0043/2026 - O (não) lugar do sujeito na gramática do consumo implicada à Dietética e à Corporeidade
The (non) place of the subject in the grammar of consumption impliced to Dietetics and Corporality
Autor:
• Marcos Aurélio Macedo - Macedo, MA - <marcos_macedo@uvanet.br>ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3134-3754
Resumo:
O artigo traz anotações crítico-compreensivas em torno do discurso racional dietético, estruturadas em dispositivos biopolíticos, que concebem o corpo como objeto de controle normativo moral. Parte-se da noção do não lugar antropológico, onde o sujeito não se reconhece implicado, tampouco estabelece vínculo relacional ou histórico, tendo a sua individualidade substituída pelo anonimato de mero consumidor. Problematizando a autoconsciência do saudável como preceito identitário, são explorados o deslocamento e a reificação do sujeito, afetado nos espaços (de dessubjetivação) relacionados à compra e venda. É proposta uma fundamentação crítica para uma Dietética Engajada – reelaborada a partir da ética do “cuidado de si” da tradição greco-romana – na perspectiva político-existencial da autodeterminação crítica. Para tanto, articula herança cultural (tradição), fenomenologia da consciência corporal e revalorização estética do ato de comer como experiência sensível e prazerosa. Por fim, com enfoque na práxis em Educação Física e Nutrição, reflete-se sobre a pertinência da Teoria Crítica para a abordagem qualitativa do corpo na Saúde Coletiva. Dessa forma, valorizam-se contradispositivos pedagógicos e políticos capazes de reconfigurar a corporeidade como eixo de liberdade, transcendência e ação no mundo.Palavras-chave:
Dietética; Corporeidade; Ciência; Saúde; Sociedade.Abstract:
The article brings critical-understanding notes around the rational dietary discourse, structured in biopolitical devices, which understand the body as an object subject to moral normative control. It starts from the notion of the anthropological non-place, where the subject does not recognize himself as implicated, nor does he establish a relational or historical link, with their individuality being replaced by the anonymity of a mere consumer. By problematizing the self-awareness of the healthy as an identity precept, the displacement and reification of the subject, affected within the (desubjectifying) spaces related to purchase and sale, are explored. The text proposes a critical foundation for an Engaged Dietetics – re-elaborated based on the “self-care” ethics of the Greco-Roman tradition – in the political-existential perspective of human self-determination. To this end, it articulates cultural heritage (tradition), phenomenology of body consciousness and aesthetic revaluation of the act of eating as a sensitive and pleasurable experience. Finally, focusing on praxis in Physical Education and Nutrition, it reflects on the relevance of Critical Theory for a qualitative approach to the body in Public Health. Thus, pedagogical and political counter-devices capable of reconfiguring corporality as an axis of freedom, transcendence and action in the world.Keywords:
Dietetics; corporality; Science; Health; Society.Conteúdo:
A complexidade do sujeito humano e social constitui desafio interdisciplinar à práxis (entendida como prática investida de teoria1) em Nutrição e Educação Física em Saúde Coletiva, demandando a compreensão das implicações e da abrangência do discurso racional dietético, pautado no preceito do saudável: a saudabilidade. Empreendimento crítico-reflexivo nesse sentido deve considerar, dentre outras tradições epistemológicas, o paradigma da racionalidade biomédica, que sustenta processos de subjetivação do cuidado, tensionando a responsabilização e o empenho individual – conforme evidenciado na normatização da prescrição de mudanças na alimentação e na atividade física, adotada por serviços de saúde2,3.
A crescente prescrição clínica de suplementos dietéticos para remediar pressupostos déficits nutricionais4,5 – atribuídos à incompletude da alimentação habitual –, denota o avanço da medicalização da vida. A mesma lógica se evidencia na indicação de exercícios físicos como terapia no combate à “patologia” do sedentarismo, autorizando “abordagens coercitivas por aqueles que se colocam no lugar de autoridades e experts” 6(p. 839). Nesse contexto, é pertinente problematizar – sem apelo a dualismos simplistas ou contrapor o mérito da tomada de decisão prática baseada em evidências – a difusão de abordagens que, embora revestidas de cientificidade, reproduzem perspectivas reducionistas de viés mercadológico, suscitando questionamentos éticos.
Na ética capitalista, os corpos – a despeito de suas diversidades, singularidades e dissidências – são sistematicamente apropriados na construção social de corpos-mercadoria normalizados7,8. Processo esse movido por interesses nada condizentes com a produção do cuidado em saúde centrado no bem-viver – compreendido como uma existência digna, que não prescinde do acolhimento incondicional das diferenças. Nesse passo, as intermináveis transformações no corpo, controlado e vigiado como objeto, são sustentadas por uma racionalidade acrítica, comprometida com mecanismos de manipulação e conformação social1.
