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Artigos

0163/2026 - Afecções respiratórias em 3 anos de uma coorte infantil após um desastre de mineração. Projeto Bruminha
Respiratory disorders in a childhood cohort during a three-year period after a mining disaster in Brazil: the Bruminha Project

Autor:

• Renan Duarte dos Santos - Santos, RD - <renanduarte.ufrj@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9864-5688

Coautor(es):

• Maíra Lopes Mazoto - Mazoto, ML - <mairamazoto@iesc.ufrj.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5650-9402

• Nataly Damasceno de Figueiredo - Figueiredo, ND - <natalydamasceno@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8898-9893

• Aline de Souza Espíndola Santos - Santos, ASE - <esp.aline@iesc.ufrj.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5498-3992

• Ana Paula Natividade de Oliveira - Oliveira, APN - <anapaulanatividade@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0477-4340

• Michele Costa Alves - Alves, MC - <michele08@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2006-0505

• Volney de Magalhães Câmara - Câmara, V.M - <volney@iesc.ufrj.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6596-6653

• Carmen Ildes Rodrigues Fróes Asmus - Asmus, CIRF - <carmenfroes@iesc.ufrj.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9864-6656



Resumo:

Em 2019, após o rompimento da barragem de mineração em Brumadinho/MG, a lama de resíduos de minério decorrente deste desastre ambiental secou, formando um novo solo superficial. Este artigo investigou a ocorrência de afecções respiratórias em crianças residentes nas localidades impactadas pela lama, ao longo dos três anos posteriores ao desastre. Trata-se de um estudo transversal, baseado em recordatórios de características sociodemográficas, ambientais e ocorrência de afecções respiratórias. Foram avaliadas 307 crianças, sendo 56,7% classificadas como expostas à poeira e 43,3% não expostas. Na população total, observou-se aumento significativo (p=0,001) de afecções das vias aéreas superiores, inferiores, sinais e sintomas respiratórios e alergias respiratórias, entre 2021 e 2023, sem diferenças entre os dois grupos, exceto no ano de 2021, quando se observou maior ocorrência de alergia respiratória no grupo exposto (p=0,018). Os resultados observados corroboram a necessidade de compreensão dos impactos de um desastre ambiental de forma ampliada, para além da sua área de alcance territorial direta.

Palavras-chave:

Desastres, Poeira, Mineração, Doenças Respiratórias, Criança

Abstract:

In 2019, following the mining dam collapse in Brumadinho, Minas Gerais, the resulting mine tailings dried, forming a new superficial soil layer. This study investigated the occurrence of respiratory conditions in children living in areas impacted by the tailings over the three years following the disaster. It is a cross-sectional study based on data collection addressing sociodemographic and environmental characteristics, as well as the occurrence of respiratory conditions. 307 children were evaluated, with 56.7% classified as exposed to dust and 43.3% as unexposed. In the overall population, a significant increase (p=0.001) was observed in upper and lower airway conditions, respiratory signs and symptoms, and respiratory allergies between 2021 and 2023, with no differences between the two groups, except in 2021, when a higher occurrence of respiratory allergies was noted in the exposed group (p=0.018). The observed results underscore the need for a broader understanding of the impacts of an environmental disaster beyond its immediate territorial reach.

Keywords:

Disasters, Dust, Mining, Respiratory Tract Diseases, Child

Conteúdo:

