0221/2026 - VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTOJUVENIL: VALIDAÇÃO DE FORMULÁRIO MÉDICO PELA TÉCNICA DELPHI
CHILD AND ADOLESCENT SEXUAL VIOLENCE: VALIDATION OF A MEDICAL FORM USING THE DELPHI TECHNIQUE
Autor:
• Lohanna Valeska de Sousa Tavares - Tavares, LVS - <Lohannavaleska@hotmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6426-0755
Coautor(es):
• Lorena Loiola Batista - Batista, LL - <Loiolalore@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2802-463X
• Luna Pinheiro Celedônio - Celedônio, LP - <Lunaceledonio@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6042-4774
• Larissa Elias Pinho - Pinho, LE - <Larissaeliaspinho@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7257-6645
Resumo:
Introdução: A violência sexual contra crianças e adolescentes constitui grave problema de saúde pública e importante fator de risco para desfechos físicos, mentais, sociais e psicológicos, com repercussões imediatas e a longo prazo.Objetivos: Descrever e validar o conteúdo de um instrumento de registro médico destinado ao atendimento de vítimas de violência sexual infantojuvenil.
Métodos: Estudo descritivo retrospectivo do desenvolvimento de um formulário de atendimento médico a vítimas de violência sexual infantojuvenil, seguido de validação por técnica Delphi, a fim de padronizar condutas e qualificar o atendimento médico.
Resultados: Participaram 16 especialistas, sendo realizadas duas rodadas do método Delphi até a obtenção da versão final, com índice de validade de conteúdo total de 0,93. O instrumento é composto por seis etapas, abrangendo anamnese, exame físico e condutas diagnósticas e terapêuticas, alinhadas às fases do atendimento emergencial.
Conclusão: O uso de instrumentos padronizados contribui para a sistematização e qualificação do atendimento, fortalecendo a proteção integral, o bem-estar das vítimas e a articulação entre profissionais e serviços de saúde.
Palavras-chave:
Violência Sexual; Abuso Sexual na Infância; Melhoria de Qualidade.Abstract:
Introduction: Sexual violence against children and adolescents constitutes a serious public health problem and an important risk factor for physical, mental, social, and psychological outcomes, with immediate and long-term repercussions.Objectives: To describe and validate the content of a medical record instrument intended for the care of victims of child and adolescent sexual violence.
Methods: A retrospective descriptive study of the development of a medical care form for victims of child and adolescent sexual violence, followed by validation using the Delphi technique, in order to standardize procedures and improve the quality of medical care.
Results: Sixteen specialists participated, with two rounds of the Delphi method being carried out until the final version was obtained, with a total content validity index of 0.93. The instrument consists of six stages, encompassing anamnesis, physical examination, and diagnostic and therapeutic procedures, aligned with the phases of emergency care.
Conclusion: The use of standardized instruments contributes to the systematization and qualification of care, strengthening comprehensive protection, the well-being of victims, and the coordination between professionals and health services.
Keywords:
Sexual Violence; Childhood Sexual Abuse; Quality ImprovementConteúdo:
A violência sexual contra crianças e adolescentes é um grave problema de saúde pública mundial, com repercussões físicas, mentais, sociais e psicológicas que podem persistir ao longo da vida das vítimas1,2. Para enfrentá-la de forma eficaz, é necessária uma rede de proteção articulada, envolvendo setores como Saúde, Assistência Social, Vigilância Epidemiológica, Educação, Justiça, organizações sociais e serviços especializados1. Esses atores são fundamentais para o atendimento integral, acolhimento, acompanhamento e tratamento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual1.
Entre 2015 e 2021, foram notificados 202.948 casos de violência sexual nessa população no Brasil, sendo 41,2% em crianças e 58,8% em adolescentes3. Em 2024, o país atingiu o maior número já registrado de estupros e estupros de vulnerável: 87.545 vítimas4. Somente no Ceará, contabilizaram-se 1.679 notificações no mesmo ano4, indicando a magnitude e persistência do problema.
