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0145/2026 - PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL EM ESCOLAS PÚBLICAS DE MINAS GERAIS, BRASIL: INTERVENÇÕES E INOVAÇÕES
Mental Health Promotion in Public Schools in Minas Gerais, Brazil: Interventions and Innovations

Autor:

• Aisllan Diego de Assis - Assis, AD - <aisllanassis@ufop.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1727-4211

Coautor(es):

• Rosangela Minardi Mitre Cotta - Cotta, RMM - <rmmitre@ufv.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5331-9734

• Adriana Maria de Figueiredo - Figueiredo, A.M - <adrianamfigueiredo@ufop.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9222-6397

• Siomara Aparecida da Silva - Silva, SA - <siomarasilva@ufop.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7590-9129

• Gabriela Guerra Leal de Souza - Souza, GGL - <gabriela.souza@ufop.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8068-864X

• Mariana Luz Patez - Patez, ML - <mariana.patez@aluno.ufop.edu.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2673-426X

• Leandro de Carvalho Rodrigues - Rodrigues, LC - <leandro.rodrigues@bombeiros.mg.gov.br>
ORCID: https://orcid.org/0009-0006-6404-731X.

• Henriqueta Ilda Verganista Martins Fernandes - Fernandes, HIVM - <ildaverganistafernandes@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8440-3936



Resumo:

O artigo apresenta o projeto “Saúde Mental nas Escolas e Fora Delas”, voltado ao cuidado em saúde mental e à prevenção da autolesão não suicida (ALNS) e do suicídio em três escolas públicas de Minas Gerais, Brasil. Trata-se de uma pesquisa-intervenção (2024-2027) fundamentada na pesquisa-ação participativa, que articula métodos quantitativos e qualitativos sob a perspectiva da Saúde Coletiva. Os resultados preliminares evidenciam alta prevalência de sofrimento psíquico entre estudantes e profissionais da educação, com índices preocupantes de ideação suicida, ALNS e bullying. O diagnóstico institucional revelou, ainda, importantes lacunas de segurança e ausência de regularização junto ao Corpo de Bombeiros. A análise qualitativa permitiu mapear os sentidos e as necessidades de cuidado nas comunidades escolares. Conclui-se que a integração de ações intersetoriais — incluindo formação docente, intervenções com biofeedback cardiorrespiratório e psicomotricidade — constitui uma abordagem ainda pouco explorada e replicável, com potencial para fortalecer ambientes escolares mais seguros, acolhedores e promotores de saúde.

Palavras-chave:

Saúde mental; Promoção da Saúde na Escola; Pesquisa-Ação; Prevenção do Suicídio; Saúde Coletiva.

Abstract:

This article presents the project “Mental Health in and out of Schools”, aimed at mental health care and the prevention of non-suicidal self-injury (NSSI) and suicide in three public schools in Minas Gerais, Brazil. The study is an intervention-research project (2024–2027) grounded in participatory action research, integrating quantitative and qualitative methods from the perspective of Collective Health. Preliminary findings reveal a high prevalence of psychological distress among students and education professionals, with concerning rates of suicidal ideation, NSSI, and bullying. The institutional diagnosis also identified significant safety gaps and the absence of compliance with Fire Department regulations. Qualitative analysis enabled the mapping of meanings and care needs within school communities. The study concludes that the integration of intersectoral actions — including teacher training, cardiorespiratory biofeedback interventions, and psychomotricity — constitutes a still underexplored and replicable approach, with the potential to strengthen safer, more welcoming, and health-promoting school environments.

Keywords:

Mental Health; School Health Promotion; Action Research; Suicide Prevention; Public Health.

Conteúdo:

