0098/2026 - HOMOSSEXUALIDADE E SAÚDE: Reflexões sobre o acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior HOMOSEXUALITY AND HEALTH: Reflections on gay men’s access to health services in inland cities
Este artigo propõe uma reflexão sobre o acesso de homens gays aos serviços de saúde em cidades do interior, a partir de uma perspectiva ensaística de natureza teórico crítica. Considerando a homossexualidade como uma masculinidade subordinada à masculinidade hegemônica, o estudo problematiza os atravessamentos sociais, culturais e territoriais que produzem invisibilidade, silenciamentos e barreiras no acesso dessa população aos serviços de saúde. A análise fundamenta se em revisão da literatura sobre masculinidades, homossexualidade e saúde integral, articulada à discussão sobre interioridade e dinâmicas territoriais. Evidencia se que, embora a Política Nacional de Saúde Integral LGBT represente um avanço importante, sua efetivação permanece limitada, especialmente em municípios de pequeno e médio porte, onde o conservadorismo intensifica barreiras simbólicas e institucionais ao cuidado. Observa se, ainda, a centralidade histórica das ações voltadas ao HIV/Aids, que contribui para a redução das demandas de saúde dos homens gays. Conclui se que o acesso à saúde configura se como uma experiência marcada por desigualdades, estigmatização e relações de poder, apontando para a necessidade do fortalecimento de políticas e práticas comprometidas com a equidade e o reconhecimento da diversidade.
Palavras-chave:
Acesso à saúde; Homossexualidade; Cidades do interior; Saúde Integral.
Abstract:
This article proposes a reflection on gay men’s access to health services in small and medium sized inland cities, based on an essayistic perspective of a critical theoretical nature. Considering homosexuality as a masculinity subordinated to hegemonic masculinity, the study problematizes the social, cultural and territorial intersections that produce invisibility, silencing, and barriers to this population’s access to health services. The analysis is grounded in a literature review on masculinities, homosexuality and comprehensive health, articulated with discussions on interiority and territorial dynamics. We can observe that, although the Brazilian National Policy for Comprehensive LGBT Health represents an important advance, its implementation remains limited, especially in small and medium sized municipalities, where conservatism reinforces symbolic and institutional barriers to care. The historical centrality of HIV/AIDS focused actions is also observed, contributing to the reduction of the perceived complexity of gay men’s health demands. We conclude that access to health care is an experience marked by inequalities, stigmatization, and power relations, highlighting the need to strengthen policies and practices committed to equity and the recognition of sexual diversity.
Keywords:
Access to Health Care; Homosexuality; Inland Cities; Integral Health.
Conteúdo:
Introdução
A homossexualidade está relacionada a uma das diversas variabilidades de orientação afetivo-sexual, a qual envolve não somente as relações interpessoais, mas sim uma identidade socialmente construída em torno da subjetividade e da forma com a qual determinados homens se percebem e se posicionam no mundo. Isso significa dizer que o universo da homossexualidade é muito mais vasto do que as relações sexuais, que não definem, por sua vez, que determinados homens sejam gays.
Também é recorrente a ideia da homossexualidade como uma forma não legítima de masculinidade, ou ainda, como sua negação. Essas representações estão associadas à ideia de menor valor atribuída a todas as formas de existência que se afastam do modelo de sujeito universal, que enaltece aspectos como a cisgeneridade, a branquitude e a heterossexualidade. Nesse contexto, Connell1 nos apresenta a ideia de masculinidade hegemônica, vinculando a ela a ideia de outras masculinidades, que são postas, então, como subordinadas.
As masculinidades subordinadas são posicionadas num lugar de sujeição, onde o mundo é estruturado sem levar em consideração os atravessamentos de marcadores sociais que estabelecem vulnerabilidades. Nesse contexto estão as políticas públicas construídas em torno de uma idealização do que é ser homem e, consequentemente, elas promovem o afastamento daqueles que não estão ali contemplados.
Exemplo disso é a dificuldade de acesso de homens trans e pessoas transmasculinas aos serviços de saúde e da efetivação do processo transexualizador, que a todo tempo é colocado como algo de menor importância para a saúde pública. Da mesma forma, os homens gays também podem ser excluídos dos serviços de saúde, uma vez que, mesmo existindo a Política Nacional de Saúde Integral LGBTI (PNSI-LGBT), as representações em torno da saúde de homens gays ficam restritas ao tratamento e prevenção da Aids e de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
É mister considerar que a realidade social vivenciada pelos homens gays também não é algo uniforme, o que faz com que, à medida que os marcadores sociais se interseccionam, determinados indivíduos fiquem ainda mais excluídos que outros. Trazendo para a reflexão deste artigo a interioridade como um atravessamento que promove diferenças na produção da subjetividade dos homens gays, ela também influi no acesso desses sujeitos às políticas de saúde. E isso fica muito evidente na atenção oferecida à saúde nos serviços do interior do país.
Este artigo objetiva refletir sobre a homossexualidade no contexto de cidades do interior, destacando de que forma esse contexto sociocultural estabelece barreiras de acesso de homens gays aos serviços de saúde. O caminho adotado nessa reflexão baseia-se na perspectiva ensaística, entendendo-a como um exercício crítico-exploratório acerca de um tema ou objeto de meditação.2 Nesse caminho, inicialmente, discutimos aspectos relacionados aos temas: homossexualidade como masculinidade subordinada; homossexualidade e saúde integral; e cidades do interior, injurias e silenciamentos. A partir dessa discussão, procuramos refletir sobre o acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior.
Homossexualidade como Masculinidade Subordinada
Connell et al.3 afirmam que a importância da masculinidade hegemônica está no seu caráter normativo, ou seja, na incorporação da “forma mais honrada de ser homem” que exige que todos os outros se posicionem em relação a ela. É sob essa “convenção” que os homens são forjados desde a infância, sendo mensurados e comparados entre si, buscando formas para se distanciar dos comportamentos que se assemelham aos das mulheres e da feminilidade.1, 4
Nessa vertente, a masculinidade se constitui a partir da posição dos homens na estrutura das relações de gênero. Essa hierarquização estabelece relações de poder, nas quais as masculinidades subordinadas são posicionadas num lugar menor, o que faz que os sujeitos busquem se aproximar desse modelo, como forma de provar que são homens de verdade.1, 4
Os gays se localizam nesse lugar de subordinação pela masculinidade, mas também são situados em um lugar de privilégio, por exemplo, em relação à população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queer, Intersexos, Agêneros, Assexuais e outras identidades de gênero e orientações afetivo-sexuais não hegemônicas (LGBTQIA+). Nesse sentido, a masculinidade produz deslocamentos que proporcionam vulnerabilidades, mas também concedem poder a esses mesmos sujeitos pelo fato de serem homens.
Desde os marcos iniciais da trajetória do movimento social LGBTI+, a homossexualidade tem ocupado lugar central, sobretudo sedimentando hierarquias de gênero dentro do próprio grupo social menorizado, a população LGBTQIA+. A homossexualidade diz respeito a um tipo de orientação afetivo-sexual por muito tempo utilizada para se referir a todo esse grupo de sujeitos marginalizados por suas formas de existir.
