0023/2026 - “Mercadores da dúvida” e politização vacinal: Brasil em tempos de pandemia “Merchants of doubt” and vaccine politicization: Brazil in times of pandemic
O artigo analisa os impactos de discursos antivacina na percepção pública brasileira no pós-pandemia. A hesitação vacinal esteve associada a fatores que em grande medida se relacionam à baixa escolaridade e renda, como o acesso à informação. Em pesquisas de opinião pública feitas em 2021 e 2023, pelo Centro SoU_Ciência (Unifesp), com o Instituto Ideia (compondo uma série de levantamentos sobre ciência e universidade pública), analisamos os segmentos mais afetados por discursos antivacina. Observamos que, somado aos fatores citados, o atual crescimento da hesitação vacinal tem características novas, decorrentes de impactos da ação de “mercadores da dúvida”. Relacionamos a análise com exemplos coletados em estudo sobre desinformação na pandemia, também realizado no Centro, com evidências da atuação de um sistema na disseminação de discursos antivacina no país. Como resultado, identificamos significativas polarizações na opinião pública de segmentos com distintas posições políticas, religiosas e níveis educacionais, compondo um quadro de politização vacinal, que põe em risco históricas conquistas do Programa Nacional de Imunização. Todavia, o estudo apresenta convergências importantes, que contribuem para enfrentar negacionismos e fortalecer a democracia e a saúde coletiva na atualidade.
Palavras-chave:
vacinas, opinião pública, negação da informação, pandemias, COVID-19
Abstract:
The article analyzes the impacts of anti-vaccine discourses on Brazilian public perception in the post-pandemic. Vaccine hesitancy was associated with factors that are largely related to low education and income, such as lack of access to information. In public opinion surveys, conducted in 2021 and 2023 by the SoU_Ciência Center (Unifesp), with Instituto Ideia (comprising a series of surveys on science and public university), we analyzed the segments most affected by anti-vaccine discourses. We observed that, combined with the aforementioned factors, the current rise in vaccine hesitancy has new characteristics, resulting from the impacts of the actions of “merchants of doubt”. We relate the analysis to examples collected in a study on disinformation during the pandemic, also conducted by the Center, with evidence of the role of a system in disseminating anti-vaccine discourses in the country. As a result, we identified significant polarizations in public opinion among segments with different political, religious, and educational backgrounds, creating a framework of vaccine politization that put at risk the historic achievements of the National Immunization Program. However, the study also presents important convergences that contribute to confronting denialisms, and straightening democracy and collective health today.
Keywords:
vaccines, public opinion, information avoidance, pandemics, COVID-19
Conteúdo:
INTRODUÇÃO
A conjuntura global, com a somatória de crises e eventos climáticos extremos, indica risco de ocorrências mais frequentes de emergências sanitárias internacionais, que podem se expressar em novas pandemias, como alertam cientistas há anos1. O Brasil enfrentou a crise da covid-19 com o governo federal e vários agentes públicos e privados atuando na disseminação de informações enganosas sobre riscos, formas de prevenção e tratamento. Consensos científicos e orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e a eficácia das vacinas foram desconsiderados na ação do governo federal e de aliados políticos. A má conduta desses agentes, muitas vezes de caráter criminoso, aprofundou a tragédia no país, atingindo especialmente populações mais vulnerabilizadas2,3,4.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia apontou diversas omissões e crimes cometidos no período, que ainda devem ser julgados5. Há processos em busca de responsabilização, reparação e justiça, como os ajuizados pela Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico). A denúncia, julgamento e condenação da condução criminosa, envolvendo dirigentes do governo federal e outros agentes públicos e privados, bem como a indenização de vítimas e ações de justiça, reparação e memória são fundamentais para a ainda frágil e limitada democracia brasileira.
A conduta negacionista do governo teve impacto direto, inclusive quando a vacina já estava disponível, mas não foi providenciada à população. Estudos da Oxfam Brasil6, artigo da The Lancet7 e o Relatório da CPI8 apontam que entre 120 e 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas se o governo federal tivesse adotado a gestão adequada na emergência sanitária.
Diversas forças políticas se uniram, em outubro de 2022, para derrotar nas urnas o então presidente, declaradamente negacionista, antivacina e defensor de medicamentos sem eficácia comprovada9. O resultado do pleito foi alcançado, ainda que com margem estreita, por grande mobilização em defesa da vida. Estudos avaliam que a derrota de Bolsonaro se deu, sobretudo, pela má condução da pandemia10. Com a queda de confiança da população na presidência, emergiu uma “onda pró-ciência”, retratada em estudo anterior, que mostrou crescimento inédito na confiança em cientistas e no interesse por ciência no país, superando o teto histórico de 60% e atingindo 82% da população11.
A reconstrução do país, após o desmonte de políticas, os ataques a direitos, ciência e universidades, entre outros retrocessos sociais e ambientais, não ocorre da noite para o dia. Como apontam estudos, o bolsonarismo sobrevive àquele que dá nome ao fenômeno, e segue mobilizado, com pautas, narrativas e formas de disputa ideológica. Negacionismos, fake science e o conjunto de matrizes discursivas, gramáticas comuns e condições afetivas e sociais que dão substância à extrema direita ainda encontram plenas condições para seguir disseminando-se na sociedade brasileira. As reeleições de Trump, Putin, Modi, Orban, Erdogan e a eleição de Milei fortalecem a dimensão internacional do fenômeno12,13,14,15.
Em pesquisa sobre negacionismo científico no Brasil, no Centro SoU_Ciência da Unifesp, analisamos mais de 250 declarações com conteúdo falso, disseminadas por agentes públicos e privados, sobre temas relacionados à pandemia. Visando organizar o material para consulta pública, criamos um repositório digital16 com discursos e condutas que evidenciam a existência de um sistema17 no qual um conjunto de instituições e agentes atuou de forma consideravelmente articulada e coordenada, usando a grave crise sanitária e social para impor narrativas e condutas, incidindo de forma desigual e deliberada sobre o risco de morte de segmentos da população, ampliando seu poder político e econômico. Tal rede de interesses, relações e ações determinou que parcelas da população teriam maior probabilidade de morrer, por estarem mais expostas ao vírus, contrapondo orientações científicas, recomendações da OMS, direitos humanos e princípios democráticos, resultando em crimes contra a humanidade, como indica o Relatório da CPI da Pandemia8.
Os dados da pesquisa, publicados no Acervo da Pandemia de Covid-1916, indicam que uma política de morte18, conduzida pelo governo Bolsonaro, praticou e disseminou más condutas, desinformação e discursos enganosos e manipulados à população, em ação orquestrada com o Ministério da Saúde, o chamado ‘gabinete paralelo’ e também militares, pastores, comunicadores, empresários da saúde, governos locais, entidades, conselhos e organizações médicas, com conexões internacionais. A impunidade, com omissões da Procuradoria Geral da República (PGR) e de setores da Justiça, permitiu que a atuação criminosa seguisse incólume por mais de dois anos de pandemia até as eleições de 2022, quando eleitores encerram o mandato do presidente. A propagação de falsas informações sobre riscos de contágio e morte, uso de máscaras, isolamento social, tratamentos ineficazes e sem evidência científica, e a disseminação de supostos perigos das vacinas, teorias conspiratórias e difamatórias sobre a OMS, cientistas, institutos e universidades, são exemplos das evidências catalogadas. Sobre a vacinação, o Acervo traz evidências de que, além das ações e omissões do governo Bolsonaro, atrasando a disponibilização de vacinas, houve a massiva disseminação de desinformação19,20.
Na pesquisa ora apresentada, investigamos indícios de que os questionamentos da confiabilidade das vacinas, propagados por agentes da desinformação, geraram impactos na opinião pública mais duradouros que a pandemia, impondo riscos à saúde coletiva e graves retrocessos ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) e sua cobertura vacinal. Para isso, analisamos os dados coletados em pesquisas do SoU_Ciência (2021-2023) sobre a percepção da população sobre vacinação no Brasil, partindo de duas perguntas: A disseminação de discursos antivacina e desinformação na pandemia contribuiu para gerar incertezas, desconfianças e hesitação vacinal na população? Quais segmentos sociais foram mais afetados e expressam menor adesão à vacinação na atualidade e por quais motivos?