INTRODUÇÃO

Em 25 de janeiro de 2019, ocorreu o rompimento da Barragem I da Mina do Córrego do Feijão de propriedade da Mineradora Vale S.A, localizada no município de Brumadinho, situado na região metropolitana de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais, Brasil. Este desastre gerou uma avalanche de aproximadamente 12.000.000 m³ de lama de rejeitos de minério e foi responsável pela morte de 272 pessoas, além de impactos na fauna, vegetação e nos principais rios da região e entorno1.
Em decorrência deste desastre, o material sobrenadante da lama de rejeitos depositou-se nas margens, várzeas e em áreas especificas do município. Após secar, a lama de rejeitos, composta basicamente por argila à base de óxidos de ferro e manganês2, que são excepcionais concentradores de elementos traços, inclusive os altamente tóxicos como os metais, formou novo solo superficial configurando uma importante fonte de emissão de material particulado3,4. A mobilização dessa poeira de rejeitos de mineração foi mais facilmente disseminada no município devido ao aumento no tráfego de veículos, decorrente das atividades de remediação após o desastre2.
A exposição a poeiras em geral é prejudicial ao sistema respiratório das crianças, especialmente aquelas menores de cinco anos de idade. Esse grupo etário é mais suscetível, pois os sistemas imunológico e respiratório ainda estão em fase de formação. Além disso, características como o pequeno diâmetro das vias aéreas, a maior taxa respiratória em repouso, o maior débito cardíaco, o crescimento e a modificação das estruturas musculares e ósseas, e comportamentos típicos, como engatinhar, brincar com terra e objetos no chão, e colocar as mãos sujas na boca e no nariz, tornam as crianças ainda mais vulneráveis, quando expostas aos materiais particulados suspensos no ar, em especial à poeira intra e extra domiciliar originada pelo processo de mineração5-9.
As partículas com diâmetro inferior a 10 µm conseguem penetrar nas vias aéreas e alcançar os alvéolos pulmonares com maior facilidade, o que pode desencadear efeitos nocivos ao sistema respiratório10, como irritação nas mucosas, inflamação generalizada e hiper-responsividade das vias aéreas (airway responsiveness), resultando na diminuição da capacidade pulmonar e maior suscetibilidade a infecções11,12.
Desastres dessa magnitude podem causar alterações nas condições de vida e impactos à saúde humana devido à exposição a resíduos de minério, tanto a curto, quanto a médio e longo prazos13. Além disso, essa exposição pode afetar o crescimento e o desenvolvimento infantil, resultando em prejuízos na escolarização, no convívio social e com repercussões futuras na vida adulta.
Tendo em vista este cenário, o Ministério da Saúde do Brasil, propôs o Programa de Ações Integradas em Saúde de Brumadinho14, que integra dois estudos de Coorte: o Projeto Saúde Brumadinho, que avalia as condições de saúde de adolescentes e adultos residentes na região, e o Projeto Bruminha, que investiga a exposição a resíduos de metais e seus impactos sobre a saúde e o desenvolvimento das crianças de 0 a 6 anos de idade nas localidades afetadas pelo desastre14-16.
Este estudo teve como objetivo investigar o padrão de ocorrência de afecções respiratórias em crianças que vivem nas localidades afetadas pelo rompimento da barragem de mineração, ao longo dos três anos após o desastre ambiental.

MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, com população composta por crianças de 0 a 6 anos de idade, residentes em quatro comunidades do município de Brumadinho, Minas Gerais, Brasil. Uma dessas comunidades, Aranha (AR), está situada a cerca de 10 km das localidades afetadas pelo desastre, assim como das áreas de mineração e remediação. As outras três comunidades, Córrego do Feijão (CF) e Parque da Cachoeira (PC) estão localizadas no entorno dessas áreas e Tejuco (TJ) geograficamente abaixo de uma mineradora em atividade. A população de estudo foi organizada em duas categorias: o grupo de expostos à poeira de resíduos de mineração, composto pelas crianças residentes em CF, PC e TJ, e o grupo dos não-expostos, formado pelas crianças residentes em AR16.
Os dados apresentados neste estudo foram coletados ao longo das três avaliações do Projeto Bruminha, realizadas em julho de 2021, agosto de 2022 e agosto de 2023, por meio da aplicação de dois questionários:
a) Socioambiental: localidade de residência, faixa etária, raça/cor (autorreferida), sexo, tipo de água utilizada para beber, destino do esgoto, tipo de pavimentação das ruas, percepção de aumento da poeira, aumento na frequência de faxinas para retirada da poeira, aumento do tráfego de veículos e renda per capita);
b) Formulário clínico: que incluía um recordatório dos pais sobre a ocorrência de afecções respiratórias das crianças com a periodicidade abaixo:
- nos últimos 15 dias: tosse, sibilo, dificuldade para respirar, congestão nasal/coriza, roncos/secreção, espirros recorrentes e otalgia;
- nos últimos 12 meses: pneumonia, asma/sibilância ou sibilo, bronquite, rinite/sinusite, alergia respiratória e otite.
Nas três avaliações realizadas em 2021, 2022 e 2023, participaram tanto crianças que estiveram presentes em todas as etapas quanto aquelas que compareceram a apenas uma ou duas delas. O protocolo detalhado do Projeto Bruminha está descrito em Asmus et al.14.



