0043/2026 - O (não) lugar do sujeito na gramática do consumo implicada à Dietética e à Corporeidade The (non) place of the subject in the grammar of consumption impliced to Dietetics and Corporality
O artigo traz anotações crítico-compreensivas em torno do discurso racional dietético, estruturadas em dispositivos biopolíticos, que concebem o corpo como objeto de controle normativo moral. Parte-se da noção do não lugar antropológico, onde o sujeito não se reconhece implicado, tampouco estabelece vínculo relacional ou histórico, tendo a sua individualidade substituída pelo anonimato de mero consumidor. Problematizando a autoconsciência do saudável como preceito identitário, são explorados o deslocamento e a reificação do sujeito, afetado nos espaços (de dessubjetivação) relacionados à compra e venda. É proposta uma fundamentação crítica para uma Dietética Engajada – reelaborada a partir da ética do “cuidado de si” da tradição greco-romana – na perspectiva político-existencial da autodeterminação crítica. Para tanto, articula herança cultural (tradição), fenomenologia da consciência corporal e revalorização estética do ato de comer como experiência sensível e prazerosa. Por fim, com enfoque na práxis em Educação Física e Nutrição, reflete-se sobre a pertinência da Teoria Crítica para a abordagem qualitativa do corpo na Saúde Coletiva. Dessa forma, valorizam-se contradispositivos pedagógicos e políticos capazes de reconfigurar a corporeidade como eixo de liberdade, transcendência e ação no mundo.
The article brings critical-understanding notes around the rational dietary discourse, structured in biopolitical devices, which understand the body as an object subject to moral normative control. It starts from the notion of the anthropological non-place, where the subject does not recognize himself as implicated, nor does he establish a relational or historical link, with their individuality being replaced by the anonymity of a mere consumer. By problematizing the self-awareness of the healthy as an identity precept, the displacement and reification of the subject, affected within the (desubjectifying) spaces related to purchase and sale, are explored. The text proposes a critical foundation for an Engaged Dietetics – re-elaborated based on the “self-care” ethics of the Greco-Roman tradition – in the political-existential perspective of human self-determination. To this end, it articulates cultural heritage (tradition), phenomenology of body consciousness and aesthetic revaluation of the act of eating as a sensitive and pleasurable experience. Finally, focusing on praxis in Physical Education and Nutrition, it reflects on the relevance of Critical Theory for a qualitative approach to the body in Public Health. Thus, pedagogical and political counter-devices capable of reconfiguring corporality as an axis of freedom, transcendence and action in the world.
Keywords:
Dietetics; corporality; Science; Health; Society.
Conteúdo:
INTRODUÇÃO
A complexidade do sujeito humano e social constitui desafio interdisciplinar à práxis (entendida como prática investida de teoria1) em Nutrição e Educação Física em Saúde Coletiva, demandando a compreensão das implicações e da abrangência do discurso racional dietético, pautado no preceito do saudável: a saudabilidade. Empreendimento crítico-reflexivo nesse sentido deve considerar, dentre outras tradições epistemológicas, o paradigma da racionalidade biomédica, que sustenta processos de subjetivação do cuidado, tensionando a responsabilização e o empenho individual – conforme evidenciado na normatização da prescrição de mudanças na alimentação e na atividade física, adotada por serviços de saúde2,3.
A crescente prescrição clínica de suplementos dietéticos para remediar pressupostos déficits nutricionais4,5 – atribuídos à incompletude da alimentação habitual –, denota o avanço da medicalização da vida. A mesma lógica se evidencia na indicação de exercícios físicos como terapia no combate à “patologia” do sedentarismo, autorizando “abordagens coercitivas por aqueles que se colocam no lugar de autoridades e experts” 6(p. 839). Nesse contexto, é pertinente problematizar – sem apelo a dualismos simplistas ou contrapor o mérito da tomada de decisão prática baseada em evidências – a difusão de abordagens que, embora revestidas de cientificidade, reproduzem perspectivas reducionistas de viés mercadológico, suscitando questionamentos éticos.
Na ética capitalista, os corpos – a despeito de suas diversidades, singularidades e dissidências – são sistematicamente apropriados na construção social de corpos-mercadoria normalizados7,8, processo esse movido por interesses nada condizentes com a produção do cuidado em saúde centrado no bem-viver – compreendido como uma existência digna, que não prescinde do acolhimento incondicional das diferenças. Nesse passo, as intermináveis transformações no corpo, controlado e vigiado como objeto, são sustentadas por uma racionalidade acrítica, comprometida com mecanismos de manipulação e conformação social1.
Trata-se de um sistema de controle e vigilância capaz de fragilizar individualidades – gerando insegurança, desvalorização pessoal e confusão existencial, que conduz à perda da conexão com o próprio corpo enquanto fonte de experiência e significado9,10. É no curso de tão desgastante mecânica disciplinar que Arraes e Melo revelam a obstinação e o sofrimento de fisiculturistas, impondo-se rígidas rotinas alimentares e de treinos com vistas a alcançar limites da produção corporal, convertendo o corpo em projeto inacabado de perfeição física11, ao invés de percebê-lo como dimensão integradora do ser e expressão da subjetividade12.
Para avançar na compreensão desta problemática, é preciso considerar o processo civilizador, que institui hierarquias de controle implicadas a uma determinada matriz de desenvolvimento humano13. Criam-se condicionamentos objetivos para estruturar a alienação e a falsa consciência da realidade (reificação), convertendo o corpo em coisa útil, subordinada, produto de uma sistemática funcional de organização social14. Essa determinação manifesta-se inclusive em anúncio de um dado “alimento funcional”, que promete transformações de um corpo passível de otimização contínua, tais como: “melhoria da imunidade" e “combate ao stress”.
Posicionar o corpo no contexto no qual a comida e ele próprio são reificados em mercadorias, onde as indicações do que seja “saudável” assumem conotação normativa com força coercitiva, é tarefa das mais complexas. Sua compreensão pressupõe considerar o deslocamento progressivo do sujeito das tradições culturais e o crescente estranhamento do mundo. Nada obstante, a lógica da hierarquização social impõe uma determinada representação hegemônica de sociedade15, estendendo-se à produção permanente de novos gostos alimentares.
Por tais considerações, esse artigo articula anotações crítico-compreensivas em torno do discurso racional dietético pautado em prescrições disciplinadoras, que concebem o corpo como objeto passível de controle normativo moral – gerando culpa e outras incomodações subjetivas. A discussão inspira-se na definição de “não lugar”, da lavra do antropólogo francês Marc Augé16, entendido como aquele no qual o sujeito não se reconhece implicado. Assim, deslocado, ele não estabelece vínculo relacional ou histórico, posto a substituição, intencionalmente controlada, de sua individualidade pelo anonimato de mero consumidor.
O texto inova ao integrar dietética, corporeidade e não lugar como categorias analíticas da dessubjetivação pelas lógicas de consumo, articulando conceitos teóricos complexos com realidades vividas por nutricionistas e profissionais de Educação Física. Nessa mobilização, a corporeidade é reconhecida como fundamento de autonomia, contexto no qual inscreve uma Dietética Engajada, sugerindo bases para intervenções emancipatórias fundadas na Teoria Crítica.
Pressupostos teóricos e reflexões epistemológicas
Tomando-se a concepção do não lugar antropológico e as linguagens nele inscritas como objeto referencial de análise, partimos da abordagem ontológica de Heidegger, na esteira da tradição fenomenológica, compreendendo a princípio que “o ser pode-se encobrir tão profundamente que chega a ser esquecido, e a questão do ser e de seu sentido se ausentam”17 (p. 75). Contudo, dada a aparente insuficiência da fenomenologia para análise compreensiva da origem e do alcance de discursos morais focalizados verticalmente no controle sobre o corpo, buscamos avançar com a vertente crítica em Foucault, expressa no método genealógico18.
Da genealógica foucaultiana, que remete à arqueologia do saber (investigação das condições epistemológicas que tornam possíveis certos regimes de verdade em contextos históricos específicos), nos baseamos na “dietética” – conceito retomado por Foucault19 (p. 74) a partir de Platão, dos primórdios da civilização greco-romana, como domínio de aplicação do cuidado do corpo (prática milenar de governo de si, gradualmente substituída por tecnologias modernas de regulação da vida). Daquele autor também é explorada a noção de biopoder20 – mecanismo que regula a vida das coletividades (biopolítica) e dos corpos individuais (disciplina) mediante saberes científicos e normas higiênicas, configurando o que denominou Sociedade Disciplinar.
Em contraponto dialético, não antitético, mencionamos a Sociedade do Desempenho (ou Cansaço), enunciada por Byung-Chul Han21, como mutação histórica do biopoder: da disciplina externa à autoexploração. Adicionalmente, em contraste às determinações biomédicas do corpo metabolicamente gerenciado, internalizadas na subjetividade, destacamos a Política-Vida, proposta por Giddens22, dirigida ao protagonismo crítico-reflexivo do sujeito. Ambos dialogam com Foucault: Han descreve uma progressiva subjetivação; Giddens, uma possível via de resistência.
