0172/2026 - (In)visibilidade dos trabalhadores de limpeza hospitalar: contribuições epistemológicas decolonial e interseccional
(In)visibility of hospital cleaning workers: decolonial and intersectional epistemological contributions
Autor:
• Larissia Admá de Souza Pereira - Pereira, LAS - <lariadma@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4242-2354
Coautor(es):
• Tiago Braga do Espírito Santo - Espírito Santo, TB - <tbes81@gmail.com>ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4313-6894
• Magda Guimarães de Araújo Faria - Faria, MGA - <magda.faria00@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9928-6392
• Cristiane Helena Gallasch - Gallasch, CH - <cristiane.gallasch@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0823-0818
Resumo:
Este estudo apresenta-se como um ensaio teórico-reflexivo, com objetivo de refletir as contribuições epistemológicas contemporâneas da decolonialidade e da interseccionalidade como assentamento teórico útil para avanços epistemológicos e analíticos acerca das desigualdades sociais e do modelo atual de trabalho enfrentado pelos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar. Ao valorizar as epistemologias que emergem da crítica à colonialidade e à intersecção entre raça, gênero e classe, defende-se o reconhecimento das experiências subjetivas desses trabalhadores como saberes legítimos e essenciais à formulação de políticas públicas mais inclusivas. A partir desse referencial, o estudo propõe três dimensões analíticas para futuras investigações e práticas pedagógicas: (1) a colonialidade do trabalho, que associa o trabalho de limpeza à desumanização de corpos racializados; (2) a interseccionalidade estrutural, como ferramenta para compreender a articulação simultânea de opressões; e (3) o epistemicídio laboral, enquanto crítica ao apagamento dos saberes produzidos pelos sujeitos invisibilizados.Palavras-chave:
Epistemologias; Estudos Decoloniais; Interseccionalidade; Trabalho; Serviço de Limpeza Hospitalar.Abstract:
This study presents itself as a theoretical-reflective essay, aiming to reflect on the contemporary epistemological contributions of decoloniality and intersectionality as a theoretical foundation useful for epistemological and analytical advances concerning social inequalities and the current labor model faced by hospital cleaning workers. By valuing epistemologies that emerge from critiques of coloniality and the intersection of race, gender, and class, the study advocates for the recognition of these workers' subjective experiences as legitimate forms of knowledge, essential for the formulation of more inclusive public policies. Based on this framework, the study proposes three analytical dimensions for future research and pedagogical practices: (1) the coloniality of labor, which links cleaning work to the dehumanization of racialized bodies; (2) structural intersectionality, as a tool to understand the simultaneous articulation of oppressions; and (3) labor epistemicide, as a critique of the silencing of knowledge produced by invisibilized subjects.Keywords:
Epistemologies; Decolonial Studies; Intersectionality; Work; Hospital Cleaning Service.Conteúdo:
Em resposta ao processo capitalista baseado nos meios de produção e acumulação de lucro, apresentam-se as proposições “trabalho” e “dinâmica social” como determinantes no binômio saúde-doença e na percepção do indivíduo como ser social frente às relações de produção materializadas e condições específicas de se trabalhar1. Esse cenário suscita inquietação ao evidenciar a existência de segmentos de grupos ocupacionais submetidos a formas de exploração inerentes à lógica de extração do capitalismo, ao mesmo tempo em que persiste a negação do reconhecimento da subjetividade dos indivíduos no campo laboral.
Nesse contexto, o trabalho deixa de ser uma atividade criativa e transformadora para se tornar uma função subalterna na produção de mercadorias. O ser humano, longe de ser visto como um ser autônomo e pleno, passa a ser considerado uma extensão da máquina, onde sua força física e mental é explorada ao máximo em nome do aumento da produtividade e do lucro2,3.
Diante do sistema de extração da mais-valia, propõe-se uma reflexão sobre quem são os trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar (TSLH), indivíduos pouco valorizados socialmente, que exercem atividades pesadas e rotineiras, sem formação específica e que, muitas vezes, passam despercebidos no ambiente laboral e na elaboração de políticas públicas de promoção da saúde e prevenção de agravos4,5. A escolha para análise desses trabalhadores, no contexto social e laboral, justifica-se por sua posição estruturalmente subordinada à divisão social do trabalho em saúde, fortemente atravessada por hierarquias de classe, gênero e raça. A centralidade funcional desse trabalho contrasta com o baixo reconhecimento simbólico, econômico e político conferido a esses sujeitos, cujas condições de trabalho e saberes permanecem marginalizados nos debates acadêmicos e nas políticas públicas de saúde.
