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0153/2026 - Impactos da pandemia na expectativa de vida da população no Brasil e no semiárido brasileiro entre 2010 e 2022
Impacts of the pandemic on life expectancy in Brazil and in the Brazilian semi-arid region between 2010 and 2022

Autor:

• Marcos Roberto Gonzaga - Gonzaga, MR - <marcos.gonzaga@ufrn.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6088-3453

Coautor(es):

• Karina Cardoso Meira - Meira, KC - <ninameira87@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1722-5703

• Flávio Henrique Miranda de Araújo Freire - Freire, FHMA - <flavio.freire@ufrn.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7416-9947

• Bernardo Lanza Queiroz - Queiroz, BL - <blanza@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2890-1025

• Everton Emanuel C. Lima - Lima, EEC - <evertone@unicamp.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6275-9854



Resumo:

A pandemia de Covid-19 mostrou-se seletiva e positivamente correlacionada a idade da população, uma vez que maior risco de mortalidade foi observado na população adulta e idosa, especialmente entre pessoas com comorbidades. Historicamente, os diferenciais regionais de mortalidade no Brasil estão associados a desigualdades regionais e socioeconômicas, sendo que as taxas mais altas de mortalidade são observadas em áreas mais empobrecidas. Neste contexto, este estudo tem por objetivo investigar o impacto da pandemia na expectativa de vida no Brasil e Semiárido brasileiro no período de 2010 a 2022. Trata-se de um estudo ecológico que utilizou registros de óbito do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Departamento de Informática do SUS e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Os dados de mortalidade foram corrigidos quanto à subnotificação, e o impacto direto e indireto da pandemia sobre a expectativa de vida foi estimado por meio do método de Arriaga. Os resultados mostram um maior impacto da pandemia com retrocessos na expectativa de vida em ambos os sexos, tanto para o Brasil quanto para o Semiárido no ano de 2021. O aumento de mortes não foi apenas por Covid-19, mas em muitas causas que reverteram as suas tendências e passaram a contribuir negativamente para a expectativa de vida.

Palavras-chave:

mortalidade, decomposição, expectativa de vida, covid-19

Abstract:

The Covid-19 pandemic has demonstrated a selective and positive correlation with population age, disproportionately affecting mortality risks among adults and the elderly, particularly those with pre-existing comorbidities. Historically, regional disparities in mortality in Brazil have been closely linked to socioeconomic and geographic inequalities, with higher mortality observed in more impoverished areas. In this context, this study investigates the impact of the pandemic on life expectancy in Brazil and the Brazilian Semi-arid region between 2010 and 2022. This is an ecological study that utilized death records from the Mortality Information System of the Department of Informatics of the Unified Health System (SUS) and the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE). Mortality data were adjusted for underreporting, and the direct and indirect impacts of the pandemic on life expectancy were estimated using Arriaga’s decomposition method. The results indicate a significant impact of the pandemic, with declines in life expectancy for both sexes in both Brazil and the Semi-arid region in 2021. The increase in mortality was not solely attributable to Covid-19 but also to several other causes of death, which reversed previous trends and began to contribute negatively to life expectancy.

Keywords:

mortality, decomposition, life expectancy, Covid-19

Conteúdo:

Introdução

O Brasil e suas diferentes regiões foram severamente afetados pela pandemia de Covid-19, apresentando altas taxas de contágio e excesso de óbitos desde o início de 2020¹??. Os efeitos da pandemia no país não foram homogêneos, manifestando-se com maior intensidade nas regiões Norte e Nordeste, historicamente caracterizadas por elevada vulnerabilidade socioeconômica e profundas iniquidades em saúde¹??.
Essa vulnerabilidade foi intensificada pela ausência de uma resposta nacional coordenada, associada à postura negacionista do governo federal??¹?. A desigualdade na distribuição de médicos, leitos hospitalares e outros recursos de saúde entre as capitais e o interior exacerbou a fragilidade das populações residentes nas áreas interiores do Norte e Nordeste do Brasil?,??¹?. Entre essas, destaca-se a região do Semiárido brasileiro que é marcada pela limitada presença do Estado que se manifesta na fragmentação de programas políticos de desenvolvimento regional e por significativas carências de infraestrutura e recursos, especialmente na área de saúde¹??¹¹.
Além da infraestrutura de saúde deficitária, as características sociodemográficas da população agravam sua vulnerabilidade diante de eventos adversos. Fatores como a prevalência de doenças crônicas, estrutura etária, densidade populacional, tamanho e composição dos domicílios, condições sanitárias, migração e padrões de deslocamento, que variam regionalmente entre populações subnacionais¹²?¹³, são essenciais para compreender a magnitude e os impactos da pandemia sobre a mortalidade e a expectativa de vida. Ademais, desigualdades socioeconômicas e diferenças na estrutura etária são determinantes para explicar as diferenças regionais no impacto da pandemia sobre esses indicadores no Brasil ³.
Nos estágios iniciais da pandemia, grande parte dos estudos focou na análise do excesso de mortalidade geral¹?. Esse indicador tem a vantagem de não depender de informações específicas sobre causas de morte, permitindo a avaliação dos efeitos diretos e indiretos da pandemia³,¹??¹?. Contudo, com a atualização das bases de dados e a disponibilidade de informações detalhadas sobre causas de morte, torna-se possível a realização de estudos adicionais que investiguem como a pandemia de Covid-19 afetou a dinâmica de saúde e mortalidade da população. Persistem, contudo, lacunas significativas no conhecimento, demandando pesquisas voltadas tanto para o enfrentamento dos efeitos de longo prazo da pandemia quanto para a compreensão de seus desdobramentos sobre a saúde e os níveis de mortalidade, especialmente considerando as marcantes iniquidades socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde nas distintas regiões brasileiras.
Outros estudos analisaram o impacto da pandemia na expectativa de vida do Brasil e suas regiões segundo causas nos dois primeiros anos da pandemia17-18. Neste artigo se propõe a avançar no conhecimento ao oferecer uma análise, voltada para o Semiárido brasileiro — uma das regiões historicamente mais marcadas por vulnerabilidades socioeconômicas e desigualdades no acesso à saúde. Assim, investigamos os impactos da pandemia na mortalidade e, consequentemente, na expectativa de vida da população, desagregados por sexo, grupos etários e causas de morte. O estudo busca responder às seguintes perguntas: (i) Qual foi o impacto da pandemia de Covid-19 nas taxas de mortalidade por idade e na expectativa de vida da população brasileira e do Semiárido? (ii) Houve diferenças no impacto da pandemia de Covid-19 na expectativa de vida entre a população brasileira como um todo e a do Semiárido? (iii) Qual foi o impacto dos grupos de causas e das causas selecionadas na expectativa de vida durante a pandemia de Covid-19 no Brasil e no Semiárido?
Métodos
Este estudo ecológico analisou dados populacionais e de óbitos por idade, sexo e causa, obtidos do IBGE e do SIM/DataSUS para 2010 e 2019–2022. Foram incluídas as causas dos Capítulos I (infecciosas e parasitárias), II (neoplasias), IX (doenças circulatórias), XV (gravidez, parto e puerpério) e XX (causas externas), além das mortes por Covid-19, suicídio e homicídio. A escolha dessas categorias visou captar o impacto da pandemia: no Capítulo I, pela natureza infecciosa da Covid-19; nos Capítulos II e IX, pelas comorbidades que elevaram o risco e sofreram descontinuidade de serviços; no Capítulo XV, pelo aumento da mortalidade materna; e no Capítulo XX, pelo crescimento de homicídios e suicídios em contextos de crises sanitárias19-22.
O Semiárido Brasileiro compreende uma área de aproximadamente 1,33 milhão de km², distribuída por 1.477 municípios. A área abrange municípios localizados em onze unidades da federação, sendo elas: Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo (Material Suplementar 1).