INTRODUÇÃO
O contexto contemporâneo das escolas públicas de ensino médio no Brasil revela um cenário de agravamento do sofrimento mental entre adolescentes, impactado por vulnerabilidades sociais e institucionais1. Sintomas de ansiedade, depressão e estresse, bem como a autolesão e a ideação suicida, revelam uma realidade alarmante que desafia os campos da saúde coletiva e da educação2.
A pandemia de COVID-19 atingiu com especial intensidade as comunidades escolares mais precarizadas, aprofundou desigualdades históricas e intensificou expressões de sofrimento mental3,4. No pós-pandemia, desde 2022, os efeitos persistem em forma de sobrecarga emocional de professores, evasão escolar, aumento dos casos de violência autoprovocada, rupturas nos vínculos escolares e ausência ou incipiência de políticas públicas efetivas que integrem saúde e educação.
A gravidade desse cenário vem sendo reiterada por estudos nacionais de abrangência populacional, como por exemplo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 20245, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde, identificou que os indicadores relacionados à saúde mental entre adolescentes brasileiros permanecem elevados, mesmo após a pandemia de COVID-19. O relatório destaca a intensificação do bullying entre 2019 e 2024, o agravamento da insatisfação corporal e o crescimento de situações de violência e sofrimento mental no ambiente escolar, reforçando a centralidade da escola como território estratégico para ações de promoção da saúde mental e prevenção de agravos psicossociais.
Em Minas Gerais, essa crise da saúde mental nas escolas se articula com os impactos contínuos dos desastres socioambientais causados pela mineração6. A Região dos Inconfidentes, na porção central de Minas Gerais, é formada por municípios históricos e economicamente interligados como Ouro Preto, Mariana e Itabirito. Essas cidades possuem, respectivamente, cerca de 74 mil, 61 mil e 52 mil habitantes, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) Municipal variando entre 0,717 e 0,770, respectivamente. A economia regional combina turismo histórico-cultural e natural com intensa atividade mineradora, que responde por parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) local, mas impõe impactos socioambientais duradouros, como degradação de recursos hídricos, riscos de desastres e alterações no uso e ocupação do solo7. Essas condições afetam diretamente a rede de ensino ao produzirem insegurança territorial, fragilização de vínculos comunitários, intensificação das desigualdades sociais, sofrimento psicossocial e percepção contínua de risco entre adolescentes e profissionais da educação, especialmente em territórios marcados por barragens, deslocamentos populacionais e ameaças ambientais relacionadas à mineração8,9. Simultaneamente, o patrimônio histórico e a identidade cultural da região conferem senso de pertencimento e potencial de mobilização às comunidades escolares, fatores estratégicos para iniciativas de promoção da saúde e fortalecimento de vínculos comunitários10.
Esse cenário carece de iniciativas que busquem articular prevenção, cuidado e promoção da saúde mental de forma intersetorial e territorializada. É nesse campo de urgências e potências que se inscreve o projeto “Saúde Mental nas Escolas e Fora Delas”, pesquisa-intervenção universitária que teve origem na experiência realizada entre 2022 e 2023 no distrito histórico de Antônio Pereira, em Ouro Preto (MG), em todas as unidades escolares (públicas municipais e estaduais, comunitárias e privadas)11. Essa primeira experiência compôs e validou uma metodologia de base participativa e comunitária12.
A experiência fundadora do projeto foi ampliada para três escolas públicas estaduais de ensino médio nas cidades de Ouro Preto, Mariana e Itabirito, em Minas Gerais. Com previsão de 36 meses entre 2024 e 2027, a proposta reúne cerca de 450 participantes — entre estudantes, profissionais das escolas e comunidade — e tem como objetivo geral contribuir para a promoção da saúde mental e a prevenção do suicídio e da autolesão não suicida (ALNS) entre adolescentes, por meio de ações integradas de diagnóstico, formação, intervenção e produção de materiais educativos físicos e digitais.
A originalidade deste estudo reside na articulação entre diferentes dimensões do cuidado em saúde mental escolar, integrando diagnóstico institucional, análise qualitativa das experiências de sofrimento e propostas de intervenção baseadas na promoção da saúde. Diferentemente de abordagens centradas exclusivamente na dimensão clínica individual, o projeto compreende a escola como território social, relacional e afetivo, no qual condições estruturais, vínculos comunitários e processos subjetivos se inter-relacionam.
Nesse contexto, a incorporação de estratégias como psicomotricidade e biofeedback cardiorrespiratório não é apresentada como recurso tecnológico isolado, mas como parte de uma proposta ampliada de cuidado, fundamentada na Saúde Coletiva e orientada pela construção de ambientes escolares mais seguros, acolhedores e promotores de regulação emocional. Assim, a contribuição do estudo está na construção de um modelo intersetorial de intervenção que articula saúde, educação, território e inovação em saúde mental escolar.