Problematiza-se o contexto histórico que fundamenta a formulação dos conceitos relacionados a essa categoria trabalhista, situando sua origem na estrutura histórico-social do regime colonial brasileiro. Essa associação histórica, marcada pela exploração intensiva da força de trabalho e pela hierarquização racial, contribuiu para a construção de relações produtivas caracterizadas pela invisibilidade e pelo baixo reconhecimento social desses sujeitos. Assim, o objetivo deste artigo consiste em refletir as contribuições epistemológicas contemporâneas da decolonialidade e da interseccionalidade como assentamento teórico útil para avanços epistemológicos e analíticos acerca das desigualdades sociais e do modelo atual de trabalho enfrentado pelos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar.
Este artigo configura-se como um ensaio teórico-reflexivo, fundamentado em uma revisão narrativa da literatura especializada em produção epistemológica, entendida como o conjunto de referenciais teóricos, categorias analíticas e formulações críticas que problematizam os modos de produção do conhecimento científico, suas bases históricas, processos de legitimação e efeitos sociais6.
A seleção bibliográfica concentrou-se em autores(as) centrais do pensamento decolonial e interseccional nos contextos latino-americano e brasileiro, cujas contribuições permitem analisar relações de poder, desigualdades estruturais e processos de subalternização. Foram priorizados textos clássicos e contemporâneos desses campos, estudos qualitativos sobre as condições e a organização do trabalho da limpeza hospitalar, bem como análises do mundo do trabalho no Brasil com recorte racial e de gênero.
DESENVOLVIMENTO
Trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar: contexto histórico e social
O serviço de limpeza hospitalar apresenta-se como atividade essencial e indispensável, com finalidade de promover o bem-estar físico e psicológico do paciente e profissionais de toda unidade hospitalar, acrescido da função de favorecer para o controle e prevenção de infecções no âmbito hospitalar7.
Enquanto serviço essencial observa-se que a centralidade recai predominantemente sobre o produto do trabalho, em detrimento da visibilização dos sujeitos que o produz. Ademais, as desigualdades que conformam o mundo do trabalho não se explicam apenas por dinâmicas econômicas, mas também pela persistência de uma cultura de privilégios, historicamente constituída no contexto colonial e escravista, cujos efeitos se atualizam e se reproduzem nas estruturas sociais contemporâneas 8,9.
Sobre os sujeitos - trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar-, existe uma lacuna de pesquisas científicas sobre trabalho, subjetividade e ser social. Os poucos estudos existentes relatam condições precárias de trabalho, baixos salários acrescidos da instabilidade financeira e terceirização do serviço, baixo nível de instrução escolar, mão de obra em massa composta por mulheres devido à característica do serviço de limpeza estar voltado ao cuidado doméstico9-11.
A Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) apresenta o serviço de limpeza como “Coletor de resíduos sólidos de serviços de saúde” - CBO 5142-30, atividade descrita como coleta de resíduos sólidos de serviços de saúde e resíduos coletados nos serviços de limpeza e conservação de áreas públicas”12. Ressalta-se, contudo, que as atividades efetivamente desempenhadas pelos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar extrapolam amplamente essa definição formal, envolvendo ações essenciais à prevenção de infecções, à segurança dos ambientes assistenciais e à continuidade do cuidado em saúde. A redução desse grupo ocupacional à função de “coletor de resíduos” contribui para a invisibilização da complexidade e da centralidade do trabalho realizado, reforçando processos históricos de desvalorização associados às atividades de limpeza e cuidado.
Em busca de compreender o contexto histórico desse grupo ocupacional, há somente registro do surgimento da limpeza hospitalar enquanto atividade essencial para promover ambiente propício ao conforto e reduzir a contaminação observado por Florence Nightingale, em 1854. Por volta do século XIX há o registro do serviço de limpeza de forma sistematizada e o surgimento de funções especializadas de limpeza nos hospitais, mas ainda de forma rudimentar e com pouca regulamentação13.