Apesar de avanços na cobertura, ainda há subnotificação de óbitos em áreas vulneráveis. Por esse motivo, a cobertura de óbitos do Brasil e do Semiárido no ano de 2010 foi ajustada com fatores de correção do projeto Busca Ativa de Óbitos23-24. Para os anos de 2019 a 2022 foram utilizados os fatores de correção dos óbitos de acordo com metodologia empregada pelo IBGE para os anos de 2019 a 2022 (IBGE, 2025)25-26. Observa-se uma melhoria expressiva na cobertura dos óbitos entre 2010 e 2020 em diversos municípios do Semiárido (Material Suplementar 2).
A partir dos óbitos corrigidos, foram calculadas taxas de mortalidade por sexo e grupos de idade. Essas taxas foram convertidas em probabilidades de morte e, em seguida, foram calculadas as demais funções da tábua de vida, usando os métodos demográficos clássicos26-27. As tábuas de vida foram estimadas por sexo e grupos quinquenais de idade para os anos de 2010, 2019, 2020, 2021 e 2022, tanto para a população do Brasil como do Semiárido.
O método de Arriaga28 foi empregado para decompor as variações na expectativa de vida em função das mudanças nas taxas de mortalidade geral, por grupos etários e por causas específicas. Comparativamente a outras técnicas de decomposição, essa abordagem oferece as seguintes vantagens: i) é adequada a dados discretos, como é o caso de tábuas de vida por grupos quinquenais de idade, ii) é de fácil implementação computacional, iii) os efeitos estimados são aditivos, possibilitando a soma dos efeitos para grupos etários distintos, iv) utiliza apenas funções de uma tábua de vida e, v) possibilita analisar, de forma direta e simples, como alterações na mortalidade em cada idade e causa contribuem para o ganho ou perda total de anos de vida28-30.
Segundo Arriaga29, as mudanças na mortalidade por grupo etário influenciam a expectativa de vida por meio de três componentes principais. O Efeito Direto corresponde à mudança nos anos de vida dentro de cada faixa etária em função da variação de sua taxa de mortalidade. O Efeito Indireto resulta dos anos de vida adicionais gerados pelo aumento no número de sobreviventes ao término do intervalo etário, decorrente da redução da mortalidade nessa faixa. Por fim, o Efeito de Interação captura a contribuição conjunta das mudanças de mortalidade em diferentes faixas etárias sobre a variação total da expectativa de vida, distinguindo-se dos impactos exclusivos de cada grupo etário.
Com base nas funções de uma tábua de vida, e seguindo a metodologia proposta em outros estudos30, a contribuição total de mudanças na mortalidade por grupos de idade, entre o ano t e o ano t+k, para mudanças na expectativa de vida ao nascer no mesmo período, pode ser determinado por:
?(_n^)C?_x^ =[( l_x^t)/( l_0^t )×((?(_n^)L?_x^(t+k))/( l_x^(t+k) )-(?(_n^)L?_x^t)/( l_x^t ))]+[( T_(x+n)^(t+k))/( l_0^t )×(( l_x^t)/( l_x^(t+k) )-( l_(x+n)^t)/( l_(x+n)^(t+k) ))] (1)
onde l, L e T são funções da tábua de vida, x é a idade inicial do intervalo etário a ser analisado e n é o tamanho do intervalo etário; t é o ano inicial de observação e t+k é o ano final de observação (por exemplo: 2010 a 2021).
O primeiro termo do lado direito de (1) diz respeito ao Efeito Direto, enquanto o segundo termo diz respeito aos Efeitos Indiretos e de Interação. A soma de todos os efeitos representa o efeito total, que equivale à variação total que mudanças na mortalidade representam para variações na expectativa de vida ao nascer.
Decomposição por causas de morte:
Para análise do impacto de mudanças nas taxas de mortalidade por causas na expectativa de vida ao nascer, a contribuição de mudanças na mortalidade em um dado grupo etário, tal como na equação (1), foi particionada no número de anos de contribuição devida a determinado causa de morte:
?(_n^)C?_x^i=?(_n^)C?_x^ ×[( (?(_n^)R?_x^(i,t+k) × ?(_n^)M?_x^(t+k) )-(??(_n^)R?_x^(i,t) × (_n^)M?_x^t ))/( ??(_n^)M?_x^(t+k)-(_n^)M?_x^t )] (2)
onde os sobrescritos i, t e t+k e a quantidade ?(_n^)C?_x^ tem os mesmos significados da equação (1); ?(_n^)R?_x^i é a proporção de mortes entre as idades x e x + n devido à causa i; ?(_n^)M?_x^ é a taxa de mortalidade da tábua de vida por todas as causas entre as idades x e x + n.
