Abstract(resumo):
Esta resenha analisa criticamente o guia Early diagnosis of cancer in children and adolescents: Interactive quick reference guide, publicado pela Organização Pan-Americana da Saúde em 2025, no âmbito da Iniciativa Global para o Câncer Infantil (GICC) e do marco estratégico CureAll. O documento propõe instrumentos práticos para o reconhecimento precoce de sinais e sintomas suspeitos de câncer infantojuvenil, classificação de urgência clínica e organização de fluxos assistenciais entre a atenção primária e os serviços especializados. A obra articula fundamentos clínicos, operacionais e de saúde pública, incorporando abordagem estratificada por cores para priorização diagnóstica, protocolos baseados em evidências e recomendações voltadas ao fortalecimento das redes de atenção oncológica pediátrica, especialmente em contextos de baixa e média renda. À luz da Saúde Coletiva, o guia dialoga com os princípios da equidade, integralidade e organização regionalizada dos sistemas de saúde, contribuindo para a redução de atrasos diagnósticos, mortalidade evitável e iniquidades no acesso ao cuidado. Destaca-se ainda sua relevância estratégica para a América Latina e o Caribe, onde persistem marcantes desigualdades nos desfechos do câncer infantojuvenil. Conclui-se que o guia constitui ferramenta técnico-política de alta aplicabilidade para gestores, profissionais de saúde e formuladores de
Keywords(palavra-chave):
Câncer infantil; Diagnóstico precoce; Redes de atenção à saúde; Oncologia pediátrica; Saúde pública; Equidade em saúde.
Content(conteúdo):
A obra Early diagnosis of cancer in children and adolescents: Interactive quick reference guide, publicada pela OPAS em 20251, em colaboração com o St. Jude Children’s Research Hospital, representa um aporte global essencial ao enfrentamento ao câncer infantojuvenil. Trata-se de um guia técnico interativo, com 44 páginas, integrado à Global Initiative for Childhood Cancer, que reúne ferramentas práticas para identificação precoce de sinais de alerta, classificação de urgência e definição de fluxos de encaminhamento.1
A proposta articula saberes clínicos, operacionais e de saúde pública em linguagem acessível e orientada à ação. O guia integra o pacote técnico da Iniciativa Global para o Câncer Infantil (GICC), liderada pela OMS e operacionalizada por meio da estrutura estratégica CureAll2. O modelo visa fortalecer sistemas de saúde ao longo do continuum do cuidado, reduzindo desigualdades e melhorando desfechos clínicos2.
O CureAll é sustentado por quatro pilares fundamentais (Centros de excelência e redes de cuidado, Cobertura universal de saúde, Protocolos otimizados para a prestação de serviços de diagnóstico e tratamento de qualidade, Avaliação e monitoramento), além de três facilitadores essenciais: Advocacy, Financiamento estratégico e Governança articulada2. Esse arcabouço orienta soluções contextualizadas e sustentáveis para acelerar o diagnóstico precoce, ampliar o acesso ao tratamento e mitigar os efeitos adversos especialmente em contextos de baixa disponibilidade de recursos2,3.
Em resposta às persistentes desigualdades em oncologia pediátrica, a OPAS, em colaboração com o St. Jude e parceiros regionais, prioriza ações para melhorar os desfechos do câncer infantojuvenil na América Latina e Caribe2-4. Como parte da implementação acelerada da GICC, foram desenvolvidos recursos técnicos culturalmente sensíveis e alinhados ao modelo CureAll, incluindo este guia interativo de referência rápida3-4.
Partindo do pressuposto de que o diagnóstico precoce é condição sine qua non para aumentar a sobrevida e reduzir morbidades, o guia reafirma a meta global da OMS: alcançar sobrevida mínima de 60% até 2030 em todos os países, inclusive nas Américas2,5. Para isso, enfatiza-se a capacitação permanente, a padronização de protocolos de triagem, o reconhecimento precoce dos sinais de alerta e a articulação com serviços especializados.
O câncer infantojuvenil representa entre 1% e 4% das neoplasias na maioria dos países, podendo alcançar até 10% da carga oncológica total em contextos com maior proporção populacional pediátrica, especialmente em países de baixa e média renda6-7. Enquanto em países de alta renda até 80% dos casos podem ser curados, nas regiões de menor renda crianças têm quase quatro vezes mais risco de morrer, devido ao diagnóstico tardio, barreiras de acesso e ausência de cuidados de suporte adequados5-8.