Evidencia-se que a força de trabalho dos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar é composta majoritariamente por mulheres, cuja inserção ocupacional se vincula historicamente às atividades de cuidado tradicionalmente exercidas no âmbito doméstico e familiar14.
Com o propósito de estabelecer uma aproximação empírica com a realidade objetiva do mundo do trabalho brasileiro, realizou-se a análise de dados públicos disponibilizados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Referente ao perfil do trabalhador, no exercício de 2022, os dados revelam que essa categoria profissional é composta majoritariamente por mulheres, que representam 56,74% do total de trabalhadores15.
Na composição étnico-racial, 38,73% dos trabalhadores se autodeclararam brancos, 11% pretos e 47,60% pardos, configurando, portanto, um contingente de 58,6% de trabalhadores negros (soma de pretos e pardos). Acrescenta-se aos dados a escolaridade em que apenas 0,83% possuem ensino superior completo, 0,49% ensino superior incompleto, 51,43% ensino médio completo, 28,81% ensino médio incompleto e 17,91% ensino fundamental incompleto. No que tange à remuneração, a média salarial mensal registrada para essa ocupação no período analisado foi de R$ 1.890,13, o que corresponde a um valor médio de R$ 9,15 por hora trabalhada15.
Os dados analisados permitem delinear um perfil socioeconômico específico para esse grupo de trabalhadores: trata-se, em sua maioria, de mulheres negras, com baixa escolaridade e inseridas em uma ocupação de baixa remuneração, evidenciando os marcadores sociais que estruturam as desigualdades no mundo do trabalho formal. Evidencia-se, portanto, que a ocupação de coletor(a) de resíduos sólidos de serviços de saúde no Brasil é marcada por assimetrias de gênero, raça e classe.
Epistemologias contemporâneas: reflexões à luz da decolonialidade e interseccionalidade sobre contexto laboral dos trabalhadores de serviço de limpeza hospitalar e desigualdades enfrentadas
Historicamente, ao se consolidar uma sociedade capitalista marcada pela transição de uma economia escravocrata para uma estrutura baseada na exploração assalariada, volta-se para o arcabouço colonial como contribuição para a formação do serviço de limpeza hospitalar enquanto ocupação. Após a abolição, a população negra, sem acesso à educação ou a condições de trabalho dignas, continuou a ocupar as funções de limpeza e serviços domésticos16.
Sem acesso às alternativas de trabalho, muitas ex-escravizadas e suas descendentes permaneceram como empregadas domésticas, uma profissão predominantemente realizada por mulheres negras. A sociedade continuava a associar o trabalho doméstico à subordinação e à inferioridade, perpetuando uma hierarquia racial e social em que as mulheres negras estavam no fundo dessa escala17.
“A cidade encarou os pobres como elementos das “classes perigosas” (a expressão foi largamente utilizada em documentos oficiais do período) que maculavam, do ponto de vista da ocupação e reordenação do espaço urbano, o sonho da cidade moderna e cosmopolita. Ao mesmo tempo, era dessas “classes perigosas” que saíam os trabalhadores urbanos que sustentavam – ao realizar o trabalho braçal que as elites não cogitavam fazer – a viabilidade desse mesmo sonho: operários, empregadas domésticas, seguranças, porteiros, soldados, policiais, feirantes, jornaleiros, mecânicos, coveiros, floristas, caçadores de ratos. Pouca coisa mudou nesse embate disfarçado de cordialidade desde então” (Simas, 2019 p.13).
A atribuição social das tarefas domésticas e de cuidado às mulheres constitui um processo histórico fundamental para a compreensão das desigualdades de gênero no mundo do trabalho. Esse arranjo histórico produziu uma associação duradoura entre feminilidade, negritude e trabalho doméstico, contribuindo para a naturalização dessas atividades como extensões “naturais” dos papéis sociais femininos e, portanto, como trabalhos desprovidos de valor econômico, simbólico e intelectual. Ao longo do tempo, essa herança escravocrata foi ressignificada, mas não superada, manifestando-se na contemporaneidade com a persistente concentração de mulheres negras em ocupações voltadas ao cuidado manual.