Na sobredita mudança da sociedade disciplinar20 para a do desempenho21, o controle externo cede lugar à subjetivação acrítica. A “Política-Vida22 emerge como contraponto à gramática imperativa da positividade do poder. No desenvolvimento de tal negação determinada procuramos examinar criticamente a tensão dialética entre a autoexploração21 (como nova morfologia do poder) e a reflexividade22 (enquanto potencial de autonomia).
Adota-se nos limites desse artigo a noção de “corporeidade”, adaptada por Mounier23 da ética kantiana (baseada na ideia do ser como fim em si mesmo), como reflexão do sujeito situado, individualizado em um corpo historicamente construído. A corporeidade fundamenta a percepção indispensável a nossa existência social, constitui também por isso uma provocação à ambientação no mundo da vida, no engajar do ser-no-corpo, na resistência à alienação e a fragmentação23.
A propósito, o conceito de mundo da vida é criação de Edmund Husserl, com base na análise das práticas corporais cotidianas e das experiências sensíveis no espaço-tempo compartilhado, onde objetos e relações se revelam tal como vividos24. Noutros termos, uma abordagem fenomenológica que desvela a subjetividade encarnada – um eu situado aqui e agora –, mas sempre em intersubjetividade, mediada por tradições comuns e pela coexistência com outros sujeitos24.
A reflexão que orienta este artigo é inspirada na racionalidade comunicativa, enunciada por Habermas25, em contraposição à pretensão de universalização técnico-científica – baseada no caráter instrumental da razão e sua força manipuladora e controladora8, que parte da pretensão de validade dos atos da fala, presumindo a força da linguagem humana para elaboração de consensos aptos a afastar formas de imposição ou coerção.
Na esteira dos fundamentos da criticidade, que desafiam a pretensão de uma certa “verdade científica”, nos apoiamos no postulado de Santos26, ao caracterizar como crítica toda teoria que não reduz a realidade (a ser interpretada e transformada) ao que existe. Desse modo, além de considerá-la como conhecimento socialmente construído por sucessivas aproximações às perspectivas transformadoras ou de manutenção, cabe reconhecer a realidade como um campo existencial, espaço para construção de saberes e práticas aptas a superar o que é criticável no que é empiricamente dado.
Em suma, o texto compõe um ensaio crítico, comprometido com o zelo e o rigor da tradição da pesquisa qualitativa inscrita no núcleo de ciências sociais e humanas do campo da Saúde Coletiva, transitando entre a vertente fenomenológica do mundo da vida12 e a perspectiva antropológica do não lugar16, culminando com breves anotações acerca do lugar da crítica, assumida como tradição teórica, na abordagem qualitativa do corpo.
Neste movimento do pensamento, com amparo na Teoria Crítica da Sociedade1, faz-se necessária a (re)abertura “à ressignificação (ou mesmo mudanças) dos pressupostos teóricos e conceituais inicialmente demarcados.” 27(p. 430). Assim, concordando com Canguilhem28, acreditamos atender ao menos a uma exigência do pensamento filosófico, qual seja, reabrir (mais do que fechar) debates.
Sujeito corporificado, alimentação e não lugares antropológicos: implicações fenomênicas e políticas
A percepção de lugar – seja interiorizada como presença física, envolvimento emocional ou mesmo relação não consciente – constitui fenômeno da experiência sensível em um dado contexto. Lugar entrelaçado com nossa subjetividade, memórias e emoções, cuja compreensão de sua ausência (não lugar) envolve questões profundas que demandam explorar uma certa dimensão da abertura ao mundo concreto do sujeito corporificado12,29.
Lugar e não lugar definem-se pela experiência corporal29,30, a própria corporeidade que se abre (ou não) ao mundo23. A identificação do ser para com um lugar tem o sentido de pertencimento quando ali ele se reconhece junto a pessoas e/ou memórias, ao passo que o não lugar – espaço de transição ou passagem16, alheio à contextualização relacional do ser por ele mesmo1 – nega tão significativa implicação. Essa dicotomia remete a uma determinação ontológica em territórios identitários, onde o sujeito corporificado não está propriamente no espaço, ele se percebe ali refletindo sobre essa relação, investido de sua condição originária de ser-no-mundo12,17.
O não lugar está inscrito na supermodernidade, a saber: momento histórico de aceleração excessiva da vida social, marcado pela saturação de informações, individualização e descontinuidade das experiências. Augé16 sustenta que nesse contexto se produzem territórios de despersonalização, notabilizados por relações impessoais e desnaturalizadas (distintos do lugar onde a imaginação investe de simbolismo e a memória ali se fixa).
Caracterizado pela abundante oferta de mercadorias (identificadas por códigos e signos de linguagem específicos) – para satisfação de pressupostas necessidades – o não lugar abriga uma espécie de tensão solitária16 em meio a um ambiente confuso, saturado de tecnológia (QR Code, display digital etc.).
(...) o cliente circula silenciosamente, consulta etiquetas, pesa os legumes ou frutas numa máquina que lhe indica, juntamente com o seu peso, o seu preço, depois estende o cartão de crédito a uma mulher jovem também silenciosa (…) que submete cada artigo ao registro de uma máquina decodificadora 16 (p. 92).
Essa narrativa denota o que Auge16 (p. 92) chama de “invasão do espaço pelo texto”, observada na mediação do consumo por interfaces tecnológicas – como os sistemas de autosserviço em fast foods com sugestões algoritmizadas e as pulseiras digitais que monitoram o desempenho durante a corrida. Situação análoga ocorre em plataformas eletrônicas (saturadas de mensagens motivacionais) que conectam, via aplicativo (check in), usuários a redes de academias geolocalizadas de baixo custo e aplicativos de treino domiciliar.
A partir dos não lugares as forças do capital propagam estilos de vida condizentes com a maximização e otimização de seu próprio poder econômico29,8. Isso em uma sociedade na qual se tornar sujeito pressupõe converter-se em produto e, nesse ritmo, ancorar uma parcela da subjetividade nas lógicas de produção e consumo, identificando a si próprio como mercadoria14.
A singularidade da projeção da experiência do sujeito deslocado no espaço-tempo o conduz a um estranhamento, sensação essa mediada pelo complexo de sentidos prejudicados a ponto de inviabilizar o acesso à própria interioridade. Assim compreendido, depreende-se que o termo deslocamento seja epistemologicamente mais apropriado do que “não lugar”30 – no ponto em que a expressão sugere negação e não oposição – para situar o movimento cognitivo do sujeito em relação ao lugar.
Ante o paradigma (perverso) da globalização, essa condição de desenraizamento crítico configura-se como terreno fértil para o mal-estar de um sujeito deslocado, revelando um vazio que gera esquizofrenia espacial em lugares moldados pela lógica produtivista e excludente31. Contudo, na tensão entre território dado e construído, podemos nos insurgir criticamente
com a descoberta de que, a despeito de sermos o que somos, podemos também desejar ser outra coisa. Nisso o papel do lugar é determinante. Ele não é apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. 31(p. 114).
Sendo uma experiência sensível inscrita no corpo, a percepção de lugar constitui um fenômeno que transcende um dado território geográfico, alcançando relações que (re)produzem significados culturais, econômicos e hierarquias sociais, perfazendo uma corporeidade situada – o corpo como via de acesso ao mundo, através do qual agimos e nos inserimos na realidade23. Por tal conotação existencial, a concepção de não lugares16 como espaços de alienação e reificação – que produz um isolamento relacional como efeito colateral – revela-se insuficiente para capturar a complexidade do humano no contexto multidimensional da vida.
Ampliando a abordagem antropológica de Augé16, Deleuze & Guattari32 enfrentam a questão dos não lugares a partir da noção de corpo-territorializado, oscilando entre desterritorialização (ruptura com saberes corporais tradicionais) e reterritorialização (adoção de novas normas corporais), em cuja interface as identidades como “o corpo saudável” são simultaneamente capturados e reinventados. Nesse entrelaçamento, a tensão solitária augeniana16 coexiste com as linhas de fuga micropolítica, onde se negocia, mesmo em espaços padronizados, as próprias territorialidades corporais32 – algo cada vez mais difícil na fluidez desterritorializante da era digital.
Da dietética da gramática do consumo à política-vida
Na gramática do consumo – expressão adaptada de Bauman15, para descrever a linguagem normativa de práticas sociais sob a égide do mercado – a alimentação/nutrição humana costuma ser reduzida a um padrão de objetividade inscrito na esfera dos sentidos e significados do sujeito social, conforme standard preestabelecido. Essa racionalidade dietética, configura uma mecânica de valoração e mensuração do que deve comer um corpo de referência (idealizado e administrado), cujo metabolismo mobiliza energia e nutrientes, ambos cotados no mercado.
A busca do corpo idealizado – baseado na nutrição em seu “estatuto científico” (porque estruturado no domínio do conhecimento instituído na linguagem da ciência frente a outros modos de saber)18 – impulsiona a normatização alimentar para alcançar parâmetros cientificamente validados. Por tal representação, a mecânica do cálculo e interpretação dos dados da composição corporal, ao lado de estimativas das demandas de nutrientes e da composição de alimentos, constitui, de modo linear e não reflexivo, a base argumentativa para prescrição de uma dieta ideal.