O objetivo deste trabalho é apresentar o projeto “Saúde Mental nas Escolas e Fora Delas”, discutindo os resultados do primeiro ano da pesquisa-intervenção, destacando suas contribuições para o fortalecimento de políticas públicas de saúde mental na escola, a partir de experiências intersetoriais, participativas e territorializadas de cuidado.
MÉTODOS
Desenho do estudo
Trata-se de uma pesquisa-intervenção13 de abordagem predominantemente qualitativa14, fundamentada na pesquisa-ação participativa. Embora o projeto macro utilize métodos mistos, o presente recorte prioriza a profundidade das subjetividades e relações escolares, utilizando os dados quantitativos de forma complementar para a contextualização do cenário. Essa integração justifica-se pela compreensão de que os dados numéricos podem oferecer suporte empírico à interpretação qualitativa, sem substituí-la. O projeto está em desenvolvimento entre 2024 e 2027, em três escolas públicas estaduais de Ouro Preto, Mariana e Itabirito, Minas Gerais, sendo este artigo referente aos resultados preliminares obtidos entre junho de 2024 e dezembro de 2025. O modelo lógico integra diferentes níveis de atuação, estruturando-se em três fases: (1) diagnóstico da rede; (2) intervenções e formações intersetoriais; e (3) avaliação e consolidação de produtos, como guias pedagógicos e plataforma digital. As ações baseiam-se em práticas grupais, no acolhimento e na produção de conhecimento humanizado15,16.
A integração entre diagnóstico institucional, escuta coletiva e intervenções psicossociais foi estruturada a partir da compreensão da saúde mental como fenômeno multidimensional, produzido na interação entre condições subjetivas, relações sociais e contextos institucionais. Dessa forma, as estratégias propostas no projeto não foram concebidas como intervenções isoladas, mas como componentes complementares de um modelo ampliado de promoção da saúde mental escolar.
Participantes e local do estudo
Todos os estudantes do ensino médio, profissionais das escolas (gestores, professores e funcionários da limpeza, cozinha e secretaria) e integrantes da comunidade (familiares, voluntários e líderes comunitários) das três escolas de Ouro Preto, Mariana e Itabirito foram convidados a participar por atuarem em unidades urbanas de médio porte, funcionarem em três turnos e estarem em cidades com histórico elevado de notificações de autolesão, ideação ou tentativa de suicídio17. A seleção das escolas considerou a proximidade geográfica, a semelhança socioeconômica, o impacto da mineração e a anuência das equipes gestoras. Duas das escolas oferecem ensino em tempo integral.
A primeira etapa do estudo (avaliação da saúde mental) contou com a participação de 227 estudantes, 49 profissionais e 27 membros da comunidade nas três unidades selecionadas. Na segunda etapa (rodas de saúde mental), as ações envolveram 300 participantes, entre profissionais e estudantes. Os critérios de inclusão compreenderam a anuência voluntária para maiores de 18 anos e, para os menores de idade, a assinatura do Termo de Assentimento vinculada à autorização dos responsáveis via Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos aqueles que optaram por não participar ou que não obtiveram a autorização legal necessária.
Intervenções
As intervenções foram estruturadas a partir de um diagnóstico multidimensional das escolas e da rede de ensino, integrando ações que visaram compreender desde o clima organizacional até a segurança física das instituições. O percurso metodológico de intervenção dividiu-se em cinco eixos principais: (1) Avaliação da Saúde Mental, focada no perfil sociodemográfico e clínico dos participantes; (2) Diagnóstico escolar e da rede de ensino, por meio de indicadores educacionais e macroestruturais; (3) Avaliação da segurança escolar, realizada em parceria com órgãos técnicos; (4) Rodas de saúde mental, voltadas ao acolhimento e coleta de dados qualitativos; e (5) Estruturação de fluxogramas de acolhimento, para a gestão de casos de vulnerabilidade identificados.
1) Avaliação de Saúde Mental:
Nos meses de outubro a dezembro de 2024, foram aplicados os seguintes instrumentos: questionário sociodemográfico e clínico elaborado pelos autores, Self-Reporting Questionnaire – 20 itens (SRQ-20)18 Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse – 21 itens (EDAE-21)19 Coping Orientation to Problems Experienced (Brief COPE)20 Satisfaction with Life Scale (SWLS)21 Escala de Solidão da UCLA (UCLA Loneliness Scale)22 Escala Global de Bullying23 e QIAIS-A24.
2) Diagnóstico escolar e da rede de ensino:
Entre os meses de janeiro e maio de 2025, o diagnóstico foi realizado pelos autores, por meio de roteiro semiestruturado autoral, que integrou o levantamento de dados estruturais e indicadores de desempenho, como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), tanto das escolas participantes quanto da rede de ensino na qual estão inseridas. Essa análise macroestrutural permitiu mapear o território de atuação e compreender como as políticas e os índices educacionais da região influenciam as dinâmicas locais, servindo de base para a interpretação dos processos subjetivos investigados.