Apesar dos avanços e modificações nas siglas, os gays ocupam, historicamente, a centralidade e o protagonismo desse grupo social, onde ficam nítidos os privilégios que lhes são atribuídos socialmente e naturalmente pela masculinidade. Os gays também sofrem violências e outras violações, embora a masculinidade lhes proporcione certas vantagens no contexto de uma masculinidade subordinada.1
Parker5 sugere que a homossexualidade é forjada em um campo complexo de dominação, em que as possibilidades de transformação, a liberdade de movimento de indivíduos ou grupos, as escolhas ou opções abertas por diferentes sistemas culturais são simultaneamente formadas e moldadas por relações de poder. O autor reflete sobre a questão da atividade versus passividade na hierarquização dos sujeitos homossexuais, apontando que a ênfase cultural nas relações de poder parece ser colocada não apenas nas práticas sexuais, mas também entre as práticas sexuais e papéis de gênero, principalmente, na distinção da atividade masculina percebida e da passividade feminina na organização da realidade sexual.5
Sobre relações de poder, que Eribon6 contribui com elementos relativos à sujeição, dizendo que a homossexualidade não designa apenas uma classe de indivíduos por preferências sexuais, mas também por um conjunto de processos de sujeição coletivos e individuais, em que o sujeito homossexual sempre tem uma história singular relacionada com o coletivo, constituído por outros sujeitos, também sujeitados pelo mesmo processo de inferiorização.
O que ambos os autores apresentam sinaliza que, muito embora os relacionamentos entre gays sejam compostos por dois homens, há uma hierarquia de gênero, representada tanto pelo ato sexual quanto pelos papéis sociais desempenhados por cada um dentro dessa interação. Significa dizer que é possível visualizar a relação de subordinação estabelecida a partir da maior aproximação de um dos dois em relação ao modelo de masculinidade hegemônica.
Eribon6 aponta ainda que os gays são interpelados, desde pequenos, pelo choque de injúria. São piadas, fofocas, acusações e insultos que funcionam como uma espécie de veredito ditado sobre a produção de subjetividades desses corpos, que passam, entretanto, a se perceberem como desajustados na sociedade e, consequentemente, a rejeitar sua orientação afetivo-sexual. Justamente a partir das injúrias é que se estabelece um cenário de confusão e incertezas que paira sobre os gays desde a infância. Por um lado, são empurrados para um conjunto de dogmas sobre como devem existir para serem aceitos. Por outro lado, são insultados e têm as expressões de suas subjetividades utilizadas como instrumento de julgamento que também sinalizam sobre “como não se deve ser”.
Trata-se de um processo socialmente violento que corrobora para a rejeição da homossexualidade como uma orientação afetivo-sexual possível, e os sujeitos tentam negá-la e escondê-la o máximo possível. Ainda assim, conforme aponta Eribon6, o que diferencia os gays das outras pessoas é o fato de que, em algum momento da vida, eles se depararão com a questão de dizer ou não dizer que são gays. Nessa perspectiva, além de lidar com as injúrias, essas pessoas sentem-se pressionadas a enunciar sua homossexualidade como uma espécie de ritual necessário para a legitimação de sua existência na sociedade.7, 8
Por se encontrarem isolados e sem apoio, os homossexuais experimentam, com muito mais frequência que outros jovens, depressões e tentativas de suicídio.9 Significa dizer que os gays, para conseguirem viver plenamente sua homossexualidade, precisam construir sua própria independência, pois assim terão condições de confrontar as injúrias, amadurecer e adquirir sua própria autonomia. O que, contraditoriamente, corresponde a uma característica da masculinidade hegemônica.1
As redes de apoio aos gays também são quase inexistentes porque estes têm pouco com quem contar. Assim, seus espaços de sociabilidade vão se constituindo dentro de cenários heteroflexíveis, ou ainda, a partir da fuga para a cidade, quando há deslocamentos e migrações, para que possam vivenciar sua homossexualidade em cenários distantes dos que sempre os injuriaram.6, 9
Homossexualidade e Saúde Integral
A ideia de Saúde Integral ficou instituída com a implementação da PNSI-LGBT em 2011. A política surgiu em resposta às pressões, lutas e reivindicações dos movimentos sociais, principalmente no que diz respeito ao enfrentamento do estigma da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids). Por isso, urge lembrar do movimento social que pavimentou os caminhos para as políticas públicas voltadas para esse público.
Com registros iniciais marcados pela Revolta de Stonewall Inn, é possível dizer que o movimento social começou a se estruturar entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970. Mas a história desse grupo vem de tempos anteriores, o que é pouco publicizado e acaba por promover o apagamento da memória LGBTQIA+.10
Cabe considerar que, no Brasil, esse período, entre as décadas de 1960 e 1970, se encontrou atravessado pela ditadura militar. Facchini11 representa a trajetória do movimento social LGBTQIA+ brasileiro a partir de três ondas. A primeira marcada pelo surgimento e pela expansão do movimento durante o período de abertura política, no fim da década de 1970. Foi em 1978 que surgiu o Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), mais tarde denominado Grupo Somos – Grupo de Afirmação Homossexual.10,11
A segunda onda, de acordo com Facchini11, correspondeu à primeira metade dos anos 1980, marcada pelo “declínio” do movimento. Nesse período vivenciou-se a epidemia da Aids associada a práticas da homossexualidade. A doença passou a ser chamada de câncer gay (ou peste gay), provocando significativo aumento na discriminação contra sujeitos LGBTQIA+. Houve então a necessidade de articulação mais expressiva dos movimentos sociais e investimento no diálogo e na construção de estratégias de desestigmatização junto ao governo brasileiro.
Também esse período foi palco do primeiro Encontro Brasileiro de Homossexuais – um marco da organização do movimento em escala nacional – e de dois “rachas” no Grupo Somos, o que acabou por dividi-lo em três: o Grupo Somos, o Grupo (de Ação) Lésbico-Feminista (Galf), o Grupo de Ação Homossexualista, rebatizado de Outra Coisa.11
O fim da ditadura e o processo de redemocratização consolidado pela Constituição Federal de 1988 foram o marco da terceira onda, que se iniciou na década de 1990 e ficou caracterizada pelo reflorescimento das iniciativas militantes.12 Também, à época, ocorreu a retirada da homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), o que representou um caminho para o enfrentamento ao estigma de tratá-la como doença.13
Apesar de o marco da despatologização ter ocorrido em 1990, foi em 1999 que o Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou a proibição de terapias de conversão sexual por parte dos profissionais da área, colocando fim às práticas de “cura gay”. Na resolução, o CFP reforçou que os psicólogos deveriam contribuir para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentassem comportamentos ou práticas homoeróticas/homoafetivas.14
Em 2004, o Governo Federal recebeu, no Ministério da Saúde, um grupo de pessoas transexuais e travestis para o lançamento da campanha Travesti e Respeito, a primeira iniciativa contra transfobia e travestifobia no país, dando origem ao Dia Nacional de Visibilidade Trans e Travesti. Em 29 de janeiro do mesmo ano, o país passou a implementar o Programa Brasil Sem Homofobia, uma política pública a ser implementada também por estados e municípios no enfrentamento à discriminação e à homofobia.15
Em 2008, ocorreu o grande marco para esse segmento: a realização da primeira Conferência Nacional LGBT, caracterizando a consolidação da democracia pela participação popular e adoção de propostas que direcionaram a implementação de políticas públicas. Nessa conferência, o Ministério da Saúde submeteu ao debate os princípios da PNSI-LGBT, na intenção de legitimá-los como expressão das necessidades de saúde do segmento aqui mencionados.16
Os debates da conferência acrescidos das discussões relativas à epidemia da Aids, impulsionaram a criação da PNSI-LGBT, em 2011, com o propósito de fortalecer o atendimento a pessoas LGBTQIA+ nos espaços de saúde, garantir o respeito e a não discriminação por orientação afetivo-sexual e identidade de gênero, bem como a oferta de cuidados específicos para lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans e travestis.