Não obstante, esse mesmo corpo governado representa uma dimensão do sujeito social, moldado pela cientificidade, em resposta às expectativas no mundo da vida. Nesse cenário de condicionamentos culturais, por vezes diante de “rótulos sobre informação de energia e o dever para com a queima calórica e o treino físico para a sua redenção”34 (p. 4365), emerge uma ética utilitarista – para a qual se perceber produtivo e hígido denota uma falsa consciência de “virtude”. Esta reificação – presente na exaltação do esgotamento físico como símbolo de disciplina moral, bem como na culpa atribuída à ingestão alimentar em desacordo com construções mercadológicas – transforma práticas de saúde em tecnologias de normalização. Tal processo subverte a ética foucaultiana do cuidado de si19 em mandados de produtividade e consumo21.
A autoridade do raciocínio moral – subjetivado no controle/cuidado clínico do corpo enquanto caserna da biopolítica – impõe a autoconsciência do saudável como preceito identitário (um passaporte ao modo “natural” de existir em sociedade)28,20. Nesse sentido, dentre outras práxis de produção de cuidado fundadas em bases fisiopatológicas de doenças crônico-degenerativas, são abordadas respostas às necessidades metabólicas de atividades físicas relacionadas ao stress oxidativo e seus efeitos deletérios nas atividades celulares35, valorando o poder antioxidante de nutrientes no combate ("exorcização") aos excessos de radicais livres de oxigênio – culpabilizados ("satanizados") por ameaçar e/ou abreviar a vida, na gênese de supostos processos de carcinogênese e aceleração do envelhecimento.
Para alcançar a estética disciplinada de um corpo saudável, não seria aceitável – sob pena de transgredir a normatividade alimentar – uma comida com níveis calóricos acima dos padrões validados cientificamente. A propósito, Christiansen3, com fundamento na análise sobre a abordagem da obesidade por autoridades de saúde pública do México, denunciou o viés epistemológico da biopolítica na produção de subjetividades reduzidas a uma corporeidade quantificada – baseada em percentual de gordura, índice de massa corporal (IMC) etc –, evidenciada por estereótipos preconceituosos, apoiados na patologização dos corpos gordos.
Todavia, como adverte Han21, o notável avanço da autoexploração do corpo – como ocorre em clínicas de estética e academias de ginástica/musculação – assinala uma mudança paradigmática da Sociedade Disciplinar para a Sociedade do Desempenho do século XXI, que fomenta capacidades do sujeito para maximizar resultados. Uma e outra operam demarcando mecanismos de tensão dialética por lógicas de controle sobre o corpo: a primeira, externa, pela negação (produzindo loucos e marginais); a outra, interna: pela positividade (criando fracassados e depressivos)21.
No contexto da reconfiguração do controle político da vida, a dietética antiga – reinterpretada no século XIV para disciplinar corpos (sob as políticas higienistas do Estado liberal) – foi atualizada por meio de cálculos nutricionais e imperativos de desempenho. Diante dessa transformação histórica, a política-vida, de Giddens22 – processo de autodeterminação, que envolve reflexão crítica sobre questões individuais e interesses pessoais – surge como uma estratégia de resistência contra mecanismos colonizadores, baseados na mensuração de riscos à saúde.
Essa dinâmica crítica se materializa em uma práxis emancipatória que, mesmo sem transcender completamente as estruturas biomédicas e mercadológicas hegemônicas, promove a ressignificação do corpo como espaço de autonomia negociada. Nesse processo, cabe ao indivíduo – enquanto corpo sujeito e legítimo autor da sua política-vida – protagonizar o próprio estilo de vida. Isso implica uma autoconstrução reflexiva, que se desenvolve mesmo diante da tensão dialética entre contextos locais e forças globalizantes22,31.
Assim, questões como: “O que devo (ou não) comer?” ganham relevância em um mundo de saberes plurais e possibilidades existenciais. A resposta não se esgota no entendimento técnico sobre alimentação e nutrição, demandando o pensamento complexo proposto por Morin36 – capaz de integrar a finitude humana, as incertezas epistêmicas e os limites da razão, articulando saberes com responsabilidade ética, o enraizamento cultural e a sensibilidade afetiva.
A desconstrução da normatividade corporal e alimentar emerge como práxis transformadora para os envolvidos, requerendo a mobilização de mecanismos de enfrentamento aos controles de viés opressor. Esses incluem a identificação e a subversão dos constrangimentos morais que patologizam os corpos dissidentes7. O desafio reside em converter tais estruturas em gramáticas existenciais emancipatórias. Insurgências do tipo devem operar através de dispositivos que articulem teoria e prática, focalizando os corpos historicamente silenciados como territórios de resistência e ressignificação37,38. Essa abordagem orienta uma atuação profissional alinhada às perspectivas interseccionais e críticas do campo da Saúde Coletiva.
Nessa perspectiva, estratégias formativas fundamentadas em marcos teórico-críticos revelam-se imprescindíveis. Assumem particular relevância: [1] o enfoque interseccional (Kimberlé Crenshaw)37,39, que desvela como opressões de raça, gênero e classe se interconectam na produção de vulnerabilidades específicas; e [2] a Pedagogia da Autonomia (Paulo Freire)38,40, pautada na abordagem dialógico-problematizadora para confrontar opressões estruturais mediante processos coletivos de ação-reflexão. Tais quadros teóricos mostram-se decisivos para a construção dialogada de contradispositivos pedagógicos e políticos que reconfigurem a corporeidade como eixo de liberdade, transcendência e ação transformadora no mundo.
À GUISA DE CONCLUSÃO:
Do lugar da Teoria Crítica na abordagem do corpo – nas práxis da Educação Física e da Nutrição em Saúde Coletiva
Não se desvela razoável a crítica estereotipada, destituída de fundamentação séria, que se pretende articulada à teoria, mas incompatível com o racionalismo crítico (na base da atividade intelectual consciente, em busca de aproximação da verdade). Ademais, não faz jus à designação “Teoria Crítica”1 algo assumido como crença dogmática (e, também por isso, distorcida, senão estapafúrdia), incapaz de trilhar um caminho epistemológico para interrogar e transformar a abordagem tecnicista do corpo – centrada em parâmetros antropobiométricos e protocolos padronizados. Contra isso, é pertinente reconhecer criticamente os sentidos produzidos e deslocados nas experiências do corpo em espaços de significado e não-significado12,29 .
A importância da criticidade reside, em particular, na atitude de ressignificar a pessoa em movimento como sujeito histórico e culturalmente situado no meio ambiente natural e político que circunscreve as práticas corporais. Isso nos leva a questionar a ideia, baseada na saudabilidade, de saúde e bem-estar como oportunidade de mercado – materializada no consumo de produtos (inclusive o próprio corpo) e serviços. Essa abertura crítica, ao avançar no reconhecimento da pluraridade de realidades possíveis, deve se materializar em ações voltadas à afirmação do corpo como campo dialético – no qual pulsão e controle coexistem de forma dinâmica41,42.
Como parte da resistência à normatização alimentar e corporal, cumpre valorar a corporeidade enquanto território de significação não-administrada. Para radicalizá-la – isto é, ir à raiz, em profundidade – é preciso fomentar espaços de investigação científica e formação crítica1,38, não apenas voltados a problematizar os mecanismos biopolíticos, mas também desnaturalizar hierarquias discursivas, incorporando a escuta sensível das marcas físicas e emocionais que o corpo acumula como testemunho de sua trajetória de vida (biografia corporal)41. Por tal compreensão, o corpo é assumido como o modo de existir do ser-no-mundo, nele se inscreve as nossas histórias e até os desejos não reconhecidos12.
Para efetivar tal abordagem crítica, impõe-se desconstruir a racionalidade dietética hegemônica na formação profissional, desvelando seus fundamentos mercadológicos. No âmbito assistencial, essa práxis orienta-se pelas histórias alimentar e corporal dos sujeitos envolvidos, contextualizando e, tanto quanto possível, singularizando intervenções por meio de narrativas biográficas. Na mesma direção, à pesquisa qualitativa cabe conhecer em profundidade saberes corporais e alimentares marginalizados, como os de comunidades tradicionais. Essas frentes articulam contradispositivos pedagógicos ao fetichismo da nutrição, reinscrevendo a alimentação em sua dimensão sensível e compartilhada como prática emancipatória.
Nesse horizonte de experiência sensível e possibilidade de autodeterminação, há um campo aberto para práxis que subvertam os não lugares implicados à saúde – como redes de clínicas que vendem programas de emagrecimento, operando em esquema de linha de produção, onde sujeitos não passam de “pacientes” quantificados por medidas corporais, submetidos a dietas padronizadas e até intervenções invasivas, sem considerar biografias corporais. Frequentemente inseridos nesses espaços, tanto aqueles que atuam na Nutrição quanto na Educação Física – ainda que se reconheçam potencialmente capazes de promover ações verdadeiramente éticas, inclusivas e dialógicas – podem acabar reproduzindo práticas que ignoram a complexidade do corpo vivido.