Destarte, fazem-se necessárias considerações de epistemologias contemporâneas que referem-se a abordagens teóricas e críticas que buscam entender, investigar e questionar os processos de produção do conhecimento condicionado por contextos históricos, sociais, culturais e políticos18. Tanto a epistemologia decolonial quanto a interseccional, surgidas no final do século XX, apresentam-se como resposta a hierarquias e desigualdades firmadas, principalmente por características predominantes da raça, do gênero e da classe, provindas da complexidade das formas de interação da sociedade contemporânea18,19.
A decolonialidade é fortemente associada ao pensamento “pós-colonial” que visa a reparação histórica e a reflexão sobre as dissonâncias nas relações raciais, contribuindo tanto para a transformação interna do sujeito colonizado quanto a destruição das estruturas de poder que o oprimem20.
O pensamento decolonial emerge como uma proposta teórica e crítica do pensamento latino-americano, intensificado nas décadas de 1980 e 1990, de modo a confrontar continuidades da lógica colonial nas estruturas de poder, saber e ser que atravessam as sociedades contemporâneas18. Como pensadores importantes desse movimento, apresenta-se Aníbal Quijano que afirma que a estrutura de dominação colonial persiste na inferiorização de povos não europeus, legitimando hierarquias raciais e epistêmicas como parte do sistema-mundo moderno21.
Acrescenta-se Walter Mignolo, propondo uma ruptura dos padrões universais de conhecimento impostos pela tradição eurocêntrica e Nelson Maldonado Torres, demonstrando como os sujeitos racializados foram historicamente desumanizados, não apenas no plano político ou econômico, mas na própria constituição ontológica do ser22,23.
O pensamento pós-colonial, sob a ótica dos autores Aimé Césaire e Frantz Fanon, representa uma crítica radical às violências estruturais e simbólicas do colonialismo moderno, destacando suas implicações psíquicas, sociais e históricas nos povos colonizados. Na obra "Discurso sobre o colonialismo", Césaire revela que o colonialismo corrompe tanto o colonizador quanto o colonizado, ao mesmo tempo em que evidencia o racismo como elemento constitutivo da modernidade ocidental24. Já Fanon, em "Os condenados da terra", aprofunda essa crítica ao analisar os efeitos da colonização sobre a subjetividade dos sujeitos oprimidos, argumentando que a libertação do colonizado exige não apenas a independência política, mas uma ruptura ontológica e cultural com os paradigmas coloniais impostos25. Ambos os autores inauguram um pensamento comprometido com a descolonização total – política, cultural, psicológica e epistêmica –, servindo como pilares fundadores da crítica pós-colonial no século XX.
A decolonialidade, enquanto avanço epistêmico do pensamento anterior tem como referência o Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), que constitui uma perspectiva crítica que denuncia a permanência de estruturas coloniais nas esferas do poder, do saber e do ser, mesmo após o fim formal do colonialismo. Diferente do pós-colonialismo, a decolonialidade propõe uma ruptura epistêmica com os paradigmas eurocentrados da modernidade, ao reconhecer que a modernidade ocidental está intrinsecamente vinculada à colonialidade como seu lado constitutivo e oculto. A decolonialidade, portanto, propõe um “giro” (giro decolonial) que busca desobedecer à lógica colonial moderna e instaurar um projeto de pluriversalidade, no qual múltiplos saberes e cosmologias possam coexistir sem subordinação à racionalidade ocidental dominante22-25.
Para melhor compreensão das desigualdades e a sobreposição de diferentes marcadores sociais que atravessam o trabalho dos TSLH, a interseccionalidade constitui-se uma ferramenta analítica complementar à perspectiva decolonial ao permitir a análise integrada das relações de raça, gênero e classe que estruturam as experiências de subalternização desse grupo ocupacional. Proposto por Kimberlé Crenshaw, na década 1980, o conceito evidencia que tais categorias não operam de forma isolada, mas de forma articulada, produzindo posições sociais específicas marcadas pela desvalorização e pela invisibilização no campo do trabalho em saúde26.
A partir da experiência de mulheres negras, Crenshaw mostrou como o sistema jurídico e as políticas públicas frequentemente invisibilizam essas interações, reforçando desigualdades estruturais26. Patricia Hill Collins expandiu esse olhar ao desenvolver a noção de matriz de dominação, que compreende as opressões como interdependentes e sustentadas por estruturas sociais, políticas e epistêmicas27.
