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0129/2026 - EATING, DRINKING, PRACTICING THE CROSSFIT: BODY AND HEALTH ENHACEMENT IN CROSSFIT® PRACTICE
COMER, TOMAR, “CROSSFITTAR”: APRIMORAMENTO DO CORPO E DA SAÚDE NA PRÁTICA DO CROSSFIT®

Author:

• Juliana Gonçalves Baptista - Baptista, JG - <juliana.baptista@yahoo.com.br>
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9583-0725

Co-author(s):

• Elaine Reis Brandão - Brandão, ER - <brandao@iesc.ufrj.br>
ORCID: http://orcid.org/0000-0002-3682-6985


Abstract:

The article addresses the practices of body enhancement and health in CrossFit, focusing on the use of food and substances, through the lens of body education and biomedicalization. This is a socio-anthropological study that employed three methodological strategies: interviews with CrossFit practitioners at official in Rio de Janeiro; participant observation in a box; and documentary research in the CrossFit Level 1 Training Guide. The meanings of eating are noted as a way to enhance bodily performance and health, based on molecularization of nutrients and the functionality of substances. The use of dietary supplements is sometimes seen as a substitute for food itself. Regarding anabolic steroids, there is a moral debate around their use and the possibility of a suspension of the social prestige of the practitioner. Thus, steroid use may occur in a concealed manner or under the narrative of a medical necessity. The conclusion is that some body enhancement practices related to CrossFit, such as adopting specific diets and dietary supplements, tend to be more socially accepted, while the use of other substances tends to be veiled. These practices aim to optimize performance and health, based on the pursuit of a socially valued body and used as a form the representation of the self.

Keywords:

Exercise; Biomedical Enhancement; Diet; Dietary Supplements; Steroids.

Content:

INTRODUÇÃO
O corpo e as práticas corporais são constantemente produzidos nas relações socioculturais e históricas, sendo concebidos em sua dimensão individual, locus da identidade, e coletiva, ao partilhar, negociar, transgredir e/ou resistir ao modus operandi de determinado tempo/lugar no qual está inserido1. Os procedimentos corporais são centrais para a valorização e reconhecimento social do sujeito no contexto em que vive2. Assim, ganha notoriedade o debate sobre a (bio)medicalização da vida e o aprimoramento corpóreo (enhancement), no intuito de compreender a educação do corpo na contemporaneidade.
Peter Conrad3 define medicalização como um processo em que “problemas não médicos são definidos e tratados como problemas médicos” (p. 4). Na sua visão3, a medicalização estaria imbricada em diferentes momentos da vida, cada vez mais imperativa na nossa cultura de consumo. Sob essa égide, ele aponta que a medicalização não se dá apenas com a substância em si, mas com produtos e propagandas criando uma “cultura da medicalização”.
O incremento tecnológico e científico tem problematizado o conceito de medicalização para biomedicalização:4
[...] compreendido[a] por uma nova economia biopolítica da medicina, saúde e doença, por mudanças nas formas de viver e de morrer, pela formação de uma arena complexa na qual os conhecimentos biomédicos, serviços e tecnologias são cada vez mais intricados, e por um novo e cada vez mais acirrado foco na otimização e no aperfeiçoamento individual por meio tecnocientíficos e na elaboração do risco e da vigilância no nível individual, grupal, e de população. (p. 1864)4.

Entende-se biomedicalização como o uso de saberes biomédicos e de práticas biotecnológicas para o gerenciamento da vida4,5. Segundo Clarke et al.6, esse gerenciamento não se daria mais pelo controle dos corpos, mas pela sua constante transformação e otimização, de modo a produzir novas identidades.
Assim, o foco centra-se na “gestão privatizada dos riscos”7 (p. 58), sendo a ideia de um ser saudável associada a um ser produtivo8. Consequentemente, somos convidados a ser “gestores de si”, seres autônomos e responsáveis pela transformação, aprimoramento e otimização do corpo, através de um autocontrole e autodisciplina9,10, independente se determinadas biotecnologias não estão ao alcance de todos3.
Conrad3 afirma ainda que o aprimoramento (enhancement) é uma intervenção que estimula a transpor barreiras e os limites corporais e de desempenho, que não tinham sido antes ultrapassados. Logo, a otimização corporal é posta como o modo de subjetivação, em que o uso das biotecnologias seria aliado ao controle dos “processos vitais do corpo e mente” (p. 50)11, a partir da ideia de uma responsabilidade privada da saúde11. Tal ideia dialoga com as concepções de healthism de Crawford12 e de culpabilização do indivíduo13,14, em que o foco reside apenas nas ações e responsabilidades individuais, desconsiderando, ainda, outros condicionantes sociais da saúde.
Sob esta lógica, os novos dispositivos de aperfeiçoamento se materializam nas práticas corporais e no cuidado de si. O CrossFit, por exemplo, e a dieta podem ser elencados como formas de otimização e potencialização das capacidades vitais dos seres humanos15.
O CrossFit® baseia-se em exercícios funcionais variados realizados em alta intensidade em uma box, como também é uma marca comercial. Possui uma dinâmica de treinamento físico em grupo, onde os membros realizam a mesma sessão de treino com duração de 60 minutos, divididos em Warm Up (aquecimento), Skill (trabalho de alguma técnica ou trabalho de força), WOD (Workout of day - treino propriamente dito) e alongamento/recuperação, no intuito de trabalhar diferentes valências físicas. Ideais de corpo e saúde são propagados e compartilhados no CrossFit, em busca de um capital corporal e de desempenho15, 16. O artigo aborda as práticas de gerenciamento corporal e da saúde no âmbito do CrossFit, no Rio de Janeiro, privilegiando a análise do recurso ao uso de substâncias pelos seus praticantes, com fins de aprimoramento humano. As contribuições inéditas do manuscrito situam-se no arcabouço teórico-metodológico adotado para abordar o objeto de estudo, enfocando a prática do CrossFit na perspectiva da Saúde Coletiva, a partir de conceitos estratégicos ao campo, como biomedicalização3,4,6, aprimoramento3 e healthism12.

METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa socioantropológica, que utilizou três estratégias metodológicas17: pesquisa documental do Guia de Treinamento de nível 1 CrossFit Training; entrevistas com praticantes de CrossFit de boxes oficiais na cidade do Rio de Janeiro; e observação participante de uma box oficial na referida cidade.
A pesquisa documental18 consistiu na análise do Guia de Treinamento de nível 1 CrossFit Training19. O guia, disponibilizado de forma pública no site oficial da CrossFit®, é utilizado na formação de professores de CrossFit, que ao concluírem recebem a certificação de Coach Nível 1 do CrossFit (CF-L1). De forma geral, o guia apresenta uma coleção de artigos publicados na CrossFit Journal que discorrem sobre os conceitos, metodologia e movimentos básicos do CrossFit. Destaca-se que há quatro subcapítulos relacionados ao uso de substâncias e alimentação, temas aqui abordados.
As entrevistas semiestruturadas foram outra estratégia metodológica utilizada. Elas duraram entre 30 e 125 minutos, ocorreram entre outubro de 2019 a fevereiro de 2020, em sua maioria em locais públicos, como shoppings, cafeterias, restaurantes, com nove praticantes de CrossFit. Não houve delimitação prévia, apenas deveriam ser maiores de 18 anos. É importante reforçar que se optou por não realizar as entrevistas dentro das boxes, pois isso poderia impactar no que seria dito ou não. Além disso, o fato das aulas terem músicas poderia atrapalhar na captação do áudio. Os entrevistados foram contatados através de indicações de informantes chaves (professores de educação física). Constatou-se certa homogeneidade etária (jovens adultos) e de inserção social do grupo entrevistado (classes médias), como o quadro 1 nos apresenta. Codinomes foram adotados para preservar o anonimato dos interlocutores.
A observação participante de uma box oficial na cidade do Rio de Janeiro foi realizada durante três meses, de agosto a novembro de 2017, uma vez por semana em horários alternados (manhã, tarde/noite). Um diário de campo foi produzido, a partir de notas tomadas no campo. O perfil socioeconômico e geográfico dos sujeitos de pesquisa pode ser uma das limitações do estudo, além do fato de adotar como critério de inclusão na pesquisa sujeitos praticantes de CrossFit em boxes oficiais, diminuindo assim uma possível diversidade de praticantes se consideradas as boxes não oficiais.
Adotou-se o uso da reflexividade20 e da análise temática21 do material empírico recolhido, organizando-o em blocos temáticos, a exemplo de sociabilidade, motivação à prática. Neste artigo, a ênfase recai no uso de substâncias na prática do CrossFit. A triangulação das três estratégias metodológicas permitiu captar melhor a dinâmica desta prática corporal e a lógica social a ela subjacente.
A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética da instituição acadêmica, conforme Resolução nº 510/2016, CAAE: 16810819.0.0000.5286, assegurando-se a confidencialidade, anonimato e sigilo dos dados. Os sujeitos entrevistados foram informados sobre a pesquisa e, aceitando participar, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Com relação à observação, o estabelecimento autorizou a presença da pesquisadora, com respectivo termo de autorização.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Contextualizando o espaço do CrossFit
Como prática corporal, o CrossFit é realizado em um local parecido com um galpão, uma caixa, conhecido como box. Não há qualquer restrição e padronização em torno do layout do ginásio, portanto os franquiados tem autonomia para criar o espaço físico do box. Apesar dessa liberdade na construção do box e a possibilidade da sua associação com diferentes valores e ethos identitários, a literatura tem apresentado geralmente algumas similaridades entre os espaços. Por exemplo, o chão ser coberto por um piso emborrachado, geralmente na cor preta; a não existência de uma porta/catraca na entrada do ginásio que separe o lado de fora do de dentro, possibilitando que as pessoas de fora vejam as atividades realizadas no espaço interno, raras exceções não possuem esse modelo; um cronômetro, normalmente, localizado no alto do box e que seja de fácil visualização; quadros de giz ou de caneta em que o treino do dia e os tempos dos alunos são escritos; a inexistência de espelhos e em geral, a falta de aparelhos de ar condicionado, sendo a ventilação feita por ventiladores de teto ou afixados nas paredes laterais.
Grande parte do espaço não é ocupado por aparelhos, como ocorre nas academias tradicionais de musculação, mas por um solo vazio a priori, sem televisores, espelhos, cantina, sendo assim um espaço rústico em que a atenção dos praticantes seja total e exclusivamente direcionada para a prática corporal. De certo modo, a box observada parece ser uma box mais “fiel”, “tradicional” ao que a literatura tem pontuado nas similaridades de construção dos boxes.
Como já dito, as aulas seguem um padrão estrutural, dividida em 60 minutos que são dedicados em Warm Up, Skill, WOD e alongamento/recuperação. Estruturalmente as aulas não se modificam, porém cada dia há um treino/exercício diferente, ao contrário, por exemplo, dos treinos em uma academia tradicional, em que há uma repetição sistemática dos exercícios realizados. Outro padrão observado na box onde fiz a observação, foi o momento de ligar a música e o cronômetro. A música, geralmente, é ligada no momento do Skill e do WOD, sendo que ela no WOD tende a ser um rock e no Skill tem uma variação maior de estilo musical, apesar de forma geral o rock predominar na escolha para acompanhar sonoramente o trabalho incessante dos praticantes.
Com relação ao cronômetro, enquanto a aula está no Warm Up, Skill, o cronômetro, geralmente, fica desligado e na função relógio, porém no momento do WOD, ele é programado e faz sua contagem regressiva de 10 segundos para começar a contar o tempo com um apito sonoro, seja de forma decrescente (quando o WOD é proposto em um determinado tempo máximo específico) ou de forma crescente.
É importante pontuar, também, que apesar de todos realizarem o mesmo exercício no WOD, a ordem que eles eram realizados não era a mesma necessariamente. Isso se dá muitas vezes pelo próprio tamanho do espaço e material disponível e, também, pelo tempo que cada indivíduo faz determinado exercício. Sempre em um fluxo incessante em que quando o sujeito acaba um exercício vai direto para o outro, sem muitas pausas e quando há pausas, ele logo é estimulado a prosseguir, seja pelo coach ou pelos outros colegas que estão fazendo ou mesmo os que estão apenas observando. Além disso, era bastante visível a preocupação de cada um com o tempo que estavam realizando cada exercício; olhar para o cronômetro em algum momento do WOD era quase involuntário.
Ademais, foi perceptível algumas diferenças acerca da divisão ou não dos alunos no momento do Skill. Em algumas boxes, relatadas pelos sujeitos de pesquisa, todos realizavam os mesmos exercícios ao mesmo tempo, no intuito de todos passarem por todas as etapas juntos, enquanto em outras havia divisão de grupos a partir do nível de performance. Assim, o espaço geográfico da box era dividido entre os iniciantes, os médios e os avançados.
Diante do exposto, é importante não essencializar o CrossFit e tomá-lo sob uma existência única, por meio de um modelo fechado, mas entendê-lo como uma prática corporal que está em constante diálogo com os seus participantes e professores/instrutores. Por isso é necessário compreender que há a possibilidade de existência de não apenas um CrossFit, mas diversos CrossFit que podem tanto coexistir em diferentes boxes quanto na mesma box.
Após breve contextualização do espaço do CrossFit, passo para apresentação e análise das práticas de gerenciamento corporal e da saúde, sob enfoque ao uso de substâncias pelos praticantes de CrossFit. Para tal, foram divididos em dois subtópicos: a) A dieta alimentar; b) O uso de substâncias.