Importa destacar que diversos nutricionistas e profissionais de Educação Física vêm construindo criticamente práticas que transcendem essa lógica reducionista e funcional. Nesse contexto, observa-se aqueles alinhados à Health at Every Size® – uma abordagem holística, antigordofóbica, que prioriza o bem-estar e comportamentos intuitivos em alimentação e atividade física (independente do peso ou do tamanho do corpo) – cujos dados empíricos comparados às intervenções baseadas no peso mostram variações de indicadores antropométricos e cardiométricos semelhantes43.
A proposta Weight-Neutral® – que dissocia o peso (para o qual não tem metas) da saúde, e promove o respeito à diversidade corporal – é referenciada como outra frente de luta contra a gordofobia estrutural. Dessa feita, uma abordagem destacada por avançar da clínica do cuidado, contraposta à racionalidade biomédica, para o campo da justiça sanitária44, reconhecendo a estigmatização de peso como violação de direitos humanos, a ponto de exigir respostas políticas, incluindo leis antidiscriminatórias45. Assiste-se assim a consolidação de um marco ético que integra saúde e justiça social, focalizando a dignidade da pessoa humana – princípio fundamental no Estado democrático de direito.
No âmbito das vivências em atividade/exercício físico emerge a expressão práticas corporais como contraponto à linguagem de risco do sedentarismo, frequentemente reduzida à perspectiva, simplista, de uma lógica de aptidão física alheia à multidimensionalidade da cultura corporal, demarcando um processo de tensões na interface das dimensões biológica e social46. Nesse prisma, o paradigma da complexidade36 (referência importante na luta pela ressignificação da saúde no plano multidimensional), ao transcender a mera simplificação, ajuda no esforço crítico de superação da abordagem biorreducionista do movimento humano ancorada no termo atividade física47, de modo a alcançar também as dimensões social, emocional e cultural.
Essa mesma multidimensionalidade se manifesta quando consideramos que comer e movimentar-se são atos impregnados de significados, que situam o sujeito em uma rede viva de relações – antítese dos não lugares, onde, mesmo na multidão, vive-se como estranho no tempo-espaço social, seduzido por conhecimentos espetacularizados e discurso informacional normativo que prescrevem consumo e vida saudável15,34. Nesse vazio existencial e de apagamento da tradição, a estética do prazer de comer e a consciência corporal se apresentam como dimensões de arte e resistência41 ao tecnicismo na Educação Física, na Nutrição e em outros campos teórico-práticos. Esses aspectos afirmam-se como possibilidades de autonomia negociada, permitindo a reivindicação de normas corporais não alienadas.
Notoriamente, a normatização do corpo saudável, longe de restringir-se às áreas da Educação Física e da Nutrição, expande-se como dispositivos biopolíticos transversais20 – articulado por médicos, psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros..., bem como profissionais de beleza e moda – perfazendo uma teia legitimadora do controle corporal, que naturaliza padrões antropobiométricos e nutricionais como imperativos morais, mas dissimula sua base mercadológica e excludente. Todavia, em que pese as categorias de trabalhadores envolvidos, a crítica a tal gramática do consumo requer uma abordagem multidimensional que reinscreva a corporeidade e a dietética no âmbito da autonomia reflexiva da pessoa humana, indispensável ao empreendimento de sua própria política-vida22.
Ademais, sabendo-se que cada pessoa, por meio de suas ações, atribui significados ao mundo e constrói sua estrutura simbólica15, analisar o lugar do sujeito no contexto dialético dos interesses que determinam o comer e a própria comida requer uma exploração profunda das transformações sociais, da natureza e do conhecimento humano, incluindo os impactos e a importância da desinformação científica – seus usos e distorções. Esse esforço compreensivo envolve reconhecer a relevância da ciência na construção de realidades objetivas, sem ignorar sua instrumentalização por sistemas político-ideológicos que podem justificar hegemonias e suprimir individualidades.
Embora a lógica de mercado transforme espaços em sistemas fechados de circulação mercantil, esses territórios não se prestam tão somente a tal propósito, sendo abertos para manifestações propriamente humanas32,22, como uma experiência estética condizente com o enraizamento cultural e a autodeterminação41,1. No caso, uma arte situada como interrupção dialética à colonização da vida – transgressora do caráter globalizante (no sentido econômico) imposto à cultura alimentar e corporal, capaz de provocar instantes singulares de reflexão crítica, aptos a revelar nas fissuras do cotidiano possibilidades emancipatórias de cuidado e existência não mercantilizadas41.
Diante da colonização do mundo vivido, pautada na racionalidade instrumental (gênero do qual a racionalidade dietética é espécie), o agir comunicativo – teorizado por Habermas25 como fundamento de uma razão emancipatória – é um inteligente contraponto. Investigações sistemáticas sob essa perspectiva exigem cuidado e rigor crítico frente a sistemas de dominação hábeis em alienar subjetividades através da substituição do diálogo autêntico por regras impessoais e critérios economicistas25,15.
Para valorar a autonomia do sujeito frente a tais mecanismos, é preciso reconhecer que a crítica não se limita a denunciar práticas opressoras, mas implica também no esforço coletivo de superação. A tarefa da Teoria Crítica – ao interrogar a normatização do conhecimento na qualidade de mecanismo de controle – é, sobretudo, desvelar as estruturas que reduzem a interação humana à lógica instrumental, apontando possibilidades emancipatórias1,8,38,39.
Mas, a lógica instrumental cria não apenas não lugares, mas também o “não corpo” – tal como o “corpo gordo”, percebido como lugar de subversão à normalização da magreza, personificado como negação ao padrão estético legitimado pela racionalidade dietética33 (p. 151). Diante desse processo de desumanização seletiva, cabem práxis críticas para incluir os corpos marginalizados e dissidentes7, cuja exclusão carrega a chave para compreendermos como sistemas de opressão se entrelaçam. Por tal perspectiva interseccional – invocando a máxima de Crenshaw37 – "Quando eles entram, todos nós entramos", reconhecendo-se assim que a libertação desses corpos que “não cabem” é condição para uma necessária transformação estrutural.
À luz da crítica aos dispositivos biopolíticos inscritos na racionalidade dietética, afetando a corporeidade, fica evidenciadoa a constituição de sujeitos deslocados e corpos desterritorializados. Nessa dinâmica existencial, a práxis crítica em Educação Física e Nutrição, ao compreender o corpo como expressão viva da subjetividade, deve estranhar as armadilhas dissociativas do consumo e familiarizar-se com uma Dietética Engajada – reelaborada como abordagem ético-política, a partir da ética do cuidado de si da tradição greco-romana19 – para integrar história, prazer e cultura alimentar no sujeito corporificado. Por tal hermenêutica do sujeito19 cabe investir em propósitos de caráter verdadeiramente virtuosos, orientados pela excelência moral de uma existência digna – na aproximação de uma ética da felicidade, conforme ensina o filósofo grego Aristóteles48.
Advirta-se, entretanto, não ser nostalgia evocar a antiguidade nesse movimento político-existencial, mas sim recurso para integrar a dimensão ontológica ao presente49,19, como parte de um práxis emancipatória, voltada a interrogar realidades em crise ao tempo que avançam na contraposição à opressão social subjacente à normatização da vida1. Essa transformação exige que profissionais de Educação Física e nutricionistas se permitam mediadores críticos no processo de leitura e ressignificação coletiva das práticas corporais e alimentares enquanto territórios de identidade e resistência.
Mobilização nessa direção demanda a reconstrução intersubjetiva baseada em diálogos críticos para redirecionar os sentidos que orientam as práticas sociais rumo a essência e à dignidade da pessoa humana25,12. Tão significativa mudança de paradigma social é tarefa coletiva, e não se justifica atribuir desproporcional responsabilidade aos profissionais da Saúde Coletiva também submetidos aos efeitos insidiosos de dispositivos biopolíticos desde antes de sua formação acadêmica e ao longo de seu trabalho49,20.
A Dietética Engajada concretiza-se como expressão contemporânea do cuidado de si¹?, uma estética do bem viver ressignificada em atos de valorização cultural e autodeterminação. Noutros termos, uma dietética capaz de subverter a coisificação do corpo, reafirmando a corporeidade enquanto fundamento ontológico da autonomia e elemento mediador na (re)construção genuína de saberes alimentares e corporais não alienados. Nesse contexto, as mencionadas abordagens Health at Every Size® e Weight-Neutral® constituem referências de ação política materializada no engajamento contra a padronização corporal mercantilizada.
Importa à Dietética Engajada a concretização do Direito Social Fundamental à Alimentação, através de políticas públicas. Nesse sentido, alcança: [1] o incentivo à agricultura de base familiar (ou campesina) ecologicamente sustentável, inclusive livre de agrotóxicos, articulada à soberania alimentar; [2] o fomento ao comércio justo, fundado na economia solidária, em interface com a segurança alimentar/nutricional; [3] a promoção da educação alimentar e nutricional crítica – envolvendo iniciativas do tipo cozinhas comunitárias e hortos/pomares urbanos –, com vistas a um consumo emancipatório.