Aprofundando-se no pensamento crítico interseccional, em Black Feminist Thought (1990), Patricia Hill Collins desenvolve o conceito de matriz de dominação, por meio do qual sustenta que as categorias de raça, gênero, classe e sexualidade operam de maneira relacional e simultânea, não podendo ser compreendidas de forma isolada ou meramente aditiva27. Para a autora, essas categorias estruturam posições sociais historicamente localizadas em contextos de subordinação, assim, desenvolvem saberes situados e produzidos a partir de suas experiências cotidianas de opressão e resistência27.
Desse modo, a interseccionalidade sugere que em determinadas situações existe a intersecção entre diferentes identidades sociais e, quando isso ocorre, a discriminação assume características singulares. Em contextos específicos, diferentes categorias sociais e biológicas, como sexo, gênero, raça, sexualidade, religião e classe se intersectam e interagem entre si, gerando um sistema de opressão que revela múltiplas formas de discriminação e privilégio28,29. A práxis interseccional possibilita evidenciar os eixos da diferença, as desigualdades e hierarquizações sociais funcionando como ferramenta para o enfrentamento das injustiças sociais.
Como ferramenta crítica feminista negra, a interseccionalidade também se conecta ao pensamento decolonial, pois ambas as teorias rejeitam o universalismo eurocêntrico e afirmam a legitimidade de saberes situados. A decolonialidade, formulada pelo Grupo Modernidade/Colonialidade, denuncia a persistência da colonialidade do poder, do saber e do ser - estrutura que naturaliza as hierarquias raciais, epistêmicas e de gênero desde a colonização29.
Embora os autores apresentados representem uma corrente epistêmica de extrema importância da colonialidade e interseccionalidade, tenciona-os a partir do contexto brasileiro. Com primazia, apresenta-se a intelectual e ativista brasileira Lélia Gonzalez (1935-1994)30. Embora o pensamento decolonial e interseccional tenham se consolidado como campo teórico a partir das décadas de 1990 e 2000, é fundamental reconhecer a produção intelectual de autoras que, mesmo fora desse circuito acadêmico, formularam críticas convergentes às estruturas coloniais de saber e poder31.
A trajetória de Lélia Gonzalez constitui uma referência seminal na produção de um pensamento crítico enraizado nas experiências históricas da população negra e indígena no Brasil. Sua contribuição reside na articulação pioneira entre raça, gênero, classe e cultura em um contexto latino-americano, evidenciando como a experiência de mulheres negras no Brasil é marcada por uma profunda colonialidade do ser e do saber30. A autora desenvolve uma crítica contundente ao eurocentrismo epistemológico, denunciando os mecanismos que produzem a invisibilidade e a desumanização dos sujeitos negros e indígenas na história e na cultura brasileiras. Empiricamente, a população brasileira será condenada à subalternidade enquanto existir a ideia de Brasil como extensão da Europa31.
A autora propõe uma revalorização dos saberes populares, da oralidade, das expressões culturais negras como formas legítimas de conhecimento e resistência ao projeto civilizatório ocidental. Além disso, sua análise interseccional da opressão sofrida pelas mulheres negras também antecipa os debates atuais sobre a colonialidade do gênero.
Para Gonzalez, a mulher negra brasileira ocupa uma posição de duplo apagamento: silenciada tanto pelo feminismo branco quanto pelo movimento negro hegemonizado por homens. Essa abordagem complexa da subalternidade contribui de forma significativa para a ampliação do pensamento decolonial, especialmente no que tange à centralidade dos corpos racializados e generificados na crítica às estruturas coloniais31.
A partir das contribuições teóricas das epistemologias contemporâneas para a compreensão e reflexão das desigualdades do mundo atual de trabalho, reafirma-se que a colonialidade não se restringe ao período histórico da colonização, mas persiste nas relações de poder que continuam a estruturar as sociedades contemporâneas, incluindo as dinâmicas do mercado de trabalho, seja na manutenção de hierarquias raciais e de gênero que moldam as oportunidades e as experiências dos trabalhadores16.