3) Avaliação da segurança escolar:
Entre janeiro e maio de 2025, o Pelotão de Prevenção e Vistoria do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) realizou uma avaliação completa voltada à segurança das edificações, seguindo a Lei Estadual nº 14.130/200125. Essa vistoria abrangeu toda a escola, com foco em áreas de risco, como o refeitório, avaliando medidas de prevenção e combate a incêndio, protocolos de emergência, uso das centrais de gás e a capacitação dos responsáveis no manuseio de extintores. Foi verificada a existência de Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), rotas de fuga, sinalização e equipamentos de combate a incêndio.
4) Rodas de saúde mental
Entre maio e dezembro de 2025, foram conduzidas oito rodas de saúde mental nas três escolas participantes, mediadas pelos pesquisadores do estudo. As atividades consistiram no uso da técnica dos Três Giros da Roda15 e ocorreram nos próprios espaços escolares. Para a coleta e registro dos dados, aplicaram-se as técnicas do Varal da Saúde Mental26 e do Mural da Escola Acolhedora27. O público-alvo compreendeu estudantes e professores, que foram convidados a compartilhar suas vivências em um processo de construção coletiva e acolhimento.
5) Fluxograma de acolhimento e gestão de casos
Paralelamente às rodas, estruturou-se um fluxograma para a equipe de acolhimento, visando a gestão de casos graves28. Esta frente responsabilizou-se pelo acompanhamento contínuo de membros da comunidade escolar identificados com sofrimento mental, ideação suicida ou histórico de ALNS durante as avaliações anteriores.
Tratamento e análise dos dados
Os dados quantitativos provenientes das avaliações de saúde mental foram organizados em planilhas Excel separadas por grupos: estudantes, profissionais das escolas e comunidades, e a apresentação das médias e percentuais.
As transcrições das rodas de saúde mental e das entrevistas foram submetidas à análise de conteúdo, na modalidade temática29, seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados com inferência e interpretação. O percurso analítico foi orientado pela lupa interpretativa da Saúde Coletiva30, buscando compreender o fenômeno não apenas em sua dimensão individual, mas como reflexo das condições sociais e institucionais do ambiente escolar.
A partir da leitura flutuante e da codificação dos núcleos de sentido, os dados foram organizados em duas categorias temáticas principais: a) Sentidos da saúde mental nas escolas: que explora as representações, estigmas e percepções de estudantes e profissionais sobre o que significa "estar saudável" ou "estar em sofrimento" no contexto educacional; b) Necessidades de apoio à saúde mental nas escolas, que identifica as demandas urgentes de acolhimento, as lacunas na rede de cuidado e as propostas de suporte intersetorial manifestadas pelos participantes. A síntese interpretativa buscou articular os discursos coletados com o contexto macroestrutural previamente identificado no diagnóstico, permitindo uma compreensão profunda das dinâmicas de sofrimento e das potencialidades de cuidado nas escolas.
Os resultados do diagnóstico escolar e da rede de ensino, assim como a avaliação da segurança escolar foram sistematizados em relatórios técnicos e enviados às equipes escolares e à Superintendência Regional de Ensino, contendo achados, pontos críticos, recomendações e encaminhamentos necessários para aprimorar a segurança, o cuidado e a promoção da saúde mental no ambiente escolar.
Aspectos éticos
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto (CAAE 75509223.7.0000.5150), em conformidade com a Resolução CNS nº 466/1231. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; para menores de 18 anos, foi obtido o consentimento dos responsáveis e o termo de assentimento do estudante. As atividades foram agendadas sem prejuízo da rotina escolar, garantindo sigilo, anonimato e direito de desistência.
O fluxograma da equipe de acolhimento definiu como procedimentos essenciais: escuta ativa, mapeamento do histórico do participante, contato com familiares, articulação com a rede local (CAPS, unidades de saúde, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar) e devolutiva sistemática à escola28. Esse acompanhamento foi personalizado conforme a gravidade e a necessidade de cada participante, com monitoramento periódico e registro das ações, buscando assegurar suporte integral e fortalecer a rede de apoio.
RESULTADOS
A análise dos diagnósticos institucionais das três escolas participantes do estudo evidenciou contextos socioeducacionais diversos, com pontos de convergência quanto a desafios estruturais, pedagógicos e psicossociais e esforços institucionais voltados à inclusão educacional, enfrentamento da evasão escolar e fortalecimento de vínculos com a comunidade (Quadro 1). No entanto, enfrentam limitações importantes relacionadas ao desempenho acadêmico, à infraestrutura e à saúde emocional da comunidade escolar.
Quadro 1: Caracterização das Escolas - Mariana, Itabirito e Ouro Preto

