0062/2026 - Desafios da maternidade em tempos de Covid-19: trabalho, condições emocionais e filhos
Challenges of motherhood during COVID-19: work, emotional conditions and children
Autor:
• Thaís Sayuri Yamamoto - Yamamoto, TS - <tsyamamoto@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1816-2898
Coautor(es):
• Vânia de Matos Fonseca - Fonseca, VM - <vaniamf36@hotmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5452-7081
• Claudia Bonan - Bonan, C - <bonanclaudia@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8695-6828
• Andreza Pereira Rodrigues - Rodrigues, AP - <andrezaenfermeira@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1873-5828
• Ana Carolina Carioca da Costa - Costa, ACC - <carolcarioca@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9456-3319
• Paula Gaudenzi - Gaudenzi, P - <paula.gaudenzi@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4039-1088
Resumo:
A pandemia de Covid-19 ampliou a desigualdade de gênero no Brasil. Os efeitos na vida laboral e doméstica das mulheres foram dramáticos, levando a desafios ainda não esclarecidos, sobretudo para as mães de filhos menores de 18 anos. Este artigo teve como objetivo verificar a associação entre a percepção dessas mulheres em lidar com a maternidade e fatores sociodemográficos, situações do mundo do trabalho, condições emocionais e mudanças no comportamento e desenvolvimento dos filhos, durante a pandemia de Covid-19. Foi realizado um estudo quantitativo transversal, através de questionário online, com 28.625 mulheres mães de todo Brasil. Houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade entre mulheres brancas, com maior renda e maior escolaridade. Os fatores que tiveram maior impacto no aumento dessa prevalência foram o aumento da carga de trabalho doméstico, a mudança no comportamento dos filhos, a diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças e ter filhos menores de 6 anos. Por outro lado, a melhora ou a manutenção na condição emocional das mulheres, bem como o avanço no desenvolvimento dos filhos, diminuíram a prevalência de dificuldade.Palavras-chave:
Covid-19. Relações Mãe-Filho. Gênero. Trabalho.Abstract:
The COVID-19 pandemic has exacerbated gender inequality in Brazil. The effects on women's work and domestic lives have been dramatic, leading to challenges not yet clarified, especially for mothers of children under the age of 18. This article aimed to verify the association between these women's perception of dealing with motherhood and sociodemographic factors, work situation, emotional conditions, and changes in the behavior and development of their children during the pandemic. A cross-sectional quantitative study was carried out, and an online questionnaire was applied to 28,625 mothers from all over Brazil. There was a higher prevalence of difficulty in dealing with motherhood among white women, with greater income and higher education. The factors that had the greatest impact on the increased prevalence of difficulty were the rise in the domestic workload, changes in children's behavior, reduced social interaction between children and other kids, and having children under the age of 6. On the other hand, the improvement or maintenance of women's emotional condition, as well as the advancement in their children's development, decreased the perception of difficulty in dealing with maternity.Keywords:
COVID-19. Mother-Child Relations. Gender. Work.Conteúdo:
O mês de abril de 2021 foi o mais letal da pandemia de Covid-19 no Brasil, batendo o recorde de 4.249 mortes no dia 8, e atingindo a marca de 400 mil óbitos pela doença1. O coronavírus ainda avançava rápida e intensamente pelo país, a vacinação contra a Covid-19 seguia restrita à população de risco e, consequentemente, grande parte das escolas, universidades e empresas não haviam retornado às atividades presenciais. Naquele momento, a política de distanciamento social, a sobrecarga dos sistemas de saúde e a intensificação da crise econômica já anunciavam efeitos adversos em múltiplos aspectos da vida social e na saúde mental das pessoas2,3.
Contudo, esses efeitos não se distribuíram de modo homogêneo. No Brasil e no mundo, grupos sociais distintos foram afetados diferentemente, ampliando desigualdades sociais, regionais, raciais e de gênero pré-existentes4-6. Na esteira dessas desigualdades, por serem maioria no mercado de trabalho informal3,7,8 e na área da saúde8,9, as mulheres brasileiras foram mais afetadas pelo desemprego, exerceram trabalhos em condições precarizadas, ficaram mais vulneráveis economicamente e mais expostas à contaminação pela Covid-193,7-9.