A visão de uma pensadora crítica brasileira, que rompe com a tradição eurocêntrica, oferece uma lente fundamental para refletir sobre a situação dos trabalhadores de limpeza hospitalar. Essa perspectiva evidencia as estruturas de poder que os tornam invisíveis, desvalorizados e marginalizados na dinâmica social e econômica. Ao ressaltar a importância de reconhecer e valorizar outros saberes e formas de conhecimento, a decolonialidade contribui para a construção de uma sociedade mais justa, na qual todos os trabalhadores, independentemente de sua função ou classe social, possam ser reconhecidos e tratados com dignidade e respeito30,31.
A desvalorização do trabalho manual e de cuidados, predominantemente realizado por mulheres e pessoas negras é uma característica supostamente observada nos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar7 e se perpetua como uma das consequências diretas dessa estrutura colonial. Ao problematizar as noções de produtividade, eficiência e valor no trabalho, a decolonialidade oferece um caminho para repensar o que constitui trabalho digno e como as estruturas raciais e de classe impactam as condições de trabalho19.
À luz da interseccionalidade, há uma perspectiva analítica que amplia a compreensão das desigualdades no trabalho ao considerar a sobreposição de diferentes sistemas de opressão, como raça, gênero, classe social, sexualidade, idade e deficiência.
Para a análise da condição social dos trabalhadores do serviço de limpeza no Brasil, sobretudo mulheres negras e periféricas que compõem a maioria dessa categoria, requer uma abordagem crítica que articule raça, gênero, classe e cultura, tal como proposto por Lélia Gonzalez. Suas contribuições oferecem um aporte teórico fundamental para compreender as dinâmicas de exclusão e resistência desses sujeitos a partir da perspectiva decolonial, que visa desnaturalizar a colonialidade do poder e do saber ainda presentes na estrutura social brasileira31,32.
A identidade negra não é uma característica essencialista, mas um processo construído historicamente a partir das relações de opressão e resistência. Para os trabalhadores do serviço de limpeza, muitos dos quais enfrentam condições precárias de trabalho e invisibilidade social, essa concepção possibilita a valorização de uma identidade racial consciente e ativa, que transcende a simples atribuição social, fomentando o empoderamento coletivo e a luta por reconhecimento19. Tal dinâmica reflete-se diretamente na realidade desses trabalhadores, cujas práticas culturais, formas de expressão e saberes cotidianos são frequentemente desvalorizados ou ignorados, perpetuando a marginalização epistemológica própria do colonialismo interno.
A ênfase pautada nas epistemologias contemporâneas representa um convite para que as experiências subjetivas e emocionais desses trabalhadores sejam reconhecidas como fontes legítimas de conhecimento, essenciais para a formulação de políticas públicas mais inclusivas e sensíveis às suas realidades. Essa valorização contribui para a construção de uma prática social e política que respeite a dignidade e a agência desses sujeitos historicamente silenciados.
Ambas as teorias desvelam as múltiplas dimensões de funções e subordinação que existem nas relações de trabalho e nas estruturas sociais, os quais representam impactos significativos na vida dos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar. Ao integrar essas teorias contemporâneas, é possível compreender as múltiplas camadas de opressão e invisibilidade que esses trabalhadores enfrentam e trabalham para construir uma estrutura mais justa e equitativa dentro do complexo dito “sociedade”.
A pandemia de SARS-CoV-2 constitui um exemplo emblemático, no qual os trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar enfrentaram desafios adicionais, compartilhando o medo e a exposição a uma doença desconhecida, de elevada transmissibilidade e gravidade, em condições semelhantes às de outros trabalhadores que atuavam nos serviços de saúde¹?. Embora as normativas vigentes à época previssem a priorização de todos os trabalhadores hospitalares, seja para a vacinação contra a Covid-19 e medidas preventivas quanto ao novo, evidências produzidas no contexto pandêmico indicaram que categorias classificadas como apoio operacional, vivenciaram processos de invisibilização institucional11,33.
O caso em tela abre valiosas possibilidades analíticas. Como já apresentado, na concepção capitalista do trabalho, o ser humano passou a ser considerado uma extensão da máquina. Para o TSLH, também já foi apresentada uma importante característica: o fato de ter sua ocupação majoritariamente de mulheres negras. Nesta direção, advoga-se que as epistemologias decoloniais e interseccionais contribuem ao apontar como a história da racialização e feminização dessas atividades, associadas à precarização laboral, conformam posições sociais marcadas pela desvalorização simbólica e pela exclusão dos espaços de reconhecimento e produção de saber no campo da saúde.
