreram em local reservado na própria instituição, garantindo privacidade e conforto às participantes.
As gestantes foram abordadas pessoalmente pela equipe de pesquisa, que apresentou os objetivos do estudo e esclareceu dúvidas antes da obtenção do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Durante o recrutamento, 30 gestantes foram convidadas a participar, das quais 11 recusaram-se, por questões físicas ou emocionais.
Cada entrevista teve duração média entre 20 e 60 minutos, conforme o ritmo e a disponibilidade de cada participante. Todas foram gravadas em áudio, mediante assinatura do TCLE, visando à fidelidade do conteúdo e à confiabilidade das informações. Para assegurar o anonimato, as participantes foram identificadas pela sigla “G” (Gestantes), seguida de número sequencial conforme a ordem das entrevistas (G1 a G19).
A organização e interpretação dos dados seguiram os pressupostos da Análise de Conteúdo, na modalidade temática, conforme proposto por Minayo16. O processo analítico foi estruturado em três etapas: pré-análise, exploração do material empírico e interpretação dos dados, permitindo a identificação das unidades de significado.
As falas foram lidas exaustivamente, com o objetivo de reconhecer regularidades, divergências e padrões de sentido que expressassem as experiências vividas pelas gestantes. A análise iniciou-se com a categorização sociodemográfica das participantes, seguida da categorização dos discursos, refletindo simbolicamente as transformações subjetivas. Esse processo culminou na temática central: “O ser gestante frente às complicações gestacionais”, que evidencia as vivências diante da condição de gestação de alto risco.
A saturação teórica foi observada ao longo da coleta e análise dos dados, sendo alcançada quando os conteúdos se repetiam sem o surgimento de informações novas ou relevantes para os objetivos do estudo. O retorno das interpretações às participantes (member checking) não foi realizado de forma sistemática com todas as respondentes, sendo reconhecido como uma limitação metodológica da pesquisa.
O estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Fortaleza, sob o parecer nº 6.789.730 e da instituição coparticipante n° 6.820.534. A pesquisa foi conduzida em conformidade com as recomendações éticas aplicáveis a estudos envolvendo seres humanos, conforme previsto nas Resoluções CNS nº 466/12 e 510/16 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde 20,21.
RESULTADOS
Das 19 participantes, 35% declararam residir no município de Fortaleza, enquanto 65% eram provenientes de cidades da região metropolitana. A faixa etária variou entre 18 e mais de 36 anos, com predominância entre 21 e 25 anos, representando 31,5% do total.
Em relação aos dados clínicos das gestantes incluídas neste estudo, identificou-se que 72,2% eram multíparas e 27,7% primíparas. Quanto ao histórico de diagnóstico médico, foram observadas condições como hipertensão gestacional, diabetes mellitus gestacional, restrição do crescimento intrauterino, trombose venosa profunda (TVP) e sorologia reagente para VDRL. Entre essas, a mais prevalente foi a diabetes mellitus gestacional, presente em 38% das participantes, seguida da sorologia reagente para VDRL, detectada em 22% dos casos.
O ser gestante frente às complicações gestacionais
Essa temática revela os sentimentos vivenciados pelas gestantes diante da descoberta de agravos durante a gestação, os quais ameaçavam a saúde do feto e repercutiam na forma como passaram a sentir-se e a perceber-se no mundo ao se depararem com o fenômeno emergente. Ademais, a análise evidencia os significados atribuídos pelas mulheres à situação de risco, marcada pela incerteza e pela ruptura do ideal de uma gestação saudável, ampliando a compreensão para além das perspectivas estritamente biomédicas.
Ao se confrontarem com a possibilidade de que a gestação tome um curso distinto do esperado, as gestantes revelam não apenas angústia e frustração, mas também a emergência de forças de enfrentamento e adaptação. Essa experiência configura-se como um modo singular de ser-no-mundo, no qual o corpo e a existência psíquica são atravessadas por múltiplas vulnerabilidades, abrindo espaço para novas formas de significar-se e compreender-se diante do fenômeno vivido.
Não foi nada fácil quando me deparei com esse diagnóstico. A gente fica fragilizada, pensando na criança. Nunca imaginei que tivesse algum problema no sangue. Essa gravidez foi tão sonhada que me questionei e agora (G5).