Os impactos da pandemia na vida laboral e doméstica das mulheres foram dramáticos7-10, sobretudo para as que eram mães11. O cenário de distanciamento social levou à suspensão de atividades laborais externas não essenciais e ao fechamento de escolas, restringindo a possibilidade de compartilhamento do cuidado dos filhos com outros agentes, como escola, avós, babás e trabalhadoras domésticas11-13. Aliado ao confinamento da família em casa, resultou em grande sobrecarga de trabalho doméstico para as mulheres, aumentando sua vulnerabilidade não só nas questões de saúde física e mental, mas também de violência doméstica11,14,15.
Em inquérito online realizado por Zanello et al.11, no primeiro semestre de 2020, mulheres mães cujos filhos moravam em casa e dependiam de seus cuidados relataram estafa e sobrecarrega com as demandas incrementadas da família, sentindo-se sozinhas, tristes e ansiosas, e, de maneiras diversas, afetadas em suas próprias vidas. Porém, longe de ter sido passageiro ou pontual, esse estado se prolongou pelos anos seguintes da crise sociossanitária, sem relação linear com a evolução das estatísticas da pandemia – casos, internações, óbitos, vacinação8,16-18.
As reverberações sobre as estruturas de desigualdade de gênero se estendem em várias camadas de tempo até o presente, com efeitos diversos sobre a vida das mulheres, que ainda carecem de evidências empíricas. O caráter inédito desta pesquisa consiste em integrar dimensões psicossociais, familiares e laborais em uma mesma análise quantitativa, no contexto histórico singular que foi a pandemia, a fim de contribuir para o conhecimento dos desafios da maternidade sob o ponto de vista das mulheres.
Assim, o objetivo deste artigo foi verificar a associação entre a percepção das mulheres em lidar com a maternidade e fatores sociodemográficos, situações do mundo do trabalho, condições emocionais e mudanças no comportamento e desenvolvimento dos filhos, durante a pandemia de Covid-19.
Aspectos Metodológicos
Foi realizado um estudo quantitativo transversal, que utilizou dados fornecidos pelo grupo “Pró-cura da subjetividade: o sujeito na cultura”, cuja pesquisa “Impactos psíquicos da pandemia de Covid-19 em mulheres mães de crianças e adolescentes e em seus filhos” trabalhou com uma abordagem mista, combinando métodos de pesquisa quantitativos e qualitativos, para investigar e analisar as experiências vividas e os processos psíquicos de mulheres mães e de seus filhos, durante a pandemia de Covid-19 no Brasil.
A pesquisa teve início com a construção de questionário online, com a ferramenta Google Forms, direcionado a mulheres mães de filhos menores de 18 anos e difundido nas redes sociais das pesquisadoras, moradoras da cidade do Rio de Janeiro. O período para preenchimento foi de seis de abril a seis de maio de 2021, contemplando dados sociodemográficos e várias dimensões do cotidiano das mulheres na situação de pandemia, como trabalho doméstico e cuidado com os filhos, convivência familiar e social, trabalho profissional, percepções sobre sua condição emocional e a de seus filhos. Após a exclusão das respostas duplicadas, das mulheres que em algum momento indicaram não ter filhos (o que aparecia no campo “outros”), das que não preencheram todos os campos do formulário, e das que não confirmaram o aceite do TCLE, consolidou-se uma amostra de conveniência com 28.625 mulheres.
Para este artigo, o desfecho estudado foi a dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia de Covid-19, a partir da pergunta “Como está sendo lidar com a maternidade durante a pandemia?”. As respostas foram recategorizadas para criar a variável dicotômica “Mais dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia de Covid”, que reuniu as respostas “Está um pouco mais difícil que antes” e “Está muito mais difícil que antes” como “sim”; e as respostas “Está mais fácil do que antes”, “Está igual ao que sempre foi” e “Não está mais difícil que antes” como “não”.
Além dos fatores sociodemográficos e do mundo do trabalho, as variáveis de exposição testadas visaram captar a percepção das mulheres mães sobre si mesmas e os filhos. Logo, na pergunta sobre a presença de sintomas que expressam condições psicoemocionais, buscou-se a autopercepção de ansiedade, tristeza frequente, angústia, insônia e estresse, antes e durante a pandemia. Quanto à mudança no comportamento dos filhos e à necessidade de ajuda profissional de saúde mental para si ou para os filhos, as respostas foram dicotômicas, sim ou não, sem uso de escalas ou laudos. Nas questões sobre a mudança no desenvolvimento e a presença de relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos, foram utilizadas escalas intuitivas: ausência de mudança (não), atraso, avanço ou outra, para a primeira; não houve relacionamento, houve relacionamento como antes, houve mais ou menos relacionamento, para a segunda.