Salienta-se que ao buscar compreender as relações de poder, a presença da branquitude, como configuração nas relações raciais brasileiras nos dias de hoje, diz respeito ao processo histórico de dominação colonial de construção eurocêntrica, em que o status ocupado pelas pessoas brancas abarca a detenção do poder e manutenção do quadro das desigualdades34.
Resgate-se o pensamento do filósofo camaronês Achilles Mbembe, que compreende o racismo como tecnologia política e cultural da morte e do poder, útil ao neoliberalismo para a manutenção de preconceitos e hierarquias. Portanto, o capitalismo necessita do racismo para organizar o mundo, classificando e hierarquizando corpos com base na racialização. Esta engrenagem produz o arcabouço necessário para a exploração, legitimando práticas de dominação, controle e necropolítica35.
Se considerarmos que abordar o tema do TSLH é, invariavelmente, interseccionar o eixo de poder raça com o de gênero, assumimos que a análise precisa ser realizada, em especial, considerando o corpo negro feminino. Neste ponto, a autora brasileira Lélia Gonzalez contribui com seus ensinamentos ao analisar a posição da mulher negra no mercado de trabalho brasileiro, afirmando que esta é resultado direto da herança escravocrata e da persistência do racismo estrutural na contemporaneidade32.
Para a autora, a figura da “doméstica”, por exemplo, é a continuidade moderna da “mucama”, revelando que o corpo da mulher negra permanece utilitarizado e desumanizado, sendo destinado ao trabalho servil, invisível e com baixa remuneração. Essa subalternização, por sua vez, associa-se a uma exploração econômica - interseccionalizada, portanto, à classe - que reduz a mulher negra a um papel social previamente estabelecido e desqualificado. Culturalmente, esta intersecção naturaliza a presença destes corpos em ocupações de baixa remuneração e status, excluindo-as das esferas de decisão e representação32.
Destaca-se Maria Aparecida Bento, cuja episteme contribui à compreensão social das mulheres negras no mundo do trabalho, ao incorporar a categoria da branquitude em suas análises. A autora argumenta que o lugar social do sujeito branco no Brasil é historicamente construído e sustentado por redes de relações conscientes e inconscientes, que o estabelecem como norma e referência universal, naturalizando privilégios e reproduzindo desigualdades raciais nos espaços de poder.³?
Essa leitura dialoga com o pensamento de Achille Mbembe ao evidenciar que o racismo à brasileira não se expressa apenas pela exclusão direta da população negra, mas também pela autoproteção das elites brancas, que se organizam para preservar seus lugares de privilégio em instituições, empresas e instâncias de decisão, contribuindo para a hierarquização das ocupações e a concentração de mulheres negras em trabalhos socialmente desvalorizados, como o serviço de limpeza hospitalar35.
A esta altura, como base na cultura do privilégio, a base teórica interseccional oferta para compreensão do mundo de trabalho do serviço de limpeza hospitalar, a decolonialidade nos proporciona refletir sobre acesso desigual a benefícios e direitos de certos grupos fundado no colonialismo pelo trabalho subalternizado de pessoas negras e com forte exploração colonial. A interseccionalidade nos permite compreensão sobre os direitos trabalhistas como licença médica, seguro de saúde, acesso à aposentadoria ou férias. Muitas vezes, por fonte terceirizada de mão de obra, esses trabalhadores abstém-se desses benefícios por alta rotatividade por parte das empresas e pela insegurança de possuir um vínculo de trabalho para garantir o sustento familiar.
Portanto, ao integrar a interseccionalidade e a decolonialidade na análise do serviço de limpeza hospitalar, sob a óptica do trabalhador, espera-se a construção de caminhos possíveis para reconhecer o trabalho como essencial, não apenas para a manutenção da saúde, mas também como uma função que merece respeito e valorização. Envolve melhorar as condições de trabalho, valorização e respeito das diversidades compostas pelos trabalhadores, educação e treinamento inclusivo, enfrentamento de estigmas e preconceitos, promoção de saúde e bem-estar para os trabalhadores.
