O artigo de Gomes, Moreira e Deslandes (1) representa um esforço de síntese e autorreflexão sobre o lugar das ciências sociais no campo da saúde coletiva. Os autores oferecem um convite à discussão sobre a circularidade da pesquisa social em saúde, e provoca um tensionamento com as possibilidades contemporâneas que nos libertem da situação de prisioneiros de um diagnóstico já recorrente: a baixa densidade teórica e a predominância de abordagens qualitativas tradicionais.
A crítica às limitações teóricas da área deve sempre ser acompanhada por esforço mais sistemático de autorreflexão epistemológica, discutindo como o próprio sistema editorial e os critérios de avaliação da produção científica contribuem para reproduzir a superficialidade conceitual que denuncia. Neste sentido, o artigo cumpre uma função importante de balanço e autorreconhecimento, dentro de uma zona de conforto discursiva, com um diagnóstico já amplamente reiterado no campo” na crítica às ciências sociais em saúde. Para romper com isto, consideramos oportuna uma reflexão sobre marcos conceituais, operacionais e metodológicos na pesquisa social em saúde.
Embora o artigo reconheça avanços na diversidade metodológica – etnografias, pesquisa-ação, cartografia, hermenêutica, consideramos que seria um ganho problematizar o modo como essas abordagens têm sido aplicadas, nem sempre acompanhadas de validade conceitual suficiente, ou com níveis heterogêneos de ancoragem teórica. O campo poderia se beneficiar de desenhos mistos; modelagem de redes sociais para investigar desigualdades estruturais; análises de discurso assistidas por inteligência artificial; experimentos de campo e quasi-experimentos em avaliação de políticas; ou ainda análises longitudinais de trajetórias e itinerários de cuidado. Essas abordagens, quando ancoradas em teoria social sólida, não negam o legado qualitativo, mas o expandem, permitindo à saúde coletiva dialogar em pé de igualdade com a antropologia empírica, a ciência política comparada e a sociologia analítica (2).
Além disso, a discussão sobre os marcadores sociais da diferença constitui um ponto forte do artigo. O texto acerta ao defender que as categorias de raça, gênero, geração, território ou deficiência devem ser compreendidas como dimensões de poder e não apenas variáveis de perfil, e isto representa um salto de refinamento aos marcos conceituais mais tradicionais (3). Contudo, é necessário que a crítica supere o plano retórico. No contexto atual, em que as desigualdades em saúde demandam abordagens interseccionais quantificáveis, o diálogo com a estatística, a análise de classes latentes e os modelos de regressão hierárquica poderia oferecer ferramentas para testar empiricamente as interações entre opressões e privilégios. Essa integração metodológica não despolitiza o debate — ao contrário, permite demonstrar de forma mensurável os efeitos estruturais das hierarquias sociais sobre desfechos de saúde.
Num mundo com novo contexto, precisamos de novas perguntas nas ciências sociais em saúde, para enfrentarmos o desafio da superação das práticas metodológicas desprovidas de articulação epistemológica, e obtermos inovação epistemológica. O futuro da pesquisa social em saúde talvez dependa justamente de superar essa clivagem entre o diagnóstico reflexivo e a inovação metodológica — incorporando análises mistas, instrumentos de modelagem social e redes conceituais comparadas que aproximem a saúde coletiva de suas raízes e fronteiras: a antropologia, a sociologia e a ciência política.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Não se aplica.
REFERÊNCIAS
1. Gomes R, Moreira MCN, Deslandes SF. Abordagens teórico-metodológicas e marcadores das diferenças: um olhar para a área de Ciências Sociais em Ciência & Saúde Coletiva. Ciênc saúde coletiva. 2025;30(9):e14702025.
2. Galea S. The future of public health: a vision grounded in data and values. Eur J Public Health. 2025; 35(S2):ii5-ii6.
3. Yang W. Evidence-based social science: why, what, and future implications. Humanit Soc Sci Commun. 2024 ; 11: 1024.
Other languages:
O DESAFIO DO INÉDITO: REPENSAR A PESQUISA SOCIAL EM SAÚDE COLETIVA NO SÉCULO XXI
Abstract(resumo):
Não se aplica.
Keywords(palavra-chave):
Não se aplica.