Foi construído um banco de dados no programa Excel 365, que gerou estimativas das frequências absolutas e relativas das variáveis de interesse. As análises estatísticas foram realizadas a partir do software SPSS 22.0 e R, versão 4.3.1, através de análises bivariadas e múltiplas entre as variáveis de exposição e o desfecho, apresentadas como razões de prevalência e respectivos intervalos de confiança de 95%. O modelo de Poisson com variância robusta foi escolhido para avaliar a relação entre as variáveis associadas e o desfecho.
Na busca por compreender que variáveis tiveram maior impacto no aumento da prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia foi utilizado o algoritmo de seleção stepwise (backward), tendo o AIC (Akaike Information Criterion) como critério de ajuste. Para detectar uma possível existência de multicolinearidade e minimizar o risco de sobreajuste, utilizou-se o fator de inflação da variância (VIF, do inglês Variance Inflation Factor). O nível de significância adotado foi 5%.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o CAAE 40912820.6.0000.5269, e foram cumpridos os princípios éticos em conformidade com a Declaração de Helsinque da Associação Médica Mundial19.
Resultados
Mulheres de todos os estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, responderam à pesquisa. Os estados do Sudeste foram os mais representados (65,9%), sendo que São Paulo (29,9%) e Rio de Janeiro (22,1%) formaram juntos mais de metade da amostra (52%). Os estados do Sul representaram 13,2% das mulheres, os do Norte e Nordeste 13,4%, e os do Centro-Oeste 7,5% (dados não tabelados).
A população do estudo foi composta majoritariamente por mulheres brancas (59,1%), com escolaridade igual ou maior que ensino superior completo (73,2%), com pelo menos um filho maior de 6 anos (63,8%) e com renda familiar entre três e dez salários-mínimos (37%), seguidas por aquelas com renda acima de dez salários (26,5%) (Tabela 1).
Das mulheres com rendas mais altas, 80,6% eram brancas, e daquelas com renda mais baixa, 71,6% eram não brancas. A porcentagem de brancas entre as mulheres com ensino superior completo foi de 66,4%, ao passo que entre as com escolaridade mais baixa, 72,1% eram não brancas (dados não tabelados).
Houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade, durante a pandemia, entre mulheres brancas, com renda maior do que dez salários, ensino superior completo e filhos menores de 6 anos. Em contrapartida, mulheres pardas, com renda até três salários-mínimos, menor escolaridade e pelo menos um filho maior de 6 anos relataram menor dificuldade (Tabela 1).
As mulheres mães que reportaram aumento na carga de trabalho doméstico representaram 91,6% da amostra e tiveram maior prevalência de dificuldade quando comparadas às que não reportaram mudança (Tabela 2). Mulheres que exerciam algum tipo de trabalho profissional foram maioria (90,2%), sendo que as que sentiram aumento dessa carga de trabalho e as que foram demitidas na pandemia apresentaram maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade, comparadas às que não exerciam nenhum tipo de trabalho profissional. Aquelas que relataram ter saído do trabalho para cuidar dos filhos também apresentaram maior prevalência do desfecho (Tabela 2).
Mulheres que reportaram presença de sintomas que expressam condições psicoemocionais ou tratamento de saúde mental antes da pandemia relataram mais dificuldade em lidar com a maternidade, especialmente aquelas que sentiram agravo dessas condições ou que alegaram necessidade de ajuda profissional de saúde mental após o início do período pandêmico (Tabela 3).
Houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade entre as mulheres que notaram alguma mudança no comportamento dos filhos durante a pandemia (88,0%), que perceberam atraso em seu desenvolvimento (39,2%), e que sentiram necessidade de iniciar algum tratamento de saúde mental para eles (37,9%), em comparação com as que não reportaram mudança no comportamento ou no desenvolvimento e que não sentiram necessidade de tratamento de saúde mental para os filhos. Foi mais difícil lidar com a maternidade para aquelas que responderam que o relacionamento social dos filhos com outras crianças foi menor ou não ocorreu (Tabela 4).
A prevalência de mudança no comportamento dos filhos, necessidade de ajuda de profissional de saúde mental para si, e aumento da carga de trabalho doméstico e profissional foi maior entre mulheres brancas, com renda familiar entre três e dez salários-mínimos, e ensino superior completo (dados não tabelados).