Quadro 1

Após o tratamento dos dados da avaliação de saúde mental, os resultados consolidados revelaram indicadores significativos de vulnerabilidade. O Quadro 2 sintetiza a prevalência de sofrimento mental, ideação suicida e ALNS entre os participantes, oferecendo um panorama quantitativo que complementa a análise qualitativa deste estudo.
Quadro 2: Avaliação de Saúde Mental

Quadro 2

Em Ouro Preto, 80% dos profissionais apresentaram escore moderado de ideação suicida, com 20% relatando já terem pensado em se matar e a mesma proporção indicando pensamentos recorrentes de desaparecimento, indicadores relevantes. Em Itabirito, 56,5% apresentaram escore moderado, 4,3% escore elevado e 17,4% relataram já ter tido pensamentos suicidas. Além disso, em ambos os municípios, observou-se o uso crescente de medicações, relatos de insônia, exaustão emocional e dificuldade em manter rotinas saudáveis de sono e atividade física. A ideação suicida entre os profissionais também apresentou indicadores relevantes.
Destaca-se que entre 8% e 13% dos estudantes dos três municípios relataram pensar frequentemente em se matar, e aproximadamente 25% afirmaram sentir, com frequência, vontade de desaparecer. Tais achados reforçam a gravidade da situação emocional entre os jovens das escolas públicas estaduais da região.
Os registros dos professores revelaram uma percepção comum da saúde mental como estado de equilíbrio emocional sustentado por vínculos interpessoais positivos. Os resultados das rodas de saúde mental nas escolas indicam que, apesar das particularidades de cada comunidade escolar, há convergências significativas nos sentidos e necessidades de apoio à saúde mental (Quadro 3).
Quadro 3: Os sentidos e as necessidades expressos nas Rodas de Saúde Mental

Quadro 3

A avaliação técnica (imagens 1 e 2) sobre a segurança contra incêndio e pânico revelou uma situação de irregularidade e vulnerabilidade institucional. Nenhuma das instituições possuía o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) e não havia tratativas em andamento para sua regularização. Ou seja, não havia Segurança Contra Incêndio e Pânico (PSCIP) e nem medidas de segurança obrigatórias instaladas, configurando descumprimento da legislação estadual vigente.
As escolas possuíam extintores e sinalizações de emergência implementadas; entretanto, sua instalação não seguia as recomendações de um projeto aprovado pelo CBMMG, o que comprometia a eficácia das medidas. Em situação mais preocupante, a escola localizada no município de Mariana não possuía qualquer medida de segurança contra incêndio e pânico. Ademais, nenhuma das edificações possuía sistema de hidrantes instalado (item obrigatório) e não havia uma brigada de incêndio treinada para atuar em casos de emergência.
As vistorias identificaram outras falhas recorrentes e preocupantes, como armazenamento inadequado de gás GLP em grande quantidade nas escolas de Ouro Preto e Itabirito, e utilização de mangueiras de GLP vencidas na escola de Ouro Preto. Tais constatações, somadas a um histórico de advertências prévias, demonstram a persistência das inadequações identificadas e necessidade urgente de intervenção para garantir a segurança da comunidade escolar.
Figuras 1 e 2: visita técnica do Corpo de Bombeiros nas Escolas