Content(conteúdo):
O artigo de Gomes, Moreira e Deslandes (1) representa um esforço de síntese e autorreflexão sobre o lugar das ciências sociais no campo da saúde coletiva. Os autores oferecem um convite à discussão sobre a circularidade da pesquisa social em saúde, e provoca um tensionamento com as possibilidades contemporâneas que nos libertem da situação de prisioneiros de um diagnóstico já recorrente: a baixa densidade teórica e a predominância de abordagens qualitativas tradicionais.
A crítica às limitações teóricas da área deve sempre ser acompanhada por esforço mais sistemático de autorreflexão epistemológica, discutindo como o próprio sistema editorial e os critérios de avaliação da produção científica contribuem para reproduzir a superficialidade conceitual que denuncia. Neste sentido, o artigo cumpre uma função importante de balanço e autorreconhecimento, dentro de uma zona de conforto discursiva, com um diagnóstico já amplamente reiterado no campo” na crítica às ciências sociais em saúde. Para romper com isto, consideramos oportuna uma reflexão sobre marcos conceituais, operacionais e metodológicos na pesquisa social em saúde.
Embora o artigo reconheça avanços na diversidade metodológica – etnografias, pesquisa-ação, cartografia, hermenêutica, consideramos que seria um ganho problematizar o modo como essas abordagens têm sido aplicadas, nem sempre acompanhadas de validade conceitual suficiente, ou com níveis heterogêneos de ancoragem teórica. O campo poderia se beneficiar de desenhos mistos; modelagem de redes sociais para investigar desigualdades estruturais; análises de discurso assistidas por inteligência artificial; experimentos de campo e quasi-experimentos em avaliação de políticas; ou ainda análises longitudinais de trajetórias e itinerários de cuidado. Essas abordagens, quando ancoradas em teoria social sólida, não negam o legado qualitativo, mas o expandem, permitindo à saúde coletiva dialogar em pé de igualdade com a antropologia empírica, a ciência política comparada e a sociologia analítica (2).
Além disso, a discussão sobre os marcadores sociais da diferença constitui um ponto forte do artigo. O texto acerta ao defender que as categorias de raça, gênero, geração, território ou deficiência devem ser compreendidas como dimensões de poder e não apenas variáveis de perfil, e isto representa um salto de refinamento aos marcos conceituais mais tradicionais (3). Contudo, é necessário que a crítica supere o plano retórico. No contexto atual, em que as desigualdades em saúde demandam abordagens interseccionais quantificáveis, o diálogo com a estatística, a análise de classes latentes e os modelos de regressão hierárquica poderia oferecer ferramentas para testar empiricamente as interações entre opressões e privilégios. Essa integração metodológica não despolitiza o debate — ao contrário, permite demonstrar de forma mensurável os efeitos estruturais das hierarquias sociais sobre desfechos de saúde.
Num mundo com novo contexto, precisamos de novas perguntas nas ciências sociais em saúde, para enfrentarmos o desafio da superação das práticas metodológicas desprovidas de articulação epistemológica, e obtermos inovação epistemológica. O futuro da pesquisa social em saúde talvez dependa justamente de superar essa clivagem entre o diagnóstico reflexivo e a inovação metodológica — incorporando análises mistas, instrumentos de modelagem social e redes conceituais comparadas que aproximem a saúde coletiva de suas raízes e fronteiras: a antropologia, a sociologia e a ciência política.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Não se aplica.
REFERÊNCIAS
1. Gomes R, Moreira MCN, Deslandes SF. Abordagens teórico-metodológicas e marcadores das diferenças: um olhar para a área de Ciências Sociais em Ciência & Saúde Coletiva. Ciênc saúde coletiva. 2025;30(9):e14702025.
2. Galea S. The future of public health: a vision grounded in data and values. Eur J Public Health. 2025; 35(S2):ii5-ii6.
3. Yang W. Evidence-based social science: why, what, and future implications. Humanit Soc Sci Commun. 2024 ; 11: 1024.
How to
Cite
Guimarães, RM, Moreira, MR. O DESAFIO DO INÉDITO: REPENSAR A PESQUISA SOCIAL EM SAÚDE COLETIVA NO SÉCULO XXI. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/Mar). [Citado em 13/03/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/en/articles/o-desafio-do-inedito-repensar-a-pesquisa-social-em-saude-coletiva-no-seculo-xxi/19942