Na Atenção Básica em Saúde, iniciativas que incorporam a dimensão ampliada da corporeidade incluem: Rodas de conversa que – para além da educação alimentar e nutricional – acolhem narrativas corporais e memórias afetivas ligadas à comida, reconhecendo o comer como experiência biográfica; (2) Oficinas culinárias coletivas voltadas à (re)apropriação crítica de saberes tradicionais, enfatizando o ato de cozinhar como expressão sociocultural; e (3) Práticas corporais que, em oposição à lógica performática, privilegiam a percepção e a consciência corporal (propriocepção), visando ao bem-estar e à reconexão com a experiência interna do movimento.
O engajamento na dietética implica assumir o cuidado nutricional e corporal como trabalho vivo – atividade humana criadora de sentido existencial e social (contraposto ao trabalho morto objetivado nas mercadorias)50, orientado para favorecer a autodeterminação crítica e a experiência sensível. Nessa perspectiva, a Dietética Engajada atua no despertar do sujeito – submetido à gramática do consumo – para além da ilusão de realidade, no que Feuerbach denomina “inversão da consciência acordada” 51(p. 170), metáfora que remete ao estado de sonho.
Aos profissionais de Educação Física e nutricionistas cabe, portanto, facilitar processos crítico-dialéticos como agentes de transformação na tessitura de um cuidado emancipatório. Atuação nessa arena política pressupõe o reconhecimento da corporeidade como fundamento da autonomia do sujeito, demandando a reflexividades sobre seus próprios corpos – sensíveis e politicamente situados – em permanente construção nalgum lugar.
Agradecimento
À Eudaziane Abreu Macedo, companheira inseparável e presença instigante em meu mundo da vida... “Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar”52. Sem você, este texto não existiria – e talvez eu tampouco encontrasse o meu lugar nele.
Referências
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The (non) place of the subject in the grammar of consumption impliced to Dietetics and Corporality
Resumo (abstract):
The article brings critical-understanding notes around the rational dietary discourse, structured in biopolitical devices, which understand the body as an object subject to moral normative control. It starts from the notion of the anthropological non-place, where the subject does not recognize himself as implicated, nor does he establish a relational or historical link, with their individuality being replaced by the anonymity of a mere consumer. By problematizing the self-awareness of the healthy as an identity precept, the displacement and reification of the subject, affected within the (desubjectifying) spaces related to purchase and sale, are explored. The text proposes a critical foundation for an Engaged Dietetics – re-elaborated based on the “self-care” ethics of the Greco-Roman tradition – in the political-existential perspective of human self-determination. To this end, it articulates cultural heritage (tradition), phenomenology of body consciousness and aesthetic revaluation of the act of eating as a sensitive and pleasurable experience. Finally, focusing on praxis in Physical Education and Nutrition, it reflects on the relevance of Critical Theory for a qualitative approach to the body in Public Health. Thus, pedagogical and political counter-devices capable of reconfiguring corporality as an axis of freedom, transcendence and action in the world.
O (não) lugar do sujeito na gramática do consumo implicada à Dietética e à Corporeidade
The (non) place of the subject in the grammar of consumption as it relates to
Dietetics and Corporeality
El (no) lugar del sujeto en la gramática del consumo implicada en la Dietética y la Corporeidad
Marcos Aurélio Macedo
https://orcid.org/0000-0003-3134-3754
Corpo em Movimento, Práxis em Educação/Saúde e Subjetividades (COMPESS / Grupo de Pesquisa) – Universidade Estadual Vale do Acaraú. Av. Cmte. Maurocélio Rocha Pontes 186, Derby Clube. 62042-280. Sobral CE Brasil. marcos_macedo@uvanet.br
Resumo: O artigo traz anotações crítico-compreensivas em torno do discurso racional dietético, estruturadas em dispositivos biopolíticos, que concebem o corpo como objeto de controle normativo moral. Parte-se da noção do não lugar antropológico, onde o sujeito não se reconhece implicado, tampouco estabelece vínculo relacional ou histórico, tendo a sua individualidade substituída pelo anonimato de mero consumidor. Problematizando a autoconsciência do saudável como preceito identitário, são explorados o deslocamento e a reificação do sujeito, afetado nos espaços (de dessubjetivação) relacionados à compra e venda. É proposta uma fundamentação crítica para uma Dietética Engajada – reelaborada a partir da ética do “cuidado de si” da tradição greco-romana – na perspectiva político-existencial da autodeterminação crítica. Para tanto, articula herança cultural (tradição), fenomenologia da consciência corporal e revalorização estética do ato de comer como experiência sensível e prazerosa. Por fim, com enfoque na práxis em Educação Física e Nutrição, reflete-se sobre a pertinência da Teoria Crítica para a abordagem qualitativa do corpo na Saúde Coletiva. Dessa forma, valorizam-se contradispositivos pedagógicos e políticos capazes de reconfigurar a corporeidade como eixo de liberdade, transcendência e ação no mundo.
Abstract: This article offers critical and interpretive observations on the discourse of rational dieting, structured around biopolitical mechanisms that conceive of the body as an object of normative moral control. It begins with the notion of the anthropological non-place, where the subject does not recognize themselves as involved, nor does it establish any relational or historical connection, with their individuality replaced by the anonymity of a mere consumer. By problematizing the self-awareness of health as an identity-defining precept, the article explores the displacement and reification of the subject, affected in the spaces (of desubjectivation) related to buying and selling. A critical foundation is proposed for Engaged Dietetics – reworked from the ethics of “self-care” in the Greco-Roman tradition – from the political-existential perspective of critical self-determination. To this end, it brings together cultural heritage (tradition), the phenomenology of bodily consciousness, and the aesthetic revaluation of the act of eating as a sensory and pleasurable experience. Finally, with a focus on praxis in Physical Education and Nutrition, the paper reflects on the relevance of Critical Theory to the qualitative approach to the body in Public Health. In this way, it highlights pedagogical and political counter-dispositives capable of reconfiguring corporeality as an axis of freedom, transcendence and action in the world.
Resumen: El artículo presenta anotaciones crítico-comprensivas en torno al discurso racional dietético, estructurado en dispositivos biopolíticos que conciben el cuerpo como objeto de control normativo moral. Se parte de la noción del no lugar antropológico, donde el sujeto no se reconoce implicado, ni establece un vínculo relacional o histórico, teniendo su individualidad sustituida por el anonimato de mero consumidor. Problematizando la autoconciencia de lo saludable como precepto identitario, se exploran el desplazamiento y la cosificación del sujeto, afectado en los espacios (de desubjetivación) relacionados con la compra y la venta. Se propone una fundamentación crítica para una Dietética Comprometida – reelaborada a partir de la ética del “cuidado de sí” de la tradición grecorromana – en la perspectiva político-existencial de la autodeterminación crítica. Para ello, se articulan herencia cultural (tradición), fenomenología de la conciencia corporal y revalorización estética del acto de comer como experiencia sensible y placentera. Finalmente, con enfoque en la praxis en Educación Física y Nutrición, se reflexiona sobre la pertinencia de la Teoría Crítica para el abordaje cualitativo del cuerpo en la Salud Colectiva. De esta forma, se valorizan contradispositivos pedagógicos y políticos capaces de reconfigurar la corporeidad como eje de libertad, trascendencia y acción en el mundo.
INTRODUCTION
The complexity of the human and social subject poses an interdisciplinary challenge to praxis (understood as practice grounded in theory1) in Nutrition and Physical Education within Public Health, requiring an understanding of the implications and scope of rational dietary discourse, based on the principle of fitness: healthiness. A critical-reflective endeavor in this regard must consider, among other epistemological traditions, the paradigm of biomedical rationality, which underpins processes of subjectivation of care, placing emphasis on individual accountability and commitment – as evidenced in the standardization of prescriptions for changes in diet and physical activity adopted by healthcare services2,3.
The growing clinical prescription of dietary supplements to remedy alleged nutritional deficiencies4,5 – attributed to the inadequacy of the typical diet – signals the advancing medicalization of life. The same logic is evident in the recommendation of physical exercise as therapy to combat the “pathology” of a sedentary lifestyle, authorizing “coercive approaches by those who set themselves up as authorities and experts”6(p. 839). In this context, it is pertinent to problematize – without resorting to simplistic dualisms or undermining the merit of evidence-based practical decision-making – the proliferation of approaches that, although cloaked in scientific legitimacy, reproduce reductionist perspectives with a commercial bias, thereby raising ethical questions.
In capitalist ethics, bodies—despite their diversity, singularity and dissidence – are systematically appropriated in the social construction of standardized commodity-bodies7,8, a process driven by interests entirely at odds with the provision of healthcare centered on well-being – understood as a dignified existence that cannot do without the unconditional acceptance of differences. In this vein, the endless transformations of the body, controlled and monitored as an object, are sustained by an uncritical rationality, committed to mechanisms of manipulation and social conformity1.
This is a system of control and surveillance capable of undermining individuality – generating insecurity, a sense of worthlessness and existential confusion, which leads to a loss of connection with one’s own body as a source of experience and meaning9,10. It is in the course of such an exhausting disciplinary mechanism that Arraes and Melo reveal the obstinacy and suffering of bodybuilders, who impose strict dietary and training routines on themselves in order to push the limits of bodily performance, transforming the body into an unfinished project of physical perfection11, rather than perceiving it as an integral dimension of being and an expression of subjectivity12.
