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0098/2026 - HOMOSSEXUALIDADE E SAÚDE: Reflexões sobre o acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior
HOMOSEXUALITY AND HEALTH: Reflections on gay men’s access to health services in inland cities

Autor:

• Gleydson Felipe Duque - Duque, GF - <gleydson.felipe@hotmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6587-8900

Coautor(es):

• Romeu Gomes - Gomes, R - <romeugo@gmail.com>
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3100-8091



Resumo:

Este artigo propõe uma reflexão sobre o acesso de homens gays aos serviços de saúde em cidades do interior, a partir de uma perspectiva ensaística de natureza teórico crítica. Considerando a homossexualidade como uma masculinidade subordinada à masculinidade hegemônica, o estudo problematiza os atravessamentos sociais, culturais e territoriais que produzem invisibilidade, silenciamentos e barreiras no acesso dessa população aos serviços de saúde. A análise fundamenta se em revisão da literatura sobre masculinidades, homossexualidade e saúde integral, articulada à discussão sobre interioridade e dinâmicas territoriais. Evidencia se que, embora a Política Nacional de Saúde Integral LGBT represente um avanço importante, sua efetivação permanece limitada, especialmente em municípios de pequeno e médio porte, onde o conservadorismo intensifica barreiras simbólicas e institucionais ao cuidado. Observa se, ainda, a centralidade histórica das ações voltadas ao HIV/Aids, que contribui para a redução das demandas de saúde dos homens gays. Conclui se que o acesso à saúde configura se como uma experiência marcada por desigualdades, estigmatização e relações de poder, apontando para a necessidade do fortalecimento de políticas e práticas comprometidas com a equidade e o reconhecimento da diversidade.

Palavras-chave:

Acesso à saúde; Homossexualidade; Cidades do interior; Saúde Integral.

Abstract:

This article proposes a reflection on gay men’s access to health services in small and medium sized inland cities, based on an essayistic perspective of a critical theoretical nature. Considering homosexuality as a masculinity subordinated to hegemonic masculinity, the study problematizes the social, cultural and territorial intersections that produce invisibility, silencing, and barriers to this population’s access to health services. The analysis is grounded in a literature review on masculinities, homosexuality and comprehensive health, articulated with discussions on interiority and territorial dynamics. We can observe that, although the Brazilian National Policy for Comprehensive LGBT Health represents an important advance, its implementation remains limited, especially in small and medium sized municipalities, where conservatism reinforces symbolic and institutional barriers to care. The historical centrality of HIV/AIDS focused actions is also observed, contributing to the reduction of the perceived complexity of gay men’s health demands. We conclude that access to health care is an experience marked by inequalities, stigmatization, and power relations, highlighting the need to strengthen policies and practices committed to equity and the recognition of sexual diversity.

Keywords:

Access to Health Care; Homosexuality; Inland Cities; Integral Health.

Conteúdo:

Introdução
A homossexualidade está relacionada a uma das diversas variabilidades de orientação afetivo-sexual, a qual envolve não somente as relações interpessoais, mas sim uma identidade socialmente construída em torno da subjetividade e da forma com a qual determinados homens se percebem e se posicionam no mundo. Isso significa dizer que o universo da homossexualidade é muito mais vasto do que as relações sexuais, que não definem, por sua vez, que determinados homens sejam gays.
Também é recorrente a ideia da homossexualidade como uma forma não legítima de masculinidade, ou ainda, como sua negação. Essas representações estão associadas à ideia de menor valor atribuída a todas as formas de existência que se afastam do modelo de sujeito universal, que enaltece aspectos como a cisgeneridade, a branquitude e a heterossexualidade. Nesse contexto, Connell1 nos apresenta a ideia de masculinidade hegemônica, vinculando a ela a ideia de outras masculinidades, que são postas, então, como subordinadas.
As masculinidades subordinadas são posicionadas num lugar de sujeição, onde o mundo é estruturado sem levar em consideração os atravessamentos de marcadores sociais que estabelecem vulnerabilidades. Nesse contexto estão as políticas públicas construídas em torno de uma idealização do que é ser homem e, consequentemente, elas promovem o afastamento daqueles que não estão ali contemplados.
Exemplo disso é a dificuldade de acesso de homens trans e pessoas transmasculinas aos serviços de saúde e da efetivação do processo transexualizador, que a todo tempo é colocado como algo de menor importância para a saúde pública. Da mesma forma, os homens gays também podem ser excluídos dos serviços de saúde, uma vez que, mesmo existindo a Política Nacional de Saúde Integral LGBTI (PNSI-LGBT), as representações em torno da saúde de homens gays ficam restritas ao tratamento e prevenção da Aids e de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
É mister considerar que a realidade social vivenciada pelos homens gays também não é algo uniforme, o que faz com que, à medida que os marcadores sociais se interseccionam, determinados indivíduos fiquem ainda mais excluídos que outros. Trazendo para a reflexão deste artigo a interioridade como um atravessamento que promove diferenças na produção da subjetividade dos homens gays, ela também influi no acesso desses sujeitos às políticas de saúde. E isso fica muito evidente na atenção oferecida à saúde nos serviços do interior do país.
Este artigo objetiva refletir sobre a homossexualidade no contexto de cidades do interior, destacando de que forma esse contexto sociocultural estabelece barreiras de acesso de homens gays aos serviços de saúde. O caminho adotado nessa reflexão baseia-se na perspectiva ensaística, entendendo-a como um exercício crítico-exploratório acerca de um tema ou objeto de meditação.2 Nesse caminho, inicialmente, discutimos aspectos relacionados aos temas: homossexualidade como masculinidade subordinada; homossexualidade e saúde integral; e cidades do interior, injurias e silenciamentos. A partir dessa discussão, procuramos refletir sobre o acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior.