Análise estatística

As afecções respiratórias foram agrupadas em quatro categorias: i) vias aéreas inferiores (pneumonia, asma/sibilância/sibilo e bronquite); ii) vias aéreas superiores (rinite/sinusite e otite); iii) sinais e sintomas respiratórios (tosse, sibilo, dificuldade para respirar, congestão nasal/coriza, espirros recorrentes, roncos/secreções e otalgia); e iv) alergia respiratória, conforme descrito em Saraiva et al.16. Esses desfechos respiratórios, juntamente com outras variáveis categóricas que descrevem as características socioambientais da população, foram apresentados em frequências absolutas e relativas, e a ocorrência de diferenças estatísticas foi verificada por meio do teste qui-quadrado (teste de Correção de Continuidade de Yates e Pearson). Para verificar o padrão de ocorrência das afecções respiratórias ao longo das três avaliações, foi utilizado o teste t de Student. Quanto às variáveis numéricas, foram utilizados a mediana, o intervalo interquartil (P25-P75) e o teste de Mann-Whitney. Os testes estatísticos com valores de p ? 0,005 foram considerados estatisticamente significativos. O processamento e a análise dos dados foram realizados com o software IBM SPSS Statistics, versão 20 (https://www.ibm.com/).

Considerações éticas

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ sob o parecer nº 3.897.305. Todos os responsáveis legais pelas crianças assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e as informações coletadas foram tratadas de forma confidencial, garantindo o anonimato dos participantes.

RESULTADOS

Participaram do estudo 307 crianças, ao longo dos três anos, sendo 174 (56,7%) no grupo exposto e 133 (43,3%) no grupo não-exposto (Tabela 1). No grupo exposto observou-se significativamente maior número de crianças de cor declarada não-branca (p=0,017; p=0,002; p=0,039), maior consumo de água mineral (p=0,001; p=0,001; p=0,001) e piores condições de saneamento (p=0,017; p=0,050; p=0,022), nos três anos de análise. Relatos de aumento da poeira intradomiciliar (p=0,001; p=0,001) e maior frequência de faxinas (p=0,003; p=0,017) foram mais significativos no grupo exposto nos dois primeiros anos de avaliação e de tráfego de veículos (p=0,026; p=0,050; p=0,015) nos três anos. Houve uma diferença significativa na renda per capita, nas avaliações realizadas nos anos de 2022 e 2023. Em ambas as análises, as maiores medianas de renda foram registradas no grupo exposto, com valores de R$ 833,4 (P25-P75: 500,0-1.125,0; p=0,020) para 2022 e R$ 1.000,0 (P25-P75: 533,3-1.250,0; p=0,001) para 2023. Em 2021, não se identificou diferença significativa de renda entres os grupos (Tabela 2).
Foi observado na população total um aumento nos relatos de ocorrência das afecções respiratórias das vias aéreas inferiores (p=0,001), superiores (p=0,001), sinais e sintomas respiratórios (p=0,001) e de alergia respiratória (p=0,001) entre os anos 2021 e 2023 (Tabela 3).
Ao analisar a ocorrência de afecções respiratórias segundo sexo e faixa etária, observou-se maior ocorrência de alergia respiratória no sexo masculino do grupo não-exposto (87,5%; p=0,005) apenas em 2023. Em relação à faixa etária, verificaram-se diferenças significativas apenas no ano de 2021, com maior frequência de afecções respiratórias das vias aéreas inferiores e superiores nos grupos exposto e não-exposto, e de alergia respiratória no grupo exposto, nas crianças com 4 anos ou mais (Tabela 4).
Verificou-se uma diferença significativa na ocorrência de alergias respiratórias nas crianças do grupo exposto no ano de 2021 (75,0%; p=0,018). Não foram encontradas diferenças significativas na ocorrência de afecções das vias aéreas inferiores, superiores e nos sinais e sintomas respiratórios nos anos de 2022 e 2023 entre os grupos de análise (Tabela 5).