Embasada nos princípios assegurados na Constituição Federal e no programa Brasil Sem Homofobia, a PNSI-LGBT estabeleceu um novo marco para a garantia da cidadania e da dignidade das pessoas LGBTQIA+, assumindo como pressuposto central desenvolver a saúde integral da população LGBTQIA+ e eliminar o preconceito e discriminação institucional por meio de ações estratégicas para os níveis federal, estadual e municipal.17
A PNSI-LGBT também fortaleceu a inserção da orientação afetivo-sexual e da identidade de gênero considerando a maior a vulnerabilidade da população LGBTQIA+. A política ainda sinalizou a necessidade do reconhecimento das condições sociais evidentes no sofrimento e de doença e ressaltou que a discriminação e o preconceito contribuem para a exclusão social.16
No caso dos gays, a política apontou a maior vulnerabilidade ao Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), associando-a diretamente à homofobia e segregação à qual estão expostos, especialmente os mais jovens. Sinalizou que a impossibilidade de manifestar sua orientação sexual no interior da família e nos locais públicos define para os gays o destino do exercício clandestino da sexualidade. Também evidenciou a maior exposição à mortalidade vivenciada por esses sujeitos.16
A mudança de cenário político interferiu diretamente no processo de conquistas. A partir do Golpe de 2016 e, consequentemente, da eleição de um governo extremista, que tinha por defesa o conservadorismo religioso, iniciou-se um período de grandes retrocessos, iniciado pela extinção do Conselho Nacional de Combate à Discriminação contra LGBT (CNCD/LGBT), seguido pela revogação da convocação e não realização da quarta conferência nacional.18
Em 2020, com a ocorrência da pandemia do vírus SARS-CoV2, conhecido popularmente por Covid-19, a vida dos brasileiros foi marcada por altos índices de mortalidade (entre 2020 e 2022, principalmente), até que se instituíram vacinas e outras estratégias de prevenção e cuidado.19 A pandemia resultou na obrigatoriedade do isolamento social que, além do adoecimento físico, para grande parte da população, gerou pânico, sofrimento e adoecimento mental.
Cidades do interior, Injúrias e Silenciamentos
Tratar da homossexualidade remete à necessidade de compreendê-la por lentes interseccionais, e de marcadores sociais de raça, gênero, deficiência, geração, território, orientação sexual/sexualidade, etnia.
Frente às diversas nuances que envolvem a homossexualidade masculina, elegeu-se como foco de análise o atravessamento entre orientação sexual e território. A territorialidade permite compreender as diferenças entre os modos de vida de gays em grandes cidades e em cidades do interior. As cidades do interior costumam ser socialmente representadas como espaços marcados por maior conservadorismo e vigilância social, imagens que não apenas produzem estigmas territoriais e também influenciam na regulação dos corpos e na preservação da masculinidade hegemônica.
Domingues e Gontijo20 apontam que as imagens construídas acerca da expressão “interior” produzem um estigma tanto em relação a essa expressão, quanto no que se refere às pessoas e às suas relações em territórios vistos como interioranos. Isso ocorre, principalmente, por meio dos discursos daqueles que estão em posições privilegiadas nas relações de poder e dominação oriundos das metrópoles e grandes centros urbanos.
Feitosa et al.21 afirmam que, além dos aspectos culturais, sociais e políticos da sexualidade, as dimensões de desenvolvimento social e econômico também pesam desfavoravelmente contra o interior e também afetam a população LGBTQIA+, tendo em vista que a presença nas capitais de boas escolas, faculdades, universidades, teatros, shows, apresentações culturais faz muita diferença.
Dessa forma, as existências gays em cidades do interior são marcadas pela constante sensação de uma vida sufocante, onde não se pode ser quem se é. As políticas de masculinidade operam de forma ainda mais contundente e o controle dos corpos é mais intenso. Assim, as masculinidades são aferidas não somente pelos outros homens, como por toda a cidade, depositando uma cobrança sobre os meninos, em torno de provarem sua virilidade e a insistência em se tornarem homens.1, 4
Essa vida sufocante provoca sentimentos de inferioridade nos gays, que passam a querer fugir de tamanho assédio e nutrir o desejo de migrar para as capitais em busca de constituir sua subjetividade. A fuga para a cidade surge como estratégia de driblar as injúrias e construir novas formas de sobrevivência.21, 6
Uma característica da vida sufocante do interior diz respeito a ausência de espaços de sociabilidade, criando a dificuldade de sentir-se pertencido a uma comunidade de iguais, prejudicando a autoestima. Essas situações ocorrem porque as experiências sexuais e afetivas são permeadas por estigmas e repressão, alimentadas por religiosidades conservadoras e por padrões morais que apontam a vida sexual como algo clandestino.21
Santos et al.22 apontam que as práticas homoeróticas, em muitas cidades do interior, são muito mais monitoradas, reguladas e cerceadas por um elemento que a maioria dos moradores desses lugares conhece: as dinâmicas de sociabilidade são atravessadas por forte proximidade relacional, o que pode resultar em maior vigilância social, redução do anonimato e controle moral e, consequentemente, a quase impossibilidade do anonimato ou de condutas consideradas desviantes.
Acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior
Ao tratar das cidades do interior, é fundamental reconhecê-las como espaços heterogêneos, atravessados por diferentes histórias, arranjos socioculturais e formas de organização das relações sociais, evitando compreendê-las como um território homogêneo. Frente às injúrias, à intensa vigilância e ao controle exercidos no contexto de muitas cidades do interior, é mister refletir que, para além de influenciar na produção de subjetividade, esses atravessamentos também interferem no acesso dos sujeitos gays aos serviços de saúde.