A dieta alimentar
Nas entrevistas, quando questionados sobre os cuidados com o corpo e a saúde aliados à prática do CrossFit, os interlocutores abordaram questões relacionadas à dieta alimentar. Além deles, o Guia de Treinamento de nível 1 CrossFit Training também traz diversas passagens sobre o tema, colocando-o como a base da pirâmide para o desenvolvimento do atleta.
Uma das primeiras assertivas do guia em relação às dietas alimentares é a relação causal entre doença e o alimento e entre alimento e o desempenho, como expresso no subcapítulo, “Nutrição: Evitar doenças e otimizar o desempenho”. Segundo proclama, bastaria fazer o CrossFit e seguir fielmente a dieta alimentar, que poderíamos eliminar as chances de 70% da morte, tendo em vista que os outros 30% estão associados à (má) sorte. Assim, não importariam as condições socioeconômicas e nem as heranças biológicas, pois o “compromisso e foco vão superar limitações genéticas” (p. 49)19. Tal discurso corrobora a ideia da biomedicalização, pois a preocupação não estaria mais centrada nas heranças genéticas, mas na capacidade de gerenciar, otimizar, controlar e remodelar as capacidades corpóreas22. Essa premissa é recorrentemente apoiada por alguns interlocutores ao relacionarem diretamente a saúde aos alimentos ingeridos. Como na passagem do interlocutor Rafael:
[...] me alimentar bem eu estou promovendo que meu corpo fique mais saudável, porque se eu quiser comer no Mc Donalds todo dia, eu posso comer, mas eu vou morrer com 60 anos com câncer no coração.

Tal discurso sugere que o CrossFit é o exercício salvador de todos os males e o indivíduo o único responsável pela sua saúde. Ao seguir fielmente a dieta alimentar e o treino no CrossFit, o praticante estaria salvo, como sugere o antigo CEO e fundador da marca CrossFit, Greg Glassman, em palestra na África do Sul, em dezembro de 2016: “Cada box [de CrossFit] é um barco salva-vidas numa tsunami de doenças crônicas”. A seguinte passagem do guia confirma esse lema:

Você tem a resposta do estilo de vida. Vá para academia, coma de forma que mencionamos aqui e divirta-se. Nós hackeamos a saúde. Aqui está a fórmula mágica para você: condicionamento físico + sorte (má) = saúde. [...] Então, faça o máximo de condicionamento físico e você não vai fazer parte dos 7 de 10 que morrem desnecessariamente devido ao estilo de vida. No fim, a doença crônica é uma síndrome de deficiência. É sedentarismo com desnutrição19 (p. 52).