To gain a deeper understanding of this issue, we must consider the civilizing process, which establishes hierarchies of control tied to a specific model of human development13. Objective conditions are created to structure alienation and a false consciousness of reality (reification), transforming the body into a useful, subordinate object – a product of a functional system of social organization14. This determination is also evident in advertisements for a given “functional food”, that promises transformations of a body capable of continuous optimization, such as: “improved immunity” and “combating stress”.
Positioning the body within a context in which both food and the body itself are commodified, and where notions of what is “healthy” take on a normative connotation with coercive force, is an extremely complex task. Understanding this requires considering the subject’s gradual detachment from cultural traditions and growing alienation from the world. Nevertheless, the logic of social hierarchy imposes a specific hegemonic representation of society15, extending to the constant production of new tastes in food.
For these reasons, this article offers critical and interpretive observations on the rational discourse of dietetics, which is grounded in disciplinary prescriptions that conceive of the body as an object subject to moral control—thereby generating guilt and other subjective discomfort. The discussion draws inspiration from the definition of “non-place,” coined by French anthropologist Marc Augé16, understood as one in which the subject does not recognize themselves as involved. Thus, displaced, they establish no relational or historical bond, due to the intentionally controlled substitution of their individuality by the anonymity of a mere consumer.
The text breaks new ground by integrating dietetics, corporeality and non-place as analytical categories of desubjectification through the logics of consumption, linking complex theoretical concepts with the realities experienced by nutritionists and physical education professionals. In this framework, corporeality is recognized as the foundation of autonomy, a context within which Engaged Dietetics is situated, suggesting bases for emancipatory interventions grounded in Critical Theory.
Theoretical assumptions and epistemological reflections
Taking the concept of the anthropological non-place and the languages inscribed within it as the referential object of analysis, we begin with Heidegger’s ontological approach, in the wake of the phenomenological tradition, understanding from the outset that “being can conceal itself so deeply that it comes to be forgotten, and the question of being and its meaning vanishes”17 (p. 75). However, given the apparent inadequacy of phenomenology for a comprehensive analysis of the origin and scope of moral discourses vertically focused on control over the body, we seek to advance with the critical aspect in Foucault, expressed in the genealogical method18.
Drawing on Foucault’s genealogy, which refers to the archeology of knowledge (investigation of the epistemological conditions that make certain regimes of truth possible in specific historical contexts), we focus on “dietetics” – a concept revisited by Foucault19 (p. 74) from Plato, from the early days of Greco-Roman civilization, as the domain of application of bodily care (an ancient practice of self-governance, gradually replaced by modern technologies of life regulation). From that author, we also explore the notion of biopower20 – a mechanism that regulates the lives of communities (biopolitics) and individual bodies (discipline) through scientific knowledge and hygienic norms, shaping what he termed the Disciplinary Society.
In dialectical, but not antithetical, contrast, we refer to the Performance (or Burnout) Society, as articulated by Byung-Chul Han21, as a historical mutation of biopower: from external discipline to self-exploitation. Additionally, in contrast to the biomedical determinations of the metabolically managed body, internalized in subjectivity, we highlight Life Politics, proposed by Giddens22, directed toward the critical-reflexive protagonism of the subject. Both engage in dialogue with Foucault: Han describes a progressive subjectivation; Giddens, a possible path of resistance.
In the aforementioned shift from a disciplinary society20 to a performance society21, external control gives way to uncritical subjectivation. Life Politics22 emerges as a counterpoint to the imperative grammar of the positivity of power. In developing this specific negation, we seek to examine critically the dialectical tension between self-exploitation21 (as a new morphology of power) and reflexivity22 (as a potential for autonomy).
For the purposes of this article, we adopt the concept of “corporeality”, as adapted by Mounier23 from Kantian ethics (based on the idea of being as an end in itself), as a reflection of the subject situated and individualized in a historically constructed body. Corporeality underpins the perception indispensable to our social existence; it therefore also constitutes a challenge to our orientation in the lifeworld, to the engagement of being-in-the-body, and to resistance against alienation and fragmentation23.
Incidentally, the concept of lifeworld was created by Edmund Husserl, based on an analysis of everyday bodily practices and sensory experiences in a shared space-time, where objects and relationships reveal themselves as they are lived24. In other words, a phenomenological approach that unveils embodied subjectivity – an “I” situated “here and now” – but always within intersubjectivity, mediated by shared traditions and coexistence with other subjects24.
The line of thought in this article is inspired by communicative rationality, as articulated by Habermas25, in contrast to the claim of technical-scientific universalization – based on the instrumental nature of reason and its manipulative and controlling power8, which stems from the claim of validity of the acts of speech, assuming the power of human language to forge consensus capable of averting forms of imposition or coercion.
In line with the principles of critical theory, which challenge the claim to a certain “scientific truth,” we draw on Santos’s26 postulate, which characterizes as critical any theory that does not reduce reality (to be interpreted and transformed) to what simply exists. Thus, in addition to considering reality as socially constructed knowledge through successive approximations to transformative or maintenance perspectives, it is important to recognize reality as an existential field – a space for the construction of knowledge and practices capable of overcoming what is open to criticism in what is empirically given.
In short, the text constitutes a critical essay, committed to the diligence and rigor of the tradition of qualitative research embedded in the nucleus of social and human sciences within the field of Public Health, moving between the phenomenological aspect of the lifeworld12 and the anthropological perspective of non-place16, culminating in brief notes on the role of criticism, understood as a theoretical tradition, in the qualitative approach to the body.
In this line of thought, drawing on the Critical Theory of Society1, it is necessary to (re)open the way “for the reinterpretation (or even changes) of the theoretical and conceptual assumptions initially established.”27(p. 430). Thus, in line with Canguilhem28, we believe we are meeting at least one requirement of philosophical thought, namely, to reopen (rather than close) debates.
The embodied subject, food and anthropological non-places: phenomenological and political implications
The perception of place – whether internalized as physical presence, emotional involvement or even unconscious connection – constitutes a phenomenon of sensory experience within a given context. Place is intertwined with our subjectivity, memories and emotions, and understanding its absence (non-place) involves profound questions that require exploring a certain dimension of openness to the concrete world of the embodied subject12,29.
Place and non-place are defined by bodily experience29,30 – the very corporeality that opens itself (or not) to the world23. A person’s identification with a place conveys a sense of belonging when they recognize themselves there alongside people and/or memories, whereas a non-place – a space of transition or passage16, alien to the relational contextualization of the self by itself1 – denies such a significant implication. This dichotomy points to an ontological determination within the realm of identity, where the embodied subject is not strictly present in space; rather, the subject perceives itself there by reflecting on this relationship, imbued with its original condition of being-in-the-world12,17.
The non-place is embedded in supermodernity, namely: a historical moment of excessive acceleration in social life, marked by information overload, individualization and discontinuity of experiences. Augé16argues that in this context, areas of depersonalization emerge, characterized by impersonal and denaturalized relationships (distinct from the place where the imagination becomes invested with symbolism and memory is fixed there).
Characterized by an abundant supply of goods (identified by specific codes and symbols) – designed to satisfy presumed needs – this non-place harbors a kind of solitary tension16 amid a chaotic environment saturated with technology (QR codes, digital displays, etc.).
(...) The customer moves silently through the store, checks price tags, weighs the vegetables or fruit on a machine that displays both the weight and the price, then hands his credit card to a young woman who is also silent (…) who scans each item through a barcode scanner 16 (p. 92).
This narrative reflects what Augé16 (p. 92) calls the “invasion of space by text,” observed in the mediation of consumption through technological interfaces – sssuch as self-service systems at fast-food restaurants with algorithm-driven suggestions and digital wristbands that monitor performance during a run. A similar situation occurs on electronic platforms (saturated with motivational messages) that connect users, via an app (check-in), to networks of low-cost, geolocated gyms and home workout apps.
From these non-places, the forces of capital propagate lifestyles consistent with the maximization and optimization of one\'s own economic power29,8. This occurs in a society in which becoming a subject presupposes becoming a product and, in doing so, anchoring a portion of one\'s subjectivity in the logics of production and consumption, identifying oneself as a commodity14.
The singularity of the projection of the experience of the displaced subject in space-time leads them to a sense of estrangement, a sensation mediated by a complex of senses so impaired as to render access to their own inner self impossible. Understood in this way, we can see that the term “displacement” is epistemologically more appropriate than “non-place”30 – since the latter suggests negation rather than opposition – for situating the subject’s cognitive movement in relation to place.
In the face of the (perverse) paradigm of globalization, this condition of critical uprooting serves as fertile ground for the malaise of a displaced subject, revealing a void that generates spatial schizophrenia in places shaped by a logic of productivity and exclusion31. However, in the tension between given and constructed territory, we can react critically
with the discovery that, despite being who we are, we may also desire to be something else. In this regard, the role of place is decisive. It is not merely a backdrop to life, but a lived space – that is, a space of constantly renewed experience – which allows, at the same time, for a reevaluation of our heritage and a questioning of the present and future.31(p. 114).