Nesse cenário, o guia da OPAS é particularmente estratégico ao oferecer ferramentas práticas para reconhecer sinais e sintomas suspeitos, classificar a urgência e promover o encaminhamento célere aos serviços especializados. Ao qualificar equipes multiprofissionais da atenção primária à especializada, contribui-se para salvar vidas e reduzir os danos físicos, emocionais e sociais decorrentes do diagnóstico tardio.4,5,9
Na introdução, o guia destaca o diagnóstico precoce como pilar das políticas públicas em oncologia pediátrica. Ao reconhecer a heterogeneidade estruturais dos sistemas de saúde, propõe uma abordagem prática baseada em sinais clínicos e em níveis de probabilidade. Os sintomas são organizados em três cores—vermelho (emergência), amarelo (prioridade) e verde (programado)—, orientando a ação imediata e reduzindo a variabilidade decisória.
O conteúdo do guia é organizado em seções claras: tipos prevalentes de câncer, sinais e sintomas, critérios de classificação, testes diagnósticos complementares e materiais de apoio. A categorização de sintomas neurológicos, hematológicos e abdominais orienta desde a anamnese/exame físico até a referência especializada. Sinais como cefaleia progressiva noturna, massa abdominal palpável ou linfadenomegalia inexplicada acionam protocolos com prazos definidos, evitando atrasos críticos que pioram desfechos clínicos.
Além da aplicabilidade clínica, o guia apresenta elementos para fortalecer as redes de atenção e integrar diferentes níveis de complexidade. Ao orientar fluxos da atenção primária aos serviços especializados de hematologia-oncologia pediátrica, qualifica práticas profissionais e reduz iniquidades no acesso ao diagnóstico. Em contextos de alta carga de doença e recursos limitados, como em muitos países da América Latina e Caribe, esse enfoque é particularmente a estratégico.
Do ponto de vista da Saúde Coletiva, o guia alinha-se aos princípios de equidade, integralidade e resolutividade, sendo também ferramenta potente para a vigilância epidemiológica e a avaliação de desempenho dos sistemas. Os indicadores sugeridos permitem monitorar tempo até o diagnóstico, início do tratamento e taxa de encaminhamento correto. Destaca-se o papel ativo dos profissionais da OPAS e dos parceiros na elaboração do material, contribuindo para sua legitimação junto aos países-membros.
Em síntese, este guia interativo da OPAS representa um marco para as Américas na implementação da GICC. Ao integrar recomendações baseadas em evidências, fluxos clínicos práticos e ferramentas de capacitação, fortalece os sistemas de saúde para respostas oportunas e equitativas ao câncer infantojuvenil. Seu lançamento foi oportuno no Brasil, que em junho de 2024, relançou a iniciativa nacional CureAll Brasil, em parceria entre o Ministério da Saúde, OPAS/OMS e o Hospital de Amor, durante o seminário “Brasil contra o Câncer Juvenil” realizado em Brasília10. O objetivo é aumentar as taxas de sobrevivência de crianças e adolescentes com câncer, por meio de estratégias voltadas à ampliação do diagnóstico precoce, garantir acesso ao tratamento de qualidade e implementar cuidados paliativos integrais10, reduzindo desigualdades regionais e fortalecendo redes oncológicas pediátricas, sinalizando uma convergência entre agendas globais e prioridades nacionais. Nesse contexto, o guia configura recurso técnico essencial para gestores, profissionais e formuladores de políticas, contribuindo para salvar mais vidas e oferecer atenção integral, resolutiva e centrada nas especificidades da população pediátrica oncológica.
Com clareza, rigor técnico e aplicabilidade prática, o guia oferece diretrizes clínicas e visão estratégica para o fortalecimento das redes de atenção oncológica. Sua adoção pode contribuir para superar desigualdades e construir sistemas de saúde mais responsivos às reais necessidades de crianças e adolescentes com câncer.
Referências
1. Pan American Health Organization. Early diagnosis of cancer in children and adolescents: Interactive quick reference guide. Washington, D.C.: PAHO; 2025. Available from: https://doi.org/10.37774/9789275129906
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9. Lima RAG, Maia EBS, Lopes-Júnior LC. Global initiative for childhood cancer and the practice of pediatric oncology nursing in Latin America and the Caribbean. Ciênc Saúde Colet. 2023;28:2455–7.
10. Ministério da Saúde. Brasil relança iniciativa CureAll e reafirma compromisso no combate ao câncer infantojuvenil. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 [acesso em 14 jul 2025]. Disponível em: https://cee.fiocruz.br/?q=Brasil-relanca-iniciativa-Cure-All-compromisso-no-combate-ao-cancer