No guia sobressai a valorização do desempenho (condicionamento físico) como modo de “alcançar” a saúde. No CrossFit é inadmissível pensar em saúde sem pensar na capacidade de trabalho corporal. Portanto, a representação de corpo saudável está associada com a sua performance, no sentido de que a saúde estaria relacionada à capacidade de produção dos corpos, não de modo estático, mas uma produção fluida em que o limiar seja cada vez maior e mais especializado. Assim, há necessidade de estar sempre ativo, visto que há sempre algo a ser melhorado, corrigido, otimizado, potencializado22.
Rafael espelha os ensinamentos do manual ao atrelar o conceito de saúde a “conseguir fazer os afazeres” e as suas taxas fisiológicas. Embora Marcelle exalte que “não somos apenas um número”, ao ser indagada sobre os cuidados em relação à saúde e ao corpo, cita práticas associadas a uma racionalidade biomédica, como exames médicos, dieta alimentar rigorosa e controle de calorias como práticas de autocuidado. Assim, a adoção da dieta alimentar é pautada sob uma lógica de funcionalidade das substâncias, sendo deixado em segundo plano o prazer e o gosto como critérios de escolha do que comer23,24.
Nesse contexto, a dieta alimentar é recoberta por discursos imperativos de saúde, sob uma ótica biomédica e individualizante. Atenua-se o Estado da responsabilidade constitucional de garantia dos direitos de acesso às condições básicas de saúde e há uma responsabilização do indivíduo para adotar condutas e atitudes tidas como saudáveis pela via do gerenciamento corpóreo rigoroso, culpabilizando-o em caso de “fracasso”13,24. Dessa maneira, o discurso recai sob o processo de conscientização individual e estilo de vida13, em que o desempenho corporal é central no entendimento de saúde no campo. Como aparente na passagem de Marcelle:
Você tem que ter consciência da sua performance, do teu corpo, do que você ingere, do que não ingere para poder entregar aquela atividade. Isso eu acho muito legal, porque não é falado, mas é visto. É óbvio que é visto esteticamente a diferença de determinadas entregas, entendeu. Corpos ali mais desenvolvidos, mais rápidos, outros mais lentos, outros que estão há 7 anos no CrossFit e porra tem o mesmo corpo e a outra que tem 2 ou 3 anos já assim. Existe, são recursos.

Ademais, o próprio gosto pelo alimento pode ser ressignificado pela prática corporal, ou mesmo a opção pelo CrossFit ser mediada pelas escolhas alimentares, como aponta Marcos:
[...] eu não sei se parei de comer besteira por causa do CrossFit, ou se foi o inverso. Eu simplesmente deixei de comer algumas coisas, mas não foi o CrossFit que me limitou. Eu parei porque achei que era mais saudável, manter o peso ideal. Aí é o que eu falei, meu ‘cardio’ não é muito bom, então se eu comer muito [...], meu ‘cardio’ [...] vai ficar pior do que já é ruim, vai ficar muito pior.

Nessa direção, Marcos menciona a relação entre o que comer e qual tipo de exercício fazer, algo que Bourdieu25 já debatia, no sentido de como as práticas, os gostos, as preferências, estilos de vida são incorporados e marcam os corpos mediados pelas relações sociais. Do mesmo modo, como essas incorporações constroem e são negociadas mediante critérios do que é ou não saudável. Assim, o sujeito reforça a aproximação aos ideais de desempenho corporal como um parâmetro de saúde.
Similarmente, a ideia da molecularização da vida22 está presente no guia quando se defende a necessidade de medir e pesar os alimentos como essencial para otimização do corpo, através da “Dieta da Zona”. Nessa dieta, os alimentos são separados em blocos de proteína, gordura e carboidratos, em que equivalentes desses blocos seriam milimetricamente calculados. Segundo o guia, “uma nutrição eficiente requer aritmética básica, e a pesagem e medição de porções durante as primeiras semanas” (p. 54)19.
Sob tal égide, o exercício e a dieta alimentar podem ser molecularizados22, através de uma visão calórica tanto da comida quanto do exercício, da necessidade da restrição de alguns alimentos, substâncias e da suplementação de outras. Alguns entrevistados relataram quantificar o seu consumo diário de macronutrientes e calcular o seu gasto calórico diário de exercício, de modo a gerenciar o peso corporal.
[...] eu conto os meus macro[nutriente]s todos os dias. [...], tento bater as minhas calorias. Eu sei que o meu gasto calórico é mais ou menos de 3 a 4 mil calorias, eu tento ficar ai. [...] Eu tenho um aplicativo e vou lançando lá o que eu como, ele calcula para mim e tal. Mais fácil, eu não preciso ficar contando tudo, eu só jogo lá o que eu como e ele me diz. No final do dia, ele me diz lá, comi muito carboidrato, comi pouco, comi muita proteína (entrevistado Rafael).
Apesar do guia reforçar que a Dieta da Zona pode ser utilizada em diferentes tipos de dieta, seja paleolítica, vegana, orgânica ou fast food, que ela não exige e nem restringe qualquer tipo de alimento, paradoxalmente, em outro momento do documento a dieta paleolítica é a mais recomendada. Kuhn26 reforça tal preferência ao apontar que há certa recorrência, valorização e recomendação da “dieta paleolítica” para a maximização dos resultados no CrossFit, assim como Kerry27 em sua análise em um box de CrossFit na Nova Zelândia.
Tal dieta consiste em carnes magras, vegetais, nozes, sementes e algumas frutas, evitando, assim, açúcares e amidos. É justificada por se aproximar ao que os nossos ancestrais, segundo Kuhn26, comiam e, portanto, associada aos nossos traços genéticos, ou seja, mais “natural”, tendo em vista que as dietas modernas seriam incompatíveis com a nossa genética. O interlocutor André ressaltou essa valoração do resgaste a “comidas de antigamente”. Além da otimização, o guia reforça essa dieta, associada com a atividade física, como meio de evitar doenças, como obesidade, diabetes, hipertensão. Manske e Romano15 igualmente apontam o CrossFit e suas práticas como uma forma de medicalização da vida.
Sabino, Luz e Carvalho,28 ao estudar fisiculturistas, trazem à baila esses discursos, nos quais destacam a importância dada pelos interlocutores à alimentação, sobretudo aos alimentos “brancos” (frango, massa, peixe, clara do ovo, batata, banana), por serem ricos em proteínas e carboidratos. Estes alimentos são considerados indispensáveis para o alcance do aumento da força e da massa muscular. Igualmente nas entrevistas, surgiram adeptos da “dieta do frango com batata doce”, ou seja, alimentos “brancos”, enquanto outros os relativizaram, como Iara:
Então, alimentação acho que é básica para tudo.[...] quando comecei o CrossFit eu perdi esse medo, você gasta tanta energia, tanta caloria lá, que eu volto faminta e como muito mais que comia antes. São duas coisas que mudei, a primeira foi alimentação que eu parei de me preocupar tanto com aquele mito de frango com batata doce e brócolis. Hoje em dia, eu como realmente quando tenho fome e o que tenho vontade. Claro, não vou comer pizza todo dia, não é isso, mas não deixo de comer nada. E a outra, foi parar de me preocupar com balança, porque quando você começa a fazer atividade realmente intensa, pega peso, você ganha músculo e o seu peso dispara. Então, balança foi algo que parei de me preocupar também, porque você tem que gostar do que você olha no espelho.