As a sensory experience inscribed in the body, the perception of place constitutes a phenomenon that transcends a given geographical territory, extending to relationships that (re)produce cultural and economic meanings and social hierarchies, thereby constituting a situated corporeality – the body as a gateway to the world, through which we act and insert ourselves into reality23. Due to this existential connotation, the conception of non-places16 as spaces of alienation and reification – which produces relational isolation as a side effect – proves insufficient to capture the complexity of the human condition within the multidimensional context of life.
Expanding on Augé’s anthropological approach16, Deleuze & Guattari32 address the issue of non-places from the notion of the territorialized body, oscillating between deterritorialization (a break with traditional bodily knowledge) and reterritorialization (the adoption of new bodily norms), at the interface of which identities such as “the healthy body” are simultaneously captured and reinvented. In this intertwining, Augé’s solitary tension16 coexists with lines of micropolitical flight, where one negotiates, even in standardized spaces, one’s own bodily territorialities32 – something increasingly difficult in the deterritorializing fluidity of the digital age.
From the dietetics of the grammar of consumption to life politics
In the grammar of consumption – an expression adapted from Bauman15 to describe the normative language of social practices under the aegis of the market – human food and nutrition are often reduced to a standard of objectivity embedded in the realm of the senses and meanings of the social subject, in accordance with a preestablished standard. This dietary rationality establishes a mechanism for evaluating and measuring what should be eaten by a reference body (idealized and managed), whose metabolism mobilizes energy and nutrients, both of which are priced on the market.
The pursuit of the idealized body – based on nutrition’s “scientific status” (because it is structured within the domain of knowledge established in the language of science as opposed to other modes of knowing)18 – drives dietary standardization to achieve scientifically validated parameters. Through this framework, the mechanics of calculating and interpreting body composition data, alongside estimates of nutrient requirements and food composition, constitute, in a linear and unreflective manner, the argumentative basis for prescribing an ideal diet.
Nevertheless, this same governed body represents a dimension of the social subject, shaped by scientific rationality in response to expectations in the lifeworld. In this scenario of cultural conditioning, sometimes in the face of “labels regarding energy information and the duty toward caloric burning and physical training for one’s redemption”34 (p. 4365), a utilitarian ethic emerges—for which perceiving oneself as productive and healthy denotes a false consciousness of “virtue.” This reification – present in the glorification of physical exhaustion as a symbol of moral discipline, as well as in the guilt attributed to food intake that does not align with market constructs – transforms health practices into technologies of normalization. Such a process subverts the Foucauldian ethics of self-care19 into mandates of productivity and consumption21.
The authority of moral reasoning – embodied in the clinical control and care of the body as a bastion of biopolitics – imposes health self-awareness as an identity-defining principle (a passport to the “natural” way of existing in society)28,20. In this regard, among other care-giving practices grounded in the pathophysiological foundations of chronic degenerative diseases, this discussion addresses responses to the metabolic demands of physical activities related to oxidative stress and its deleterious effects on cellular functions35, emphasizing the antioxidant power of nutrients in the combat (“exorcism”) against excess oxygen-free radicals – blamed (“demonized”) for threatening and/or shortening life, in the genesis of supposed carcinogenesis processes and the acceleration of aging.
To achieve the disciplined aesthetic of a healthy body, food with caloric levels exceeding scientifically validated standards would not be acceptable – lest it violate dietary norms. Incidentally, Christiansen3, based on an analysis of how Mexican public health authorities address obesity, denounced the epistemological bias of biopolitics in the production of subjectivities reduced to a quantified corporeality – based on body fat percentage, body mass index (BMI), etc. – evidenced by prejudiced stereotypes, supported by the pathologization of overweight bodies.
However, as Han21 warns, the remarkable rise of self-exploration of the body – as seen in cosmetic clinics and fitness/weight-training centers – signals a paradigm shift from the Disciplinary Society to the Performance Society of the 21st century, which fosters the individual’s ability to maximize results. Both operate by delineating mechanisms of dialectical tension through logics of control over the body: the former, external, through negation (producing madmen and outcasts); the latter, internal, through positivity (creating failures and depressed individuals)21.
In the context of the reconfiguration of political control over life, ancient dietary practices – reinterpreted in the 14th century to discipline bodies (under the hygiene policies of the liberal state) – were updated through nutritional calculations and performance imperatives. In view of this historical transformation, Giddens’s “politics of life”22 – a process of self-determination involving critical reflection on individual issues and personal interests – emerges as a strategy of resistance against colonizing mechanisms based on the measurement of health risks.
This critical dynamic takes shape in an emancipatory praxis that, even without completely transcending hegemonic biomedical and market structures, promotes the reframing of the body as a space of negotiated autonomy. In this process, it is up to the individual – as a body subject and the legitimate author of their life-politics – to take the lead in shaping their own lifestyle. This implies a reflective self-construction, which develops even in the face of the dialectical tension between local contexts and globalizing forces22,31.
Thus, questions such as: “What should I (or shouldn’t I) eat?” take on greater significance in a world of diverse knowledge and existential possibilities. The answer is not limited to a technical understanding of food and nutrition; it requires the complex thinking proposed by Morin36 – capable of integrating human finitude, epistemic uncertainties and the limits of reason, articulating knowledge with ethical responsibility, cultural roots and emotional sensitivity.
The deconstruction of bodily and dietary norms emerges as a transformative praxis for those involved, requiring the mobilization of mechanisms to resist oppressive controls. These include the identification and subversion of moral constraints that pathologize dissident bodies7. The challenge lies in transforming such structures into emancipatory existential grammars. Such insurgencies must operate through mechanisms that articulate theory and practice, focusing on historically silenced bodies as territories of resistance and reframing37,38. This approach guides professional practice aligned with intersectional and critical perspectives in the field of Public Health.
From this perspective, educational strategies grounded in critical theoretical frameworks are essential. Of particular relevance are: [1] the intersectional approach (Kimberlé Crenshaw)37,39, which reveals how oppressions of race, gender and class intersect in the production of specific vulnerabilities; and [2] the Pedagogy of Autonomy (Paulo Freire)38,40, grounded in a dialogical-problematizing approach to confront structural oppressions through collective processes of action-reflection. These theoretical frameworks prove decisive for the dialogical construction of pedagogical and political counter-dispositives that reconfigure corporeality as an axis of freedom, transcendence and transformative action in the world.
IN CONCLUSION:
The Role of Critical Theory in the Approach to the Body – in the Practice of Physical Education and Nutrition in Public Health
Stereotypical criticism, devoid of serious foundation, which purports to be grounded in theory but is incompatible with critical rationalism (the basis of conscious intellectual activity in the pursuit of truth), does not appear reasonable. Furthermore, something assumed as a dogmatic belief (and, for that very reason, distorted, if not absurd) does not do justice to the designation “Critical Theory”1, as it is incapable of charting an epistemological path to interrogate and transform the technicist approach to the body—centered on anthropobiometric parameters and standardized protocols. In contrast, it is pertinent to recognize critically the meanings produced and displaced in bodily experiences within spaces of meaning and non-meaning12,29.
The importance of critical thinking lies, in particular, in the approach of reframing the person in motion as a subject historically and culturally situated within the natural and political environment that shapes bodily practices. This leads us to question the health-based notion of fitness and well-being as a market opportunity – manifested in the consumption of products (including the body itself) and services. This critical perspective, by advancing in the recognition of the plurality of possible realities, must materialize in actions aimed at affirming the body as a dialectical field – in which drive and control coexist dynamically41,42.
As part of the resistance to the standardization of food and the body, we must value corporeality as a territory of unmanaged meaning. To radicalize it – that is, to go to the root, in depth – it is necessary to promote spaces for scientific research and critical education1,38, not only aimed at problematizing biopolitical mechanisms, but also at denaturalizing discursive hierarchies, incorporating sensitive listening to the physical and emotional marks that the body accumulates as testimony to its life trajectory (biography of the body)41. Through this understanding, the body is posited as the mode of existence of being-in-the-world; our histories and even our unacknowledged desires are inscribed within it12.
To implement this critical approach, it is necessary to deconstruct the hegemonic dietary rationality in professional training, revealing its market-driven foundations. In the context of care, this practice is guided by the food and body histories of the individuals involved, contextualizing and, as much as possible, tailoring interventions through biographical narratives. In the same vein, qualitative research should seek to gain in-depth knowledge of marginalized bodily and dietary practices, such as those found in traditional communities. These approaches articulate pedagogical counter-dispositifs to the fetishism of nutrition, re-inscribing food within its sensitive and shared dimension as an emancipatory practice.
Within this horizon of sensory experience and possibility of self-determination, there is an open field for practices that subvert the non-places associated with health – such as networks of clinics that sell weight-loss programs, operating on an assembly-line model, where individuals are nothing more than “patients” quantified by body measurements, subjected to standardized diets and even invasive procedures, without considering bodily biographies. Frequently inserted into these spaces, both those working in Nutrition and Physical Education – even if they recognize themselves as potentially capable of promoting truly ethical, inclusive and dialogical actions – may end up reproducing practices that ignore the complexity of the lived body.