A hesitação vacinal, na literatura sobre o tema, está associada a diversos fatores, como a falta de acesso à informação e conhecimento científico, que em grande medida se associa à baixa escolaridade e renda21,22. Investigar a relação da hesitação vacinal com as desigualdades socioeconômicas e educacionais (que marcam historicamente a sociedade brasileira) é extremamente relevante. Todavia, nossa hipótese é que o seu atual crescimento tem características novas e peculiares, relacionadas a impactos da ação de “mercadores da dúvida” na pandemia no país, politizando as vacinas e gerando polarizações políticas na opinião pública no campo da ciência e da saúde. A expressão “mercadores da dúvida” faz referência à pesquisa23 sobre “cientistas” que, contra evidências científicas, por interesses econômicos e políticos, semearam desinformação sobre tabagismo, armamento nuclear e aquecimento global nas últimas décadas.
Ao investigar os impactos de discursos antivacina na percepção da população brasileira, verificamos que a politização vacinal tem afetado consensos alcançados sobre o tema no país, com graves riscos à saúde coletiva. Contudo, o estudo também mostra convergências importantes sobre a valorização da ciência, do Sistema Único de Saúde (SUS) e de políticas públicas, com perspectivas de diálogo para o enfrentamento a negacionismos.
METODOLOGIA DE PESQUISA
Pesquisas bibliográficas e documentais, entrevistas e levantamentos nacionais de opinião pública foram realizados junto ao Centro SoU_Ciência, em conformidade com protocolos aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Unifesp. A partir da revisão do debate teórico e de pesquisas anteriores sobre desinformação, negacionismo científico e movimentos antivacina, criamos duas frentes de estudos empíricos. A primeira investigou a disseminação de desinformação na pandemia no país, com a realização de entrevistas qualitativas, análise bibliográfica e documental. A segunda visou verificar os impactos da desinformação na percepção pública brasileira.
A pesquisa sobre disseminação de desinformação na pandemia no Brasil resultou em um repositório público, o Acervo da Pandemia de Covid-1916, lançado em março de 2025, contendo publicações textuais e audiovisuais, coletadas em redes digitais e sites, catalogadas por temas, instituições e agentes. Entrevistas em profundidade com profissionais e pesquisadores da saúde, realizadas em 2023, de acordo com os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), subsidiaram a coleta de evidências de desinformação e as estratégias da pesquisa. Como apresenta o site, com uma equipe interdisciplinar e parceiros, incluindo coletivos de mídia independente, o Centro de Pesquisas em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (Cepedisa/USP) e a Avico, criamos o Acervo para contribuir com memória, justiça e reparação, e subsidiar pesquisas. Os exemplos citados, extraídos dessa pesquisa, evidenciam a ação de “mercadores da dúvida”, com impactos na sociedade brasileira, que buscamos compreender com as pesquisas de opinião pública.
Os levantamentos nacionais de percepção pública fazem parte de uma série de pesquisas sobre ciência e universidades públicas do SoU_Ciência com o Instituto Ideia, que atua na coleta de dados primários via chamadas para linhas móveis, com a aplicação do questionário estruturado à amostra representativa da população brasileira (Parecer CEP Unifesp nº 5.114.892 de 19/11/2021). Os dados analisados neste artigo referem-se às enquetes aplicadas em duas rodadas (08/2021 e 07/2023), com bases de 1.248 e 1.295 respondentes, homens e mulheres de todas as regiões, idade igual ou superior a 16 anos, segmentados por gênero, idade, cor ou raça/etnia, região, escolaridade, classe, renda, religião, tipo de município e posição política: a favor ou contra o governo e como o avaliam (incluindo, em 2023, a declaração de voto no segundo turno das eleições de 2022). Com intervalo de confiança de 95% e margem de erro máxima prevista de 3%, as amostras em duas etapas (probabilística e cotas)24,25 tiveram cotas variáveis, segundo distribuição da população por região e proporções definidas na PNAD 2021 e Censo 2010. As pesquisas abordam vacinação em geral, contra covid-19 e infantil, e temas relacionados26. Esse material empírico sustenta as análises descritivas e de conteúdo desenvolvidas no artigo.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
A primeira seção trata dos discursos antivacina e da percepção pública da vacinação em geral e contra covid-19. A segunda analisa segmentos mais vulneráveis a discursos antivacina, conformando um cenário polarizado da percepção sobre vacinas no país, diante do qual investigamos possíveis convergências para o diálogo. As conclusões trazem análises propositivas e perspectivas.
DA VACA AO JACARÉ: VACINA E DESINFORMAÇÃO NA PANDEMIA
Os movimentos antivacina, desde o século XIX, como as ligas antivacinação nos EUA, Canadá e Inglaterra, atuam na disseminação de falsas informações sobre riscos, supostas fraudes na produção, minimização da gravidade de doenças, por vezes, com argumentos teológicos27. Apesar do artigo fraudulento publicado na The Lancet (1998) relacionando autismo à vacina tríplice viral ter sido veementemente contestado, levando o autor a perder sua licença médica após a comprovação da manipulação de pesquisas e de seu interesse em processos contra fabricantes de vacinas28, esses “mercadores da dúvida” seguem atuando em vários países, conquistando espaço com o crescimento da extrema direita.
No Brasil, estudos sobre a Revolta da Vacina (1904), reação à vacinação obrigatória contra varíola e medidas sanitaristas do governo federal, reconhecem motivações políticas e sociais, como a ação de opositores do então presidente e a indignação popular diante das injustiças sociais e da miséria, contribuindo para a disposição social ao movimento antivacina, que se relacionava naquele episódio mais ao método de implementação da política do que à desconfiança da eficácia dos imunizantes29,30. Com a criação do PNI, em 1973, e do SUS, a partir de 1988, com base na luta e mobilização popular, o país alcançou abrangência e efetividade na vacinação da população, com grande adesão e acesso gratuito às vacinas recomendadas pela OMS, constituindo-se referência internacional31.
Todavia, pesquisas apontam significativa queda na vacinação no Brasil a partir de 2016, colocando em risco essas conquistas históricas32. A cobertura infantil, que alcançava mais de 95% da população desde os anos 1990 e nas duas décadas seguintes, sofre gradual declínio a partir de 2016, com queda de 10% a 20%, acompanhado pelo aumento da mortalidade infantil e materna, e o ressurgimento de casos de sarampo após anos de erradicação da doença no país33. Estudos sobre o novo cenário regressivo destacam, entre as causas, o quadro de desfinanciamento e desmonte de políticas públicas, especialmente de saúde, assistência social e educação, aprofundado nos governos Temer e Bolsonaro, e o aumento da desinformação vacinal19.
Ao observar o cenário de mobilização da extrema direita na pandemia no Brasil, nos indagamos nesta pesquisa sobre os desdobramentos desse processo na atualidade. Em levantamento nacional de opinião pública (2023), verificamos que parcela significativa da população brasileira, três em cada dez pessoas, declaram ter alguma hesitação em aderir à vacinação. Em resposta a: “Você adere às campanhas nacionais de vacinas?”, 70,2% indicam que sempre aderiram. O percentual sobe para 77,7% ao incluir os que afirmam que aderiam antes da covid-19, mas que desistiram após a pandemia (Figura 1). Ou seja, entre aqueles que aderiam às campanhas no passado, 7,5% relatam ter desistido. Se somados aos 12,4% que “não aderem” e aos 9,9% que “não sabem”, temos 29,9% da população com hesitação e/ou falta de conhecimento da importância da vacinação.
Figura 1: Adesão a campanhas de vacinação
Os dados revelam aumento da hesitação vacinal após a pandemia e contrastes importantes relacionadas a gênero, classe social, escolaridade e posicionamento político-eleitoral: a adesão (média de 70,2%) é maior entre mulheres (74,9%), pessoas com maior renda e escolaridade (84,8%, classes A e B; 83,6%, ensino superior) e declaradas de esquerda (90,6%). Em contraste, é menor entre os mais pobres (64,3%, classes D e E) e potenciais eleitores de Bolsonaro no segundo turno de 2022 (64,7%). Dos que afirmam não aderir a campanhas (19,8%, somando respondentes do “não” e que desistiram após a pandemia), o percentual aumenta nas classes D e E (24,9%), com menor escolaridade (30,9%), evangélicos (25,1%) e eleitores de Bolsonaro (29,5%). Além de confirmar que a desigualdade social (expressa na baixa renda e escolaridade) influencia na hesitação vacinal, os dados apontam outras dimensões do fenômeno, explicitadas na análise da percepção pública da vacina contra covid-19.