As análises foram realizadas no programa R versão 4.4.2. Os dados de entrada e os códigos computacionais para replicabilidade dos resultados deste estudo estão disponíveis no repositório .
Resultados
Os resultados revelam, em ambos os sexos e regiões, um aumento das taxas de mortalidade a partir do grupo etário de 25 a 29 anos nos dois primeiros anos de pandemia, com pico em 2021, e um excesso de mortalidade masculina acentuado entre 15 e 40 anos quando comparado ao das mulheres no mesmo grupo etário (Material Suplementar 3).
Entre 2010 e 2019, a expectativa de vida ao nascer cresceu no Brasil e no Semiárido, mas estagnou ou retrocedeu em 2020-2021 e iniciou recuperação em 2022, sem alcançar os patamares de 2019 (Tabela 1). No Semiárido, homens passaram de 71,2 para 72,8 anos e mulheres de 79,0 para 80,2 anos (+1,6 e +1,2 anos, respectivamente). No Brasil, o ganho foi de +2,3 anos para homens e +1,6 anos para mulheres. Em 2020, a expectativa apenas desacelerou; em 2021, retrocedeu 0,2 e 0,9 anos para homens do Semiárido e 0,2 ano para mulheres; no Brasil, ambos os sexos retrocederam apenas em 2021 (Tabela 1).
Aplicando o método de Arriaga às tábuas de vida de 2010, 2019, 2020, 2021 e 2022, aferiu-se a contribuição das mudanças nas taxas de mortalidade por grupos etários para a variação da expectativa de vida (Figuras 1 e 2; Material Suplementar 4). De 2010 a 2019, quase todas as faixas etárias contribuíram positivamente, exceto 15–19 anos (homens, Semiárido) e ?80 anos (mulheres, Brasil). No Semiárido, a redução da mortalidade infantil explicou 27% do ganho de 1,6 anos masculino e 34 % do ganho de 1,2 anos feminino. No Brasil, as quedas de mortalidade acima de 40 anos responderam por 67 % (homens) e 76 % (mulheres) dos aumentos, contra 54 % e 49 % no Semiárido (Figuras 1 e 2; Material Suplementar 4).
Comparando 2010 com 2020, o Semiárido apresentou efeitos negativos predominantes em idades acima de 10 anos, que mais que compensaram os ganhos dos mais jovens, resultando num retrocesso de 0,2 anos para homens (Tabela 1; Figura 1). Para mulheres, embora o maior impacto negativo fosse em ?80 anos, as reduções em faixas inferiores geraram aumento de 0,5 anos no Brasil e 0,3 anos no Semiárido (Figuras 1 e 2; Material Suplementar 4).
Em 2021, quando ocorreu o maior excesso de mortalidade, ambos os sexos e regiões registraram retrocessos mais intensos, concentrados em idades acima de 40 anos, especialmente no Brasil (Tabela 1; Figuras 1 e 2; Material Suplementar 4). Em 2022, as contribuições negativas diminuíram, mas ainda persistiram em ?80 anos, com maior impacto sobre mulheres no Semiárido.
A decomposição por causa de morte e faixa etária (Figuras 3 e 4; Materiais Suplementares 3 e 4) mostrou que, de 2010 a 2019, quase todas as causas contribuiram positivamente, gerando um efeito total (ET) líquido de +1,6 anos (mulheres) e +2,3 anos (homens) no Brasil, e +1,2 anos (mulheres) e +1,6 anos (homens) no Semiárido. Entretanto, no Semiárido feminino, aumentos em homicídios, neoplasias e suicídios tiveram efeito negativo. Destacam-se ainda impactos negativos de suicídios (-0,018 anos para mulheres; -0,079 anos para homens) e homicídios masculinos (-0,123 anos), embora as outras causas externas (excluídos suicídios e homicídios) tenham contribuído positivamente (+0,38 anos) para o ganho masculino de 1,6 anos no Semiárido (Figuras 3; Material Suplementar 5).
Nos períodos pandêmicos, entre 2010 e 2020, as mortes por Covid-19 acima de 40 anos foram o principal fator negativo. Para homens, apenas a Covid-19 reduziu a expectativa em 1,911 anos no Brasil e 1,541 anos no Semiárido (Figura 3). Como as demais causas agregadas somaram +2,454 anos no Brasil, o ET foi +0,5; no Semiárido, o ET total ficou em -0,2 anos. Para mulheres, a Covid-19 diminuiu 1,86 anos no Brasil e 1,506 anos no Semiárido, mas os ganhos de outras causas resultaram em ET positivo (+0,5 e +0,3 anos, respectivamente), embora o ritmo de crescimento tenha se estabilizado em comparação a 2019 (Figuras 3 e 4; Material Suplementar 5 e 6).
Em 2021, a Covid-19 impôs impacto ainda mais negativo, sobretudo entre homens de 40 a 64 anos (Figuras 3 e 4). No recorte de 2010 a 2022, observou-se nova reversão positiva em várias causas, mas persistência dos efeitos negativos da Covid-19 em >65 anos. Destaca-se também o aumento do impacto de suicídios (entre 15 e 50 anos) e homicídios (15-30 anos) no Semiárido masculino (Figuras 3 e 4).