A neném foi idealizada. Descobrir que tenho risco de parto prematuro me maltrata muito; perdi meu mundo. Fico pensando se ficará bem (G11).
Tive muitos medos envolvidos, pois descobri restrições. Tenho diabetes e hipertensão. Então, fiquei desesperada de a neném ter problemas ao nascer e em seu crescimento; foi muito frustrante (G13).
Em mim vivo um turbilhão entre o sonho de ser mãe e o medo de que alguma coisa aconteça (G19).
A existência dessas mulheres é marcada pela impropriedade do existir, ao se depararem com aquilo que se torna inapropriado em seu mundo. Ao tomarem consciência dos riscos na gestação, apresentam dúvidas, preocupações com o bem-estar do bebê e sentimentos de medo, desespero e frustração. Essas emoções constituem expressões legítimas de uma experiência subjetiva profundamente atravessada pela dor de ver o projeto da maternidade ameaçada, exposta à perda, à interrupção de planos e às incertezas do futuro.
O percurso da gestação idealizada encontra rupturas inesperadas, e as intercorrências emergem como forças que desestabilizam o sentir das gestantes, deixando-as atravessadas por fragilidades e incertezas, à deriva em um caminho distinto do planejado.
As experiências vivenciadas revelam uma trajetória marcada pelo confronto entre expectativas idealizadas e a realidade da gestação de alto risco. Situações que ameaçam a saúde materno-fetal desencadeam sentimentos de fragilidade e desamparo, despertando uma consciência ampliada sobre a própria finitude e a complexidade que permeia o viver gestacional.
Nunca imaginei que tivesse algum problema no sangue. Essa gravidez foi tão sonhada. Não é nada fácil. A gente fica fragilizada; o medo da morte me acompanha (G12).
Agora tem sido um momento difícil. Com trinta e três semanas, descobri que estava com pouco líquido e que a bebê não estava ganhando peso. Necessitei de um amparo urgente, me sinto frágil e desolada (G6).
Hoje, a morte e a vida nos cercam; somos tão frágeis que parece que tudo irá desabar (G14).
Então descobrimos riscos, nossos planos foram frustrados, e não sei para onde ir. A solidão me invade; perdi meu mundo. É difícil pensar que isso pode ser o fim (G18).
Nesse contexto, emerge também a relevância das redes de apoio e das relações de cuidado, indicando que a experiência gestacional não se restringe ao corpo, mas se insere em uma teia de vínculos sociais e afetivos. A percepção de planos interrompidos e o sentimento de isolamento sugerem uma transformação na forma de compreender o mundo e de se perceber nele, evidenciando um modo singular de ser-no-mundo. Essa perspectiva pode ser observada nos discursos a seguir:
Quando senti que tinha um amparo, pude perceber que seria menos difícil viver. Aliviou o turbilhão em minha mente, pois a morte era tudo o que eu pensava. Isso fez tanta diferença (G1).
A atenção que me deram fez toda a diferença; essa relação de afeto mudou o percurso da minha esperança. Hoje sinto que vai passar e que vamos conseguir (G2). Talvez, se eles não estivessem ao nosso lado, não suportaria, além do apoio que recebi aqui no hospital (G8).
No meio de tudo isso, não sou mais a mesma; minha visão sobre o valor da vida mudou. Hoje me sinto mais forte (G10).
Assim, a gestação em situação de risco configura-se como um espaço de tensão e ressignificação, no qual corpo, psique e relações se entrelaçam, reforçando a necessidade de ampliar o olhar para além do enfoque biomédico, valorizando dimensões subjetivas, existenciais e relacionais.
De acordo com os achados, cada mulher elaborou suas vivências a partir de sua história, de seu contexto e dos significados que atribui à maternidade. O sofrimento, portanto, não decorre apenas de sintomas ou riscos físicos, mas também da frustração e do sentimento de impotência diante do adoecimento, bem como do enfrentamento da imprevisibilidade.
Via a maternidade de forma diversa, elaborei uma imagem que foi frustrada; o que aconteceu no meu corpo foi um detalhe. Senti-me impotente diante de tudo isso (G7).
Me senti impotente diante disso, como se minhas mãos estivessem atadas; parece que não sei o que está por vir (G9).