Como Iara, Hudson relata que come de tudo, pois treina bem. Vale realçar que ambos não competem, pois aqueles que competem apontaram maiores restrições alimentares. A ideia de compensação é subliminar aos depoimentos. Ou seja, se treino pesado, gasto bastante energia, não preciso me preocupar com as calorias que irei ingerir, pois meu corpo estará dentro da conformidade do que é considerado socialmente como belo, produtivo, não havendo desvio moral em comer alimentos mais calóricos. O trabalho físico e a capacidade muscular compensariam e justificariam esse “desvio”. Nota-se que a maioria dos entrevistados apresentava visualmente corpos considerados de baixo percentual de gordura e com musculatura definida, alguns com musculaturas mais sobressalentes, volumosos, e outros mais retilíneos, magros.
Ao abordar os macronutrientes, o guia desconstrói a ideia da gordura como maléfica para a saúde e o desempenho, pois, sabendo modular a sua ingestão, ela é de extrema importância para otimizar o desempenho. Porém, um estudo29 com praticantes de CrossFit do sexo masculino apresentou um perfil de grande ingesta de proteínas e baixo de lipídios pelo grupo, em relação aos valores recomendados pela Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte.
Como em outros trabalhos23,29, neste estudo alguns sujeitos também se referiram à proteína com um maior valor simbólico do que outros macronutrientes, como carboidratos e gorduras. Isso se deve ao fato das proteínas serem fontes de aminoácidos que são substâncias importantes na síntese proteica muscular23,30 e vistos como centrais para o ganho de força e massa muscular.
Outro dado interessante é a compreensão do que é considerado ou não como alimento. Conforme o guia, se “não é algo que poderia ter saído da sua horta ou fazenda e ser consumido uma hora depois, não é comida” (p. 47)19, do mesmo modo não é comida se tem rótulo, se não for perecível e/ou se comprado no perímetro do mercado. Essa ideia do que é alimento ou não foi bastante evidenciada por Marcelle, Rafael e André, na acepção de “comer comida de verdade”, bem como por Pedro, na preocupação em se alimentar com produtos frescos. Como comenta Rafael, “comer bem não é comer saquinho do Mundo Verde de 50 reais, não é isso! Comer bem é comer comida”. Marcelle, não competidora, explica a respeito:
[...] procuro ter uma alimentação super saudável. Então, não tomo refrigerante, não como gordura, não como fritura, para mim, comida de verdade. Então, não fico fazendo lanchinho, estou com fome, como comida. Pode ser 7h da manhã, eu almoço, pode ser 1 h da manhã, como comida, sempre priorizo comer comida do que comer sanduichinhos, lanchinhos e tal. Isso mudou radicalmente minha pele, meu cabelo, sinto que emagreço e engordo muito fácil, porque eu sei ali controlar as calorias e o ritmo da alimentação quando estou comendo muito, quando estou comendo pouco, já consigo sentir isso. Eu acho que é uma fórmula de controlar também, porque a gente é o que a gente come.

Nessa concepção, o que você come ou deixa de comer é uma clara representação de si. Tais práticas bioascéticas envolvem controle e disciplina e são postas como meio de construção dessas identidades e sociabilidades10.
Sabino, Luz e Carvalho28 refletem sobre os diferentes sentidos dados a uma substância de acordo com o contexto social. Os autores relataram uma associação, por parte dos fisiculturistas, da dieta alimentar com o uso de suplementos, em que colocam essas substâncias como análogas ao próprio alimento, assunto que discutiremos a seguir.