Discussão
No período de 2010 a 2019, observou-se redução da mortalidade em todas as faixas etárias e causas no Brasil e no Semiárido, elevando a expectativa de vida em ambos os sexos. O país avançou nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, com queda de quase 50% na mortalidade infantil entre 1990 e 2015, fruto de melhorias socioeconômicas, tecnologias médicas e intervenções eficazes em saúde pública31-34. Apesar do Semiárido apresentar expectativa de vida superior à média nacional em todos os anos, verifica-se um efeito crossover: até 50 anos, suas taxas de mortalidade são iguais ou superiores às nacionais; após essa idade, tornam-se inferiores16,31,34-36 (Material suplementar 7). Esse padrão também é observado ao comparar as taxas por idade das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste com as do Norte e Nordeste, embora com algumas exceções. A análise de Schmertmann et al. (2024)37 contribui para esse debate ao simular como erros de declaração da idade, cobertura dos óbitos e enumeração populacional interagem e afetam as taxas de mortalidade e a expectativa de vida em idades avançadas. Os autores concluem que, isoladamente ou em conjunto, tais erros não explicam integralmente o crossover, apontando a necessidade de novas investigações sobre suas causas.
O Brasil, possui um histórico de colonização e exploração que gerou desigualdades regionais significativas, perpetuadas até os dias atuais. As atividades produtivas e os complexos econômicos concentram-se nas regiões Sul e Sudeste, bem como no litoral da região Nordeste38-40. Essas desigualdades refletem-se no campo da saúde, manifestando-se em condições desiguais de saúde entre populações, maior vulnerabilidade e exposição a riscos, além do acesso desigual aos recursos e serviços do sistema de saúde38,40. A configuração do SUS exemplifica essas desigualdades: enquanto a Atenção Primária à Saúde (APS) foi expandida para as regiões de maior vulnerabilidade socioeconômica, os serviços de média e alta complexidade permanecem concentrados nas capitais e metrópoles, predominantemente no eixo Centro-Sul do país. Tal distribuição fragmentada resulta em iniquidades geográficas de acesso e em grandes variações nos fluxos de pacientes para utilização dos serviços38,40.
No Semiárido, a redução da mortalidade infantil e em crianças de 1 a 9 anos desempenhou papel relevante no aumento da expectativa de vida. Essa melhoria pode ser atribuída à ampliação do acesso à Atenção Primária à Saúde, ao aumento da cobertura da Estratégia de Saúde da Família e à implementação do Programa Mais Médicos. Essas políticas de saúde parecem ter beneficiado mais intensamente essa região. Sabe-se que indicadores de saúde infantil respondem rapidamente a alterações socioeconômicas e a melhorias no acesso aos serviços de saúde32-33,41-43. Possivelmente os municípios do Semiárido sofreram maior impacto dessas ações de saúde por apresentarem maior carga de morbimortalidade em crianças para diarreia, infecções respiratórias inferiores e outras doenças infecciosas33,41-43.
Tanto no Brasil quanto no Semiárido, para ambos os sexos, foram evidentes as contribuições positivas da mortalidade por doenças circulatórias sobre mudanças na expectativa de vida ao nascer, até mesmo nos períodos que sobrepõe com os anos da pandemia. O Brasil em seu processo de transição epidemiológica tem vivenciado redução das taxas de mortalidade por doenças do aparelho circulatório e elevação dos coeficientes de mortalidade por câncer41-43.No entanto, estudos apontam quedas mais acentuadas da mortalidade cardiovascular — especialmente por infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral — nos estados do Centro-Sul33,41-43, com aumento nas regiões Norte e Nordeste33,41-444. As diferenças na redução da mortalidade por doenças cardiovasculares entre as regiões do país decorrem, em grande medida, das iniquidades em saúde: desigualdades no acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce, na disponibilidade e qualidade de cuidados agudos e crônicos (controle da hipertensão, tratamento do infarto e reabilitação), e nos determinantes sociais que moldam a exposição a fatores de risco44-47.