Trata-se de um sistema de controle e vigilância capaz de fragilizar individualidades – gerando insegurança, desvalorização pessoal e confusão existencial, que conduz à perda da conexão com o próprio corpo enquanto fonte de experiência e significado9,10. É no curso de tão desgastante mecânica disciplinar que Arraes e Melo revelam a obstinação e o sofrimento de fisiculturistas, impondo-se rígidas rotinas alimentares e de treinos com vistas a alcançar limites da produção corporal, convertendo o corpo em projeto inacabado de perfeição física11, ao invés de percebê-lo como dimensão integradora do ser e expressão da subjetividade12.
Para avançar na compreensão desta problemática, é preciso considerar o processo civilizador, que institui hierarquias de controle implicadas a uma determinada matriz de desenvolvimento humano13. Criam-se condicionamentos objetivos para estruturar a alienação e a falsa consciência da realidade (reificação), convertendo o corpo em coisa útil, subordinada, produto de uma sistemática funcional de organização social14. Essa determinação manifesta-se inclusive em anúncio de um dado “alimento funcional”, que promete transformações de um corpo passível de otimização contínua, tais como: “melhoria da imunidade" e “combate ao stress”.
Posicionar o corpo no contexto no qual a comida e ele próprio são reificados em mercadorias, onde as indicações do que seja “saudável” assumem conotação normativa com força coercitiva, é tarefa das mais complexas. Sua compreensão pressupõe considerar o deslocamento progressivo do sujeito das tradições culturais e o crescente estranhamento do mundo. Nada obstante, a lógica da hierarquização social impõe uma determinada representação hegemônica de sociedade15, estendendo-se à produção permanente de novos gostos alimentares.
Por tais considerações, esse artigo articula anotações crítico-compreensivas em torno do discurso racional dietético pautado em prescrições disciplinadoras, que concebem o corpo como objeto passível de controle normativo moral – gerando culpa e outras incomodações subjetivas. A discussão inspira-se na definição de “não lugar”, da lavra do antropólogo francês Marc Augé16, entendido como aquele no qual o sujeito não se reconhece implicado. Assim, deslocado, ele não estabelece vínculo relacional ou histórico, posto a substituição, intencionalmente controlada, de sua individualidade pelo anonimato de mero consumidor.
O texto inova ao integrar dietética, corporeidade e não lugar como categorias analíticas da dessubjetivação pelas lógicas de consumo, articulando conceitos teóricos complexos com realidades vividas por nutricionistas e profissionais de Educação Física. Nessa mobilização, a corporeidade é reconhecida como fundamento de autonomia, contexto no qual inscreve uma Dietética Engajada, sugerindo bases para intervenções emancipatórias fundadas na Teoria Crítica.
Pressupostos teóricos e reflexões epistemológicas
Tomando-se a concepção do não lugar antropológico e as linguagens nele inscritas como objeto referencial de análise, partimos da abordagem ontológica de Heidegger, na esteira da tradição fenomenológica, compreendendo a princípio que “o ser pode-se encobrir tão profundamente que chega a ser esquecido, e a questão do ser e de seu sentido se ausentam”17 (p. 75). Contudo, dada a aparente insuficiência da fenomenologia para análise compreensiva da origem e do alcance de discursos morais focalizados verticalmente no controle sobre o corpo, buscamos avançar com a vertente crítica em Foucault, expressa no método genealógico18.
Da genealógica foucaultiana, que remete à arqueologia do saber (investigação das condições epistemológicas que tornam possíveis certos regimes de verdade em contextos históricos específicos), nos baseamos na “dietética” – conceito retomado por Foucault19 (p. 74) a partir de Platão, dos primórdios da civilização greco-romana, como domínio de aplicação do cuidado do corpo (prática milenar de governo de si, gradualmente substituída por tecnologias modernas de regulação da vida). Daquele autor também é explorada a noção de biopoder20 – mecanismo que regula a vida das coletividades (biopolítica) e dos corpos individuais (disciplina) mediante saberes científicos e normas higiênicas, configurando o que denominou Sociedade Disciplinar.
Em contraponto dialético, não antitético, mencionamos a Sociedade do Desempenho (ou Cansaço), enunciada por Byung-Chul Han21, como mutação histórica do biopoder: da disciplina externa à autoexploração. Adicionalmente, em contraste às determinações biomédicas do corpo metabolicamente gerenciado, internalizadas na subjetividade, destacamos a Política-Vida, proposta por Giddens22, dirigida ao protagonismo crítico-reflexivo do sujeito. Ambos dialogam com Foucault: Han descreve uma progressiva subjetivação; Giddens, uma possível via de resistência.
Na sobredita mudança da sociedade disciplinar20 para a do desempenho21, o controle externo cede lugar à subjetivação acrítica. A “Política-Vida22 emerge como contraponto à gramática imperativa da positividade do poder. No desenvolvimento de tal negação determinada procuramos examinar criticamente a tensão dialética entre a autoexploração21 (como nova morfologia do poder) e a reflexividade22 (enquanto potencial de autonomia).