Homossexualidade como Masculinidade Subordinada
Connell et al.3 afirmam que a importância da masculinidade hegemônica está no seu caráter normativo, ou seja, na incorporação da “forma mais honrada de ser homem” que exige que todos os outros se posicionem em relação a ela. É sob essa “convenção” que os homens são forjados desde a infância, sendo mensurados e comparados entre si, buscando formas para se distanciar dos comportamentos que se assemelham aos das mulheres e da feminilidade.1, 4
Nessa vertente, a masculinidade se constitui a partir da posição dos homens na estrutura das relações de gênero. Essa hierarquização estabelece relações de poder, nas quais as masculinidades subordinadas são posicionadas num lugar menor, o que faz que os sujeitos busquem se aproximar desse modelo, como forma de provar que são homens de verdade.1, 4
Os gays se localizam nesse lugar de subordinação pela masculinidade, mas também são situados em um lugar de privilégio, por exemplo, em relação à população de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queer, Intersexos, Agêneros, Assexuais e outras identidades de gênero e orientações afetivo-sexuais não hegemônicas (LGBTQIA+). Nesse sentido, a masculinidade produz deslocamentos que proporcionam vulnerabilidades, mas também concedem poder a esses mesmos sujeitos pelo fato de serem homens.
Desde os marcos iniciais da trajetória do movimento social LGBTI+, a homossexualidade tem ocupado lugar central, sobretudo sedimentando hierarquias de gênero dentro do próprio grupo social menorizado, a população LGBTQIA+. A homossexualidade diz respeito a um tipo de orientação afetivo-sexual por muito tempo utilizada para se referir a todo esse grupo de sujeitos marginalizados por suas formas de existir.
Apesar dos avanços e modificações nas siglas, os gays ocupam, historicamente, a centralidade e o protagonismo desse grupo social, onde ficam nítidos os privilégios que lhes são atribuídos socialmente e naturalmente pela masculinidade. Os gays também sofrem violências e outras violações, embora a masculinidade lhes proporcione certas vantagens no contexto de uma masculinidade subordinada.1
Parker5 sugere que a homossexualidade é forjada em um campo complexo de dominação, em que as possibilidades de transformação, a liberdade de movimento de indivíduos ou grupos, as escolhas ou opções abertas por diferentes sistemas culturais são simultaneamente formadas e moldadas por relações de poder. O autor reflete sobre a questão da atividade versus passividade na hierarquização dos sujeitos homossexuais, apontando que a ênfase cultural nas relações de poder parece ser colocada não apenas nas práticas sexuais, mas também entre as práticas sexuais e papéis de gênero, principalmente, na distinção da atividade masculina percebida e da passividade feminina na organização da realidade sexual.5
Sobre relações de poder, que Eribon6 contribui com elementos relativos à sujeição, dizendo que a homossexualidade não designa apenas uma classe de indivíduos por preferências sexuais, mas também por um conjunto de processos de sujeição coletivos e individuais, em que o sujeito homossexual sempre tem uma história singular relacionada com o coletivo, constituído por outros sujeitos, também sujeitados pelo mesmo processo de inferiorização.
O que ambos os autores apresentam sinaliza que, muito embora os relacionamentos entre gays sejam compostos por dois homens, há uma hierarquia de gênero, representada tanto pelo ato sexual quanto pelos papéis sociais desempenhados por cada um dentro dessa interação. Significa dizer que é possível visualizar a relação de subordinação estabelecida a partir da maior aproximação de um dos dois em relação ao modelo de masculinidade hegemônica.
Eribon6 aponta ainda que os gays são interpelados, desde pequenos, pelo choque de injúria. São piadas, fofocas, acusações e insultos que funcionam como uma espécie de veredito ditado sobre a produção de subjetividades desses corpos, que passam, entretanto, a se perceberem como desajustados na sociedade e, consequentemente, a rejeitar sua orientação afetivo-sexual. Justamente a partir das injúrias é que se estabelece um cenário de confusão e incertezas que paira sobre os gays desde a infância. Por um lado, são empurrados para um conjunto de dogmas sobre como devem existir para serem aceitos. Por outro lado, são insultados e têm as expressões de suas subjetividades utilizadas como instrumento de julgamento que também sinalizam sobre “como não se deve ser”.