A redução da mortalidade por doenças do aparelho circulatório no Brasil deve-se melhorias no acesso ao tratamento da hipertensão e diabetes, e redução da prevalência do tabagismo na população, principais fatores de risco para doença isquêmica do coração e acidente vascular cerebral. Ademais, houve ampliação da cobertura de ambulâncias, o que poderia ter melhorado a qualidade do atendimento pré-hospitalar de pacientes com síndrome coronária aguda e acidente vascular cerebral47-49. Paralelamente, a consolidação de Linhas de Cuidado para infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, amparadas por normativas nacionais e estaduais que organizaram a distribuição territorial das referências hospitalares e padronizaram fluxos assistenciais em tempo oportuno , contribuiu para reduzir atrasos no diagnóstico e no tratamento44-49.No entanto, é importante destacar que essas melhorias na atenção à saúde mantiveram as históricas iniquidades em saúde no território nacional, o que pode explicar os menores impactos positivos da mortalidade por doenças do aparelho circulatório na população do Semiárido.Nos homens e mulheres do Semiárido entre os anos de 2010 e 2019 as causas externas apresentaram aumento das taxas de mortalidade, o mesmo ocorreu com os suicídios nos homens residentes no Brasil. A violência representa uma das principais causas de mortalidade precoce no Brasil, com maior carga de doença nas regiões Norte e Nordeste33,50-52. No Brasil, as principais causas de óbito entre este grupo de causas foram: homicídios, acidentes de transporte e suicídios. Até a década de 1980, a principal causa de morte eram os acidentes de transporte, superados pelos homicídios que atualmente representam a maior carga de morte e perda de anos potenciais de vida (AVPP) em homens jovens51.
Nossa hipótese é que o maior aumento das taxas de mortalidade por causas externas em homens e mulheres residentes no Semiárido (2010 e 2019) em comparação com o Brasil, pode relacionar-se ao processo de interiorização e disseminação da violência50-52. Nessa conjuntura, verificou-se redução das taxas de homicídios nas regiões metropolitanas das regiões Sul e Sudeste, com aumento dos homicídios nas capitais e municípios do interior das regiões Norte e Nordeste. A região Nordeste apresentou pico de incidência nos homicídios nos anos de 2016 e 2017, com redução nos anos seguintes, mas mantendo a magnitude das taxas em alto nível50-53.
No que diz respeito ao impacto da pandemia na expectativa de vida, observou-se que, o ritmo de aumento da expectativa de vida entre 2010 e 2019 foi interrompido, com maior impacto em 2021, tanto no Brasil quanto no Semiárido. Em 2020 as mortes por Covid-19 já eram relevantes com redução na expectativa de vida em homens no Semiárido (-0,20). No entanto o maior efeito ocorreu em 2021, nesse ano, a redução da expectativa de vida foi mais intensa no Brasil em relação ao Semiárido.
O impacto da pandemia teve enorme heterogeneidade regional e diferenças substanciais de acordo com fatores sociodemográficos, principalmente durante a primeira onda.Conjuntura que pode explicar em partes o porquê identificamos redução na expectativa de vida somente nos homens residentes no Semiárido no ano de 20202,16,33. No entanto, no segundo ano da pandemia, o impacto da pandemia parece ter sido elevado para todos, mas extremamente maior nos residentes nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para o estado do Amazonas e Roraima16,35.
A pandemia de Covid-19 teve um impacto significativo no Brasil, revertendo décadas de avanços na expectativa de vida em nível estadual e evidenciando profundas fragilidades estruturais2,16,35,53-55. A ausência de coordenação federativa comprometeu a efetividade das ações de saúde, resultando em respostas díspares entre estados e municípios. Cada ente federado adotou estratégias e calendários próprios, o que contribuiu para desigualdades na mitigação dos efeitos da crise sanitária. A falta de políticas equitativas e baseadas em evidências científicas, somada à disseminação de desinformação, agravou os desafios, sobretudo entre populações de baixa renda em áreas urbanas densamente povoadas. Embora o país disponha de um sistema de saúde universal, de agentes comunitários qualificados e de uma sólida capacidade científica, a desarticulação institucional acentuou as iniquidades regionais, socioeconômicas e raciais, limitando a eficácia das ações de enfrentamento53-55.