Adota-se nos limites desse artigo a noção de “corporeidade”, adaptada por Mounier23 da ética kantiana (baseada na ideia do ser como fim em si mesmo), como reflexão do sujeito situado, individualizado em um corpo historicamente construído. A corporeidade fundamenta a percepção indispensável a nossa existência social, constitui também por isso uma provocação à ambientação no mundo da vida, no engajar do ser-no-corpo, na resistência à alienação e a fragmentação23.
A propósito, o conceito de mundo da vida é criação de Edmund Husserl, com base na análise das práticas corporais cotidianas e das experiências sensíveis no espaço-tempo compartilhado, onde objetos e relações se revelam tal como vividos24. Noutros termos, uma abordagem fenomenológica que desvela a subjetividade encarnada – um eu situado aqui e agora –, mas sempre em intersubjetividade, mediada por tradições comuns e pela coexistência com outros sujeitos24.
A reflexão que orienta este artigo é inspirada na racionalidade comunicativa, enunciada por Habermas25, em contraposição à pretensão de universalização técnico-científica – baseada no caráter instrumental da razão e sua força manipuladora e controladora8, que parte da pretensão de validade dos atos da fala, presumindo a força da linguagem humana para elaboração de consensos aptos a afastar formas de imposição ou coerção.
Na esteira dos fundamentos da criticidade, que desafiam a pretensão de uma certa “verdade científica”, nos apoiamos no postulado de Santos26, ao caracterizar como crítica toda teoria que não reduz a realidade (a ser interpretada e transformada) ao que existe. Desse modo, além de considerá-la como conhecimento socialmente construído por sucessivas aproximações às perspectivas transformadoras ou de manutenção, cabe reconhecer a realidade como um campo existencial, espaço para construção de saberes e práticas aptas a superar o que é criticável no que é empiricamente dado.
Em suma, o texto compõe um ensaio crítico, comprometido com o zelo e o rigor da tradição da pesquisa qualitativa inscrita no núcleo de ciências sociais e humanas do campo da Saúde Coletiva, transitando entre a vertente fenomenológica do mundo da vida12 e a perspectiva antropológica do não lugar16, culminando com breves anotações acerca do lugar da crítica, assumida como tradição teórica, na abordagem qualitativa do corpo.
Neste movimento do pensamento, com amparo na Teoria Crítica da Sociedade1, faz-se necessária a (re)abertura “à ressignificação (ou mesmo mudanças) dos pressupostos teóricos e conceituais inicialmente demarcados.” 27(p. 430). Assim, concordando com Canguilhem28, acreditamos atender ao menos uma exigência do pensamento filosófico, qual seja, reabrir (mais do que fechar) debates.
Sujeito corporificado, alimentação e não lugares antropológicos: implicações fenomênicas e políticas
A percepção de lugar – seja interiorizada como presença física, envolvimento emocional ou mesmo relação não consciente – constitui fenômeno da experiência sensível em um dado contexto. Lugar entrelaçado com nossa subjetividade, memórias e emoções, cuja compreensão de sua ausência (não lugar) envolve questões profundas que demandam explorar uma certa dimensão da abertura ao mundo concreto do sujeito corporificado12,29.
Lugar e não lugar definem-se pela experiência corporal29,30, a própria corporeidade que se abre (ou não) ao mundo23. A identificação do ser para com um lugar tem o sentido de pertencimento quando ali ele se reconhece junto a pessoas e/ou memórias, ao passo que o não lugar – espaço de transição ou passagem16, alheio à contextualização relacional do ser por ele mesmo1 – nega tão significativa implicação. Essa dicotomia remete a uma determinação ontológica em territórios identitários, onde o sujeito corporificado não está propriamente no espaço, ele se percebe ali refletindo sobre essa relação, investido de sua condição originária de ser-no-mundo12,17.
O não lugar está inscrito na supermodernidade, a saber: momento histórico de aceleração excessiva da vida social, marcado pela saturação de informações, individualização e descontinuidade das experiências. Augé16 sustenta que nesse contexto se produzem territórios de despersonalização, notabilizados por relações impessoais e desnaturalizadas (distintos do lugar onde a imaginação investe de simbolismo e a memória ali se fixa).
Caracterizado pela abundante oferta de mercadorias (identificadas por códigos e signos de linguagem específicos) – para satisfação de pressupostas necessidades – o não lugar abriga uma espécie de tensão solitária16 em meio a um ambiente confuso, saturado de tecnológia (QR Code, display digital etc.).
(...) o cliente circula silenciosamente, consulta etiquetas, pesa os legumes ou frutas numa máquina que lhe indica, juntamente com o seu peso, o seu preço, depois estende o cartão de crédito a uma mulher jovem também silenciosa (…) que submete cada artigo ao registro de uma máquina decodificadora 16 (p. 92).