Isso porque, nessas cidades, é comum que os profissionais de saúde também sejam os familiares e vizinhos de quem acessa os serviços. A interioridade, mais do que uma localização geográfica, opera como marcador social que estrutura relações de poder, produzindo normativas específicas sobre gênero, sexualidade e pertencimento, especialmente quando articulada a contextos de baixa diversidade institucional e restrita circulação simbólica.
Além disso, também há outros fatores que promovem esses distanciamentos, relacionados às representações sobre a masculinidade que pregam a virilidade e a força como sinônimo de saúde, fazendo com que haja uma cultura de distanciamento de homens aos cuidados com a saúde. Sob essa perspectiva, muitos homens acreditam que procurar os serviços de saúde pode significar demonstração de fraqueza ou ainda indicar que está sendo menos homem.
Esses aspectos, quando relacionados aos homens gays, são ainda mais exacerbados. Isso acontece porque os gays também são afetados pelos ditames da masculinidade, ainda que sejam considerados subordinados à masculinidade hegemônica.1 Em relação à territorialidade, esse marcador também atravessa, significativamente, esse acesso aos serviços, onde essa intersecção entre os marcadores sociais os coloca ainda mais expostos a vulnerabilidades.
Um dos principais pontos que corroboram para esse afastamento dos serviços de saúde é o medo de revelar-se gay num ambiente em que há pessoas conhecidas e com quem convivem diariamente. Os processos de coming-out (em português, “sair do armário”) em cidades do interior podem ocorrer de formas muito complexas e, ao mesmo tempo, as injúrias já denunciam orientações afetivo-sexuais de muitos gays. Assim a revelação da homossexualidade pode assumir a forma de uma confissão pública, que, para muitos sujeitos, pode ter representação de medo.6,7
Nessa vertente, essa ideia de “comunidade”, que aparentemente é mais fortalecida nos interiores, embora se apresente como um conceito que remete à ideia de proteção, de identificação, de agrupamento, de colaboração mútua entre pares de uma mesma localidade, é também território de violência contra esses sujeitos, onde é natural que as pessoas se conheçam e muitas vezes não haja respeito à privacidade.21
Há ainda que se considerar a cisheteronormatividade que opera de modo a não considerar as especificidades dos sujeitos LGBTQIA+ nos serviços de saúde e que, a todo tempo remontam ao estigma da associação entre a homossexualidade e o HIV/Aids. Assim, no imaginário coletivo das cidades do interior, ao buscar atendimentos nos serviços de saúde, ainda há uma ideia de suspeita ou de que possa ser uma pessoa vivendo com HIV (PVHIV).
Em relação à prevenção de HIV/Aids e ISTs, é vale considerar que, nas cidades do interior, a disponibilidade de tecnologias é limitada. De acordo com informações do Ministério da Saúde23, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) está presente em pouco mais de 600 municípios brasileiros. Este dado revela que ainda não há disponibilização da profilaxia na grande maioria dos municípios, principalmente nas cidades do interior.
Assim como os sujeitos gays que têm conhecimento sobre a PrEP e vão até outros municípios ou às capitais para acessá-la, é comum que, nas cidades do interior, haja gays que se desloquem para outras cidades para terem acesso aos acompanhamentos de saúde sexual e tratamentos com antirretrovirais para PVHIV como forma de minimizar a exposição às vulnerabilidades e injúrias.
A violência se configura numa das principais portas de entrada de sujeitos gays aos serviços de saúde, uma vez que, quando vítimas de homofobia ou tentam (ou cometem) suicídio, são levados para hospitais. Dessa forma, a atenção terciária e a atenção especializada assumem o protagonismo dos atendimentos de sujeitos gays e, consequentemente, o acesso pela atenção primária, com foco na promoção da saúde e na prevenção, ainda se apresenta como um desafio.
As considerações relacionadas ao acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior indicam, pelo menos, três reflexões acerca do assunto a serem desenvolvidas. Em primeiro lugar, independentemente do território, na literatura, a revelação a da homossexualidade se afigura como algo polêmico. Ela tanto pode contribuir para que haja uma especificidade nas ações de saúde voltadas para a homossexualidade, quanto pode gerar discriminações, questionamentos invasivos e até mesmo violência simbólica24.
Outro ponto de reflexão, a partir do que já foi estabelecido neste trabalho, é não considerar as cidades do interior como algo homogêneo. Nesse sentido, o acesso de gays a serviços de saúde dessas cidades deve ser pensado tendo como princípio a problematização dos contextos específicos onde se situam esse acesso. Tal exercício crítico-reflexivo poderá fornecer maior concretude e viabilidade às ações de saúde voltadas a esses sujeitos.
Por último, a questão da implementação das políticas de saúde relacionadas ao assunto aqui tratado também deve ser tratada de forma crítica em cada território. Lacunas e demandas podem ser mapeadas para que tal implementação seja viabilizada. Num território, por exemplo, pode haver a necessidade de se estabelecer parcerias entre cidades para otimizar as ações. Em outro, a demanda maior talvez não seja tanto a existência da oferta de atenção a gays, mas a formação continuada de profissionais de saúde para que possam melhor atender às especificidades de gênero e sexualidade.
Entendemos que essas reflexões servem de ponto de partida para outras discussões sobre assunto, as quais poderão potencializar o estabelecimento de ações concretas na medida em que se ancorarem em pesquisas, principalmente as de natureza empírica, voltadas para as especificidades da diversidade de gênero e da sexualidade em diferentes cenários interioranos.
Considerações Finais
Diante do exposto, se fortalece a necessidade da compreensão de que o acesso de homens gays aos serviços de saúde em dinâmicas interioranas não pode ser analisado apenas a partir da existência formal de políticas públicas ou da disponibilidade institucional de serviços. Trata-se de um fenômeno atravessado por relações de poder, normas de gênero, dinâmicas territoriais e processos históricos de estigmatização que produzem efeitos concretos sobre as formas de aproximação, afastamento e silenciamento desses sujeitos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
A homossexualidade, enquanto forma de masculinidade subordinada, está a todo momento tensionada pela masculinidade hegemônica que opera na regulação dos corpos, dos afetos e das formas legítimas de existir. Esse modelo atua tanto no plano das relações sociais quanto nas práticas institucionais, contribuindo para a naturalização da invisibilidade dos homens gays nas políticas e nos serviços de saúde. Assim, as barreiras de acesso entre esses sujeitos e os serviços de saúde são resultado de processos estruturais que produzem vulnerabilidades e violências.
Em dinâmicas interioranas, esses processos são intensificados pela intensa vigilância e controle sobre os corpos, produzindo repressão e cerceamento da manifestação de subjetividades. Nesse cenário, os serviços de saúde passam a representar espaços de insegurança, possibilidade de exposição e risco, e não ambientes de cuidado, acolhimento e promoção da saúde.
Observa-se, ainda, que a centralidade histórica das ações voltadas ao HIV/Aids, embora fundamental para o enfrentamento da epidemia, contribuiu para a construção de uma representação limitada sobre a saúde dos homens gays, o que proporciona o distanciamento em relação a cuidados como os relativos à saúde mental, à prevenção de violências e aos cuidados preventivos propostos pela atenção primária em saúde.