O uso de substâncias
Em pesquisa etnográfica com frequentadores de academia de ginástica no Rio de Janeiro, Silva31 realça a ressignificação da suplementação alimentar. Entre praticantes de camadas médias, o autor destaca que, além de ser “um meio de legitimar certo lugar social”, “os suplementos alimentares eram vistos pelos alunos como uma espécie de alimento natural como substitutos dos alimentos ingeridos durante o dia” (p.100)31 e, portanto, da possibilidade da substituição do alimento pelo suplemento.
O uso de suplementos no guia da CrossFit é apresentado como algo desnecessário e de baixo poder nutricional. A única exceção seria a suplementação com óleo de peixe, considerada benéfica pelo guia, pois reduziria a resposta inflamatória no corpo, a partir da melhora da proporção entre ácidos graxos ômega 6 e 3, e por ser a logística para o consumo adequado de ômega 3 inconveniente para a maioria das pessoas.
Contudo, nas entrevistas, foram relatados usos de suplementos alimentares pelos praticantes para além do ômega 3, independente se participavam ou não de competições esportivas. Além disso, esses usos incluem também uma dimensão de sociabilidade, pois há uma troca entre os sujeitos do que tomar ou não. A suplementação surgiu nas entrevistas como usual e essencial na prática corporal, a partir da justificativa ora aliada à saúde, ora como importante para a melhora da performance.
Quanto à legitimidade do uso dessas substâncias32,33, alguns sujeitos enunciaram o uso de suplementos alimentares com base na autoridade científica de profissionais da área biomédica. A partir da justificativa de um acompanhamento médico ou de nutricionista, eles teriam razões de saúde para ingerirem tais substâncias, bem como mais segurança em tomá-los sem grandes riscos ao seu organismo. Como exposto por Pedro, “Suplementar, tomar Whey Protein, eu já tomei, eu acho que fazia parte [...] eu tinha recebido orientação médica para isso[...].”
Segundo Rafael, o fato de ter médicos praticando CrossFit dentro da mesma box facilita nessa dinâmica de disseminação do uso de substâncias, tendo em vista que estariam mais acessíveis, possibilitando uma rede maior de troca de saberes mediado por essa autoridade biomédica. No campo, em observação da box, também encontrei Luiza, uma nutricionista que era praticante e atendia alguns alunos daquela box, conversando com outros praticantes sobre sua dieta alimentar e suplementar.
Embora tenha presenciado conversas e referências jocosas aos suplementos alimentares, na observação participante não percebi o uso explícito dessas substâncias dentro da box, como costuma ser visto no salão de musculação. Alguns até portavam coqueteleiras (garrafas de uso comum para suplementação), mas não era possível ver o produto interno. Costumavam encher a garrafa no bebedouro de água, não as balançando de modo a misturar/diluir as substâncias à água, como mostra o estudo de Silva31, em academias de ginástica.
Nas entrevistas, algumas substâncias foram tratadas como básicas e de uso rotineiro, como o Whey Protein, como comenta Rafael: “o cara nem treina [direito, pesado], mas tá lá tomando Whey”. Esta substância é vista muitas vezes como um suplemento básico e muitos iniciantes a tomam, por vezes, anterior à prática do CrossFit, como se fosse uma “herança” de quando faziam musculação. Além do Whey Protein, outras substâncias foram comumente enunciadas na prática do CrossFit, como os pré-treinos, tomados no intuito de energizar o corpo e dar disposição para o treino, usado tanto por aqueles que treinam de manhã (por vezes, substituindo o café da manhã), como pelos que treinam depois do trabalho. Substâncias como a creatina, glutamina, beta alanina e vitaminas também foram citadas.
Apesar da expressiva valorização social dos alimentos e suplementos, como as proteínas, Hudson pondera que o consumo dessas substâncias não substitui o treinar bem. A seu ver, o consumo sem o devido “gasto” desses nutrientes pode gerar excesso, o que provocaria malefícios ao organismo, bem como um aumento do peso corporal. A aproximação da ideia de saúde com peso corporal pode ser notada em sua advertência sobre ser mais importante o modo como se treina, inclusive para que tais substâncias não comprometam o organismo e não aumentem o peso corporal.
A esse respeito, alguns estudos reforçam a ideia de que o nível de delineamento do que seja uma substância “boa” ou “ruim”, “pura” ou “impura” vai além das características moleculares dessas substâncias. Diferentes significações destes usos destacam a sua dimensão simbólica28,31. Elas podem ser vistas como remédio, através do objetivo de prevenção de doenças; como alimento, ao substituir uma refeição; como estimulante, ao energizar e estimular as práticas corporais e da vida cotidiana; como mercadoria, através de sua comercialização; como forma de distinção e reconhecimento social28,31, ou até como algo desnecessário.
Assim, reforça-se a ideia de que a partir das relações sociais pode se compreender como as substâncias são elaboradas e significadas, bem como a forma que interagem e se modificam no meio social. Vistas como um “fenômeno social”34, algumas substâncias “ganham” poderes especiais35, tornando-se imprescindíveis, ao passo que outras são demonizadas.
Um exemplo de uma substância recorrentemente demonizada são os esteroides anabolizantes. Não há menção dessas substâncias no guia da CrossFit e existem críticas severas a atletas pegos no exame antidoping, como mostra o documentário “The Redeemed and the Dominant - Fittest On Earth”36. No documentário, enfatiza-se a possibilidade de alguns atletas usarem essas substâncias, contudo reforça-se que estes não estão no topo da modalidade, ou seja, não afetam o alto nível.
Contudo, o mesmo documentário retrata o caso do atleta Rick Garard, terceiro colocado no CrossFit Games 2017, pego no exame antidoping. Antes do episódio, o atleta se posicionava sobre o doping:

Eu pessoalmente não conseguiria. [...] Se tomasse ou tivesse tomado, sem dizer a ninguém... Eu não poderia olhar nos olhos do meu irmão ou do meu pai e dizer: Eu conquistei tudo aquilo. [...] Eu não poderia olhar pro meu pai e dizer que venci. Eu o abraçaria e não me sentiria bem. Acabaria comigo.36

O documentário evidencia a desmoralização do atleta por ter “trapaceado” e que sua atitude não fez jus à comunidade CrossFit. O fato de usar esse tipo de substância colocaria em suspenso a real capacidade e glória do praticante pelo resultado alcançado. Como destaca o ex-atleta pentacampeão Matt Fraser:
Então, você está dizendo que competi contra alguém nos jogos, competi contra ele e sei que usou drogas. Vou chamá-lo de cretino. Você não basta... Você não é bom o bastante para participar de cara limpa? Não quer trabalhar, não quer se dedicar? Então suma daqui!36

O debate sobre a carga moral do uso de esteroides anabolizantes e a possibilidade de suspensão do prestígio social acerca do real desempenho também surgiu nas entrevistas. Rafael relatou nunca ter tomado, embora não descarte tal possibilidade. Ele ressalta que geralmente os colegas não externalizam que tomam para outrem, devido ao medo social de contestação das conquistas e prestígio alcançado. Assim, só haveria essa publicização para pessoas que também fazem esse uso.
Rafael sempre é questionado a respeito e muitos não acreditam nele, por conta do seu desempenho superior, destoante aos demais da box. Logo, o prestígio social de cada um não está restrito apenas ao ato de tomar ou não alguma substância, mas também no convencimento dos demais. Para Pedro, há uma propensão no CrossFit das pessoas tirarem o mérito do outro por achar que está ingerindo algum esteroide anabolizante, exemplificada na passagem abaixo:
[...] acho também que há certo preconceito do uso de anabolizante. Então, muita gente que, por conta desse preconceito, tem receio de falar que está usando e, por conta desse preconceito também, tem receio de falar porque está melhorando no CrossFit. Então, tem uma coisa que é o receio por conta de uma questão social, de falar assim ‘mãe, tomei, estou fazendo uso de testosterona’. ‘Meu filho, [...] que absurdo! Você vai morrer!!!’ Sabe, aquela coisa. [...] mas acho que tem também o preconceito, mesmo os dois sendo administrados por médicos, [...] com relação a sua capacidade. Então assim, o cara melhorou muito. Sempre tem aquela pessoa que fala assim ‘Ah, o cara está usando determinada substância’. Então, tem uma coisa de tentar tirar, desmerecer o mérito daquele aluno, daquele colega, por conta do uso de anabolizante. Isso tem no CrossFit [...] O discurso é muito baseado no rendimento. Então, a pessoa tem um ganho [...] ainda mais se você é um pouco mais dedicado. E aí, às vezes esse ganho não necessariamente nos primeiros meses, mas às vezes um ganho de carga, de determinada capacidade ali, ele atualmente é deixado de lado, por conta dessa frase do aluno estar usando determinada substância.

Similarmente, Silva31 discute o uso dessas substâncias ao trazer à tona as diferentes representações dadas ao anabolizante, visto tanto como “remédio”, como também “veneno”, a depender do contexto. O autor averigua que na academia de ginástica em bairro popular, o uso dos anabolizantes é muitas vezes negado, devido ao receio da perda de legitimidade e prestígio social. Tal uso poderia ser entendido como uma quebra das regras vigentes e, logo, representaria um corpo “impuro”, de menor valor simbólico e social. Muitas vezes, a informação do uso real é velada, tendo em vista que é raro os usuários assumirem a utilização dessas substâncias para pessoas de fora ao seu grupo social37. Dentre os entrevistados, apenas Marcos, não competidor, revelou que fez uso de testosterona no intuito de ter um ânimo a mais no treino e sentia diferença na força dos braços. Ele revelou que apesar de não ver problema nos indivíduos tomarem de forma correta, leia-se sob orientação médica, ao contrário do que fez, buscava não se “viciar” na substância, pois a seu ver, muita gente exagera neste uso.
Outras significações podem ser atribuídas à mesma substância, como elucida Silva31 em seu trabalho. O autor constata que, na academia do bairro de classes médias altas, os frequentadores enunciaram de forma positiva esse consumo. Justificavam como uma necessidade médica, a partir da retórica da primordialidade de sua reposição devido a uma deficiência hormonal. Nesse contexto, não haveria um desvio moral das regras31, mas uso de medicamentos que contêm esteroides tidos como legítimos.
Igualmente Mariana, competidora de CrossFit, também se utiliza da retórica do uso de hormônios mediante necessidade endócrina como modo de justificar o seu uso. A partir da legitimidade médica, a praticante tenta evitar uma possível perda de prestígio e capital social, pois não haveria quebra nos valores éticos e morais e nem possibilitaria dúvidas sobre a sua aptidão e conquistas atléticas.
A legitimidade médica parece ser central na construção simbólica da aceitação do uso de anabolizantes no campo, como exemplifica Pedro:
[...] eu também não vejo como um problema [uso de anabolizantes], tá. Porque se for administrado com orientação médica, acho que não tem qualquer problema, porque o médico está ali, olhando o seu exame de sangue e ele vai dizer se você pode ou não administrar aquele determinado esteroide anabolizante.