Essa narrativa denota o que Auge16 (p. 92) chama de “invasão do espaço pelo texto”, observada na mediação do consumo por interfaces tecnológicas – como os sistemas de autosserviço em fast foods com sugestões algoritmizadas e as pulseiras digitais que monitoram o desempenho durante a corrida. Situação análoga ocorre em plataformas eletrônicas (saturadas de mensagens motivacionais) que conectam, via aplicativo (chek in), usuários a redes de academias geolocalizadas de baixo custo e aplicativos de treino domiciliar.
A partir dos não lugares as forças do capital propagam estilos de vida condizentes com a maximização e otimização de seu próprio poder econômico29,8. Isso em uma sociedade na qual se tornar sujeito pressupõe converter-se em produto e, nesse ritmo, ancorar uma parcela da subjetividade nas lógicas de produção e consumo, identificando a si próprio como mercadoria14.
A singularidade da projeção da experiência do sujeito deslocado no espaço-tempo o conduz a um estranhamento, sensação essa mediada pelo complexo de sentidos prejudicados a ponto de inviabilizar o acesso à própria interioridade. Assim compreendido, depreende-se que o termo deslocamento seja epistemologicamente mais apropriado do que “não lugar”30 – no ponto em que a expressão sugere negação e não oposição – para situar o movimento cognitivo do sujeito em relação ao lugar.
Ante o paradigma (perverso) da globalização, essa condição de desenraizamento crítico configura-se como terreno fértil para o mal-estar de um sujeito deslocado, revelando um vazio que gera esquizofrenia espacial em lugares moldados pela lógica produtivista e excludente31. Contudo, na tensão entre território dado e construído, podemos nos insurgir criticamente
com a descoberta de que, a despeito de sermos o que somos, podemos também desejar ser outra coisa. Nisso o papel do lugar é determinante. Ele não é apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro.31(p. 114).
Sendo uma experiência sensível inscrita no corpo, a percepção de lugar constitui um fenômeno que transcende um dado território geográfico, alcançando relações que (re)produzem significados culturais, econômicos e hierarquias sociais, perfazendo uma corporeidade situada – o corpo como via de acesso ao mundo, através do qual agimos e nos inserimos na realidade23. Por tal conotação existencial, a concepção de não lugares16 como espaços de alienação e reificação – que produz um isolamento relacional como efeito colateral – revela-se insuficiente para capturar a complexidade do humano no contexto multidimensional da vida.
Ampliando a abordagem antropológica de Augé16, Deleuze & Guattari32 enfrentam a questão dos não lugares a partir da noção de corpo-territorializado, oscilando entre desterritorialização (ruptura com saberes corporais tradicionais) e reterritorialização (adoção de novas normas corporais), em cuja interface as identidades como "o corpo saudável" são simultaneamente capturados e reinventados. Nesse entrelaçamento, a tensão solitária augeniana16 coexiste com as linhas de fuga micropolítica, onde se negocia, mesmo em espaços padronizados, as próprias territorialidades corporais32 – algo cada vez mais difícil na fluidez desterritorializante da era digital.
Da dietética da gramática do consumo à política-vida
Na gramática do consumo – expressão adaptada de Bauman15, para descrever a linguagem normativa de práticas sociais sob a égide do mercado – a alimentação/nutrição humana costuma ser reduzida a um padrão de objetividade inscrito na esfera dos sentidos e significados do sujeito social, conforme standard preestabelecido. Essa racionalidade dietética, configura uma mecânica de valoração e mensuração do que deve comer um corpo de referência (idealizado e administrado), cujo metabolismo mobiliza energia e nutrientes, ambos cotados no mercado.
A busca do corpo idealizado – baseado na nutrição em seu “estatuto científico” (porque estruturado no domínio do conhecimento instituído na linguagem da ciência frente a outros modos de saber)18 – impulsiona a normatização alimentar para alcançar parâmetros cientificamente validados. Por tal representação, a mecânica do cálculo e interpretação dos dados da composição corporal, ao lado de estimativas das demandas de nutrientes e da composição de alimentos, constitui, de modo linear e não reflexivo, a base argumentativa para prescrição de uma dieta ideal.
Não obstante, esse mesmo corpo governado, representa uma dimensão do sujeito social, moldado pela cientificidade, em resposta às expectativas no mundo da vida. Nesse cenário de condicionamentos culturais, por vezes diante de “rótulos sobre informação de energia e o dever para com a queima calórica e o treino físico para a sua redenção”34 (p. 4365), emerge uma ética utilitarista – para a qual se perceber produtivo e hígido denota uma falsa consciência de “virtude”. Esta reificação – presente na exaltação do esgotamento físico como símbolo de disciplina moral, bem como na culpa atribuída à ingestão alimentar em desacordo com construções mercadológicas – transforma práticas de saúde em tecnologias de normalização. Tal processo subverte a ética foucaultiana do cuidado de si19 em mandados de produtividade e consumo21.