Apesar de a PNSI-LGBT representar um marco normativo importante, seus efeitos ainda permanecem limitados, necessitando de investimentos em formação profissional, financiamento e gestão comprometida com a equidade. A descontinuidade de serviços, a fragilidade institucional e a dependência de vontades políticas demonstram que a garantia do direito à saúde da população LGBTQIA+ ainda se encontra em disputa no campo das políticas públicas.
Dessa forma, é possível sinalizar a necessidade de que os serviços de saúde avancem na incorporação efetiva da diversidade sexual e de gênero como dimensão constitutiva da atenção à saúde, especialmente nos municípios de pequeno e médio porte. Isso implica investir em práticas que rompam com a lógica biomédica, valorizando o cuidado integral e o reconhecimento dos sujeitos a partir dos atravessamentos de marcadores sociais.
Por fim, este artigo reafirma a importância de compreender o acesso à saúde como uma experiência socialmente produzida, atravessada por desigualdades, estigmas e relações de poder. Ao problematizar as (sobre)vivências de homens gays em contextos interioranos, busca-se contribuir para a ampliação do debate acadêmico e político sobre equidade, cidadania e justiça social, apontando para a urgência de políticas e práticas que garantam não apenas a presença formal nos serviços, mas o direito efetivo ao cuidado, ao reconhecimento e à dignidade.
Neste ensaio, a problematização de homens gays se limita a contextos interioranos. Entretanto, a discussão pode se ampliar com outras abordagens que situem esses homens com lentes de outros marcadores, como classe social e raça/etnia. Esse limite, ao invés de tornar incompleto o debate, nos convida a tomar a vida interiorana como exemplo de se acessar a complexidade que envolve a vida de homens gays e seu necessário enfrentamento para que a atenção à saúde desses homens seja mais integral.
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24. Gomes R, Toma TS, Silva JL, Domene FM, Silva A. A homoparentalidade como questão da saúde coletiva: uma revisão de escopo. Rev Saúde Pública 2023; 57:80.
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HOMOSEXUALITY AND HEALTH: Reflections on gay men’s access to health services in inland cities
Resumo (abstract):
This article proposes a reflection on gay men’s access to health services in small and medium sized inland cities, based on an essayistic perspective of a critical theoretical nature. Considering homosexuality as a masculinity subordinated to hegemonic masculinity, the study problematizes the social, cultural and territorial intersections that produce invisibility, silencing, and barriers to this population’s access to health services. The analysis is grounded in a literature review on masculinities, homosexuality and comprehensive health, articulated with discussions on interiority and territorial dynamics. We can observe that, although the Brazilian National Policy for Comprehensive LGBT Health represents an important advance, its implementation remains limited, especially in small and medium sized municipalities, where conservatism reinforces symbolic and institutional barriers to care. The historical centrality of HIV/AIDS focused actions is also observed, contributing to the reduction of the perceived complexity of gay men’s health demands. We conclude that access to health care is an experience marked by inequalities, stigmatization, and power relations, highlighting the need to strengthen policies and practices committed to equity and the recognition of sexual diversity.
Palavras-chave (keywords):
Access to Health Care; Homosexuality; Inland Cities; Integral Health.
HOMOSSEXUALIDADE E SAÚDE: Reflexões sobre o acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior
HOMOSEXUALITY AND HEALTH: Reflections on gay men’s access to health services in inland cities
HOMOSEXUALIDAD Y SALUD: Reflexiones sobre acceso de los hombres gays a los servicios de salud en ciudades del interior
Resumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre o acesso de homens gays aos serviços de saúde em cidades do interior, a partir de uma perspectiva ensaística de natureza teórico crítica. Considerando a homossexualidade como uma masculinidade subordinada à masculinidade hegemônica, o estudo problematiza os atravessamentos sociais, culturais e territoriais que produzem invisibilidade, silenciamentos e barreiras no acesso dessa população aos serviços de saúde. A análise fundamenta se em revisão da literatura sobre masculinidades, homossexualidade e saúde integral, articulada à discussão sobre interioridade e dinâmicas territoriais. Evidencia se que, embora a Política Nacional de Saúde Integral LGBT represente um avanço importante, sua efetivação permanece limitada, especialmente em municípios de pequeno e médio porte, onde o conservadorismo intensifica barreiras simbólicas e institucionais ao cuidado. Observa se, ainda, a centralidade histórica das ações voltadas ao HIV/Aids, que contribui para a redução das demandas de saúde dos homens gays. Conclui se que o acesso à saúde configura se como uma experiência marcada por desigualdades, estigmatização e relações de poder, apontando para a necessidade do fortalecimento de políticas e práticas comprometidas com a equidade e o reconhecimento da diversidade.
Palavras-Chave: Acesso à saúde; Homossexualidade; Cidades do interior; Saúde Integral.
Abstract
This article proposes a reflection on gay men’s access to health services in small and medium sized inland cities, based on an essayistic perspective of a critical theoretical nature. Considering homosexuality as a masculinity subordinated to hegemonic masculinity, the study problematizes the social, cultural and territorial intersections that produce invisibility, silencing, and barriers to this population’s access to health services. The analysis is grounded in a literature review on masculinities, homosexuality and comprehensive health, articulated with discussions on interiority and territorial dynamics. We can observe that, although the Brazilian National Policy for Comprehensive LGBT Health represents an important advance, its implementation remains limited, especially in small and medium sized municipalities, where conservatism reinforces symbolic and institutional barriers to care. The historical centrality of HIV/AIDS focused actions is also observed, contributing to the reduction of the perceived complexity of gay men’s health demands. We conclude that access to health care is an experience marked by inequalities, stigmatization, and power relations, highlighting the need to strengthen policies and practices committed to equity and the recognition of sexual diversity.
Keywords: Access to Health Care; Homosexuality; Inland Cities; Integral Health.
Resumen
Este artículo propone una reflexión sobre el acceso de hombres gays a los servicios de salud en ciudades del interior desde una perspectiva ensayística de carácter teórico crítico. Al considerar la homosexualidad como una masculinidad subordinada a la masculinidad hegemónica, el estudio problematiza los atravesamientos sociales, culturales y territoriales que producen invisibilidad y barreras en el acceso a los servicios de salud. El análisis se fundamenta en una revisión de la literatura sobre masculinidades, homosexualidad y salud integral, articulada con la discusión sobre interioridad y dinámicas territoriales. Se evidencia que, aunque la Política Nacional de Salud Integral LGBT en Brasil representa un avance relevante, su implementación sigue siendo limitada en municipios pequeños y medianos, donde el conservadurismo refuerza barreras simbólicas e institucionales al cuidado. Asimismo, se observa la centralidad histórica de las acciones dirigidas al VIH/Sida. Se concluye que el acceso a la salud es una experiencia marcada por desigualdades y estigmatización, lo que señala la necesidad de fortalecer políticas y prácticas orientadas a la equidad y al reconocimiento de la diversidad sexual.