Fig.1

DISCUSSÃO
Os resultados gerais deste estudo revelam um panorama que transcende as particularidades geográficas e estruturais das escolas públicas avaliadas em Ouro Preto, Mariana e Itabirito. As três instituições compartilham vulnerabilidades que impactam a segurança, a saúde física e mental de estudantes e educadores. A gravidade dos achados exige uma interpretação que articule as deficiências internas das escolas com cenários regionais e nacionais mais amplos, nos quais a educação pública, já fragilizada, enfrenta os reflexos de um contexto social e econômico cada vez mais adverso32.
A evidência mais contundente e convergente entre as três escolas é a prevalência de sofrimento mental significativo na população estudantil. Os resultados quantitativos indicam elevada prevalência de sofrimento mental. Em todas as unidades, a maioria dos estudantes reportou níveis de sofrimento mental severo ou extremamente severo na escola de Mariana, 66% dos alunos, seguidos por 63% na de Ouro Preto e 47% na de Itabirito. Tais números, longe de serem eventos isolados, reforçam a tese de que a escola pública brasileira, particularmente no ensino médio, se tornou um local onde os traumas e as inseguranças sociais se expressam de maneira aguda33. Em decorrência disso, a ALNS aparece como estratégia de enfrentamento do sofrimento mental, sendo reportada pelos estudantes como uma forma de aliviar as angústias cotidianas.
A compreensão da autolesão não suicida (ALNS) e da ideação suicida no contexto escolar exige considerar os processos sociais que produzem sofrimento mental entre adolescentes. Nesse sentido, a teoria do estresse de minoria34,35, contribui para compreender como experiências contínuas de discriminação, exclusão e violência simbólica afetam grupos socialmente vulnerabilizados, produzindo sentimentos de não pertencimento, isolamento e fragilização emocional.
No ambiente escolar, essas experiências frequentemente se manifestam por meio de práticas de bullying, racismo, LGBTfobia, machismo, capacitismo e outras formas de violência interpessoal. Estudos nacionais e internacionais demonstram que adolescentes expostos de forma recorrente a situações de humilhação, rejeição e violência apresentam maior risco de sofrimento mental, autolesão e ideação suicida36-37. Nesse contexto, a ALNS pode operar como mecanismo de enfrentamento do sofrimento mental e tentativa de regulação psíquica diante da ausência de redes efetivas de acolhimento e proteção.
Esses achados dialogam diretamente com os resultados da PeNSE 2024, que identificou a permanência de níveis elevados de sofrimento mental entre adolescentes brasileiros, além do aumento da frequência do bullying entre estudantes no período pós-pandemia5. Embora o relatório nacional indique melhora em alguns indicadores de saúde mental em comparação com 2019, o próprio IBGE destaca que os níveis observados no Brasil ainda permanecem elevados quando comparados às evidências internacionais. Nesse contexto, os percentuais encontrados nas escolas investigadas em Minas Gerais — especialmente os relacionados à ideação suicida, solidão e autolesão não suicida — sugerem um quadro de agravamento importante em territórios marcados por vulnerabilidades sociais e socioambientais.
A PeNSE 2024 identificou que o bullying se intensificou entre 2019 e 2024, atingindo estudantes de escolas públicas e privadas em diferentes regiões do país5. O relatório ressalta que, mesmo nos contextos em que a prevalência geral permaneceu estável, houve aumento da frequência das agressões entre aqueles que vivenciaram situações de violência, indicando a consolidação do bullying como fenômeno estrutural do ambiente escolar brasileiro.
A articulação com os resultados da pesquisa nacional é ainda mais nítida ao observar os indicadores de risco psicossocial. As taxas elevadas de solidão (49% a 53%), ideação suicida (36,3% a 38,1%) e ALNS (14,3% a 28,3%) nas três escolas demonstram que tais comportamentos de risco são reflexo de um problema que se manifesta de forma generalizada. Quando comparados aos achados de estudos nacionais38,39,40,41,42, os resultados desta pesquisa sugerem que as escolas investigadas não são exceções, mas sim um espelho da realidade que a juventude brasileira compartilha. Entretanto, embora os dados nacionais indiquem que o sofrimento mental entre adolescentes constitui atualmente um importante problema de saúde pública no Brasil, os resultados encontrados neste estudo apresentam magnitude particularmente elevada em alguns indicadores, sobretudo ideação suicida, solidão e práticas autolesivas. Isso sugere que fatores territoriais específicos — como vulnerabilidade social, precarização das políticas públicas locais e impactos psicossociais associados à mineração — podem intensificar o sofrimento emocional nas comunidades escolares investigadas. A recorrência desses indicadores nas três escolas investigadas sugere que o sofrimento mental entre adolescentes não pode ser interpretado apenas como experiência individual, mas como expressão de condições sociais, institucionais e relacionais mais amplas. A escola emerge simultaneamente como espaço de proteção e de produção de sofrimento, revelando a necessidade de estratégias intersetoriais permanentes de cuidado.