Trata-se de um processo socialmente violento que corrobora para a rejeição da homossexualidade como uma orientação afetivo-sexual possível, e os sujeitos tentam negá-la e escondê-la o máximo possível. Ainda assim, conforme aponta Eribon6, o que diferencia os gays das outras pessoas é o fato de que, em algum momento da vida, eles se depararão com a questão de dizer ou não dizer que são gays. Nessa perspectiva, além de lidar com as injúrias, essas pessoas sentem-se pressionadas a enunciar sua homossexualidade como uma espécie de ritual necessário para a legitimação de sua existência na sociedade.7, 8
Por se encontrarem isolados e sem apoio, os homossexuais experimentam, com muito mais frequência que outros jovens, depressões e tentativas de suicídio.9 Significa dizer que os gays, para conseguirem viver plenamente sua homossexualidade, precisam construir sua própria independência, pois assim terão condições de confrontar as injúrias, amadurecer e adquirir sua própria autonomia. O que, contraditoriamente, corresponde a uma característica da masculinidade hegemônica.1
As redes de apoio aos gays também são quase inexistentes porque estes têm pouco com quem contar. Assim, seus espaços de sociabilidade vão se constituindo dentro de cenários heteroflexíveis, ou ainda, a partir da fuga para a cidade, quando há deslocamentos e migrações, para que possam vivenciar sua homossexualidade em cenários distantes dos que sempre os injuriaram.6, 9
Homossexualidade e Saúde Integral
A ideia de Saúde Integral ficou instituída com a implementação da PNSI-LGBT em 2011. A política surgiu em resposta às pressões, lutas e reivindicações dos movimentos sociais, principalmente no que diz respeito ao enfrentamento do estigma da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids). Por isso, urge lembrar do movimento social que pavimentou os caminhos para as políticas públicas voltadas para esse público.
Com registros iniciais marcados pela Revolta de Stonewall Inn, é possível dizer que o movimento social começou a se estruturar entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970. Mas a história desse grupo vem de tempos anteriores, o que é pouco publicizado e acaba por promover o apagamento da memória LGBTQIA+.10
Cabe considerar que, no Brasil, esse período, entre as décadas de 1960 e 1970, se encontrou atravessado pela ditadura militar. Facchini11 representa a trajetória do movimento social LGBTQIA+ brasileiro a partir de três ondas. A primeira marcada pelo surgimento e pela expansão do movimento durante o período de abertura política, no fim da década de 1970. Foi em 1978 que surgiu o Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), mais tarde denominado Grupo Somos – Grupo de Afirmação Homossexual.10,11
A segunda onda, de acordo com Facchini11, correspondeu à primeira metade dos anos 1980, marcada pelo “declínio” do movimento. Nesse período vivenciou-se a epidemia da Aids associada a práticas da homossexualidade. A doença passou a ser chamada de câncer gay (ou peste gay), provocando significativo aumento na discriminação contra sujeitos LGBTQIA+. Houve então a necessidade de articulação mais expressiva dos movimentos sociais e investimento no diálogo e na construção de estratégias de desestigmatização junto ao governo brasileiro.
Também esse período foi palco do primeiro Encontro Brasileiro de Homossexuais – um marco da organização do movimento em escala nacional – e de dois “rachas” no Grupo Somos, o que acabou por dividi-lo em três: o Grupo Somos, o Grupo (de Ação) Lésbico-Feminista (Galf), o Grupo de Ação Homossexualista, rebatizado de Outra Coisa.11
O fim da ditadura e o processo de redemocratização consolidado pela Constituição Federal de 1988 foram o marco da terceira onda, que se iniciou na década de 1990 e ficou caracterizada pelo reflorescimento das iniciativas militantes.12 Também, à época, ocorreu a retirada da homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), o que representou um caminho para o enfrentamento ao estigma de tratá-la como doença.13