No contexto inicial de disponibilização das vacinas contra covid-19 à população brasileira, em pesquisa de opinião pública de agosto de 2021, 94,5% se declara favorável ao imunizante. Nesse grupo, 65,6% indicam ter tomado ao menos uma dose da vacina e 28,9% declaram não ter tomado, mas que tomariam quando disponível (Figura 2). A pesquisa revela ampla adesão ao plano de imunização, indicando que no auge da crise pandêmica a vacina alcançava significativo consenso no país. O estudo também aponta que 5,5% rejeitavam a vacina naquele momento, e que a escolaridade e o posicionamento político interferiam na opinião. A rejeição à vacina entre pessoas com nível fundamental (7,8%) era quatro vezes maior que entre as de ensino superior (1,7%). O mesmo contraste havia entre os que aprovavam o governo Bolsonaro (11,4%) comparados aos que desaprovavam (2,9%)34.
A pesquisa de 2023 aponta queda na adesão às vacinas contra covid-19. Apesar da adesão à primeira dose ter sido superior a 90%, 2/3 da população indicam ter tomado até a terceira dose (66,1%) e apenas 17,9% indica ter completado o esquema vacinal com cinco doses (incluindo a bivalente). Além disso, 4,7% declaram não ter tomado nenhuma dose. Os dados indicam que a adesão inicial à vacina foi alta no país e que a desinformação gerou maior impacto nas doses subsequentes da vacina.
Figura 2: Adesão à vacina contra covid-19 (2021 e 2023)
Dos que declaram não ter recebido nenhuma dose (4,7%), as principais justificativas são: “não confio nas vacinas” e “tenho medo dos efeitos colaterais”. Somados aos que indicam “não sei” (5,1%), a pesquisa aponta que cerca de 10% da população, com base na sua autodeclaração, poderia estar sem a vacina contra covid-19 em 2023. Dados que revelam que discursos antivacinação têm convencido parcelas da população.
Pesquisas sobre desinformação revelam ofensiva negacionista da extrema direita à vacinação contra covid-19, especialmente infantil, com apelos emocionais, alcançando significativa repercussão nas redes, em disputa acirrada de audiência e interação pró e antivacina35. Alvo de discursos negacionistas, as vacinas são o tema mais recorrente nas evidências coletadas na pesquisa sobre disseminação de desinformação na pandemia, como revelam dados do Acervo. Em 46 evidências analisadas, há argumentos falsos sobre: ausência de evidências científicas, insegurança dos imunizantes, falta de eficácia, risco de morte, reações adversas e graves sequelas (infecção por HIV, câncer, mutações no DNA etc.), interesses econômicos (lobby da indústria farmacêutica), controle populacional via chip controlado pelo governo e ataque à liberdade individual. Entre os exemplos, há discursos do então presidente, com o propósito de disseminar insegurança na vacina contra covid-19:
Se você virar um jacaré. (...) Virar super-homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou algum homem começar a falar fino, eles não vão ter nada com isso. O que é pior: mexer no sistema imunológico das pessoas. (...) ‘Cadê’ a nossa liberdade?36.
A palavra vacina origina-se do latim vaccinus, ‘da vaca’, relativo à sua descoberta por médico inglês ao notar a imunidade à varíola bovina em trabalhadores que ordenhavam vacas. Como farsa, e tragédia, o suposto poder de transmorfismo animal, ‘virar jacaré’, acrescido de falsos riscos ao sistema imunológico, expõe características recorrentes dos discursos antivacina: a estratégica camuflagem científica de afirmações que contradizem evidências científicas, a fake science, ou falsa ciência37.
Difamar vacinas foi uma dimensão importante da estratégia política do governo Bolsonaro e apoiadores. Entre os agentes institucionais propagadores de desinformação, estão: a então Presidência, Ministros da Saúde, membros do ‘gabinete paralelo’, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Médicos pela Vida (MPV) e operadoras de planos de saúde. Como explicita o abaixo-assinado “Carta ao Brasil” da MPV, de abril de 2021, assinado por diversos médicos:
Se alguns dos governantes não estivessem subservientes à narrativa única da mídia e adotassem as medidas que realmente salvaguardassem a vida humana, não flexibilizariam os protocolos da ANVISA para satisfazer o poderoso lobby das indústrias farmacêuticas, promovendo as controversas vacinas experimentais, apresentando-as como solução final para a pandemia, mas cujos efeitos adversos e óbitos decorrentes de sua utilização, vêm crescendo a cada dia38.
Mobilizando informações falsas e teorias conspiratórias, envolvendo mídia, indústria farmacêutica e governantes, com o intuito de abalar a confiança da população nas instituições públicas e científicas, os discursos antivacina têm conquistado espaço nas entidades médicas. Como revela Parecer do Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (CREMAM), de dezembro de 2021, com desinformação sobre os riscos das vacinas:
Do ponto de vista da bioética, entendo que o passe da vacinação representa uma forma de dividir a sociedade e segregar um grupo, discriminando pessoas e ofendendo direitos humanos fundamentais. Seria estabelecer: alguém tem mais direito que outro, por ter recebido previamente uma vacina, condição impensável em nosso sistema jurídico. Ademais, as vacinas utilizadas no Brasil, até a presente data, foram aprovadas pela ANVISA em caráter experimental, o que, por si só, representa risco considerável, relativo a possíveis efeitos colaterais, de gravidade variável, já relatados em diversos trabalhos científicos e fartamente divulgados pela mídia39 (p. 4).
Tais afirmações falsas foram desmentidas pela comunidade científica, pois as vacinas foram desenvolvidas com rigorosos protocolos científicos e as responsáveis por frear a mortalidade da covid-1940. Contudo, a politização dos discursos antivacina intensificados na pandemia impactaram na queda da adesão às vacinas, especialmente infantil.
Pesquisa publicada em 2022 na Nature Medicine41 sobre a vacina contra covid-19 em 23 países, com mais de 60% da população mundial, aponta que, no Brasil, entre 2021 e 2022, a hesitação em vacinar os filhos aumentou em 56,3%, contrastando com a tendência mundial de aumento da vacinação infantil. Como causas da redução da cobertura no país, aponta a falta de financiamento às políticas e ao SUS, especialmente nos governos Temer e Bolsonaro, que afetaram a distribuição de vacinas, e o declínio da confiança nas vacinas21,22.
A pesquisa de 2023 sobre vacinação infantil contra covid-19 (Figura 3) expressa que a maioria apoia a vacina (66,3%, incluindo 54,9% que concordam e 11,4% que declaram terem vacinado filhos/as menores de idade). Todavia, parcela significativa declara rejeição à vacinação de crianças: 14,4% (incluindo 3,9% que informam não terem vacinado os filhos).
Figura 3: Adesão à vacinação infantil contra covid-19
A discordância da vacinação infantil contra covid-19 (14,4%) supera a de adultos (4,7%) e cresce entre os que se identificam de direita (33%), declaram voto em Bolsonaro no 2º turno de 2022 (27,2%), avaliam o governo Lula como péssimo (43,9%) e consideram que houve fraude nas últimas eleições (36,9%). Em contraste, o apoio à vacina atinge 92,7% entre declarados de esquerda e 89,6% entre eleitores de Lula em 2022. Alvo mais recorrente dos discursos antivacina na pandemia, a menor adesão à vacinação infantil confirma que a desinformação gerou impacto significativo.
POLARIZAÇÕES NA OPINIÃO PÚBLICA E POLITIZAÇÃO VACINAL: EM BUSCA DO CONSENSO PERDIDO
Estudos apontam o declínio na confiança da população na vacinação após a pandemia42, em quadro crescente de desordem informacional no país, com a multiplicação de perfis antivacina nas redes digitais, disseminando teorias conspiratórias e fake science. Segundo pesquisa do Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), aumentou o número de grupos com discursos antivacina no Telegram, de 248 grupos registrados em 2022 para 920 em 202343. O crescimento exponencial indica que a ação de “mercadores da dúvida” segue ampliando-se no país como um dos legados trágicos da pandemia.