A partir da análise realizada, com base nos marcos teóricos decoloniais e interseccionais acerca dos TSLH, evidencia-se a pertinência de três dimensões analíticas fundamentais, a saber:
1 – Colonialidade do trabalho, enquanto persistência de hierarquias laborais que destinam corpos racializados a funções socialmente desvalorizadas, reproduzindo lógicas coloniais de subalternização;
2 – Interseccionalidade estrutural, compreendida como a sobreposição da opressão de raça, gênero e classe que posiciona mulheres negras como força de trabalho almejada para serviços de limpeza, naturalizando este condicionamento, e;
3 – Epistemicídio laboral, entendido como o apagamento dos saberes e experiências dos TSLH, reduzindo-os a mão de obra desqualificada e negando a complexidade e importância de seus conhecimentos e práticas.
Como limitação de estudo, apresenta-se a escassez de dados estatísticos específicos sobre a TSLH e a lacuna de discussões acadêmicas que aprofundem as análises das desigualdades no mundo de trabalho aqui propostas.
Como contribuição para a construção do conhecimento na área da Enfermagem, vos escreve uma enfermeira, mulher, negra, provinda de classe média baixa, que abarca na luta para alcançar espaço de visibilidade dentro da realidade de trabalho que, ao mesmo tempo, percebe que em sua trajetória profissional, como responsável por prevenção de doenças, educação em saúde, organização de serviços, gestão de riscos, mobilização comunitária e construção acadêmica, existem barreiras e conceitos a serem construídos sobre determinados assuntos (sujeitos e subjetividade).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Existe um protagonista no serviço de limpeza hospitalar: o trabalhador que todos os dias sai de casa para garantir a saúde e o asseio nos mais diversos ambientes públicos e privados, um trabalhador sem o qual a sociedade não funciona, não vive, mas que, curiosamente, nem sempre é adequadamente visto ou valorizado, tornando-se invisível mediante as experiências de opressão de raça, gênero ou classe e de dominação de poder.
É incontornável assumir que a predominância de mulheres negras no serviço de limpeza hospitalar está situada em um contexto histórico de marginalização, onde o racismo estrutural, o sexismo e a exploração econômica convergem para a manutenção de uma lógica de invisibilização e desigualdades. A interseccionalidade, e a perspectiva decolonial crítica revelam que o não reconhecimento dessas trabalhadoras como sujeitos plenos de direitos não é uma falha ocasional, mas uma escolha política sustentada por um sistema que hierarquiza vidas a partir dos marcadores sociais da diferença.
Nesta direção, a partir da articulação entre os aportes da decolonialidade e da interseccionalidade, a presente reflexão teórica evidencia cinco contribuições centrais para a compreensão da condição dos trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar:
(1) O reconhecimento da invisibilidade como produto da colonialidade do poder, do saber, do ser e do trabalho;
(2) A identificação da subalternização interseccionalizada, marcada pelas articulações entre gênero, raça e classe;
(3) A necessidade de valorização das experiências vividas como formas lícitas de conhecimento para a formulação de políticas de saúde do trabalhador mais justas e equitativas;
(4) A urgência de políticas públicas que considerem as especificidades interseccionais desta categoria;
(5) A importância de reposicionar a enfermagem como campo comprometido com a justiça social e epistêmica.
Para a enfermagem, este estudo representa um chamado ao compromisso ético-político com categorias profissionais subalternizadas que compartilham o espaço hospitalar, bem como características interseccionais (em especial as de gênero, raça e classe) contribuindo para uma prática profissional mais justa e inclusiva.
No campo da Saúde Coletiva, este estudo contribui ao ampliar a análise do trabalho em saúde para além das categorias tradicionalmente reconhecidas como profissionais de cuidado, incorporando trabalhadores do serviço de limpeza hospitalar como sujeitos centrais na compreensão dos processos laborais e de produção de riscos no ambiente hospitalar. Ao evidenciar a distância entre a centralidade funcional desse trabalho e seu reduzido reconhecimento institucional, a abordagem proposta tensiona modelos analíticos hegemônicos e oferece subsídios para a formulação de políticas e práticas que considerem a heterogeneidade da força de trabalho em saúde.
Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
REFERÊNCIAS
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