Apesar de o marco da despatologização ter ocorrido em 1990, foi em 1999 que o Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou a proibição de terapias de conversão sexual por parte dos profissionais da área, colocando fim às práticas de “cura gay”. Na resolução, o CFP reforçou que os psicólogos deveriam contribuir para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentassem comportamentos ou práticas homoeróticas/homoafetivas.14
Em 2004, o Governo Federal recebeu, no Ministério da Saúde, um grupo de pessoas transexuais e travestis para o lançamento da campanha Travesti e Respeito, a primeira iniciativa contra transfobia e travestifobia no país, dando origem ao Dia Nacional de Visibilidade Trans e Travesti. Em 29 de janeiro do mesmo ano, o país passou a implementar o Programa Brasil Sem Homofobia, uma política pública a ser implementada também por estados e municípios no enfrentamento à discriminação e à homofobia.15
Em 2008, ocorreu o grande marco para esse segmento: a realização da primeira Conferência Nacional LGBT, caracterizando a consolidação da democracia pela participação popular e adoção de propostas que direcionaram a implementação de políticas públicas. Nessa conferência, o Ministério da Saúde submeteu ao debate os princípios da PNSI-LGBT, na intenção de legitimá-los como expressão das necessidades de saúde do segmento aqui mencionados.16
Os debates da conferência acrescidos das discussões relativas à epidemia da Aids, impulsionaram a criação da PNSI-LGBT, em 2011, com o propósito de fortalecer o atendimento a pessoas LGBTQIA+ nos espaços de saúde, garantir o respeito e a não discriminação por orientação afetivo-sexual e identidade de gênero, bem como a oferta de cuidados específicos para lésbicas, gays, bissexuais, pessoas trans e travestis.
Embasada nos princípios assegurados na Constituição Federal e no programa Brasil Sem Homofobia, a PNSI-LGBT estabeleceu um novo marco para a garantia da cidadania e da dignidade das pessoas LGBTQIA+, assumindo como pressuposto central desenvolver a saúde integral da população LGBTQIA+ e eliminar o preconceito e discriminação institucional por meio de ações estratégicas para os níveis federal, estadual e municipal.17
A PNSI-LGBT também fortaleceu a inserção da orientação afetivo-sexual e da identidade de gênero considerando a maior a vulnerabilidade da população LGBTQIA+. A política ainda sinalizou a necessidade do reconhecimento das condições sociais evidentes no sofrimento e de doença e ressaltou que a discriminação e o preconceito contribuem para a exclusão social.16
No caso dos gays, a política apontou a maior vulnerabilidade ao Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), associando-a diretamente à homofobia e segregação à qual estão expostos, especialmente os mais jovens. Sinalizou que a impossibilidade de manifestar sua orientação sexual no interior da família e nos locais públicos define para os gays o destino do exercício clandestino da sexualidade. Também evidenciou a maior exposição à mortalidade vivenciada por esses sujeitos.16
A mudança de cenário político interferiu diretamente no processo de conquistas. A partir do Golpe de 2016 e, consequentemente, da eleição de um governo extremista, que tinha por defesa o conservadorismo religioso, iniciou-se um período de grandes retrocessos, iniciado pela extinção do Conselho Nacional de Combate à Discriminação contra LGBT (CNCD/LGBT), seguido pela revogação da convocação e não realização da quarta conferência nacional.18
Em 2020, com a ocorrência da pandemia do vírus SARS-CoV2, conhecido popularmente por Covid-19, a vida dos brasileiros foi marcada por altos índices de mortalidade (entre 2020 e 2022, principalmente), até que se instituíram vacinas e outras estratégias de prevenção e cuidado.19 A pandemia resultou na obrigatoriedade do isolamento social que, além do adoecimento físico, para grande parte da população, gerou pânico, sofrimento e adoecimento mental.