Além de mostrar desengajamento às novas doses da vacina contra covid-19 (apenas 17,9% relatam ter completado o esquema vacinal com a quinta dose), a pesquisa revela segmentos populacionais mais impactados por discursos antivacina, com grande disparidade ao observarmos a segmentação política. Em resposta à pergunta: “Você tomou quantas doses da vacina contra covid-19?”, eleitores de Lula no 2º turno de 2022 declaram que receberam 38% de doses a mais do que eleitores bolsonaristas. Em projeção da quantidade total de doses tomadas a partir do total de votos recebidos por Lula e Bolsonaro no segundo turno de 2022, são cerca de 58 milhões de doses a mais. Esse resultado (Figura 4) revela descolamento expressivo da adesão às vacinas entre eleitores de Lula e Bolsonaro, especialmente na quarta e quinta dose. Destaca-se que a quarta dose foi aplicada em 2022, ano eleitoral com forte polarização política no país. Com 23,8% de eleitores de Lula declarando ter tomado a quarta dose e outros 28% que receberam até a quinta dose em 2023, totalizam-se mais de 30 milhões de doses. Em contraste, eleitores de Bolsonaro atingem a metade desse volume na quarta dose da vacina (13,6%) e quase um terço na quinta dose (10,7%), somando apenas 13,1 milhões. Tal diferença é o dado mais evidente da politização das vacinas.
Figura 4: Polarização na vacinação contra covid-19 - posição política
A rejeição à vacina, de 4,7% da população (que afirmam não ter recebido nenhuma dose), é três vezes maior entre eleitores de Bolsonaro (6,6%) do que de Lula (2,2%). Nesse último grupo, as principais justificativas foram: “esqueceram”, “não ficaram sabendo” ou “não conseguiram tomar” (44,5%), expressando contingência e não desconfiança da vacina. A confiança nas vacinas é citada por 38,4% de eleitores de Bolsonaro frente a 75% de Lula.
A dimensão religiosa também revela polaridades, junto com o posicionamento político de evangélicos em favor de Bolsonaro e de católicos em favor de Lula, como evidenciam pesquisas da época44. A adesão às campanhas de vacinação é maior entre católicos (78,6%), comparados a evangélicos (64,2%). A rejeição destes últimos aumenta na vacina contra covid-19: apenas 9,8% de evangélicos completaram o esquema vacinal (até a quinta dose) frente a 24% de católicos, que se vacinaram quase três vezes mais (Figura 5). O movimento é similar entre os que não tomaram nenhuma dose (6,4% de evangélicos, 2,2% de católicos). Dos que se declaram não vacinados, a falta de confiança nas vacinas é citada por 53,2% de evangélicos contra 9,1% de católicos. Como motivo para não ter completado o esquema vacinal, “deixei de confiar nas vacinas” é apontado por 23,1% de evangélicos e 12,2% de católicos. Sem campanhas do governo federal na pandemia, eleitores de Bolsonaro em 2022 e evangélicos foram os que menos se vacinaram contra covid-19.
Figura 5: Polarização na vacinação contra covid-19 - dimensão religiosa e escolaridade
Se a politização vacinal é o dado novo e impactante nos últimos anos, não podemos desconsiderar a dimensão estrutural e histórica relacionada à desigualdade socioeconômica e educacional. A população mais pobre que declara ter tomado a quinta dose da vacina e completado o esquema vacinal é 50% menor: 10,8% nas classes D e E contra 22,3% nas classes A e B. A população com menor escolaridade foi mais impactada. Ao comparar os segmentos com ensino fundamental e com ensino superior: 8,2% e 2,2%, respectivamente, afirmam não ter recebido nenhuma dose; 13,4% e 24,1%, que tomaram até a quinta dose; 27,4% e 47,5% discordam da declaração “as vacinas são experimentais e sem eficácia comprovada”; 24% e 40,8% concordam que prejuízos foram causados pela falta ou atraso na vacinação. A educação também se reflete na percepção das ações necessárias à redução de mortalidade em uma possível próxima pandemia: reconhecem a importância de ampliar campanhas educativas (21,6% e 45,4%); combater fake news sobre vacinas (20,2% e 40,9%); melhorar a formação de profissionais de saúde (24,6% e 42,2%); ampliar investimentos em ciência e pesquisa (28,5% e 58,8%).
Sobre a vacina contra poliomielite e sarampo, com maior adesão (83,4%), há importantes disparidades entre segmentos com diferentes níveis de renda e escolaridade: a adesão de 94,6% de pessoas com mais de 5 salários mínimos (SM) cai para 73,9% entre aqueles com até 1 SM, e de 87% com ensino superior para 73,8% com ensino fundamental. Os dados relativos à desigualdade social e educacional reiteram essa dimensão da hesitação vacinal e reforçam a centralidade da educação e do combate à desigualdade, à pobreza e às barreiras estruturais e organizacionais que afetam o acesso a serviços de saúde e vacinação da população historicamente vulnerabilizada, junto a ações contra a desinformação.
Ressalta-se que as vacinas de poliomielite e sarampo denotam menor polarização política e eleitoral, com maior consenso entre eleitores de Lula e de Bolsonaro (92,1% e 83,6%) e entre esquerda e direita (96,1% e 85,9%). A rejeição à vacinação contra poliomielite e sarampo (3,8%) é quatro vezes menor do que a vacinação infantil contra covid-19 (14,4%), mais uma constatação da politização vacinal e do impacto da desinformação.
No levantamento de 2021, houve aumento da valorização do SUS na pandemia, especialmente por segmentos de maior renda45. Em busca por possíveis convergências entre grupos polarizados, dados de 2023 apontam relevantes consensos em defesa da ciência, da vida e do SUS, e propostas para prevenção de pandemias. Em questão de múltipla escolha, ampliar investimentos no SUS é a principal ação citada (52,4%), com 59% e 50% entre eleitores de Lula e de Bolsonaro, e 55,2% e 52,5% entre católicos e evangélicos. Outros consensos: aumentar investimentos em ciência e pesquisa, melhorar a formação de profissionais de saúde e ampliar ações educativas, nas escolas e comunidades. Tais convergências revelam que há parcelas importantes de eleitores de direita que não são negacionistas, anticiência e anti-SUS. A valorização da ciência e de políticas públicas abre perspectivas de diálogo e de consensos em um país politicamente polarizado.
CONCLUSÃO
A pesquisa revelou impactos de discursos antivacina disseminados na pandemia, gerando queda da adesão da população à vacinação e, mais expressivamente, à vacina contra covid-19, especialmente infantil. Os dados refletem polarizações na sociedade brasileira, principalmente entre segmentos com posicionamentos políticos e religiosos distintos. A análise da percepção da população brasileira sobre vacinas confirma que a hesitação vacinal se relaciona com a histórica e profunda desigualdade social do país, mas foi acrescida de nova dimensão política relevante, expressando o que chamamos de politização vacinal.
Em tempos de riscos de novas pandemias, é crucial enfrentar estruturalmente a questão, com políticas que promovam profundas transformações econômicas e sociais no país, com ações abrangentes e multissetoriais, fortalecendo políticas públicas, com investimentos adequados, combate à concentração de renda e efetiva redistribuição de riquezas. O impacto regressivo antivacina foi significativo, mas pode ser revertido com a reconstrução do PNI, como mostram dados da retomada da vacinação infantil na atualidade46.
O quadro de politização vacinal requer ações de educação, comunicação e campanhas públicas, atentas à população de menor renda e escolaridade, e estratégias diversificadas de enfrentamento à desinformação. Para reconquistar a confiança da população na vacinação é necessário fortalecer a comunicação e educação popular, em parcerias com movimentos sociais, agentes de saúde, de cultura, assistentes sociais e diversos atores públicos e privados, engajados, bem formados e informados, atuantes nos territórios. Em um país polarizado, existem consensos que abrem perspectivas de futuro.
Há muito por fazer na união do país em torno de pautas que podem ser consensuais: a defesa da ciência e do SUS é certamente uma delas. Em março de 2024, o Memorial da Pandemia de Covid-19 começou a ser criado pelo Ministério da Saúde e parceiros, para contribuir com a justiça, a reparação e a conquista de transformações estruturais para que tragédias como essa não se repitam. A batalha da vacina na pandemia foi política e a ação do sistema de pesquisa e das universidades possibilitou iniciar a vacinação no país. A ciência mostrou que as vacinas foram as grandes responsáveis por frear a mortalidade da covid-19. Enfrentar o legado antivacina e anticiência da pandemia no Brasil é fundamental para combater negacionismos e fortalecer a democracia e a saúde coletiva na atualidade.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação ao autor de correspondência.