O desejo de ser mãe e ter logo meu bebê no colo está superando essa sensação de incapacidade diante dessa doença (G10).
Estou sofrendo não apenas pela condição de saúde, mas também pela frustração entre o que acreditei e o que agora estou vivendo; tudo é imprevisível (G15).
O sofrimento, nessa conjuntura, não se restringe às complicações de saúde, mas também constitui um luto simbólico pelo ideal de uma gestação saudável e plena. Os relatos evidenciam a experiência constante do imprevisível, intensificando a ansiedade e a percepção da gestante em situação de risco, na qual corpo, mente e vínculos afetivos se entrelaçam em um contínuo processo de adaptação e enfrentamento.
Nesse contexto, as gestantes limitam-se à própria liberdade e enfrentamento das complicações emergentes. Temores e anseios configuram-se como sentimentos iminentes frente às descobertas de risco na gestação e aos possíveis agravos na saúde do bebê, gerando sofrimento e aflição.
No quinto mês, já dei entrada em internações, com sangramentos que continuam até hoje. Tem sido muito sofrido, creio que também para a bebê. Isso desperta muitas ansiedades; preocupo-me que algo aconteça com ela (G3).
Tive muitos medos envolvidos, pois descobri restrições. Tenho diabetes e hipertensão. Além disso, surgiu epilepsia e precisei ficar internada. Imagina só tudo isso! Então, tive muito medo de a neném ter problemas ao nascer e em seu crescimento (G14).
Minha bebê está com restrição no crescimento e no ganho de peso. Descobri que ela tem sopro no coração. Sinto-me muito aflita com essa situação e preocupada; temo perdê-la. Nem sei mais quem eu sou no meio de tudo isso (G16).
A saúde do meu filho mexeu comigo; perdi o chão, parece que nem sei quem sou no meio de tudo isso (G4).
Assim, as gestantes que vivenciam intercorrências gestacionais experimentam um deslocamento profundo em sua existência: corpo, espaço e tempo reajustam-se em função do risco, instaurando um estado de suspensão e incerteza. Essa reorganização existencial provoca não apenas sofrimento físico, mas também uma crise subjetiva que abala a percepção de si mesmas como mães, mulheres e seres-no-mundo.
Compreender a pessoa doente nesse contexto exige ir além do diagnóstico clínico, incluindo a escuta sensível das experiências emocionais, corporais e existenciais das gestantes. Tal compreensão reforça a importância de um cuidado integral, que considere as múltiplas dimensões do sofrimento humano em situações de vulnerabilidade extrema.
DISCUSSÃO
O momento em que a gestante recebe o diagnóstico de risco gestacional provoca-lhe um impacto profundo e multifacetado em sua experiência emocional. Essa notícia frequentemente interrompe expectativas e planos previamente traçados para a gravidez, gerando sentimentos intensos de medo, insegurança e vulnerabilidade21,22. Inicialmente, a gestante costuma vivenciar um estado de choque, seguido por um processo de assimilação caracterizado por dúvidas sobre sua capacidade de proteger o bebê, preocupação constante com o futuro e angústia diante da possibilidade de complicações12,23.
Nesse contexto, o diagnóstico de risco gestacional configura um fenômeno emergente na vida da mulher, irrompendo seu cotidiano e rompendo com a normalidade esperada24,25. Sob a perspectiva fenomenológica de Heidegger15, esse momento representa a transição da gestante de um estado de familiaridade com o mundo para uma condição de estranhamento. Ela se vê lançada em uma realidade não escolhida, sendo obrigada a reorganizar a forma como habita esse novo mundo, marcado por restrições, hospitalizações e incertezas.
Ao tomar consciência de uma complicação durante a gravidez, a gestante passa a lidar com diversas preocupações, como a saúde do feto, o risco de perdas e dúvidas sobre sua própria capacidade de enfrentar a situação, acompanhadas de sentimentos de insegurança, estresse e ansiedade12,5,23. Essas experiências emocionais foram relatadas pelas participantes da pesquisa, evidenciando o impacto profundo que o diagnóstico de risco gestacional exerce sobre a vida da mulher.