O cuidado em saúde é direito garantido pela Lei nº 12.845/2013, conhecida como Lei do Minuto Seguinte, que assegura atendimento obrigatório e integral às vítimas de violência sexual. Nesse contexto, cresce a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde, especialmente nos serviços de emergência pediátrica, onde o atendimento a vítimas de abuso sexual infantil representa grande desafio5. Muitas dificuldades estão relacionadas ao desconhecimento sobre exames indicados, condutas e profilaxias, que variam conforme idade, tipo de contato e tempo entre o abuso e o atendimento5.
A Profilaxia Pós-Exposição (PEP) para HIV, hepatites virais e outras IST é medida essencial para redução de riscos, devendo ser utilizada sempre que houver possibilidade de contágio, como em situações de violência sexual6. Entretanto, falhas no atendimento e na documentação clínica podem resultar em perda de oportunidades para intervenções preventivas e terapêuticas importantes5.
Pesquisas recentes têm destacado a violência como tema de saúde pública e reforçado o uso de metodologias de pesquisa operacional para aprimorar estratégias de enfrentamento1,7. A padronização do atendimento e do registro clínico, com protocolos e instrumentos estruturados, contribui para maior eficiência, uniformidade e adoção de práticas baseadas em evidências, reduzindo variações indesejadas na assistência8.
Embora instituições nacionais e internacionais, como o Ministério da Saúde, World Health Organization e o United Nations Children's Fund, tenham desenvolvido diretrizes e protocolos clínicos para o reconhecimento, acolhimento e manejo da violência sexual infantil, os documentos apresentam conteúdo denso e permanecem pouco conhecidos ou pouco utilizados na prática assistencial dos serviços de emergência pediátrica nacionais. Tais dificuldades podem repercutir na heterogeneidade das condutas, na insegurança profissional e na fragilidade da abordagem multiprofissional.
Profissionais de saúde desempenham papel determinante para a recuperação das vítimas, considerando não apenas aspectos físicos, mas os impactos psicológicos e sociais associados. Assim, este trabalho propõe a validação de um instrumento padronizado para o atendimento inicial de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, atuando como guia de condutas e ferramenta de qualificação da assistência. Reforça-se a necessidade de ampliar o conhecimento profissional e consolidar políticas nacionais e institucionais que promovam melhorias contínuas nesse cuidado especializado.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, conduzida por meio da técnica Delphi, com o objetivo de validar o conteúdo de um formulário de atendimento médico a vítimas de violência sexual infantojuvenil. O instrumento foi proposto a partir da experiência de um hospital pediátrico de referência, que desde 2021 realiza atendimento a essas vítimas, assegurando atenção imediata, acolhimento, profilaxias para ISTs, contracepção de emergência e orientação sobre redes de proteção social.
O Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), integra desde maio de 2021 a Rede de Atenção a Mulheres, Adolescentes e Crianças, oferecendo assistência emergencial multidisciplinar 24 horas a vítimas de violência sexual. Essa atuação evidencia a importância da capacitação de profissionais de saúde, especialmente pediatras, e do uso de instrumentos padronizados que orientem a condução clínica e promovam maior qualidade e segurança no atendimento.
A pesquisa abrangeu o período de 2021 a 2025, incluindo a análise retrospectiva do desenvolvimento dos protótipos do instrumento (Etapa I: 2021–2023) e o estudo de validação da versão final por meio da técnica Delphi (Etapa II: 2024–2025), conforme Figura 1. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Parecer nº 7.026.081).
2.1 Recrutamento de especialistas (Processo Pré-Delphi)
O recrutamento dos especialistas foi realizado por meio de busca ativa na Plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e em artigos científicos nacionais, com o objetivo de identificar médicos brasileiros com experiência profissional e/ou interesse científico na temática da violência sexual infantojuvenil. Para garantir a heterogeneidade do painel, utilizou-se, ainda, a técnica "bola de neve", que consistiu na indicação de três novos especialistas para cada um dos pares inicialmente identificados. Essa estratégia foi fundamental para expandir o alcance da pesquisa para além do círculo inicial dos pesquisadores.