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
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“Merchants of doubt” and vaccine politicization: Brazil in times of pandemic
Resumo (abstract):
The article analyzes the impacts of anti-vaccine discourses on Brazilian public perception in the post-pandemic. Vaccine hesitancy was associated with factors that are largely related to low education and income, such as lack of access to information. In public opinion surveys, conducted in 2021 and 2023 by the SoU_Ciência Center (Unifesp), with Instituto Ideia (comprising a series of surveys on science and public university), we analyzed the segments most affected by anti-vaccine discourses. We observed that, combined with the aforementioned factors, the current rise in vaccine hesitancy has new characteristics, resulting from the impacts of the actions of “merchants of doubt”. We relate the analysis to examples collected in a study on disinformation during the pandemic, also conducted by the Center, with evidence of the role of a system in disseminating anti-vaccine discourses in the country. As a result, we identified significant polarizations in public opinion among segments with different political, religious, and educational backgrounds, creating a framework of vaccine politization that put at risk the historic achievements of the National Immunization Program. However, the study also presents important convergences that contribute to confronting denialisms, and straightening democracy and collective health today.
Palavras-chave (keywords):
vaccines, public opinion, information avoidance, pandemics, COVID-19
“Mercadores da dúvida” e politização vacinal: Brasil em tempos de pandemia
“Merchants of doubt” and vaccine politicization: Brazil in times of pandemic
“Mercaderes de la duda” y politización de las vacunas: Brasil en tiempos de pandemia
Authors:
Vanessa Moreira Sígolo
Centro SoU_Ciência / Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
vanessa.sigolo@unifesp.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0011-1742
Jade Percassi
Centro SoU_Ciência / Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
jade@alumni.usp.br
ORCID: https://orcid.org/0009-0004-2050-3091
Pedro Fiori Arantes
Centro SoU_Ciência, / Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
pedro.arantes@unifesp.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6652-294X
Soraya Soubhi Smaili
Centro SoU_Ciência / Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
ssmaili@unifesp.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5844-1368
Débora Foguel
Centro SoU_Ciência / Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
foguel@bioqmed.ufrj.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7312-7115
Karinne Marieta Carvalho
Centro SoU_Ciência / Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
karinne.carvalho@fiocruz.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1611-8498
Mauricio Moura
Centro SoU_Ciência / GSPM - George Washington University
mjmoura@gwmail.gwu.edu
ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6148-7944
Arthur Chioro
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) / Departamento de Medicina Preventiva
arthur.chioro@unifesp.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7184-2342
RESUMO
O artigo analisa os impactos de discursos antivacina na percepção pública brasileira no pós-pandemia. A hesitação vacinal esteve associada a fatores que em grande medida se relacionam à baixa escolaridade e renda, como o acesso à informação. Em pesquisas de opinião pública feitas em 2021 e 2023, pelo Centro SoU_Ciência (Unifesp), com o Instituto Ideia (compondo uma série de levantamentos sobre ciência e universidade pública), analisamos os segmentos mais afetados por discursos antivacina. Observamos que, somado aos fatores citados, o atual crescimento da hesitação vacinal tem características novas, decorrentes de impactos da ação de “mercadores da dúvida”. Relacionamos a análise com exemplos coletados em estudo sobre desinformação na pandemia, também realizado no Centro, com evidências da atuação de um sistema na disseminação de discursos antivacina no país. Como resultado, identificamos significativas polarizações na opinião pública de segmentos com distintas posições políticas, religiosas e níveis educacionais, compondo um quadro de politicização vacinal, que põe em risco históricas conquistas do Programa Nacional de Imunização. Todavia, o estudo apresenta convergências importantes, que contribuem para enfrentar negacionismos e fortalecer a democracia e a saúde coletiva na atualidade.
Palavras-chave: vacinas, opinião pública, negação da informação, pandemias, COVID-19
ABSTRACT
The article analyzes the impacts of anti-vaccine discourses on Brazilian public opinion in the post-pandemic. Vaccine hesitancy was associated with factors that are largely related to low level of education and income, such as lack of access to information. In public opinion surveys, conducted in 2021 and 2023 by the SoU_Ciência Center (Unifesp), with Instituto Ideia (comprising a series of surveys on science and public universities), we analyzed the segments most affected by anti-vaccine discourses. We observed that, combined with the aforementioned factors, the current rise in vaccine hesitancy has new characteristics, resulting from the impacts of the actions of “merchants of doubt”. We relate the analysis to examples collected in a study on disinformation during the pandemic, also conducted by the Center, with evidence of the role of a system in disseminating anti-vaccine discourses in the country. As a result, we identified significant polarizations in public opinion among segments with different political, religious and educational backgrounds, creating a framework of vaccine politicization that put at risk the historic achievements of the National Immunization Program. However, the study also presents important convergences that contribute to confronting denialisms, and strengthening democracy and collective health today.
Keywords: vaccines, public opinion, information denial, pandemics, COVID-19
RESUMEN
El artículo analiza los impactos de los discursos antivacunas en la percepción pública brasileña post pandemia. La reticencia ante las vacunas ha estado asociada con factores en gran medida relacionados con el bajo nivel educativo y de ingresos, como la falta de acceso a la información. En encuestas de opinión pública, hechas en 2021 y 2023 por el Centro SoU_Ciência (Unifesp), con el Instituto Ideia (que comprende una serie de encuestas sobre ciencia y universidad pública), analizamos los segmentos más afectados por los discursos antivacunas. Observamos que, junto con los factores mencionados, el aumento actual de la reticencia a las vacunas presenta nuevas características, derivadas de los impactos de las acciones de “mercaderes de la duda”. Vinculamos el análisis con ejemplos recopilados en un estudio sobre desinformación durante la pandemia, también realizado por el Centro, que evidencia el papel de un sistema en la difusión de discursos antivacunas en el país. Como resultado, identificamos importantes polarizaciones en la opinión pública entre segmentos con diferentes posiciones políticas, religiosas y niveles educativos, lo que crea un marco de politización de las vacunas que pone en riesgo los logros históricos del Programa Nacional de Inmunizaciones. Sin embargo, el estudio presenta importantes convergencias que contribuyen a enfrentar negacionismos y fortalecer la democracia y la salud colectiva en la actualidad.
Palabras clave: vacunas, opinión pública, negación de información, pandemias, COVID-19
INTRODUCTION
The global situation, with the combination of crises and extreme climatic events, indicates a risk of more frequent international health emergencies, which could manifest themselves in the form of further pandemics, as scientists have been warning for years1. Brazil faced the COVID-19 crisis with the federal government and various public and private entities disseminating misleading information about risks, prevention and treatment. Scientific consensus and guidelines from the World Health Organization (WHO) and the effectiveness of vaccines were disregarded in the actions of the federal government and its political allies. The misconduct of these agents, often of a criminal nature, intensified the tragedy in the country, affecting especially the most vulnerable populations2,3,4.
The Parliamentary Commission of Inquiry (CPI) on the Pandemic identified various omissions and crimes committed during the period, which are still to be tried5. There are lawsuits seeking accountability, redress and justice, such as those filed by the Association of Victims and Families of Victims of Covid-19 (Avico). The indictment, judgment and punishment of criminal conduct involving federal government officials and other public and private agents, as well as compensation for victims and actions for justice, redress and remembrance, are fundamental to Brazil\'s still fragile and limited democracy.
The government\'s denialist stance had a direct impact, even when the vaccine was already available but not made available to the population. Studies by Oxfam Brazil6, an article in The Lancet7, and the CPI Report8 indicate that between 120,000 and 400,000 deaths could have been prevented if the federal government had adopted appropriate management of the health emergency.
In October 2022, various political factions joined forces to defeat the incumbent president, who was openly a climate change denier, anti-vaccine advocate and proponent of medicines with unproven efficacy9. The election result was achieved, albeit by a narrow margin, through a large-scale mobilization in defense of life. Studies estimate that Bolsonaro\'s defeat was mainly due to his poor handling of the pandemic10. With the population\'s confidence in the presidency falling, a “pro-science wave” emerged, as described in a previous study, which showed unprecedented growth in confidence in scientists and interest in science nationwide, surpassing the historical ceiling of 60% and reaching 82% of the population11.