Segundo o modelo de regressão (Tabela 5), as variáveis que tiveram maior impacto no aumento da prevalência do desfecho - dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia - foram o aumento da carga de trabalho doméstico, a mudança no comportamento dos filhos, a diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos e a presença de filhos menores de 6 anos. Por outro lado, a melhora ou a manutenção na condição emocional das mulheres, bem como o avanço no desenvolvimento dos filhos, diminuíram a prevalência de dificuldade.
Discussão
O perfil demográfico das respondentes ao questionário corresponde ao encontrado por outras pesquisas brasileiras que realizaram coletas de dados de maneira remota11,12,15,20, devido às restrições impostas pela pandemia. A maioria da amostra foi formada por mulheres brancas, mais escolarizadas e com renda familiar elevada, características que, no Brasil, estão associadas ao perfil socialmente mais favorecido21. Entretanto, ainda que tenha se tratado de uma amostra de conveniência, mulheres de todas as regiões do país estiveram representadas no estudo.
O impacto do crescimento da carga de trabalho doméstico no aumento da prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia encontra farto apoio nos registros das repercussões da crise na vida familiar. Diversas pesquisas evidenciaram que a pandemia de Covid-19 revelou e exacerbou as desigualdades de gênero na distribuição do trabalho doméstico e de cuidado com os filhos, acarretando aumento da sobrecarga existente para as mulheres mães, no Brasil e no mundo3,6,11-14,16-18,20,22–28. Adicionalmente, esse tipo de trabalho foi redobrado pelas recomendações de higienização, limpeza de objetos, alimentos e superfícies, e pela necessidade de cuidado de familiares que antes podiam ter mais autonomia, como idosos, pessoas com deficiência e, eventualmente, pessoas com diagnóstico de Covid-194,11,29.
O cenário de intensificação da sobrecarga de trabalhos domésticos e de cuidado com os filhos teve consequências particulares nas mulheres que conjuntamente exerceram atividades profissionais remuneradas11,17,18,30, tal como 90,2% da nossa amostra (Tabela 2). Embora, no modelo proposto, o crescimento da carga de trabalho profissional não tenha constado entre as variáveis que tiveram maior impacto no desfecho (Tabela 5), os estudos mostraram que a impossibilidade de estabelecimento de uma rotina e o compartilhamento de um único espaço para as várias esferas da vida foram fatores estressores adicionais para as mulheres que exerceram o trabalho profissional de forma remota, no ambiente doméstico17,20,30,31.
Chama atenção que os relatos de maior dificuldade em lidar com a maternidade e de aumento da carga de trabalho doméstico foram mais prevalentes entre mulheres brancas e com maior escolaridade. De imediato, esses dados podem causar estranhamento, uma vez que as pessoas mais vulnerabilizadas, representadas no Brasil pela população não branca e de menor escolaridade, vivenciaram de forma mais expressiva os efeitos da crise sanitária, política e humanitária decorrente da pandemia32,33. Além disso, há estreita associação entre condições de vida – vulnerabilidade estrutural de uma sociedade - e sofrimento social34, que dificulta as relações afetivas de uma forma geral, especialmente o exercício da maternidade, tão demandante para a mulher.
No entanto, pode nos ajudar a interpretar esses resultados considerar que as pessoas das classes sociais mais favorecidas vivenciaram uma situação de perda radical das redes formais de apoio – trabalho doméstico remunerado, escolas, creches privadas, historicamente bem consolidadas, exclusivamente, para estas classes35. O esfacelamento das redes de apoio maternas foi uma realidade durante a pandemia11,17,23, mas certamente ocorreu de formas distintas para as diferentes classes. As mulheres mães de classe média sofreram um sentimento de desamparo raramente experimentado, ao passo que mulheres menos abastadas vivem dificuldades expressivas em seus cotidianos que, no limite, chegam ao risco de morte devido às violências a que estão submetidas36.
Ao mesmo tempo, em nossa pesquisa, entre as mulheres que fizeram o trabalho profissional em casa, 63,5% eram brancas, 39,4% tinham renda familiar entre três e dez salários mínimos, 34.5% acima de dez, e 82,2% tinham ensino superior completo (dados não tabelados). Na medida em que o trabalho remoto se tornou realidade apenas para a parcela mais privilegiada da população37, às mulheres das classes mais favorecidas foram permitidos acesso e manutenção de renda, o que reforçou as iniquidades brasileiras. Por outro lado, adicionou para elas a sobrecarga do trabalho profissional realizado em casa e, por isso, muitas vezes indivisível do trabalho doméstico.