O sofrimento mental também atravessa os profissionais da educação. Os elevados índices de sofrimento mental, solidão, insônia e exaustão emocional encontrados entre os trabalhadores das escolas corroboram estudos recentes sobre precarização do trabalho docente e desgaste emocional no contexto educacional brasileiro43. A fragilização das condições de trabalho e a ausência de suporte institucional comprometem não apenas o bem-estar dos educadores, mas também a capacidade de construção de ambientes escolares acolhedores.
As irregularidades identificadas na segurança das edificações escolares evidenciam que a precariedade do ambiente físico também constitui componente relevante da vulnerabilidade institucional. A ausência de regularização junto ao Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), associada à inexistência de medidas adequadas de prevenção e combate a incêndio em algumas escolas, revela limitações estruturais que extrapolam a dimensão pedagógica e impactam diretamente a sensação de segurança da comunidade escolar44.
A integração dos resultados quantitativos de adoecimento com as narrativas qualitativas colhidas nas rodas de saúde mental evidencia que o sofrimento mental no ambiente escolar não é um evento meramente individual ou clínico, mas um fenômeno produzido na intersecção entre o sujeito e as estruturas institucionais. Por sua vez, a convergência dos dados apresentados com a literatura nacional e internacional ganha densidade analítica ao ser interpretada sob a lupa da Saúde Coletiva, conforme o referencial teórico-metodológico de Onocko-Campos e Furtado30.
Ao adotar a análise dos 'sentidos' e 'as necessidades' de saúde mental este estudo revela como a precariedade física das escolas (atestada pelo diagnóstico de segurança) e a pressão por indicadores de desempenho (como o IDEB e o SAEB) operam numa zona abstrata da realidade, mas atravessam a subjetividade da comunidade escolar. Portanto, a conclusão a que se chega é que o cuidado integral nas escolas exige intervenções que articulem o suporte clínico à transformação das condições de vida e trabalho no território e promovam o fortalecimento da rede de proteção social.
Nessa perspectiva, a utilização futura de estratégias de psicomotricidade45 e biofeedback cardiorrespiratório adquire sentido não apenas técnico, mas também relacional e pedagógico. Evidências recentes da neurociência indicam que práticas voltadas à autorregulação fisiológica podem contribuir para redução do estresse, melhora da regulação emocional e fortalecimento da percepção corporal46,47. Entretanto, neste estudo, tais recursos são compreendidos como dispositivos complementares dentro de uma abordagem ampliada de cuidado, evitando reducionismos biologizantes da saúde mental.
Em síntese, os resultados evidenciam que a crise da saúde mental nas escolas públicas não pode ser dissociada das desigualdades sociais, da precarização institucional e das fragilidades das redes de proteção social. Mais do que intervenções pontuais, o cenário investigado demanda políticas públicas intersetoriais capazes de integrar saúde, educação, assistência social e participação comunitária na construção de ambientes escolares seguros e promotores de cuidado.
CONCLUSÕES
As principais conclusões deste estudo evidenciam um cenário crítico de saúde mental nas escolas públicas investigadas, ao mesmo tempo em que reiteram o potencial de intervenções intersetoriais quando são tecnicamente planejadas e adaptadas às especificidades do contexto escolar.
O estudo mostrou que a alta prevalência de sofrimento mental, depressão, ansiedade e estresse, e os elevados índices de solidão, autolesão e ideação suicida entre adolescentes do ensino médio nas três escolas, não são problemas isolados, mas manifestações de vulnerabilidades sociais e institucionais. A convergência desses achados com os resultados nacionais da PeNSE 2024 reforça que a crise de saúde mental entre adolescentes brasileiros constitui um fenômeno estrutural e persistente no ambiente escolar. Contudo, os indicadores observados nas escolas investigadas sugerem agravamento importante em territórios submetidos a múltiplas vulnerabilidades sociais, ambientais e institucionais.
A ausência de regularização das escolas junto ao Corpo de Bombeiros, assim como outras falhas de segurança identificadas, é emblemática dessa vulnerabilidade, demonstrando que a fragilidade do ambiente físico se alinha à precariedade do suporte psicossocial. O cenário encontrado reforça a tese de que a escola é um microcosmo das crises sociais, exigindo uma abordagem de saúde que seja intersetorial e integral.