The reconstruction of the country, after the dismantling of policies, attacks on rights, science and universities, among other social and environmental setbacks, does not happen overnight. As studies have shown, Bolsonarism survives the man who gives his name to the phenomenon, and remains mobilized, with its agendas, narratives and forms of ideological dispute. Denialism, fake science and the set of discursive matrices, common grammar and affective and social conditions that give substance to the extreme right still find ample conditions to continue spreading in Brazilian society. The re-elections of Trump, Putin, Modi, Orban, Erdogan and the election of Milei strengthen the international dimension of the phenomenon12,13,14,15.
In research on scientific denialism in Brazil, at the SoU_Ciência Center at Unifesp, we analyzed more than 250 statements with false content, disseminated by public and private agents, on topics related to the pandemic. In order to organize the material for public consultation, we created a digital repository16 with statements and conduct that reveal the existence of a system17 in which a group of institutions and agents acted in a highly coordinated manner, using the serious health and social crisis to impose narratives and conduct, deliberately and unequally affecting the risk of death of segments of the population, thereby expanding their political and economic power. This network of interests, relationships and actions determined that segments of the population would be more likely to die because they were more exposed to the virus, contrary to scientific guidelines, WHO recommendations, human rights and democratic principles, resulting in crimes against humanity, as indicated in the Pandemic CPI Report8.
The research data, published in the COVID-19 Pandemic Collection16, indicates that a policy of death18, implemented by the Bolsonaro government, practiced and disseminated misconduct, disinformation and misleading and manipulated discourse to the population, in an orchestrated action with the Ministry of Health, the so-called ‘parallel cabinet’ and also the military, pastors, communicators, health entrepreneurs, local governments, entities, councils and medical organizations, with international connections. Impunity, with omissions by the Attorney General\'s Office (PGR) and sectors of the judiciary, allowed criminal activity to continue unabated for more than two years of the pandemic until the 2022 elections, when voters put an end to the president\'s term. The spread of false information about the risks of contagion and death, the use of masks, social isolation, ineffective treatments without scientific evidence, and the dissemination of alleged dangers of vaccines, conspiracy theories, and defamatory statements about the WHO, scientists, institutes and universities are examples of the evidence cataloged. Regarding vaccination, the Archive provides evidence that, in addition to the actions and omissions of the Bolsonaro government, delaying the availability of vaccines, there was a massive dissemination of disinformation19,20.
In this study, we investigated evidence that questions about vaccine reliability, spread by disinformation agents, had a longer-lasting impact on public opinion than the pandemic itself, posing risks to public health and causing serious setbacks to the National Immunization Program (PNI) and its vaccination coverage. To this end, we analyzed data collected in SoU_Ciência (2021-2023) surveys on the population\'s perception of vaccination in Brazil, based on two questions: Did the spread of anti-vaccine rhetoric and disinformation during the pandemic contribute to uncertainty, mistrust and vaccine hesitancy among the population? And which social segments were most affected and demonstrate the lowest adherence to vaccination today, and for what reasons?
Vaccine hesitancy, in the literature on the subject, is associated with several factors, such as lack of access to information and scientific knowledge, which is largely associated with a low level of education and income21,22. Investigating the relationship between vaccine hesitancy and socioeconomic and educational inequalities (which have historically marked Brazilian society) is extremely relevant. However, our hypothesis is that its current growth has new and peculiar characteristics related to the impacts of the action of “merchants of doubt” in the pandemic in the country, politicizing vaccines and generating political polarization in public opinion in the field of science and health. The expression “merchants of doubt” refers to research23 on “scientists” who, contrary to scientific evidence and for economic and political interests, have spread disinformation about smoking, nuclear weapons and global warming in recent decades.
When investigating the impacts of anti-vaccine rhetoric on the perception of the Brazilian population, we found that the politicization of vaccines has affected the consensus reached on the issue in the country, posing serious risks to public health. However, the study also shows important areas of agreement on the importance of science, the Unified Health System (SUS) and public policies, with prospects for dialogue to combat denialism.
RESEARCH METHODOLOGY
Bibliographic and documentary research, interviews and national public opinion surveys were conducted at the SoU_Ciência Center, in accordance with protocols approved by the Research Ethics Committee (CEP) of Unifesp. Based on a review of the theoretical debate and previous research on disinformation, scientific denialism and anti-vaccine campaigns, we created two fronts of empirical studies. The first investigated the spread of disinformation during the pandemic in Brazil, conducting qualitative interviews and bibliographic and documentary analysis. The second aimed to verify the impacts of disinformation on Brazilian public opinion.
Research on the spread of disinformation during the pandemic in Brazil resulted in a public repository, the COVID-19 Pandemic Collection16, launched in March 2025, containing textual and audiovisual publications collected from digital networks and websites, cataloged by theme, institution and agent. In-depth interviews with health professionals and researchers, conducted in 2023, in accordance with the Terms of Free and Informed Consent (TCLE), supported the collection of evidence of disinformation and research strategies. As presented on the website, with an interdisciplinary team and partners, including independent media collectives, the Center for Research in Health Law at the University of São Paulo (Cepedisa/USP) and Avico, we created the Collection to contribute to memory, justice and reparation, and to support research. The examples cited, extracted from this research, evidence the action of “merchants of doubt”, with impacts on Brazilian society, which we seek to understand through public opinion polls.
National public opinion surveys are part of a series of studies on science and public universities conducted by SoU_Ciência in partnership with Instituto Ideia, which collects primary data via mobile phone calls applying a structured questionnaire to a representative sample of the Brazilian population (CEP Unifesp Opinion No. 5.114.892 of November 19, 2021). The data analyzed in this article refer to surveys conducted in two rounds (08/2021 and 07/2023), with a base of 1,248 and 1,295 respondents, men and women from all regions, aged 16 or over, segmented by gender, age, color or race/ethnicity, region, education, class, income, religion, type of municipality and political position: for or against the government and how they evaluate it (including, in 2023, the declaration of vote in the second round of the 2022 elections). With a 95% confidence interval and a maximum expected margin of error of 3%, the two-stage samples (probabilistic and quotas) 24,25 had variable quotas, according to the distribution of the population by region and proportions defined in the 2021 PNAD and 2010 Census. The surveys address vaccination in general, against COVID-19 and childhood vaccination, and related topics26. This empirical material supports the descriptive and content analyses developed in the article.
RESULTS AND DISCUSSIONS
The first section deals with anti-vaccine rhetoric and public perception of vaccination in general and against COVID-19. The second analyzes segments that are more vulnerable to anti-vaccine rhetoric, forming a polarized scenario of the perception of vaccines in the country, based on which we investigate possible convergences for dialogue. The conclusions provide constructive analyses and perspectives.
FROM COWS TO ALLIGATORS: VACCINES AND DISINFORMATION IN THE PANDEMIC
Since the 19th century, anti-vaccine movements, such as the anti-vaccination leagues in the US, Canada and England, have been spreading false information about risks, alleged fraud in production, and minimizing the severity of diseases, sometimes using theological arguments27. Although the fraudulent article published in The Lancet (1998) linking autism to the MMR vaccine was vehemently contested, causing the author to lose his medical license after evidence of research manipulation and his interest in lawsuits against vaccine manufacturers28 was revealed, these “merchants of doubt” continue to operate in various countries, gaining ground with the growth of the political far right.
In Brazil, studies on the Vaccine Revolt (1904), a reaction to mandatory smallpox vaccination and federal government health measures, recognize political and social motivations, such as the actions of opponents of the then president and popular outrage at social injustices and poverty, contributing to social support for the anti-vaccine movement, which in that episode was related more to the method of policy implementation than to skepticism about the effectiveness of the vaccines29,30. With the creation of the PNI (National Immunization Program) in 1973 and the Unified Health System (SUS) in 1988, as the result of popular pressure and mobilization, the country achieved comprehensive and effective vaccination coverage for the population, with a high level of adherence and free access to vaccines recommended by the WHO, thereby becoming an international example in this field31.