Evidentemente, não queremos dizer que as classes desfavorecidas foram menos impactadas pela pandemia, tampouco que são mais resistentes ao sofrimento, falácia discriminatória produtora de mais opressões. Ao contrário, não há dúvida de que a crise ampliou desigualdades, atingindo particularmente as mulheres pobres5-8. Todavia, a experiência de precariedade não é uma novidade para estas pessoas, fazendo talvez com que a vivência da maternidade nesse período não tenha representado um estado de exceção como representou para a classe média.
Ademais, foi reduzida a participação de mulheres negras e de classes populares, tanto nesta quanto em outras pesquisas realizadas em ambientes virtuais. Cumpre reconhecer que a possibilidade de enunciar algo sobre si pressupõe a existência de uma comunidade de escuta capaz de conferir legitimidade à experiência de quem fala. Assim, afora as desigualdades materiais — cor, renda e acesso digital — tal dado provavelmente reflete as barreiras enfrentadas por essas mulheres para romper com a matriz de dominação que articula, hierarquicamente, raça, classe e gênero, restringindo a consideração atribuída aos seus discursos e opiniões38,39.
A mudança de comportamento dos filhos também teve impacto no aumento da prevalência de dificuldade de lidar com a maternidade durante a pandemia. De modo igual, a piora de sintomas que expressam condições psicoemocionais e a necessidade ou procura por ajuda profissional de saúde mental, tanto das mães quanto dos filhos, aumentaram a prevalência do desfecho. No sentido oposto, porém, a melhora ou a manutenção de sintomas que expressam condições psicoemocionais das mães diminuíram sua prevalência.
No curso da pandemia, as mudanças no comportamento de crianças e adolescentes mais citadas na literatura foram medo, ansiedade, estresse, desânimo, tristeza, preocupação, raiva, inquietude, insônia, sentimentos de desamparo e sofrimento, dependência excessiva dos pais, comportamentos agressivos e desrespeitosos40–43. Os fatores estressantes incluíram perda ou diminuição do contato social com outras crianças, familiares, professores e ambiente escolar; dificuldades financeiras enfrentadas pelos familiares; medo da doença, presença de enfermidades, hospitalização e morte de pessoas próximas; tédio; uso prolongado de telas; falta de espaço pessoal; restrição de atividades físicas e de lazer ao ar livre; e deterioração da saúde mental dos pais e cuidadores41–46.
Estudos realizados antes e durante a pandemia já haviam associado a presença de mudanças negativas no afeto e no comportamento dos filhos ao sofrimento mental das mães47,48 e ao estresse parental49,50, mostrando que o comportamento dos filhos afeta as mães, tal como o comportamento das mães afeta os filhos. Contudo, ainda que seja uma via de mão dupla, no real da vida, esta relação está longe de ser uma linha reta bidirecional. Cada mãe exerce a maternidade de uma maneira, e esse exercício se modifica no tempo-espaço da cultura e da história singular da mãe e do filho51.
Sendo um fenômeno complexo em que interagem elementos psíquicos e sociais e que reflete as relações afetivas e vinculares que atravessam não só o binômio mãe e filho, mas toda a família em dado contexto51, a maternidade exercida na pandemia tornou ainda mais difícil qualquer interpretação de causa e efeito. Aliás, quando o tema é relacionamento, essa já é uma busca infindável, sobretudo na relação mãe-filho. No período pandêmico, a exacerbação do convívio familiar e as inúmeras demandas direcionadas às mulheres mães na árdua tarefa de conciliar maternidade, trabalho doméstico e profissional, seguramente produziram subjetividades e efeitos psíquicos igualmente únicos.
Logo, ainda que este estudo tenha verificado a associação entre a mudança no comportamento dos filhos, a piora de sintomas que expressam condições psicoemocionais das mães e o aumento da prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia, provavelmente são complexos os caminhos pelos quais os efeitos da pandemia sobre as mães interagiram com os efeitos da pandemia sobre o comportamento dos filhos, gerando ou exacerbando a dificuldade em lidar com a maternidade.
A diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos foi outra variável que aumentou significativamente a prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade. Estudos realizados antes e durante a pandemia apontaram que a redução das interações sociais com colegas e amigos pode causar problemas duradouros na saúde mental de crianças e adolescentes40,43,45. A socialização com pares, sejam primos, vizinhos, colegas da escola ou outras crianças do círculo social, é fundamental para favorecer aprendizados importantes para o desenvolvimento humano, como cooperação, compartilhamento de decisões, convivência com as diferenças e controle dos impulsos52,53. Inclusive, como mencionado anteriormente, a perda ou diminuição da interação social com outras crianças foi um fator estressor também associado à mudança no comportamento dos filhos e, portanto, envolvido nas relações afetivas e vinculares que aumentaram a percepção de dificuldade em lidar com a maternidade.
De fato, era previsto que a presença de filhos menores de 6 anos de idade tivesse maior impacto sobre o desfecho. Habitualmente, crianças dessa faixa etária demandam maior gasto energético e psíquico de seus cuidadores, pela fase do desenvolvimento cognitivo e motor em que se encontram53. Somado a isso, as medidas de distanciamento social e restrição de circulação levaram à perda de muitos mecanismos tradicionais de suporte social das mães desse grupo, não só no compartilhamento do cuidado com creches, escolas, familiares ou pessoas contratadas11–13,54, como na possibilidade de receber a visita de familiares e amigos, ou de socializar com outros pais e cuidadores, nos espaços públicos17.
As pesquisas ressaltaram que, durante a pandemia, níveis mais elevados de esgotamento parental estiveram associados a ter filhos menores e ser mãe (e não pai)55, e que houve aumento das taxas de prevalência de sintomas de depressão e ansiedade em mães de crianças pequenas (menores de 5 anos), em relação às estimativas pré-pandêmicas17,56. Concomitantemente, essas mães sofreram mais com a diminuição do tempo para cuidado de si13,54, as dificuldades em atender às demandas do trabalho profissional17,20,56, o medo do desemprego e a diminuição dos rendimentos financeiros17,54.
Conclusão
A pandemia de Covid-19 teve um impacto desproporcional sobre as mulheres, escancarando a desigualdade de gênero como uma crise social, econômica, política e de saúde em curso nas Américas8. A revisão da literatura mostrou que de múltiplas formas a sobrecarga com o trabalho doméstico e de cuidado dos filhos, o esfacelamento da rede de suporte social, os obstáculos extras para lidar com o conflito trabalho-família, o medo do desemprego, a perda de renda, e os demais efeitos das medidas de contenção da pandemia sobre a saúde física e mental de mães e filhos, repercutiram sobre a vivência da maternidade naquela conjuntura.
Artigos nacionais e internacionais exploraram essa temática sob a ótica do estresse parental, do sofrimento mental, e das condições de trabalho e cuidado de mulheres mães. O escopo deste artigo foi ao encontro desses estudos, ao partir do ponto de vista das mulheres, trazendo como inovações o tamanho expressivo da amostra e o uso de metodologia quantitativa para verificar a associação entre fatores sociodemográficos, situações do mundo do trabalho, condições emocionais e mudanças no comportamento e desenvolvimento dos filhos e a percepção de dificuldade em lidar com a maternidade durante a maior crise sociossanitária da atualidade.
Os resultados indicaram que houve maior prevalência de dificuldade em lidar com a maternidade durante a pandemia entre mulheres brancas, com renda maior do que dez salários, ensino superior completo e filhos menores de 6 anos. Os fatores que tiveram maior impacto no aumento da prevalência dessa dificuldade foram o aumento da carga de trabalho doméstico, a mudança no comportamento dos filhos, a diminuição do relacionamento social dos filhos com outras crianças que não irmãos e a presença de filhos menores de 6 anos. Por outro lado, a melhora ou manutenção na condição emocional das mulheres, bem como o avanço no desenvolvimento dos filhos, diminuíram a prevalência de dificuldade.
O heterocentramento do “dispositivo materno”, presente não apenas na relação entre mãe e filho, mas em todas as relações sociais das quais as mulheres participam11, e a pesada e desigual responsabilidade pelo trabalho de cuidado na nossa sociedade, contribuem para o aprofundamento da desigualdade de gênero e certamente tiveram influência nos resultados apresentados. Embora não seja possível generalizá-los para a população geral, os dados desta pesquisa avançam na construção do conhecimento sobre os desafios enfrentados pelas mulheres mães durante a pandemia de Covid-19, ainda não totalmente compreendidos. Há muito a ser detalhado sobre as repercussões desse período em relação às desigualdades de gênero, assim como de raça, escolaridade e classe social, para a superação de futuras crises políticas, ambientais, sanitárias e sociais que espreitam no horizonte.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência
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