Outro dispositivo relatado pela interlocutora Marcelle é a propagação do uso do “chip da beleza” (implante subdérmico hormonal) entre mulheres na box que frequenta. Segundo ela, o chip auxiliaria na “velocidade da performance estética corporal”, através de hormônios, como testosterona. Alcançar o ideal de um corpo aprimorado3 e belo, não diz respeito apenas à conformação física, mas também à dinâmica da produção do desempenho desse corpo. Certamente, as exigências sociais são distintas e concepções de masculinidade e de feminilidade interagem nesse universo, mesclando dimensões de força, empoderamento, atração sexual, vitalidade, juventude, reforçando assim essa lógica social sobre a conformação de corpos femininos e masculinos.
Em suma, o dilema entre natural e artificial é recorrente no debate sobre o aprimoramento corporal3. O uso de biotecnologias é ponderado em razão da sua legimitidade social. Por um lado, Rafael critica os usuários de esteroides anabolizantes que o fazem para competirem em “competição de bairro”, pois eles não teriam noção do que é preparação física e treinamento. Por outro, em relação àqueles com alto rendimento, Rafael não vê esse uso como problemático, pois o árduo treinamento definiria o seu desempenho e não a substância.
Conrad3, ao citar Weber, elucida essa questão ao apontar que muitos não acham antinatural e ilegítimo o grande volume muscular dos praticantes de academias. Nessa visão, é a partir do trabalho e da disciplina que a “conquista” desse avantajado volume muscular é possível. Ao contrário dos outros aprimoramentos biomédicos que podem ser vistos como antinaturais, destoantes à ética empregada, que suprimiriam esforço e dedicação para alcançá-lo. Logo, sob essa égide, o corpo seria uma representação externa de uma disposição moral interna.
Marcelle exalta que, ao contrário da academia de ginástica, dentro da box não há qualquer tipo de recomendação por partes dos coaches sobre o uso de substâncias. Assim, em sua visão, ficaria a cargo do próprio indivíduo, através do autoconhecimento da sua performance e do seu corpo, a decisão em procurar um profissional fora da box ou o tipo de recurso que irá utilizar. Contudo, em outro momento ela questiona aqueles indivíduos que estão há algum tempo no CrossFit, mas ainda não apresentam o desempenho esperado. Na sua acepção, há diferentes recursos que o indivíduo pode utilizar para a melhoria corporal. Essa posição contraditória reforça a compreensão de Pedro de que o CrossFit incentiva de forma velada o uso dessas substâncias, tendo em vista a valoração simbólica à busca constante pela superação de si como modo de construção da identidade social.
Nota-se claramente como há um mecanismo de regulação social dentro do CrossFit, exigindo conformidade ao padrão esperado de um praticante, ou seja, ganho de massa corporal e força relativamente rápidos, idealmente sem uso de substâncias, para reforçar o ethos de atleta que subjaz à modalidade.
Torna-se paradoxal confrontar o discurso predominante do esforço pessoal, da “naturalidade” do corpo na autossuperação imposta pela prática, onde o uso de determinadas substâncias invalidaria tal conquista, ao mesmo tempo, se o objetivo proposto não for alcançado, o sujeito sofre críticas, sendo culpabilizado por não acionar os recursos possíveis. Assim, o modo operandi do campo envolve camuflagem, negações e/ou ressignificações de substâncias como esteroides anabolizantes, enquanto substâncias como suplementos alimentares são mais aceitas e vistas como “naturais”, por vezes, substituindo o alimento. Uma lógica competitiva e neoliberal impõe ao sujeito a responsabilidade do que ingerir, ao mesmo tempo em que o cobra caso o êxito não seja alcançado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O aprimoramento corporal no CrossFit implica um árduo gerenciamento dos treinamentos físicos, cotidianos, da alimentação e das dietas de suplementação alimentar, do uso de substâncias adicionais para potencializar a força muscular, a resistência e a performance de atleta, bem como do acompanhamento de experts, sejam médicos, nutricionistas, coachs. Esse ambiente confere legitimidade social aos procedimentos corporais centrais para a valorização e reconhecimento do sujeito no contexto competitivo e neoliberal em que vivemos.2 Assim, o que define algo como natural ou não, legítimo ou não, não é o fenômeno em si, mas o contexto social no qual adquire sentido.3
Alguns aprimoramentos biomédicos aliados ao CrossFit tendem a ser mais aceitos, como as dietas alimentares rígidas e uso de suplementos específicos. Tais práticas associadas ao exercício partilhariam de uma lógica da disciplina e da ética moral meritocrática, na busca da otimização e produção de um corpo socialmente valorizado. Este corpo, muitas vezes, equivale ao valor do indivíduo. Considerando que o CrossFit é uma prática corporal bastante intensa que se busca a superação individual a todo instante, não é ilógico imaginar que o recurso ao uso de substâncias sejam bastante frequentes, sendo vistas como “naturais” e não “ferindo” uma ética em voga, além de ser um modo necessário e legítimo para a melhoria e otimização do desempenho corporal.
Ao abordar o CrossFit sob as lentes da educação do corpo e da biomedicalização, deslinda-se o processo de construção do ethos de atleta entre seus praticantes, a partir de suas concepções e práticas corporais, de cuidados com a saúde e de aprimoramento de si. Como vimos, trata-se de uma prática corporal que preza pela busca do capital de desempenho, através da superação máxima dos limites corporais.

Declaração de Disponibilidade de Dados
As fontes dos dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.

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Baptista, JG, Brandão, ER. EATING, DRINKING, PRACTICING THE CROSSFIT: BODY AND HEALTH ENHACEMENT IN CROSSFIT® PRACTICE. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/May). [Citado em 21/05/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/en/articles/eating-drinking-practicing-the-crossfit-body-and-health-enhacement-in-crossfit-practice/20027



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