DISCUSSÃO

O presente estudo observou, na população total, um padrão crescente nos relatos de ocorrência de afecções respiratórias das vias aéreas inferiores, superiores, sinais e sintomas respiratórios e alergia respiratória, com significância estatística entre os anos 2021 e 2023.
Embora se observe um aumento das afecções no período avaliado, cabe destacar que os dados coletados nas avaliações realizadas em 2021 e 2022 coincidem com o período da pandemia da COVID-19. Nesse contexto, o uso de máscaras e outras medidas de proteção respiratória pode ter reduzido a exposição das crianças à poeira de mineração. Como consequência, é possível que a ocorrência de afecções respiratórias tenha sido subestimada nesses anos. Por outro lado, o aumento observado em 2023 pode estar relacionado ao relaxamento dessas medidas protetivas, especialmente à redução do uso de máscaras, o que pode ter elevado o risco de inalação de poeiras provenientes dos processos de mineração e das ações de reparação pós-desastre em andamento no município.
Ao estratificar os dados entre os grupos de exposição à poeira oriunda de rejeitos de mineração, só foi verificada diferença estatisticamente significativa para alergias respiratórias no grupo exposto, especificamente no ano de 2021.
Esse cenário pode estar relacionado ao fato de que o rompimento da barragem ocorrido no município de Brumadinho configura-se como um desastre ampliado, cujos efeitos não se limitam ao evento imediato, mas se desdobram em impactos múltiplos. Tais efeitos extrapolam os limites geográficos das áreas de mineração, em virtude da liberação de aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos. Essa lama espalhou-se pelo solo, atingiu a bacia do ribeirão Ferro-Carvão, afluente do rio Paraopeba, e percorreu uma área estimada em 160 (km²), equivalente a cerca de 450 campos de futebol17,1,18.
O impacto deste desastre estendeu-se a nove setores censitários do município, resultando na destruição de residências, pousadas e patrimônios históricos, além de afetar mais de 10% da população de Brumadinho, incluindo comunidades tradicionais e agricultores4,19. Os rejeitos depositados ao longo do trajeto atingiram profundidades de até 18 metros em determinados pontos, cobrindo uma área superficial estimada em aproximadamente 2,7 (km²)20. A amplitude deste cenário adicionada à intensa geração de poeira decorrente dos processos de remediação pode ter contribuído para a ocorrência de queixas relacionadas a afecções respiratórias também entre crianças residentes fora das áreas de mineração.
Tal consideração pode contribuir para a compreensão da ausência de diferenças estatisticamente significativas nas afecções respiratórias observadas nos anos de 2022 e 2023 entre os grupos deste estudo. Neste sentido, Wu et al.21 sinalizam que determinadas substâncias químicas podem ser transportadas por longas distâncias por meio de partículas atmosféricas, mesmo após sua liberação no ambiente. Adicionalmente, Landrigan et al.22 ponderam que os dados coletados em áreas de mineração nem sempre refletem a real carga de doenças associadas à exposição à poeira, uma vez que os efeitos adversos podem manifestar-se de forma tardia.
Esses achados corroboram o que Dai et al.23 sinalizam a respeito de residir em áreas de mineração, que pode estar associado a potenciais efeitos adversos à saúde, especialmente em crianças, em razão da exposição a uma variedade de substâncias químicas presentes na poeira, as quais são facilmente inaladas e capazes de desencadear ou agravar condições respiratórias.
Dentre os possíveis prejuízos da exposição à poeira de mineração sobre o sistema respiratório, Osim et al.24 identificaram redução da função pulmonar. Além disso, estudos como os de Chihana et al.25, Wang et al.26 e O’brien et al.27 também relataram sintomas como irritação nasal e na garganta, comprometimento das vias aéreas, tosse, chiado no peito e dispneia. Ademais, estudos sobre a exposição ao material particulado (PM?, PM?,? e PM??) demonstraram associações positivas com o aumento da ocorrência de doenças respiratórias, como asma e sibilância28, bem como pneumonia29 em crianças expostas.
Adicionalmente, em 2021, ano temporalmente mais próximo ao desastre, os cenários de maior criticidade ambiental possivelmente maximizaram a exposição infantil à poeira, em comparação aos demais períodos avaliados. Neste ano, eram mais intensas as atividades de reparação e construção civil nos territórios afetados pelo desastre, como o uso de caminhões e maquinários para retirada e transporte do rejeito que ficou depositado nas áreas impactadas, além das obras de reconstrução de casas e equipamentos públicos em diferentes localidades do município de Brumadinho, que implicam no revolvimento do solo e, consequentemente, na dispersão de poeira no ambiente. A poeira representa um problema crítico nestes territórios, frequentemente relatado pelas comunidades durante todas as avaliações e apresentado na caracterização socioambiental da população do estudo, estando diretamente associada a mineração, principal atividade econômica de Brumadinho.