Os critérios de inclusão foram: (1) ser médico brasileiro com especialização em ginecologia e obstetrícia, pediatria e/ou infectologia; (2) demonstrar interesse pelo tema; e (3) preencher autoavaliação sobre experiência profissional, enquadrando-se em um ou mais dos seguintes subgrupos:
• Subgrupo 1: experiência no atendimento de vítimas de violência sexual em qualquer faixa etária;
• Subgrupo 2: experiência em atendimento de emergência pediátrica;
• Subgrupo 3: experiência em atendimento de infectologia.
Foram excluídos os profissionais sem disponibilidade, desinteressados no tema ou que não se enquadrassem nos subgrupos estabelecidos. Após o contato inicial, os participantes foram informados sobre os objetivos e a duração da pesquisa. Aqueles que aceitaram participar receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) por meio de formulário eletrônico (Google Forms). Após o aceite, foram realizados contatos virtuais com instruções detalhadas sobre o processo de avaliação e preenchimento dos questionários.
2.2 A técnica Delphi
A técnica Delphi foi utilizada para a validação de conteúdo do instrumento, visando à construção de consenso entre especialistas por meio de rodadas sucessivas. O anonimato das respostas e dos participantes foi assegurado, com o intuito de minimizar vieses de informação.
Em cada rodada, a versão do instrumento foi encaminhada por e-mail, acompanhada de questionário eletrônico (Google Forms) com itens a serem avaliados quanto à clareza, pertinência e disposição lógica. As respostas foram registradas em escala Likert de cinco pontos, variando de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”.
Nos casos de discordância parcial ou total, os especialistas justificaram suas respostas em campo aberto destinado a comentários e sugestões. O prazo de resposta foi de 60 dias, com lembretes semanais. Após cada rodada, foi elaborado feedback estruturado com a síntese das contribuições técnico-científicas, permitindo o aprimoramento progressivo do instrumento até o alcance do consenso.
2.3 Procedimentos de análise dos dados
A análise dos dados foi conduzida por meio de abordagens descritivas, qualitativas e quantitativas. Cada item e subitem foi avaliado segundo a escala Likert (1 a 5). Calculou-se o Índice de Validade de Conteúdo (IVC) para mensurar o grau de concordância entre os especialistas, aplicando-se as fórmulas:
• IVCitem = (nº de respostas 4 ou 5) / total de respostas;
• IVCtotal = (nº de respostas 4 ou 5) / (nº de especialistas × nº de itens).
Conforme Polit e Beck (2006)?, considerou-se satisfatório IVCtotal ? 0,90 e IVCitem ? 0,80. As respostas foram agrupadas por rodada e analisadas por dois pesquisadores, sendo divergências resolvidas por um terceiro. Itens com IVCitem < 0,80 foram obrigatoriamente revisados ou justificados com base nas observações dos especialistas; aqueles ? 0,80 puderam ser modificados a critério dos pesquisadores. As alterações foram incorporadas e reavaliadas em rodadas subsequentes até atingir o nível mínimo de validação estabelecido.
3. RESULTADOS
3.1 Etapa I – Desenvolvimento do instrumento
Em 2021, com o início do pronto atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual em hospital pediátrico de referência do Ceará, foi instituída uma comissão institucional responsável pela elaboração de um protocolo formal que contemplasse as especificidades do cuidado e a proteção de direitos. A ausência de prontuário eletrônico na instituição gerava registros manuscritos muitas vezes ilegíveis, dificultando a continuidade assistencial e a padronização das condutas.
Dessa necessidade surgiu o desenvolvimento de um instrumento institucional de atendimento médico às vítimas de violência sexual infantojuvenil, voltado à padronização do atendimento, apoio às decisões clínicas e melhoria da comunicação entre os profissionais envolvidos. O instrumento, inicialmente denominado “Ficha de Registro Médico para Atendimento Inicial Pós-Violência”, teve seu desenvolvimento estruturado em etapas sucessivas.