A vivência de uma intercorrência gestacional altera profundamente a forma como a mulher se percebe, gerando um sentimento de vulnerabilidade que reflete tanto sua própria condição quanto a preocupação constante com a saúde do bebê8,23. Sob a perspectiva fenomenológica de Heidegger18, essa experiência revela uma dualidade existencial, marcada por limitações à liberdade e à expressão da essência do ser. As mães entrevistadas que enfrentaram complicações precisaram ser hospitalizadas, interrompendo seus hábitos e rotinas, evidenciando como o diagnóstico transforma não apenas o corpo, mas também a maneira de habitar o mundo.
Portanto, ao lidar com a doença durante a gravidez, as gestantes se deparam com angústias, medos, inseguranças e preocupações relacionadas à perspectiva de recuperação ou ao risco de perda do filho, ilustrando as subdivisões do estado de “ser doente”, conforme proposto por Heidegger18 e Boss26.
De acordo com Heidegger15, o ser humano é lançado no mundo em um estado de abertura à existência, o que implica estar constantemente sujeito à influência de eventos que fogem ao seu controle. Nesse contexto, a gestação pode ser compreendida como um projeto, uma forma de ser-no-mundo direcionada ao futuro. Quando esse projeto é interrompido ou ameaçado por uma complicação, a mulher se depara com a impropriedade do existir, vivendo um estado em que o mundo antes familiar se torna estranho, angustiante e repleto de incertezas.
Corroborando isso, Merleau-Ponty27 destaca que toda experiência humana é vivida por meio do corpo. Este não é apenas o espaço das alterações fisiológicas, mas também o ponto de partida para a percepção e a relação com o mundo. Assim, a gestante que enfrenta intercorrências não apenas entende racionalmente os riscos, mas os sente em seu corpo e em suas emoções, afetando sua percepção de si mesma e do bebê. Conforme Figueiredo28 e Nagai29 essa dimensão da experiência pode explicar o intenso sofrimento relatado diante da
possibilidade de parto prematuro ou da sensação de que algo não está evoluindo corretamente em seu próprio corpo, como evidenciado nas falas de algumas gestantes deste estudo.
Convém destacar ainda que o vínculo com o bebê, estabelecido por meio do corpo, é marcado pela ansiedade. A gestante não apenas teme pela vida do filho, mas também sofre ao perceber que seu próprio corpo pode constituir uma ameaça. Essa situação intensifica sentimentos de culpa, fragilidade e inadequação, ampliando a distância entre a experiência real da gestação e sua expectativa idealizada. A corporalidade torna-se, assim, uma fonte de insegurança e angústia, influenciando a formação da identidade materna nesta conjuntura de riscos gestacionais22,30,13.
O modo de ser doente envolve alterações na corporeidade do existir humano e na percepção espacial do ser-no-mundo, aspectos que Boss26 considera fundamentais para a existência humana. Nesse contexto, as gestantes que enfrentam intercorrências veem sua experiência marcada por angústia, medo, insegurança e preocupação com a possibilidade de recuperação ou perda do bebê, refletindo as subdivisões do modo de ser doente descritas por Heidegger18.
Deve-se notar também as alterações na corporeidade e na espacialidade, conceitos centrais propostos por Medard Boss26 e Heidegger18, demonstram que a doença não afeta apenas o corpo fisicamente, mas também transforma a forma como o indivíduo habita o espaço e se percebe em seu próprio existir. A corporeidade, entendida como corpo vivido, passa a ser percebida como fonte de fragilidade e risco, comprometendo a confiança na continuidade do ser. A espacialidade, por sua vez, refere-se à inserção do sujeito no mundo; no caso da gestação de risco, o ambiente deixa de representar segurança, sendo marcado por hospitalizações, procedimentos médicos e vigilância constante.
Outrossim, nesse cenário, a hospitalização, enfrentada por muitas gestantes com diagnóstico de risco, representa uma ruptura significativa com a rotina e a familiaridade do cotidiano6,12. A mulher é afastada do lar, de suas atividades habituais e da convivência com filhos, parceiros e redes de apoio, encontrando-se em um ambiente que, embora seguro do ponto de vista médico, se torna estranho e repleto de incertezas.