A ocorrência significativamente maior de alergia respiratória entre os meninos (p = 0,005) em 2023 pode estar relacionada a características intrínsecas entre os gêneros. Schultz et al.30 destacam que podem existir distinções relacionadas ao sexo no que se refere à função pulmonar em resposta à poluição do ar e a outros estímulos ambientais. Observa-se que meninos tendem a apresentar vias aéreas mais estreitas e, durante a infância e o início da adolescência, um fenótipo pulmonar mais suscetível aos efeitos deletérios da exposição à poluição atmosférica. Soma-se a isso o estudo realizado por Zazara et al.31, que indicou uma associação entre o sexo masculino e um maior risco de desenvolvimento de infecções respiratórias durante a infância.
Outro aspecto fundamental incorporado na discussão das afecções respiratórias e seu padrão de ocorrência no território é a vulnerabilidade socioambiental. Moreira32, ao estudar as vulnerabilidades e heterogeneidades populacionais em Belo Horizonte, destaca que as populações que residem em áreas de risco são, em geral, compostas por negros, de menor renda e com maior exposição aos riscos socioambientais. Em situações de desastres, esses grupos são os mais impactados. Considerando o contexto observado nas comunidades avaliadas em Brumadinho, pode-se pressupor que as afecções respiratórias não se distribuem de maneira homogênea no espaço, estando possivelmente também relacionadas aos fatores socioambientais que potencializam sua ocorrência em determinadas áreas.
Este estudo evidenciou uma vulnerabilidade ambiental mais acentuada para as crianças do grupo exposto, onde as declaradas não brancas (pretas e pardas) representaram a maior parcela da população ao longo dos três anos. Oyana et al.29 indicaram que raça e etnia estão associadas à residência em áreas de maior risco ambiental. As crianças do grupo exposto residem em locais onde estão concentradas as piores condições de esgotamento sanitário, cujo destino é céu aberto, vala, rio ou lago. Esses achados corroboram o estudo realizado por Azevedo et al.33, referindo que 65,2% dos domicílios urbanos do município de Brumadinho contavam com esgotamento sanitário, enquanto na zona rural a fossa rudimentar era a principal forma de descarte do esgoto.
As diferenças significativas na mediana da renda per capita observadas no grupo exposto, nos anos de 2022 e 2023, não indicam melhores condições socioeconômicas desse grupo, estando relacionadas ao impacto do Programa de Transferência de Renda (PTR), instituído em novembro de 2021. Esse programa consiste no repasse mensal de recursos financeiros, pagos pela empresa Vale S.A., às pessoas atingidas direta ou indiretamente pelo desastre34.
Zanobetti et al.35, apontaram que crianças negras residentes em setores censitários com elevados índices de pobreza familiar e alta densidade populacional apresentaram maior risco de desenvolver asma durante a infância.
O maior consumo de água mineral observado no grupo exposto ao longo das três avaliações justifica-se pela insegurança quanto à qualidade da água para consumo humano após o desastre. A qualidade da água do rio Paraopeba foi comprometida, tornando-a imprópria para consumo, irrigação, pesca, banho e lazer. Essa condição decorreu das elevadas concentrações de metais e outras substâncias químicas presentes na lama de rejeitos18,1,4.
Nesse sentido, visando prevenir potenciais riscos à saúde humana decorrentes desse consumo, foi assinado, em 2021, um Acordo de Reparação Integral envolvendo o Governo de Minas Gerais e a empresa Vale S.A, que estabeleceu o fornecimento de água mineral e a distribuição por caminhão-pipa, sob responsabilidade da mineradora para as comunidades afetadas pelo desastre36. As comunidades de Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira e Tejuco recebem água mineral para consumo, enquanto a comunidade de Aranha utiliza a água do sistema de distribuição existente no território.
No que se refere ao padrão das ruas no grupo expostos, verificou-se que, em 2021, mais da metade delas eram sem asfaltamento (p=0,029). A população deste grupo relatou um aumento no tráfego de veículos nos três anos avaliados (2021: p=0,026; 2022: p=0,050; 2023: p=0,015), o que pode ter relação com incremento nos níveis de poeira intra e extradomiciliar (2021: p=0,001; 2022: p=0,001). Como consequência, verificou-se também um aumento na frequência de faxinas destinadas à limpeza dessa poeira (2021: p=0,003; 2022: p=0,017).