O protótipo 1 foi elaborado por especialista em infectologia pediátrica, tomando como base o Protocolo de Atendimento Médico à Vítima de Violência Sexual do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar e o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (PEP) de Risco à Infecção pelo HIV, IST e Hepatites Virais do Ministério da Saúde. As variáveis foram organizadas de acordo com o raciocínio clínico e o fluxo operacional da instituição.
Após debate acadêmico com especialistas da emergência pediátrica e do serviço de qualidade, foram incorporadas sugestões e ajustes que resultaram no protótipo 2, validado em março de 2021. Uma nova revisão foi realizada em setembro de 2023, consolidando a Versão 1 do instrumento.
3.2 Etapa II – Validação de conteúdo do instrumento
3.2.1 Recrutamento de especialistas (Pré-Delphi)
Para compor um painel heterogêneo, foram convidados médicos das cinco regiões do Brasil, selecionados por busca curricular na Plataforma Lattes do CNPq e indicação entre pares (“técnica bola de neve”). Dos 37 profissionais contatados, 16 preencheram os critérios de inclusão. Nenhum especialista envolvido no desenvolvimento participou da etapa de validação.
A amostra foi composta predominantemente por participantes do sexo feminino, correspondendo a 62,5% (10), enquanto o sexo masculino representou 37,5% (6). Em relação à faixa etária, observou-se distribuição semelhante entre os grupos de 36 a 45 anos e acima de 60 anos, ambos com 38% (6) dos participantes cada, enquanto a faixa de 40 a 60 anos correspondeu a 25% (4). Quanto à região do país em que atuam profissionalmente, houve predomínio de participantes da região Nordeste, representando 56% da amostra (9), seguida das regiões Sudeste, com 25% (4), e Sul, com 19% (3).
No que se refere à titulação acadêmica, metade (8) dos participantes possuía especialização ou residência médica. Doutorado foi referido por 31% (5) e mestrado por 19% (3). Em relação à especialidade médica, a ginecologia foi a mais frequente, representando 38% da amostra (6), seguida pela pediatria, com 31% (5), infectologia pediátrica, com 25% (4), e infectologia, com 6% (1). Sobre a experiência profissional, a maioria relatou atuação na área de violência sexual, correspondendo a 56% (9). A experiência em emergência pediátrica foi mencionada por 31% dos participantes (5), enquanto 13% (2) referiram atuação em infectologia.
2. Primeira rodada Delphi
A Versão 1 do instrumento foi enviada a 16 especialistas, dos quais 13 responderam ao questionário eletrônico (Google Forms) com escala Likert de cinco pontos, assegurando o anonimato. Dos 94 itens e subitens avaliados, 31 (33%) apresentaram IVCitem < 0,80 e foram revisados ou justificados conforme os comentários dos avaliadores. Uma planilha com as respostas e justificativas foi compartilhada entre todos os especialistas, subsidiando a reformulação do instrumento.
Nesta rodada, um dos itens com avaliação mais baixa (IVC 0,69) foi a divisão entre "menos de 72h" e "mais de 72h" para o atendimento, visto que diferentes profilaxias têm janelas distintas e usar um único marco temporal para todas as condutas poderia induzir o profissional ao erro de não prescrever medidas ainda eficazes após esse prazo.
Outro item com baixa pontuação (IVC 0,69) se deteve para a ausência de passos explícitos para o acionamento da rede de proteção, visto que o atendimento médico não termina na prescrição e não se pode omitir a comunicação obrigatória ao Conselho Tutelar e a notificação ao SINAN, mesmo que haja uma equipe multidisciplinar envolvida no processo institucional e com tais atribuições. Portanto, foi necessário incluir o acionamento do Sistema de Garantia de Direitos como parte integrante do fluxo.
Por fim, a omissão da profilaxia da Tricomoníase devido às interações e potenciais efeitos colaterais também gerou críticas (IVC 0,62), optando-se por recomendá-la, porém com a orientação de postergar o início caso a vítima precise usar antirretrovirais ou contracepção de emergência.