However, research points to a significant decline in vaccination in Brazil since 2016, putting these historic achievements at risk32. Child coverage, which had reached more than 95% of the population since the 1990s and in the following two decades, has gradually declined since 2016, with a drop of 10% to 20%, accompanied by an increase in infant and maternal mortality, and the resurgence of cases of measles after years of eradication of the disease in the country33. Studies on the new regressive scenario emphasize, among the causes, the defunding and dismantling of public policies, especially in health, social assistance and education, which were intensified under the Temer and Bolsonaro administrations, and the increase in vaccine disinformation19.
Observing the mobilization of the far right during the pandemic in Brazil, we asked ourselves in this study about the current developments of this process. In a national public opinion survey (2023), we found that a significant portion of the Brazilian population, three out of ten people, say they have some hesitation about getting vaccinated. In response to the question “Do you adhere to the national vaccination campaigns?”, 70.2% indicated that they have always done so. The percentage rises to 77.7% when including those who say they adhered before COVID-19 but gave up after the pandemic (Figure 1). In other words, among those who adhered to the campaigns in the past, 7.5% report having given up. When added to the 12.4% who “do not adhere” and the 9.9% who “do not know,” we have 29.9% of the population with hesitation and/or lack of knowledge about the importance of vaccination.
Figure 1: Adherence to vaccination campaigns
The data reveal an increase in vaccine hesitancy after the pandemic and significant contrasts relating to gender, social class, education and political-electoral positioning: adherence (average of 70.2%) is higher among women (74.9%), people with higher income and education (84.8%, classes A and B; 83.6%, higher education) and those who identify as left-wing (90.6%). In contrast, adherence is lower among the poorest (64.3%, classes D and E) and potential Bolsonaro voters in the second round of 2022 (64.7%). Of those who say they do not participate in campaigns (19.8%, including respondents who answered “no” and those who gave up after the pandemic), the percentage increases in classes D and E (24.9%), among those with lower education (30.9%), evangelicals (25.1%), and Bolsonaro voters (29.5%). In addition to confirming that social inequality (expressed in low income and education) influences vaccine hesitancy, the data point to other dimensions of the phenomenon, explained in the analysis of public perception of the COVID-19 vaccine.
At the initial stage of making COVID-19 vaccines available to the Brazilian population, in an August 2021 public opinion poll, 94.5% said they were in favor of the vaccine. In this group, 65.6% said they had taken at least one dose of the vaccine and 28.9% said they had not taken it but would take it when available (Figure 2). The survey reveals broad support for the immunization plan, indicating that at the height of the pandemic crisis the vaccine achieved significant consensus in the country. The study also shows that 5.5% rejected the vaccine at that time, and that education and political views influenced their opinion. Rejection of the vaccine among people with elementary school education (7.8%) was four times higher than among those with higher education (1.7%). The same contrast existed between those who approved of the Bolsonaro government (11.4%) compared to those who disapproved (2.9%)34.
The 2023 survey indicates a decline in adherence to COVID-19 vaccines. Although adherence to the first dose was over 90%, two-thirds of the population report having taken up to the third dose (66.1%), and only 17.9% report having completed the five-dose vaccination schedule (including the bivalent vaccine). In addition, 4.7% say they have not taken any shots. The data indicate that initial vaccine uptake was high in the country and that disinformation had a greater impact on subsequent vaccine doses.
Figure 2: Adherence to the COVID-19 vaccine (2021 and 2023)
Of those who say they have not received any shots (4.7%), the main reasons given are: “I don\'t trust vaccines” and “I\'m afraid of the side effects.” Added to those who answer “I don’t know” (5.1%), the survey indicates that around 10% of the population, based on their self-declaration, could be without the COVID-19 vaccine in 2023. These data reveal that anti-vaccination rhetoric has convinced a significant part of the population.
Research on disinformation reveals a denialist offensive by the far right against COVID-19 vaccination, especially for children, with emotional appeals that have had a significant impact on social media, in a fierce battle for audience and interaction between pro- and anti-vaccine groups35. The target of denialist discourse, vaccines are the most recurring theme in the evidence collected in research on the spread of disinformation during the pandemic, as revealed by data from the Collection. In 46 examples of information analyzed, there are false arguments about: lack of scientific evidence, vaccine safety concerns, lack of efficacy, risk of death, adverse reactions and serious side effects (HIV infection, cancer, DNA mutations, etc.), economic interests (lobby by pharmaceutical industry), population control by government-controlled chips and attacks on individual freedom. Among the examples are speeches by the then president, with the purpose of spreading insecurity about the COVID-19 vaccine:
If you turn into an alligator. (...) Turn into Superman, if a woman grows a beard or a man starts speaking in a high-pitched voice, they won\'t have anything to do with it. What\'s worse: messing with people\'s immune systems. (...) Where is our freedom?36
The word vaccine originates from the Latin vaccinus, ‘from the cow’, relating to its discovery by an English doctor who noticed immunity to bovine smallpox in workers who milked cows. As a hoax and a tragedy, the supposed power of animal transmutation, “turning into an alligator,” coupled with false risks to the immune system, exposes recurring characteristics of the anti-vaccine discourse: the strategic scientific camouflage of statements that contradict scientific evidence, fake science37.
Discrediting vaccines was an important part of the political strategy of the Bolsonaro administration and its supporters. Among the institutional agents who spread disinformation were: the then-presidency, health ministers, members of the “parallel cabinet,” the Federal Council of Medicine (CFM), the Association of Doctors for Life (MPV) and health insurance companies. As explained in the MPV\'s “Letter to Brazil” petition of April 2021, signed by several doctors:
If some of the authorities were not subservient to the media\'s unified narrative and adopted measures that truly safeguarded human life, they would not relax ANVISA\'s protocols to satisfy the powerful lobby of the pharmaceutical industry, promoting controversial experimental vaccines and presenting them as the ultimate solution to the pandemic, but whose adverse effects and deaths resulting from their use are growing every day38.
By spreading false information and conspiracy theories involving the media, pharmaceutical industry and government officials, with the aim of undermining public confidence in public and scientific institutions, anti-vaccine rhetoric has gained ground in medical circles. As revealed in the Opinion of the Regional Council of Medicine of the State of Amazonas (CREMAM) of December 2021, with disinformation about the risk of vaccines:
From a bioethical point of view, I believe that the vaccination pass represents a way of dividing society and segregating a group, discriminating against certain people and violating fundamental human rights. It would establish that some people have more rights than others because they have already received a vaccine, which is unthinkable in our legal system. Furthermore, the vaccines used in Brazil to date have been approved by ANVISA on an experimental basis, which in itself represents a considerable risk in terms of possible side effects of varying severity, already reported in several scientific studies and widely publicized by the media39 (p. 4).
Such false allegations have been refuted by the scientific community, as vaccines were developed using rigorous scientific protocols and are responsible for curbing COVID-19 mortality40. However, the politicization of anti-vaccine rhetoric, which intensified during the pandemic, has led to a decline in vaccine uptake, especially for children.
A study published in 2022 in Nature Medicine41 on the COVID-19 vaccine in 23 countries, representing more than 60% of the world\'s population, points out that in Brazil, between 2021 and 2022, hesitancy to vaccinate children increased by 56.3%, contrasting with the global trend of increased childhood vaccination. The causes of the reduction in coverage in the country include a lack of funding for policies and the SUS, especially under the Temer and Bolsonaro administrations, which affected vaccine distribution, and a decline in confidence in the vaccines21,22.
The 2023 research on childhood vaccination against COVID-19 (Figure 3) shows that the majority support the vaccine (66.3%, including 54.9% who agree and 11.4% who report having vaccinated their young children). However, a significant portion reject the vaccination of children: 14.4% (including 3.9% who report not having vaccinated their children).
Figure 3: Adherence to childhood vaccination against COVID-19
Opposition to COVID-19 vaccination for children (14.4%) exceeds that for adults (4.7%) and is higher among those who identify as right-wing (33%), say they voted for Bolsonaro in the 2022 runoff (27.2%), rate the Lula administration as disastrous (43.9%) and believe there was fraud in the last elections (36.9%). In contrast, support for the vaccine reaches 92.7% among those who identify as left-wing and 89.6% among Lula voters in 2022. The most frequent target of anti-vaccine rhetoric during the pandemic, lower adherence to vaccination of children confirms that disinformation has had a significant impact.