Entre maio e setembro de 2020, a mortalidade diária alcançou cerca de 1.000 óbitos, mas a segunda onda, iniciada em novembro, aumentou dramaticamente esses números, com mais de 3.500 mortes diárias no pico de março de 202135. Enquanto outros países avançavam na vacinação e conseguiam reduzir casos e mortes, o Brasil permaneceu estagnado, os efeitos sanitários negativos foi agravado por fatores como mutações do vírus, variantes mais transmissíveis e a falta de comprometimento governamental53-55.
A pandemia de Covid-19 e as medidas adotadas para mitigar a transmissão do SARS-CoV-2, juntamente com a reestruturação dos serviços de saúde, geraram efeitos diretos e indiretos no padrão das causas de óbito durante os anos pandêmicos2,16,35,53-57. Nesse contexto, era esperado um declínio nos acidentes de trânsito durante os períodos de bloqueio, redução nos indicadores de violência urbana (como homicídios), aumento de feminicídios devido à intensificação da violência doméstica durante a quarentena, e um possível crescimento de mortes relacionadas a outras condições de saúde (câncer, doenças do aparelho circulatório e outras doenças crônicas), caso os hospitais ficassem sobrecarregados e o acesso a cuidados médicos fosse prejudicado21-22,56.
Nessa direção, os resultados desse estudo indicaram distintos efeitos da pandemia na mortalidade segundo causas de óbito, sexo, região e idade. No ano de 2020, o câncer e outras causas de morte impactaram negativamente a expectativa de vida, especialmente em mulheres acima de 65 anos. Esse efeito foi ainda mais acentuado em idosos acima de 80 anos, independentemente do sexo ou região. Nesse contexto, as mortes por Covid-19 começaram a emergir, com destaque para o Semiárido, evidenciando as primeiras consequências da pandemia. Em 2021, as mortes por Covid-19, somadas as mortes por todas outras causas, afetaram significativamente a expectativa de vida, com maior gravidade entre pessoas acima de 20 anos em todas as regiões e para ambos os sexos. Em 2022, os primeiros sinais de recuperação surgiram, com a redução de algumas causas de morte. No entanto, os óbitos por Covid-19, suicídios (especialmente no Brasil) e homicídios (especialmente entre homens do Semiárido) permaneceram relevantes.
Argumentamos que essas descobertas, possam estar relacionadas aos efeitos da pandemia na reorganização e sobrecarga dos serviços de saúde durante a pandemia que dificultou a realização de consultas e exames preventivos e de acompanhamento. Ainda, a pandemia em seus períodos mais críticos dificultou o atendimento pré-hospitalar de qualidade para doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral entre outas morbidades e agravos à saúde, contribuindo para o aumento da mortalidade por câncer em 2020 e por todas as causas em 202121-22,53-55.
As diferenças no efeito da pandemia na expectativa de vida entre o Semiárido e o Brasil no ano de 2020, pode estar relacionada a alta vulnerabilidade socioeconômica e de saúde dessa região. Em 2019, na região Nordeste havia uma média de 1,3 médicos por mil habitantes, com concentração nas áreas metropolitanas, enquanto o semiárido tinha apenas 0,5. Apenas 32,8% dos municípios possuíam respiradores, com uma média de 6,8 aparelhos por município. A situação dos leitos de UTI era crítica, estando presentes em apenas 5,2% dos municípios, com média geral de 3,3 leitos ou 62,3 nos locais que possuíam essa infraestrutura. No semiárido setentrional, a falta de respiradores e UTIs era alarmante, deixando vastas áreas sem condições de atender casos graves de Covid-1910.