3.2.3 Segunda rodada Delphi
A Versão 2 foi reenviada aos 16 especialistas; 11 responderam dentro do prazo de 60 dias. Nessa rodada, o instrumento alcançou IVCtotal de 0,93, com apenas 2 (2,1%) itens apresentando IVCitem < 0,80, os quais foram novamente ajustados ou justificados. Essa versão consolidou a versão final validada do formulário, considerada adequada quanto à clareza, pertinência e aplicabilidade prática no contexto do atendimento médico de vítimas de violência sexual infantojuvenil.
3.2.4 Versão final do instrumento
A versão final da “Ficha de Registro Médico para Atendimento Inicial Pós-Violência Sexual” é um formulário destinado ao registro do atendimento a vítimas de violência sexual infantojuvenil, com o objetivo de padronizar o cuidado inicial em serviços pediátricos de pronto-atendimento. O instrumento orienta a tomada de decisões clínicas e assegura um cuidado mais seguro, ágil e integral.
Desenvolvido a partir da estrutura e do fluxo de um serviço de saúde exclusivamente pediátrico, de nível terciário e referência no atendimento a casos de violência sexual, o documento contempla as rotinas de atendimento realizadas por pediatras do serviço de emergência, apoiados por equipe multidisciplinar composta por psicólogos e assistentes sociais, responsáveis pelos encaminhamentos à rede de proteção e garantia de direitos.
A ficha é composta por seis etapas sequenciais, abrangendo desde a anamnese até o desfecho do caso, de modo a contemplar todas as fases do atendimento emergencial de crianças e adolescentes com suspeita ou confirmação de violência sexual.
3.2.4.1 Passo 1 – Anamnese, exame físico, exames laboratoriais e profilaxia de ISTs não virais
Conforme Figura 2, o atendimento inicia-se com a identificação da vítima, essencial para caracterização epidemiológica e contextualização do caso. A anamnese abrange informações sobre o episódio de violência (frequência, tipo, relação com o agressor) e investiga a ocorrência de outros tipos de maus-tratos. Em seguida, realiza-se o exame físico completo com registro detalhado dos achados clínicos.
Com base nessas informações, o profissional define as condutas laboratoriais e terapêuticas adequadas. Mesmo antes da liberação dos resultados dos exames, podem ser indicadas profilaxias medicamentosas conforme os protocolos do Ministério da Saúde, garantindo resposta imediata à exposição a ISTs.
3.2.4.2 Passo 2 – Avaliação dos resultados laboratoriais e indicação de PEP ao HIV
Após a obtenção dos resultados, conforme Figura 3, preferencialmente por testes rápidos, são adotadas novas condutas quanto à profilaxia pós-exposição (PEP) ao HIV. O esquema antirretroviral deve ser definido de acordo com a idade e o peso corporal, conforme recomendações atualizadas do Ministério da Saúde (Figura 4). Essa etapa é fundamental, visto que a adequação posológica e a escolha correta dos medicamentos podem não ser de domínio cotidiano dos profissionais de pronto-atendimento pediátrico.
3.2.4.3 Passo 3 – Avaliação da necessidade de contracepção de emergência
A avaliação da necessidade de contracepção de emergência deve ser conduzida de forma individualizada, considerando idade, estágio puberal e risco de gestação decorrente da violência sexual (Figura 4). O tempo decorrido desde o episódio é determinante para a efetividade da intervenção.
3.2.4.4 Passo 4 – Avaliação do histórico vacinal
Nesta etapa (Figura 4), deve-se revisar o histórico vacinal da criança ou adolescente, com foco nos imunizantes relacionados à prevenção de agravos associados à violência sexual, como hepatite B e tétano. Em casos de esquemas incompletos ou ausência de registros, o profissional deve proceder à atualização conforme o Programa Nacional de Imunizações (PNI) e as diretrizes do Ministério da Saúde.
A vacina contra o HPV não é indicada como medida pós-exposição, mas deve ser posteriormente avaliada em contexto de rotina, reforçando a prevenção secundária e o cuidado integral à vítima.
3.2.4.5 Passo 5 – Encaminhamentos e orientações
Esta fase refere-se às medidas de continuidade do cuidado e orientações pós-atendimento, conforme Figura 5. Em situações nas quais o histórico e os achados clínicos não sustentem a hipótese de violência sexual, após análise biopsicossocial criteriosa, o caso pode ser encerrado, registrando-se de forma detalhada as justificativas.