Palabras clave: Acceso a la Salud; Homosexualidad; Ciudades del Interior; Salud Integral.
Introduction
Homosexuality is one of the many variations of sexual-affective orientation. It involves not only interpersonal relationships, but also a socially built identity shaped by subjectivity and how certain men perceive themselves and position themselves in the world. In other words, homosexuality encompasses much more than sexual intercourse, which in themselves do not determine whether certain men are gay.
The idea of homosexuality as an illegitimate form of masculinity – or even as its negation – is also recurrent. Such representations are associated with the lesser value assigned to ways of being that depart from the model of the universal subject, which privileges attributes such as cisgender identity, whiteness, and heterosexuality. In this context, Connell1 introduces the concept of hegemonic masculinity and links it to other masculinities that are consequently positioned as subordinate.
Subordinate masculinities are placed in a position of subjection, in a world structured without regard for the social markers that produce vulnerability. Public policies built around an idealized notion of what it means to be a man are part of this context and, consequently, exclude those who do not fit that model.
An example is the difficulty trans men and transmasculine people face in accessing health services and in securing the implementation of the gender-affirming process, which is repeatedly treated as something of lesser importance to Public Health. Likewise, gay men may also be excluded from health services because, even though the National Policy for the Comprehensive Health of LGBTI People (PNSI-LGBT) exists, representations of gay men’s health remain largely restricted to the treatment and prevention of AIDS and Sexually Transmitted Infections (STIs).
It is essential to recognize that the social reality experienced by gay men is not uniform. As social markers intersect, some individuals become even more excluded than others. In this article, life in inland settings is taken as a factor that produces differences in gay men’s subjectivity and also affects their access to health policies. This is particularly evident in the health care offered by services in inland regions of the country.
This article reflects on homosexuality in the context of inland cities and discusses how this sociocultural setting creates barriers to gay men’s access to health services. Our reflection follows an essayistic perspective, understood as a critical-exploratory exercise focused on a theme or object of meditation.2 We first discuss homosexuality as subordinate masculinity, homosexuality and comprehensive health, and inland cities, insults, and silencing. We then reflect on gay men’s access to health services in inland cities.
Homosexuality as Subordinate Masculinity
Connell et al.3 argue that the importance of hegemonic masculinity lies in its normative character; in other words, in embodying “the most honored way of being a man”, which requires all other men to position themselves in relation to it. Men are shaped from childhood onward under this “convention”. They are measured against and compared with one another, always seeking ways to distance themselves from behaviors resembling those associated with women and femininity.1,4
From this perspective, masculinity is constituted through men’s position within the structure of gender relations. This hierarchy establishes power relations in which subordinate masculinities are placed in an inferior position, leading subjects to seek proximity to the hegemonic model as a way of proving that they are real men.1,4
Gay men occupy this subordinate position within masculinity, but they are also situated in a place of privilege, for example, vis-à-vis the Lesbian, Gay, Bisexual, Travesti, Transsexual, Queer, Intersex, Agender, Asexual population, and other nonhegemonic gender identities and affective-sexual orientations (LGBTQIA+). To this end, masculinity produces displacements that generate vulnerability but also grant power to these same subjects because they are men.
Homosexuality has occupied a central place since the earliest stages of the LGBTI+ social movement, especially by sedimenting gender hierarchies within this socially minoritized group, the LGBTQIA+ population. For a long time, homosexuality was used as an umbrella term to refer to this entire group of subjects marginalized for their ways of existing.
Despite advances and changes in acronyms, gay men have historically occupied the central and leading position within this social group, making clear the privileges socially and “naturally” attributed to them through masculinity. Gay men also suffer violence and other violations, although masculinity affords them certain advantages within the context of subordinate masculinity.1
Parker5 suggests that homosexuality is forged within a complex field of domination, in which the possibilities for transformation, the freedom of movement available to individuals or groups, and the choices or options opened by different cultural systems are simultaneously formed and shaped by power relations. The author reflects on the issue of activity versus passivity in the hierarchization of homosexual subjects, pointing out that the cultural emphasis on power relations seems to be placed not only on sexual practices, but also between sexual practices and gender roles, especially in the distinction between perceived masculine activity and feminine passivity in the organization of sexual reality.5
Regarding power relations, Eribon6 contributes elements related to subjection, stating that homosexuality does not designate merely a class of individuals defined by sexual preferences, but also a set of collective and individual subjective processes, in which the homosexual subject always has a singular history linked to the community, constituted by other subjects likewise subordinated by the same inferiorization process.
What both authors show is that, although relationships between gay men are composed of two men, a gender hierarchy remains, represented both by the sexual act and the social roles each performs within that interaction. In other words, it is possible to visualize the relation of subordination established from the closer alignment of one of the two men with the model of hegemonic masculinity.
Eribon6 further points out that gay men are interpellated from childhood by the shock of insult. Jokes, gossip, accusations, and insults function as a kind of verdict imposed on the production of these bodies’ subjectivities, leading them to perceive themselves as socially maladjusted and consequently to reject their affective-sexual orientation. It is precisely through insults that a landscape of confusion and uncertainty is established over gay men from childhood onward. On the one hand, they are pushed toward a set of dogmas about how they must exist in order to be accepted. On the other hand, they are insulted and have the expressions of their subjectivities used as instruments of judgment that also signal “how one should not be.”
This is a socially violent process that reinforces the rejection of homosexuality as a possible affective-sexual orientation, and subjects attempt to deny and hide it as much as possible. Even so, as Eribon6 points out, what differentiates gay men from others is the fact that, at some point in life, they will face the question of whether or not to say that they are gay. From this perspective, these individual deal with insults and feel pressured to enunciate their homosexuality as a kind of ritual necessary to legitimize their existence in society.7,8
Because they are isolated and without support, homosexuals experience depression and suicide attempts far more frequently than other young people.9 This means that, in order to live their homosexuality fully, gay men need to build their own independence, because only then will they be able to confront insults, mature, and acquire autonomy of their own – which, paradoxically, corresponds to a characteristic of hegemonic masculinity.1
Support networks for gay men are also almost nonexistent because they have few people to rely on. As a result, their spaces of sociability are often formed within heteroflexible settings or through moving to larger cities, when displacement and migration become ways of living out their homosexuality in places far from those that have historically insulted them.6,9
Homosexuality and comprehensive health
The idea of comprehensive health became institutionalized with the implementation of the PNSI-LGBT in 2011. The policy emerged in response to the pressures, struggles, and demands of social movements, especially with regard to confronting the stigma associated with acquired immunodeficiency syndrome (AIDS). It is, therefore, important to recall the social movement that paved the way for public policies directed toward this population.