O tempo passa a ser vivido de forma suspensa, marcado pela espera de exames, monitoramentos e decisões clínicas, gerando sensações de impotência e vulnerabilidade14,3. O corpo deixa de ser apenas um veículo da vida e se transforma em fonte de fragilidade, enquanto a vida se apresenta frágil e distante, revelando a tensão entre cuidado, medo e esperança 24, 31.
Neste cenário, ao ser inserida no espaço hospitalar, o corpo da gestante, além de vivenciar os efeitos dos diagnósticos de risco, passa a ser intensamente vigiado e monitorado por dispositivos técnicos e diferentes profissionais. Essa experiência pode ser percebida como uma perda de autonomia sobre si mesma, uma vez que decisões clínicas passam a ser mediadas por protocolos, prontuários e exames, muitas vezes sem considerar as vivências subjetivas 27,13.
A sensação de ser reduzida a “ser doente”, em detrimento de sua condição como pessoa, intensifica o sofrimento emocional, podendo gerar sentimentos de despersonalização, isolamento e invisibilidade, evidenciando a tensão entre corporeidade, subjetividade e cuidado técnico 8,26.
A escuta das experiências das gestantes mostra que o diagnóstico de risco coloca a mulher diante de um limiar existencial, marcado pelo medo da perda, pela incerteza em relação ao futuro e pela necessidade de reorganizar sua percepção sobre a gravidez, a maternidade e o próprio corpo31,5. Nessa perspectiva, a consciência do risco intensifica a sensação de finitude e vulnerabilidade, aspectos essenciais da existência humana. Esse momento evidencia tanto a fragilidade física quanto a profundidade do impacto emocional e existencial da gestação de risco.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo demonstra que a identificação de intercorrências durante a gestação em mulheres hospitalizadas provoca impactos emocionais intensos e complexos, caracterizados por medo, ansiedade, insegurança e sensação de vulnerabilidade diante do risco à vida do bebê. Essas vivências afetam não apenas o estado psicológico da gestante, mas também a experiência da maternidade, exigindo atenção especializada para lidar com os desafios emocionais decorrentes.
A pesquisa destaca que a compreensão das gestantes não deve se limitar apenas aos aspectos fisiológicos, sendo necessário reconhecer e valorizar os elementos subjetivos e emocionais que surgem diante das intercorrências. Isso contribui para a promoção de um cuidado mais sensível, individualizado e humanizado. Os resultados indicam que um acompanhamento integral, que combine suporte clínico e emocional, é essencial para reduzir a vulnerabilidade psicológica, fortalecer a experiência materna e garantir que as necessidades emocionais das mulheres sejam plenamente atendidas, mesmo em situações de risco.
A investigação reforça a importância de abordagens qualitativas e fenomenológicas na saúde materna, uma vez que compreender os significados que as gestantes atribuem às intercorrências possibilita a elaboração de intervenções mais empáticas, respeitosas e eficazes. Essa perspectiva metodológica evidencia como a pesquisa qualitativa permite acessar dimensões subjetivas profundas da experiência humana, fornecendo subsídios para estratégias de cuidado mais humanas e contextualizadas.
No campo da saúde coletiva, os resultados deste estudo apresentam contribuições significativas. Evidenciam a necessidade de políticas e práticas voltadas à saúde materna que incorporem a dimensão emocional do cuidado, destacando a importância da formação de profissionais capazes de oferecer uma assistência integral e humanizada, bem como do fortalecimento de estratégias de prevenção e intervenção em maternidades. Ressalta-se, sobretudo, o valor de ações de acolhimento e de escuta qualificada, que ampliam a qualidade da atenção para além do controle clínico, favorecendo o bem-estar materno e social de forma abrangente.
É importante destacar que este estudo apresenta limitações, como apresentar uma amostra reduzida e a condução da pesquisa em um único contexto, restringindo a possibilidade de generalização dos resultados para outras populações ou cenários.
Sua contribuição fundamental é contribuir para o aprimoramento do cuidado integral, humanizado e sensível às necessidades emocionais das gestantes, consolidando diretrizes que fortaleçam práticas de saúde coletiva e políticas públicas voltadas à maternidade em contextos de risco, ressaltando o valor da pesquisa qualitativa para compreender a experiência e o sofrimento humano e sua superação.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
REFERÊNCIAS
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