Nos casos confirmados ou suspeitos, o encaminhamento é obrigatório para acompanhamento multidisciplinar, incluindo seguimento clínico-laboratorial e psicossocial, com a atuação integrada de pediatra, psicólogo e assistente social. Dependendo da complexidade, outros especialistas (como ginecologistas, obstetras ou cirurgiões pediátricos) podem ser acionados.
3.2.4.6 Passo 6 – Desfecho
O desfecho do caso deve ser registrado de forma detalhada, indicando se houve confirmação, suspeita ou exclusão de violência sexual (Figura 5). Casos descartados, após avaliação completa, podem ser encerrados, mantendo-se o registro completo dos achados.
Já os casos confirmados ou suspeitos requerem acompanhamento contínuo, incluindo monitoramento clínico e laboratorial, atenção psicossocial e articulação com o sistema de garantia de direitos, assegurando a proteção integral e a continuidade do cuidado.
3.2.4.7 Outras informações
A ficha reserva espaço para observações complementares, achados clínicos relevantes, impressões diagnósticas e condutas adicionais (Figura 5). Essa seção garante o registro completo do caso e facilita a comunicação entre os profissionais envolvidos, fortalecendo a integração multiprofissional.
O instrumento, validado por especialistas através da técnica Delphi, constitui uma ferramenta padronizada que contribui para a uniformização das condutas médicas, reduzindo variações no atendimento e ampliando a segurança do cuidado. Além de favorecer a sistematização do raciocínio clínico, promove a integração entre as equipes assistenciais e a rede de proteção social, consolidando-se como referência para o manejo inicial de casos de violência sexual infantojuvenil em serviços pediátricos de urgência.
4. DISCUSSÃO
A atuação dos profissionais faz a diferença no processo de superação dos sobreviventes de violência sexual infantojuvenil, contribuindo para a integralidade da atenção à saúde, evidenciando-se a importância da capacitação dos profissionais de saúde, incluindo médicos pediatras, para o adequado atendimento, utilizando estratégias que ajudem na assertividade da condução clínica, como por exemplo instrumentos de padronização do atendimento.
Apesar dos avanços em políticas públicas e do fortalecimento das redes de proteção, os índices de estupro e de outras formas de violência sexual permanecem elevados, sem que se observe, até o momento, soluções plenamente eficazes?. O enfrentamento desse problema requer uma combinação de estratégias que integrem ações preventivas, como a promoção de uma educação que permita reconhecer o abuso sexual como uma forma de violência desde a infância, com medidas de fortalecimento institucional, incluindo a investigação qualificada, maior celeridade dos processos judiciais e a efetiva responsabilização dos agressores?.
No contexto brasileiro, persistem desafios significativos para os profissionais da rede de proteção e, em especial, para os trabalhadores da saúde¹. Entre esses desafios, destaca-se a fragilidade nos fluxos de encaminhamento e na tomada de decisão clínica, reflexo da complexidade da própria natureza da violência sexual e das dificuldades inerentes ao seu manejo nos serviços de saúde¹.
O manejo médico do abuso sexual é particularmente desafiador em ambientes de pronto atendimento pediátrico, devido à falta de familiaridade de muitos profissionais com os exames e tratamentos recomendados, que variam conforme a idade da vítima, o tipo de contato ocorrido e o tempo decorrido desde o episódio?. Essa lacuna de conhecimento contribui para a grande variação nas condutas descritas na literatura, o que pode resultar em oportunidades perdidas de oferecer antibióticos profiláticos para ISTs, incluindo PEP para HIV, contracepção de emergência e exames laboratoriais para detecção de patógenos potencialmente transmitidos?.
Além disso, as dificuldades e resistências dos profissionais de saúde no diagnóstico da violência sexual contra crianças e adolescentes constituem um desafio recorrente na prática assistencial e podem comprometer a identificação precoce e o manejo adequado dos casos11. A sobrecarga dos serviços, a fragilidade dos fluxos assistenciais e da articulação com a rede de proteção, bem como a persistência de tabus e estigmas relacionados à violência sexual infantil, podem favorecer a invisibilidade dos casos e a subnotificação11, 12.