Entre os efeitos da mortalidade segundo causas merece destaque o efeito negativo dos suicídios. Nos anos de 2010 e 2019 a lesão autoprovocada teve impacto negativo na expectativa de vida de homens, especialmente na faixa etária de 10 a 19 anos. E nos anos pandêmicos essa causa de óbito também impactou negativamente a expectativa de vida, com maior destaque para o ano de 2021. No Brasil, o suicídio tem apresentado tendência ascendente a partir de 2010, com aumento expressivo em crianças e adolescentes, representando a segunda causa de óbito em adolescentes de 15 a 19 anos. No início da pandemia houve redução abrupta nas taxas mensais de suicídio, seguida por aumento progressivo desses coeficientes. Em situação de guerras, crises econômicas, sanitárias e desastres naturais ocorre aumento da coesão social, e o aumento dos laços de solidariedade é um fator de proteção contra o suicídio21-22,56, ao longo do tempo esses laços se fragilizam e juntamente com o aumento do transtorno de estresse pós-traumático e outros problemas de saúde mental, ocorre aumento das taxas de suicídio56.
Os resultados do presente estudo possuem algumas limitações, entre elas destacam-se o fato dos registros de óbito não terem sido corrigidos para a má certificação da declaração de óbito, o que pode ter influenciado a mortalidade por causas de óbito, especialmente no Semiárido..Ainda, a correção dos óbitos por sub-registro no semiárido foi feita ao nível de município, onde existe maior variabilidade nos parâmetros estimados. Assim, podem existir outros erros nos dados que não foram avaliados e corrigidos neste estudo, como erros de cobertura da população e erros de declaração da idade, tantos nos óbitos quanto na população. A qualidade dos dados de óbitos e população pode estar negativamente correlacionada com o nível de desenvolvimento da região. No entanto, o estudo contribuí para o entendimento do impacto da pandemia na expectativa de vida no Brasil e em uma área de grande vulnerabilidade socioeconômica e de saúde. O Semiárido enfrenta vulnerabilidades significativas devido à seca e pobreza, agravadas pela precariedade na infraestrutura de saúde.
Conclusão
Os achados indicam que a pandemia de Covid-19 reduziu de modo significativo a mortalidade e a expectativa de vida no Brasil, com impacto especialmente grave no Semiárido. Essas diferenças regionais refletem desigualdades estruturais históricas: precarização dos serviços de saúde, baixa densidade de profissionais e insuficiência de infraestrutura. A queda na expectativa de vida em 2021, sobretudo entre adultos e idosos, reforça o papel das condições sociodemográficas e da capacidade de resposta do sistema. O aumento da mortalidade por causas externas e por suicídio em jovens ressalta a importância de considerar efeitos indiretos, como saúde mental e violência.
Para enfrentar esses desafios, é urgente implementar políticas públicas integradas e territorialmente sensíveis, que amenizem impactos de longo prazo e combatam iniquidades de acesso. O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, a aprimoração da qualidade dos dados vitais e ações intersetoriais de proteção social e equidade são fundamentais para promover uma recuperação mais justa, sobretudo em regiões historicamente negligenciadas.

Agradecimentos
A pesquisa foi desenvolvida com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq - Processo: 406432/2021-0) e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Norte (FAPERN - Processo nº 10910019.000311/2021-01).
Marcos R. Gonzaga agradece ao apoio recebido do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo 303956/2025-9).
Karina Cardoso Meira agradece ao apoio recebido do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo 306652/2022-6).
Flávio Henrique Miranda de Araújo Freire agradece ao apoio recebido do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo 302412/2025-5).
Bernardo Lanza Queiroz agradece ao apoio recebido do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo 303411/2022-8).
Everton Emanuel C. Lima agradece ao apoio recebido do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processo 303928/2022-0).



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Gonzaga, MR, Meira, KC, Freire, FHMA, Queiroz, BL, Lima, EEC. Impactos da pandemia na expectativa de vida da população no Brasil e no semiárido brasileiro entre 2010 e 2022. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jun). [Citado em 23/06/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/impactos-da-pandemia-na-expectativa-de-vida-da-populacao-no-brasil-e-no-semiarido-brasileiro-entre-2010-e-2022/20051?id=20051&id=20051

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