A autoridade do raciocínio moral – subjetivado no controle/cuidado clínico do corpo enquanto caserna da biopolítica – impõe a autoconsciência do saudável como preceito identitário (um passaporte ao modo “natural” de existir em sociedade)28,20. Nesse sentido, dentre outras práxis de produção de cuidado fundadas em bases fisiopatológicas de doenças crônico-degenerativas, são abordadas respostas às necessidades metabólicas de atividades físicas relacionadas ao stress oxidativo e seus efeitos deletérios nas atividades celulares35, valorando o poder antioxidante de nutrientes no combate ("exorcização") aos excessos de radicais livres de oxigênio – culpabilizados ("satanizados") por ameaçar e/ou abreviar a vida, na gênese de supostos processos de carcinogênese e aceleração do envelhecimento.
Para alcançar a estética disciplinada de um corpo saudável, não seria aceitável – sob pena de transgredir a normatividade alimentar – uma comida com níveis calóricos acima dos padrões validados cientificamente. A propósito, Christiansen3, com fundamento na análise sobre a abordagem da obesidade por autoridades de saúde pública do México, denunciou o viés epistemológico da biopolítica na produção de subjetividades reduzidas a uma corporeidade quantificada – baseada em percentual de gordura, índice de massa corporal (IMC) etc –, evidenciada por estereótipos preconceituosos, apoiados na patologização dos corpos gordos.
Todavia, como adverte Byung-Chul21, o notável avanço da autoexploração do corpo – como ocorre em clínicas de estética e academias de ginástica/musculação – assinala uma mudança paradigmática da Sociedade Disciplinar para a Sociedade do Desempenho do século XXI, que fomenta capacidades do sujeito para maximizar resultados. Uma e outra operam demarcando mecanismos de tensão dialética por lógicas de controle sobre o corpo: a primeira, externa, pela negação (produzindo loucos e marginais); a outra, interna: pela positividade (criando fracassados e depressivos)21.
No contexto da reconfiguração do controle político da vida, a dietética antiga – reinterpretada no século XIV para disciplinar corpos (sob as políticas higienistas do Estado liberal) – foi atualizada por meio de cálculos nutricionais e imperativos de desempenho. Diante dessa transformação histórica, a política-vida, de Giddens22 – processo de autodeterminação, que envolve reflexão crítica sobre questões individuais e interesses pessoais – surge como uma estratégia de resistência contra mecanismos colonizadores, baseados na mensuração de riscos à saúde.
Essa dinâmica crítica se materializa em uma práxis emancipatória que, mesmo sem transcender completamente as estruturas biomédicas e mercadológicas hegemônicas, promove a ressignificação do corpo como espaço de autonomia negociada. Nesse processo, cabe ao indivíduo – enquanto corpo sujeito e legítimo autor da sua política-vida – protagonizar o próprio estilo de vida. Isso implica uma autoconstrução reflexiva, que se desenvolve mesmo diante da tensão dialética entre contextos locais e forças globalizantes22,31.
Assim, questões como: “O que devo (ou não) comer?” ganham relevância em um mundo de saberes plurais e possibilidades existenciais. A resposta não se esgota no entendimento técnico sobre alimentação e nutrição, demandando o pensamento complexo proposto por Morin36 – capaz de integrar a finitude humana, as incertezas epistêmicas e os limites da razão, articulando saberes com responsabilidade ética, o enraizamento cultural e a sensibilidade afetiva.
A desconstrução da normatividade corporal e alimentar emerge como práxis transformadora para os envolvidos, requerendo a mobilização de mecanismos de enfrentamento aos controles de viés opressor. Esses incluem a identificação e a subversão dos constrangimentos morais que patologizam os corpos dissidentes7. O desafio reside em converter tais estruturas em gramáticas existenciais emancipatórias. Insurgências do tipo devem operar através de dispositivos que articulem teoria e prática, focalizando os corpos historicamente silenciados como territórios de resistência e ressignificação37,38. Essa abordagem orienta uma atuação profissional alinhada às perspectivas interseccionais e críticas do campo da Saúde Coletiva.
Nessa perspectiva, estratégias formativas fundamentadas em marcos teórico-críticos revelam-se imprescindíveis. Assumem particular relevância: [1] o enfoque interseccional (Kimberlé Crenshaw)37,39, que desvela como opressões de raça, gênero e classe se interconectam na produção de vulnerabilidades específicas; e [2] a Pedagogia da Autonomia (Paulo Freire)38,40, pautada na abordagem dialógico-problematizadora para confrontar opressões estruturais mediante processos coletivos de ação-reflexão. Tais quadros teóricos mostram-se decisivos para a construção dialogada de contradispositivos pedagógicos e políticos que reconfigurem a corporeidade como eixo de liberdade, transcendência e ação transformadora no mundo.