Instrumentos padronizados, como a “Ficha de Registro Médico para Atendimento Inicial Pós-Violência Sexual”, fruto desta pesquisa, são fundamentais para organizar as informações clínicas, garantir segurança nas condutas e favorecer a coordenação entre profissionais de diferentes áreas. Entretanto, mesmo com ferramentas disponíveis, persistem falhas na integração dos serviços. No estudo de Scherrer et al., observou-se falha no encaminhamento das vítimas do pronto atendimento para o ambulatório especializado: 25,6% dos casos não foram encaminhados ou não apresentavam registro dessa informação nos prontuários, e apenas 36,7% dos pacientes compareceram a pelo menos uma consulta de acompanhamento10.
Esses dados evidenciam a necessidade de fortalecer a articulação entre os diferentes pontos da rede de atenção, ampliar o suporte às famílias e padronizar a coleta e o registro de informações desde o primeiro atendimento, a fim de garantir um seguimento longitudinal mais efetivo das vítimas10.
Embora avanços legislativos tenham ampliado a proteção de crianças e adolescentes, a prática assistencial ainda apresenta lacunas quanto à sistematização das ações. Cada serviço de saúde possui especificidades estruturais, financeiras e de recursos humanos que dificultam a uniformização do cuidado13.
Nesse contexto, é essencial refletir sobre o fenômeno da revitimização, que amplia os danos da violência sofrida, sobretudo quando a abordagem profissional envolve condutas julgadoras, repetição desnecessária de perguntas ou exposição da vítima e de seus familiares a situações de constrangimento, preconceito e discriminação13.
O atendimento às vítimas de violência sexual requer, portanto, uma abordagem multidisciplinar e integrada, envolvendo médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e outros profissionais. Equipes bem capacitadas são essenciais para a identificação precoce dos casos, a oferta de suporte adequado e a prevenção de novas ocorrências, assegurando o bem-estar integral de crianças e adolescentes14.
Nesse sentido, o conceito de cuidado integral é central, pois reconhece a criança como um sujeito de direitos, cujas necessidades extrapolam o tratamento médico. Essa abordagem envolve prevenção, tratamento e acompanhamento contínuo, articulando dimensões biológicas, psicológicas e sociais. A avaliação biopsicossocial, portanto, é indispensável para compreender o impacto global da violência e elaborar um plano de cuidado individualizado.
A utilização de instrumentos padronizados, como a ficha mencionada, favorece a coleta e análise sistemática dos dados, permitindo intervenções mais eficazes e humanizadas. Embora o instrumento proposto seja extenso e requeira aplicação cuidadosa, sua estrutura detalhada é essencial para garantir que todas as etapas do atendimento sejam cumpridas adequadamente. A padronização das condutas e o registro sistemático das informações asseguram não apenas a qualidade do cuidado, mas também a continuidade do acompanhamento e a comunicação eficiente entre os profissionais ao longo do tempo.
5. CONCLUSÃO
A elaboração do instrumento contou com a ampla avaliação de especialistas, permitindo a definição criteriosa do conteúdo da “Ficha de Registro Médico para Atendimento Inicial Pós-Violência Sexual”. Esse processo garante que o instrumento possa servir como base e referência para outros serviços de atendimento a vítimas de violência sexual infantojuvenil, incluindo sua possível adaptação a registros eletrônicos.
Além disso, o estudo reforça a necessidade de integração de uma equipe multidisciplinar no atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, destacando que a abordagem de cuidado integral e a avaliação biopsicossocial abrangente são pilares fundamentais para um atendimento eficaz, humanizado e seguro.
A utilização de instrumentos padronizados, como a ficha proposta, representa um avanço significativo na sistematização e qualificação do atendimento, contribuindo diretamente para a proteção integral e o bem-estar das vítimas, além de fortalecer a coordenação entre profissionais e serviços de saúde.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
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