Ademais, os dados do relatório da empresa Archipel2 dialogam com os achados deste artigo ao apontarem também para o elevado fluxo de caminhões relacionados às atividades de mineração (muitas vezes circulando em condições inadequadas de acondicionamento do material transportado) e envolvidos nas ações de reparação do desastre. Este relatório também destaca os relatos da população sobre o incômodo gerado pelo intenso aumento da poeira em suspensão no ar, assim como seu acúmulo dentro das residências e comércios locais. Além disso, salienta-se que as principais queixas registradas relacionadas às questões respiratórias são alergias e sangramento nasal.
Diante dos achados e discussões apresentados neste estudo, é importante salientar suas limitações. Os dados sobre as características de saúde das crianças não foram obtidos por meio de prontuários ou relatórios médicos, mas sim por meio de recordatórios e/ou percepções dos pais ou responsáveis. Dessa forma, além da especificidade dos relatos, o viés de memória constitui uma das principais limitações deste estudo, uma vez que pode ter ocorrido falha na recordação dos participantes ao longo das três avaliações. Isso pode ter resultado em respostas imprecisas sobre eventos passados, além de possíveis confusões em relação aos diagnósticos que as crianças possam ter recebido em consultas e avaliações médicas anteriores.
Por outro lado, a coleta de dados foi realizada por uma equipe composta, entre outros profissionais especializados, por uma médica pediatra, o que possibilitou uma análise mais acurada das informações fornecidas pelos participantes. Ressalta-se, ainda, a contribuição do estudo ao oferecer, ao longo dos três anos, um panorama consistente sobre o padrão de ocorrência das afecções respiratórias, com base nos relatos da população. Tal abordagem valoriza a perspectiva dos próprios indivíduos, reconhecendo-os como protagonistas na produção de conhecimento acerca de suas condições de saúde e doença.
Nesse sentido, os resultados apresentados apontam para uma possível interação entre o desastre e as atividades a ele relacionadas, as quais contribuem para o aumento da dispersão de poeira e, consequentemente, das afecções respiratórias em crianças. Embora a exposição a substâncias químicas represente uma preocupação relevante, a própria poeira (independentemente de sua composição) constitui um agente agressor significativo ao sistema respiratório infantil, com potencial para afetar sua formação e funcionamento. Esses impactos podem apresentar repercussões em curto, médio e longo prazos, conforme discutido ao longo deste estudo.
No âmbito da Saúde Coletiva, é fundamental compreender esse evento como um desastre ampliado, em que a mobilização e dispersão da poeira, aliadas à incipiente qualidade do ar, à contaminação da água, à precariedade do saneamento básico e à insegurança alimentar, tornaram as crianças especialmente vulneráveis a doenças respiratórias. Assim, é fundamental que o setor saúde, os órgãos ambientais e os poderes públicos, com o envolvimento ativo das comunidades, formulem e executem ações para mitigar a problemática da poeira nas áreas impactadas pelo desastre.

Agradecimentos
À população do município de Brumadinho, em especial aos pais e responsáveis pelas crianças participantes do Projeto Bruminha, pela confiança depositada na equipe de pesquisa. Agradecemos também à Fundação Oswaldo Cruz de Minas Gerais, aos profissionais da Secretaria Municipal de Saúde de Brumadinho e ao Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT) do Ministério da Saúde, pelo apoio fundamental à realização deste trabalho.

Financiamentos
O Projeto Bruminha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conta com financiamento do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde (MS) (Processo 25000.127551/2019-69).

Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.

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Santos, RD, Mazoto, ML, Figueiredo, ND, Santos, ASE, Oliveira, APN, Alves, MC, Câmara, V.M, Asmus, CIRF. Afecções respiratórias em 3 anos de uma coorte infantil após um desastre de mineração. Projeto Bruminha. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jul). [Citado em 03/07/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/afeccoes-respiratorias-em-3-anos-de-uma-coorte-infantil-apos-um-desastre-de-mineracao-projeto-bruminha/20061?id=20061&id=20061

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