À guisa de Conclusão:
Do lugar da Teoria Crítica na abordagem do corpo – nas práxis da Educação Física e da Nutrição em Saúde Coletiva
Não se desvela razoável a crítica estereotipada, destituída de fundamentação séria, que se pretende articulada à teoria, mas incompatível com o racionalismo crítico (na base da atividade intelectual consciente, em busca de aproximação da verdade). Ademais, não faz jus à designação “Teoria Crítica”1 algo assumido como crença dogmática (e, também por isso, distorcida, senão estapafúrdia), incapaz de trilhar um caminho epistemológico para interrogar e transformar a abordagem tecnicista do corpo – centrada em parâmetros antropobiométricos e protocolos padronizados. Contra isso, é pertinente reconhecer criticamente os sentidos produzidos e deslocados nas experiências do corpo em espaços de significado e não-significado12,29 .
A importância da criticidade reside, em particular, na atitude de ressignificar a pessoa em movimento como sujeito histórico e culturalmente situado no meio ambiente natural e político que circunscreve as práticas corporais. Isso nos leva a questionar a ideia, baseada na saudabilidade, de saúde e bem-estar como oportunidade de mercado – materializada no consumo de produtos (inclusive o próprio corpo) e serviços. Essa abertura crítica, ao avançar no reconhecimento da pluraridade de realidades possíveis, deve se materializar em ações voltadas à afirmação do corpo como campo dialético – no qual pulsão e controle coexistem de forma dinâmica41,42.
Como parte da resistência à normatização alimentar e corporal, cumpre valorar a corporeidade enquanto território de significação não-administrada. Para radicalizá-la – isto é, ir à raiz, em profundidade – é preciso fomentar espaços de investigação científica e formação crítica1,38, não apenas voltados a problematizar os mecanismos biopolíticos, mas também desnaturalizar hierarquias discursivas, incorporando a escuta sensível das marcas físicas e emocionais que o corpo acumula como testemunho de sua trajetória de vida (biografia corporal)41. Por tal compreensão, o corpo é assumido como o modo de existir do ser-no-mundo, nele se inscreve as nossas histórias e até os desejos não reconhecidos12.
Para efetivar tal abordagem crítica, impõe-se desconstruir a racionalidade dietética hegemônica na formação profissional, desvelando seus fundamentos mercadológicos. No âmbito assistencial, essa práxis orienta-se pelas histórias alimentar e corporal dos sujeitos envolvidos, contextualizando e, tanto quanto possível, singularizando intervenções por meio de narrativas biográficas. Na mesma direção, à pesquisa qualitativa cabe conhecer em profundidade saberes corporais e alimentares marginalizados, como os de comunidades tradicionais. Essas frentes articulam contradispositivos pedagógicos ao fetichismo da nutrição, reinscrevendo a alimentação em sua dimensão sensível e compartilhada como prática emancipatória.
Nesse horizonte de experiência sensível e possibilidade de autodeterminação, há um campo aberto para práxis que subvertam os não lugares implicados à saúde – como redes de clínicas que vendem programas de emagrecimento, operando em esquema de linha de produção, onde sujeitos não passam de “pacientes” quantificados por medidas corporais, submetidos a dietas padronizadas e até intervenções invasivas, sem considerar biografias corporais. Frequentemente inseridos nesses espaços, tanto aqueles que atuam na Nutrição quanto na Educação Física – ainda que se reconheçam potencialmente capazes de promover ações verdadeiramente éticas, inclusivas e dialógicas – podem acabar reproduzindo práticas que ignoram a complexidade do corpo vivido.
Importa destacar que diversos nutricionistas e profissionais de Educação Física vêm construindo criticamente práticas que transcendem essa lógica reducionista e funcional. Nesse contexto, observa-se aqueles alinhados à Health at Every Size® – uma abordagem holística, antigordofóbica, que prioriza o bem-estar e comportamentos intuitivos em alimentação e atividade física (independente do peso ou do tamanho do corpo) – cujos dados empíricos comparados às intervenções baseadas no peso mostram variações de indicadores antropométricos e cardiométricos semelhantes43.
A proposta Weight-Neutral® – que dissocia o peso (para o qual não tem metas) da saúde, e promove o respeito à diversidade corporal – é referenciada como outra frente de luta contra a gordofobia estrutural. Dessa feita, uma abordagem destacada por avançar da clínica do cuidado, contraposta à racionalidade biomédica, para o campo da justiça sanitária44, reconhecendo a estigmatização de peso como violação de direitos humanos, a ponto de exigir respostas políticas, incluindo leis antidiscriminatórias45. Assiste-se assim a consolidação de um marco ético que integra saúde e justiça social, focalizando a dignidade da pessoa humana – princípio fundamental no Estado democrático de direito.