With early records marked by the Stonewall Inn uprising, it can be said that the social movement began to take shape between the late 1960s and early 1970s. Yet the history of this group reaches further back, although it has been little publicized, thereby contributing to the erasure of LGBTQIA+ memory.10
We should consider that in Brazil, the 1960s and 1970s were marked by the military dictatorship. Facchini11 represents the trajectory of the Brazilian LGBTQIA+ social movement in terms of three waves. The first was marked by the emergence and expansion of the movement during the period of political opening in the late 1970s. In 1978, the Brazilian Homosexual Movement (MHB) emerged, later called Grupo Somos – Homosexual Affirmation Group.10,11
According to Facchini11, the second wave corresponded to the first half of the 1980s and was marked by the movement’s “decline”. This period saw the AIDS epidemic associated with homosexual practices. The disease came to be called gay cancer (or the gay plague), producing a significant increase in discrimination against LGBTQIA+ subjects. This created the need for stronger organization by social movements and greater investment in dialogue and in building de-stigmatization strategies alongside the Brazilian government.
This period also witnessed the first Brazilian Meeting of Homosexuals – a milestone in organizing the movement on a national scale – and two splits within Grupo Somos, which ultimately divided it into three groups: Grupo Somos, the Lesbian-Feminist Group (GALF), and the Homossexualista Action Group, later renamed Outra Coisa.11
The end of the dictatorship and the redemocratization process consolidated by the 1988 Federal Constitution marked the third wave, which began in the 1990s and was characterized by a resurgence of activist initiatives.12 This period also saw the removal of homosexuality from the International Classification of Diseases (ICD), which represented an important step toward confronting the stigma of treating it as a disease.13
Although the milestone of depathologization occurred in 1990, the Federal Council of Psychology (CFP) prohibited sexual conversion therapies by psychology professionals only in 1999, thereby putting an end to “gay cure” practices. In the resolution, the CFP reinforced that psychologists should contribute to reflection on prejudice and to the disappearance of discrimination and stigmatization against those who presented homoerotic/homoaffective behaviors or practices.14
In 2004, the Federal Government hosted, at the Ministry of Health, a group of transsexual and travesti people for the launch of the Travesti and Respect campaign, the first initiative against transphobia and travestiphobia in the country, which gave rise to the National Day of Trans and Travesti Visibility. On January 29 of the same year, the country also implemented the Brazil Without Homophobia Program, a public policy to be implemented at the federal, state, and municipal levels to confront discrimination and homophobia.15
In 2008, a major milestone for this segment occurred: the first National LGBT Conference, which represented the consolidation of democracy through popular participation and the adoption of proposals that helped guide the implementation of public policies. At that conference, the Ministry of Health submitted the principles of the PNSI-LGBT for debate in order to legitimize them as an expression of this population’s health needs.16
The debates at the conference, together with discussions related to the AIDS epidemic, spurred the creation of the PNSI-LGBT in 2011 to strengthening care for LGBTQIA+ people in health settings, guaranteeing respect and nondiscrimination based on affective-sexual orientation and gender identity, and offering specific care for lesbians, gay men, bisexuals, trans people, and travestis.
Grounded in the principles ensured by the Federal Constitution and the Brazil Without Homophobia program, the PNSI-LGBT established a new milestone for guaranteeing citizenship and dignity for LGBTQIA+ people, taking as its central assumption the development of comprehensive health for the LGBTQIA+ population and the elimination of prejudice and institutional discrimination through strategic actions at the federal, state, and municipal levels.17
The PNSI-LGBT also strengthened the recognition of sexual and gender identity by acknowledging the greater vulnerability of the LGBTQIA+ population. The policy further emphasized the need to recognize the social conditions reflected in distress and illness and underscored that discrimination and prejudice contribute to social exclusion.16
In the case of gay men, the policy pointed to their greater vulnerability to the human immunodeficiency virus (HIV), directly associating this vulnerability with the homophobia and segregation to which they are exposed, especially the younger ones. It also noted that the impossibility of manifesting their sexual orientation within the family and in public places consigns gay men to the clandestine exercise of sexuality. It likewise highlighted the higher mortality exposure experienced by these subjects.16
The change in the political landscape directly affected this trajectory of achievements. Following the 2016 coup and, consequently, the election of an extremist government committed to religious conservatism, a period of major setbacks began, starting with the extinction of the National Council to Combat Discrimination Against LGBT People (CNCD/LGBT), followed by the revocation of the call for and the non-realization of the Fourth National Conference.18
In 2020, with the outbreak of the SARS-CoV-2 virus, popularly known as COVID-19, the lives of Brazilians were marked by high mortality rates (mainly between 2020 and 2022), until vaccines and other prevention and care strategies were put in place.19 The pandemic resulted in mandatory social isolation, which, beyond physical illness for a large part of the population, generated panic, distress, and mental illness.
Inland cities, insults, and silencing
Addressing homosexuality requires understanding it through an intersectional lens and through social markers such as race, gender, disability, generation, territory, sexual orientation/sexuality, and ethnicity.
Given the many nuances surrounding male homosexuality, this article focuses on the intersection between sexual orientation and territory. Territoriality helps us understand the differences between the ways of life of gay men in large cities and in inland cities. Inland cities are often socially represented as spaces marked by greater conservatism and social surveillance. These images not only produce territorial stigma but also shape the regulation of homosexuality and the preservation of hegemonic masculinity.
Domingues and Gontijo20 point out that the images built around the expression “inland” produce a stigma both regarding the term itself and the people and their relationships in territories regarded as inland. This situation occurs mainly through the discourses of those holding privileged positions within relations of power and domination originating in metropolises and large urban centers.
Feitosa et al.21 state that, in addition to the cultural, social, and political aspects of sexuality, dimensions of social and economic development also weigh unfavorably against inland areas and likewise affect the LGBTQIA+ population, given that the presence in state capitals of good schools, colleges, universities, theaters, concerts, and cultural performances makes a great difference.
Thus, the lives of gay men in inland cities are marked by the constant feeling of a suffocating life, one in which they cannot be who they are. The politics of masculinity operate even more forcefully there, and control over bodies is more intense. Masculinities are measured not only by other men but by the city as a whole, which places pressure on boys to prove their virility and insists that they become men.1,4
This suffocating life produces feelings of inferiority in gay men, who come to want to escape such harassment and develop the desire to migrate to capital cities in search of constituting their subjectivity. Flight to the city emerges as a strategy for evading insults and building new forms of survival.6,21
One characteristic of the suffocating life of inland areas is the lack of sociability spaces, which hinders feeling a sense of belonging to a community of equals and harms self-esteem. These situations occur because sexual and affective experiences are permeated by stigma and repression, fueled by conservative religiosities and moral standards that cast sexual life as something clandestine.21
Santos et al.22 point out that homoerotic practices in many inland cities are much more monitored, regulated, and constrained by an element familiar to most residents of such places: dynamics of sociability are crossed by strong relational proximity, which can result in greater social surveillance, reduced anonymity, and moral control, and, consequently, the near impossibility of anonymity or of the supposedly deviant conduct.
Gay men’s access to health services in inland cities
When dealing with inland cities, it is essential to recognize them as heterogeneous spaces, shaped by different histories, sociocultural arrangements, and forms of organizing social relations, rather than treating them as homogeneous territory. Given the insults, intense surveillance, and control exercised in many inland cities, it is necessary to reflect that, in addition to influencing the production of subjectivity, these interferences also affect gay individuals\' access to health services.