Nesse contexto, o projeto "Saúde Mental nas Escolas e Fora Delas" configura uma proposta intersetorial de intervenção em saúde mental escolar, cujo foco transcende o diagnóstico, avançando para o acolhimento, a capacitação e a inovação. Após a primeira fase de levantamento de dados, ainda em 2025 haverá uma segunda avaliação de saúde mental nas escolas, combinada com ações estratégicas realizadas para o fortalecimento das redes de proteção familiar e da comunidade escolar. Entre elas, se incluem treinamentos para adequação às normativas de segurança e prevenção do suicídio.
Como desdobramentos e próximas etapas desta pesquisa-intervenção, serão implementadas duas frentes inovadoras voltadas ao fortalecimento da saúde mental escolar. A utilização do biofeedback cardiorrespiratório, assim como da Psicomotricidade no contexto escolar, representa uma abordagem ainda pouco explorada em escolas públicas brasileiras, especialmente quando integrada a estratégias participativas de promoção da saúde mental e fortalecimento comunitário.
Haverá capacitação por meio de seis encontros formativos em 2026, com o curso de formação em saúde mental para educadores e funcionários das escolas, e vivências de psicomotricidade com os estudantes, numa abordagem que integra o desenvolvimento corporal e emocional. Os acolhimentos e acompanhamentos dos que necessitam de fortalecimento das redes de apoio e cuidado em saúde mental continuarão garantindo a sustentabilidade das ações. Finalmente, em 2027, o projeto culminará na fase de inovação, com a finalização e teste de uma plataforma digital para a promoção da saúde mental nas escolas de ensino médio.
A continuidade deste projeto e a sua replicação em outras redes de ensino público são não somente desejáveis, mas necessárias. A estrutura flexível e adaptável do projeto pode servir de base para políticas públicas de saúde mental na educação em outras regiões do Brasil. Sua eficácia reside na capacidade de integrar a pesquisa rigorosa com a prática comunitária e a inovação tecnológica, permitindo que cada intervenção seja ajustada para garantir a adequação cultural e territorial.
Ao priorizar o envolvimento de estudantes, professores e familiares desde o início, o projeto assegura que as soluções sejam construídas de forma participativa, respeitando as realidades locais e fortalecendo a autonomia das comunidades. Assim, esta proposta contribui para a promoção da saúde mental nas escolas de Ouro Preto, Mariana e Itabirito, mas também oferece um roteiro valioso para a construção de ambientes escolares mais seguros, saudáveis e acolhedores em outros territórios da região e do Brasil.
Financiamento
Este projeto recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG, Brasil, processo nº APQ-05666-23.
Agradecimentos
Aos membros da equipe de pesquisa, às escolas, à rede de instituições e aos participantes do projeto.
Contribuições dos autores
Aisllan Diego de Assis participou da concepção do estudo, coordenação geral da pesquisa-intervenção, elaboração metodológica, coleta e análise dos dados, redação do manuscrito e revisão final do texto.
Rosângela Minardi Mitre Cotta participou da concepção metodológica, supervisão científica do estudo, análise dos dados e revisão crítica do manuscrito.
Adriana Maria de Figueiredo participou da elaboração metodológica, coleta de dados, discussão dos resultados e revisão crítica do manuscrito.

Siomara Aparecida da Silva participou da construção das intervenções em psicomotricidade, análise dos resultados e revisão do manuscrito.
Gabriela Guerra Leal de Souza participou da coleta e sistematização dos dados, discussão dos resultados e revisão do texto.
Mariana Luz Patez participou da coleta de dados, organização do material empírico e revisão do manuscrito.
Leandro de Carvalho Rodrigues participou da avaliação técnica de segurança escolar, elaboração dos relatórios técnicos e revisão do manuscrito.
Henriqueta Ilda Verganista Martins Fernandes participou da discussão teórica, análise crítica dos resultados e revisão final do manuscrito.
Todos os autores aprovaram a versão final do artigo e declaram responsabilidade pública pelo conteúdo apresentado.
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Assis, AD, Cotta, RMM, Figueiredo, A.M, Silva, SA, Souza, GGL, Patez, ML, Rodrigues, LC, Fernandes, HIVM. PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL EM ESCOLAS PÚBLICAS DE MINAS GERAIS, BRASIL: INTERVENÇÕES E INOVAÇÕES. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jun). [Citado em 05/06/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/promocao-da-saude-mental-em-escolas-publicas-de-minas-gerais-brasil-intervencoes-e-inovacoes/20043?id=20043

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