No âmbito das vivências em atividade/exercício físico emerge a expressão práticas corporais como contraponto à linguagem de risco do sedentarismo, frequentemente reduzida à perspectiva, simplista, de uma lógica de aptidão física alheia à multidimensionalidade da cultura corporal, demarcando um processo de tensões na interface das dimensões biológica e social46. Nesse prisma, o paradigma da complexidade36 (referência importante na luta pela ressignificação da saúde no plano multidimensional), ao transcender a mera simplificação, ajuda no esforço crítico de superação da abordagem biorreducionista do movimento humano ancorada no termo atividade física47, de modo a alcançar também as dimensões social, emocional e cultural.
Essa mesma multidimensionalidade se manifesta quando consideramos que comer e movimentar-se são atos impregnados de significados, que situam o sujeito em uma rede viva de relações – antítese dos não lugares, onde, mesmo na multidão, vive-se como estranho no tempo-espaço social, seduzido por conhecimentos espetacularizados e discurso informacional normativo que prescrevem consumo e vida saudável15,34. Nesse vazio existencial e de apagamento da tradição, a estética do prazer de comer e a consciência corporal se apresentam como dimensões de arte e resistência41 ao tecnicismo na Educação Física, na Nutrição e em outros campos teórico-práticos. Esses aspectos afirmam-se como possibilidades de autonomia negociada, permitindo a reivindicação de normas corporais não alienadas.
Notoriamente, a normatização do corpo saudável, longe de restringir-se às áreas da Educação Física e da Nutrição, expande-se como dispositivos biopolíticos transversais20 – articulado por médicos, psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros..., bem como profissionais de beleza e moda – perfazendo uma teia legitimadora do controle corporal, que naturaliza padrões antropobiométricos e nutricionais como imperativos morais, mas dissimula sua base mercadológica e excludente. Todavia, em que pese as categorias de trabalhadores envolvidos, a crítica a tal gramática do consumo requer uma abordagem multidimensional que reinscreva a corporeidade e a dietética no âmbito da autonomia reflexiva da pessoa humana, indispensável ao empreendimento de sua própria política-vida22.
Ademais, sabendo-se que cada pessoa, por meio de suas ações, atribui significados ao mundo e constrói sua estrutura simbólica15, analisar o lugar do sujeito no contexto dialético dos interesses que determinam o comer e a própria comida requer uma exploração profunda das transformações sociais, da natureza e do conhecimento humano, incluindo os impactos e a importância da desinformação científica – seus usos e distorções. Esse esforço compreensivo envolve reconhecer a relevância da ciência na construção de realidades objetivas, sem ignorar sua instrumentalização por sistemas político-ideológicos que podem justificar hegemonias e suprimir individualidades.
Embora a lógica de mercado transforme espaços em sistemas fechados de circulação mercantil, esses territórios não se prestam tão somente a tal propósito, sendo abertos para manifestações propriamente humanas32,22, como uma experiência estética condizente com o enraizamento cultural e a autodeterminação41,1. No caso, uma arte situada como interrupção dialética à colonização da vida – transgressora do caráter globalizante (no sentido econômico) imposto à cultura alimentar e corporal, capaz de provocar instantes singulares de reflexão crítica, aptos a revelar nas fissuras do cotidiano possibilidades emancipatórias de cuidado e existência não mercantilizadas41.
Diante da colonização do mundo vivido, pautada na racionalidade instrumental (gênero do qual a racionalidade dietética é espécie), o agir comunicativo – teorizado por Habermas25 como fundamento de uma razão emancipatória – é um inteligente contraponto. Investigações sistemáticas sob essa perspectiva exigem cuidado e rigor crítico frente a sistemas de dominação hábeis em alienar subjetividades através da substituição do diálogo autêntico por regras impessoais e critérios economicistas25,15.
Para valorar a autonomia do sujeito frente a tais mecanismos, é preciso reconhecer que a crítica não se limita a denunciar práticas opressoras, mas implica também no esforço coletivo de superação. A tarefa da Teoria Crítica – ao interrogar a normatização do conhecimento na qualidade de mecanismo de controle – é, sobretudo, desvelar as estruturas que reduzem a interação humana à lógica instrumental, apontando possibilidades emancipatórias1,8,38,39.
Mas, a lógica instrumental cria não apenas não lugares, mas também o “não corpo” – tal como o “corpo gordo”, percebido como lugar de subversão à normalização da magreza, personificado como negação ao padrão estético legitimado pela racionalidade dietética33 (p. 151). Diante desse processo de desumanização seletiva, cabem práxis críticas para incluir os corpos marginalizados e dissidentes7, cuja exclusão carrega a chave para compreendermos como sistemas de opressão se entrelaçam. Por tal perspectiva interseccional – invocando a máxima de Crenshaw37 – "Quando eles entram, todos nós entramos", reconhecendo-se assim que a libertação desses corpos que “não cabem” é condição para uma necessária transformação estrutural.