Cidades do interior, Injúrias e Silenciamentos
Tratar da homossexualidade remete à necessidade de compreendê-la por lentes interseccionais, e de marcadores sociais de raça, gênero, deficiência, geração, território, orientação sexual/sexualidade, etnia.
Frente às diversas nuances que envolvem a homossexualidade masculina, elegeu-se como foco de análise o atravessamento entre orientação sexual e território. A territorialidade permite compreender as diferenças entre os modos de vida de gays em grandes cidades e em cidades do interior. As cidades do interior costumam ser socialmente representadas como espaços marcados por maior conservadorismo e vigilância social, imagens que não apenas produzem estigmas territoriais e também influenciam na regulação dos corpos e na preservação da masculinidade hegemônica.
Domingues e Gontijo20 apontam que as imagens construídas acerca da expressão “interior” produzem um estigma tanto em relação a essa expressão, quanto no que se refere às pessoas e às suas relações em territórios vistos como interioranos. Isso ocorre, principalmente, por meio dos discursos daqueles que estão em posições privilegiadas nas relações de poder e dominação oriundos das metrópoles e grandes centros urbanos.
Feitosa et al.21 afirmam que, além dos aspectos culturais, sociais e políticos da sexualidade, as dimensões de desenvolvimento social e econômico também pesam desfavoravelmente contra o interior e também afetam a população LGBTQIA+, tendo em vista que a presença nas capitais de boas escolas, faculdades, universidades, teatros, shows, apresentações culturais faz muita diferença.
Dessa forma, as existências gays em cidades do interior são marcadas pela constante sensação de uma vida sufocante, onde não se pode ser quem se é. As políticas de masculinidade operam de forma ainda mais contundente e o controle dos corpos é mais intenso. Assim, as masculinidades são aferidas não somente pelos outros homens, como por toda a cidade, depositando uma cobrança sobre os meninos, em torno de provarem sua virilidade e a insistência em se tornarem homens.1, 4
Essa vida sufocante provoca sentimentos de inferioridade nos gays, que passam a querer fugir de tamanho assédio e nutrir o desejo de migrar para as capitais em busca de constituir sua subjetividade. A fuga para a cidade surge como estratégia de driblar as injúrias e construir novas formas de sobrevivência.21, 6
Uma característica da vida sufocante do interior diz respeito a ausência de espaços de sociabilidade, criando a dificuldade de sentir-se pertencido a uma comunidade de iguais, prejudicando a autoestima. Essas situações ocorrem porque as experiências sexuais e afetivas são permeadas por estigmas e repressão, alimentadas por religiosidades conservadoras e por padrões morais que apontam a vida sexual como algo clandestino.21
Santos et al.22 apontam que as práticas homoeróticas, em muitas cidades do interior, são muito mais monitoradas, reguladas e cerceadas por um elemento que a maioria dos moradores desses lugares conhece: as dinâmicas de sociabilidade são atravessadas por forte proximidade relacional, o que pode resultar em maior vigilância social, redução do anonimato e controle moral e, consequentemente, a quase impossibilidade do anonimato ou de condutas consideradas desviantes.

Acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior
Ao tratar das cidades do interior, é fundamental reconhecê-las como espaços heterogêneos, atravessados por diferentes histórias, arranjos socioculturais e formas de organização das relações sociais, evitando compreendê-las como um território homogêneo. Frente às injúrias, à intensa vigilância e ao controle exercidos no contexto de muitas cidades do interior, é mister refletir que, para além de influenciar na produção de subjetividade, esses atravessamentos também interferem no acesso dos sujeitos gays aos serviços de saúde.
Isso porque, nessas cidades, é comum que os profissionais de saúde também sejam os familiares e vizinhos de quem acessa os serviços. A interioridade, mais do que uma localização geográfica, opera como marcador social que estrutura relações de poder, produzindo normativas específicas sobre gênero, sexualidade e pertencimento, especialmente quando articulada a contextos de baixa diversidade institucional e restrita circulação simbólica.
Além disso, também há outros fatores que promovem esses distanciamentos, relacionados às representações sobre a masculinidade que pregam a virilidade e a força como sinônimo de saúde, fazendo com que haja uma cultura de distanciamento de homens aos cuidados com a saúde. Sob essa perspectiva, muitos homens acreditam que procurar os serviços de saúde pode significar demonstração de fraqueza ou ainda indicar que está sendo menos homem.
Esses aspectos, quando relacionados aos homens gays, são ainda mais exacerbados. Isso acontece porque os gays também são afetados pelos ditames da masculinidade, ainda que sejam considerados subordinados à masculinidade hegemônica.1 Em relação à territorialidade, esse marcador também atravessa, significativamente, esse acesso aos serviços, onde essa intersecção entre os marcadores sociais os coloca ainda mais expostos a vulnerabilidades.
Um dos principais pontos que corroboram para esse afastamento dos serviços de saúde é o medo de revelar-se gay num ambiente em que há pessoas conhecidas e com quem convivem diariamente. Os processos de coming-out (em português, “sair do armário”) em cidades do interior podem ocorrer de formas muito complexas e, ao mesmo tempo, as injúrias já denunciam orientações afetivo-sexuais de muitos gays. Assim a revelação da homossexualidade pode assumir a forma de uma confissão pública, que, para muitos sujeitos, pode ter representação de medo.6,7
Nessa vertente, essa ideia de “comunidade”, que aparentemente é mais fortalecida nos interiores, embora se apresente como um conceito que remete à ideia de proteção, de identificação, de agrupamento, de colaboração mútua entre pares de uma mesma localidade, é também território de violência contra esses sujeitos, onde é natural que as pessoas se conheçam e muitas vezes não haja respeito à privacidade.21
Há ainda que se considerar a cisheteronormatividade que opera de modo a não considerar as especificidades dos sujeitos LGBTQIA+ nos serviços de saúde e que, a todo tempo remontam ao estigma da associação entre a homossexualidade e o HIV/Aids. Assim, no imaginário coletivo das cidades do interior, ao buscar atendimentos nos serviços de saúde, ainda há uma ideia de suspeita ou de que possa ser uma pessoa vivendo com HIV (PVHIV).
Em relação à prevenção de HIV/Aids e ISTs, é vale considerar que, nas cidades do interior, a disponibilidade de tecnologias é limitada. De acordo com informações do Ministério da Saúde23, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) está presente em pouco mais de 600 municípios brasileiros. Este dado revela que ainda não há disponibilização da profilaxia na grande maioria dos municípios, principalmente nas cidades do interior.
Assim como os sujeitos gays que têm conhecimento sobre a PrEP e vão até outros municípios ou às capitais para acessá-la, é comum que, nas cidades do interior, haja gays que se desloquem para outras cidades para terem acesso aos acompanhamentos de saúde sexual e tratamentos com antirretrovirais para PVHIV como forma de minimizar a exposição às vulnerabilidades e injúrias.
A violência se configura numa das principais portas de entrada de sujeitos gays aos serviços de saúde, uma vez que, quando vítimas de homofobia ou tentam (ou cometem) suicídio, são levados para hospitais. Dessa forma, a atenção terciária e a atenção especializada assumem o protagonismo dos atendimentos de sujeitos gays e, consequentemente, o acesso pela atenção primária, com foco na promoção da saúde e na prevenção, ainda se apresenta como um desafio.
As considerações relacionadas ao acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior indicam, pelo menos, três reflexões acerca do assunto a serem desenvolvidas. Em primeiro lugar, independentemente do território, na literatura, a revelação a da homossexualidade se afigura como algo polêmico. Ela tanto pode contribuir para que haja uma especificidade nas ações de saúde voltadas para a homossexualidade, quanto pode gerar discriminações, questionamentos invasivos e até mesmo violência simbólica24.
Outro ponto de reflexão, a partir do que já foi estabelecido neste trabalho, é não considerar as cidades do interior como algo homogêneo. Nesse sentido, o acesso de gays a serviços de saúde dessas cidades deve ser pensado tendo como princípio a problematização dos contextos específicos onde se situam esse acesso. Tal exercício crítico-reflexivo poderá fornecer maior concretude e viabilidade às ações de saúde voltadas a esses sujeitos.
Por último, a questão da implementação das políticas de saúde relacionadas ao assunto aqui tratado também deve ser tratada de forma crítica em cada território. Lacunas e demandas podem ser mapeadas para que tal implementação seja viabilizada. Num território, por exemplo, pode haver a necessidade de se estabelecer parcerias entre cidades para otimizar as ações. Em outro, a demanda maior talvez não seja tanto a existência da oferta de atenção a gays, mas a formação continuada de profissionais de saúde para que possam melhor atender às especificidades de gênero e sexualidade.
Entendemos que essas reflexões servem de ponto de partida para outras discussões sobre assunto, as quais poderão potencializar o estabelecimento de ações concretas na medida em que se ancorarem em pesquisas, principalmente as de natureza empírica, voltadas para as especificidades da diversidade de gênero e da sexualidade em diferentes cenários interioranos.