It is important to note that various nutritionists and physical education professionals have been critically developing practices that transcend this reductionist and functional logic. In this context, we observe those aligned with Health at Every Size® – a holistic, anti-fatphobic approach that prioritizes well-being and intuitive behaviors regarding diet and physical activity (regardless of weight or body size) – whose empirical data, when compared to weight-based interventions, show similar variations in anthropometric and cardiometric indicators43.
The Weight-Neutral® approach – which separates weight (for which it sets no goals) from health and promotes respect for body diversity – is cited as another front in the fight against structural fatphobia. Thus, this approach is highlighted for moving beyond clinical care – as opposed to biomedical rationality – into the realm of health justice44, recognizing weight-based stigmatization as a violation of human rights, to the extent that it demands political responses, including anti-discrimination laws45. We are thus witnessing the consolidation of an ethical framework that integrates health and social justice, focusing on human dignity – a fundamental principle of the democratic rule of law.
In the context of experiences related to physical activity and exercise, the term bodily practices emerges as a counterpoint to the risk-based discourse surrounding a sedentary lifestyle – a discourse often reduced to the simplistic perspective of a logic of physical fitness that is detached from the multidimensional nature of bodily culture, thereby highlighting a process of tension at the interface between biological and social dimensions46. From this perspective, the complexity paradigm36 (an important reference in the struggle to redefine health in multidimensional terms), by transcending mere simplification, aids in the critical effort to overcome the bio-reductionist approach to human movement anchored in the term physical activity47, so as to encompass also the social, emotional and cultural dimensions.
This same multidimensionality becomes apparent when we consider that eating and moving are acts imbued with meaning, which situate the individual within a living network of relationships – the antithesis of non-places, where, even in a crowd, one lives as a stranger in social time-space, seduced by sensationalized knowledge and normative informational discourse that prescribe consumption and a healthy lifestyle15,34. In this existential void and the erasure of tradition, the aesthetics of the pleasure of eating and body awareness present themselves as dimensions of art and resistance41 to technicality in Physical Education, Nutrition and other theoretical-practical fields. These aspects assert themselves as possibilities for negotiated autonomy, allowing for the assertion of non-alienated bodily norms.
As is well known, the standardization of the “healthy body” – far from being confined to the fields of physical education and nutrition – expands as transversal biopolitical mechanisms20 – orchestrated by doctors, psychologists, physical therapists, nurses ..., as well as beauty and fashion professionals – weaving a web that legitimizes bodily control, which naturalizes anthropobiometric and nutritional standards as moral imperatives, yet conceals their market-driven and exclusionary basis. However, regardless of the categories of workers involved, criticism of this grammar of consumption requires a multidimensional approach that re-inscribes corporeality and dietetics within the realm of the reflexive autonomy of the human being, indispensable to the pursuit of one’s own life-politics22.
Furthermore, given that each person, through their actions, ascribes meanings to the world and constructs its symbolic structure15, analyzing the subject’s place within the dialectical context of the interests that shape eating and food itself requires an in-depth exploration of social transformations, nature and human knowledge, including the impacts and significance of scientific misinformation – its uses and distortions. This comprehensive effort involves recognizing the relevance of science in the construction of objective realities, without ignoring its instrumentalization by political-ideological systems that can justify hegemonies and suppress individualities.
Although market logic transforms spaces into closed systems of commercial circulation, these territories are not limited solely to that purpose; rather, they are open to distinctly human manifestations32,22, as an aesthetic experience consistent with cultural roots and self-determination41,1. In this case, an art situated as a dialectical interruption to the colonization of life – transgressing the globalizing character (in the economic sense) imposed on food and body culture, capable of provoking singular moments of critical reflection, able to reveal, within the fissures of everyday life, emancipatory possibilities of care and non-commercialized existence41.
In the face of the colonization of the lived world, driven by instrumental rationality (the genus of which dietary rationality is a type), communicative action – theorized by Habermas25 as the foundation of emancipatory reason – serves as an intelligent counterpoint. Systematic investigations from this perspective require care and critical rigor in the face of systems of domination adept at alienating subjectivities by replacing authentic dialogue with impersonal rules and economistic criteria25,15.
To assess the subject’s autonomy in the face of such mechanisms, we must recognize that criticism is not limited to denouncing oppressive practices, but also involves a collective effort to overcome them. The task of Critical Theory – by questioning the standardization of knowledge as a mechanism of control – is, above all, to unveil the structures that reduce human interaction to instrumental logic, pointing to emancipatory possibilities1,8,38,39.
However, instrumental logic creates not only non-places, but also the “non-body” – just as the “fat body,” perceived as a site of subversion against the normalization of thinness, is personified as a negation of the aesthetic standard legitimized by dietary rationality33 (p. 151). In the face of this process of selective dehumanization, critical practices are needed to include marginalized and dissident bodies7, whose exclusion holds the key to understanding how systems of oppression intertwine. From this intersectional perspective – invoking Crenshaw’s maxim37 – “When they enter, we all enter,” thereby recognizing that the liberation of these bodies that “do not fit” is a condition for necessary structural transformation.
In the light of the criticism of the biopolitical mechanisms embedded in dietary rationality – which affect corporeality – the constitution of displaced subjects and deterritorialized bodies becomes evident. Within this existential dynamic, critical praxis in Physical Education and Nutrition, by understanding the body as a living expression of subjectivity, must distance itself from the dissociative traps of consumption and familiarize itself with Engaged Dietetics – reimagined as an ethical-political approach, based on the ethics of self-care from the Greco-Roman tradition19 – to integrate history, pleasure and food culture into the embodied subject. Through such hermeneutics of the subject19, it is appropriate to invest in truly virtuous propositions, guided by the moral excellence of a worthy existence – in the approximation of an ethic of happiness, as taught by the Greek philosopher Aristotle48.
Note, however, that evoking antiquity in this political-existential movement is not an act of nostalgia, but rather a means of integrating the ontological dimension into the present49,19, as part of an emancipatory praxis aimed at questioning realities in crisis while advancing in opposition to the social oppression underlying the standardization of life1. This transformation requires that physical education professionals and nutritionists allow themselves to act as critical mediators in the process of collectively interpreting and reframing bodily and dietary practices as territories of identity and resistance.
Mobilization in this direction requires intersubjective reconstruction based on critical dialogues to redirect the meanings that guide social practices toward the essence and dignity of the human person25,12. Such a significant shift in the social paradigm is a collective task, and it is not fair to place a disproportionate burden of responsibility on public health professionals, who have also been subjected to the insidious effects of biopolitical mechanisms since before their academic training and throughout their careers49,20.
Engaged Dietetics is a contemporary expression of self-care¹⁹, an aesthetic of well-being reframed through acts of cultural appreciation and self-determination. In other words, a form of dietetics capable of subverting the objectification of the body, reaffirming corporeality as the ontological foundation of autonomy and a mediating element in the genuine (re)construction of non-alienated knowledge regarding food and the body. In this context, the aforementioned approaches adopted by Health at Every Size® and Weight-Neutral® are references for political action materialized in the commitment against commercialized body standardization.
Engaged Dietetics is committed to realizing the Fundamental Social Right to Food through public policies. To this end, it seeks: [1] to promote ecologically sustainable family-based (or peasant) agriculture – including pesticide-free farming – linked to food sovereignty; [2] the promotion of fair trade, grounded in a solidarity economy, in conjunction with food and nutritional security; [3] to promote critical food and nutrition education – involving initiatives such as community kitchens and urban gardens and orchards – with a view toward emancipatory consumption.
In primary health care, initiatives that incorporate the broader dimension of corporeality include: (1) Conversation circles that – beyond food and nutrition education – welcome bodily narratives and pleasurable memories linked to food, recognizing eating as a biographical experience; (2) Collective cooking workshops focused on the critical (re)appropriation of traditional knowledge, emphasizing the act of cooking as a sociocultural expression; and (3) Bodily practices that, in contrast to performative logic, prioritize bodily perception and awareness (proprioception), aiming at well-being and reconnection with the internal experience of movement.
Engagement in dietetics involves treating nutritional and bodily care as living labor – a human activity that creates existential and social meaning (as opposed to dead labor objectified in commodities)50, oriented toward fostering critical self-determination and sensory experience. From this perspective, Engaged Dietetics focuses on awakening the subject – submitted to the grammar of consumption – beyond the illusion of reality, in what Feuerbach calls the “reversing of the waking consciousness”51(p. 170), a metaphor that refers to the state of dreaming.
It is therefore the responsibility of physical education professionals and nutritionists to facilitate critical-dialectical processes as agents of transformation in the weaving of an emancipatory approach to care. Acting in this political arena presupposes the recognition of corporeality as the foundation of the individual’s autonomy, requiring reflection on their own sensitive and politically situated bodies – which are constantly being constructed somewhere.
A grateful acknowledgment
To Eudaziane Abreu Macedo, my inseparable companion and an inspiring presence in my life... “Because she will become whatever she wants, creating a place for herself”52. Without you, this text would not exist – and perhaps I would not have found my place in it either.
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Como
Citar
Macedo, MA. O (não) lugar do sujeito na gramática do consumo implicada à Dietética e à Corporeidade. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/mar). [Citado em 27/04/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/o-nao-lugar-do-sujeito-na-gramatica-do-consumo-implicada-a-dietetica-e-a-corporeidade/19941?id=19941