À luz da crítica aos dispositivos biopolíticos inscritos na racionalidade dietética, afetando a corporeidade, fica evidenciado a constituição de sujeitos deslocados e corpos desterritorializados. Nessa dinâmica existencial, a práxis crítica em Educação Física e Nutrição, ao compreender o corpo como expressão viva da subjetividade, deve estranhar as armadilhas dissociativas do consumo e familiarizar-se com uma Dietética Engajada – reelaborada como abordagem ético-política, a partir da ética do cuidado de si da tradição greco-romana19 – para integrar história, prazer e cultura alimentar no sujeito corporificado. Por tal hermenêutica do sujeito19 cabe investir em propósitos de caráter verdadeiramente virtuosos, orientados pela excelência moral de uma existência digna – na aproximação de uma ética da felicidade, conforme ensina o filósofo grego Aristóteles48.
Advirta-se, entretanto, não ser nostalgia evocar a antiguidade nesse movimento político-existencial, mas sim recurso para integrar a dimensão ontológica ao presente49,19, como parte de um práxis emancipatória, voltada a interrogar realidades em crise ao tempo que avançam na contraposição à opressão social subjacente à normatização da vida1. Essa transformação exige que profissionais de Educação Física e nutricionistas se permitam mediadores críticos no processo de leitura e ressignificação coletiva das práticas corporais e alimentares enquanto territórios de identidade e resistência.
Mobilização nessa direção demanda a reconstrução intersubjetiva baseada em diálogos críticos para redirecionar os sentidos que orientam as práticas sociais rumo a essência e à dignidade da pessoa humana25,12. Tão significativa mudança de paradigma social é tarefa coletiva, e não se justifica atribuir desproporcional responsabilidade aos profissionais da Saúde Coletiva também submetidos aos efeitos insidiosos de dispositivos biopolíticos desde antes de sua formação acadêmica e ao longo de seu trabalho49,20.
A Dietética Engajada concretiza-se como expressão contemporânea do cuidado de si¹?, uma estética do bem viver ressignificada em atos de valorização cultural e autodeterminação. Noutros termos, uma dietética capaz de subverter a coisificação do corpo, reafirmando a corporeidade enquanto fundamento ontológico da autonomia e elemento mediador na (re)construção genuína de saberes alimentares e corporais não alienados. Nesse contexto, as mencionadas abordagens Health at Every Size® e Weight-Neutral® constituem referências de ação política materializada no engajamento contra a padronização corporal mercantilizada.
Importa à Dietética Engajada a concretização do Direito Social Fundamental à Alimentação, através de políticas públicas. Nesse sentido, alcança: [1] o incentivo à agricultura de base familiar (ou campesina) ecologicamente sustentável, inclusive livre de agrotóxicos, articulada à soberania alimentar; [2] o fomento ao comércio justo, fundado na economia solidária, em interface com a segurança alimentar/nutricional; [3] a promoção da educação alimentar e nutricional crítica – envolvendo iniciativas do tipo cozinhas comunitárias e hortos/pomares urbanos –, com vistas a um consumo emancipatório.
Na Atenção Básica em Saúde, iniciativas que incorporam a dimensão ampliada da corporeidade incluem: Rodas de conversa que – para além da educação alimentar e nutricional – acolhem narrativas corporais e memórias afetivas ligadas à comida, reconhecendo o comer como experiência biográfica; (2) Oficinas culinárias coletivas voltadas à (re)apropriação crítica de saberes tradicionais, enfatizando o ato de cozinhar como expressão sociocultural; e (3) Práticas corporais que, em oposição à lógica performática, privilegiam a percepção e a consciência corporal (propriocepção), visando ao bem-estar e à reconexão com a experiência interna do movimento.
O engajamento na dietética implica assumir o cuidado nutricional e corporal como trabalho vivo – atividade humana criadora de sentido existencial e social (contraposto ao trabalho morto objetivado nas mercadorias)??, orientado para favorecer a autodeterminação crítica e a experiência sensível. Nessa perspectiva, a Dietética Engajada atua no despertar do sujeito – submetido à gramática do consumo – para além da ilusão de realidade, no que Feuerbach denomina “inversão da consciência acordada” 51(p. 170), metáfora que remete ao estado de sonho.
Aos profissionais de Educação Física e nutricionistas cabe, portanto, facilitar processos crítico-dialéticos como agentes de transformação na tessitura de um cuidado emancipatório. Atuação nessa arena política pressupõe o reconhecimento da corporeidade como fundamento da autonomia do sujeito, demandando a reflexividades sobre seus próprios corpos – sensíveis e politicamente situados – em permanente construção nalgum lugar.
Agradecimento
À Eudaziane Abreu Macedo, companheira inseparável e presença instigante em meu mundo da vida... “Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar”52. Sem você, este texto não existiria – e talvez eu tampouco encontrasse o meu lugar nele.
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