Considerações Finais
Diante do exposto, se fortalece a necessidade da compreensão de que o acesso de homens gays aos serviços de saúde em dinâmicas interioranas não pode ser analisado apenas a partir da existência formal de políticas públicas ou da disponibilidade institucional de serviços. Trata-se de um fenômeno atravessado por relações de poder, normas de gênero, dinâmicas territoriais e processos históricos de estigmatização que produzem efeitos concretos sobre as formas de aproximação, afastamento e silenciamento desses sujeitos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
A homossexualidade, enquanto forma de masculinidade subordinada, está a todo momento tensionada pela masculinidade hegemônica que opera na regulação dos corpos, dos afetos e das formas legítimas de existir. Esse modelo atua tanto no plano das relações sociais quanto nas práticas institucionais, contribuindo para a naturalização da invisibilidade dos homens gays nas políticas e nos serviços de saúde. Assim, as barreiras de acesso entre esses sujeitos e os serviços de saúde são resultado de processos estruturais que produzem vulnerabilidades e violências.
Em dinâmicas interioranas, esses processos são intensificados pela intensa vigilância e controle sobre os corpos, produzindo repressão e cerceamento da manifestação de subjetividades. Nesse cenário, os serviços de saúde passam a representar espaços de insegurança, possibilidade de exposição e risco, e não ambientes de cuidado, acolhimento e promoção da saúde.
Observa-se, ainda, que a centralidade histórica das ações voltadas ao HIV/Aids, embora fundamental para o enfrentamento da epidemia, contribuiu para a construção de uma representação limitada sobre a saúde dos homens gays, o que proporciona o distanciamento em relação a cuidados como os relativos à saúde mental, à prevenção de violências e aos cuidados preventivos propostos pela atenção primária em saúde.
Apesar de a PNSI-LGBT representar um marco normativo importante, seus efeitos ainda permanecem limitados, necessitando de investimentos em formação profissional, financiamento e gestão comprometida com a equidade. A descontinuidade de serviços, a fragilidade institucional e a dependência de vontades políticas demonstram que a garantia do direito à saúde da população LGBTQIA+ ainda se encontra em disputa no campo das políticas públicas.
Dessa forma, é possível sinalizar a necessidade de que os serviços de saúde avancem na incorporação efetiva da diversidade sexual e de gênero como dimensão constitutiva da atenção à saúde, especialmente nos municípios de pequeno e médio porte. Isso implica investir em práticas que rompam com a lógica biomédica, valorizando o cuidado integral e o reconhecimento dos sujeitos a partir dos atravessamentos de marcadores sociais.
Por fim, este artigo reafirma a importância de compreender o acesso à saúde como uma experiência socialmente produzida, atravessada por desigualdades, estigmas e relações de poder. Ao problematizar as (sobre)vivências de homens gays em contextos interioranos, busca-se contribuir para a ampliação do debate acadêmico e político sobre equidade, cidadania e justiça social, apontando para a urgência de políticas e práticas que garantam não apenas a presença formal nos serviços, mas o direito efetivo ao cuidado, ao reconhecimento e à dignidade.
Neste ensaio, a problematização de homens gays se limita a contextos interioranos. Entretanto, a discussão pode se ampliar com outras abordagens que situem esses homens com lentes de outros marcadores, como classe social e raça/etnia. Esse limite, ao invés de tornar incompleto o debate, nos convida a tomar a vida interiorana como exemplo de se acessar a complexidade que envolve a vida de homens gays e seu necessário enfrentamento para que a atenção à saúde desses homens seja mais integral.

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Duque, GF, Gomes, R. HOMOSSEXUALIDADE E SAÚDE: Reflexões sobre o acesso de gays aos serviços de saúde em cidades do interior. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2026/abr). [Citado em 27/04/2026]. Está disponível em: http://cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/homossexualidade-e-saude-reflexoes-sobre-o-acesso-de-gays-aos-servicos-de-saude-em-cidades-do-interior/19996?id=19996

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