This is because, in these cities, health professionals are often also the relatives and neighbors of those who seek care. More than a geographic location, inlandness operates as a social marker that structures power relations, producing specific norms regarding gender, sexuality, and belonging, especially when combined with contexts of limited institutional diversity and restricted symbolic circulation.
Other factors also promote this distancing, related to representations of masculinity that preach virility and strength as synonymous with health, creating a culture in which men distance themselves from health care. From this perspective, many men believe that seeking health services may signify weakness or indicate that one is being less of a man.
These aspects are even more exacerbated when related to gay men. This occurs because gay men are also affected by the dictates of masculinity, even though they are considered subordinate to hegemonic masculinity.1 Regarding territoriality, this marker also significantly shapes access to services, as the intersection between social markers places them at even greater exposure to vulnerabilities.
One of the main factors contributing to this distancing from health services is the fear of disclosing oneself as gay in an environment populated by people one knows and lives with daily. Coming-out processes in inland cities can be highly complex and, at the same time, insults often already expose the sexual-affective orientation of many gay men. Thus, disclosing homosexuality may take the form of a public confession, which for many subjects carries the meaning of fear.6,7
From this perspective, the idea of “community”, which apparently is stronger in inland areas, while evoking protection, identification, grouping, and mutual collaboration among people from the same locality, is also a territory of violence for these subjects, where it is natural for everyone to know one another and where privacy is often not respected.21
Cisheteronormativity must also be considered, because it operates by failing to consider LGBTQIA+ subjects’ specificities within health services and continually reproduces the stigma associated with homosexuality and HIV/AIDS. Thus, in the collective imagination of inland cities, seeking care in health services still carries a suspicion that the person may be living with HIV (PLHIV).
Regarding HIV/AIDS and STI prevention, we should consider that the availability of technologies is limited in inland cities. The Ministry of Health23 informs that pre-exposure prophylaxis (PrEP) is available in just over 600 Brazilian cities. These data reveal that prophylaxis is still unavailable in most municipalities, especially inland cities.
Just as gay subjects who know about PrEP travel to other municipalities or to capital cities to access it, in inland cities, it is also common for gay men to travel to other cities to access sexual health follow-up and antiretroviral treatment for PLHIV as a way to minimize exposure to vulnerabilities and insults.
Violence is one of the main gateways through which gay men enter health services, since when they become victims of homophobia or attempt (or die by) suicide, they are taken to hospitals. Thus, tertiary and specialized care assume the leading role in service use, and access through PHC, with its focus on health promotion and prevention, remains a challenge.
The considerations related to gay men’s access to health services in inland cities point to at least three lines of reflection. First, regardless of territory, the literature portrays homosexuality disclosure as controversial. It may help create specificity in health actions directed toward homosexuality, but also generate discrimination, invasive questioning, and even symbolic violence.24
Another point for reflection, based on what has already been established in this work, is not to consider inland cities as homogeneous. In this sense, gay men’s access to health services in such cities should be conceived on the principle of problematizing the specific contexts in which that access is situated. Such a critical-reflective exercise can provide greater concreteness and feasibility to health actions aimed at these subjects.
Lastly, the implementation of health policies related to this issue must also be approached critically in each territory. Gaps and demands can be mapped so that implementation becomes feasible. In one place, for example, there may be a need to establish partnerships among cities to streamline health actions. Elsewhere, the main need may not be the existence of services for gay men as such, but continuing education for health professionals so that they can better respond to the specificities of gender and sexuality.
We understand that these reflections serve as a starting point for further discussions on the topic, which may strengthen the establishment of concrete actions insofar as they are grounded in research – especially empirical studies – directed toward the specificities of gender diversity and sexuality in different inland settings.
Final Considerations
In light of the foregoing, it becomes even clearer that gay men’s access to health services in inland cities cannot be analyzed solely on the basis of the formal existence of public policies or the institutional availability of services. It is a situation traversed by power relations, gender norms, territorial dynamics, and historical processes of stigmatization that produce concrete effects on how these subjects approach, avoid, and are silenced within the Brazilian Unified Health System (SUS).
Homosexuality, as a form of subordinate masculinity, is constantly tensioned by hegemonic masculinity, which operates in the regulation of bodies, affects, and legitimate ways of existing. This model acts at the level of social relations and within institutional practices, naturalizing gay men’s invisibility in health policies and services. Thus, the barriers separating these subjects from health services result from structural processes that produce vulnerabilities and violence.
In inland cities, these processes are exacerbated by intense surveillance and control over bodies, producing repression and restriction of subjective expression. In this landscape, health services come to represent spaces of insecurity, possible exposure, and risk, rather than environments of care, receptiveness, and health promotion.
We also observe that the historical centrality of actions focused on HIV/AIDS, although fundamental for confronting the epidemic, contributed to the construction of a limited representation of gay men’s health, which distances them from forms of care such as mental health, violence prevention, and preventive care proposed by primary health care.
Although the PNSI-LGBT represents an important normative milestone, its effects remain limited and require investment in professional education, funding, and management committed to equity. The discontinuity of services, institutional fragility, and dependence on political will demonstrate that the guarantee of the LGBTQIA+ population’s right to health remains under dispute within the field of public policies.
Thus, we can signal the need for health services to move forward in effectively incorporating sexual and gender diversity as a constitutive dimension of health care, especially in small and medium-sized municipalities. This implies investing in practices that break with biomedical logic, valuing comprehensive care, and recognizing subjects through the social markers that shape them.
Finally, this article reaffirms the importance of understanding access to health as a socially produced experience, crossed by inequalities, stigmas, and power relations. By problematizing the survival of gay men in inland contexts, this article seeks to expand the academic and political debate on equity, citizenship, and social justice, pointing to the urgency of policies and practices that guarantee not merely formal presence in services, but the effective right to care, recognition, and dignity.
In this essay, the discussion of gay men is limited to their access to health services in inland cities. However, the debate can be broadened through other approaches that situate these men through the lens of other markers, such as social class and race/ethnicity. Rather than making the debate incomplete, this limitation invites us to take inland life as an example of how to approach the complex landscape surrounding gay men and the need to confront it so that health care for them may truly be comprehensive.
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23. Brasil. Ministério da Saúde. Onde encontrar a PrEP (profilaxia pré‑exposição) [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; [s.d.] [citado 14 abr 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/prep-profilaxia-pre-exposicao/onde-encontrar-a-prep
24. Gomes R, Toma TS, Silva JL, Domene FM, Silva A. A homoparentalidade como questão da saúde coletiva: uma revisão de escopo. Rev Saúde Pública 2023; 57:80.
Como
Citar
Paiva, GFD, Gomes, R. HOMOSSEXUALIDADE E SAÚDE: Reflexões sobre o acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/abr). [Citado em 23/05/2026].
Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/homossexualidade-e-saude-reflexoes-sobre-o-acesso-de-gays-aos-servicos-de-saude-em-cidades-do-interior/19996