POLARIZATION IN PUBLIC OPINION AND VACCINE POLITICIZATION: IN SEARCH OF LOST CONSENSUS
Studies point to a decline in public confidence in vaccination after the pandemic42, against a backdrop of growing information disorder in the country, with the proliferation of anti-vaccine profiles on social media, spreading conspiracy theories and fake science. According to research by the Internet and Data Science Laboratory (Labic) at the Federal University of Espírito Santo (UFES), the number of groups with anti-vaccine discourse on Telegram increased from 248 groups registered in 2022 to 920 in 202343. This exponential growth indicates that the actions of “merchants of doubt” continue to spread in the country as one of the tragic legacies of the pandemic.
In addition to showing a lack of interest in receiving further doses of the COVID-19 vaccine (only 17.9% report having completed the vaccination schedule with the fifth dose), the research reveals segments of the population that are more impacted by anti-vaccine rhetoric, with significant disparities when we look at the political spectrum. In response to the question, “How many doses of the COVID-19 vaccine have you received?”, Lula voters in the second round of 2022 report receiving 38% more doses than Bolsonaro voters. Based on a projection of the total number of doses taken from the total votes received by Lula and Bolsonaro in the second round of 2022, this represents approximately 58 million more doses. This result (Figure 4) reveals a significant gap in vaccine adherence between Lula and Bolsonaro voters, especially for the fourth and fifth doses. It is noteworthy that the fourth dose was administered in 2022, an election year marked by strong political polarization in the country. With 23.8% of Lula voters reporting having taken the fourth dose and another 28% having received up to the fifth dose in 2023, this totals more than 30 million doses. In contrast, Bolsonaro voters accounted for only half that number for the fourth dose of the vaccine (13.6%) and just under a third for the fifth dose (10.7%), totaling only 13.1 million. This difference is the most evident sign of the politicization of vaccines.
Figure 4: Polarization in COVID-19 vaccination – political position
Rejection of the vaccine by 4.7% of the population (who claim not to have received a single dose) is three times higher among Bolsonaro voters (6.6%) than among Lula voters (2.2%). In the latter group, the main reasons given were: “forgot,” “did not know about it,” or “were unable to get it” (44.5%), expressing contingent circumstances rather than distrust of the vaccine itself. Confidence in the vaccines is cited by 38.4% of Bolsonaro voters compared to 75% of Lula voters.
The religious dimension also reveals polarities, with Evangelicals supporting Bolsonaro and Catholics supporting Lula, as evidenced by surveys conducted at the time44. Support for vaccination campaigns is higher among Catholics (78.6%) than among Evangelicals (64.2%). The latters’ rejection increases in the case of the COVID-19 vaccine: only 9.8% of Evangelicals completed the vaccination schedule (up to the fifth dose) compared to 24% of Catholics, who were vaccinated nearly three times more often (Figure 5). The trend is similar among those who have not taken any doses (6.4% of Evangelicals, 2.2% of Catholics). Among those who say they have not been vaccinated, lack of confidence in vaccines is cited by 53.2% of Evangelicals, compared to 9.1% of Catholics. As a reason for not completing the vaccination schedule, “I stopped trusting vaccines” is cited by 23.1% of Evangelicals and 12.2% of Catholics. Without federal government campaigns during the pandemic, Bolsonaro voters in 2022 and Evangelicals were the least likely to be vaccinated against COVID-19.
Figure 5: Polarization in Covid-19 vaccination – religious dimension and education
While vaccine politicization is the new and striking factor in recent years, we cannot ignore the structural and historical dimension related to socioeconomic and educational inequality. The poorest segment of the population that reports having received the fifth dose of the vaccine and completed the vaccination schedule is 50% smaller: 10.8% in classes D and E versus 22.3% in classes A and B. The population with lower levels of education was more impacted. When comparing segments with elementary and higher education, 8.2% and 2.2% respectively say they have not received a single dose; 13.4% and 24.1% say they have taken up to the fifth dose; 27.4% and 47.5% disagree with the statement “vaccines are experimental and have no proven effectiveness”; 24% and 40.8% agree that problems were caused by the lack of or delay in vaccination. Education is also reflected in the perception of the actions necessary to reduce mortality in a possible future pandemic: they recognize the importance of expanding educational campaigns (21.6% and 45.4%); combating fake news about vaccines (20.2% and 40.9%); improving the training of health professionals (24.6% and 42.2%); increasing investment in science and research (28.5% and 58.8%).
Regarding the polio and measles vaccine, which has the highest uptake (83.4%), there are significant disparities between segments with different levels of income and education: uptake of 94.6% among people earning more than five minimum wages (MW) falls to 73.9% among those earning up to one MW, and from 87% among those with higher education to 73.8% among those with elementary education. Data on social and educational inequality reiterate this dimension of vaccine hesitancy and reinforce the centrality of education and the fight against inequality, poverty and structural and organizational barriers that affect access to health services and vaccination for historically vulnerable populations, along with measures to combat disinformation.
Note that polio and measles vaccines show less political and electoral polarization, with greater consensus among Lula and Bolsonaro voters (92.1% and 83.6%) and between the left and right (96.1% and 85.9%). Rejection of polio and measles vaccination (3.8%) is four times lower than rejection of COVID-19 vaccination for children (14.4%), further evidence of the politicization of vaccines and the impact of disinformation.
In the 2021 survey, there was an increase in perception of the importance of the SUS during the pandemic, especially among higher-income segments45. In search of possible convergences between polarized groups, data from 2023 point to relevant consensus in defense of science, life and the SUS, and proposals for pandemic prevention. In a multiple-choice question, increasing investment in the SUS is the main measure cited (52.4%), with 59% and 50% among Lula and Bolsonaro voters, and 55.2% and 52.5% among Catholics and Evangelicals. Other points of consensus include increasing investment in science and research, improving the training of health professionals and expanding educational initiatives in schools and communities. Such convergences reveal that there is a significant portion of right-wing voters who are not denialists, anti-science or anti-SUS. Recognition of the value of science and public policies opens up prospects for dialogue and consensus in a politically polarized country.
CONCLUSION
The research revealed the impact of anti-vaccine rhetoric that circulated during the pandemic, leading to a decline in the population\'s adherence to vaccination and, more significantly, to the COVID-19 vaccine, especially for children. The data reflect polarizations in Brazilian society, mainly between segments with different political and religious views. Analysis of the Brazilian population\'s perception of vaccines confirms that vaccine hesitancy is related to the country\'s historical and deep social inequality, but has been compounded by a new and relevant political dimension, expressing what we call vaccine politicization.
In times of risk of new pandemics, it is crucial to address the issue structurally, with policies that promote profound economic and social transformations in the country, with comprehensive and multisectoral actions, strengthening public policies, with adequate investments, combating the concentration of income and effectively redistributing wealth. The regressive anti-vaccine impact has been significant, but it can be reversed with the reconstruction of the PNI (National Immunization Program), as shown by data on the current resumption of childhood vaccination46.
The politicization of vaccination requires education, communication and public campaigns, with a focus on lower-income and less educated populations, as well as diversified strategies to combat disinformation. To regain the population\'s confidence in vaccination, it is necessary to strengthen communication and public education, in partnership with social movements, health and cultural agents, social workers and various public and private players who are engaged, well-trained, informed and active in the territories. In a polarized country, there is consensus that opens up prospects for the future.
There is much to be done to unite the country around issues regarded as consensual: the defense of science and the SUS (Unified Health System) is certainly one of them. In March 2024, the Ministry of Health and partners began creating the COVID-19 Pandemic Memorial to contribute to justice, reparation and achievement of structural transformations so that tragedies like this do not occur again. The vaccine battle during the pandemic was political, and the actions of the research system and universities made it possible to start vaccination in the country. Science has shown that vaccines were primarily responsible for reducing COVID-19 mortality. Confronting the anti-vaccine and anti-science legacy of the pandemic in Brazil is fundamental to combating denialism and strengthening democracy and public health at the present time.
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Como
Citar
Sígolo, VM, Carvalho, JP, Arantes, PF, Smaili, SS, Foguel, D, Marieta, K, Moura, M, Chioro, A. “Mercadores da dúvida” e politização vacinal: Brasil em tempos de pandemia. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/jan). [Citado em 27/04/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/mercadores-da-duvida-e-politizacao-vacinal-brasil-em-tempos-de-pandemia/19921?id=19921